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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

TST nega vínculo empregatício a padre ortodoxo de SP

Igreja Ortodoxa de São Pedro no Brás, em SP
A informação é do próprio Tribunal Superior do Trabalho:

Padre da Igreja Ortodoxa tem recurso negado em ação para reconhecer relação de emprego

Um padre da Igreja Ortodoxa Grega de São Pedro, em São Paulo, não conseguiu que seu pedido de reconhecimento de vínculo de emprego fosse reexaminado pelo Tribunal Superior do Trabalho. O presidente do TST, ministro Ives Gandra Martins Filho, negou seguimento a agravo no qual o religioso questionava decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (SP) no sentido de que o vínculo entre as partes se destinava apenas à assistência espiritual e à propagação da fé.

Segundo o TRT, nos dez anos de atividade sacerdotal não se verificou a configuração dos requisitos inerentes ao contrato de trabalho, como subordinação ou prestação remunerada de serviços (onerosidade). “Trata-se de um ofício, onde não havia contraprestação pecuniária, e sim ajuda de custo necessária para prover suas necessidades básicas”, diz a decisão.

Em sua argumentação, o padre afirmou que havia submissão às diretrizes traçadas pelo arcebispo da igreja, e que serviços como batizados, casamentos e ofícios fúnebres tinham valor fixado pela Comissão Eclesiástica, entidade que, na condição de administradora da igreja, incumbia-se da arrecadação de valores e de pagamentos, inclusive dos salários a ele devidos.

No agravo, o padre pediu que a decisão do TRT que negou seguimento a seu recurso fosse anulada e que o TST reexaminasse a questão do vínculo. Mas, segundo o ministro Ives Gandra Martins Filho, a decisão não merece reparos, porque, diante do quadro descrito pelo Regional, sobretudo sobre a natureza das atribuições e da remuneração do religioso, não seria possível concluir em outro sentido sem o reexame de fatos e provas, medida incabível segundo a Súmula 126 do TST.

(Ricardo Reis/CF)

Processo: AIRR - 2184-87.2014.5.02.0023



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O batismo radical da Geórgia


Não é nada fácil ser batizado na Igreja Ortodoxa Georgiana. Os bebês que o digam (ou demonstrem com suas carinhas assustadas). 

Confira o curioso ritual no vídeo abaixo:




sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

100 anos atrás morria Rasputin


Rasputin é um desses personagens da vida real, de carne e osso, cuja história parece ter sido inventada por alguém durante o uso de algum alucinógeno.

Já chegamos a comentar aqui no blog sobre a canção em ritmo discothèque que o grupo Boney M. lhe, digamos, "dedicou" em 1978 (clique aqui para acessar o divertido e musical artigo).

Só que cada detalhe sinistro ou bizarro de sua biografia (sobretudo as tentativas de matá-lo) é verdadeiro.

Santo ou demônio, o fato é que o fim do Império Russo centralizado na figura do czar e a Revolução Comunista de 1917 tiveram nele um dos mais importantes antecedentes.

A matéria abaixo é da Rádio Agência Nacional:

História Hoje: Conheça a história do monge russo Rasputin, morto há 100 anos

Há cem anos morria num vilarejo da Sibéria Grigori Iefimovich Novy, ou Grigori Rasputin, monge russo que se tornou personagem influente na corte de Nicolau Segundo e Alexandra Feodorovna.

Além da fama por seus poderes sobrenaturais, Rasputin tinha reputação de santo entre os camponeses e fama de devasso na corte.

Ainda pequeno chamava a atenção dos moradores do vilarejo em que vivia que acreditavam que ele tinha poderes hipnóticos e de cura.

Na adolescência, foi para o mosteiro de Verkhoture, nos Montes Urais, para se tornar monge, mas não completou os estudos, se casando aos 19 anos de idade. A fama de possuir poderes sobrenaturais se espalhou pelo império russo por volta de 1905, quando, já morando em São Petersburgo, foi procurado pelo czar Nicolau Segundo e sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, que buscavam a cura de seu filho, Alexei, que sofria de hemofilia.

Envolvente e sedutor, Rasputin conseguiu tranquilizar o príncipe, diminuindo seus sangramentos e conquistou a confiança do casal. Por isso, durante anos passou a exercer o papel de conselheiro da czarina. Na corte, interferia na atuação da igreja e nos assuntos de estado, chegando a nomear e demitir ministros.

Rasputin conquistou a antipatia de grande parte da corte. Foi acusado de indecente. Ele afirmava que era capaz de livrar as mulheres de seus pecados e, dormindo com elas, ajudava a encontrar a graça divina. Por sua conduta, em 1914, sofreu seu primeiro atentando a faca e sobreviveu milagrosamente.

Aproveitando da fama de místico, previu que a Rússia cairia em desgraça durante a Primeira Guerra Mundial. Preocupado com a previsão, o czar abandonou a corte em 1915 para comandar pessoalmente o Exército. Rasputin e a czarina então passaram a governar a Rússia e foram responsáveis, em grande parte, pelo fracasso do imperador em contornar a onda de descontentamentos que antecederam à Revolução Russa.

Em 30 de dezembro de 1916, um grupo de nobres organizou uma cilada e Rasputin comeu uma refeição envenenada por cianureto, mas novamente não morreu. Foi então foi fuzilado, sendo atingido por um onze tiros, e escapou. Depois disso, foi castrado e atirado inconsciente no rio Neva.

Após o corpo resgatado, foi encontrada água nos pulmões, confirmando que ele ainda estava vivo ao ser jogado no rio parcialmente congelado.



sábado, 8 de outubro de 2016

Papa visita Azerbaijão pedindo paz entre religiões


A matéria é da Rádio Vaticano:

Papa: no Azerbaijão colaboração entre culturas e religiões

Na tarde deste domingo dia 2 de outubro o Papa Francisco teve um encontro com as autoridades do Azerbaijão, em particular, com o presidente Ilham Heydar Aliyev no moderno Centro Heidar Aliyev.

