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domingo, 22 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 22


ENCARNAÇÃO E TRINDADE

E eu rogarei ao Pai. [João 14.16a]

“Portanto, se guardarem meus mandamentos, viverem juntos em harmonia e fraternidade, mostrando assim que me amam, então, devem resignar-se com o fato de o diabo os importunar. O mundo mostrará sua hostilidade e os afligirá e atormentará sem fim. Ademais, os falsos cristãos e as facções retribuirão o amor de vocês com todo tipo de maldade. Não permitam que isso os intimide, mas perseverem e permaneçam em meu amor. Vocês não passarão necessidade e não serão abandonados, pois não ficarei sentado, ocioso, lá em cima, no céu, e esquecerei vocês. Nada farei além de ser seu amado sacerdote e mediador; orarei e suplicarei por vocês ao Pai para que ele lhes dê o Espírito Santo, que os consolará, fortalecerá e preservará em todas as necessidades, para que vocês permaneçam em meu amor e possam suportar alegremente tudo que lhes acontecer por minha causa”.

Mas, como é possível reconciliar as palavras “Eu rogarei ao Pai” com aquelas ditas acima, de que “o que pedirdes em meu nome isso Eu farei”? Ali, Cristo mostra que é verdadeiro Deus e que ele mesmo quer conceder o que lhe pedirem. Aqui, porém, ele diz que rogará ao Pai para que este lhes mande um Consolador. Como se pode afirmar do verdadeiro Deus que ele pedirá algo de alguém outro? Pois, certamente, não é próprio de Deus estar sujeito a alguém outro e ser obrigado a receber algo dele. Não, Deus, mesmo é capaz de dar e fazer todas as coisas.

Por isso, quando a esperta razão e as mentes sagazes escutam tais palavras de Cristo, imediatamente exclamam: “Oh, essas não são palavras de Deus, mas de um simples ser humano. Pois se ele fosse Deus, teria de dizer: ‘Eu lhes mandarei o Consolador’”. Dessa maneira, querem mandar o Espírito Santo para a escola; bancam os espertos com sua gramática e sua lógica e nos ensinam que a palavra “rogar” não é própria de Deus e que, por conseguinte, Cristo não pode ser Deus. Então, ampliam e enfatizam isso com sua retórica, fazendo com que o Espírito Santo pareça uma criança, sim, um imbecil, que não sabe como falar. Independentemente do que o Espírito Santo faz e diz, deve estar errado. Portanto, criticam e sabem tudo melhor. Mas não são suficientemente piedosos para juntar os dois versículos, arrancando uma parte do contexto aqui e outra ali, e onde encontram uma palavra ou duas, lançam-se sobre elas e enganam as pessoas para que não vejam o que mais a Escritura tem a dizer sobre isso. Sim, se é válido tomar uma palavra ou duas de um contexto todo e ignorar o que vem antes e depois ou o que a Escritura afirma alhures, então, eu também poderia interpretar e torcer toda a Escritura e qualquer discurso da maneira como me aprouvesse.

Mas a regra é esta: olha o texto todo, inclusive as palavras que o precedem e as que o seguem. Então constatarás que Cristo fala tanto como Deus quanto como ser humano; com isso, evidenciar-se-á, poderosamente, como ensinamos e cremos, que Cristo é verdadeiro homem e, também, verdadeiro Deus. Pois, como se pode expressar em quaisquer palavras que ele fala como Deus e como homem ao mesmo tempo, visto que tem duas naturezas distintas? Se ele sempre falasse como Deus, não se poderia provar que ele [também] é verdadeiro homem. E se ele falasse sempre como homem, não se perceberia que ele também é verdadeiro Deus.

Por isso, Cristo precisa alternar, usando, às vezes, palavras que refletem sua natureza divina e, outras vezes, empregando aquelas que são próprias à sua natureza humana. Contudo, é a mesma pessoa que fala, às vezes, como se fosse tão-somente Deus e, outras vezes, como se fosse apenas ser humano. Pois, se Cristo é tanto Deus quanto ser humano em uma só pessoa, por que não deveria dizer também isso e aquilo de si mesmo sem fazer uma distinção? Mas, aqui, ele emprega ambas as maneiras de falar em rápida sucessão em um único sermão. Porque a mesma pessoa que disse há pouco “o que pedirdes em meu nome isso eu farei”, também declara aqui: “E eu rogarei ao Pai”. Isso acontece visando a tornar certo e claro este artigo: que, nessa pessoa, Cristo, não há somente divindade nem somente humanidade, mas que ambas, tanto a natureza divina quanto a humana, encontram-se indivisas em uma só pessoa.

Pois dissemos suficientemente que, na essência divina de Cristo e do Pai, há duas pessoas distintas. Por isso, quando falamos de Cristo, aqui, também é preciso ensinar claramente que ele é uma pessoa, mas que há duas naturezas distintas, a divina e a humana. De novo, exatamente como lá, a natureza ou a essência divina permanece não-misturada no Pai e em Cristo, assim, aqui, a pessoa de Cristo permanece indivisa. Por isso, os atributos de cada natureza, a humana e a divina, são atribuídos a toda a pessoa, e dissemos de Cristo: “O homem Cristo, nascido da virgem Maria, é onipotente e faz tudo que pedimos – não, contudo, de acordo com a natureza humana, mas de acordo com a natureza divina, não por causa de seu nascimento de sua mãe, mas, porque ele é o Filho de Deus”. E, mais, “Cristo, o Filho de Deus, roga ao Pai, não de acordo com sua natureza ou essência divina, segundo a qual ele é igual ao Pai, mas porque ele é verdadeiro homem e filho de Maria”. Portanto, é necessário juntar as palavras e compará-las de acordo com a unidade da pessoa. As naturezas sempre devem ser diferenciadas, mas a pessoa deve permanecer indivisa.

Assim como se crê nele como sendo uma pessoa, Deus e homem, também nos convém falar dele como o requer cada natureza. Algumas palavras indicam sua natureza humana; outras, sua natureza divina. Por isso, deve-se considerar o que Cristo diz de acordo com sua natureza humana e o que ele diz de acordo com sua natureza divina. Pois, onde isso não é observado e apropriadamente diferenciado, segue-se necessariamente todo tipo de heresia, como aconteceu em tempos passados, quando algumas pessoas afirmaram que Cristo não era verdadeiro Deus, e outras asseveraram que ele não era verdadeiro homem. Pois elas não foram capazes de seguir o princípio de diferenciar entre os dois tipos de discurso com base nas duas naturezas.

Pois Cristo falou, muitas vezes, como o homem mais humilde da terra quase não deveria falar. Por exemplo, quando ele diz: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” [Mt 20.28]. Com essas palavras, ele se torna completamente servo entre todos os seres humanos, embora seja verdadeiro Deus e Senhor sobre todas as criaturas, ao qual todos devem servir e adorar. Igualmente, Salmo 41[.4], ele faz de si um pecador e afirma que está sendo punido por causa do pecado. Isso, naturalmente, está fora de cogitação segundo a natureza divina. Por outro lado, ele, frequentemente, emprega o discurso da majestade enaltecida, que nenhum anjo ou criatura deveria usar, embora estivesse na forma e figura mais humilde enquanto vivia neste mundo, como, por exemplo, Jo 6[.62]: “Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?”

