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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Aumenta perseguição aos "não-religiosos" no mundo



Caso você não tenha percebido isto no ex-país em que habita, segundo informa a BBC Brasil:

Discriminação severa contra pessoas não religiosas está crescendo ao redor do mundo, diz ONG

Valeria Perasso

No Paquistão, em abril passado, um universitário acusado de blasfêmia contra o Islã teria sido espancado até a morte, segundo relatos, por uma multidão de colegas no campus.

Algumas semanas antes, nas Maldivas, um blogueiro conhecido por apoiar o secularismo e fazer graça com a religião foi encontrado morto, com sinais de apunhalamento, em seu apartamento.

E no Sudão, o ativista pelos direitos humanos Mohamed al-Dosogy foi preso depois de solicitar oficialmente que, na sua carteira de identidade, o registro de sua religião constasse como "ateu".

Estes são apenas três exemplos daquilo que a União Internacional Humanista e Ética (IHEU, na sigla em inglês) diz ser uma crescente tendência global de discriminação, pressão e ataques contra ateus e céticos quanto à religião em todo o mundo.

No seu relatório "Freedom of Thought" ("Liberdade de Pensamento") de 2017, a organização registrou casos de "discriminação grave ou severa" contra pessoas não religiosas em 85 países ao redor do mundo.

E em sete destes lugares - Índia, Malásia, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Sudão e Arábia Saudita - os não religiosos foram "ativamente perseguidos", segundo a organização.

A IHEU - um guarda-chuva para mais de 120 grupos humanistas, ateus e seculares de mais de 40 países - apresentou suas constatações ao Parlamento Europeu.

"[Esta] tendência preocupante vai contra um direito humano básico, que simplesmente não está sendo garantido pelos governos", afirmou à BBC o diretor-geral da IHEU, Gary McLelland.

O direito à liberdade de pensamento, religião ou crença está protegido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 - que inclui a liberdade de mudar de religião e expressar a fé, ou a falta dela.

"Muitos países estão fechando os olhos para esta norma internacional", acrescentou McLelland.





Violações 'graves'


Dos 85 países listados como perigosos para aqueles que não se identificam com as religiões, 30 estão na pior situação no ranking, com "violações graves" relatadas nos últimos 12 meses.

Esses incidentes variam de execuções extrajudiciais à pressão apoiada pelo governo, incluindo também o desaparecimento de supostos blasfemos.

Em 12 desses países, a apostasia - termo que denomina a troca ou o abandono de religião - é punível com a morte, afirma o relatório.

No nível seguinte, há 55 países onde a discriminação é considerada "severa".

Isto pode ocorrer com o controle religioso por meio de leis e tribunais, doutrinação fundamentalista em escolas públicas ou da prisão por críticas a certas crenças - embora vários países, como a Alemanha ou a Nova Zelândia, pertençam a essa categoria por manter ativas leis arcaicas para a blasfêmia e delitos afins, ainda que raramente as apliquem.

"Muitos dos países com as manifestações mais graves de discriminação têm maioria muçulmana (ou regiões de maioria islâmicas dentro de nações multirreligiosas, como o norte da Nigéria)", diz McLelland.

"A discriminação tem maior probabilidade de acontecer onde as regras têm motivação religiosa e a liberdade de expressão é muito restrita. Isto é um reflexo da situação, e não um julgamento por parte do relatório".

A situação do Brasil

O relatório recém-divulgado especifica a situação em apenas alguns países - não é o caso do Brasil. Mas, em 2016, o Brasil foi descrito no levantamento como um país "soberano e secular".

"Além de ter a maior população católica do mundo (130 milhões de pessoas, ou 64,6% da população), o Brasil também aparece como um dos dez países mais religiosos do mundo (...) O protestantismo é a segunda maior crença religiosa, cujos adeptos representam aproximadamente 22% da população.

Há também uma comunidade não religiosa relativamente grande que compõe cerca de 8% da população, com o pequeno restante dividido entre o espiritismo, o islamismo e o judaísmo", diz o site do relatório.

Entre as quatro grandes áreas avaliadas (Justiça e governo, educação, interações sociais, e liberdade de expressão), o Brasil aparece com a melhor classificação ("Livre e igualitário") no item "interações sociais".

O relatório destaca que, ainda que a Constituição garanta que o ensino religioso nas escolas seja opcional, quase metade das escolas fazem deste ensino obrigatório.

Na categoria de "discriminação sistêmica", recaem duas áreas avaliadas: Justiça e governo e liberdade de expressão. No primeiro caso, o relatório aponta que, embora a lei brasileira garanta a liberdade religiosa e o Estado laico, há registros de repressão policial desproporcional a ativistas dos direitos humanos e uma forte influência de setores religiosos na política.

Já no que diz respeito à liberdade de expressão, o relatório aponta que o Código Penal brasileiro criminaliza a blasfêmia, mas, diz o documento, "embora esta lei esteja nos livros, na prática, ela não parece ter sido usada para proibir ou obstruir críticas às religiões".

Em 2012, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu uma liminar determinando que o YouTube retirasse do ar o vídeo que promoveria islamofobia e gerou uma série de protestos e até mortes ao redor do mundo.

Um problema ocidental também

No entanto, casos de discriminação contra pessoas não religiosas também foram registrados em países europeus e nos Estados Unidos.

Este é o caso em lugares onde o nacionalismo conservador e o populismo estão em ascensão.

"Nos Estados Unidos, a discriminação e a aversão às pessoas não religiosas se tornaram comuns", diz Lois Lee, pesquisador em estudos religiosos da Universidade de Kent.

"Em pesquisas recentes, os ateus aparecem entre os grupos que geram mais desconfiança".

