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domingo, 23 de julho de 2017

Sobre magia, auto-ajuda e graça de Deus

Coluna de Leandro Karnal publicada no Estadão de 19/07/17:

A magia do amor

A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade

Existe um livro extraordinário de Sir Keith Thomas: Religião e o Declínio da Magia – Crenças Populares na Inglaterra, Séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 1991). A pergunta básica do professor de Oxford ao lançar o livro, em 1971, foi saber por qual motivo a crença no pensamento mágico declinou na Idade Moderna. O livro é repleto de trechos memoráveis e é daquelas leituras que lamentamos terminar. Qual o motivo para um livro tão fundamental estar esgotado há mais de 25 anos? Trata-se de insondável mistério editorial brasileiro.

Após examinar astrologia, bruxas, fantasmas e outros, ele encerra a obra com um capítulo sobre o recuo das crenças mágicas. Por qual motivo ocorreu o declínio mágico? Para o autor, o avanço do pensamento científico, dos seguros (que diminuem a insegurança) e da própria reforma protestante colaborou para o processo. Porém, uma nova atitude pessoal de confiança em si foi anterior ao processo de crescimento científico. Para Thomas, a magia declinou um pouco antes de um domínio real do pensamento científico. “Na medicina, como em outras áreas, as teorias sobrenaturais saíram de cena antes que entrassem técnicas eficazes” (pág. 537); “Somos, portanto, forçados a concluir que os homens se emanciparam das crenças mágicas sem terem, necessariamente, criado quaisquer tecnologias eficazes para pôr no lugar delas” (pág. 540).

Há, na primeira modernidade, a ascensão de um modelo de confiança e segurança do valor de cada um, que excede o campo do avanço técnico. Os séculos 18 e 19 viram emergir a crença otimista no indivíduo, que tem uma ponta, simbólica, no Iluminismo. Keith Thomas trata do tema da autoajuda, da ideia de autonomia de cada consciência de promover uma melhora efetiva na sua vida e no seu meio. Com certos recuos, a curva ascensional da autoajuda é o sintoma do mundo que substituiu ou transformou as crenças mágicas.

Vejamos três exemplos. Um dos grandes sucessos editoriais do século 19 foi o livro Self-Help, de Samuel Smiles (1812-1904). O livro do escocês é do mesmo ano da Origem das Espécies, de Charles Darwin: 1859. O texto é um louvor ao modelo do empreendedor, citando grandes nomes dos negócios e dando conselhos muito úteis sobre o uso de dinheiro e progresso. Acima de tudo, espalha a ideia de que você é gestor da sua vida. O tímido igarapé de Samuel Smiles viraria um caudaloso rio no mundo atual. Até a morte do autor, o livro tinha atingido a cifra de quase um quarto de milhão de exemplares vendidos e era admirado por quase todos no Império Britânico.

O processo de ascensão do realizador individual que se orienta rumo ao sucesso cresceu. Ele é contemporâneo de duas outras criações. O segundo exemplo é o crescimento da questão do amor materno e da certeza do amor incondicional. A Idade Moderna é a lenta ascensão da figura da mãe e da devoção aos filhos que aparecem no Emílio (1762) de Rousseau ou nas pinturas de madame Vigée LeBrun (1755-1842). O século 19 é o triunfo da criança e do amor materno, consagrado, no início do 20, com a instituição do Dia das Mães.

O amor materno torna-se incondicional e assim será representado. A mãe desnaturada é um monstro e a literatura vai torná-la uma caricatura. As crianças passam a ouvir que são lindas, que podem contar sempre com o auxílio materno e que tudo será perdoado. Mudamos a psicologia do indivíduo ocidental.

O último ponto a transformar é a customização do Deus do Juízo Final, do deus vingativo do Dies Irae e do capítulo 25 de Mateus para um deus de pleno amor e inesgotável perdão. O deus definido como amor (como no apóstolo João) substituiu o Deus do afresco de Michelangelo. Nada de um Jesus juiz, mas um Jesus todo amor. A ascensão do culto católico ao Sagrado Coração, sempre aberto e receptivo, sempre acolhedor e que me ama incondicionalmente é um salto imagético. Os protestantes, com mau humor, chamaram o culto ao Coração de Jesus como “idolatria cardíaca católica”.

