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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 10


O DIREITO

Alguém poderá dizer: Mas como? Não se deve defender o direito? Devemos renunciar à verdade? Não nos foi ordenado morrer por amor do direito e da verdade? Acaso os santos mártires não sofreram por causa do Evangelho? Não quis ter razão o próprio Cristo? Em todos os casos acontece que, às vezes, tais pessoas têm razão perante o público (e, como alardeiam, perante Deus), e agem bem e sabiamente. Respondo: Está na hora e urge abrir os olhos. Aqui está o nó da questão: importa, pois, que se esteja bem instruído sobre o que é estar com a razão. É certo que se deve sofrer qualquer coisa por amor da verdade e do direito e que não se deve negá-los, por mais insignificante que seja o assunto. Pode, inclusive, ser que tenham razão. No entanto, arruínam o direito por não executarem o direito conforme o direito, não agem com temor, não têm a Deus diante dos olhos. Acham que basta que seja direito, devem e querem prosseguir por sua própria autoridade e levar o jogo até o fim. Com isso transformam seu direito em injustiça, embora, em princípio, fosse justo. O perigo, porém, é muito maior quando apenas acham que é direito, mas não têm certeza, como ocorre nos elevados assuntos que dizem respeito a Deus e sua justiça. Em primeiro lugar, todavia, queremos falar do simples direito humano e dar um exemplo singelo e compreensível.

Acaso não é verdade que dinheiro, bens, corpo, honra, mulher, filhos e amigos, etc. também são coisas boas que o próprio Deus criou e deu? Sendo dons de Deus e não tua propriedade, [suponhamos] que ele queira pôr-te à prova para ver se serias capaz de renunciar a eles por amor a ele, aferrando-te mais a ele do que a esses seus bens; que ele te mandaria um inimigo que os tirasse de ti todos ou em parte e te prejudicasse, ou então os perdesses por morte e ruína, ou de outra forma. Crês que, neste caso, terias motivo justo para esbravejar, enfurecer-te e para recuperá-los com violência e à força, ou ficares impaciente até recobrá-los? Alegarias que são coisas boas e criaturas de Deus que ele próprio fez, e que toda a Escritura considera boas essas coisas; por isso estarias disposto a cumprir a palavra de Deus e proteger esses bens com o corpo e a vida e recuperá-los; ou então, ao menos, não estarias disposto a renunciar a eles espontaneamente nem entregá-los resignadamente. Não pareceria bonito? Se quisesses proceder bem neste caso, não deverias tentar passar com a cabeça pela parede. Como então? Deverias temer a Deus e dizer: Bem, querido Deus, são coisas boas e bens teus, como diz tua própria palavra, a Escritura. Não sei, porém, se mos queres conceder. Se porém, soubesse que preferirias vê-los em meu poder do que no poder daquele outro, quereria servir a tua vontade e recuperá-los com o empenho de corpo e bens. Como, porém, não sei nenhuma nem outra e vendo [apenas] o fato de que, no momento, permites que me sejam tirados, entrego a causa a ti. Aguardo o que devo fazer e estou disposto a tê-los ou a prescindir deles.

Eis aí uma alma justa; ela teme a Deus, conta com a misericórdia, como canta a mãe de Deus; a partir daí se pode compreender por que, em tempos passados, Abraão, Davi e o povo de Israel lutaram e mataram muita gente: empreenderam [essas coisas] por vontade de Deus, temiam [a Deus] e não lutavam por causa dos bens, mas porque Deus o esperava deles, como o demonstram os relatos, indicando, em geral, a ordem prévia de Deus. Vê, aqui a verdade não é negada: a verdade afirma que são coisas boas e renunciar a esses bens e estar disposto, a todo momento, a prescindir deles, quando Deus assim o quer, e que deves prender-te somente a Deus. A verdade não te obriga a recuperar os bens ao afirmar que são bons. Tampouco te obriga a dizer que não são bons. Muito antes deves ter uma atitude serena em relação a eles e confessar que são bons, e não maus.