Em áreas com forte presença religiosa e caráter social conservador no sudeste dos Estados Unidos - o chamado "Cinturão da Bíblia" - a hostilidade contra indivíduos não religiosos aumentou, de acordo com relatos locais.

Em um exemplo recente, uma escola no Kentucky foi investigada após queixas de que alguns professores estariam perseguindo estudantes não-cristãos.

Lee diz que o que está acontecendo pode ser explicado pelo fato de que um número crescente de pessoas agora define sua identidade por meio de suas crenças religiosas - e isso inclui o ateísmo.

"A política de identidades mudou parcialmente de nações e etnias para a religião", disse à BBC.

"Esta é agora uma questão mais sensível e, portanto, um alvo mais frequente para a discriminação".

Ateísmo em expansão

É claro que a perseguição a ateus ao redor do mundo não é um fenômeno novo.

Em 2014, o blogueiro Mohamed Cheikh Ould M'khaitir recebou uma sentença de morte na Mauritânia por supostamente cometer apostasia. Sua sentença foi recentemente reduzida para dois anos de prisão.

Na Arábia Saudita, outro blogueiro, Raif Badawi, está preso desde 2012 por "insultar o Islã por meio de canais eletrônicos", apesar de existir uma mobilização internacional por sua libertação.

Um estudante de direito de Bangladesh que expressou seu ponto de vista secular na internet morreu após um ataque perpetrado por extremistas religiosos em 2013.

A lista continua.

No entanto, para muitos analistas, a razão para o aumento no registro destes casos é que, embora a religiosidade esteja aumentando no mundo, também é crescente o número de pessoas que não se identificam com crença alguma.

O centro de pesquisas Pew Research Center estima que o número absoluto de pessoas sem filiação religiosa (ateus, agnósticos e aqueles que não se identificam com nenhuma religião em particular) aumentará em todo o mundo para 1,2 bilhão em 2060, ante 1,17 bilhão hoje - embora o crescimento previsto não seja tão rápido como o de fiéis de algumas religiões.

"Os não religiosos são hoje a terceira maior população por categoria de crença no mundo", diz Lee. "E nem sequer temos um vocabulário específico para nomeá-los, apenas uma identidade negativa".

"Em alguns países, os governos frequentemente vêem os ateístas como pequenos grupos, mas é precisamente por conta das ameaças que eles podem sofrer que eles não se revelam como ateus. Então, há também um problema de invisibilidade", acrescenta McLelland.

Críticos ao relatório argumentam que a metodologia pode deixar a desejar ao tentar retratar uma realidade precisa.

Por exemplo, um país secular com uma divisão clara entre Igreja e Estado, e com leis que proíbem explicitamente a discriminação baseada na religião, pode ter um desempenho ruim por conta de apenas uma subcategoria (se o Estado patrocina escolas religiosas ou dá isenções fiscais às igrejas).

"As realidades em todo o mundo e o grau de infração variam enormemente, é difícil fazer uma comparação", diz Lee.

Em todo caso, os não religiosos tendem a não estar sozinhos nos países onde as violações graves são gritantes - os crimes contra ateus não são "eventos desconectados, mas parte de um padrão".

"Como podemos ver no relatório deste ano, os direitos humanos tendem a ficar em pé ou a cair juntos", escreveu o presidente da IHEU, Andrew Corpson.

"Quando os não religiosos estão sendo perseguidos, geralmente isto é um indicativo de que as minorias religiosas (ou outras minorias, como as de gênero) também são. Não é uma coincidência".



sábado, 12 de agosto de 2017

A religiosidade brasileira e sua "fé de conveniência"

Interessante análise do jornalista britânico Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil (e talvez o mais brasileiro dos ingleses), sobre a religiosidade nacional (de lá e - principalmente - de cá), não por acaso publicada na BBC Brasil, como era de se imaginar:

Tim Vickery: A religiosidade brasileira muitas vezes é fé de conveniência

Estou sozinho agora na casa da minha mãe, nos arredores de Londres, porque ela foi à igreja - ela faz parte de uma minoria da sociedade britânica, de talvez 5%, que ainda tem o hábito de ir ao culto.

E essa fatia minúscula não é de fanáticos. Uma vez, numa visita anterior, eu (que não tenho nenhum sentimento religioso) comentei que não consigo ver a ligação entre a morte de Jesus Cristo e nossos pecados.

"Estranho", respondeu a minha mãe. "O meu pastor falou exatamente a mesma coisa na semana passada."

Trata-se de uma doutrina fundamental de qualquer religião cristã, mas até um empregado da Igreja Anglicana não acredita nele. A igreja dele tem pouco a ver com religião, mais a ver com uma missão vaga de ser "um bom sujeito".

Tudo isso, claro, nada mais é do que uma consequência do recuo da fé cega a partir do Iluminismo, no século 16, e a descoberta de que a Terra gira ao redor do Sol. Por que acreditar naqueles que afirmavam o contrário?

Uma pesquisa recente aponta que somente 28% da população britânica acredita em Deus ou em qualquer poder espiritual, ante 38% totalmente sem tal fé. Me lembra bem a minha época na escola, quando uma sessão de zombaria da professora sempre começava com a pergunta "Senhora, você acredita em Deus?"

Como a situação é diferente nas Américas! Nos Estados Unidos, por volta de 60% da população vai para a igreja. E, no Brasil, não acreditar em Deus é inconcebível para muitos.

As minhas enteadas ficavam tão fascinadas com o assunto que cada vez que alguém me visitava da Inglaterra isso sempre era a primeira pergunta que tinha que traduzir.