Um Deus julgador e terrível condenando almas ao inferno aparece nas visões das crianças de Fátima, mas representam uma voz camponesa e pouco culta de um mundo antigo. A vitória era do misericordioso coração do qual emanam graças incessantes sobre todos. Claro que o tema de Deus-amor é bíblico e a misericórdia divina é milenar. Porém, basta comparar um catecismo antigo cheio de pecados e punições com um atual, cheio da beleza de um Deus sorridente e amigão.

Livros de autoajuda, mães incondicionais e Deus misericordioso expondo seu coração a uma humanidade pecadora são três exemplos (há centenas) de uma nova concepção de um indivíduo otimista e feliz, cheio da ideia de que o mundo o ama e que deve estar à sua disposição. A nova crença em si substituiu (ou sublimou) a crença mágica de outrora. A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade. Relendo a obra de Keith Thomas, interrompia o livro para pensar nos novos deuses humanos, o Homo Deus de Yuval Harari. Terminei o livro no sábado pensando: acho que ainda teremos saudades do pensamento mágico que colocava o mal em bruxas que podiam ser queimadas. O novo homem feliz e realizado é um deus terrível. Boa semana a todos!



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Leandro Karnal disseca a amizade

O artigo foi publicado no Estadão em 28/08/16:

Porque era ele, porque era eu

Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso

João deitou a cabeça no peito de Jesus. Era a confiança absoluta no Mestre durante a última ceia. Poucas horas depois, o gesto era retribuído e magnificado: Jesus entregou-lhe a guarda da pessoa mais importante. “Filho, eis aí tua mãe”. A cena sob a Cruz mostra algo sublime: a amizade tornara João parte da família.

Amizades surgem entre pessoas que se admiram. A estreita relação entre os filósofos Montaigne e Étienne de la Boétie resulta numa das mais belas frases já escritas sobre este tipo de afeto. Nos seus ensaios, o nobre tenta explicar por que amava La Boétie. Só consegue dizer que a causa central era “porque era ele, porque era eu”. O autor dos Ensaios reconhece que, na especificidade absoluta do outro, está a chave da fusão elevada a que chamamos amizade.

A cabeça pendente de João e a afirmação de Montaigne mostram que a amizade encontra um campo além da razão: algo entre a fraternidade adotada e a entrega ao mistério da afinidade afetiva. Fraternidade adotada porque o amigo torna-se um irmão por desejo recíproco. O mistério da afinidade afetiva porque, diante do amigo, torno-me, de fato, quem sou. Não existe uma racionalidade que abarque isso. A amizade é uma epifania lenta.

Há pedras no caminho. Amigos também possuem egos e as circunstâncias, por vezes, sufocam tudo. Desde que se conheceram na Paris ocupada, Sartre e Camus perceberam uma atração afetiva imediata. Já admiravam a obra um do outro. Dois homens diferentes: Sartre, burguês e bem formado; Camus de família pobre e nascido na Argélia. Também havia o fato de que o parisiense se esforçava muito para agradar às mulheres, mas era feio como uma cólica. Camus era bonito, mas sem a lábia retórica do autor de A Náusea. Havia uma admiração recíproca e uma concorrência entre ambos. Sartre apoiou a URSS mais do que Camus gostaria e as conversas foram ficando ácidas. Numa carta endereçada à revista que Sartre dirigia (Les Temps Modernes), ocorreu o afastamento definitivo. Sartre respondeu no mesmo número com um texto muito duro, duvidando até da capacidade de compreensão filosófica do ex-amigo. A trágica morte de Camus impediu uma reaproximação. Sartre escreveu um lindo obituário. A morte vencera o ego.

