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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Especialistas garantem que o evangelho da "esposa de Jesus" é uma farsa


Aqui no blog nós não damos muita bola para as teorias da conspiração que são rotineiramente criadas na tentativa de fazer as origens históricas do cristianismo caírem em descrédito, mas - a exemplo das descobertas arqueológicas bíblicas que raramente são verdadeiras - nem por isso deixamos de divulgá-las com o devido cuidado e, por que não dizer, ceticismo.

Assim foi em setembro de 2012, quando publicamos aqui a "descoberta" do chamado "evangelho da esposa de Jesus", anunciada por Karen L. King, professora da Harvard Divinity School e reproduzida com estardalhaço pela imprensa e pelos blogs mundo afora.

O fundamento para o achado é um fragmento de papiro escrito em copta antigo, do tamanho de um cartão de visita, que registra as palavras “Jesus disse a eles, ‘minha esposa’”. “Eles”, no caso, seriam os discípulos a quem Jesus estaria se dirigindo na ocasião.

Em abril de 2014, a imprensa mundial se regozijou com a notícia, publicada originalmente na Harvard Theological Review, de que o papiro em questão havia sido submetido a testes científicos que o dataram entre os séculos VII e IX da era cristã, eximindo-o de ser uma falsificação moderna.

Na ocasião, não julgamos digna de registro a datação científica, porque não acrescentava nada ao dilema, nem definia cabalmente a autenticidade do papiro. Afinal, qualquer pessoa que tenha acesso a um papiro antigo pode se valer de uma tesoura, cortar um pedacinho e fazer o que bem entender dele. Se colar, colou! Não será a primeira nem a última vez que isso acontecerá.

Ao que parece, a Harvard Divinity School se tornou um reduto de gnósticos tentando forçar uma revisão das origens do cristianismo, sobretudo as canônicas, de tão interessados que estão em divulgar os evangelhos apócrifos de Judas e Maria Madalena, por exemplo.

O gnosticismo, para quem não se lembra, foi o movimento herético que surgiu no começo da igreja cristã, em que seus seguidores se diziam portadores de um conhecimento único, especial, que lhes havia sido conferido por uma entidade cósmica da qual Jesus teria sido, a grosso modo, uma "fagulha" dessa divindade.

Jesus teria sido, segundo eles, um "ser etéreo", um portador de uma energia cósmica que não tinha existência real, mas, a exemplo do que muitos pensam hoje, teria sido apenas um mestre de bons ensinamentos que poderiam ou não ser seguidos de acordo com a vontade de quem os conheça.

O grande combatente dessa heresia foi o apóstolo João que, em seu evangelho e suas cartas, fez questão de ensinar que Jesus é Deus e havia vindo ao mundo em carne e osso, e não como uma "fagulha", ou uma "força vital" como pregavam os gnósticos.

Quanto ao papiro da professora Karen King, a mídia foi pródiga em anunciar sua suposta autenticidade, mas se silenciou quanto aos eruditos que insistem que se trata de uma falsificação.

Desta maneira, passou (convenientemente) despercebido o artigo do Dr. Jerry Pattengale, publicado no The Wall Street Journal de 1º de maio de 2014 (talvez pelo feriado mundial), em que ele apresenta argumentos sólidos advogando pela falsidade do papiro de Karen King.

Primeiro, o que poucos sabiam é que a tal datação científica foi feita por pesquisadores que assinaram um acordo de confidencialidade para não divulgar os dados laboratoriais que os fizeram chegar a essa conclusão. O que, cá entre nós, já é um tanto quanto estranho. 

A farsa começou a ser desmontada pelo professor Christian Askeland, especialista em copta que atua na Universidade Wesleyana de Indiana, que considera o papiro de Karen King como cópia de outro papiro que já foi definitivamente considerado como falso.

O interessante é que foi a própria Harvard Divinity School que, na ânsia de divulgar sua "descoberta", incluiu um material adicional que forneceu, inadvertidamente, a prova de que se tratava de uma falsificação.

Esse material é outro fragmento de papiro, só que do evangelho de João, que foi disponibilizado nos links indicados por Harvard, e que guarda muitas similaridades com o fragmento de Karen King, como a caligrafia, a tinta e o instrumento de escrita que foi utilizado. E esse fragmento de João havia sido diretamente copiado de uma publicação de 1924.

O professor Askeland acrescenta, ainda, que "dois fatores imediatamente indicaram que se tratava de uma falsificação. Primeiro, o fragmento tinha as mesmas quebras de linha da publicação de 1924. Segundo, o fragmento continha um dialeto peculiar do idioma copta chamado 'licopolitano', que caiu em desuso durante ou antes do século VI. Como a Sra. King fez dois testes radiométricos e concluiu que a planta que forneceu o papiro desse fragmento tinha sido colhida entre os séculos VII e IX, isso significa que o fragmento da 'esposa de Jesus' foi escrito num dialeto que não mais existia na época em que seu papiro foi feito".

Outros especialistas chegaram à mesma conclusão, como Mark Goodacre, professor de copta na Universidade Duke, e Alin Suciu, pesquisador de copta da Universidade de Hamburgo, e a datação antiga do papiro não os surpreendeu, já que, como dissemos acima, um falsificador pode retirar um pedaço pequeno de um papiro antigo e forjá-lo da maneira que mais lhe convier.

O problema é quando a instituição que cai num golpe desses tem o pomposo nome "Universidade de Harvard". Aí o bicho pega...

Melhor não esperar que a falsidade do "evangelho da esposa de Jesus" tenha a mesma repercussão na mídia que sua suposta autenticidade. Afinal, sempre vai haver alguém jurando de pé junto que Jesus era casado com Maria Madalena pelo simples fato de que é gostoso acreditar numa mentira.

É que a verdade não costuma vender jornal...



terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mark Driscoll diz que Ester era prostituta antes de se tornar rainha

Mark Driscoll só pensa naquilo...

Depois de ter dito não existe nada mais puro do que dois homens seminus lutando MMA num octógono e que masturbação é uma forma de homossexualismo, o pastor da igreja de Mars Hill resolveu avançar um pouco mais no seu, digamos, “evangelho da testosterona”.

A vítima da vez, além da boa interpretação bíblica, é Ester, personagem do livro homônimo do Velho Testamento, uma moça judia virtuosa que se casa com Assuero, rei da Pérsia, e salva seu povo da aniquilação.

Faz cerca de 3.000 anos que Ester anda bem na fita, com a sua reputação ilibada ao longo de centenas de gerações de bons intérpretes judaicos e cristãos. Bem, estava, porque finalmente alguém diz que "descobriu" os seus segredos de alcova.