O Papa Francisco sublinhou no seu discurso a sua “admiração pela complexidade e a riqueza” da cultura do Azerbaijão, fruto da contribuição dos muitos povos que, ao longo da história, habitaram nestas terras” – disse Francisco que sublinhou os “benefícios do multiculturalismo e da necessária complementaridade de culturas”:
“Espero vivamente que o Azerbaijão continue pela estrada da colaboração entre diferentes culturas e confissões religiosas. Que a harmonia e a coexistência pacífica alimentem sempre mais a vida social e civil do país, nas suas múltiplas expressões, assegurando a todos a possibilidade de oferecer a própria contribuição para o bem comum.”
O Santo Padre recordou os conflitos que se alimentam da intolerância de ideologias violentas, salientando que é necessário “promover a harmonia” entre as várias componentes de uma nação.

Francisco não deixou de recordar as pessoas que sofreram por “causa de conflitos sangrentos” e demonstrou a sua confiança no diálogo e na negociação para a resolução de divergências.

O Papa afirmou no seu discurso a sua satisfação pelas cordiais relações entre a comunidade católica e a muçulmana, a ortodoxa e a judaica, esperando que aumentem os sinais de amizade e colaboração. O Papa deixou, contudo, um aviso:

“O apego aos genuínos valores religiosos é completamente incompatível com a tentativa de impor aos outros, pela violência, as próprias convicções, servindo-se, como escudo, do santo Nome de Deus. Que a fé em Deus seja fonte e inspiração de compreensão mútua, respeito e ajuda recíproca em prol do bem comum da sociedade. Deus abençoe o Azerbaijão com a harmonia, a paz e a prosperidade” – disse o Papa Francisco no final do seu discurso às autoridades do Azerbaijão.



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Apesar das ameaças de ausência, começou o Concílio Pan-Ortodoxo


A matéria é do IHU:

O Concílio ortodoxo “que cambaleia” e os sinais dos tempos


O Santo e Grande Concílio ortodoxo, meio cambaleando, começa hoje [domingo, 19 de junho] na ilha de Creta. (1) E, independentemente do jeito que terminar, já pertence à categoria dos eminentes sinais dos tempos. Visto na perspectiva da fé dos Apóstolos, o cabo de guerra que surgiu “in extremis” no âmbito do encontro de comunhão que estava sendo preparado há décadas pelas Igrejas que compartilham o mesmo tesouro apostólico e sacramental mostra, pelo menos por um momento, o vertiginoso caminho pelo qual procede sempre na história a promessa da salvação cristã, encomendada aos sucessores desses mesmos apóstolos. 

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 19-06-2016. A tradução é de André Langer.


As últimas notícias sobre as decisões e os pronunciamentos dos líderes das Igrejas ortodoxas são muito sugestivas. O Santo e Grande Concílio começa com a presença dos líderes de 10 das 14 Igrejas autocéfalas ortodoxas, sob a presidência do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

Do ponto de vista dos grupos e dos equilíbrios de força, tem um peso relevante a participação da Igreja ortodoxa da Sérvia (que no começo tinha se negado a participar), a qual, em seu último comunicado oficial, se reserva o direito de abandonar o encontro caso este se negar a “considerar todas as questões, problemas e diferenças” expressadas durante as últimas semanas pelos quatro patriarcas ortodoxos (de Antioquia, Bulgária, Geórgia e Rússia) que decidiram não participar.

Com a decisão manifestada na segunda-feira passada, o Patriarcado de Moscou de alguma maneira deixou cair a máscara e mostrou-se com o verdadeiro artífice das iniciativas que, coagulando diversos mal-estares e reservas, apostavam na suspensão ou em dar outra direção, “in extremis”, à máquina conciliar que já estava em andamento.

O Patriarca de Moscou, Kirill, em sua última mensagem oficial dirigiu-se intencionalmente aos “Primados e representantes das Igrejas ortodoxas locais que se reúnem em Creta”, sem utilizar a expressão “Concílio”, para dar a entender que esta reunião era “um encontro que pode servir para a preparação do Santo e Grande Concílio”, negando ao encontro de Creta a categoria de Assembleia Conciliar.

Além disso, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, homem chave na política eclesiástica do aparelho ortodoxo russo, em uma entrevista, fez algumas advertências pessoalmente ao Patriarca Bartolomeu, indicando que o “Primus inter pares” entre os primados ortodoxos “dará prova de prudência” e destacando que “se se convoca o Concílio apesar da ausência de ao menos quatro das Igrejas locais, constituirá uma brutal transgressão do regulamento do próprio Concílio, que estabelece que deve ser convocado pelo patriarca ecumênico com o consenso de todas as Igrejas”.

Enquanto isso, a partir de Kiev, os círculos nacionalistas ucranianos tratam de aproveitar a confusão e o Parlamento pede oficialmente ao Patriarca Bartolomeu para que reconheça a autocefalia da Igreja ortodoxa ucraniana (atualmente sujeita com um estatuto de autocefalia à jurisdição do Patriarcado de Moscou), patrocinando um “Concílio de unificação pan-ucraniana” com o qual possam unir-se “todas as Igrejas ucranianas ortodoxas”.

No entanto, em Creta, a máquina midiática do Concílio, nas mãos de órgãos da imprensa estadunidenses, começa a inundar a rede de comunicados e informes feitos de acordo com padrões já acordados em nível global para encontros e “quermesses” religioso-espirituais para todos os gostos.

Nas últimas notícias, a questão do Concílio ortodoxo e seu semi-naufrágio ou seu desejado “êxito midiático”, seguem sendo apresentados principalmente como uma questão político-eclesiástica. Os comentários e narrações da mídia, com poucas exceções, ressaltam as estratégias, alianças, provas de força, pressões, sintonias mais ou menos claras entre os aparelhos político-clericais.