Vaidades e disputas afastam amigos. Alguns afirmam que ex-amigos, de fato, nunca foram amigos de verdade.

Ocorrera algo similar no Brasil. Oswald de Andrade jogou sobre Mário de Andrade duas palavras que evisceravam os pontos mais dolorosos do autor de Macunaíma: chamou-o de “boneca de pixe”. Atacando Mário como mulato e homossexual, Oswald causou uma ferida que nunca cicatrizou. Amigos se aproximam do coração e, quando isto resulta em estocada, ela quase sempre é fatal. Amigos baixam a guarda uns para os outros e este setor não defendido, ao ser flechado, magoa como poucas coisas.

Talvez a amizade seja sempre um desafio. Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso. Os amigos nos conhecem e, para eles, as cenografias sociais são inúteis. Sim, nossos amigos nos amam, e nos conhecem, e nunca saberemos se nos amam por nos conhecer ou apesar de nos conhecer. Mas a entrega à amizade intensa é uma entrega a uma jornada de intimidade e apoio.

O olhar do amigo não tem a doçura absoluta do materno e escapa do tom acre e ressentido do inimigo. Assim, longe do mel estrutural e do fel defensivo, é um olhar de sinceridade. Para ter um amigo, preciso de condições específicas. Eu identificaria três fundamentais.

A primeira é a capacidade de se observar e continuar em frente. Uma conversa genuína com um amigo é uma dissecação anatômica da minha alma. Nem todos conseguem isso. Não é fácil atender ao preceito socrático: conhece a ti mesmo. Na minha experiência, conhecer aos outros é infinitamente mais fácil do que conhecer a si. Se os filósofos já garantiram que homens maus não possuem amigos, mas apenas cúmplices, eu acrescentaria que pessoas superficiais possuem apenas colegas e conhecidos, mesmo que os denominem amigos.

A segunda é o tempo. Não se criam amigos de um dia para o outro. Amigos demandam história, repertório de casos, vivências em conjunto. Amigos precisam viajar juntos. Assim, os afetos integram as vidas das respectivas famílias. Amigos acompanham nossos sucessos e fracassos amorosos, choram e riem com nossa biografia. Quem adicionei ontem na minha rede social é um fantasma, um fóton, jamais um amigo. Amigos precisam de cultivo constante. Todo amigo é, dialeticamente, um frágil bonsai e frondoso carvalho.

A terceira é o controle do próprio orgulho. A mais espaçosa dama da alma é a vaidade. Quando ela preenche o ambiente, sobram poucos assentos livres. Pessoas vaidosas são frágeis e temem a entrega da amizade. O amor é privilégio de maduros, dizia Carlos Drummond. Talvez a amizade também o seja. Talvez não seja apenas para maduros, mas, com certeza, é um privilégio. Encerro com o conselho sábio dado por um tolo. Polônio prescreve ao filho Laertes (peça Hamlet): “Os amigos que tens por verdadeiros, agarra-os a tu’alma em fios de aço; mas não procures distração ou festa com qualquer camarada sem critério”. O cortesão infeliz sintetiza tudo o que tentei escrever aqui. Já falou com seu amigo hoje? Um bom domingo a todos vocês!



domingo, 14 de agosto de 2016

Albert Camus, estrangeiro, estranhamento e fanatismo, por Leandro Karnal

Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:

Cordeiros de Deus

"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.

Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.

A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Evangélicos não votam em bloco

Artigo interessante de Leandro Karnal, historiador e professor de História Cultural da UNICAMP, publicado no Estadão de 06/09/14:

Rebanho não tão uniforme

Evangélicos não votam em bloco; imaginá-los como marionetes é preconceituoso, diz historiador

Um espectro ronda o Brasil: o voto evangélico. Há candidatos ligados a igrejas; uma parcela expressiva da população (algo entre 22,2% e 30%) se declara evangélica, e tem o peso da uma mídia ativa com capilarização notável. Desde o imponente Templo de Salomão, em São Paulo, a milhares de pequenas igrejas na periferia das cidades o mundo evangélico é um poderoso dínamo para as almas e para as urnas.