Da mesma forma deve-se proceder também com o direito e toda sorte de bens da razão ou da sabedoria. O direito é uma coisa boa e dádiva de Deus – quem iria duvidar disso? A própria palavra de Deus afirma que o direito é bom e jamais alguém deve admitir que suas causas boas e justas sejam injustas ou más; antes deve morrer por isso e renunciar a tudo que não é de Deus; pois isso significaria negar a Deus e sua palavra que diz que o direito é bom e não mau. Acaso quererias gritar por causa disso, raivejar, esbravejar e destruir o mundo inteiro quando esse direito te é tirado ou suprimido? (Há os que procedem desse modo, os que clamam ao céu, provocam toda sorte de miséria, destroem terras e povos, cobrem o mundo com guerras e derramamento de sangue). Sabes acaso se Deus quer deixar-te essa dádiva e esse direito? Ora, é propriedade dele e ele pode to tirar hoje ou amanhã, dentro ou fora, por meio de inimigos e amigos e como quiser. Ele quer experimentar-te se, por amor dele, também estás disposto a renunciar ao direito, a não ter razão e sofrer injustiça, suportar a ignomínia por sua causa e a te prenderes somente a ele. Se és temente a Deus e pensas: Senhor, tudo é teu, não quero tê-lo a não ser que saiba que mo queres conceder; que se vá, seja o que for, contanto que tu sejas meu Deus – então se aplica este versículo: “E sua misericórdia está com aqueles que o temem”, que nada querem fazer sem sua vontade. Vê, aí está cumprida a palavra de Deus em ambos os casos: em primeiro lugar, confessas que o direito, tua razão, teu conhecimento, tua sabedoria e toda tua intenção são justos e bons, como o diz a própria palavra de Deus. Em segundo lugar, prescindes desses bens voluntariamente por amor de Deus, e aceitas ser destruído e injuriado injustamente pelo mundo, como o ensina igualmente a palavra de Deus. “Duas coisas são boas ou justas: confessar e conquistar”. Para ti basta confessar que tens o bem e o direito; se não o puderes conquistar, entrega isso a Deus. A ti se ordenou confessar; o conquistar está reservado a Deus. Se ele quiser que também o conquistes, ele mesmo o fará ou então to colocará à disposição, sem que te tivesses lembrado, de maneira que o deverás pegar na mão e conquista-lo de uma forma como jamais o terias imaginado ou desejado. Se ele não quiser, que te baste sua misericórdia. Ainda que te tomem a vitória do direito, não te podem tomar o confessar. Vê, assim temos que nos distanciar, não dos bens de Deus, mas do mau e perverso apego a eles, de modo que possamos renunciar a eles ou usá-los com tranquilidade, para que, em todos os casos, nos apeguemos somente a Deus. Isso deveriam saber todos os príncipes e autoridades que não se satisfazem com o confessar do direito, mas também querem, em todos os casos, conquista-lo e vencer, sem temor de Deus. Cobrem o mundo de sangue e miséria, acham que procedem bem e com justiça, porque a causa é justa ou, ao menos, acham que é justa. Isso não é outra coisa do que o orgulhoso e presunçoso Moabe, que declara e se considera digno a si mesmo de possuir o nobre e belo bem e dom de Deus (o direito), quando, na verdade, caso se contemplasse bem na presença de Deus, não é digno sequer de que a terra o suporte e de comer a códea [casca, crosta] do pão, por causa de seus pecados. Oh cegueira! Oh cegueira! Quem é digno ainda que seja da menor criatura de Deus? Contudo, não apenas queremos ter as criaturas mais elevadas, o direito, a sabedoria e a sua honra, mas ainda queremos preservar e conquista-las com furioso derramamento de sangue e toda sorte de desgraça. Depois vamos e fazemos orações, jejuamos, ouvimos a missa, fundamos igrejas com essa mente sanguinária, furiosa e louca, de sorte que não admiraria se as pedras arrebentassem diante de nossos olhos.

(LUTERO, Martinho. O Magnificat. 1521. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegra: Concórdia. Tradução Ilson Kayser. 1996. Vol. 6, págs. 56-58)



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Pais espancam filho até a morte em igreja evangélica dos EUA

O pai Bruce, a mãe Deborah, Joseph Irvin, David Morey, Linda Morey, e a irmã Sarah

A informação absurda mas tristemente real vem da Folha de S. Paulo.