Uma vez a resposta a respeito de religiosidade foi "Não, não tenho nenhuma tolerância para superstições medievais", frase que foi um desafio e tanto para suas mentes então pré-adolescentes.

Mas - e estou ciente de estar entrando em uma generalização vasta e vulgar - se a crença na existência de Deus é quase total no Brasil, a fé, em muitos casos, parece bastante rasa.

Quando vejo políticos corruptos dando benção para dinheiro ilegal, ou jogadores de futebol louvando depois de cavar um pênalti, fico com a sensação de que a religiosidade brasileira, com frequência, trata-se de uma fé de conveniência.

É menos um código que determina como viver a vida e mais um recurso que se pega ou se larga conforme as circunstâncias.

Pode ser que seja uma extensão da tara brasileira por parentesco fictício. A figura do pai ausente é muito importante numa terra de padrinhos, onde o personagem político de mais destaque na formação do país, Getúlio Vargas, cultivava um tipo de fascismo benigno do tio universal.

É bastante factível que vários brasileiros imaginem Deus como uma espécie de Vargas celestial, bonzinho e indulgente.

Vargas também desempenhou um papel importante no desenvolvimento da religião no Brasil, e não me refiro à aproximação com a Igreja Católica que leva à estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Muito mais importante é a urbanização do país que ele promoveu.

O interessante aqui é que, no exemplo inglês, o crescimento das cidades foi um fator significativo no declínio da religião.

No caso da minha mãe, por exemplo, ela é uma mulher do interior que cresceu com o hábito de ir à igreja e nunca o perdeu. Mas não é de hoje que as igrejas nas cidades vivem vazias - na verdade, nunca encheram. A mudança para uma vida urbana acabou cortando a prática de ir à igreja.

No Brasil, entretanto, o que mais se vê na periferia das cidades são igrejas - só que nesse caso a Igreja Católica tradicional perdeu, mas as evangélicas novas ganharam espaço.

E seu público, em grande parte, são os migrantes internos, que trocaram a vida do campo pelas oportunidades da cidade grande - e também as suas complexidades, problemas a ameaças.

Nesse ambiente novo, complexo e confuso, as igrejas evangélicas não somente oferecem o conforto espiritual da fé, mas também uma rede de apoio social.

Nesse cenário, não é somente a ausência da figura paternal que impulsionou o crescimento da religião, mas também a ausência do Estado.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ateu, Flavio Migliaccio estreia peça em que "contracena" com Deus


A informação foi publicada no Estadão em 29/05/17:

Flávio Migliaccio evoca a própria trajetória na peça 'Confissões De Um Senhor De Idade'

Ator conjuga o estudo da Bíblia com a evocação de sua carreira, em peça em cartaz no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro

Daniel Schenker

RIO - Apesar dos quase 83 anos de vida e dos 60 de carreira, Flávio Migliaccio não pensava em falar sobre o seu percurso profissional no palco. “Esse desejo veio mais dos outros do que de mim. Mas acho que todo mundo deve contar a própria história”, afirma o ator, que evoca sua trajetória em Confissões De Um Senhor De Idade, em cartaz no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro.

Na verdade, esse espetáculo está sendo elaborado há bastante tempo. Além de abordar sua jornada, Flávio traz à tona um estudo sobre a Bíblia. O desafio foi juntar as duas esferas na dramaturgia. “Eu tinha que encontrar um personagem para conversar comigo. Por causa da minha idade, ninguém melhor que Deus, essa figura misteriosa que muitos acreditam existir”, explica.

Personagem de seu texto, Flávio é visitado por Deus (papel de Luciano Paixão), que propõe um pacto: se ajudá-lo a desvendar um estranho acontecimento no céu, receberá a vida eterna como recompensa. No plano da realidade, Flávio não ambiciona essa dádiva. “Não desejo a vida eterna. Se ocorrer, nada contra”, brinca. “Mas se for com esses políticos que estão hoje por aqui, prefiro não”, declara. Assumidamente ateu, Flávio escolheu Deus para contracenar. “Num dado momento do texto, Deus indaga: ‘como vou estabelecer um pacto com alguém que não acredita em mim?’ Entretanto, ele propõe e eu aceito.”

Nesse projeto repleto de questões pessoais, Flávio decidiu acumular funções – de ator, diretor, dramaturgo, cenógrafo e figurinista (essa última, em parceria com Paixão). “Não consigo distribuir. Não que os outros não tenham capacidade. Mas é que quero saber de tudo”, garante. Esse comprometimento com as diversas etapas do processo talvez esteja ligado às circunstâncias da vida de Flávio, que precisou transitar por diferentes profissões para sobreviver – ocupações relacionadas ou não à atividade artística. “Fiz claque para Dulcina e Odilon. Ria e aplaudia os dois”, lembra, referindo-se a Dulcina de Moraes e Odilon Azevedo. “E fiz o mesmo para Ronald Golias.”

O espírito empreendedor remete ainda ao início de sua carreira, no Teatro de Arena, companhia de perfil politicamente engajado, que marcou oposição ao padrão europeu de encenação do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) por meio da valorização de montagens destituídas de produções luxuosas, concebidas a partir de proximidade geográfica com o espectador (determinada pela disposição da arena) e centradas em uma dramaturgia nacional voltada para o cotidiano dos menos abastados.

Flávio pertenceu ao elenco da histórica montagem do Arena para Eles Não Usam Black-Tie – peça de Gianfrancesco Guarnieri, dirigida por José Renato em 1958 –, centrada no conflito entre pai e filho, portadores de visões de mundo contrastantes, em relação à greve na fábrica onde trabalham. A encenação lançou Dirce Migliaccio. “José Renato perguntou se eu não tinha uma irmã para interpretar uma menina na montagem e eu chamei Dirce”, relata.