Como toda novidade, a ascensão religiosa tende a causar estranheza. No pôquer da política, um novo jogador sempre incomoda. Proponho, para discernir alguns temas, uma reflexão sobre três erros comuns e três meias verdades.

Erro 1: “A religião está começando a se meter em política”. As pirâmides do Egito, há quase 5 mil anos, mostram que poder, Estado e deuses são amálgama estrutural. Na Bíblia, Deus nomeia reis como Davi e destrói a oposição política a Moisés (Números, 16, 20-35). No Brasil, Estado e Igreja estiveram fundidos até a República. Podem variar os atores, o roteiro é muito antigo. Não há nada de novo sob o sol. O Estado laico é um sonho centenário, a teocracia, uma realidade milenar.

Erro 2: “A religião é o ópio do povo”. A citação parcial de Marx remete a um senso comum. Sim, religião pode atenuar choques sociais. Porém, organizações religiosas podem embasar atitudes muito críticas (como a Revolução Puritana na Inglaterra ou o MST, nascido nas sacristias da Pastoral da Terra). Religião é um poderoso catalisador social que pode ser dirigido para qualquer vetor. Religião pode ser alienante ou revolucionária. A Bíblia foi a base do movimento de reforma agrária e social anabatista no século 16. A Bíblia serviu para Lutero recomendar matar camponeses. Religião não é nada em si, mas pode ser qualquer coisa, inclusive revolucionária.

Erro 3: “Os evangélicos estão mudando a política brasileira”. Até o momento, isso não pode ser defendido com dados. As negociações de ministérios com lideranças evangélicas, a disputa eleitoral e os discursos mostram que a absorção dos políticos e do eleitorado evangélico é feita dentro da mais absoluta tradição tupiniquim. Seria possível dizer o contrário: a política brasileira está mudando os evangélicos. Reflexão interessante: Geisel era luterano, FHC, ateu, e Lula, católico. Alguém sentiu algo? Até o momento, a política parece estar alguns metros acima do Monte Sinai.

Meia verdade 1: “O voto evangélico torna a agenda política conservadora”. Como tendência geral, os evangélicos valorizam pontos como críticas ao casamento homoafetivo. Porém, a agenda política já é conservadora, como em geral é o voto no Brasil. Se submetidos a plebiscitos, itens como pena de morte apresentariam uma chance grande de aprovação. O tom médio do eleitorado, especialmente em questões de ordem moral, é muito conservador e isso antecede a presença evangélica no Parlamento. Os evangélicos não criam, apenas reforçam um reacionarismo difuso.

Meia verdade 2: “Marina representa o eleitorado evangélico”. Marina tem origem evangélica, mas o eleitorado evangélico também está pulverizado em outras candidaturas. Há tendência à solidariedade, mas há atomização das igrejas evangélicas. Também há uma migração interna de fiéis entre as diversas denominações, fenômeno que se acentuou na última década. Assim, não existe o voto evangélico “em bloco” no Brasil, e ele não está focalizado apenas em Marina Silva.

Meia verdade 3: “O eleitorado evangélico vota em quem os pastores mandarem”. Pastores e bispos apresentam influência sobre o rebanho, mas essa ideia subestima a capacidade crítica dos evangélicos e omite a mudança na composição social do grupo. Esse controle pode até ser desejado pelas lideranças religiosas, mas não existe como dado absoluto. O chamado “crente”, com sua roupa típica e seguidor da vontade do pastor, não é mais o perfil de várias igrejas, especialmente neopentecostais. Advogados, médicos, professores e empresários engrossam as fileiras da Renascer e da Universal. Imaginar que todos sejam eleitores marionetes é uma construção do preconceito.