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 139-142)

(este comentário de Lutero sobre João 14:16a 
continua no excerto ao qual se chega clicando aqui)



sábado, 21 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 21


ENCARNAÇÃO: A REDENÇÃO

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Ademais, como os anjos no céu o adoram e o chamam de seu Senhor, enquanto jaz na manjedoura, e dizem aos pastores, Lc 2[.11]: “Eis que vos nasceu o Salvador, Cristo, o Senhor”, etc., ele deve ser verdadeiro /Deus. Pois os anjos não adoram mera carne ou natureza humana. Por isso, deve haver tanto Deus quanto ser humano, lado a lado, nessa pessoa. E, ao falar de Cristo, fala-se de uma pessoa indivisa, que é Deus assim como homem. Aquele que vê, ouve ou encontra Cristo com a fé do coração, certamente não encontra apenas o homem, mas, também, o verdadeiro Deus. Assim, não deixamos Deus sentado ocioso no céu entre os anjos, mas o encontramos aqui embaixo, deitado na manjedoura e no colo da mãe. Resumimos dizendo: “Onde encontramos essa pessoa, certamente encontramos a Majestade Divina”.

Como se disse frequentemente, isso nos possibilita resistir ao diabo e derrotá-lo na agonia da morte e em outras necessidades, quando nos aterroriza com o pecado e o inferno. Pois, se ele lograsse fazer com que eu considerasse Cristo como mero homem que foi crucificado e morreu por mim, então eu estaria perdido. Porém, se atribuo toda a importância ao fato de Cristo, verdadeiro Deus assim como verdadeiro homem, ter morrido por mim, isso excede e eclipsa em muito todo pecado, morte, inferno e qualquer miséria e aflição. Pois, se sei que aquele que é verdadeiro Deus sofreu e morreu por mim e que, por outro lado, este mesmo verdadeiro homem ressuscitou dos mortos, ascendeu ao céu, etc., então posso concluir, com certeza, que meu pecado e minha morte foram abolidos e superados por este e que Deus não mais me vê com ira e desfavor, porque vejo e ouço nessa pessoa nada além de sinais e obras de pura graça.

Cuida, portanto, para que compreendas essa doutrina de tal maneira que preserves a pessoa de Cristo por inteiro e lhe atribuas as funções de ambas as naturezas, embora estas sejam distintas. Pois, de acordo com a natureza divina, ele não nasceu de um ser humano, nem assumiu coisa alguma da Virgem. É verdade que Deus é Criador e que o homem é criatura. Mas, aqui, os dois se reuniram em uma única pessoa, e, agora, Deus e homem são um Cristo. Maria deu à luz um filho, e os judeus crucificaram uma pessoa que é Deus e homem. Caso contrário, se ele fosse somente homem, como o são outros santos, não seria capaz de nos livrar de um só pecado ou de apagar um tiquinho do fogo do inferno com toda sua santidade, sangue e morte.

Este é o conhecimento, a doutrina e o consolo que temos de Cristo com base na Escritura, embora o mundo e a esperta razão os considerem pura tolice. Mas deixemos que outros sejam perspicazes em nome de seu deus, o diabo, e se danem com sua inútil gramática e retórica, com que pretendem corrigir a Escritura, rasgá-la ou, pelo menos, anulá-la. São uns pobres gramáticos, ou seja, pessoas que, repetidamente, lutaram e se atormentaram com o pecado e a morte ou que brigaram e porfiaram com o diabo. Deixemos que ensinem as regras de como falar latim corretamente, que interpretem seus poetas, seus juristas e seus médicos e que sejam espertos e instruídos em seu próprio ofício. Nessas questões, porém, não queremos ter outros árbitros senão aqueles que provaram e experimentaram o poder dessa doutrina.

São espíritos importunos e nocivos que jamais estiveram em uma batalha ou experimentaram algo em questões espirituais. No entanto, imediatamente, querem colocar-se, baseados em sua razão, como mestres da Escritura e julgar sobre questões tão sublimes. Eles fazem o mesmo em relação a outros assuntos, como o Batismo, o Evangelho e o Sacramento. “Água é água” (dizem eles) “e pão é pão. Em que isso pode ajudar a alma? Por acaso, as palavras do pregador são mais do que um hálito passageiro?”, etc. Imaginam que deram uma grande contribuição quando apresentam o que aprenderam no jardim-de-infância e declaram que água não é fogo. Mas, se estivessem experimentado, alguma vez, o poder e o efeito do Batismo, do Sacramento e da Palavra oral, certamente ficariam de boca fechada.

Experimentei, louvado seja Deus, um pouco do que é essa doutrina e do que ela é capaz e a sustentei diante de outros espíritos cujo dedo mínimo é mais instruído e inteligente do que todos esses gramáticos. E também vi que essa doutrina foi preservada durante mais de mil anos contra todas as cabeças espertas e diabos no inferno que se opuseram a ela. Certamente, sobreviverá a todos eles. Por isso, honremos o Espírito Santo, admitindo que ele sabe mais e é mais inteligente do que nós e nosso conhecimento infantil e preservemos essa doutrina em sua pureza de acordo com a Escritura.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado, 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 144-146)

(aqui termina o comentário de Lutero sobre João 14:6a)



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 20


ENCARNAÇÃO: MARIA, MÃE DE DEUS

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Dizemos de cada ser humano que ele come, bebe, digere, dorme, acorda, anda, fica parado, trabalha, etc., embora a alma não participe em nenhuma dessas atividades, mas apenas o corpo. Contudo, afirma-se isso da pessoa toda, que tem corpo e alma. Pois ele é um ser humano não só por causa do corpo, mas por causa do corpo e da alma. Por outro lado, também afirmamos que o ser humano pensa, inventa, aprende. Pois, de acordo com sua razão ou alma, ele pode tornar-se professor ou mestre, juiz, conselheiro ou governante. Nem o corpo nem qualquer um de seus membros lhe dá essa competência. No entanto, afirmamos: “Ele tem uma cabeça boa; é sensato, instruído, sábio, eloquente, artístico”. Dessa maneira, diz-se de uma mulher que ela está grávida, dá à luz e amamenta uma criança, embora não seja a alma, mas tão-só o corpo que faz dela uma mãe. Todavia, atribuímos isso à mulher toda. Igualmente, se alguém golpeia uma pessoa na cabeça, dizemos: “Ele bateu no João ou na Margareta”. Ou, quando um membro do corpo é lesionado ou ferido, pensamos na pessoa toda como estando machucada.

Estou empregando essas ilustrações simples para que se entenda como se devem separar na pessoa de Cristo as duas naturezas distintas e como, no entanto, isso deixa a pessoa inteira e indivisa. Tudo que Cristo diz e faz, tanto Deus quanto o homem dizem e fazem, mas cada palavra e cada ação estão de acordo com uma ou outra natureza. Aquele que observa essa distinção, encontra-se no caminho seguro e certo. Ele não será desencaminhado pelas ideias errôneas dos hereges, as quais provêm unicamente do fato de não reunirem o que pertence junto e constitui uma unidade, ou por não separarem e dividirem, apropriadamente, o que deve ser diferenciado.

Por isso, devemos nos ater ao discurso e às palavras da Escritura e reter e confessar a doutrina de que este Cristo é verdadeiro Deus, através de quem todas as coisas são criadas e existem, e, ao mesmo tempo, que este mesmo Cristo, Filho de Deus, nasce da virgem Maria, morre na cruz, etc. Ademais, Maria, a mãe, não carrega, dá à luz, amamenta e alimenta tão-somente o homem, tão-somente carne e sangue – pois isso seria dividir a pessoa -, mas ele carrega e alimenta um filho que é Filho de Deus. Por isso, ela é corretamente chamada não só a mãe do home, mas, também, a mãe de Deus. Isso, os antigos Pais ensinaram contra os nestorianos, que se opunham a que Maria fosse chamada de mãe de Deus e se recusavam a dizer que ela dera à luz o Filho de Deus.

