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sábado, 1 de abril de 2017

Você já sabia: repetição de mentiras = "ilusão da verdade". Mas como isso funciona?

A matéria é da BBC Brasil:

'Ilusão da verdade': A importância da repetição para o sucesso das mentiras

Tom Stafford*

A máxima de que "basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade" é uma das regras básicas da propaganda política, constantemente atribuída ao nazista Joseph Goebbels.

Entre psicólogos, é conhecida como efeito da "ilusão da verdade". Um experimento típico mostra como isso funciona:

Voluntários avaliam o quanto de verdade há em algumas afirmações triviais. Algumas delas são reais e outras são mentiras muito parecidas com a verdade. Após um intervalo de alguns minutos ou de algumas semanas, os participantes fazem o teste novamente, mas desta vez algumas das afirmações são novas.

Os resultados mostram que as pessoas tendem a avaliar como sendo verdade afirmações que elas já ouviram antes, mesmo que sejam falsas. Isso porque simplesmente soam mais familiares.

E assim, em um laboratório de alguma universidade ou instituto de pesquisa, parece estar a explicação para essa ideia de que basta repetir uma mentira para ela ser percebida como verdade.

A importância do conhecimento

Se você olhar à sua volta, vai perceber que todo o mundo - de publicitários a políticos - parece estar tirando partido dessa característica da psicologia humana.

Mas se pudéssemos fabricar uma verdade apenas repetindo uma mentira, não haveria necessidade de tantas outras técnicas de persuasão que conhecemos.

Um obstáculo é aquilo que já sabemos. Mesmo quando uma mentira parece plausível, por que deixaríamos de lado aquilo que sabemos só porque a ouvimos repetidamente?

Recentemente, uma equipe da Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, começou a testar como a "ilusão da verdade" interage com nossos conhecimentos anteriores.

Eles usaram afirmações aos pares - uma verdadeira e outra falsa -, mas também as dividiram de acordo com a probabilidade de os participantes saberem a resposta.

O grupo concluiu que a "ilusão da verdade" funcionou da mesma maneira para as afirmações verdadeiras e para as falsas, o que sugere que o conhecimento anterior não evita erros de julgamento.

Para ter certeza de que estavam cobrindo todas as áreas, os pesquisadores então realizaram um estudo em que os participantes precisavam avaliar o grau de verdade de uma afirmação, de 1 a 6, e outro em que deviam apenas dizer "falso" ou "verdadeiro".

A repetição levou algumas afirmações ao topo da escala e aumentou as chances de classificá-las como verdadeiras - mesmo as frases falsas ganharam mais credibilidade.

Checar os fatos

A princípio, tudo isso parece ser uma enorme tragédia para a racionalidade humana. Mas precisamos olhar para os números quando interpretamos a ciência psicológica.

O que os especialistas americanos de fato descobriram foi que a maior influência na decisão de um julgamento sobre uma afirmação ser verdadeira era justamente o fato de ela ser verdadeira.

A repetição não conseguiu mascarar a verdade - com ou sem ela, as pessoas ainda tinham mais propensão a acreditar nos fatos do que nas mentiras.

Isso mostra algo fundamental sobre a maneira como atualizamos nossas crenças: a repetição tem o poder de fazer algo parecer mais verdadeiro, mas não se sobrepõe ao conhecimento.

Sendo assim, nos perguntamos: por quê? A resposta está relacionada com o esforço necessário para sermos rigidamente lógicos sobre qualquer informação que nos chega aos ouvidos.

Como precisamos fazer julgamentos rápidos, usamos atalhos - heurísticas que estão mais certas do que erradas.

Confiar na frequência com que ouvimos algo é apenas uma estratégia. Qualquer universo onde a verdade é repetida mais vezes do que a mentira terá isso como pressuposto para se julgar uma afirmação.

Nossas mentes são presa fácil para a "ilusão da verdade" porque nosso instinto é usar atalhos para fazermos esse julgamento - isso funciona na maioria das vezes.

Agora que já conhecemos esse efeito, podemos ficar mais atentos. Uma boa maneira é se perguntar por que acreditamos no que acreditamos: será que se trata de algo plausível porque é verdade ou apenas porque foi repetido várias vezes?