Para encerrar: evangélicos não são obstáculo à democracia. Pelo menos, não constituem um obstáculo maior que a existência de centrais sindicais ou lobbies do agronegócio. O Parlamento é o local da diversidade da sociedade brasileira. Lá existe o pastor e o deputado ativista LGBT. Os evangélicos representam uma importante parcela da população e expressam suas posições através da mídia e da política. A diversidade faz parte do jogo e é saudável, ainda que eu possa não concordar com suas posições. Conviver com a diferença é um exercício árduo, tanto para evangélicos como para ateus e católicos.

A intelligentsia nacional ecoa velhos preconceitos. A crítica de certo público de elite aos evangélicos é um pouco de demofobia, de horror ao povo e seus estereótipos. Ninguém parece temer que o senador Pedro Simon seja católico fervoroso e franciscano terciário. Tudo isso está em ebulição intensa. O que acontecerá no futuro? Com o risco de parecer estranho, só Deus sabe.



sábado, 30 de agosto de 2014

Quer combater a violência? Comece por você mesmo!

Excelente artigo publicado no UOL Mulher. Estranhamente, entretanto, não há uma só menção ao papel que a mídia desempenha na educação e na perpetuação dos padrões de violência no Brasil:

Reconhecer a própria agressividade ajuda a conter a disseminação do ódio

Marina Oliveira e Suzel Tunes

O Conselho Nacional do Ministério Público divulgou dados alarmantes, em 2012: homicídios cometidos por impulso ou por motivos fúteis representaram 100% do total de assassinatos com causas identificadas registrados no Acre, entre 2011 e 2012. No mesmo período, em São Paulo e Santa Catarina, esse índice ficou acima de 80%.

Na categoria, entram crimes que começam com uma simples briga, motivada por conflitos entre vizinhos, desavenças, ciúmes e desentendimentos no trânsito. Em 2014, os casos de linchamento por suspeita de crime aconteceram em diferentes estados brasileiros. E, nas redes sociais, as declarações de ódio crescem e se espalham continuamente.

Mas o que leva um povo internacionalmente reconhecido como cordial e pacífico a agir motivado pela raiva? A resposta talvez esteja na própria questão. Afinal, a definição de cordialidade nada mais é do que agir com o coração. E ter as emoções à flor da pele também significa se deixar levar do amor ao ódio, em poucos segundos –basta lembrar dos crimes passionais.

E, ainda que esses dados sejam recentes, a história do país mostra que não fomos sempre um povo 100% pacífico. "O Brasil tenta jogar para debaixo do tapete a sua brutalidade. Mas é importante lembrar da nossa história violenta contra os índios e negros, do tempo do cangaço e das nossas guerras civis, que preferimos chamar de outro nome, como revolta ou insurreição", afirma o doutor em filosofia Gerson Leite de Moraes, professor de Ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas.

Ao ignorar a própria natureza agressiva, mascaramos a contribuição individual para o caos. Quem se vê como alguém pacífico, cercado de pessoas violentas, conclui que o problema está no outro e não em si.

"Incluir-se no mundo é fundamental para criar consciência. O trânsito é, de longe, o palco por onde desfila nossa boçalidade e violência. Mas a culpa é sempre do outro: do caminhão, do ônibus, das motos, dos pedestres, dos ciclistas, dos bêbados. Ninguém diz: o trânsito é ruim porque tem gente como eu circulando nas ruas", afirma o historiador Leandro Karnal, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

Assim, a violência é sempre definida pelo sujeito. Aquele que é agredido vai abrandar a própria reação, não menos violenta, como uma resposta justa de alguém que precisa se defender. É essa a perspectiva dos que argumentam que "bandido bom é bandido morto" e que preferem fazer justiça com as próprias mãos. Os envolvidos em linchamentos, por exemplo.

"Se nós trabalhássemos com uma ética mais geral, entenderíamos que, se é errado matar alguém, isso vale para o bandido e para o Estado. Sob essa perspectiva, o homicídio na rua é tão ilegal quanto dentro da prisão", diz o historiador.