Dirce, portanto, começou por acaso, assim como Flávio, que, antes do Arena, teve um primeiro contato com o teatro na igreja. “Fui expulso do seminário, onde estava estudando para ser padre. Acabei assistindo a uma apresentação na igreja. Quando terminou, disse para o ator principal que poderia fazer o trabalho dele. Ele respondeu: ‘então faz porque eu não aguento mais’. Não fosse isso, provavelmente nunca teria me tornado ator”, observa.

No Arena, Flávio passou a escrever. Os Seminários de Dramaturgia geraram textos assinados pelos integrantes do grupo – no caso de Flávio, Pintado de Alegre. Ao longo dos anos, não abandonou a dramaturgia. Há certo tempo montou uma elogiada peça de sua autoria – Os Ratos do Ano 2030 –, na qual dividiu a cena justamente com Dirce.

No novo espetáculo, Flávio também destaca alguns de seus feitos na televisão, campo onde se firmou. “Digo que gostaria de ter sido galã de novela. Mas sempre fui convidado para fazer o tio do personagem que namora a mocinha. De qualquer modo, consegui adaptar o meu estilo de representar ao da TV”, avalia. Dotado de jovialidade, Flávio Migliaccio é um senhor cheio de histórias para revelar ao público.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Papa diz que é melhor ser ateu do que um hipócrita católico

A matéria é do Estadão:

Papa critica ‘vida dupla’ de católicos

Pontífice ressaltou comportamento de muitos católicos que vão sempre à missa, pertencem a associações, mas não levam de fato vida cristã

CIDADE DO VATICANO - Na missa matinal que costuma celebrar na Casa Santa Marta, onde se hospeda, o papa Francisco destacou ontem os escândalos ocasionados pela vida dupla de muitos católicos. “O que é o escândalo? O escândalo é dizer uma coisa e fazer outra.” O papa ressaltou o comportamento de muitos católicos que vão sempre à missa, pertencem a associações, mas não levam de fato vida cristã, são injustos com funcionários, exploram as pessoas ou mesmo fazem jogo sujo nos negócios. “Quantas vezes ouvimos dizer, por onde passamos: ‘Ser católico como aquele, melhor ser ateu’. O escândalo é isso. Destrói.”

Em um recado direto aos fiéis, o pontífice procurou ressaltar a questão do exemplo. “A todos nós, a cada um de nós, fará bem, hoje, pensar se há algo de vida dupla em nós, de parecer justos. Parecer bons fiéis, bons católicos, mas por baixo fazer outra coisa.”

O tema não é novo nas homilias de Francisco. Na mesma Casa Santa Marta, ele já havia dito no ano passado que, “se você diz que está em comunhão com o Senhor, então caminhe na luz. Mas vida dupla, não!” No Natal de 2014, em discurso à Cúria, citou 15 doenças que acometem a Igreja. Entre elas, classificou os que vivem uma vida dupla (religiosa e mundana) como “esquizofrênicos existenciais”.



sábado, 30 de janeiro de 2016

Às vésperas do Oscar, ateu Leonardo DiCaprio visita o papa


A informação é do Estadão:

Papa Francisco e Leonardo DiCaprio discutem sobre meio ambiente

Ator está à frente de uma fundação que trabalha para a proteção da diversidade, a conservação dos oceanos e áreas naturais

O Papa Francisco recebeu nesta quinta-feira, 28, no Vaticano o ator e produtor americano Leonardo DiCaprio, que expôs seu compromisso com a defesa do meio ambiente, informou o Vaticano.

Nenhum outro detalhe foi dado sobre este encontro de natureza privada, que faz parte das centenas de audiências concedidas pelo Papa a personalidades de todos os tipos. Criado em Los Angeles, em uma família católica de origem italiana e alemã, Leonardo DiCaprio se diz ateu.

O astro de 41 anos recebeu em 22 de janeiro o prêmio Crystal Award durante o Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça) por seu compromisso com o meio ambiente. DiCaprio está, desde 1998, à frente de uma fundação que leva seu nome e que trabalha para a proteção da diversidade, a conservação dos oceanos e áreas naturais, lutando contra os efeitos adversos das mudanças climáticas.

O ator, que estreou no cinema em 1991, antes de experimentar a fama mundial em 1997 com Titanic, está na briga pelo Oscar de melhor ator por seu papel em O Regresso (The Revenant). Ele já foi indicado ao prêmio quatro vezes anteriormente, mas nunca ganhou a prestigiosa estatueta.

O Oscar será apresentado em Los Angeles em 28 de fevereiro pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.



domingo, 19 de julho de 2015

A eutanásia do sapateiro ateu na Colômbia

Ovidio González Correa ao lado de seu filho, o cartunista colombiano conhecido como "Matador"

Vítima de câncer terminal, Ovidio González Correa deu seu último suspiro às 9:33 h da manhã de sexta-feira, 3 de julho de 2015.

Antes, entretanto, teve que travar uma batalha legal na qual seu pedido de eutanásia sofreu um adiamento no dia 26 de junho, quando já estava na clínica cercado de parentes e amigos que ali compareceram para lhe dar o último adeus, conforme conta a matéria do El País em sua versão brasileira:

O triste final feliz de Ovidio

  • Ovidio González, 79 anos, enfrenta um câncer de boca desde 2010
  • Agora, a Colômbia aprovou que ele se submeta a eutanásia


Um homem que está ficando sem rosto por causa de um câncer se tornou a imagem da luta por uma morte digna na Colômbia. Assim quis a vida, ou melhor, a morte. Que se esquivou de Ovidio González Correa há uma semana. Com tudo previsto, 15 minutos antes da hora marcada para o adeus, a clínica interrompeu o procedimento. Nesta quinta-feira, o mesmo comitê médico voltou atrás e aprovou que Ovidio receba a primeira eutanásia legal na Colômbia.