É que o pastor Mark Driscoll não consegue se conformar com a doce simplicidade e beleza desse roteiro épico. Na sua página na internet, não sem antes dizer que “a história de Ester tem sido muito mal interpretada”, ele a resume da seguinte maneira:
Ela cresceu numa família muito religiosa como uma órfã criada pelo seu primo. Bonita, ela permite que os homens se rendam às suas necessidades e faz as suas decisões. O comportamento dela é pecaminoso e ela passa cerca de um ano no spa sendo "embonecada" para perder sua virgindade com o rei pagão, assim como faziam centenas de outras mulheres. O desempenho dela é tão bom que ele a escolhe como sua favorita. Hoje, a sua história seria a de uma linda jovem que mora na cidade grande e permite aos homens que satisfaçam suas necessidades, passa por vários tratamentos de beleza para ficar ainda mais bela, e vai ao programa “The Bachelor” (“O Solteirão”) concorrer para uma noite maravilhosa na cama com um cara muito rico. Ela é simplesmente uma pessoa sem nenhum caráter até que o seu próprio pescoço esteja ameaçado, e então ela se levanta para salvar a vida do seu povo, momento em que ela se converte para uma fé real em Deus.
No popular, Mark Driscoll está dizendo que Ester era uma prostituta antes de se casar com o rei. E, ao afirmar que ele é o primeiro a descobrir isso, ele está se mostrando portador de uma revelação especial, o que faz dele - mesmo que contra a sua vontade - uma espécie de adepto do gnosticismo, alguém tão iluminado que só ele é capaz de decifrar o "segredo"  escondido em um texto por três milênios.

Além disso, a referência que Driscoll faz a um programa da TV americana deixa claro, ainda que inadvertidamente, como seu "evangelho" é influenciado pelo show business e pelo consumismo midiático. 

Assim, uma história bíblica pura e singela precisa ser "apimentada" com pinceladas eróticas e esqueletos no armário para que seja mais, digamos, "vendável" e palatável a um público ávido por detalhes sórdidos. 

Dando ainda vazão às suas paixões machistas, Driscoll acrescenta:
As feministas têm tentado mostrar a vida de Ester como um conto trágico de dominação masculina e liberação feminina. Muitos evangélicos têm ignorado os pecados sexuais dela e o seu comportamento ímpio para transformá-la numa figura do tipo de Daniel, o que é inapropriado. Alguns têm inclusive tentado modernizar a sua história comparando-a com o atual tráfico de escravas sexuais, mesma condição em que ela foi entregue ao rei poderoso como parte do seu harém.
Como você percebe, Driscoll tem uma fixação mórbida com detalhes sexuais de personagens e situações bíblicas e mundanas. No popular, isso também tem nome: fetiche. Ele bem que podia cuidar disso em privado e não tornar públicas as suas aberrações e fofocas supostamente "iluminadas".

E quando um líder evangélico de destaque – como ele é – começa a dar palpites sobre condições morais e sexuais de quem quer que seja na base da metralhadora giratória e do chutômetro, o resultado costuma ser desastroso.



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 39

Lucas 23:27-56

Depois que Simão Cireneu é forçado a carregar a cruz destinada a Cristo no seu trajeto até o Calvário (v. 26), Lucas relata um episódio que só ele, entre os evangelistas, registra: uma conversa altamente emotiva entre Jesus e as mulheres de Jerusalém.

Lucas é o evangelista, digamos, mais “feminista”, no sentido de que dá vez e voz às mulheres de uma maneira muito mais perceptível do que se vê nos outros evangelhos. Aqui, ele fala do pranto das mulheres (v. 27) e da mensagem de Jesus a elas, num discurso relativamente longo (vv. 28-31), em que lhes recomenda – cifrada e profeticamente – que chorassem pela destruição de Jerusalém, com a subsequente dispersão do povo judeu, que se daria no ano 70, ou seja, menos de 40 anos depois.

 Claro que as mulheres não tinham noção de que isto iria acontecer, embora não seja de duvidar que a intuição feminina as fizesse pressentir que algo muito fora da ordem estabelecida estivesse para acontecer. Muito provavelmente, a expressão “lenho verde” do v. 31 equivalia a um provérbio popular da época, e Jesus compara a sua passagem por Israel com um lenho verde, em que tudo florescia e havia esperança de vida verdadeira, e mesmo assim o estavam crucificando.

Há um eco aqui do lamento “mas não quereis vir a mim para terdes vida!” de João 5:40. Logo, certamente não haveria mais “lenho verde” quando ele fosse rejeitado (pelo povo que o próprio Deus havia escolhido para Si) e os seus discípulos perseguidos, mas somente “lenho seco”, vida estéril que se consumiria completamente quando chegassem os dias da desolação de Israel com a ruína final de Jerusalém e seu templo.

Junto com Jesus, dois “malfeitores” são encaminhados à execução (vv. 32-33) no local chamado “Caveira” (ou “Calvário”, do grego κρανίον kranion). Mateus (27:38) e Marcos (15:27) os chamam de “salteadores”. Curioso o contraste que Lucas faz entre a rejeição do povo judeu e a companhia (forçada, no caso) de dois malfeitores que teriam o mesmo destino da execução, a que o evangelista passa rapidamente no v. 33, chamando a atenção para o fato de que Jesus ocupava o lugar central das três cruzes.

Cumprindo a profecia de Isaías 53:12, Jesus era “contado com os transgressores”. A partir daí, Lucas não se diferencia muito dos outros evangelistas, mostrando como Jesus pede ao Pai que perdoe seus executores porque “eles não sabem o que fazem” (v.34), enquanto os soldados repartiam as suas vestes, sorteando-as e cumprindo a profecia do Salmo 22:18.

O v. 35 muda um pouco o foco para a plateia que ali estava para acompanhar a crucificação e certificar-se de que o veredito de Pilatos seria cabalmente cumprido, enquanto as autoridades farisaicas zombavam dele, desafiando-o a salvar-se a si mesmo se era verdade que Ele era o Messias tão ansiado por Israel, o “escolhido de Deus”.

A humilhação pública devia ser tão contagiosa que os próprios soldados romanos se animaram a escarnecer do Mestre, oferecendo-lhe vinagre (v. 36) e repetindo o desafio dos fariseus (v. 37). Lucas registra no v. 38 que acima da cabeça de Jesus estava a inscrição “Este é o Rei dos Judeus” nos 3 alfabetos que eram de uso comum do povo que habitava e transitava pela região, o grego, o hebraico e o latim. Sobre as diferentes versões registradas pelos 4 evangelistas, na sua Bíblia de Estudo, John MacArthur dá a seguinte explicação:
“Os quatro autores dos Evangelhos mencionaram a inscrição, mas cada um registrou uma versão um pouco diferente. Tanto Lucas como João (19:20) relatam que a inscrição estava em grego, latim e hebraico, de modo que os diferentes relatos nos Evangelhos podem simplesmente refletir maneiras alternativas de se traduzir o que estava escrito na placa. É ainda mais provável que cada um dos evangelistas tenha simplesmente relatado a essência da inscrição de maneira elíptica, sendo que cada um omitiu diferentes partes da inscrição como um todo. Todos os quatro Evangelhos concordam com Marcos de que a inscrição dizia O REI DOS JUDEUS (Mt 27:37; Mc 15:26; Jo 19:19). Lucas acrescentou “ESTE É” no início e Mateus começou com “ESTE É JESUS”. A versão de João diz “JESUS NAZARENO”. Ao reunir todas as versões, a inscrição como um todo é “ESTE É JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS”.”
A partir do v. 39 até o v. 43, há um inusitado diálogo, se é que pode ser chamado assim, entre Jesus e os dois malfeitores que foram crucificados com Ele, um de cada lado. Há quem diga – embora não exista qualquer evidência conclusiva a esse respeito - que os dois outros não foram crucificados com pregos, mas amarrados cada um à sua cruz, de maneira que estariam em melhores condições físicas do que Jesus, até porque, muito provavelmente, não teriam sido tão torturados como o Mestre havia sido.