O valor atribuído à força

Pesa também o fato de que o ódio, no Brasil, é visto como uma característica que confere força e capacidade de ação, um ensinamento passado de geração em geração. Na nossa cultura, alguém que se revolta é frequentemente julgado como uma pessoa de atitude, diferente daqueles que agem com tolerância e que se abrem para o diálogo. Esses últimos podem até ser vistos como fracos, apesar de colocarem a razão acima da emoção.

Para o historiador Leandro Karnal, o peso histórico da escravidão colocou o chicote como um argumento estrutural na consciência coletiva. "O que torna a violência sedutora é que ela funciona, enquanto a razão só tem êxito se os dois lados estiverem jogando de acordo com as mesmas regras", explica o especialista.

O descontentamento com o poder público, da mesma forma, aguça nas pessoas um ímpeto egoísta, uma tentativa de diminuir ou extinguir as violências que elas próprias poderão vir a sofrer futuramente. Aqueles que defendem a pena de morte, o porte de armas e a diminuição da maioridade penal, geralmente, compartilham esse sentimento.

"Onde não existe política e Estado, existe o despotismo e o egoísmo", explica a filósofa Adriana Mattar Maamari, professora da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos). "Nesse cenário, infelizmente, eclodem os piores movimentos, os mais insensatos e hostis aos próprios seres humanos, que opõem uns contra os outros. É a natureza humana tentando sobreviver em meio a tantas adversidades", diz.

Violência gera violência

Outro ponto de atenção é que quanto menos se coíbe a violência, mais ela cresce. Por isso, responder a um ato de agressividade sem hostilidade talvez seja o maior dos desafios contemporâneos. "Fica mais fácil fazer isso se compreendermos que somos falhos e capazes de praticar maldades, tanto quanto qualquer outra pessoa. O outro agiu mal, mas você também poderia ter agido. Todos nós somos sublimes e infames", afirma o filósofo Jorge Claudio Ribeiro, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Nos pequenos atos, a cultura da violência se perpetua. "O discurso agressivo e o bullying, por exemplo, desencadeiam violências maiores, assim como os comentários raivosos nas redes sociais", declara o professor de ética Gerson Leite de Moraes.

E como conter o próprio ódio em uma sociedade violenta, em que cada um reproduz o que aprendeu, ao longo dos anos? Para os especialistas, a educação ainda é a melhor saída. Tanto a adquirida nas escolas quanto a ensinada pelos pais, a aprendida em livros, debates e outras manifestações culturais.

"Na base da nossa violência está uma cegueira em relação ao outro. Por isso, defendo uma educação que dissemine a tolerância e indique que é bom que sejamos diferentes, do ponto de vista estético, sexual, social ou étnico. É preciso ensinar a solidariedade com o outro", diz Karnal.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Deuses esquecidos na poeira dos tempos

Matéria interessante com destaque para as afirmações: "a religiosidade é possivelmente o único critério que realmente distingue o ser humano dos outros animais" e “Quando uma pessoa é enterrada, existe a suposição de que há uma vida após a morte. Essa atitude, que também é uma crença, caracteriza o ser humano. Nenhum animal é capaz de tal abstração”.

Há também, a meu ver, uma aparente contradição (que merece ser melhor investigada) entre a afirmação de que - no que diz respeito à sexualidade - "a diferença de religiosidade entre os povos nos faz entender que a nossa religiosidade não é algo natural, mas sim cultural", e - posteriormente - a constatação de que "a única regra religiosa comum a elas talvez tenha sido o incesto, que somente muito tempo depois ganhou também uma dimensão genética".

De qualquer maneira, o artigo - do Jornal UNICAMP e repercutido na História Viva - abaixo transcrito é leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema:

As religiões que o mundo esqueceu

Organizado por docente do IFCH, livro mostra como determinados povos cultuavam seus deuses

MANUEL ALVES FILHO

A religião egípcia era obcecada pela perpetuação da alma. Os sumérios, por sua vez, criaram as primeiras histórias sobre o dilúvio. Já os albigenses formularam a ideia do mundo dividido entre dois poderes antagônicos, representados pelo bem e o mal. Esses e muitos outros aspectos relacionados à religiosidade humana são abordados no livro As Religiões que o Mundo Esqueceu. A obra, organizada pelo historiador Pedro Paulo Funari, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, reúne artigos de 13 especialistas, entre eles o próprio Funari, sobre religiões que desaparecem ou são praticadas por um reduzido número de pessoas na atualidade. “O objetivo do livro é mostrar a importância dessas religiões em suas respectivas épocas e os legados que elas nos deixaram”, afirma o docente.