Aqui, devemos ratificar com o nosso Credo: “Creio em Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus Pai, nosso Senhor, que nasceu da virgem Maria, sofreu, foi crucificado, morreu”. Ele é sempre o mesmo e único Filho de Deus, nosso Senhor. Por isso, é certo que Maria é a mãe do real e verdadeiro Deus. E os judeus não só crucificaram o Filho do Homem, mas, também, o verdadeiro Filho de Deus. Pois não quero um Cristo em que devo crer e a quem devo invocar como meu Salvador que seja apenas um ser humano. Nesse caso, eu estaria indo ao encontro do diabo, pois simples carne e sangue não poderiam extinguir o pecado, reconciliar a Deus e abolir sua ira, superar e destruir a morte e o inferno, e conceder a vida eterna.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 143-144)

(para ler a sequência do comentário de Lutero
sobre João 14:6 a, clique aqui)



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 19


ENCARNAÇÃO: A(S) NATUREZA(S) DE CRISTO

(para acessar o texto anterior clique aqui)

Sim, tudo que a Escritura diz de Cristo abarca toda a pessoa, como se tanto Deus quanto o homem fossem uma só essência. Muitas vezes, ela emprega expressões intercambiavelmente e concede os atributos de ambos a cada natureza por causa da unidade pessoal, que chamamos de communicatio idiomatum. Portanto, podemos dizer: “O homem Cristo é o Filho eterno de Deus, pelo qual foram criadas todas as criaturas, e Senhor do céu e da terra”. Por outro lado, também podemos dizer: “Cristo, o Filho de Deus (isto é, a pessoa que é verdadeiro Deus), foi concebido e nasceu da virgem Maria, sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e morreu”. Além disso: “O Filho de Deus está sentado à mesa com coletores de impostos e pecadores e lava os pés dos discípulos”. Ele, naturalmente, não faz isso segundo a natureza divina. Porém, como isso é feito por uma só e mesma pessoa, é correto dizer que o Filho de Deus o está fazendo. Por conseguinte, S. Paulo declara, 1 Co 2[.8[: “Se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória”. E Cristo mesmo [afirma] em Jo 6[.62]: “Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? “ Isso, em verdade, é dito a respeito da natureza divina, a única a estar com o Pai desde a eternidade, mas também é dito da pessoa, que é verdadeiramente homem.

Em resumo: tudo que esta pessoa, Cristo, diz e faz é dito e feito por ambos, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de modo que todas as suas palavras e ações devem ser sempre atribuídas a toda a pessoa e não são divididas, como se não fosse verdadeiro Deus ou verdadeiro homem. Mas isso deve ser feito de modo a identificar e reconhecer apropriadamente cada natureza. Se quisermos falar correta e distintamente de cada uma, é necessário que digamos: “A natureza de Deus é diferente da do homem. A natureza humana não é, desde a eternidade, como a natureza divina, e a natureza divina não nasceu nem morreu temporalmente, etc., como a natureza humana. Mas as duas estão unidas em uma só pessoa”. Por isso, há um só Cristo e podemos dizer dele: “Este homem é Deus, e este homem criou todas as coisas”. De forma semelhante, corpo e alma constituem duas naturezas em uma pessoa natural e sadia, mas as duas constituem uma só pessoa ou um só ser humano, e atribuímos as atividades e os ofícios de ambas as naturezas à pessoa toda.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado.  1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 142-143)

(para acessar a sequência do comentário de Lutero
sobre João 14:6a clique aqui)


domingo, 21 de dezembro de 2014

O Credo de Atanásio

trindade

Para ler a biografia que escrevemos sobre Atanásio de Alexandria, acesse o portal e-cristianismo.

Eis o Credo de Atanásio:


E a fé universal é esta: adoremos um Deus na Trindade, e a Trindade na unidade. Não confundimos as Pessoas, nem dividimos a Substância. Pois existe uma única Pessoa do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo. Mas a Deidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma só: a glória é igual, a majestade é coeterna.

Tal como é o Pai, tal é o Filho e tal é o Espírito Santo. O Pai não foi criado, o Filho não foi criado, o Espírito Santo não foi criado. O Pai é incompreensível (imensurável), o Filho é incompreensível (imensurável) e o Espírito Santo é incompreensível (imensurável). O Pai é eterno, o Filho é eterno, o Espírito Santo é eterno. E, no entanto, não são três (seres) eternos, mas apenas há um eterno. E não há três (seres) que não foram criados e que são incompreensíveis (imensuráveis). Há, porém, um só que não foi criado e é incompreensível (imensurável). Assim sendo, o Pai é Todo-Poderoso, o Filho é Todo-Poderoso, o Espírito Santo é Todo-Poderoso. E, no entanto, não são três (seres) Todo-Poderosos, mas um só Deus é Todo-Poderoso. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. E, no entanto, não são três deuses, mas um só Deus. Igualmente, o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, o Espírito Santo é Senhor. E, no entanto, não são três senhores, mas um só Senhor. Pois da mesma forma que somos compelidos pela verdade cristã a reconhecer cada pessoa, por si mesma, como Deus e Senhor, assim também somos proibidos pela religião universal de dizer: "Existem três deuses ou três senhores".

O Pai não foi feito de ninguém: nem criado nem gerado. O Filho vem somente do Pai: não foi feito nem criado, mas gerado. O Espírito Santo vem do Pai e do Filho: não foi feito nem criado, nem gerado, mas procedente. Assim, há um só Pai, e não três Pais; há um só Filho, e não três filhos; há um só Espírito Santo, e não três espíritos santos. E nessa Trindade nenhum é antes ou depois do outro. Nenhum é superior ou inferior ao outro. Mas todas as três Pessoas são juntamente coeternas e coiguais de tal modo que, em todas as coisas, foi dito, a Unidade da Trindade e Trindade na Unidade deve ser adorada. Aquele, pois, que quiser ser salvo, deve pensar assim sobre a Trindade.

Também é necessário para a salvação eterna que se creia, fielmente, na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois a verdadeira fé é que creiamos e confessemos que nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e Homem. Deus da Substância do Pai, gerado antes dos mundos, e Homem da substância de sua mãe, nascido no mundo. Perfeito Deus e perfeito homem, tendo alma e subsistindo em carne humana. Igual ao Pai, referindo-se à sua divindade, e inferior ao Pai referindo-se à sua humanidade; o qual embora seja Deus e Homem, contudo não é dois, mas um só Cristo. Um, não mediante a conversão da divindade em carne, mas por ter tomada a humanidade em Deus. Um, juntamente, não por confusão de Substância, mas por unidade de Pessoa. Pois tal como a alma e a carne formam um só homem, assim Deus e o Homem é um só Cristo. O qual sofreu pela nossa salvação, desceu ao inferno, ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia. E ascendeu ao céu. Está assentado à direita do Pai, Deus Todo-Poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.

Por ocasião de sua vinda, todos os homens ressuscitarão em seus corpos e prestarão contas de suas próprias obras. Aqueles que praticaram o bem irão para a vida eterna; e aquela que praticaram o mal obterão as chagas eternas.

Essa é a fé universal, a qual pode salvar o homem. Basta que ele creia nela fiel e firmemente.




sábado, 18 de agosto de 2012

Patriarca da Igreja Ortodoxa Etíope morre aos 76 anos de idade

Faleceu no último dia 16 de agosto, quinta-feira, Abune Paulos, que era o patriarca da Igreja Ortodoxa da Etiópia, e o fato ocorreu na capital do país, Addis Abeba.

A Igreja Ortodoxa Etíope tem também o nome "Tewahido", que significa "feito um" ou "unificado" no idioma (exclusivamente litúrgico) Ge'ez, e faz referência à crença de algumas igrejas orientais no monofisismo, ou seja, a posição cristológica de que Jesus tem apenas uma natureza, a da humanidade absorvida pela divindade, e não duas naturezas, conforme decidido no Concílio da Calcedônia no ano 451.