Isto lhes daria, então, melhores condições para tentar entravar um diálogo com Jesus. No v. 39, talvez inspirado pela zombaria dos fariseus e dos soldados, ou ainda na esperança de que Jesus tivesse mesmo algum poder sobrenatural que o livrasse da morte, um dos malfeitores provoca Jesus a mostrar que era de fato o Cristo e se salvasse a Si mesmo e – óbvia e convenientemente – aos seus dois companheiros de cruz.

Seu amigo, entretanto, não concorda com este tipo de provocação a um companheiro de crucificação (v. 40), com uma declaração que revela que ele teve uma visão muito mais completa do que realmente estava acontecendo naquele dia e lugar: “Nem ao menos temes a Deus, estando na mesma condenação?”.

É muito interessante que ele estivesse percebendo como a plateia estava se comportando de maneira ímpia ao zombar de alguém naquela condição, que ele reconhecia como diferente, talvez divina, o que fica claro no versículo seguinte (v. 41), quando admite que ambos mereciam a condenação, mas Jesus era um homem inocente, o que o leva a fazer ao Mestre, chamando-O pelo nome, um pedido inesperado: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (v. 42).

Aqui é necessário adiantar um aspecto que será indicado mais adiante, no v. 44. A melhor tradução para esse verbo “lembrar” (no grego, μνησθητι - mnaomai) não é o imperativo “lembra-te”, mas “comece a lembrar-se de mim” no sentido de “fazer desse pedido a Sua prioridade nº 1”, dada a urgência que a ocasião requeria. Esta circunstância vai influenciar o advérbio “hoje” do v. 44, como veremos mais à frente.

Este é um dos mais belos mistérios humanos do cenário da crucificação. Tudo indica que este homem foi o único, naquele momento decisivo da história da humanidade, a compreender com surpreendentes olhos espirituais o que – realmente – estava acontecendo com Jesus.

A reação dos apóstolos, de Maria e dos discípulos, indica que eles estavam, de alguma forma, desanimados e temerosos do que estava por vir. Seus olhos miravam apenas as evidências materiais do que lhes parecia uma tragédia que eram obrigados a assistir. A própria estupefação de todos eles, três dias depois, ao constatarem que Jesus ressuscitara, mostra o quão incrédulos eles estavam naquele momento terrível de suas vidas e como os seus olhos espirituais estavam fechados até então.

Um dos malfeitores, entretanto, não tinha esta visão, tanto que lhe faz um pedido que deve ter soado louco a quem o ouviu. Como assim seu companheiro de cruz ia entrar num reino e, ainda por cima, se lembraria dele?

Esta é uma das maiores provas de fé registradas na Bíblia, vindas de um homem sobre o qual pouco se sabe e menos ainda se esperaria que tivesse uma atitude como essa. É possível que ele já tivesse ouvido a pregação de Jesus, ou mesmo O seguido à distância.

O Mestre, então, honra essa maravilhosa prova de fé, e o presenteia com uma das mais belas frases proferidas por Sua abençoada (e abençoadora) boca: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Tanto o pedido do ladrão como a resposta de Jesus mostram que, de alguma forma, era firme em ambos a crença de que a vida não terminava ali, mesmo para os ímpios (já que o ladrão se via nessa condição e Jesus concordava – ainda que tacitamente - com a sua opinião) e que ainda naquele dia, o ladrão estaria com Jesus no paraíso.

Isto foi perfeitamente compreendido por toda a cristandade, seja ela católica, ortodoxa ou protestante, durante quase dois milênios, até que – no século XIX, dois grupos dissidentes em especial, os adventistas e as testemunhas de Jeová, passaram a ter uma interpretação diferente, para adaptá-la ao seu sistema de crenças.

O que eles basicamente questionam é a tradução do v. 43, em que haveria uma pontuação inexistente tanto no texto original como nas traduções mais aceitas, uma vírgula (ou dois pontos) que modificaria completamente o entendimento do seu significado: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso”.

Perceba que o advérbio de tempo “hoje”, nessa versão extemporânea, modificaria o verbo “dizer” e não o “estarás”, o que deixaria essa entrada no paraíso para um futuro indeterminado, um “quem sabe um dia...talvez”. Esta tradução alternativa se justifica, para esses grupos, por uma razão muito mais ideológica do que teológica.

Na sua visão de mundo, o tempo cronológico é essencial para justificar as suas marcações de datas para a volta de Jesus, ou o início do juízo investigativo, ou o fim do mundo propriamente dito. Necessitam, portanto, contar o tempo para Deus da mesma maneira como o contam para o ser humano, com início, meio e fim, ainda que a eternidade e a perfeição sejam valores inalcançáveis para o nosso entendimento presente.

O tempo de Deus tem que caber no nosso calendário gregoriano, o que até favoreceria a interpretação mais aceita, se a isso não se somasse a sua pregação do aniquilacionismo, ou seja, que as almas dos ímpios são extintas, aniquiladas (em contraposição à doutrina da imortalidade da alma), que não há nenhum estado intermediário após a morte e que o inferno não existe.

Esperam uma espécie de paraíso físico, real, no qual o corpo material, de alguma forma, será aproveitado, daí também as suas restrições alimentares. Essa polêmica só faz sentido para quem tem que defender outras doutrinas que julga muito mais importantes para a sua própria constituição e sobrevivência como grupo dissidente da ortodoxia cristã.

A objeção costumeira que fazem à interpretação ortodoxa do v. 43 é que, em João 20:17, depois da ressurreição, Jesus diz que não havia subido ainda ao Pai. É difícil ver algum problema aí, a não ser para criar polêmicas desnecessárias que sirvam à afirmação de alguma doutrina extravagante, porque a ênfase em João 20:17 é no corpo humano de Jesus (“não me detenhas, Maria!”) e na sua ascensão física aos céus, o que ocorreria 40 dias depois.

Tudo isso, ainda que resumido de maneira insuficiente aqui (reconhecemos), os leva a não aceitar a tradução tradicional de Lucas 23:43, que nos parece que não só é a mais correta, como a única compatível não só com o contexto imediato de Lucas 23, mas também com toda a pregação neotestamentária.