Mas outra maneira é reconhecer nossa obrigação de parar de repetir mentiras. Vivemos em um mundo onde os fatos são importantes e precisam ser importantes. Se repetirmos coisas sem nos preocuparmos com sua veracidade, estamos apenas ajudando a fazer deste um mundo onde mentiras e verdades se confundem com facilidade. Portanto, por favor, pense bem antes de repetir o que ouviu.

*Tom Stafford é psicólogo e cientista da cognição na Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha.



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Condenados 4 linchadores de mulher inocente no Guarujá (SP)

Fabiane Maria de Jesus,
vítima da "gente de bem".
Nesses tempos bicudos em que vivemos, em que não só a verdade morreu, mas foi acompanhada pela mentira, trituradas que foram ambas pela "pós-verdade" e pelos "fatos alternativos", ainda há uma réstia de esperança quando se pune indivíduos que agem impensadamente com base apenas nos boatos maldosamente espalhados pelas redes sociais.

Claro que muitos mais deviam ter sido processados e condenados nesse triste episódio do linchamento da inocente dona de casa, mas num país em que os programas policiais comandados por apresentadores fascistas e demagogos continuam incentivando julgamentos definitivos e apressados na televisão todo fim de tarde, talvez já seja um começo para deter esses canalhas e covardes, que - não raro - se autointitulam "gente de bem" e compartilham mensagens religiosas em seus grupos cibernéticos.

Hipócritas!!!

A notícia é do G1 Santos e Região:

Acusados de linchar dona de casa após boato na web são condenados

Três homens foram condenados a 40 anos de reclusão, e outro a 26.
Crime ocorreu em maio de 2014. Vídeo mostra momento de agressão.

Três acusados de terem participado da morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus foram condenados a 40 anos de prisão, e outro a 26 anos de reclusão, nesta sexta-feira (27). O julgamento foi realizado no Fórum de Santos, no litoral de São Paulo. A vítima foi linchada no dia 3 de maio de 2014 e morreu dois dias depois. O caso ocorreu no bairro Morrinhos III, em Guarujá. A defesa do grupo irá recorrer da decisão.

O crime aconteceu após uma foto ter sido divulgada, junto com um boato nas redes sociais, de que uma mulher parecida com Fabiane sequestrava crianças e as utilizava em rituais de magia negra.

Em outubro de 2016, Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 21 anos, já havia sido condenado a 30 anos de cadeia por participação no crime. Nesta sexta-feira, o juiz Edmundo Lellis Filho condenou Abel Vieira Batalha Júnior, de 21 anos, Carlos Alex Oliveira de Jesus, de 27, e Jair Batista dos Santos, de 38, a 40 anos de prisão em regime fechado. Valmir Dias Barbosa, de 51, foi condenado a 26 anos de detenção. Sua pena foi menor porque ele confessou participação no linchamento.

Imagens

Um vídeo divulgado na época do crime mostra Fabiane sendo carregada por diversos moradores do bairro Morrinhos III, logo após ela ter sido agredida. Convencidos de que ela seria a sequestradora de crianças cuja foto circulava por uma página do Facebook, alguns dos agressores amarraram os pulsos da mulher, que foi agredida repetidamente até a chegada da polícia.

Durante as investigações, cinco pessoas foram presas por terem participado do linchamento de Fabiane. Abel Vieira Batalha Júnior teria participado da agressão amarrando os pulsos da vítima e a arrastando pelo chão. Jair Batista dos Santos é acusado de agredir Fabiane, mas nega sua participação no linchamento. Lucas Rogério Fabrício Lopes teria passado por cima da dona de casa com uma bicicleta. Já Valmir Dias Barbosa foi reconhecido nas imagens do linchamento. Ele alegou ter filhos e que participou da ação por acreditar que as acusações à vítima eram verdadeiras. Carlos Alex Oliveira de Jesus aparece no vídeo segurando Fabiane pelos cabelos. Ele disse que não chegou a golpear a vítima, porque foi contido por duas primas.

Agressão

Fabiane Maria de Jesus tinha 33 anos, era casada e tinha duas filhas, uma de um ano e outra de 12. Ela tinha transtorno bipolar mas, segundo os familiares, não era uma pessoa agressiva.