A tese das duas naturezas, aceita pelas igrejas ocidentais (católica e protestante) e pela maioria das igrejas orientais (ortodoxas) se expressa na doutrina da Encarnação que foi assim definida em Calcedônia:
"Na linha dos santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, "semelhante a nós em tudo com exceção do pecado"(Hb 4,15); gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase."(DS 301-302)."
A Igreja Ortodoxa da Etiópia é autônoma desde 1959, quando foi declarada independente pela Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, no Egito, da qual era patriarca até pouco tempo atrás Shenouda III, que morreu em março deste ano e aparece acima na foto ao lado de Abune Paulos.

Este, por sua vez, foi o quinto patriarca da Igreja Ortodoxa na Etiópia, comandando cerca de 45 milhões de fiéis no país e em boa parte do mundo onde a diáspora etíope está presente.



domingo, 28 de agosto de 2011

Cristologia moderna e teologia ateia

Se tem uma coisa da qual o filósofo Luiz Felipe Pondé não foge é polêmica. Assim foi no artigo "Qualquer golfinho consegue ser ateu" e na pendenga com as feministas pelo artigo "Restos à janela", apenas para citar dois exemplos. É no mínimo curioso (pra não dizer surpreendente) que venha dele um texto, publicado hoje na sua coluna da Folha de S. Paulo, sobre as tendências conflitantes da cristologia moderna, em que ele fala sobre o perigo de se tirar de Jesus a condição divina e deixá-lo apenas humano, o que seria muito parecido com uma "teologia ateia". Como o tema é muito vasto e demandaria discussões inesgotáveis, perdoa-se uma ou outra falha ou omissão aqui e ali, mas não deixa de ser um artigo muito interessante de se ler. Deus crucificado continua sendo um escândalo para os "sábios". A matéria pode servir, ainda, como um roteiro sobre como debater Jesus com a alta intelectualidade. Apesar da arrogância e auto-suficiência que a caracteriza, o texto de Pondé é uma evidência de que os intelectuais - cada um à sua maneira - também são pessoas carentes de Deus e existe espaço e momento para evangelizá-los. Confira:

Jesus do alto, Jesus de baixo

LUIZ FELIPE PONDÉ
COLUNISTA DA FOLHA


Afinal, quem foi Jesus? A pergunta é um clichê, mas movimenta rios de dinheiro e ideias. A figura do jovem herege judeu morto pelos romanos é peça-chave de nossa cultura e de nosso imaginário.

Qualquer iniciante sabe que heróis como esses são em parte uma "construção" histórica, no sentido de que muita gente e muita coisa se unem pra constituir a face (se é que existe "uma" face neste caso) do personagem. No caso deste judeu herege, o caso é mais sério porque muita gente crê que ele seja também Deus, além de homem.

O problema central acerca de Jesus é justamente sua "pessoa divina" e não apenas sua "pessoa histórica". Muito já foi escrito sobre isso. A partir do século 19, porém, o material se tornou mais "científico", no sentido de se buscar, afinal de contas, quem teria sido o Jesus histórico.

HEREGE JUDEU

Antes de tudo, por que eu me refiro a ele como um herege judeu? Porque o cristianismo nasceu uma heresia judaica e seu líder, ainda que nunca tenha dito (não há fonte documental que prove isso) que ele fosse o messias (salvador esperado pelos judeus até hoje), é um herege, visto como tal pela aristocracia religiosa judaica de sua época, por ter "criado" uma seita com seus seguidores.

Mais tarde, os seguidores diretos de Jesus passaram a pregar seu messianismo para comunidades judaicas "assimiladas" aos modos romanos ou gregos de viver (e que viviam em colônias romanas). A partir daí, a pequena heresia judaica se transformou no cristianismo que conhecemos.

O encontro com a erudita cultura greco-romana pagã deu à jovem heresia judaica sua cor filosófica e teológica, pela assimilação da filosofia de então --platonismo e estoicismo, basicamente. Em meio às discussões acerca da doutrina em nascimento, uma das questões centrais era saber quem era Jesus, no sentido teológico.

Muitos o consideravam "apenas" mais um profeta israelita, com vocação para falar aos pobres e oprimidos pela casta do templo judaico e pela ocupação romana. A fala de Jesus, ainda que não beligerante, tem a marca do profetismo hebraico do Velho Testamento (para os judeus "bíblia hebraica").

PROFETAS

E o que vem a ser esse profetismo? Basicamente uma crítica social, política e moral. Os profetas de Israel criticavam os "poderosos" por seus abusos e o povo por seu "relaxamento" moral. E a todos por viverem uma religião vazia e puramente (nos termos do rabino e filósofo judeu do século 20, Avraham Joshua Heschel) "behaviorista".

Dito de outra forma, uma prática religiosa sem coração ou conteúdo, apenas "exterior". Essa controvérsia será conhecida na tradição do cristianismo primitivo paulino como a oposição entre a lei e a intenção do coração no cumprimento da lei. Portanto, o cristianismo nasce sim com uma vocação de crítica do poder e dos costumes estabelecidos.

Outros afirmavam que Jesus era "apenas" um espírito, e seu corpo teria sido, em termos atuais, mero "holograma". Jesus não tinha, portanto, propriamente um corpo de carne e osso.
A vitória final (se é que se pode falar em vitória final nesse assunto) foi daqueles que defendiam que Jesus era homem e Deus ao mesmo tempo, tendo, portanto, duas substâncias, a humana e a divina, sem confusão entre elas.

RATZINGER

Um temor presente (ainda que de certa forma velado) nos estudos da cristologia levados a cabo por Joseph Ratzinger (Bento 16) em seus dois livros sobre Jesus é o risco de "revisão histórica" dessa vitória da hipótese de que Jesus seja homem e Deus.

"Jesus of Nazareth" [trad. Adrian J. Walker, Doubleday, 372 págs., R$ 55,70], publicado no Vaticano em 2007, traz uma extensa introdução metodológica acerca dos riscos de uma revisão histórica da pessoa divina de Jesus por conta das "modas metodológicas" contemporâneas em estudos bíblicos.

Afora essa introdução, o livro se ocupa basicamente dos primeiros anos públicos de Jesus e de sua "autoapresentação" como salvador único, e representante do Deus dos judeus.

"Jesus de Nazaré - Da Entrada em Jerusalém até a Ressurreição" [trad. Bruno Bastos Lins, Planeta, 272 págs., R$ 29,90] de 2011, se ocupa dos últimos dias de sua vida no mundo, e é inferior em comparação ao primeiro volume de sua cristologia.

Portanto, a empreitada de Ratzinger, além de ser uma busca pessoal da pessoa de Jesus, deve ser vista, em suas próprias palavras, como um esforço de entrada no debate cristológico contemporâneo por parte de um dos teólogos católicos vivos mais consistentes.

CRÍTICA LIBERAL

Qual seria esse debate e qual seria o risco implícito nele (ou, às vezes, quase resvalando numa "moda metodológica"), pelo menos aos olhos do papa teólogo? O risco de revisão histórica seria fruto de um movimento, que em si nunca teve intenção de revisão da divindade de Cristo, conhecido como crítica bíblica liberal, identificada com o protestantismo liberal alemão do século 19.

A intenção do movimento, muito pautada pelo caldo cultural do iluminismo, com vocação clara para declarar todo conhecimento não científico como vago e sem valor, era fazer um estudo histórico e documental da Bíblia e, dentro dele, da pessoa de Jesus de Nazaré.

Não se pode dizer que tenha sido apenas "culpa" dos alemães protestantes, pois católicos como o francês Renan também estavam à caça do "Jesus histórico".

Ainda em 1914, o filósofo judeu alemão Franz Rosenzweig, em sua "Teologia Ateia" (sem tradução em português), chamava a atenção para o mesmo risco que alimenta, veladamente, a busca de Ratzinger.

Para Rosenzweig, o protestantismo liberal alemão poderia concluir que Jesus era apenas um grande homem, pois as intenções inconscientes da crítica bíblica de então davam mais atenção ao que Jesus teria de humano e atenuavam seus aspectos "irracionais", a saber, sua suposta divindade.