Como este não é o espaço e o momento para nos estendermos sobre esse assunto, que realmente demanda uma análise interessante e bastante detalhada, quem quiser se aprofundar em todos os detalhes técnicos da tradução do grego e da discussão acadêmica que a envolve, recomendamos enfaticamente que visite o artigo abaixo:


Especificamente sobre a imortalidade da alma, recomendamos os seguintes artigos:




Apenas para registrar, as testemunhas de Jeová também levantam uma polêmica tola quanto à forma de execução de Jesus, que - segundo eles - teria sido consumada numa estaca e não numa cruz, cuja "justificativa" talvez seja a sua necessidade mórbida, típica de seitas, de se sentirem diferentes e portadores de uma informação única e exclusiva (nada mais gnóstico!), cuja refutação também pode ser lida no link abaixo:

Com quantos paus se faz uma stauros?

A partir do v. 44 começa a ser pintado, com grandes trevas (cumprindo a profecia de Amós 8:9), o quadro dos últimos suspiros de Jesus. O véu do santuário, o Santo dos Santos, que até então era visitado única e exclusivamente pelo Sumo Sacerdote uma vez por ano para fazer expiação pelo povo de Israel (Hebreus 9:3-8), passaria a ter o caminho aberto por Jesus (Hebreus 10:19-22), franqueado a todos os que cressem no seu sacrifício pelo seu próprio sangue derramado na cruz.

Este véu, naquele momento, é rasgado (v. 45), enquanto Jesus entrega o Seu espírito e morre como homem (v. 46). A cena deve ter sido de tal forma tocante e simbólica que o centurião que estava aos pés da cruz reconhece que havia algo de especial naquele homem que acabara se expirar (v. 47).

O contraste gritante apontado por Lucas é que ele não era judeu, mas romano, e mesmo assim glorificava a Deus porque, muito provavelmente, agora entendia o que de fato acontecera naquele local, um “espetáculo”, nas próprias palavras do evangelista, o que fez a multidão sair dali “batendo no peito” (v. 48), o que mostrava um sinal de arrependimento tardio (provavelmente, mais remorso do que arrependimento) pelo que haviam consentido que se fizesse contra um inocente.

 Os discípulos de Jesus estavam vendo tudo isso de longe (v. 49) e coube a José de Arimateia, membro do Sinédrio que não concordara com a execução de Jesus, ir até Pilatos para pedir o corpo de Jesus (vv. 50-52) a fim de lhe providenciar o devido sepultamento (vv. 53-56), dando destaque ao sepulcro escavado na rocha, pertencente ao rico José e cumprindo a profecia de Isaías 53:9, o qual ninguém havia utilizado ainda (v. 53), o que afastaria a suspeita, quando da ressurreição, de que era outro cadáver que estava na tumba.

Apesar das mulheres terem visto onde o corpo de Jesus fora depositado, e terem se preocupado em preparar os perfumes e especiarias para tratá-lo devidamente, já escurecia a sexta-feira da Paixão, e o sábado sagrado começava, não havendo mais tempo para os seus cuidados. Elas voltariam apenas no domingo, quando teriam uma grata surpresa. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.



terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mais numerologia gospel

Parece que a cantora Alda Célia é mais um expoente do mundo gospel a se deixar levar pela numerologia, esta verdadeira praga que infesta as igrejas ditas "evangélicas" no Brasil, conforme foi comentado aqui um ano atrás no artigo "Os numerólogos evangélicos". Alertado pelo blog Web Evangelista, fui conferir o twitter da cantora, conforme os "prints" abaixo (de trás pra frente), e - a pretexto da chegada do ano 2011 - lá estavam escritas bobagens cmo "Vc tem 11 meses p trabalhar e 1 para descansar!"; "Para os torcedores fanáticos, provavelmente a curiosidade mais importante é q o futebol tem 11 jogadores em campo!" e "este ano completamos 10 anos do ataque de 11/09 sobre as torres gemeas, que formavam o numero 11!", entre outros chutes, para aproveitar o argumento futebolístico. Até uma autointitulada "apóstola", Denise Halawi, respondeu à cantora dizendo que "querida você esta na unção dos 11!! Quando vai fazer 11 canções novas profetizo isso na tua vida este ano!". Até uma tal "unção dos 11" já inventaram... O gnosticismo entranhado nessas "constatações" (ou "curiosidades", como diz a cantora) tem exatamente esta característica: a de atribuir ao portador da "mensagem" ou "revelação" uma iluminação exclusiva que o(a) torna "superior" a todos os outros, o que lhe dá "autoridade" sobre os demais. Só que, neste caso do número 11, é só pegar qualquer outro número que certamente você encontrará referências bíblicas ou mundanas para "validá-las" como "revelações" que só você tem. Enquanto isso, a mensagem da cruz passa a léguas de distância da trave dos futeboleiros e numerólogos gospel. Talvez fosse mais proveitoso se as novas numerólogas gospel da praça pegassem o número 2011, por exemplo, e "encontrassem" versículos bíblicos para adaptá-los às suas crendices:

Mateus 20:11 E ao recebê-lo, murmuravam contra o proprietário, dizendo:

Lucas 20:11 Tornou a mandar outro servo; mas eles espancaram também a este e, afrontando-o, mandaram-no embora de mãos vazias.

João 20:11 Maria, porém, estava em pé, diante do sepulcro, a chorar. Enquanto chorava, abaixou-se a olhar para dentro do sepulcro,

Obviamente, entretanto, nenhum desses versículos se encaixaria nas profetadas que rodam a granel no Brasil no ano de... 2011.






terça-feira, 5 de outubro de 2010

Automumificação em vida

Tire as crianças da sala! Vai saber o que se passava na cabeça de monges budistas que se automumificaram 200 anos atrás... se o desejo era preservar o corpo, pela mórbida foto ao lado você vai perceber que o método não deu certo [#megafail]. Depois de ler esse texto, você vai pensar duas vezes antes de chamar alguém de "múmia" (por mais que a pessoa mereça o apelido):


A Mumificação Viva de Monges Budistas


Giordano Cimadon

Cientes da exata data da própria morte, cerca de 24 monges budistas da região de Yamagata, no Japão, e que viveram no início do século XIX, prepararam lentamente seus corpos para que, ao final de um período de nove anos, ficassem completamente mumificados. O processo de sacrifício converteu estes monges em exemplos únicos de santidade.

Esta prática estranha à mentalidade ocidental teve sua origem com o sábio Kukai, fundador da escola Shingon. Após uma viagem para a China, Kukai retornou trazendo diversos ensinamentos tântricos secretos, que ao longo dos anos acabaram sendo perdidos na própria China. Uma parte destes ensinamentos consistia no processo de mumificação em vida, chamado Sokunshinbutsu.

A primeira parte desta mumificação durava três anos, quando os monges se submeteram a uma dieta especial, que consistia em uma alimentação composta exclusivamente de sementes e castanhas, além de uma rigorosa disciplina física, com o objetivo de eliminar por completo a gordura de seus corpos.