Fabiane saiu de casa de bicicleta e foi até a igreja buscar uma bíblia que tinha esquecido no local. Depois, segundo a família, ela iria para a casa de uma prima, em Morrinhos III. De acordo com a polícia, ela foi abordada no caminho por um grupo de pessoas. Elas agarraram Fabiane, amarraram as mãos dela e a espancaram. O corpo dela foi arrastado até uma passarela. Ela foi encontrada por policiais militares em estado de saúde grave.

As cenas foram gravadas por um celular e mostram dezenas de pessoas ao redor de Fabiane. Algumas teriam visto, na página Guarujá Alerta, hospedada no Facebook, o retrato falado de uma mulher que estaria sequestrando crianças em Guarujá, e pensaram que se tratava de Fabiane.

Confusão

De acordo com o inquérito, o retrato falado atribuído a Fabiane havia sido feito por policiais do Rio de Janeiro, da 21ª DP (Bonsucesso), em agosto de 2012. Na ocasião, uma mulher foi acusada de tentar roubar um bebê do colo da mãe em uma rua de Ramos, na Zona Norte da cidade.

Imagens de câmeras de segurança divulgadas na época mostraram uma mulher passando com a filha de 15 dias no colo e sendo seguida pela suspeita. A vítima estava levando o bebê para fazer o teste do pezinho em um posto de saúde. Ao sair da unidade, foi surpreendida pela mulher.



domingo, 20 de novembro de 2016

A arte de mentir em tempos de pós-verdade

Eleitores de Trump e o próprio em êxtase.
Quanto desta cena é verdade?
Ou pós-verdade...

Sim, é isto mesmo o que você leu no título, a mentira virou uma forma de "arte" nesses tempos em que a verdade não basta mais por si só, ela precisa de um "plus".

Qualquer semelhança com o discurso político único supostamente "ético" que ouvimos diariamente no Brasil não é mera coincidência.

Leia o artigo abaixo, publicado no The Economist, traduzido e reproduzido no Estadão, que você vai entender o porquê:

Arte da mentira

Na política, a verdade já não é mais é falseada ou contestada; tornou-se secundária no debate público

Os políticos sempre mentiram. Faz alguma diferença se resolverem deixar a verdade totalmente de lado?

A essa altura deve estar claro que Donald Trump habita um mundo onde os fatos são, quando muito, imigrantes indesejáveis. Nesse mundo de fantasia, Barack Obama usa uma certidão de nascimento falsa e é o fundador do Estado Islâmico (EI), os Clinton são assassinos e o pai de um dos adversários do magnata nas primárias esteve com Lee Harvey Oswald quando este distribuía panfletos pró-Cuba.

Trump é o principal expoente da política “pós-verdade”, um estilo de atuação na esfera pública que se distingue pelo uso frequente de afirmações aparentemente verdadeiras, mas sem qualquer respaldo na realidade. O descaramento do bilionário não é penalizado, sendo antes tomado como prova de que o eleitor está diante de alguém que não abaixa a cabeça para as elites no poder.

E Trump não é o único. Na Grã-Bretanha, um dos argumentos utilizados pela campanha que venceu o referendo de junho foi o de que, se não aprovassem a saída da União Europeia (UE), os britânicos seriam invadidos por uma horda de imigrantes, já que a Turquia estaria prestes a ingressar no bloco.

Se, como The Economist, o leitor acredita que a política deve se basear em fatos, isso é preocupante. As democracias mais sólidas dispõem de mecanismos de defesa para se proteger da pós-verdade. Países autoritários são vulneráveis.

Mas a pós-verdade é mais que uma simples invenção de elites que ficaram a ver navios. A expressão põe em evidência o cerne do que há de novo na política: a verdade já não é falseada ou contestada; tornou-se secundária. No passado, o objetivo das mentiras políticas era criar uma visão enganosa do mundo. As mentiras de homens como Trump não funcionam assim. Seu intuito não é convencer, e sim reforçar preconceitos.

São os sentimentos, não os fatos, que importam nesse tipo de discurso. A incredulidade dos adversários legitima a mentalidade “nós-contra-eles” que os candidatos anti-establishment exploram com sucesso. E se os oponentes tentam mostrar que as palavras não correspondem à realidade, veem-se obrigados a lutar no campo de batalha escolhido pelos líderes pós-verdade. Quanto mais os defensores da permanência da Grã-Bretanha na UE se esforçavam para mostrar que os partidários do Brexit usavam cálculos superestimados ao determinar os valores gastos pelo país por fazer parte do bloco europeu, por mais tempo mantinham a magnitude desses gastos sob os holofotes.