Nos termos que Ratzinger usa em seu segundo volume sobre Jesus (e concordando de certa forma com parte do que a crítica especializada diz de sua obra sobre Jesus), sua cristologia pode ser vista como uma cristologia "do alto" em oposição a uma cristologia "de baixo" (ainda que ele recuse ser apenas um teólogo "do alto").

A diferença entre ambas é que a primeira daria maior atenção ao fato que Jesus é, antes de tudo, Deus intervindo na história, e a segunda optaria pelo caráter humano e histórico (portanto, político e social) de Cristo.

RECONSTRUÇÃO

A tendência da crítica bíblica liberal ao buscar a pessoa do Jesus histórico seria deslizar suavemente para privilegiar o personagem que habitou a Palestina em detrimento do que foi "construído" em cima dele por teólogos posteriores --lembremos que nos textos evangélicos em nenhum momento Jesus se diz Deus.

Assim sendo, a divindade de Jesus poderia sair arranhada, na medida em que estaria "fora" da reconstrução histórica possível.

O argumento metodológico de Ratzinger é que nada há de grandioso a ser "reconstruído" historicamente acerca de Jesus (sua arqueologia seria menor do que sua teologia), e que por isso o resultado seria apenas a projeção sobre o personagem histórico de Jesus dos preconceitos ou preferências dos próprios pesquisadores.

Essas preferências seriam basicamente a de "modernizá-lo" a ponto de torná-lo mais palatável a um mundo que tende a diminuir a divindade de Jesus em favor de um Jesus líder político e não Deus. O que inclusive facilitaria o diálogo inter-religioso contemporâneo.

Para Ratzinger, o Jesus que importa é o que nos fala diretamente de sua fonte primeira, os evangelhos, e não o dos "historiadores".

Outro lançamento é "Jesus - Uma Biografia de Jesus para o Século 21" [trad. Alexandre Martins, Nova Fronteira, 208 págs., R$ 39], do historiador "generalista" Paul Johnson.

O livro também segue a tendência de uma "teologia do alto", sem grandes diálogos com a crítica histórica, mas acaba sendo demasiadamente vago e confessional. Em nada acrescenta ao debate do século 21 sobre Jesus.

O de Ratzinger é melhor.

domingo, 2 de janeiro de 2011

O desenvolvimento humano de Jesus

por B. B. Warfield:

É na distinção de Lucas entre os evangelistas que recebemos uma narrativa, fundada, como ele nos diz, em uma investigação que “traçou o curso de todas as coisas acuradamente desde o princípio” (Lucas 1:3). Nós notamos a exatidão cuidadosa com que ele relata a atuação dos pais de nosso Senhor em “todas as coisas que eram de acordo com a lei do Senhor” - a circuncisão de seu maravilhoso filho, “quando oito dias foram cumpridos para circuncidá-lo” (Lucas 2:21); sua apresentação no Templo, “quando os dias de sua purificação de acordo com a lei de Moisés foram cumpridos” (Lucas 2:22); a visita anual a Jerusalém na festa da Páscoa (2:41); e outros. Também pertence, sem dúvida, a este escrupuloso (acriby) método de Lucas – se pudermos usar uma forma ainda mais inglesa que a palavra “acribia” reconhecida pelo Dicionário Padrão – que ele demarca para nós com cuidadosa precisão, os estágios do crescimento da criança. Ele de fato não distingue todos os oito stadia de desenvolvimento pelos quais a doce domesticidade da linguagem hebraica provê distintas designações. Mas com alguma astúcia ele traz Jesus perante nós sucessivamente como um “menino” (Lucas 2:16, 40, 43) em seu progresso ao estado adulto, e tudo isto dentro do domínio de um simples capítulo. O segundo capítulo de Lucas pode ser de forma justa considerado como uma história expressa do desenvolvimento do homem, Cristo Jesus; e ele expõe no que quase chega ao direto clamor de ser assim, por formalmente resumir em dois compreensivos versos seu inteiro crescimento da infância à adolescência e da adolescência à idade adulta, “E a criança cresceu”, nós lemos, “e se fortalecia, se tornando (mais e mais) cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele” (v. 40). “E Jesus avançava em sabedoria e estatura, e em graça diante de Deus e dos homens” (v. 52).

Pareceria absurdo questionar que aqui está atribuído a Jesus o que poderia no completo sentido da palavra ser chamado de um desenvolvimento humano normal. A linguagem é carregada, de fato, com sugestões que esta era uma criança extraordinária: cujo crescimento nós estamos testemunhando, e seu desenvolvimento era um desenvolvimento extraordinário. Atenção é chamada também para seu progresso físico, intelectual e moral ou espiritual; e da mesma forma parece ser implícito que seu avanço era sólido, contínuo, rápido e destacável. Aqueles que olhavam para ele no berço veriam que, mesmo além do bebê Moisés de tempos antigos, este era um “menino formoso” (Hb 11:23), e dia após dia ele crescia e se fortalecia, e enquanto ele crescia em estatura, ele avançava também em sabedoria. Não somente em conhecimento, mas naquela habilidade instintiva na prática do uso do conhecimento, aquele discernimento moral e espiritual, que nós chamamos de sabedoria.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mãe de Deus, Encarnação e Trindade




A expressão Mãe de Deus - associada a Maria - desde o quarto século é uma expressão polêmica no meio cristão, e poucas pessoas compreendem seu real significado. Não é à toa que ela foi a principal causa de dois Concílios Ecumênicos e gerou uma das maiores controvérsias do cristianismo.


Hoje ela está automaticamente ligada ao catolicismo, e se tornou uma expressão mariológica, a exemplo de Theotokos (do grego Θεοτόκος), na ortodoxia oriental. Por isto mesmo, no meio evangélico, há uma espécie de aversão instantânea a esta expressão, o que faz com que as pessoas a rejeitem sem ao menos refletir sobre o seu real significado.


Desta maneira, poucos conhecem sua natureza cristológica, pois a expressão, quando foi criada, estava muito mais relacionada à divindade de Cristo do que a uma pretensa superioridade de Maria. Por isto lemos no Credo de Calcedônia:
Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da virgem Maria, mãe de Deus; Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis; a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos pais nos transmitiu.


Este credo é aceito por todas as denominações protestantes, com exceção das extremamente puritanas e de algumas seitas que renegam todo o passado da Igreja. É comum encontrar pessoas que a chamam de herética, talvez por associá-la - como que por reflexo condicionado - apenas ao catolicismo. Eu não sou dogmático, e não condeno ninguém por achar errado valer-se da expressão, como católicos a utilizam, e o fazem de forma forçada, a meu ver... só que o título Mãe de Deus não é heresia, como muitos alegam. Talvez haja discordância sobre o seu uso correto, mas não se trata de uma expressão herética. Isto se explica porque as duas naturezas de Cristo estão tão unidas, que a expressão é possível. Vejamos:


Sabemos que Cristo é um ser que possui duas naturezas, a saber, a humana e a divina. Estas naturezas estão intimamente ligadas no ser Jesus Cristo. Assim, o que acontece com uma natureza, acontece com todo o ser Jesus Cristo, e não com parte dele.


É como chorar. Quem desempenha a tarefa de chorar é o olho, mas quando choramos, ninguém diz que é o olho que está chorando, mas nós por completo. A pessoa chora, não apenas o olho.


O mesmo acontece com Cristo. Deus não pode chorar, não é propriedade de sua natureza. Mas na Encarnação, Deus pode chorar através de sua natureza humana. Então quando Cristo chora, Deus chora, pois suas naturezas são uma só em seu ser. Da mesma forma, um homem não pode ser adorado, mas por causa da união entre as duas naturezas, a natureza humana de Cristo recebe adoração como Deus.


