sábado, 4 de fevereiro de 2012

O evangelho macho de Driscoll e Piper

Alguma coisa estranha anda acontecendo nas igrejas evangélicas dos Estados Unidos. 

Existe uma certa, digamos, "masculinização" do evangelho no ar e o cheiro parece não ser agradável. Mark Driscoll já vinha provocando polêmicas com sua insistência na testosterona gospel, como quando elogiou a beleza máscula e "pura" de lutadores (suados e ensanguentados) de MMA no octógono e ridicularizou líderes de louvor afeminados, conforme já escrevemos aqui no texto "O bullying afeminado de Mark Driscoll", numa declaração - no mínimo - fora de propósito. 

Que Driscoll dê umas bolas fora de vez em quando, isso a gente já está lamentavelmente acostumado. 

Agora, para nossa surpresa, a bola de vez é o respeitabilíssimo pastor John Piper, de quem se pode discordar eventualmente numa ou outra ênfase de sua pregação, mas em geral ela é bem exposta e calcada na Bíblia, de maneira que fica difícil refutá-la. 

Entretanto, na última terça-feira, dia 31 de janeiro, durante a conferência anual de pastores patrocinada por sua organização "Desiring God", Piper entrou por uma seara que, se não era exatamente nova na sua pregação, teve suas implicações largamente expandidas. 

Segundo o renomado pastor, a intenção de Deus para o cristianismo é que ele tenha uma "sensação masculina", já que "Deus se revelou a Si mesmo na Bíblia penetrantemente como rei e não rainha; pai e não mãe (...) a Segunda Pessoa da Trindade é revelada como o Filho eterno e não a filha; o Pai e o Filho criaram homem e mulher à sua imagem e deram a eles o nome de homem, o nome do macho". 

Continua Piper: "Deus apontou todos os sacerdotes do Velho Testamento como sendo homens; o Filho de Deus veio ao mundo para ser um homem; Ele escolheu 12 homens para ser Seus apóstolos; os apóstolos apontaram que os cuidadores da Igreja deveriam ser homens; e com respeito ao casamento eles ensinaram que o marido deveria ser a cabeça. Portanto, de tudo isso eu concluo que Deus deu ao cristianismo uma sensação masculina. E sendo Deus um Deus de amor, Ele fez isso para o nosso máximo deleite, tanto machos como fêmeas". 

A conferência já havia sido aberta por Piper, na segunda à noite, com o tema "Deus, Masculinidade e Ministério - Construindo Homens para o Corpo de Cristo", com um apelo tanto à masculinidade como a paternidade que seriam os dois principais assuntos abordados durante sua preleção.

De fato, o tema masculinidade associado à paternidade não é novo no mundo evangélico, embora saia de cena por longos períodos. Daí podemos concluir que é perfeitamente compreensível e louvável a iniciativa de John Piper em trazer de novo esse assunto à baila. 

O que talvez possa ser criticado é se a ênfase na masculinidade não ultrapassou os limites do razoável, e mesmo que Piper seja um ícone (no bom sentido da palavra) dos bons pregadores cristãos que ainda restam no mundo, parece que ele forçou um pouco a mão no cozido que pretendia fazer (macho também cozinha, gente!). 

Primeiro, por que o subtema "Construindo Homens para o Corpo de Cristo" e não "para a Noiva de Cristo", como a Igreja é - repetida e femininamente - chamada no Novo Testamento, em especial no Apocalipse? 

Claro que a Igreja é apresentada como o masculino Corpo de Cristo, mas também como a Noiva. Afinal, não existe universo mais exclusivamente feminino - que perpassou e transcendeu culturas e gerações - do que o da "noiva". 

Curioso que o próprio Jesus se refere a Si próprio como Deus numa referência também bastante feminina e, digamos, "ecológica", ao chorar sobre Jerusalém clamando: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" (Mateus 23:37 e Lucas 13:34). 

É no mínimo inacreditável, portanto, que Piper tenha se esquecido dessas duas alegorias tão importantes e femininas. 

Isto para não citar outras tantas passagens bíblicas onde as mulheres são reverenciadas, nem entrar no tema "Maria, Mãe de Deus" para evitar frissons anticatólicos. É forçoso reconhecer, também, que o conhecido pastor procurou minimizar a masculinização pregada, dizendo que "Deus não quer que as mulheres se sintam frustradas ou de qualquer maneira sofram ou não desfrutem de gozo pleno e duradouro nesse cristianismo masculino (...) pelo que posso inferir que o mais completo deleite de mulheres e homens acontece em igrejas e famílias que têm essa sensação masculina". 

Sabendo de antemão das controvérsias que sua pregação causaria, ele já apresentou também sua defesa: "Quando eu digo 'cristianismo masculino' ou 'ministério masculino' com uma sensação masculina, aqui está o que eu quero dizer: a teologia, a igreja e a missão são marcadas por uma supremacia divina de liderança masculina no espírito de Cristo com um ethos de força e ternura, coragem contrita, determinação de assumir riscos, e prontidão ao sacrifício em prol de liderar, proteger e prover comunidade. Todas as quais são possíveis somente através da morte e ressurreição de Jesus".

Por mais que John Piper se auto-explique, não deixa de ser estranho sentir tanta, digamos, "testosterona" em sua pregação, que talvez ficasse menos surpreendente de ouvir na boca de Mark Driscoll, acostumado que ele é à apologia da masculinidade e da "pureza" de lutadores suados e ensanguentados no octógono. 

Curioso que, depois dessa alocução, muita gente deve estar se questionando (sem qualquer ofensa ou duplo sentido) se não via e ouvia as pregações de John Piper com três características que são rotineiramente mais associadas à feminilidade: a delicadeza, a paixão e o amor. 

Justo ele de quem poderíamos dizer que "manifesta em todo lugar a fragrância do Seu conhecimento [de Deus]" (2ª Coríntios 2:14). 

Suspeito, entretanto, que Piper tenha tido outra motivação que merece ser discutida mais a fundo. 

Quando utiliza a expressão de que Deus se revelou na Bíblia como "rei" e não "rainha" ("queen" em inglês), ele está utilizando uma palavra, "queen", que já significou um eufemismo pejorativo associado aos homossexuais (também conhecidos jocosamente por "queers", sem falar nas "drag queens"). 

Talvez essa, digamos, masculinização excessiva ("machista", no popular) do evangelho pregado nos Estados Unidos (agora assumida por John Piper) tenha muito a ver, curiosamente, com o movimento gay e não com uma certa teologia feminista que teve dias melhores. 

Se esta ligação (por oposição) com a agenda gay for verdadeira, desconfio que as lideranças evangélicas, tanto nos Estados Unidos como no mundo, estão deixando a pregação cristocêntrica de lado e se envolvendo - por vontade própria, diga-se de passagem - numa disputa ideológica com elementos externos ao evangelho puro e simples da cruz, que fatalmente terminarão minando os seus esforços em levar o reino de Deus adiante. 

Quando gente como John Piper, conhecido por sua pregação bíblica e cristocêntrica, adere a esse movimento, talvez seja o caso de pensar melhor. 

Opor-se à agenda gay dentro dos estritos limites da convivência democrática é uma causa legítima. Deixar que ela dite a pauta da sua pregação é algo completamente diferente. 

Permitir o perigoso reducionismo do evangelho a questões de gênero ou trans-gênero representa o empobrecimento radical de uma preciosíssima mensagem radicalmente transformadora. 

Ainda bem que Deus não depende disso, senão o cristianismo estaria irremediavelmente perdido.



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