Nos tribunais da rede que infestam a blogosfera católica, as manipulações mais descaradas e interesseiras usam como pretexto os problemas ortodoxos para confeccionar condenações baratas sobre as dinâmicas da sinodalidade eclesial, tão citadas pelo Papa Francisco. Mas estes informes “déjà vu” que elucubram sobre as mutáveis alquimias do poder eclesiástico ou sobre os erros táticos (verdadeiros ou não) dos diferentes aparelhos clericais raramente intuem a raiz profunda das tribulações ortodoxas.

Podem ajudar muito mais as intuições manifestadas por Bartolomeu em uma antiga entrevista de 2004 à revista italiana 30Giorni, na qual o patriarca ecumênico, ao falar sobre o cisma entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, disse que a origem distante dessa divisão está nas “primeiras manifestações do pensamento mundano na Igreja”. Se os ortodoxos sempre reconheceram em tal infiltração a matriz da pulsão “hegemônica” do Papado ocidental, agora parece muito mais claro que tal pulsão não só não foi neutralizada por um ou outro modelo abstrato de eclesiologia “institucional” e pode facilmente servir-se das dinâmicas e dos instrumentos sinodais.

Em relação ao caso das Igrejas ortodoxas, a referência à penetração do pensamento mundano nas dinâmicas eclesiais tem muito pouco a ver com a tradicional e dócil sintonia com os poderes civis nacionais que os polemistas católicos sempre reprovaram na Ortodoxia. Os problemas do Santo e Grande Concílio não dependem de Putin, que paradoxalmente, justamente perseguindo seus interesses, poderia ter sido capaz de favorecer um resultado mais fecundo para o caminho e para a missão apostólica das Igrejas ortodoxas.

Pelo contrário, o que criou muitos obstáculos foi o peso morto do orgulho clerical enquanto tal, a “hybris” que contamina os aparelhos eclesiásticos cada vez que as Igrejas, em qualquer nível, constroem e perseguem um modelo de auto-suficiência e de auto-afirmação no cenário do mundo. Nenhuma das instâncias eclesiais é imune a esta tentação de uma desnaturalização semelhante, como repetiu em várias ocasiões o Papa Francisco ao fazer alusão à gangrena do “mundanismo espiritual”.

Neste momento, devemos admitir que esta atitude ameaça particularmente a Igreja russa. Considerando apenas as últimas duas semanas (e inclusive o que aconteceu antes do início das convulsões sobre o Concílio ortodoxo), o Patriarca Kirill disse que a Igreja russa tem agora, nada mais e nada menos, a tarefa de “mudar a atitude em relação à fé e ao cristianismo em muitos países da Europa e da América”, para voltar a dar uma relevância global ao cristianismo (19 de maio).

O Metropolita Hilarion, por sua vez, apresentou, em 19 de abril passado, a Rússia atual como a única nação de destaque na qual se “expandem a fé e a Igreja”, descrevendo um Ocidente completamente aniquilado pelo ateísmo e o secularismo, com uma inversão total de papéis com relação aos tempos da União Soviética. Em um ataque de triunfalismo identitário, o próprio Hilarion, no final de maio, disse que o Patriarcado de Moscou ocupa “o segundo lugar no mundo” em número de fiéis, atrás apenas da Igreja católica, separando conceitualmente os fiéis russos de todos os outros cristãos ortodoxos.

Apenas aqueles que amam com sincera gratidão a grande aventura cristã que começou com o batismo do Grande Príncipe Vladimir sentem a urgência de informar aos irmãos russos a deriva de retrocesso a que parecem tão expostos neste momento. Mas o escorregão pelo Concílio ortodoxo antes de mesmo de começar deve fazer pensar que não apenas entre os líderes da Ortodoxia russa se rarefez a percepção do tempo escatológico vivido pela Igreja de Cristo.

“Os Primados das Igrejas que colocam em primeiro lugar questões mundanas como o primado de honra”, disse em meio às convulsões pré-conciliares Theodoros II, Patriarca ortodoxo de Alexandria, “deveriam descer de seus tronos suntuosamente decorados e visitar a África, para ver o que quer dizer ser pobres e humildes filhos de Cristo”.

Como já aconteceu em outros momentos da história, o tropeço inicial do encontro conciliar ortodoxo, seu “fracasso” em termos de estratégia humana, vivido à luz da cruz, da descida aos infernos, da Ressurreição e do Pentecostes, poderia sugerir novas vias de fuga para abandonar a soberba clerical e andar mais rapidamente para Cristo.

Como disse Matta el Meskin – o pai da renovação dos monges coptas durante um rico congresso organizado pela comunidade monástica de Bose –, a unidade entre os cristãos, embora pertençam à mesma confissão, nunca nasce como espírito de “coalizão” para sentir-se mais fortes, para unir forças contra inimigos verdadeiros ou imaginários e dar maior relevância e poder à Igreja e aos homens da Igreja. Sempre nasce acompanhada da perda do instinto de conversação e da pretensão de caminhar na história por força própria, como uma realidade autossuficiente.

A unidade em Cristo dos cristãos, escreveu Matta el Meskin, “é um estado de fragilidade divina perante o mundo, seguindo o exemplo de seu Mestre, que renunciou ao seu poder infinito para ser crucificado por qualquer pessoas que ele amava e na maneira como a amava. E todos os problemas que dividem a Igreja – acrescentou Matta – demonstram exatamente que o Senhor não está presente no meio da assembleia. E sua ausência nos obriga a voltar a colocar em questão a finalidade da reunião, o método da busca e as intenções dos membros reunidos [...] O problema da unidade encontra-se clara e decisivamente no problema da presença do Senhor”, porque “só o Senhor ‘pode fazer de dois povos um só, tendo derrubado os muros que os separam (cf. Ef 2, 14)’”.



segunda-feira, 7 de março de 2016

Vaticano faz balanço do encontro do papa com o patriarca russo


A matéria é da Rádio Vaticano:

Kirill e Francisco: um encontro para a unidade dos cristãos

Nesta edição da rubrica “Sal da Terra, Luz do Mundo”, destacamos o histórico encontro em Cuba entre o Papa Francisco e o Patriarca de Moscovo Kirill. Um momento fundamental para o futuro da unidade dos cristãos.