Isto precisa ser assim, pois era necessário que Cristo experimentasse a morte, como o autor de Hebreus diz:
(Hb 9:15) E por isso é mediador de um novo pacto, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto, os chamados recebam a promessa da herança eterna.
(Hb 9:16) Pois onde há testamento, necessário é que intervenha a morte do testador.
(Hb 9:17) Porque um testamento não tem força senão pela morte, visto que nunca tem valor enquanto o testador vive.


Ora, se Deus não experimenta a morte, então nós não podemos receber nossa herança eterna!!! Imagine quão perigoso é isto para nossa salvação!!!


E aqui nós podemos perceber quão herético é o aniquilacionismo. Pois se a morte é aniquilação, Deus ao experimentar a morte teria sido aniquilado!!! Nós ao contrário cremos que a morte é uma separação do mundo material, não uma aniquilação do ser completo.


Então, o título "mãe de Deus" é válido sim, pois as propriedades de uma natureza são compartilhadas com a outra, pois Jesus é um ser (mais que) completo, íntegro e co-substancial em suas essências humana e divina. Assim, Deus não tem uma mãe humana, mas através de sua natureza humana ele tem uma mãe. Estas são as palavras mencionadas na confissão de Calcedônia e é como se deve entender esta expressão.


Complementando a idéia acima, sempre me chamou a atenção para o fato que a Bíblia chama muitas vezes Deus de "o Deus Vivo". Isto ela faz em contraste com os deuses mortos dos pagãos.


Bem, nós protestantes entendemos a morte como uma separação do mundo material. O morto não se comunica com este mundo mais, ele não se relaciona com ele. Talvez por isto o contraste bíblico... Os deuses pagãos são incapazes de se relacionar com este mundo, de salvar seus fiéis, de lhes dar esperança.


Já mencionei algumas vezes o fato de Deus ter que morrer como condição apresentada no livro de Hebreus, e muitos acharam a idéia absurda, talvez por que nesta hora pensem na morte como aniquilação... Mas o que acontece é que este não se relaciona mais com o mundo, pelos três dias, e por isto também a solução modalista de que somente Jesus é Deus, que o Pai e o Espírito Santo são modos de Jesus se revelar ao mundo, é herética da mesma forma. Como poderia o mundo ficar sem se relacionar com Aquele que o sustém? Deus deixaria de manter o mundo pelos 3 dias? Assim, a Trindade se impõe como doutrina não por uma manobra político-ideológica, mas como uma necessidade teológica absoluta para explicar a nossa salvação.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O evangelho de Lucas - parte 37

Lucas começa o capítulo 22 situando no tempo os momentos finais da missão de Jesus neste mundo. Era a festa da Páscoa (v. 1), e os principais sacerdotes e os escribas conspiravam para matar Jesus (v. 2). Aqui Lucas propõe um contraste imediato e marcante entre a Páscoa judaica, tal como recebida da tradição veterotestamentária (Êxodo 12), em que a primeira Páscoa havia acontecido na noite da morte dos primogênitos do Egito, a décima e última praga do Senhor sobre os opressores de Israel, em que um cordeiro puro era sacrificado para proteger os judeus. Agora, eram os seus principais sacerdotes que preparariam outro cordeiro, o Cordeiro de Deus, para o sacrifício, como bem lembra Paulo em 1ª Coríntios 5:7 ("Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós"). Para tanto, contam com a influência de Satanás em um dos discípulos mais próximos de Jesus, Judas (v. 3), que foi em busca dos conspiradores (v. 4), vender a sua lealdade a Cristo (v. 5). É certo que Judas tinha entendido mal as palavras de Jesus. Talvez realmente visse nEle alguém enviado da parte de Deus, afinal havia sido testemunha de muitos de seus sinais e prodígios. Talvez, imbuído de alguma espécie de messianismo político, quisesse apressar uma revolução libertadora do jugo romano mediante a entrega de Jesus aos religiosos (v. 6). Imaginava, muito provavelmente, que Jesus usaria todo aquele seu poder magnífico para vencer os opressores tanto romanos como judeus. Entretanto, destoa o fato de ter aceito dinheiro para "vender" o Mestre. Que isto cumpre a profecia de Zacarias 11:12, não há dúvida, e reforça também o que diz Jesus em João 17:12, "Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse". É triste o destino de Judas, portanto. Ele se enganou sobre o tipo de liberdade que Jesus pregava e representava.

Chega, então, o dia da Festa dos Pães Asmos, a Páscoa (v. 7). Jesus incumbe João e Pedro de prepará-la para o seu grupo de discípulos (v. 8). Eles lhe perguntam onde se reuniriam (v. 9), ao que Jesus responde que encontrariam um homem com um cântaro de água na entrada da cidade, e deviam segui-lo até a casa onde ele entrasse (v. 10), e então diriam ao dono da casa uma espécie de senha (v. 11), e ele lhes mostraria um cenáculo espaçoso e mobiliado, onde deviam fazer os preparativos (v. 12). Os dois discípulos se puseram a caminho, e tudo aconteceu conforme o Mestre lhes havia predito (v. 13). Aqui percebemos que, a exemplo do que ocorreu na entrada triunfal em Jerusalém (Lucas 19:28-34), Jesus se precavera com uma rede de discípulos que utilizava sinais e códigos secretos naqueles momentos difíceis de perseguição. A igreja nascente voltaria a usar esses códigos secretos pouco tempo depois, como o símbolo do peixe para identificar os cristãos, mas é interessante ter uma idéia de como a situação de Jesus e seus discípulos se complicava à medida em que os eventos finais se aproximavam. Eles se reúnem, então, para festejar a Páscoa (v. 14), e Jesus se diz ansioso por compartilhar aquele momento e lhes prediz, de novo, o seu sofrimento (v. 15). É surpreendente que o próprio Deus-Homem reconheça a sua ansiedade para que aquele dia chegasse, mas isto também nos revela a sua plena humanidade. Era a última vez que dividiria uma refeição com seus amigos neste mundo (v. 16), e tomou um cálice, repartiu o vinho entre seus discípulos (v. 17), pois só beberia vinho novamente na sua segunda vinda (v. 18). Em seguida, parte e reparte o pão, simbolizando o seu corpo que seria oferecido por nós, e pede que eles repetissem isto posteriormente, em memória dEle (v. 19). Da mesma maneira, relaciona o vinho ao sangue que derramaria em favor de nós (v. 20), mas ainda diz que o traidor estava à mesa com Ele (v. 21), alertando sobre o seu triste destino (v. 22), o que provoca uma dúvida cruel nos seus discípulos, que se indagavam a qual deles o Mestre se referia (v. 23).

Parece totalmente fora de propósito o que vem a seguir, mas da afirmação feita pelo próprio Jesus, de que havia um traidor naquele recinto, isto numa época de enorme perigo, eles passam a discutir qual deles parecia ser o maior (v. 24). Jesus chama a atenção deles para a futilidade do debate (v. 25), dizendo-lhes que agora a lógica era outra: o maior devia ser como o menor, e aquele que dirige como o que serve (v. 26). Mostra-lhes, ainda, que Ele próprio estava servindo-lhes (v. 27) e reconhece que eles tinham permanecido com Ele durante suas tentações (v. 28). Por isso, o Reino que o Pai lhe confiara Ele agora confia aos discípulos (v. 29), que, juntamente com Jesus, julgarão as dozes tribos de Israel no dia final (v. 30). A conversa toma outro rumo, ainda, quando Jesus adverte Pedro de que Satanás havia pedido para cirandá-lo como trigo, ou seja, peneirá-lo (v. 32), mas o Mestre havia rogado por ele para que a sua fé não desfalecesse (v. 33). Esta situação lembra a do primeiro capítulo de Jó, em que Satanás requer a Deus que possa afligir a seu servo, tirando-lhe absolutamente tudo o que tinha, inclusive os filhos, mas com exceção da vida, para ver se sua fé era preservada. Pedro estava diante daquele que era o Todo, o Deus absoluto, cuja presença física lhe seria tirada dentro em breve. Mesmo assim, Pedro se arvora com condições de enfrentar o desafio (v. 33), no que é advertido mais uma vez por Jesus, de que 3 vezes o negaria antes que o galo cantasse na manhã seguinte (v. 34). Em, seguida, Jesus lhes diz que o tempo em que saíam pelos campos, totalmente desprovidos de qualquer conforto ou segurança, haviam terminado (v. 35). Agora, precisavam de alforjes, sandálias e espadas (v. 36), já que a profecia de que seria contado entre os malfeitores (Isaías 53:12) também seria cumprida (v. 37). Os discípulos arranjaram rapidamente duas espadas (v. 38).