A política pós-verdade tem muitos pais. Alguns são dignos de louvor. Submeter as instituições e as autoridades a questionamentos é uma virtude democrática. Assumir uma atitude cética e desafiadora diante dos líderes é o primeiro passo para reformar uma sociedade. O colapso do comunismo foi acelerado graças a pessoas corajosas para contestar a propaganda oficial.

Acontece que há também forças corrosivas em ação. Muitos eleitores sentem que foram enganados e deixados para trás, ao passo que as elites continuam a viver no bem-bom. Detestam os tecnocratas que diziam que o euro contribuiria para melhorar suas vidas . Nas democracias ocidentais, as pessoas já não confiam como antes nos especialistas e nas instituições.

Mídia. A evolução da mídia também ofereceu terreno fértil para que a pós-verdade florescesse. A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas online, em redes cujos membros confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade. Confrontadas com evidências que contradizem crenças que lhes são particularmente caras, as pessoas preferem fechar os olhos para a realidade. Práticas jornalísticas bem-intencionadas também têm culpa no cartório. A busca da “imparcialidade” na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, às custas da verdade. Os cientistas da Nasa dizem que Marte provavelmente é desabitado; o professor Zureta diz que pululam alienígenas no planeta. Opinião por opinião, cada qual que escolha a sua.

Quando a política começa a ficar parecida com um ringue de luta-livre, a sociedade arca com os custos. Ao insistir em dizer - para perplexidade de alguns dos conservadores mais empedernidos - que Obama fundou o EI, Trump impede a realização de um debate sério sobre como lidar com extremistas violentos. Governar é complicado; aos olhos da política pós-verdade, porém, a complexidade é só um truque ilusionista que os especialistas usam para levar todo mundo no bico.É tentador pensar que, quando ideias vendidas sem amparo na realidade começarem a soçobrar, os eleitores abrirão os olhos e perceberão que se deixaram levar por líderes que não se dão o trabalho nem de disfarçar as mentiras. A pior parte da pós-verdade, porém, é que não se deve contar com esse movimento de autocorreção. Quando as mentiras tornam o sistema político disfuncional, é possível que os resultados negativos acabem por realimentar a mesma alienação e o mesmo descrédito nas instituições que estão na própria origem da política pós-verdade.

Políticos “pró-verdade”, às armas. Para enfrentar essa situação, os políticos comprometidos com os fatos e com a democracia precisam partir para o contra-ataque e incorporar uma linguagem mais aguerrida . Assumir uma posição de humildade e reconhecer os equívocos a que foram levados pela arrogância e pelo excesso de confiança também ajudaria. A verdade conta com forças poderosas a seu lado.

As democracias também têm instituições que podem ajudar. Sistemas judiciários independentes dispõem de mecanismos para estabelecer a verdade. O mesmo se aplica a órgãos criados para orientar a implementação de políticas públicas - em especial os que têm laços com a comunidade científica.

Se Trump for derrotado em novembro, a política pós-verdade parecerá menos ameaçadora, muito embora o bilionário tenha feito sucesso demais nos últimos meses para que ela suma do mapa de uma hora para a outra. Bem mais preocupante é a situação de países como Rússia e Turquia, onde autocratas recorrem à pós-verdade para silenciar os adversários. Deixadas à deriva num oceano de mentiras, as pessoas não terão em que se agarrar. Embaladas pela novidade da política pós-verdade, correm o risco de se ver nas mãos da opressão à moda antiga. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER



Erasmo Carlos cantando "Pega na Mentira" em 1981. Premonitório?




sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Síria se desintegra em meio a sexo, mentiras e videotape


O jornalista americano Boake Carter disse, em 1938, que "em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade", frase que se tornou célebre e foi confirmada por todas as guerras seguintes.