Cuba, sexta-feira, 12 de fevereiro: Kirill de Moscovo encontra Francisco de Roma. A Igreja Ortodoxa Russa e a Igreja Católica encontram-se pela primeira vez desde o Cisma do ano 1054. Kirill está de visita àquele país, Francisco em trânsito para o México. Encontram-se e abraçam-se no Aeroporto José Marti em Havana.

“Somos irmãos é muito claro que esta é a vontade de Deus” – disse o Papa Francisco num caloroso abraço ao Patriarca Kirill que afirmou: “Mesmo que as nossas dificuldades não estão resolvidas há a possibilidade de encontrarmo-nos e isto é belo”.

No encontro em privado foram trocadas lembranças significativas: o Papa ofereceu um relicário com uma relíquia de S. Cirilo e um cálice; o Patriarca fez a oferta de uma imagem da Nossa Senhora de Kazan.

Depois foi assinada uma declaração conjunta que aborda âmbitos de colaboração e de diálogo com um particular enfoque para a situação dos cristãos no Médio Oriente.

“O nosso olhar dirige-se, em primeiro lugar, para as regiões do mundo onde os cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Médio Oriente e do Norte de África, os nossos irmãos e irmãs em Cristo veem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras”, pode ler-se no texto da declaração conjunta.

Francisco e Kirill no texto da declaração exortam a comunidade internacional à união para porem termo “à violência e ao terrorismo”. Apelam para a paz, para a “ajuda humanitária” aos refugiados e referem o martírio dos cristãos.

Após a assinatura da declaração conjunta o Papa Francisco e o Patriarca Kirill proferiram breves declarações:

“Temos o mesmo Batismo, somos bispos. Falamos das nossas Igrejas e concordamos que a unidade se faz a caminhar” – afirmou o Papa Francisco que sublinhou ter sentido a “consolação do Espírito” no diálogo com o Patriarca Kirill.

Francisco agradeceu a “humildade fraterna” do patriarca russo e os seus “bons desejos de unidade”.

O Patriarca Kirill, por sua vez, ressaltou nas suas declarações a abertura do encontro com o Papa e as preocupações com o “futuro do Cristianismo”.

Kirill sublinhou ainda que as duas Igrejas podem “cooperar” trabalhando para o respeito da vida humana.

Sobre este histórico acontecimento o Cardeal Kurt Koch, Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos afirmou à RV que este encontro de Cuba é um passo corajoso que trará bons frutos:

“Seguramente irá forjar as relações dentro da ortodoxia. Até agora, com muitos dos Patriarcas Ortodoxos, não temos contactos – entre o Papa e estes Patriarcas – e este encontro poderá contribuir também para aprofundar as relações intra-ortodoxas, precisamente em vista do Concílio Pan-Ortodoxo que se realizará em junho, em Creta. Neste ponto, seguramente trará bons frutos para o diálogo teológico, que nós conduzimos não somente como Igrejas particulares, mas com o conjunto da ortodoxia; e no momento em que houver relações melhores, uma melhor compreensão mútua entre Roma e Moscovo, isto seguramente poderá ter reflexos positivos no diálogo teológico.”

“Acredito que o Patriarca russo-ortodoxo esteja profundamente consciente desta atmosfera, destas reações, e esta é a mais forte confirmação da vontade de realizar este encontro. Neste sentido, gostaria de dizer que este gesto do Patriarca é seguramente um passo corajoso” – disse o Cardeal Kurt Koch.

De registar que nesta entrevista o Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos afirmou que o Papa Francisco no voo de regresso da visita à Turquia disse claramente ter o desejo de encontrar o Patriarca Ortodoxo Kirill: “ele pode decidir onde e como e eu vou” – declarou o Santo Padre na ocasião.

Entretanto, o Patriarca Kirill esteve recentemente de visita ao Brasil e em S. Paulo celebrou uma Divina Liturgia na Catedral Metropolitana Ortodoxa Antioquina no bairro do Paraíso. Participou nesta celebração o Cardeal Odilo Scherer, arcebispo de S. Paulo.

Na ocasião, Kirill afirmou sentir a “dor de todos os cristãos que são oprimidos hoje”. Apelou para a paz na Síria e no Médio Oriente e recordou o encontro com o Papa Francisco em Cuba. O Patriarca de Moscovo declarou ainda a necessidade da organização de uma coligação contra o terrorismo.

Sobre o encontro de Cuba entre Kirill e Francisco falou à RV o Cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de S. Paulo que assinalou ser algo de fundamental para o futuro da cristandade:

“Foi um encontro realmente histórico, algo fundamental para o futuro da cristandade, porque abriu novas portas depois de mil anos, praticamente, para poder se fazer um caminho mais fortemente unidos; embora haja caminho ainda para a unidade. Creio que não há como sublinhar suficientemente a importância deste encontro que dá muitas esperanças para o futuro. A unidade maior entre as duas Igrejas favorecerá muito a construção da paz no mundo”.

No Rio de Janeiro, o Patriarca Kirill para além de participar de um momento de oração no Corcovado, aos pés do Cristo Redentor, visitou a Igreja Ortodoxa Russa de Santa Mártir Zenáide, em Santa Teresa.

A este propósito a redação brasileira da RV ouviu o diácono Marcelo Paiva, da Igreja Ortodoxa Russa e pertencente ao clero da Missão da Proteção da Mãe de Deus no Rio de Janeiro e que realçou a importância do diálogo e a procura dos pontos em comum num entendimento cada vez mais próximo dos cristãos.