Vem, então, o momento da prisão de Jesus. Diz Lucas que, "como de costume", ele foi para o Monte das Oliveiras (v. 39). Chegando lá, pediu aos seus discípulos que orassem para evitar entrar em tentação (v. 40). Recolheu-se um pouco mais adiante para ajoelhar-se e orar (v. 41), dizendo a frase que ficou célebre: "Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua" (v. 42). O cálice lembra o sofrimento, a desolação, a ira de Deus contra o pecado do homem (Isaías 51:17, Ezequiel 23:33). Jesus o conhece, e sabe o que lhe está reservado, mas se submete à vontade de Deus Pai. Aqui a natureza humana de Jesus se revela. Como homem, sem pecado, sentiria na própria carne, a ira de Deus contra o pecador. Alguns dizem que os vv. 43 e 44 não constavam do texto original e foram interpolados posteriormente. Neles, um anjo aparece para confortar Jesus, e este entra numa agonia tão profunda que chega a suar sangue. Este fenômeno raríssimo, chamado tecnicamente de hematidrose, pode acontecer em situações de extremo stress. A literatura médica registra muito poucos casos, geralmente associados aos estigmas, que sempre têm um fundo religioso. Há um artigo recente no The American Journal of Dermatopathology, cujo abstrato pode ser acessado aqui.

O fato de Lucas tê-lo registrado advoga em favor da canonicidade desses dois versículos. Afinal, ele era médico e sempre teve um, digamos, olho clínico para situações como essa. O abatimento era geral, tanto de Jesus como de seus discípulos, que provavelmente estavam muito assustados. Ao retornar da oração, o Mestre achou-os "dormindo de tristeza" (v. 45), e chamou-lhes a atenção, dizendo que não era hora de dormir, mas de levantar e orar para não cair em tentação (v. 46). Mal acabou de falar, uma multidão (composta de sacerdotes, capitães do templo e anciãos, cfe. v. 52) se aproximou com Judas à frente, que o beijou (v. 47). Jesus ainda acentua a traição com um beijo (v. 48), enquanto os discípulos se preocupam com a espada (v. 49), tendo um deles (Pedro, segundo João 18:10) cortado a orelha do servo do sumo sacerdote (v. 50). Jesus intervém, acalmando os ânimos e curando a orelha do ferido (v. 51), mas aproveita para censurar seus perseguidores, por trazerem um aparato daqueles para prendê-lo (v. 52), quando poderiam tê-lo feito no templo. Prender alguém de noite, culturalmente falando, revela covardia, tocaia, alguém que age na base da traição. Os artigos 245 e 293 do Código de Processo Penal brasileiro, por exemplo, limitam as prisões noturnas. A noite é o domínio das trevas, "a vossa hora", como Jesus disse aos seus acusadores (v. 53).

Jesus é levado, então, para a casa do sumo sacerdote, com Pedro seguindo-o de longe (v. 54). Começa, então, a sucessão de negações que este vai enfrentar. Primeiro, uma criada o reconhece (v. 56), depois outro (v. 58) e mais outro (v. 60). Não só as feições, mas o sotaque carregado de "caipira" galileu o denunciava (v. 59). Três vezes Pedro nega a Jesus, e finalmente o galo canta (v. 60). Foi nesta hora que Jesus, o Senhor (como Lucas faz questão de afirmar, usando a palavra grega κύριος - kurios ) se vira para mirar nos olhos de Pedro. Até então, Lucas fizera um uso cuidadoso desta palavra, κύριος - kurios , mas desde o capítulo 20, verso 42, quando Jesus cita o Salmo 110:1 ("Disse o Senhor ao meu Senhor"), ele faz questão de associar este termo Senhor, divinamente revelado e confirmado, ao próprio Jesus. Dentro de todo o contexto do capítulo 22, onde as naturezas humana e divina de Cristo aparentam estar em conflito, o evangelista vai pouco a pouco realçando uma e outra, para mostrar tanto a complexidade como a maravilha da Trindade e da Encarnação. Pedro se lembra, então, do aviso que recebera do próprio Mestre no cenáculo, e se retira chorando amargamente (v. 62).

Os guardas passam a zombar de Jesus, espancando-o (v. 63), e escarnecendo dos seus poderes divinos (v. 64), blasfemando (v. 65). Como Isaías profetizara 700 anos antes (53:7), "ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca". Só de manhã bem cedo é que Jesus é levado ao Sinédrio (v. 66), onde procuram fazê-lo dizer que era o Cristo (v. 67), mas Jesus se esquiva (v. 68), mas, reforçando esta idéia que Lucas vem dando no contexto, sobre a profundidade da Trindade e da Encarnação, diz em seguida que a partir daquele momento o Filho do Homem estaria sentado à direito de Deus Todo-Poderoso (v. 69). Todos os sacerdotes, que obviamente já haviam ouvido a sua pregação antes, perguntam se Jesus era o Filho de Deus, ao que ele responde: "Vós dizeis que eu sou" (v. 70). Eles não perceberam isso na hora, mas não estavam dizendo apenas com a boca, mas com o triste papel que desempenhavam no martírio e no sacrifício de Cristo. Entendem que esta declaração é suficiente para incriminá-lo, eles preparam a entrega do Mestre a Pilatos, o que se dá no início do capítulo 23.

domingo, 27 de julho de 2008

Cristianismo x Gnosticismo

Creio ser muito importante conhecer a vida e a luta dos grandes homens e mulheres que Deus levantou ao longo da História, para que o evangelho permanecesse puro e imune aos modismos e heresias que surgiram com o passar dos tempos. 

Um dos grandes Pais da Igreja se chamava Irineu, e todo cristão tem o direito (um privilégio, mais que um dever) de conhecer a sua vida e a sua obra.

Irineu nasceu em Esmirna, ou perto dali, por volta de 120 d.C. 

Na juventude, foi discípulo do grande bispo Policarpo de Esmirna, com quem aprendeu os ensinamentos do apóstolo João, de quem Policarpo havia aprendido diretamente o evangelho. 

Por volta do ano 150, Irineu foi enviado à outra extremidade do Império Romano, na Gália (hoje França), onde estabeleceu-se em Lião (Lyon), sendo inicialmente presbítero e depois bispo da igreja cristã. 

Em seu livro "Contra as Heresias", atacou a heresia gnóstica e passou à história como Irineu de Lião, o grande bispo defensor da ortodoxia cristã.

Transcrevo abaixo alguns trechos do livro "História da Teologia Cristã", de Roger Olson, Ed. Vida, págs. 69/74, sobre as idéias centrais de Irineu ao atacar o gnosticismo. O texto é longo, mas vale a pena ser lido:




O ataque de Irineu ao gnosticismo não teve nada da abordagem fria e racional que as pessoas da atualidade esperariam de um bispo ou teólogo. Ele considerava o gnosticismo estulto e sinistro e queria desmascará-lo de uma vez por todas como uma corrupção completa do evangelho disfarçado em "sabedoria superior para pessoas espirituais". Para tanto, Irineu passou meses e anos estudando pelo menos vinte mestres gnósticos distintos e suas respectivas escolas. Descobriu que o mais influente era o gnosticismo valentiniano, que se tornou popular entre os cristãos de Roma mediante os ensinos de um líder gnóstico chamado Ptolomeu. Por isso, concentrou sua atenção em expor esse grupo como ridículo e falso na esperança de que todos os outros fossem esmagados com o peso dessa queda.