Enquanto a Síria se esfacela como nação, fica quase impossível saber o que é verdade ou mentira nas notícias que saem de lá, conforme artigo publicado no Estadão de 13/10/13:

A jihad do sexo

As principais mentiras elaboradas pela campanha de desinformação do ditador sírio, Bashar Assad

Christoph Reuters, do Der Spiegel

Sexo vende. E a Al-Qeda está impaciente por chamar a atenção. Mas a combinação de ambos - sexo e jihad - é irresistível. Dezenas de jovens mulheres estão se oferecendo aos jihadistas, segundo uma das mais recentes histórias de horror da mídia procedentes da Síria. Um xeque da Arábia Saudita teria emitido uma fatwa que permite que adolescentes proporcionem alívio a combatentes sexualmente frustrados.

No fim de setembro, Rawan Qadah, de 16 anos, apareceu na TV síria e deu um relato detalhado de como teve de satisfazer sexualmente um insurgente extremista. Quando o ministro do Interior da Tunísia informou que as jovens do seu país estavam viajando para a Síria para a jihad do sexo - e mantinham relações sexuais com 20, 30 e até mesmo 100 rebeldes -, a história ganhou as manchetes dos jornais alemães. Na Alemanha, os sites do Bild, tabloide de grande circulação, e da revista Focus atraem os leitores com artigos sobre essa "prática bizarra".

Na esteira do massacre com gás tóxico, dia 21 de agosto, Damasco lançou uma importante ofensiva de relações públicas. Mas, além da propaganda oficial, há uma segunda campanha: uma iniciativa secreta e cuidadosamente elaborada para semear a dúvida e desviar a atenção dos crimes do governo. Como muitos desses artigos fictícios, as histórias da jihad do sexo tentam convencer os críticos no exterior da monstruosa depravação dos rebeldes.

Nenhum outro líder da região - nem Saddam Hussein, no Iraque, nem Muamar Kadafi, na Líbia - recorreu a uma propaganda tão maciça quanto Bashar Assad. Sua equipe de relações públicas divulga incessantemente notícias parcialmente ou completamente fabricadas, referentes a atos terroristas contra cristãos, aumento do poderio da Al-Qaeda e a iminente desestabilização da região. As histórias, veiculadas por TVs russas e iranianas e por emissoras cristãs, acabaram sendo transmitidas pela mídia ocidental.

Um exemplo é a lenda das orgias realizadas com terroristas. A menina de 16 anos apresentada na TV estatal pertence a uma destacada família da oposição, em Deraa. Como o regime não conseguiu capturar seu pai, ela foi sequestrada pelas forças de segurança quando voltava da escola, em novembro de 2012.

No mesmo programa, uma segunda mulher confessou que teve de se submeter a práticas sexuais em grupo com membros da fanática Frente Nusra. Entretanto, segundo a família da jovem, ela foi presa na Universidade de Damasco enquanto participava de um protesto contra Assad. Ambas estão desaparecidas. Suas famílias dizem que foram forçadas a fazer declarações na TV, que a história da jihad do sexo é mentira.

Uma suposta jihadista do sexo da Tunísia também desmentiu as notícias quando foi ouvida pela mídia árabe. "É tudo mentira", afirmou. Ela admitiu que esteve na Síria, mas como enfermeira. Diz que é casada e, desde então, fugiu para a Jordânia.

Duas organizações de defesa dos direitos humanos tentaram averiguar as informações sobre a jihad do sexo, mas não conseguiram nada de concreto. Parece que o ministro do Interior da Tunísia tinha outros motivos para acreditar no boato: centenas de islamistas deixaram seu país e viajaram para a Síria - e ele tenta conter essa migração desacreditando os combatentes. O xeque Mohamed al-Arifi, que estaria por trás da fatwa da jihad do sexo, desmente tudo. "Ninguém em seu juízo perfeito aprovaria isso."

É difícil checar todas as histórias de horror na guerra síria. Isso ocorre quando elas são difundidas de maneira indireta, como o caso da maioria dos relatos sobre a perseguição de cristãos. Isso inclui a foto de uma mulher amarrada a um pilar em Alepo, que apareceu no site LiveLeak, em setembro, como se fosse uma cristã que havia sido sequestrada por rebeldes da Al-Qaeda. Na realidade, embora a foto tenha sido tirada em Alepo, ela data do período em que as tropas de Assad ainda controlavam a cidade. Um vídeo da cena, postado no YouTube no dia 12 de junho de 2012, mostra milícias leais ao regime repreendendo energicamente a mulher.