Em seguida, por outro período de três anos, os monges se alimentaram apenas da casca e da raíz de árvores. Isso fazia com que os fluidos corporais fossem rapidamente eliminados. Ao mesmo tempo, consumiam em pequenas doses diárias um chá venenoso feito a partir da seiva da árvore Urushi, usada normalmente como verniz em vasilhames de cerâmica.

Assim, seus corpos se tornavam venenosos demais para serem devorados por larvas e vermes. Desta maneira, o processo de decomposição de seus corpos era evitado. Por fim, os monges se trancavam em uma tumba feita de pedra, conectada ao mundo exterior apenas por uma estreita passagem de ar.

Dentro de sua tumba, o monge assumia definitivamente a postura de lotus, entrando em estágios muito profundos de meditação e permanecendo imóvel até a sua morte. Em suas mãos segurava unicamente um sino, o qual soava diariamente, fazendo saber às pessoas que acompanhavam sua mumificação se ainda estava vivo ou se já se encontrava morto.

Quando um dia a campainha parava de soar, o tubo de ar era retirado e a tumba era selada. A partir deste momento os demais monges do templo aguardavam por mais um longo período de três anos, para então abrir a tumba e verificar se o processo de mumificação tinha sido realizado com sucesso.

Os monges que conseguiam ser mumificados eram considerados verdadeiros Budas, e seus corpos eram posicionados em lugares especiais no interior do templo, de modo que pudessem ser contemplados pelos devotos. Já aqueles que não tinham sucesso na mumificação não eram considerados Budas, mas eram respeitados e venerados por seu esforço e sacrifício.

Fonte: Sociedade Gnóstica Internacional

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Os numerólogos "evangélicos"


A Igreja evangélica brasileira tem visto, na ultima década em especial, a proliferação de uma abordagem numerológica da Bíblia, como se alguns “pastores” fossem verdadeiros lançadores de sortes com base em interpretações esdrúxulas de alguns versículos cuidadosamente pinçados. Chama a atenção, por exemplo, que no triste episódio da “unção financeira de 900 reais”, o Morris Cerullo tenha falado ao Silas Malafaia que “9” é o número de “estar completo”, e este tenha concordado como se fosse um tremendo segredo numerológico conhecido apenas pelos iniciados. Este fato aparentemente isolado ilustra bem o que tem acontecido no meio evangélico: a invasão do gnosticismo em suas versões mais antigas. A palavra grega gnosis (gnose, daí gnosticismo) significa exatamente isto: “conhecer”, e neste sistema, o conhecimento se limita a um círculo restrito de iluminados que, por detê-lo e não difundi-lo (senão em doses homeopáticas de mistério), impõem aos seus seguidores uma relação de autoridade. O gestual de Malafaia assentindo com a cabeça - e com ar de superioridade - a uma bobagem dita por Cerullo mostra a que ponto chegamos, já que se trata de um líder evangélico reconhecido como tal por parcela expressiva da população brasileira, que – culturalmente – não está habituada a questionar o “ensinos”, as “unções” e as ordens que lhe são enfiados goela abaixo. Trata-se, portanto, de uma relação de poder e dominação, logo, ideológica (ainda que travestida de “teologia”).

O primeiro grande problema que a Igreja primitiva enfrentou foi justamente o gnosticismo. Nesta época, o Império Romano era, de certa forma, sucessor do Império Helênico de Alexandre, o Grande, e todos os distintos povos conquistados estavam misturados, numa efervescência cultural e religiosa poucas vezes registradas na história da humanidade, se é que algum dia houve algo parecido. O cristianismo se espalhava pelas rotas romanas a todos os cantos do Império, e havia algo de novo na proposta cristã, ainda que os pagãos não conseguissem entender bem a altura, a extensão e a profundidade do evangelho. Talvez por isso mesmo misturassem a mensagem cristã com uma série de influências das religiões de mistério da época, formando muitos sistemas de crenças que ficaram conhecidos como “gnósticos”, mas que basicamente tinham em comum complexos cálculos numerológicos dominados apenas por um grupo restrito de iniciados. Para conhecer - em detalhe - vários desses sistemas gnósticos, recomenda-se a leitura do livro "Contra as Heresias", de Irineu de Lião. Já o historiador cristão Justo L. González tenta explicar o aparentemente inexplicável da seguinte maneira:

Apesar de haver elementos especulativos muito importantes no gnosticismo, o fato desse ensino ser usualmente apresentado como um conjunto de sistemas de especulações numerológicas tornou impossível entender como tal doutrina pode ter sido um rival tão forte da igreja. O fato do gnosticismo ter se tornado uma alternativa atraente em relação ao Cristianismo ortodoxo deve-se, sobretudo, a seu interesse soteriológico. A fim de entender este apelo, deve-se interpretar o gnosticismo, acima de tudo, como um modo de salvação. O cosmopolitanismo que acompanhou as conquistas de Alexandre tinha sua contraparte no individualismo das pessoas. Acreditava-se que as antigas religiões nacionais não eram mais capazes de satisfazer às necessidades do indivíduo. Por esta razão, os séculos nos quais o Cristianismo começou a conquistar seu espaço no mundo foram caracterizados por uma procura pela salvação individual; consequentemente, nesse tempo, houve um crescimento daquelas religiões que proclamavam oferecê-la – e além do Cristianismo, assim faziam as religiões de mistério e o gnosticismo.
..........
De qualquer forma, a doutrina da salvação deve estar baseada em uma compreensão de nosso lugar no universo, e esta é a função das complicadas construções especulativas dentro dos vários sistemas gnósticos. Se o espírito está aprisionado na matéria, deve haver uma razão para esta condição; e esta razão os gnósticos tentam oferecer por meio de suas especulações. Há duas características principais nestas especulações: seu dualismo derivado e sua numerologia. O dualismo do gnosticismo, que por muitos eruditos têm sido enfatizado como uma de suas principais características, não é um dualismo primário ou inicial; ao contrário, resulta de um monismo inicial. As especulações gnósticas são traçadas a partir de um único princípio eterno, do qual outros princípios ou aeons são produzidos em um processo declinante, até – geralmente é dito, devido a um erro em um dos aeons anteriores – o mundo material ser produzido. Assim aparece o dualismo derivado entre a matéria e o espírito, ou entre o celestial e o terreno. Dentro do processo de produção dos vários níveis de aeons, a numerologia – outra característica muito comum na especulação helenística – representa um papel importante, pois os aeons geralmente são produzidos seguindo certos modelos numéricos. A cosmologia gnóstica nasce de tal combinação entre o dualismo derivado e a especulação numerológica, e é caracterizada por uma complexa série de aeons que ficam entre o absoluto e o mundo material. Estes seres são frequentemente vistos como esferas que o espírito deve atravessar em seu retorno à eternidade.