A proposta do livro surgiu, conforme Funari, durante uma conversa entre ele e Jaime Pinsky, ex-professor da Unicamp e dirigente da Editora Contexto. “Como a Contexto já havia publicado um livro chamado Os Monoteístas, traduzido do inglês, que fala do cristianismo, judaísmo e islamismo, nós consideramos que seria interessante lançar uma obra que tratasse de outras religiões que foram relevantes no passado, mas que ou desapareceram ou permanecem esquecidas pelo grande público. Para isso, recorremos a especialistas brasileiros, a maioria deles vinculada ou que realizou parte da sua formação acadêmica na Unicamp”, explica o historiador. Ao todo, são abordadas 13 religiões, que são apresentadas em ordem cronológica. O texto, segundo ele, é acessível a qualquer pessoa que se interesse pelo tema. O primeiro capítulo, escrito por Julio Gralha, é dedicado à religião egípcia. Na sequência são tratados aspectos das manifestações religiosas dos povos sumérios, gregos, romanos, gnósticos, arianistas, persas, celtas, vikings, albigenses, maias, astecas e índios brasileiros. Aos autores, destaca Funari, foi pedido que trabalhassem as informações dentro do contexto histórico de cada época. Também foi solicitado que explicassem os ritos, mitos e a estrutura de poder eventualmente existente em cada uma das religiões. Questionado se existe algum ponto em comum entre as culturas religiosas contempladas no livro, Funari informa que não exatamente. O aspecto que de certa forma as aproxima é o fato de a religiosidade ser uma manifestação exclusiva do humano.

De acordo com o docente do IFCH, uma definição corrente dá conta de que o ser humano pode ser caracterizado pela sua capacidade de produzir instrumentos. Ocorre, porém, que alguns macacos também têm essa “habilidade”, visto que conseguem transformar galhos de árvores em ferramenta ou arma. Outra, ainda, considera que uma expressão exclusiva do humano é o uso da linguagem. Mais uma vez, existem espécies animais, como as baleias ou golfinhos, que conseguem se comunicar com eficiência, embora obviamente suas “linguagens” não sejam tão desenvolvidas ou sofisticadas quanto a dos homens. “Sendo assim, a religiosidade é possivelmente o único critério que realmente distingue o ser humano dos outros animais”, analisa o organizador do livro.

Funari lembra que existe a compreensão de que o homem começou a produzir cultura quando realizou o primeiro enterramento de parentes mortos, o que constituiu uma manifestação de religiosidade. “Quando uma pessoa é enterrada, existe a suposição de que há uma vida após a morte. Essa atitude, que também é uma crença, caracteriza o ser humano. Nenhum animal é capaz de tal abstração”, acrescenta o professor da Unicamp. No que toca aos ritos, o historiador esclarece que eles também são próprios de cada religião e época. “Esse aspecto comprova que a religiosidade é historicamente determinada. Tomemos como exemplo as três grandes religiões monoteístas que predominam na atualidade. Nelas, a sexualidade é reprimida e frequentemente associada ao pecado. Somente é aceita para fins de reprodução. Na Mesopotâmia, porém, era bem diferente. Havia inclusive a prostituição sagrada, que fazia parte da religião. Para os gregos, a fertilidade também era sagrada e, portanto, cultuada. Ou seja, a diferença de religiosidade entre os povos nos faz entender que a nossa religiosidade não é algo natural, mas sim cultural”.