O regime também forjou a lenda da destruição da aldeia cristã de Maaloula. No início de setembro, rebeldes pertencentes grupos radicais atacaram dois postos militares nos arredores da cidade controlada pelas milícias Shabiha, leais a Assad. Em seguida, os rebeldes se retiraram. O regime, porém, deu a seguinte versão, que chegou a ser publicada pela Associated Press: Terroristas estrangeiros saquearam, queimaram igrejas e ameaçaram decapitar cristãos que se recusaram a converter-se ao Islã.

A história não correspondia aos relatos das freiras do convento de Thekla, em Maaloula, e do patriarca grego ortodoxo de Antioquia. Eles disseram que nada foi danificado e ninguém foi ameaçado. Um repórter russo esclareceu involuntariamente a confusão. Enquanto acompanhava o Exército sírio, ele filmou o ataque a Maaloula, no qual o mosteiro foi bombardeado.

A atual interpretação dos eventos é uma política consciente. A maioria das publicações evita os riscos e o esforço de checar as histórias. Os fatos verdadeiros, como aquele em que os jihadistas queimaram uma igreja na cidade de Rakka, no sul da Síria, mesclam-se com as atrocidades inventadas para influenciar a opinião global.

Até as inconsistências mais gritantes são aceitas sem questionamentos. Quando a mídia oficial noticiou que o imã Mohamed al-Buti, que apoia Assad, foi morto por um suicida em sua mesquita, em 21 de março, todos os rebeldes negaram envolvimento com o ataque. É claro que isso não significa muita coisa, mas mesmo um olho pouco treinado perceberia que as fotos não mostravam sinais de explosão: lustres, ventiladores, tapetes estavam intactos.

Havia, porém, buracos de bala numa parede de mármore e poças de sangue mostravam onde os corpos foram encontrados. Muitas das vítimas estavam com sapatos, o que é extremamente inusitado numa mesquita. Também não havia testemunhas. Tudo alimenta a suspeita de que as vítimas tenham sido forçadas a entrar no edifício e foram assassinadas, para montar o cenário de um ataque que nunca ocorreu.

Depois do ataque com gás sarin, em agosto, a propaganda falhou. Enfrentando uma onda global de indignação, o regime fracassou em explicar a situação. Em primeiro lugar, Assad disse que nada ocorrera. Então, a TV estatal mostrou imagens de um esconderijo rebelde com um tambor com o letreiro descaradamente óbvio "Made in Saudia (sic)". A notícia dizia que se tratava de gás da Arábia Saudita para os "terroristas", que inadvertidamente teriam se envenenado e morrido.

A fonte da história era um site desconhecido, o Mint Press, de Minnesota, norte dos EUA. Um dos autores disse que não tinha nada a ver com o caso. O outro, um jovem jordaniano que usa vários pseudônimos, limitou-se a dizer que estudava no Irã. Entretanto, em um comentário online a um artigo do jornal britânico Daily Mail, ele deu os detalhes que faltavam.

"Algumas pessoas chegaram a Damasco provenientes da Rússia. Fiz amizade com uma delas - que me contou que tinha provas de que os rebeldes haviam usado armas químicas." Dias mais tarde, o chanceler russo citou o artigo como prova da inocência de Assad.

Uma explicação diferente foi apresentada à TV britânica Sky News pela assessora de Assad, Buthaina Shaaban. Ela disse que terroristas haviam sequestrado 300 crianças alauitas, que foram levadas para Damasco e assassinadas para que pudessem ser apresentadas como vítimas. Agora, surge uma nova linha de defesa. Em entrevista à Der Spiegel, Assad diz que o sarin é um gás "de cozinha", porque pode ser feito "em qualquer lugar".

Embora Assad acoberte seus crimes com uma intensa campanha da mídia, ele prefere uma reunião com a imprensa para contar diretamente sua versão. Assim, ele apresenta seu regime como o último baluarte contra o terror global, embora costume ordenar ataques que atribui aos seus adversários. (Tradução de Anna Capovilla)



domingo, 17 de junho de 2012

Ex-delegado do DOPS - hoje evangélico - confessa pecados cometidos durante ditadura

Exatamente um mês atrás, publicamos aqui as declarações bombásticas do ex-delegado do DOPS durante a ditadura militar, Cláudio Guerra, sobre a incineração - em engenhos de açúcar - de corpos de vítimas de tortura e assassinato durante aquele período.