(GONZÁLEZ, Justo L., Uma História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. vol. 1, pp. 125-127 – veja o excerto completo no site e-cristianismo)

Justo González chama a atenção para outro aspecto da efervescência religiosa dos dois primeiros séculos cristãos - o individualismo -, que não por acaso, é uma das características marcantes do atual estágio da igreja evangélica no Brasil, em pleno século XXI. A teologia da prosperidade pregada aos 4 ventos (sem qualquer simbologia no “4”), as unções financeiras de 900 reais, as “campanhas” que geralmente envolvem números e símbolos esotéricos, a necessidade mórbida de se estabelecer alvos financeiros expressos em cifras milionárias, enfim, tudo aponta para uma invasão gnóstica entre os evangélicos no Brasil. Ainda há tempo de reverter este quadro, mas infelizmente muita gente já se perdeu, e combater o “gnosticismo evangélico” certamente não vai trazer “popularidade” a quem levantar sua voz contra esta heresia revisitada, mas se Cristo não for exaltado nas nossas vidas, de que vai adiantar a fama, o dinheiro e os números? Nada!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da Assembleia de Deus ao Islã

Como diria Zagalo, “aí então fomos surpreendidos novamente”... A gente nunca deve menosprezar a possibilidade de ser pego de surpresa por alguma notícia estranha vinda da igreja evangélica brasileira. Leio no blog Genizah que o pastor presidente da Assembleia de Deus no Estado da Paraíba, João de Deus Cabral, se converteu ao islamismo. A notícia – se verdadeira, há que ressalvar - não chamaria tanto a atenção se não se tratasse de um pastor que, além de ter comandado a Convenção Estadual da maior denominação evangélica no Brasil, foi secretário nacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil por 15 anos. É normal que, todo santo dia, pessoas transitem (se “convertam”) de uma religião pra outra (ou à negação dela) no mundo inteiro, afinal o que não falta são religiosos (e ateus) nominais.

Segundo as informações colhidas até o momento, o ex-pastor teria se oposto à doutrina da Trindade, à celebração do Natal, além de acreditar na surrada teoria da conspiração de que Constantino teria sido o, por assim dizer, consolidador da religião cristã . No fundo, cá entre nós, essas são apenas desculpas para quem nunca foi cristão nem entendeu o que significa a cruz de Cristo. Entretanto, estava lá, falando em nome da maior denominação evangélica do Brasil. Por isto mesmo, não deixa de ser uma oportunidade para se avaliar a situação em que se encontra a igreja no país.

Muitos cristãos nominais não se preocupam em – pelo menos – tentar entender o que significa a doutrina da Trindade (e da correlata Encarnação) para o cristianismo. É claro que é uma doutrina inalcançável para a razão humana, mas sem essas duas doutrinas o cristianismo não subsiste, porque não haveria salvação se Jesus – como sendo 100% Deus e 100% homem – não tivesse sido sacrificado em nosso lugar, discussão que procurei aprofundar no texto “A doutrina da Trindade – Uma Introdução”, ao qual remeto o leitor que busca compreender melhor a sua importância. Com relação à celebração do Natal, cujo antagonismo de alguns evangélicos – como Edir Macedo - tem se tornado uma verdadeira superstição antissuperstição, recomendo a leitura do artigo “Esclarecimento sobre as origens do Natal”, de autoria do Gustavo, coeditor deste blog. A questão natalina, a meu ver, é mera perfumaria argumentativa, dessas filigranas que servem de desculpa pra qualquer coisa, já que nenhum ramo do cristianismo impõe a seus seguidores a obrigação de celebrar o Natal. Provavelmente, algumas “igrejas” estão querendo evitar que seus fiéis gastem seu dinheiro em presentes de Natal e o destinem aos cofres da organização.

Retornando aos dogmas da Trindade e da Encarnação, eles, entretanto, são decisivos. A atitude de negá-los explica bastante sobre as heresias que saíram da Igreja primitiva, como o nestorianismo e o monofisismo dos séculos V e VI, com resultados parecidos como o que vemos hoje na Paraíba do século XXI, por incrível que pareça. Num brevíssimo resumo, o nestorianismo pregava que havia em Jesus duas naturezas absolutamente distintas, a divina e a humana, de forma que eram dois entes independentes, sem qualquer ligação. Já o monofisismo dizia que havia em Jesus apenas a natureza divina que, digamos, “absorvia” a humana. A doutrina da Trindade, para eles, gravitava em torno das suas doutrinas exóticas da Encarnação, e terminavam por condená-la à morte, conforme exposto no texto Trindade – Uma Introdução. Essas heresias tiveram enorme influência nas igrejas orientais, em especial na região da península arábica, na qual outra seita já havia florescido, ainda no século II: os ebionistas. O ebionismo, como ensina o historiador cristão Justo L. González (leia o excerto clicando aqui), foi fortemente influenciado pelo gnosticismo e pelos grupos judaizantes da época, e, em suma, negava a Jesus qualquer divindade, colocando-o no patamar de apenas mais um dos grandes profetas de Deus. González acrescenta: “Ele não era mais o filho unigênito de Deus, mas um mero profeta dentro da sequência de profetas. Ele não era mais o salvador, mas simplesmente um elemento – algumas vezes secundário – da ação de Deus ao longo desta era”. Desta maneira, todo este caldo de cultura com referências cristãs, mas que negava as doutrinas cristãs básicas da Trindade e Encarnação, muito provavelmente terminou influenciando Maomé na fundação do islamismo, para quem Jesus era de fato um dos grandes profetas, mas não o unigênito e todo-divino Filho de Deus. O historiador Paul Johnson, em sua obra clássica “História do Cristianismo” (Ed. Imago, 2001, p. 291 – leia o excerto clicando aqui) relata que na sua primeira grande vitória, no Rio Yarmuk, em 636, o profeta do Islã contou com o apoio de 12.000 árabes cristãos, que não tiveram problemas significativos com os muçulmanos por muitos séculos.

Não deveria ser surpresa, portanto, que cristãos nominais iludidos e mal formados se convertam ao islamismo. Mas infelizmente é, e este fato exige redobrada atenção das igrejas evangélicas brasileiras, hoje muito mais preocupadas com o “evangelho do desempenho”, em que a salvação pode ser perdida a qualquer momento, se determinadas obras não forem cumpridas, certos alvos financeiros não forem alcançados e "dons espirituais" coreografados não sejam exibidos à exaustão, num profundo desprezo por tudo que os grandes reformadores protestantes resgataram da poeira dos séculos amontoada nas Escrituras e nos repassaram. Por outro lado, vemos um constante solapamento dos dogmas fundamentais do cristianismo, como a Trindade e a Encarnação, aliado à proliferação de práticas judaizantes. Além disso, o gnosticismo (com suas revelações especiais particulares e numerologia, por exemplo), infesta muitas igrejas. Registre-se, ainda, essa verdadeira fixação de muitos evangélicos pela novidade, venha ela de onde vier. Queiram ou não, o islamismo é uma religião com representatividade minúscula no espectro populacional brasileiro, e não deixa de ser “novidade” que ocorra uma conversão como essa aqui destacada.