Kirill e Francisco encontraram-se em Cuba dando um passo histórico para a unidade dos cristãos. “Sal da Terra, Luz do Mundo” é aqui na Rádio Vaticano em língua portuguesa.



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Patriarca ortodoxo russo encerra visita ao Brasil no RJ e em SP

O patriarca ortodoxo russo Kirill reza no Cristo Redentor

O patriarca de Moscou e de toda a Rússia, Kirill, concluiu ontem em São Paulo o seu périplo pela América Latina que começou no último dia 12 de fevereiro, quando teve o encontro histórico com o papa Francisco em Havana, capital de Cuba.

Antes de chegar a Brasília na sexta-feira, dia 19, onde se reuniu com a presidente Dilma Rousseff, o chefe da Igreja Ortodoxa Russa passou rapidamente pelo Paraguai e pelo Chile.

No sábado, dia 20 de fevereiro, o patriarca Kirill realizou o seu tão desejado sonho, de conhecer o Cristo Redentor, no Corcovado, onde oficiou uma cerimônia na qual estava presente D. Orani João Tempesta, cardeal católico do Rio de Janeiro, conforme se pode ver no vídeo abaixo, da teleSUR:


Na sua homilia no Corcovado, o líder russo enfatizou a necessidade de se renovar a fé cristã e combater a perseguição que os cristãos sofrem em todo o mundo, em especial no Oriente Médio e na África, bem como aproveitou para criticar o aborto, os divórcios e a alteração do conceito de casamento como a união entre homem e mulher, conclamando os católicos a enfrentar conjuntamente estes desafios.

Já no domingo, 21 de fevereiro, Kirill visitou São Paulo, onde está concentrado o maior número de fiéis ortodoxos russos no Brasil (cerca de 3.000 seguidores).

A celebração aconteceu no belo templo da Catedral Metropolitana Ortodoxa de São Paulo, localizada no bairro do Paraíso e pertencente ao Patriarcado de Antioquia, mas que foi fraternalmente cedida ao patriarca russo para que ele oficiasse a missa que contou com a presença do cardeal católico D. Odilo Pedro Scherer, e do prefeito da capital, Fernando Haddad, cujo avô paterno, Cury Habib Haddad, se tornou padre ortodoxo antioquino após ficar viúvo.

Na cerimônia paulista, o patriarca Kirill repetiu os temas de sua pregação no Rio de Janeiro, e concluiu sua visita ao Brasil com uma visita no começo da tarde de domingo à Igreja Ortodoxa Russa de Nossa Senhora da Anunciação, no bairro paulistano do Ipiranga, de onde se dirigiu ao aeroporto de Guarulhos para retornar a Moscou.

Termina assim a primeira peregrinação de um patriarca ortodoxo russo por terras latino-americanas.

Patriarca Kirill celebra missa em São Paulo, com presença do cardeal D. Odilo Scherer e do prefeito Fernando Haddad



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Dilma Rousseff recebeu o patriarca ortodoxo russo em Brasília


A informação é do Terra, com vídeo do encontro mais abaixo:

Patriarca russo Kirill inicia visita ao Brasil em reunião com Dilma

O patriarca ortodoxo russo Kirill se reuniu nesta sexta-feira com a presidente Dilma Rousseff no início de sua visita de três dias ao Brasil, o último dos países de sua viagem pela América Latina.

O encontro, inicialmente previsto para o Palacio do Planalto, foi antecipado e realizado no Palácio da Alvorada. Após uma recepção no gabinete de Dilma, que foi aberto para o registro de imagens por parte da imprensa, a governante e o patriarca se reuniram em privado na biblioteca do palácio.

Depois do encontro com a presidente, o patriarca viajou para o Rio de Janeiro, onde neste sábado celebrará uma missa no alto do Corcovado e depois se reunirá com o arcebispo da cidade, o cardeal Dom Orani Tempesta. O patriarca russo termina no domingo, em São Paulo, sua visita de três dias ao Brasil.

Na capital paulista, o líder religioso celebrará uma liturgia magna na Igreja Ortodoxa Antioquina, próxima à Avenida Paulista, e visitará a Igreja Ortodoxa Russa de Nossa Senhora da Anunciação, no tradicional bairro do Ipiranga.

Segundo um comunicado do governo, a igreja ortodoxa russa conta com 150 milhões de fiéis no mundo todo e no Brasil os praticantes estão calculados entre 3 mil e 4 mil, a maioria no estado de São Paulo.




quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Cardeal do RJ receberá patriarca ortodoxo russo no Cristo Redentor

A matéria é do Sputnik News:

Exclusivo – D. Orani Tempesta: ‘Acolhemos o Patriarca Kirill como um verdadeiro irmão’

Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro afirma que “essa visita do Patriarca Kirill à América Latina é sinal de boa vontade e de aproximação, já que a América Latina é o grande continente católico do mundo, e a presença do Patriarca Kirill aqui vem trazer laços de amizade e de fraternidade”.

O líder da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill, Patriarca de Moscou e de Toda a Rússia, chega ao Brasil na sexta-feira, 19, para uma visita de três dias ao país. A primeira etapa da viagem será em Brasília. No sábado, 20, o Patriarca estará no Rio de Janeiro, e, no domingo, 21, em São Paulo.

No Rio de Janeiro, Kirill cumprirá extensa programação, desde a celebração de atos religiosos junto ao Monumento do Cristo Redentor, no Corcovado, até uma visita à Paróquia de Santa Zenaide, em Santa Teresa, na qual se congregam os fiéis da Igreja Ortodoxa Russa.

Sobre a presença do Patriarca Kirill no Brasil e, particularmente, no Rio de Janeiro, Sputnik conversou com o Cardeal Arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, que estará presente às celebrações de Kirill no Cristo Redentor.

Além de desejar uma feliz estada ao Patriarca Kirill, Dom Orani ressaltou a importância dessa visita, afirmando que ela aproxima ainda mais os fiéis das Igrejas Católica Apostólica Romana e Ortodoxa Russa e, de uma forma mais ampla, os povos do Brasil e da Rússia.