A "razão" para o espancamento (leia-se "tortura") era fazer Lucas (o rapaz morto aos 19 anos de idade) e seu irmão Christopher (de 17, internado em estado grave) confessarem seus pecados e pedirem perdão.

A irmã deles, Sarah Ferguson, também teria participado das agressões.

A Fox31 de Denver, Colorado, acrescenta alguns detalhes interessantes.

Os dois rapazes foram educados em casa, no esquema de "home school" típico de muitas famílias conservadoras americanas.

No total, seis monstros membros da igreja foram presos. Ao macabro trio dos pais e da irmã se juntaram Joseph Irwin, David Morey e Linda Morey. O sexteto do mal está na foto acima.

Ao averiguar o fato, as autoridades locais teriam encontrado algumas crianças na igreja, que foram encaminhadas ao serviço de proteção de menores da cidade.

É fácil atribuir uma loucura dessas ao fanatismo e à ignorância, mas o buraco pode estar mais embaixo.

No fundo, é uma demonstração de sadismo travestido de "piedade". 

Talvez haja muito mais sádicos dissimulados dentro das igrejas evangélicas do que nossa vã consciência consegue perceber.

Não há vez nem espaço para a compaixão...

É muito cômodo pensar que isto é uma exceção dentro das igrejas evangélicas, um fato isolado, mas a profilaxia começa em casa, seria muito interessante analisar como ajudam a reforçar esse quadro de horror o discurso do ódio, a obsessão com o "pecado", a indiferença com o sofrimento alheio e a tolerância pseudoecumênica e parcimoniosa com as heresias que se cometem abundantemente em nome de Cristo.

Eis a matéria da Folha:

Jovem é espancado até a morte 
pelos pais em igreja dos EUA

Um jovem de 19 anos foi morto após ser espancado durante horas dentro de uma igreja por seus próprios pais e irmã, além de outros membros da congregação, segundo informações divulgadas pela polícia nesta quarta (14). Seu irmão também foi espancado no ritual.

Os pais, Bruce Leonard, 65, e Deborah, 59, compareceram diante de um juiz na terça e se declararam inocentes pela morte do filho, Lucas.

Outros quatro membros da congregação da Igreja Palavra da Vida de Chadwicks, cidade de 22 mil habitantes no Estado de Nova York, foram presos e indiciados por torturarem o irmão mais novo de Lucas, Christopher.

"Ambos os irmãos foram continuamente sujeitos a punições físicas durante várias horas com o objetivo de que ambos confessassem seus pecados e pedissem pelo perdão", disse Michael Inserra, chefe da polícia de New Hartford, que investiga o caso.

Lucas Leonard morreu na tarde segunda-­feira após ser levado a um hospital por familiares, os quais mentiram aos médicos dizendo que ele havia sido atingido por um tiro de arma de fogo, segundo a polícia. Os ferimentos de Lucas eram compatíveis com "trauma contundente" em seu tronco e membros.

Por meio de interrogatórios de membros da igreja, a polícia soube que o irmão mais novo de Lucas, Christopher, 17, também havia sido torturado durante a sessão. O rito para a expiação dos pecados era realizado após as missas e presidido pelo pastor ou um membro da congregação, disse Inserra.

A polícia cercou a igreja, onde Christopher era mantido. O adolescente foi transferido para um hospital local e se encontrava em estado grave.

Sarah Ferguson, 33, irmã das duas vítimas, e três outros membros da igreja foram presos e indiciados por agressão.

A fiança dos pais de Lucas Leonard foram estipuladas em US$ 100 mil cada.

Os investigadores não têm muitas informações sobre a Igreja Palavra da Vida, que se descreve simplesmente como uma igreja cristã em uma placa na frente de seu templo.



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Compaixão à la Sheherazade


Esclareçamos logo de largada: Rachel Sheherazade e seus discípulos têm todo o direito a manifestar sua opinião, ainda que abjeta. Ponto.

Entretanto, quando ela se apresenta como “evangélica” e utiliza uma concessão pública para defender a violência, também deve estar preparada para ser contraditada. Faz parte do jogo democrático que, apesar de reconhecidamente falho, ainda não inventaram nada melhor.