Cabe a cada denominação e a cada pastor cuidarem bem de seu rebanho. Isto não se faz com a “espetacularização” do evangelho para satisfazer alguns corações novidadeiros, insaciáveis e voláteis. Tudo passa pelo fortalecimento doutrinário dos irmãos e das confissões de fé de cada igreja cristã, que deve permanecer firme no ensino da Palavra e intransigente no testemunho de fidelidade da Igreja primitiva, sem negociar com a areia movediça das conversões não tão convictas assim. Espero que a Assembleia de Deus, por sua importância estatística no país, debata a fundo o assunto, para que ela própria continue relevante do ponto de vista espiritual e não siga o caminho das seitas orientais do primeiro milênio.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O inconformismo humano com o seu destino

Todos nós – cristãos realmente convertidos a Cristo - temos amigos queridos que seguem doutrinas, digamos, exóticas. Verdade seja dita: talvez eles pensem o mesmo de nós, já que tivemos oportunidade de compartilhar com eles a nossa fé. Afinal, muitos que se dizem cristãos adotam também práticas esdrúxulas e esotéricas, como banhos de sete águas, suor ungido, “unções” animais, sopros demolidores, e algumas versões piratas de lutadores de videogame. Essa constatação os anima a nos enviarem algumas mensagens igualmente fantasiosas, como aquela que diz que tatuagens e piercings prejudicam a alma a encontrar seu caminho na transmigração que, segundo dizem, todas as almas fazem.

No fundo, tanto os esotéricos como os pseudocristãos têm uma característica semelhante: o desejo mórbido de controlar o seu próprio destino mediante uma disciplina que mostra aos outros uma certa aparência de sabedoria, de autocontrole, de inteligência superior. Nada que Paulo já não houvesse previsto (e advertido) aos colossenses (2:23), “as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria em culto voluntário, humildade fingida, e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum no combate contra a satisfação da carne”. A preocupação de Paulo, na época, era o início de um movimento ainda incipiente e que cresceria muito nas primeiras décadas da Igreja, contra o qual o Espírito Santo reservou o apóstolo João para combatê-lo mais direta e veementemente: o gnosticismo.

Guardadas as devidas proporções em relação ao gnosticismo original, fundamentalmente ser gnóstico não é nada mais, nada menos, do que alegar ser dotado de um conhecimento especial sobre a divindade e a transcendência que o torna superior aos demais (pobres) mortais. Cada um à sua maneira, o ser humano tem a tendência atávica de controlar o seu destino e buscar a qualquer custo superá-lo quando a – inevitável – morte chegar. É a constante luta por transcender as limitações naturais da vida, o que é perfeitamente compreensível, mas não exatamente sábio. O cristão que entendeu a mensagem do evangelho sabe que nada é, e entrega a sua vida (e a sua transcendência, portanto) nas mãos da divindade cristã, onde se sente plenamente acolhido e garantido. Não vê em si nenhum bem ou obra que lhe permita conseguir, por outros meios que não a fé, superar o destino fatal de toda a humanidade. Já os esotéricos e pseudocristãos não se conformam com este fato insofismável, e, portanto, precisam crer em manifestações materiais, visíveis, palpáveis, de que estão conseguindo trilhar o caminho progressivo de conhecimento que – ainda que inconscientemente – se propuseram. Necessitam doentiamente de provas físicas de que estão no rumo certo, ainda que esta comprovação se dê por uma espécie de iluminação espiritual autossugerida, que produz, no entanto, resultados numa vida piedosa (ou religiosa) facilmente percebida pelos outros. Criam para si uma espécie de “pedágio divino”, em que recebem tíquetes comprovantes de cada quilômetro vencido, e têm verdadeiro gozo em mostrá-los aos outros, como se estivessem dispostos a repartir gotas da “autoridade” sapiencial que alcançaram e que lhes permite, na sua imaginação, controlar o seu destino numa espécie de programa de milhagem celestial.

Para o cristão convicto, entretanto, não há meio termo nem negociação com o gnosticismo, ou, pelo menos, não deveria haver. Nosso destino e nosso futuro estão completamente nas mãos de Deus. Somos somente salvos pela fé no sacrifício redentor de Jesus Cristo, e fora disso nada sabemos ou pretendemos, senão viver uma vida consagrada a Ele, fundamentada na Sua Palavra, em que unicamente Ele dita os passos do nosso crescimento e autoridade, segundo lhE aprouver. Quanto aos gnósticos, só podemos pedir a Deus que lhes abra os olhos, e lhes faça ver que nada neste mundo se compara a viver uma vida dependente exclusivamente da graça do Pai. Isto, sim, é a verdadeira sabedoria e transcendência.

domingo, 27 de julho de 2008

Cristianismo x Gnosticismo

Creio ser muito importante conhecer a vida e a luta dos grandes homens e mulheres que Deus levantou ao longo da História, para que o evangelho permanecesse puro e imune aos modismos e heresias que surgiram com o passar dos tempos. 

Um dos grandes Pais da Igreja se chamava Irineu, e todo cristão tem o direito (um privilégio, mais que um dever) de conhecer a sua vida e a sua obra.

Irineu nasceu em Esmirna, ou perto dali, por volta de 120 d.C. 

Na juventude, foi discípulo do grande bispo Policarpo de Esmirna, com quem aprendeu os ensinamentos do apóstolo João, de quem Policarpo havia aprendido diretamente o evangelho. 

Por volta do ano 150, Irineu foi enviado à outra extremidade do Império Romano, na Gália (hoje França), onde estabeleceu-se em Lião (Lyon), sendo inicialmente presbítero e depois bispo da igreja cristã. 

Em seu livro "Contra as Heresias", atacou a heresia gnóstica e passou à história como Irineu de Lião, o grande bispo defensor da ortodoxia cristã.

Transcrevo abaixo alguns trechos do livro "História da Teologia Cristã", de Roger Olson, Ed. Vida, págs. 69/74, sobre as idéias centrais de Irineu ao atacar o gnosticismo. O texto é longo, mas vale a pena ser lido:




O ataque de Irineu ao gnosticismo não teve nada da abordagem fria e racional que as pessoas da atualidade esperariam de um bispo ou teólogo. Ele considerava o gnosticismo estulto e sinistro e queria desmascará-lo de uma vez por todas como uma corrupção completa do evangelho disfarçado em "sabedoria superior para pessoas espirituais". Para tanto, Irineu passou meses e anos estudando pelo menos vinte mestres gnósticos distintos e suas respectivas escolas. Descobriu que o mais influente era o gnosticismo valentiniano, que se tornou popular entre os cristãos de Roma mediante os ensinos de um líder gnóstico chamado Ptolomeu. Por isso, concentrou sua atenção em expor esse grupo como ridículo e falso na esperança de que todos os outros fossem esmagados com o peso dessa queda.

A abordagem de Irineu na crítica ao gnosticismo em "Contra as Heresias" foi tripla. Em primeiro lugar, procurou reduzir ao absurdo a cosmovisão gnóstica, ao demonstrar que boa parte dela era uma mitologia sem qualquer fundamento a não ser a imaginação. Essa primeira estratégia pretendia desmascarar as contradições internas do gnosticismo e sua incoerência básica. As verdades que pregava eram conflitantes entre si. Em segundo lugar, tentou demonstrar que a reivindicação dos gnósticos de ter uma autoridade que remontava a Jesus e aos apóstolos era simplesmente falsa. Finalmente, entrou em debate com a interpretação gnóstica das Escrituras e demonstrou que era irracional e até mesmo impossível.