A seguir, a entrevista com o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro.

Dom Orani Tempesta: Devemos agradecer a Deus por esta oportunidade de poder falar e também transmitir a nossa alegria em receber aqui no Rio de Janeiro o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Patriarca Kirill, e assim também poder acolhê-lo como cristão católico, na fraternidade, como irmãos que se unem, para causas comuns, para preocupação do bem comum do nosso planeta.

S: É a primeira visita do Patriarca Kirill ao Rio de Janeiro. Entretanto, como Metropolita, ele já esteve outras vezes no Rio de Janeiro. Que importância o senhor atribui a esta visita?

OT: Eu creio que é uma visita muito importante. Afinal de contas, o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa é uma pessoa importante dentro da ortodoxia, e após o encontro que ele teve com o Papa Francisco em Havana, Cuba, esta visita se tornou ainda mais importante, porque é uma continuação desse relacionamento fraterno entre os católicos e os ortodoxos russos, sabendo que cremos no mesmo Cristo, buscamos o mesmo Deus e, ao mesmo tempo, temos histórias em comum durante mais de mil anos. E esperamos que, passado tanto tempo, muita coisa, cada um permanecendo dentro da sua realidade, realizando a sua caminhada histórica, também possamos vislumbrar caminhos comuns para nós nos tempos atuais. A Arquidiocese do Rio de Janeiro recebe com muita alegria e com muita dignidade o Patriarca Kirill.

S: O Patriarca Kirill estará no Rio de Janeiro no sábado, e o ponto alto dessa visita será a ida do Patriarca ao monumento ao Cristo Redentor, no Corcovado. O senhor estará presente às celebrações?

OT: Sim, eu creio que o principal momento da vinda do Patriarca Kirill ao Rio de Janeiro será sua oração aos pés do monumento ao Cristo Redentor. É um desejo do Patriarca poder visitar este local que é símbolo do Brasil, poder ver essa presença e essa oração. Eu creio que o Cristo de braços abertos bem representa o acolhimento ao Patriarca e, ao mesmo tempo no alto do Corcovado, a nossa oração para que haja paz em nossa sociedade, em nosso mundo. E eu estarei, se Deus quiser, presente, acolhendo o Patriarca no patamar do Redentor, mesmo porque ali é um santuário da Igreja Católica, santuário arquidiocesano, e queremos acolhê-lo como um irmão que chega para rezar e ali fazermos orações juntos.

S: Em nossa entrevista anterior nós perguntamos ao senhor quando poderia acontecer a reaproximação entre as Igrejas Católica Apostólica Romana e Ortodoxa Russa, e o senhor nos disse que ela aconteceria em menos tempo do que se imaginava. Então, está aí comprovado o que o senhor nos disse há menos de dois anos.

OT: Realmente, eu creio que os passos vão ficando maduros. E ao mesmo tempo que nós vamos vendo a necessidade de os cristãos se aproximarem, respeitando a identidade, a tradição e a história de cada um, é uma oportunidade também de ver que nós podemos estar juntos em tantos aspectos importantes para a sociedade. Eu creio que essa visita do Patriarca Kirill à América Latina é sinal de boa vontade, de aproximação, já que a América Latina é o grande continente católico do mundo, e a presença do Patriarca Kirill aqui vem trazer esses laços de amizade e de fraternidade.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Igreja russa paga dívida com orações

Eu fico até com medo de republicar essa notícia aqui no Brasil, porque o que vai ter de gente fundando "igrejas" (e aproveitando as denominações já existentes) pra pagar dívidas com "orações" não tá no gibi...

A matéria é da BBC Brasil:

Igreja russa 'paga' dívida de R$ 15 mil com orações

Uma igreja ortodoxa russa encerrou uma dívida de 300 mil rublos (R$ 15 mil) em troca de orações pela saúde dos credores.

O caso envolveu a diocese, localizada na cidade de Nizhny Novgorod, a quinta maior do país, e uma construtora. A companhia havia instalado um sistema de calefação em um dos edifícios da instituição religiosa, informou o site de notícias russo Znak.

A igreja alegou, no entanto, que só tinha dinheiro para pagar metade da dívida total ─ de cerca de 916 mil rublos (R$ 46 mil).

Antes de a briga ser levada aos tribunais, as duas partes chegaram a um acordo quando os donos da construtora, que são fiéis da diocese, aceitaram eliminar parte do débito por orações.

Segundo a Justiça russa, é a primeira vez que um acordo do tipo é realizado.

O departamento jurídico da diocese afirmou ao site de notícias russo Gazeta.ru que a ideia partiu dos próprios credores. “Ficamos surpresos...Eles mesmos vieram com a sugestão", afirmou um representante da igreja.

O diretor de vendas da construtora, Andrei Lepustin, afirmou que os donos da empresa não planejam checar como o acordo será implementado.

"Respeitamos a diocese e somos todos fiéis da Igreja Ortodoxa russa", disse ele ao Gazeta.ru.

"Dependerá da consciência deles implementar (o acordo), mas confiamos neles e já sentimos os frutos das orações, na medida em que os indicadores econômicos da companhia vêm mostrando um desempenho positivo", acrescentou.



sábado, 13 de fevereiro de 2016

O encontro do papa com o patriarca ortodoxo russo em Cuba


Ontem, 12 de fevereiro de 2016, foi um dia histórico para a cristandade. Depois de séculos de separação, o papa Francisco se encontrou com o patriarca Kiril, da Igreja Ortodoxa Russa, no aeroporto de Havana, capital de Cuba, conforme vínhamos divulgando aqui no blog nos últimos dias.

Com cerca de 200 milhões de fiéis, a Igreja Ortodoxa Russa é a maior dentre as comunidades ortodoxas orientais, e até ontem, era a mais reticente em conversar com os católicos, devido ao cisma de 1054, que afastou definitivamente os patriarcados ortodoxos do Oriente do papado de Roma.