Com o recente lançamento de seu livro "Memórias de uma Guerra Suja", o ex-delegado, hoje pastor evangélico, deu uma entrevista a Alberto Dines, no programa Observatório da Imprensa da TV Brasil, no começo deste mês.

São 52 minutos de revelações no vídeo abaixo, em que se destacam, do ponto de vista religioso, as declarações do ex-delegado sobre seu sentimento de vingança quando era doutrinado a combater a esquerda e o fato de ter sido necessário "ser amassado como um vaso nas mãos do oleiro para reconhecer que errou".

Sentado numa mesa com os braços sobre uma Bíblia, Cláudio Guerra conta ainda que perdeu a esposa por causa de suas revelações, mas mesmo assim ele entende que "a finalidade da vida é buscar a verdade", e ele só veio a público confessar seus erros porque "como homem natural eu não faria, mas faço como homem espiritual".

Independentemente do que você pensa a respeito dele e do período da ditadura, não deixa de ser louvável a atitude do ex-delegado em reconhecer que errou e querer reparar, tanto quanto possível, os erros do passado, mesmo sob risco iminente de morte e com a grande imprensa - cúmplice da ditadura - tentando abafar o caso.
Atitude bem diferente de tantas outras pessoas que dizem se converter a Cristo, ouvem "Como Zaqueu" com deleite, mas fogem como o diabo da cruz quando se trata de falar a verdade, confessar os pecados, pedir perdão e reparar os erros cometidos contra outros no passado.


Não deixa de ser curiosíssimo notar, entretanto, que mesmo com a estranha nostalgia que muitos líderes evangélicos sentem da ditadura militar, tenha sido através de um evangélico que vieram as revelações mais esclarecedoras sobre os porões vermelhos de sangue daquele período nefasto da história do Brasil.

Fique com a íntegra da entrevista, então:





quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ex-delegado hoje evangélico diz que engenhos de açúcar incineraram corpos de adversários da ditadura

O ex-delegado Claudio Guerra tem provocado muita polêmica com suas revelações sobre torturas e execuções sumárias no período da ditadura militar brasileira (1964-1985), das quais ele alega - pelo menos - ter tido conhecimento. Hoje ele é presbítero da Assembléia de Deus Ministério Serra em Vitória (ES), e não "pastor adventista", como escreve Frei Betto no artigo abaixo, publicado na Adital.

Entretanto, esse artigo merece destaque pelas declarações bombásticas de Guerra sobre a suposta incineração de corpos de vítimas da ditadura em uma usina de açúcar do Norte fluminense. Ainda outro dia, falando sobre o novo Código Florestal e a política de quotas raciais, publicamos aqui nossa opinião dizendo que o Brasil ainda é o país dos senhores de engenho, mas nem imaginávamos que essa loucura revelada pelo ex-delegado fosse possível.

Ainda ontem, a presidenta Dilma Roussef instalou a Comissão da Verdade que se encarregará de buscar, tanto quanto possível, extrair do esquecimento as histórias de tantos crimes e corpos desaparecidos durante a ditadura. Uma frase do seu discurso merece ser transcrita:
A palavra verdade, na tradição grega ocidental, é exatamente o contrário da palavra esquecimento. É algo tão surpreendentemente forte que não abriga nem o ressentimento, nem o ódio, nem tampouco o perdão. Ela é só e, sobretudo, o contrário do esquecimento. É memória e é história. É a capacidade humana de contar o que aconteceu.
Que o Brasil tenha coragem de passar essa história a limpo e - em benefício das novas gerações que não têm nada a ver com esse passado sombrio - siga adiante reconciliado consigo mesmo. Abaixo, o artigo de Frei Betto:

A face nazista da ditadura brasileira

A notícia é estarrecedora: militantes políticos envolvidos no combate à ditadura militar tiveram seus corpos incinerados no forno de uma usina de cana de açúcar em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro, entre 1970 e 1980.