A abordagem de Irineu na crítica ao gnosticismo em "Contra as Heresias" foi tripla. Em primeiro lugar, procurou reduzir ao absurdo a cosmovisão gnóstica, ao demonstrar que boa parte dela era uma mitologia sem qualquer fundamento a não ser a imaginação. Essa primeira estratégia pretendia desmascarar as contradições internas do gnosticismo e sua incoerência básica. As verdades que pregava eram conflitantes entre si. Em segundo lugar, tentou demonstrar que a reivindicação dos gnósticos de ter uma autoridade que remontava a Jesus e aos apóstolos era simplesmente falsa. Finalmente, entrou em debate com a interpretação gnóstica das Escrituras e demonstrou que era irracional e até mesmo impossível.

Há várias suposições que explicam a polêmica tentativa de Irineu de desmascarar o gnosticismo. Obviamente, ele acreditava que exercia um papel e uma posição especiais, por ter sido instruído no cristianismo por Policarpo que, por sua vez, teve João como mestre. Muitos gnósticos alegavam que João fazia parte de um grupo seleto de discípulos de Jesus que receberam do Salvador "ensinos secretos" não revelados à maioria dos cristãos por não estarem espiritualmente aptos a entendê-los. Embora pudessem enxergar indícios da própria cosmovisão e evangelho nos escritos apostólicos, tinham que confiar em uma tradição oral secreta como a fonte principal de sua autoridade. Irineu deduziu que, se tivessem existido tais ensinos, Policarpo teria tomado conhecimento deles e lhe contado. O fato de nenhum dos bispos dos cristãos reconhecerem nem aceitarem esses ensinos acabou com as reivindicações dos gnósticos.

Outra suposição básica que subjazia à crítica ao gnosticismo era a de que os gnósticos seriam os responsáveis por romper a unidade da Igreja. Eram eles os cismáticos. Irineu atribuía grande valor à unidade visível da igreja, que consistia na comunhão dos bispos nomeados pelos apóstolos. Os gnósticos estavam fora dela e agiam como parasitas. Para Irineu e muitos dos seus leitores, esse era um argumento forte contra eles.

[...]

Todas as principais seitas e escolas do gnosticismo desprezavam a criação física e negavam sua origem no Deus supremo da bondade e da luz. A maioria, incluindo-se a escola de Valentino, apresentava níveis de emanações ("éons" e "arcontes" )do Deus de puro espírito e luz que gradualmente se desviavam e, de alguma forma, acabavam criando o universo material, inclusive os corpos humanos nos quais as centelhas do divino (almas, espíritos) se encontram enredadas e presas. Para rebater essa teoria da criação, Irineu afirmou a doutrina cristã de Deus como criador e redentor da existência material e da espiritual. Contra os gnósticos, citou João 1:3 e outras passagens do AT e dos apóstolos (que posteriormente seriam incluídos no NT) que tratam de Deus como o criador de todas as coisas mediante o seu Verbo e o seu Espírito e desacreditou as interpretações que fizeram das referências bíblicas aos anjos, aos poderes espirituais e aos principados, atribuindo-lhes um caráter fantasioso e absurdo.
[...]
Os gnósticos pensavam na obra de Cristo sob um prisma puramente espiritual e negavam a encarnação. Para eles, Cristo, o redentor celestial, nunca teve uma existência em um corpo humano. Ele veio pelos níveis dos "éons" e "arcontes" e apareceu na forma humana sem assumir a natureza física ou entrou no corpo de um ser humano chamado Jesus de Nazaré a fim de usá-lo como instrumento para falar a respeito da origem espiritual da alma humana. Em qualquer dessas versões da cristologia gnóstica, a obra de Cristo não requeria a encarnação. Sua missão era simplesmente revelar uma mensagem aos espíritos. A dimensão material e física não se relacionava com isso e, quando Jesus foi crucificado, Cristo não estava nele, nem com ele. Os gnósticos excluíam da sua soteriologia (doutrina da salvação) a vida e a morte histórica e física de Jesus.
Irineu procurou demonstrar que o evangelho da salvação ensinado pelos apóstolos e transmitido por eles centralizava-se na encarnação, a existência humana do Verbo, o Filho de Deus, em carne e osso. Por isso, enfatizava todos os aspectos da vida de Jesus como necessários para a salvação. A obra de Cristo em nosso favor foi muito além de seus ensinamentos e estendeu-se à própria encarnação. Para Irineu (e para a maioria dos pais da igreja depois dele) a própria encarnação é redentora e não meramente um passo necessário em direção aos ensinos de Cristo ou ao evento da cruz. Pelo contrário, a humanização do Filho de Deus - o Verbo (Logos) eterno de Deus experimentando a existência humana - é o que redime e restaura a humanidade caída se ela se permitir. Essa idéia ficou conhecida como a encarnação salvífica e foi crucial para o curso de toda a teologia depois de Irineu. É por isso que, sempre que surgia uma teologia que de alguma forma ameaçava a encarnação de Deus em Jesus, os pais da igreja reagiam tão fortemente. Qualquer ameaça à encarnação, por menor que fosse, era vista como uma ameaça à salvação. Se Jesus Cristo não fosse verdadeiramente humano bem como verdadeiramente divino, a salvação seria incompleta e impossível. A redenção, na sua inteireza, repousa na realidade do nascimento de Cristo em carne e osso, de sua vida, seu sofrimento e sua ressurreição, além do seu eterno poder e divindade.

[...]
Os gnósticos não ofereceram esperança alguma para a raça humana como um todo e nem para os seres humanos individualmente. Somente os espíritos - e assim mesmo, poucos - tinham alguma esperança de serem transformados e somente mediante a gnosis (conhecimento). Irineu implantou profundamente na consciência cristã a crença e esperança em Jesus Cristo como transformador de toda a raça humana mediante sua fusão com a humanidade na encarnação.




A questão que se levanta hoje, a meu ver, não é tanto o que é o gnosticismo em si, já que existem várias correntes gnósticas, mas como, aos poucos, boa parte das doutrinas das igrejas evangélicas atuais vai se tornando gnóstica. 

É até esperando que os seguidores de algumas religiões se considerem iluminados, alegando deter as chaves do conhecimento espiritual, como se fossem mediadores entre Deus e o homem, portadores de mensagens divinas especiais para os que os seguem. 

O problema acontece quando este fenômeno adentra nas igrejas que se dizem cristãs, quando pastores dizem ser esses mensageiros que detêm uma espécie de monopólio da revelação espiritual, como se a Bíblia e o Espírito Santo não bastassem. 

Diga-se, por oportuno, que não são os gnósticos que criaram alguma conspiração para influenciar os cristãos, mas são os cristãos que foram buscar princípios gnósticos para justificar seu pretenso saber iluminado. 

Assim, dizendo-se conhecedores de algumas doutrinas bem particulares (e esdrúxulas), que os iniciados e incautos desconhecem, apressam-se em exercer uma posição de poder que não têm, nem ninguém lhes delegou. 

Mediante rituais premeditadamente complicados (e muitas vezes, orgulhosamente secretos), desviam a atenção dos crentes do que realmente importa: a salvação pela fé em Cristo Jesus.

Parece que a simples, boa e velha mensagem do evangelho já não tem serventia para os dias atuais. 

Precisamos de mais Irineus para denunciar e condenar essa confusão generalizada entre cristianismo e gnosticismo, sob pena de chegar o dia em que não se saiba mais como distinguir um do outro.

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