“Devo ser a única pessoa de quem a morte não gosta”, disse na sexta-feira passada o sapateiro ateu de 79 anos. Se tem algo que não perdeu, é o senso de humor. Um humor ácido. Com ele enfrentou o câncer na boca diagnosticado em 2010. Perdeu parte de um osso do lado esquerdo do rosto. Fez diversas sessões de radioterapia e quimioterapia. Ficou esteticamente deformado. Psicologicamente, abalado; mas não arrasado. Longe de intimidar-se, continuou com sua vida simples, criando vacas e cavalos em Pereira, em pleno eixo cafeeiro. Sob contínuo monitoramento, e com o apoio da mulher e dos quatro filhos, conseguiu driblar o câncer por cinco anos, até que, no início de 2015, a doença contra-atacou.

Há três meses, disse basta. Pediu ao oncologista para parar com as sessões de quimioterapia, o tumor tinha desfigurado a parte esquerda do rosto, a bochecha. A dor, intensa, não cessava. Não cessa, de fato. Cada tentativa de falar implica em um sofrimento adicional. Ovidio só pode ingerir alimentos líquidos, reclinado. Seu peso caiu de 81 quilos para 48 quilos.

“O simples ato de não desfrutar do ato de comer é terrível”, diz seu filho mais velho, o conhecido caricaturista colombiano Julio César González, Matador. Foi a ele que Ovidio disse um dia: “Quero a eutanásia, eu sei para onde vou e não quero ser um trapo em uma cama”, acabar como alguns de seus irmãos e familiares, uma família perseguida pelo câncer.

A primeira opção era recorrer a um médico que tinha ajudado dezenas de pessoas a morrer, mas ele insistiu que seguissem os canais oficiais. A eutanásia é legal na Colômbia desde 20 de abril, quando o Ministério da Saúde regulamentou uma norma de 1997. Em 4 de junho solicitaram à clínica Oncólogos de Occidente, em Pereira, que autorizassem o processo para morrer com dignidade. Os médicos que trataram de Ovidio viram que preenchia todos os requisitos legais para autorizar a eutanásia. Em síntese: ser o próprio paciente quem solicitava o direito, estar em perfeitas condições psíquicas e sofrer de um câncer terminal.



Tudo parecia pronto. Ovidio, ninguém sabe por quê, decidiu morrer na sexta-feira 26 de junho às duas e meia da tarde. Começaram os preparativos, as despedidas. Até o dia marcado ainda chegava gente à sua casa. Naquela sexta-feira, Matador lembra que seu pai ouviu música com um amigo, Gustavo Colorado, a quem deu de presente um disco de tangos de Charlo. A dedicatória, conta, dizia: “Motivo: viagem”. “O mais difícil foi o caminho para a clínica”, diz o primogênito. Naquele dia a Colômbia jogava contra a Argentina e as ruas estavam impregnadas de um otimismo antagônico que chocava com Ovidio e sua família. “Ele se movia menos que uma pirâmide do Egito”.

Na clínica, umas trinta pessoas acompanhavam Ovidio. O processo consistiria em uma sedação para então aplicar um fármaco que tiraria sua vida sem sofrimento. Quando faltavam 15 minutos para a hora marcada, Diego, outro filho do paciente, recebeu um telefonema. O processo estava suspenso. Apesar de os médicos que tinham tratado de Ovidio estarem convencidos, um comitê da clínica formado por um oncologista, um psicólogo, um advogado e um radioterapeuta, decidiu, com apenas uma opinião desfavorável, que não estava tão claro se o paciente reunia todos os requisitos e, diante da dúvida, preferia recorrer a uma segunda opinião. A desolação foi total. Só o humor conseguiu quebrar a tristeza. “Por que não sai coberto com um lençol branco? Todo mundo já te considera morto”, diziam os mais próximos.

A semana foi intensa e ainda mais dolorosa para Ovidio. A família fazia questão de que fosse cumprida a lei, aquela que permite evitar o sofrimento de um paciente terminal. O caso, até então guardado com muito zelo, chegou à imprensa e a expectativa cresceu. Na quinta-feira, enfim, deram-lhes a triste boa notícia. O mesmo comitê que tinha decidido suspender o processo na sexta-feira passada, agora, com o respaldo da Associação Colombiana de Radioterapia Oncológica e a aprovação do Ministério da Saúde, aprovava o pedido de Ovidio. Na próxima semana deixará de sofrer. As poucas palavras que, segundo seu filho, conseguiu dizer ao saber da notícia foram para o médico que tinha atrasado seu adeus: “Estou morrendo de vontade de conhecê-lo”.



domingo, 5 de julho de 2015

Francisco, o único papa-profeta?

Eugenio Scalfari e o papa Francisco

É esta a pergunta que se faz Eugenio Scalfari, fundador do jornal italiano La Repubblica, talvez o pensador italiano mais importante da segunda metade do século XX para cá.

Scalfari, que completou 91 anos de idade em abril, é ateu e tem tido encontros com o papa Francisco, como ele relata no artigo abaixo, o que reforça a importância de sua leitura neste domingo gelado no Centro-Sul do Brasil.

Não deixa de ser interessante ver como um pensador ateu - moderado, de renome, e que efetivamente conversa com o papa - retrata o pontífice.

O artigo foi traduzido e publicado pelo IHU:

Papa Francisco, profeta que encontra a modernidade


Francisco não é apenas um papa, mas um profeta ou, melhor, sobretudo um profeta e um pastor. É a figura mais relevante do século em que vivemos. 