Há várias suposições que explicam a polêmica tentativa de Irineu de desmascarar o gnosticismo. Obviamente, ele acreditava que exercia um papel e uma posição especiais, por ter sido instruído no cristianismo por Policarpo que, por sua vez, teve João como mestre. Muitos gnósticos alegavam que João fazia parte de um grupo seleto de discípulos de Jesus que receberam do Salvador "ensinos secretos" não revelados à maioria dos cristãos por não estarem espiritualmente aptos a entendê-los. Embora pudessem enxergar indícios da própria cosmovisão e evangelho nos escritos apostólicos, tinham que confiar em uma tradição oral secreta como a fonte principal de sua autoridade. Irineu deduziu que, se tivessem existido tais ensinos, Policarpo teria tomado conhecimento deles e lhe contado. O fato de nenhum dos bispos dos cristãos reconhecerem nem aceitarem esses ensinos acabou com as reivindicações dos gnósticos.

Outra suposição básica que subjazia à crítica ao gnosticismo era a de que os gnósticos seriam os responsáveis por romper a unidade da Igreja. Eram eles os cismáticos. Irineu atribuía grande valor à unidade visível da igreja, que consistia na comunhão dos bispos nomeados pelos apóstolos. Os gnósticos estavam fora dela e agiam como parasitas. Para Irineu e muitos dos seus leitores, esse era um argumento forte contra eles.

[...]

Todas as principais seitas e escolas do gnosticismo desprezavam a criação física e negavam sua origem no Deus supremo da bondade e da luz. A maioria, incluindo-se a escola de Valentino, apresentava níveis de emanações ("éons" e "arcontes" )do Deus de puro espírito e luz que gradualmente se desviavam e, de alguma forma, acabavam criando o universo material, inclusive os corpos humanos nos quais as centelhas do divino (almas, espíritos) se encontram enredadas e presas. Para rebater essa teoria da criação, Irineu afirmou a doutrina cristã de Deus como criador e redentor da existência material e da espiritual. Contra os gnósticos, citou João 1:3 e outras passagens do AT e dos apóstolos (que posteriormente seriam incluídos no NT) que tratam de Deus como o criador de todas as coisas mediante o seu Verbo e o seu Espírito e desacreditou as interpretações que fizeram das referências bíblicas aos anjos, aos poderes espirituais e aos principados, atribuindo-lhes um caráter fantasioso e absurdo.
[...]
Os gnósticos pensavam na obra de Cristo sob um prisma puramente espiritual e negavam a encarnação. Para eles, Cristo, o redentor celestial, nunca teve uma existência em um corpo humano. Ele veio pelos níveis dos "éons" e "arcontes" e apareceu na forma humana sem assumir a natureza física ou entrou no corpo de um ser humano chamado Jesus de Nazaré a fim de usá-lo como instrumento para falar a respeito da origem espiritual da alma humana. Em qualquer dessas versões da cristologia gnóstica, a obra de Cristo não requeria a encarnação. Sua missão era simplesmente revelar uma mensagem aos espíritos. A dimensão material e física não se relacionava com isso e, quando Jesus foi crucificado, Cristo não estava nele, nem com ele. Os gnósticos excluíam da sua soteriologia (doutrina da salvação) a vida e a morte histórica e física de Jesus.
Irineu procurou demonstrar que o evangelho da salvação ensinado pelos apóstolos e transmitido por eles centralizava-se na encarnação, a existência humana do Verbo, o Filho de Deus, em carne e osso. Por isso, enfatizava todos os aspectos da vida de Jesus como necessários para a salvação. A obra de Cristo em nosso favor foi muito além de seus ensinamentos e estendeu-se à própria encarnação. Para Irineu (e para a maioria dos pais da igreja depois dele) a própria encarnação é redentora e não meramente um passo necessário em direção aos ensinos de Cristo ou ao evento da cruz. Pelo contrário, a humanização do Filho de Deus - o Verbo (Logos) eterno de Deus experimentando a existência humana - é o que redime e restaura a humanidade caída se ela se permitir. Essa idéia ficou conhecida como a encarnação salvífica e foi crucial para o curso de toda a teologia depois de Irineu. É por isso que, sempre que surgia uma teologia que de alguma forma ameaçava a encarnação de Deus em Jesus, os pais da igreja reagiam tão fortemente. Qualquer ameaça à encarnação, por menor que fosse, era vista como uma ameaça à salvação. Se Jesus Cristo não fosse verdadeiramente humano bem como verdadeiramente divino, a salvação seria incompleta e impossível. A redenção, na sua inteireza, repousa na realidade do nascimento de Cristo em carne e osso, de sua vida, seu sofrimento e sua ressurreição, além do seu eterno poder e divindade.

[...]
Os gnósticos não ofereceram esperança alguma para a raça humana como um todo e nem para os seres humanos individualmente. Somente os espíritos - e assim mesmo, poucos - tinham alguma esperança de serem transformados e somente mediante a gnosis (conhecimento). Irineu implantou profundamente na consciência cristã a crença e esperança em Jesus Cristo como transformador de toda a raça humana mediante sua fusão com a humanidade na encarnação.




A questão que se levanta hoje, a meu ver, não é tanto o que é o gnosticismo em si, já que existem várias correntes gnósticas, mas como, aos poucos, boa parte das doutrinas das igrejas evangélicas atuais vai se tornando gnóstica. 

É até esperando que os seguidores de algumas religiões se considerem iluminados, alegando deter as chaves do conhecimento espiritual, como se fossem mediadores entre Deus e o homem, portadores de mensagens divinas especiais para os que os seguem. 

O problema acontece quando este fenômeno adentra nas igrejas que se dizem cristãs, quando pastores dizem ser esses mensageiros que detêm uma espécie de monopólio da revelação espiritual, como se a Bíblia e o Espírito Santo não bastassem. 

Diga-se, por oportuno, que não são os gnósticos que criaram alguma conspiração para influenciar os cristãos, mas são os cristãos que foram buscar princípios gnósticos para justificar seu pretenso saber iluminado. 

Assim, dizendo-se conhecedores de algumas doutrinas bem particulares (e esdrúxulas), que os iniciados e incautos desconhecem, apressam-se em exercer uma posição de poder que não têm, nem ninguém lhes delegou. 

Mediante rituais premeditadamente complicados (e muitas vezes, orgulhosamente secretos), desviam a atenção dos crentes do que realmente importa: a salvação pela fé em Cristo Jesus.

Parece que a simples, boa e velha mensagem do evangelho já não tem serventia para os dias atuais. 

Precisamos de mais Irineus para denunciar e condenar essa confusão generalizada entre cristianismo e gnosticismo, sob pena de chegar o dia em que não se saiba mais como distinguir um do outro.

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