Embora evangelizada desde o século IX via Kiev, hoje na Ucrânia, a Rússia somente teve o seu patriarcado autocéfalo (reconhecido como independente pelas demais comunidades ortodoxas) em 1589, com Job sendo o primeiro Patriarca de Moscou e de todas as Rússias.

A Igreja Ortodoxa Russa se tornou, com o avançar dos séculos, a comunidade cristã mais representativa do Oriente, passando a se considerar como a verdadeira sucessora de Roma no imaginário cristão, e imiscuindo-se cada vez mais na política, tanto que o nome do imperador russo (tsar, tzar ou czar) deriva da palavra latina Caesar ("César").

Perseguida durante a etapa comunista da União Soviética (1917-1991), os ortodoxos russos não perderam sua força e hoje têm uma relação bastante próxima com o presidente Vladimir Putin, a quem muitos atribuem um certo "empurrãozinho" para que a reunião de ontem acontecesse.

Coube ao presidente de Cuba, Raúl Castro, servir como uma espécie de "testemunha" para a declaração conjunta dos dois pontífices. O texto integral está no portal da Rádio Vaticano.

Afinal, política, religião e diplomacia continuam fazendo o planeta girar a seu bel prazer desde que o mundo é mundo.

Kiril é o atual patriarca de Moscou, e coube a ele o privilégio de se encontrar com o papa Francisco ontem em Havana, pondo fim a uma separação que remonta à Idade Média.

O encontro dos dois líderes foi bastante fraternal e amistoso, conforme se pode ver no vídeo abaixo, e a melhor conclusão dele foi dada pelo papa Francisco, que disse que "a unidade se faz caminhando".

De fato, a jornada para a reconciliação entre as duas confissões é longa e dura, mas o primeiro e significativo passo foi dado ontem em Cuba.






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Patriarca ortodoxo russo visitará o Brasil

A informação é da Agência Brasil:

Patriarca da Igreja Ortodoxa começa amanhã viagem pela América Latina

Ana Cristina Campos

O patriarca ortodoxo russo Kirill fará visita a Cuba, Paraguai e Brasil entre os dias 11 e 21 deste mês. Na primeira parada, em Cuba, ele terá um encontro histórico com o papa Francisco no dia 12, no Aeroporto de Havana.

Segundo o Vaticano, será “o primeiro encontro da história” entre os dois principais dirigentes cristãos do Ocidente e do Oriente, separados desde o Grande Cisma de 1054 que dividiu a cristandade.

A reunião ocorrerá durante uma visita à América Latina do patriarca Kirill e da viagem ao México do papa Francisco, que será entre os dias 12 e 18.

O encontro terá início com uma reunião de duas horas e será concluído com a assinatura de uma declaração comum. O chefe das Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa russa, metropolitano Hilarion de Volokolamsk, informou que o tema das perseguições aos cristãos será central na conversa entre os líderes. Ele disse esperar que o encontro entre Francisco e Kirill “abra uma nova página nas relações entre as Igrejas”.

“A situação atual no Oriente Médio, no Norte e no Centro da África e, em outras regiões, onde extremistas estão perpetrando um verdadeiro genocídio contra a população cristã, tem requerido medidas urgentes e cooperação mais próxima entre as igrejas. Nesta trágica situação, é necessário colocar de lado as desavenças internas e unir esforços para salvar a cristandade nas regiões onde está sujeita a mais severa perseguição”, afirmou o chefe das Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa russa.

Durante sua estada em Cuba, está planejada a visita do patriarca russo ao ex-presidente Fidel Castro e ao atual dirigente Raúl Castro. No domingo (14), Kirill vai celebrar missa em uma igreja ortodoxa russa em Havana e seguirá para o Paraguai, onde será recebido pelo presidente Horacio Cartes, segundo o metropolitano Hilarion.

Brasil

No dia 19, o patriarca Kirill estará em Brasília e, de acordo com a Igreja Ortodoxa russa, será recebido pela presidenta Dilma Rousseff. A Secretaria de Imprensa da Presidência da República não confirma o encontro.

No dia 20, o líder da Igreja Ortodoxa russa estará no Rio de Janeiro onde rezará missa no Corcovado. No dia seguinte, ele conclui, em São Paulo, a viagem pela América Latina.

Edição: Talita Cavalcante



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Implicações diplomáticas do encontro do papa com o patriarca ortodoxo russo


A matéria é do IHU:

Santa teimosia. A diplomacia do encontro entre o Papa e Kyrill


"Que este encontro ocorra em Cuba – ilha um tempo símbolo da guerra fria que estava para transformar-se em conflito nuclear, se não tivesse sido pela audaz e profética intervenção do Papa Francisco, caiu outro muro simbólico, é um daqueles sinais dos tempos que é preciso captar: como teria sido possível prosseguir na denegação de um abraço entre irmãos na mesma fé, quando até aguerridos inimigos históricos decidem voltar a se falar? Ali, no aeroporto daquela ilha, se manifestará a eficácia da convicção do Papa Francisco, que possamos definir santamente teimosa: entre irmãos cristãos não se pode não encontrar-se", observa Enzo Bianchi, prior do Mosteiro de Bose, teólogo leigo, em artigo publicado por Repubblica, 07-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger. 


Eis o artigo.


Não o acaso, não as coincidências, mas o paciente trabalho de tantas pessoas, as preces de muitos fiéis, a resoluta vontade dos dois primazes e as circunstâncias históricas fizeram, sim, que este abraço ocorresse não na Europa, ante as multidões ortodoxas ou católicas movidas pelo extraordinário evento, mas na ilha do Caribe, num aeroporto, lugar laico por excelência, ágora da era contemporânea, espelho evocativo de viagens, de chegadas e partidas, onde as pessoas se cruzam, mas não se conhecem, mas também lugar simbólico de decolagens para novos horizontes e perspectivas.