A opinião é de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto. 

Eis o texto.


É preciso reler o Cântico de Francisco de Assis, que, justamente para essa releitura, foi publicado abaixo e que o Papa Bergoglio colocou como título da sua primeira encíclica. Ele ilumina todo o documento do papa, explica por que Bergoglio assumiu o nome de Francisco, que nunca tinha sido usado nos dois mil anos de história da Igreja e, principalmente, dá significado e resposta a uma pergunta que muitos, fiéis e não fiéis, se fizeram: por que o Papa Francisco dedica a sua primeira encíclica à ecologia? Não existem outros problemas muito mais urgentes e dramáticos nestes tempos obscuros que estamos atravessando?

Certamente existem, e o Papa Francisco os enfrenta um por um em toda a sua plenitude, começando pelo da pobreza, da migração de povos inteiros já sem-terra, das guerras que afligem o mundo, do egoísmo imperante, da intolerável desigualdade econômica e social. Ele não se dirige apenas aos cristãos, mas a todos os homens que Deus criou com a terra, confiando eles à terra e o cuidado da terra a eles, isto é, a nós.

Todos os comentaristas da encíclica que, nestes dias, leram o seu texto sublinharam concordemente essas "passagens", dando-lhes, obviamente, interpretações diferentes. Por isso, para mim, que voluntariamente não me pronunciei até agora sobre temas que sempre me interessaram e que, nos últimos meses, muitas vezes, tive a oportunidade de discutir diretamente com o Papa Francisco, só restaria reconhecer tanto a encíclica, quanto a preparação do Sínodo, que irá ocorrer em outubro próximo, quanto as intervenções de Francisco ocorridas logo depois da publicação da encíclica, quanto o seu encontro com os valdenses em Turim, quanto, por fim, os comentários que essa imensa quantidade de trabalho religioso e pastoral provocou, para sair daó mais rico em conhecimento.

Certamente é isso, eu saio enriquecido e mais informado da política religiosa que Francisco leva em frente com ritmo cada vez mais apressado. Mas me faço duas perguntas que merecem aprofundamento e resposta: quem é verdadeiramente o Papa Francisco? E quem é verdadeiramente Jorge Mario Bergoglio?

Cada papa tem traços salientes que configuram o papel que ele desempenhou na história do cristianismo. Mas esse papel e os efeitos que ele provocou nas sociedades da época em que esse papa viveu e agiu, decorrem da personalidade do homem que, em um certo ponto da sua vida, foi chamado a se sentar no trono de Pedro. O caráter da pessoa determina o cargo que ocupa, mas, ao mesmo tempo, a carga cria delineamentos novos nessa pessoa.

Responder a essas duas perguntas que eu me fiz já não só é possível depois de dois anos de pontificado, mas também necessário para entender o que está acontecendo na Igreja e o que provavelmente irá acontecer enquanto Francisco exercer o seu magistério na cátedra de Pedro.

* * *

Francisco não é apenas um papa, mas um profeta ou, melhor, sobretudo um profeta e um pastor. Que eu saiba, isso nunca tinha acontecido antes dele; papas pastores talvez sim, alguns, poucos, contudo. Abundam na história da Igreja papas diplomatas, ou guerreiros, ou místicos, ou litúrgicos, ou legisladores, ou organizadores. Profetas, não, não houve nenhum. Paulo de Tarso também foi profético, além de legislador e fundador da religião cristã. Agostinho igualmente, e Jerônimo, e Boaventura, e Anselmo, e Francisco de Assis e muitos outros, mas não eram papas, não eram bispos de Roma.

Francisco, ao contrário, é. Devemos dizer que a excepção confirma a regra e que, depois dele, não haverá outro como ele? Temo que sim, temo que ele continue sendo uma exceção, mas o impulso que ele está dando à "Ecclesia" mudará profundamente o conceito de religião e de divindade, e isso continuará sendo uma mudança cultural dificilmente modificável.

Mas por que eu digo profeta? Em que consiste a sua profecia e o seu conceito de divindade? Deus é Um em todo o mundo e para todas as gentes. Naturalmente, a afirmação vale apenas para quem tem fé em um além e em um Criador.

A unicidade do Deus criador exclui todo fundamentalismo, toda guerra religiosa, toda divindade múltipla. A própria Trindade, mistério da fé católica, muda de natureza, e Francisco disse isso várias vezes e, precisamente nos últimos dias, ainda mais claramente, em Turim, quando respondeu às perguntas de três jovens diante de milhares de pessoas reunidas para ouvi-lo.

Ele disse que o Espírito Santo é o Espírito de Deus que suscita no coração dos homens a vocação ao bem, e o Filho é Deus que ama as suas criaturas e suscita o amor humano em todas as suas castas formas. Esta é a Trindade: não mais o mistério da fé, mas a articulação do único Deus, misericordioso, amoroso, criador e, portanto, Pai.

A misericórdia é infinita, o pecado faz parte das contradições inerentes à Criação, necessária riqueza de cada criatura individual que não é o clone das outras. As contradições contêm amor, perdão, mas também raiva contra as injustiças sofridas e vergonha por aquelas cometidas contra os outros. Nas contradições, há riqueza e pecado ao mesmo tempo. A misericórdia do Pai também é transmitida às suas criaturas, e são os pastores que a ensinam e a praticam, eles por primeiro.

Talvez, o Papa Francisco ainda não tirou uma consequência teológica dessa sua visão profética, que ele está levando em frente todos os dias: ele não é mais o Vigário de Jesus Cristo na terra, mas é o Vigário de Deus, porque Cristo nada mais é do que o amor de Deus, não um Deus diferente que se encarnou, viveu 33 anos, começou a pregação aos 30 anos e foi crucificado quando o imperador Tibério tinha acabado de ser empossado pelo Senado depois da morte de Otaviano Augusto.