O regime militar, que governou o Brasil entre 1964 e 1985, merece, agora, ser comparado ao nazismo.

A revelação é do ex-delegado do DOPS (polícia política) do Espírito Santo, Cláudio Guerra, hoje com 71 anos.

Segundo seu depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, no livro "Memórias de uma guerra suja” (Topbooks), no forno da usina Cambahyba - de propriedade de Heli Ribeiro Gomes, ex-vice-governador do Rio de Janeiro entre 1967 e 1971, já falecido -, foram incinerados Davi Capistrano, o casal Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva, João Batista Rita, Joaquim Pires Cerveira, João Massena Melo, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira.

Os militantes teriam sido retirados de órgãos de repressão de São Paulo – DEOPS e DOI-CODI – e do centro clandestino de tortura e assassinato conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis.

Cláudio Guerra acrescenta às suas denúncias que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, um dos mais notórios torturadores de São Paulo, teria participado, em 1981, do atentado no Riocentro, na capital carioca, na véspera do feriado de 1º. de Maio.

Se a bomba levada pelos oficiais do Exército não tivesse estourado no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, ceifando-lhe a vida, centenas de pessoas que assistiam a um show de música popular teriam sido mortas ou feridas.

O objetivo da repressão era culpar os "terroristas” pelo hediondo crime e, assim, justificar a ação perversa da ditadura.

Guerra aponta ainda os agentes que teriam participado, em 1979, da Chacina da Lapa, na capital paulista, quando três dirigentes do PCdoB foram executados. Acrescenta que a "comunidade de informação”, como eram conhecidos os serviços secretos da ditadura, espalhou panfletos da candidatura Lula à Presidência da República no local em que ficou retido o empresário Abílio Diniz, vítima de um sequestro em 1989, em São Paulo, de modo a tentar envolver o PT.

Uma das revelações mais bombásticas de Cláudio Guerra é sobre o delegado Sérgio Paranhos Fleury, o mais impiedoso torturador e assassino da regime militar, morto em 1979 por afogamento. Tido até agora como um acidente, segundo o ex-delegado, teria sido "queima de arquivo”, crime praticado pelo CENIMAR, o serviço secreto da Marinha.

Guerra assume ter assassinado o militante Nestor Veras, em 1975, alegando que apenas deu "o tiro de misericórdia” porque ele havia sido "muito torturado e estava moribundo”.

Das notícias da repressão há sempre que desconfiar. Guerra fala a verdade ou mente? Tudo indica que o ex-delegado, agora travestido de pastor adventista, não se limitou, na prática de crimes, à repressão política. Em 1982, a Justiça o condenou a 42 anos de prisão pela morte de um bicheiro, dos quais cumpriu 10 anos. Em seguida mereceu 18 anos de condenação por assassinar sua mulher, Rosa Maria Cleto, com 19 tiros, e a cunhada, no lixão de Cariacica, em 1980.

Ele alega inocência nos três casos, embora admita que matou o tenente Odilon Carlos de Souza, a quem acusa de ter liquidado sua mulher Rosa.

Espera-se que a presidente Dilma anuncie, o quanto antes, os nomes dos sete integrantes da Comissão da Verdade, que deverá apurar crimes e criminosos da ditadura. E investigar as denúncias do policial capixaba. Infelizmente a comissão ainda não será da Verdade e da Justiça.

O Brasil é o único país da América Latina que se recusa a punir aqueles que cometeram crimes em nome do Estado, entre 1964 e 1985. O pretexto é a esdrúxula Lei da Anistia, consagrada pelo STF, que pretende tornar inimputáveis algozes do regime militar.

Ora, como anistiar quem nunca foi julgado e punido? Nós, as vítimas, sofremos prisões, torturas, exílios, banimentos, assassinatos e desaparecimentos. E os que provocaram tudo isso merecem o prêmio de uma lei injusta e permanecer imunes e impunes como se nada houvessem feito?

O nazismo foi derrotado há quase 70 anos, e ainda hoje novas revelações vêm à tona. Enganam-se os que julgam que a Lei da Anistia, o silêncio das Forças Armadas e a leniência dos três poderes da República haverão de transformar a anistia em amnésia. Como afirmou Walter Benjamin, a memória das vítimas jamais se apaga.



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