Ademais, prossegue Funari, boa parte dessas religiões deixou legados às manifestações atuais. A ritualidade grega e romana, com mais destaque para esta última, está muito presente nas celebrações cristãs, o catolicismo em particular. “A gestualidade dos sacerdotes, a repetição das palavras e o ato de ajoelhar-se são fundamentais para que as pessoas sintam que tudo está funcionando como deveria ser. Não raro, esses aspectos são até mais importantes que o conteúdo das mensagens, haja vista que ainda há missas rezadas em latim, língua que poucos dominam”, compara o organizador do livro.

O conceito de pecado também varia de povo para povo, como detalha a obra. A rigor, algumas religiões antigas sequer o consideravam, pelo menos não como o fazemos hoje. “A palavra pecado vem do grego hamartia, que significa erro. Ou seja, não tinha o significado nem a dimensão que lhe damos atualmente”. O mesmo ocorre com o que classificamos de dogma. A maioria das religiões tratadas no livro, se não todas, não trabalhava com essa perspectiva. “Num certo sentido, elas podem ser consideradas como antidogmáticas, visto que não tinham uma forte estrutura hierárquica e não adotavam livros sagrados. A única regra religiosa comum a elas talvez tenha sido o incesto, que somente muito tempo depois ganhou também uma dimensão genética”, detalha Funari.

Um dado interessante abordado pelo docente da Unicamp, e que aparece de alguma forma no livro, é o fato de as religiões destacadas na obra não fazerem oposição entre fé e ciência. Tal postura, segundo Funari, vem do século 18. Antes disso, não havia essa separação. “Ao contrário, o desenvolvimento da ciência deu-se em boa parte dentro das religiões. Os maias, por exemplo, criaram um calendário religioso a partir da observação dos astros e da realização de cálculos matemáticos complexos. O mesmo ocorreu em relação aos egípcios, no que toca à construção das pirâmides. Tais templos foram erigidos em homenagem aos faraós, que por sua vez eram considerados a materialização dos deuses. Para que fossem construídos, os monumentos exigiram cálculos matemáticos igualmente sofisticados”.

Excertos

“Obcecada pela vida eterna e pela perpetuação da alma, a religião egípcia fascina por seu caráter místico. As pirâmides são o testemunho mais perene dessa busca pela eternidade”

“Os sumérios criaram as primeiras histórias do dilúvio, tiveram o primeiro Noé. Seus deuses viviam cada qual como patrono de sua cidade e brigavam como brigavam as cidades entre si”

“Os gregos concebiam o mundo como parte de um relato, o mito. Os mitos tratavam do surgimento do mundo, do seu funcionamento e da sorte dos humanos”

“Zoroastro foi o primeiro a conceder ao próprio homem o livre-arbítrio, a responsabilidade por seus atos e pensamentos. Também foi o pioneiro ao contemplar o julgamento individual baseado na ética pessoal”

“Eles [celtas] acreditavam na imortalidade e no renascimento das almas. O outro mundo dos imortais era paralelo ao mundo visível e as almas dos parentes mortos ou dos guerreiros de batalha permeavam todo o espaço fatual”

“A religiosidade nórdica era de natureza tolerante, sem fanatismos nem adoração extremada. Foi fruto de uma sociedade profundamente rural, realista e pragmática, que concedia privilégio a uma magia determinista”

“O movimento albigense era dualista, compreendendo o mundo dividido entre dois poderes antagônicos, dois deuses ou entidades espirituais que se opõem: um o Deus do bem e da espiritualidade e, no contraponto, um deus maligno, o Diabo, inserido no mundo material e carnal”

Título: As Religiões que o Mundo Esqueceu
Editora: Contexto
Número de páginas: 224
Organizador: Pedro Paulo Funari
Autores: Júlio César Gralha, Luiz Alexandre Solano Rossi, Pedro Paulo Funari, Renata Senna Garraffoni, Paulo Nogueira, Júlio César Magalhães de Oliveira, Flávia Galli, Ana Donnard, Johnni Langer, Sérgio Feldman, Alexandre Guida Navarro, Leandro Karnal, Betty Mindlin.




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