Os Evangelhos relatam essa história, mas os evangelistas – exceto, talvez, João –, escreveram relatos de segunda mão e nunca conheceram o Jesus de quem descrevem a vida e a pregação. Quanto a Paulo de Tarso, fundador da religião que tomou o nome de Cristo, ele não conheceu e nunca se encontrou com Jesus de Nazaré. No entanto, foi justamente Paulo o fundador. Se fosse por Pedro, o cristianismo teria permanecido como uma seita judaica, definida pelos seus seguidores como "judaico-cristã", como na época havia muitas: os fariseus, os essênios, os zelotas e outros ainda, com o Sinédrio na cúpula, administrando a Lei e o Templo que era a sua sede.

Assim era concebida a comunidade judaico-cristã liderada por Pedro e por Tiago, que Paulo forçou a sair de Jerusalém e a abrir a nova religião por ele fundada no mundo circunstante, no Oriente Médio, na Grécia, no Egito, em Roma e, de lá, a todos os territórios do Império, isto é, toda a Europa.

O Jesus relatado pelos Evangelhos provavelmente existiu, provavelmente pregou. A sua pessoa foi teologizada, as comunidades cristãs criaram uma doutrina, uma liturgia, um direito canônico. Nos textos decorrentes dessa doutrina, Deus também é definido como o Deus dos exércitos. O sentido dessa definição é duplo: exércitos de fiéis ou exércitos de guerreiros, combatentes nas Cruzadas, na Inquisição, nas guerras das potências europeias nas quais a Igreja, de vários modos, interveio. O poder temporal do papa a induziu a participar de alianças ou de guerras com Espanha, com a França, com a Áustria, com o Império, com Veneza.

Esse foi o papado até 1861, quando foi proclamado o Reino da Itália. Não por isso o poder temporal dos papas terminou. Ele continuou e, em parte, ainda continua, e Francisco empenhou contra ele a sua luta. A sua visão é uma Igreja missionária, em que a Igreja institucional representa apenas a intendência, destinada a predispor os serviços dos quais a Igreja missionária precisa.

A verdadeira política de Francisco é a de reunificar o cristianismo, folha por folha, ramo após ramo. Nos últimos dias, ele se encontrou com o representante da Igreja Valdense. Nunca tinha acontecido um encontro semelhante. Os valdenses eram cátaros, um movimento cismático que chegou à Itália a partir da Europa central, atravessou toda a planície da Padânia, chegou em Marselha obstaculizado e combatido de todos os modos e, em Marselha, foi massacrado pelas tropas francesas, encorajadas e abençoadas pela Igreja de Roma, que assumiu a responsabilidade por esse massacre.

Pedro Valdo fazia parte dessa comunidade, mas, tendo chegado aos vales do Piemonte, decidiu parar ali. Ele também sofreu ataques e vexações de todos os tipos. Não são muitos os valdenses, mas, religiosamente, são uma comunidade importante e respeitada.

Pois bem, o Papa Francisco os encontrou em Turim há poucos dias e, em nome da Igreja Católica, invocou o seu perdão; os valdenses o agradeceram "do fundo do coração". Logo se verão novamente e abrirão um discurso mais desafiador. O objetivo de Francisco é de abrir a Igreja a todas as comunidades protestantes e reuni-las. Deus é único, e os cristãos devem voltar a ser uma única religião, mas isso não basta. Não por acaso, Francisco também abriu com os muçulmanos, porque o seu Deus é o mesmo dos cristãos.

Não é profético esse pensamento? E não é profético o título da encíclica? O Santo de Assis agradece a Deus pela morte corporal que é prevista pela criação. A morte é um dom. Eis por que eu digo que Francisco é o Vigário de Deus, que o Espírito Santo decidiu colocar no sólio de Pedro.

* * *

Mas Jorge Mario Bergoglio era assim também antes de se tornar papa? O cargo que ele já ocupa há dois anos o mudou ou foi ele que mudou o papel?

Eu me encontrei com o Papa Bergoglio quatro vezes e escrevi muitas vezes sobre ele. Permito-me dizer que nos tornamos amigos. Se Deus é único em todo o mundo, a Igreja também só pode ser uma e, justamente porque é uma em todas as partes, ela não pode e não deve se ocupar com a política.

Igreja livre em Estado livre era o lema de Cavour, mas eu diria que, agora, também é o lema de Bergoglio. O outro lema que justamente Bergoglio me indicou em um dos nossos encontros é: "Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo". Com essa frase, ele se dirige a toda a sociedade do mundo e aos ricos, especialmente, porque são eles que devem dar, e a recompensa está apenas no dar sem nada exigir em troca, a não ser o amor de Deus.

Bergoglio sabe perfeitamente que o mundo está vivendo em uma sociedade globalizada, sabe que há um povo de "sem-terras" de mais de 60 milhões de pessoas que vagam pelo mundo em busca de dignidade e de vida.

Por fim, Bergoglio também se propôs a mudar a estrutura da Igreja, que até agora foi vertical. Ele quer colocar ao lado dessa estrutura vertical também uma estrutura horizontal: os Sínodos, aos quais acorrem os bispos de todo o mundo. Desse ponto de vista, ele adotou a ideia central do cardeal Martini, do qual era um bom amigo e que votou nele no conclave do qual o cardeal Ratzinger saiu papa.

Uma Igreja vertical e horizontal: essa é a estrutura que Francisco está implementando e, com ela, um relançamento religioso das Conferências Episcopais que devem agir todas em terra de missão, porque a Igreja deve ser, em todas as partes, missionária.