Aquela disponibilidade patenteada pela presença de observadores do patriarcado de Moscou no Concílio Vaticano II, aquele auspício levado a Roma pelo metropolita Nikodim falecido entre os braços de João Paulo I, aquele elo cultivado de uma parte e da outra pela ex-cortina de ferro de modo particularmente intenso após a queda do regime soviético, aquele desejo alimentado pelos esforços de João Paulo II e pela sabedoria de Bento XVI é hoje uma realidade, ao mesmo tempo fruto de anos laboriosos e germe de messes ainda mais abundantes.

João Paulo II havia sonhado com a viagem a Moscou e foram feitas tentativas significativas, mas sempre se confrontara com a recusa da igreja ortodoxa russa que repetia: “os tempos não estão maduros”. De fato, a memória dos conflitos patriótico-religiosos entre a Polônia católica e a Rússia ortodoxa e a defesa dos uniatas greco-católicos na Ucrânia da parte de um Papa polaco não dissipava a desconfiança. Fora projetado um encontro no mosteiro beneditino de Pannonhalma na Hungria, depois na Áustria, alguns haviam ventilado o encontro em torno ao Sudário em Turim... mas, de fato nenhuma hipótese resultara praticável.

O que, então, acelerou este encontro, preparado com discrição há meses, mas anunciado no último momento? Quem segue desde o início o intensificar-se das relações entre Roma e Moscou, quem conhece o que anima simples trocas de cortesias ou mensagens aparentemente rituais de vizinhança e fraternidade, pode pesar o alcance deste encontro além de todo cálculo geo-religioso ou de realpolitik.

É um encontro que é fruto de sapiente tessitura diplomática, mas antes e mais ainda de uma consciência compartilhada: os cristãos devem prestar contas de suas divisões e dos esforços para superá-las não por uma instância internacional, mas pela precisa vontade de seu único Senhor. As recaídas concretas também fora do espaço eclesial existirão, certamente, e serão extremamente significativas, mas mais decisivas ainda serão as consequências no plano do diálogo ecumênico e da busca da unidade dos cristãos.

Não se falará de problemas teológicos – por isso faz anos que a comissão mista católico-ortodoxa, e nenhuma igreja ortodoxa particular é habilitada a diálogos teológicos bilaterais – mas, sobretudo dos problemas onerados de sofrimento dos católicos e dos ortodoxos na Ucrânia e dos cristãos perseguidos no Oriente Médio, os quais pedem solidariedade e ajuda.

É significativo, em todo caso, que a Igreja greco-católica na Ucrânia tenha adotado somente agora, após vinte e dois anos, o que tinha sido firmado entre católicos e ortodoxos em Balamand, em 1993: “a recusa do unitarismo como método de busca da unidade de pesquisa da unidade porque oposto à tradição comum das nossas igrejas”.

Também o metropolita Hilarion, ao apresentar o evento, recordou que motivos de tensão permanecem, sobretudo na intricada questão ucraniana, bem como impulsos à solidariedade se fazem urgentes nos Países onde os cristãos, independentemente de sua confissão, são vítimas de arbitrariedades, violências e perseguições.

Mas, na ótica cristã, o principal fator de aproximação não são as adversidades que surgem dentro ou fora do espaço eclesial, nem as oportunidades estratégicas de hipotéticas santas alianças, e sim a vontade de restabelecer aquela comunhão fraterna que é grande sinal que caracteriza os discípulos de Cristo.

Uma concórdia não “contra”, não em oposição a inimigos externos, mas fruto de uma comum conversão ao Senhor da paz e da unidade. Os cristãos não procuram a unidade porque assim lhes convém a ser muito mais numerosos, mais fortes de modo a contar mais plenamente entre os poderosos deste mundo: a procuram porque é a precisa vontade do próprio Jesus, e, segundo os Evangelhos, é o último preceito por Ele confiado aos seus discípulos.

É fácil imaginar que este encontro terá um peso considerável também sobre os trabalhos do próximo sínodo pan-ortodoxo: não porque expressão de alguma ingerência do bispo de Roma nas questões internas ao cristianismo do Oriente, mas porque capaz de favorecer um clima de diálogo e de recíproca compreensão também no interior da própria ortodoxia.

Não por nada, o primeiro a alegrar-se por este anúncio foi precisamente o patriarca ecumênico Bartholomeos. A nítida cordialidade de relações subitamente instaurada entre Francisco e Bartholomeos – o primus inter pares da ortodoxia – poderá agora caracterizar também as relações com o primaz da Igreja ortodoxa com o maior número de fiéis. Uma vez que dois guardiões se cruzam e dois corações se falam, de fato, é difícil que o gelo e a distância voltem a fazer sentir seu desconforto.

Que, enfim, este encontro ocorra em Cuba – ilha um tempo símbolo da guerra fria que estava para transformar-se em conflito nuclear, se não tivesse sido pela audaz e profética intervenção do Papa Francisco, caiu outro muro simbólico, é um daqueles sinais dos tempos que é preciso captar: como teria sido possível prosseguir na denegação de um abraço entre irmãos na mesma fé, quando até aguerridos inimigos históricos decidem voltar a se falar? Ali, no aeroporto daquela ilha, se manifestará a eficácia da convicção do Papa Francisco, que possamos definir santamente teimosa: entre irmãos cristãos não se pode não encontrar-se.

Lembrando-se das palavras de Jesus “Se alguém te pede andar uma milha, anda com ele duas” (MT 5, 41) – Francisco não solicitou que o patriarca se movesse para ele indo a Roma – como já fizeram todos os outros patriarcas – não solicitou ir à Rússia, suscitando talvez a sensação de triunfo sobre o antigo inimigo soviético desaparecido, mas disse: onde o patriarca quiser, quando quiser, como quiser. Uma autêntica obediência ao Evangelho e nada mais.



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