Em um dos nossos encontros, perguntei ao Papa Francisco se não seria o caso de convocar um novo concílio que reconheça e dê o seu selo a todas essas novidades, mas ele me respondeu: "O Vaticano II pôs como o seu principal objetivo o de se encontrar com o mundo moderno. Essa declaração conciliar é muito importante, mas, desde então, não deu um único passo à frente. Por isso, eu não preciso convocar outro concílio. Ao contrário, devo aplicar concretamente o Vaticano II, e é isso que estou tentando fazer: o encontro com a modernidade".

Esse encontro irá levantar problemas enormes: a modernidade ocidental nasceu do Iluminismo e aportou no relativismo; não há nada de absoluto, começando pela verdade. Francisco, naturalmente, responde a esses problemas, salientando a importância da fé, mas isso não exclui o fato de que o encontro com a modernidade levantará problemáticas totalmente novas que apenas um papa-profeta poderá entrever e gerir.

Desejo-lhe longa vida, convicto como estou de que ele é a figura mais relevante do século em que vivemos.




O CÂNTICO DAS ESCRITURAS
São Francisco de Assis

Altissimu, onnipotente bon Signore, tue sò le laude, la gloria e l’honore et onne benedictione.
Ad te solo, Altissimo, se konfano et nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue creature, spetialmente messor lo frate Sole, lo qual è iorno et allumini noi per lui. Et ellu è bellu e radiante cun grande splendore: de te, Altissimo, porta significatione.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora luna e le stelle: in celu l’ài formate clarite et pretiose et belle.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento et per aere et nubilo et sereno et onne tempo, per lo quale a le tue creature dài sustentamento Laudato sì’, mi’ Signore, per sor’acqua, la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate focu, per lo quale ennallumini la nocte, et ello è bello, et iocundo et robustoso et forte.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.
Laudato sì’, mi’ Signore per quelli ke perdonano per lo tuo amore et sostengono infirmitate et tribulatione. Beati quelli ke ‘l sosterranno in pace, ke da te Altissimo, siranno incoronati.
Laudato sì’, mi’ Signore, per sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente po’ skappare: guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali; beati quelli ke trovarà ne le tue santissime voluntati, ka la morte secunda no ‘l farrà male.
Laudate et benedicete mi’ Signore et ringratiate e serviateli cum grande humilitate.
Altíssimo, omnipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumias. E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas: no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo, por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual alumias a noite: e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal, à qual nenhum homem vivente pode escapar. Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade, porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.




terça-feira, 2 de junho de 2015

Richard Dawkins cai em SP e elogia SUS pelo atendimento


Por incrível que pareça a notícia abaixo, do Entre Fatos, é verdadeira:

Biólogo britânico acidentado em SP escreve texto elogiando atendimento do SUS

Dawkins sofreu um pequeno acidente no aeroporto de Guarulhos e ficou impressionado com o atendimento médico recebido

Por Portal Metrópole

O biólogo britânico Richard Dawkins, em recente em visita ao Brasil, caiu no caminho para o avião que o levaria de São Paulo para Los Angeles na noite da última quinta-feira (28) e feriu o rosto.

Dawkins contou que, após cair e bater a cabeça no chão, um médico que também estava embarcando disse que ele precisava levar pontos. Por isso, a tripulação decidiu que ele não poderia seguir viagem e ele foi levado a um hospital, onde recebeu cinco pontos.

O detalhe: ele estava sozinho e deixando o país, ninguém sabia exatamente quem ele era e por isso destaca que o atendimento que recebeu foi o que seria fornecido a qualquer anônimo numa situação semelhante.

O texto dele está em inglês, mas segue um pequeno resumo:

Diz ele que, ao se dirigir para o embarque, tropeçou e bateu a cabeça, abrindo um corte sobre o olho, por onde vertia sangue.Ele tentou embarcar mesmo assim, pois tinha um compromisso nos EUA (que depois ele descobriu que foi desmarcado).

Mas a tripulação do avião e o pessoal de terra não o deixaram embarcar naquela situação e ele desesperou-se por perder o voo e por imaginar que iria esperar longas horas para ser atendido (sua experiência nos EUA é que não há serviço médico público e na Inglaterra o serviço é muito demorado).

Também pensou que iria perder sua bagagem, que já estava a bordo e ficou desesperado por estar sozinho e não falar uma palavra em português (seus acompanhantes no país já haviam despedido-se e ido embora, após ele acessar a área de embarque).

Mas surpreendeu-se, primeiramente, com a rapidez com que uma ambulância apareceu para levá-lo a um hospital (atendimento via SUS), pelo fato de que sua bagagem apareceu e pela gentileza e modo carinhoso com que os paramédicos o trataram assim que chegaram ao aeroporto.

Depois surpreendeu-se novamente pelo cuidado em ser conduzido em uma cadeira de rodas ao dirigir-se e ao chegar ao hospital (o que ele estranhou num primeiro momento), pelo atendimento que recebeu no hospital, pela quantidade de exames que realizaram antes de liberá-lo e por não estar sofrendo nenhuma dor no dia seguinte.

E usou sua página na internet para desculpar-se, publicamente, por ter imaginado que seria mal atendido e sentir-se inseguro!

Desculpou-se apenas por ter IMAGINADO que iria passar por um longo e interminável martírio, tanto com o pessoal do aeroporto, como com o pessoal da ambulância, com o pessoal do hospital, com os médicos que lhe atenderam e com o serviço que recebeu no Brasil!

É… temos nossos problemas, mas o inferno não é tão feio quanto a mídia e os midiotas o pintam!



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