Além disso, toda e qualquer questão polêmica tem vários ângulos pelos quais pode ser analisada. Portanto, quando a opinião se baseia em apenas um ponto de vista rasteiro, ela deve ser esmiuçada para que as pessoas que debatem (ou acompanham o debate) possam chegar à sua própria conclusão.

Quando Rachel Sheherazade lançou a campanha “adote um marginalzinho” em apoio ao quase linchamento de um rapaz negro e menor de idade, sua ironia barata apenas mostrava que o ovo da serpente estava chocando.

E seu veneno é tão tóxico que impede as pessoas de analisarem e dialogarem construtivamente sobre o caso.

Imediatamente se associa quem se opõe a esse raciocínio raso de Sheherazade a algum tipo de “amante do crime” ou “protetor de criminosos”, quando – na verdade – se trata de algo totalmente distinto, que a pressa em julgar e condenar não permite alcançar.

Quem prefere que as pessoas sejam investigadas, presas e condenadas segundo o rito previsto em lei não está apoiando o crime. Isto não significa que elas gostam de criminosos ou lhes queiram bem.

Tampouco se trata de divergências ideológicas entre direita e esquerda. O que se discute aqui é o respeito mínimo a regras de convivência em sociedade.

Significa apenas que os opositores do julgamento sumário (mais conhecido por “linchamento”) querem evitar o pior dos pesadelos na aplicação da justiça humana: a execução de um inocente.

Nesses casos, o comportamento de manada justiceira que se segue à indicação de alguém como responsável por um crime, como a própria expressão sugere, declina rapidamente para o instinto animal e impede que os passos lógicos da razão sejam seguidos para que se tenha certeza da culpabilidade do suposto criminoso, para somente então aplicar-lhe a punição cabível.

Essas regras básicas da vida em sociedade, entregando o suspeito às autoridades constituídas para que ele seja investigado e julgado segundo os ditames legais, nos permitem ter a consciência tranquila de que não vamos condenar um inocente à morte.

Se – mesmo assim – não estamos imunes aos erros judiciários, imagine o risco que corremos ao tomar a espada da Justiça em nossas mãos e decepar cabeças em “julgamentos” instantâneos.

Alegar que as autoridades constituídas para tanto não cumprem o seu papel (o que é absoluta realidade no Brasil em todos os níveis e esferas de responsabilidade), não basta para que combatamos a barbárie com a barbárie, o crime com o crime e o desrespeito com o desrespeito.

O fato de não vivermos num mundo ideal não nos isenta de buscar o equilíbrio e a racionalidade possíveis na sociedade e realidade ingratas que compartilhamos.

Um erro não justifica o outro!

A indignação contra a desídia, lentidão e impunidade patrocinadas pelas autoridades não pode servir de desculpa para que tomemos a justiça em nossas próprias mãos. Se eles erram por ação e – sobretudo – por omissão, nós corremos o risco de errar muito mais com “soluções” equivocadas e irreversíveis.

O linchamento de Alailton Ferreira às margens da BR 101 em Serra (ES), um jovem negro de 17 anos de idade e – supostamente - doente mental, revela o quanto a nossa sociedade pode ficar enferma quando um formador de opinião como Sheherazade, ainda que por via transversa e se valendo de uma concessão pública como é a televisão, defende a atitude execrável de fazer justiça com as próprias mãos.

Obviamente, a culpa que eventualmente se possa atribuir a Sheherazade deve ser diluída no caldeirão de descaso e indiferença para com os anseios de segurança da população, que as autoridades constituídas vêm cultivando ao longo de décadas, mas não há como eximi-la de responsabilidade, nem aqueles que repercutem seus delírios nas redes sociais.

Pior ainda é que muitos deles se dizem cristãos. Esquecem-se convenientemente de que foi o cristianismo que introduziu os conceitos de compaixão, perdão e reabilitação (conversão) na história do Direito e da Justiça.

Antes da influência cristã vigorava, nesses casos, a justiça retributiva dos gregos e a lei hebraica do talião: dente por dente, olho por olho. Ainda assim, pelo menos um simulacro de julgamento era necessário. Mesmo que fosse para soltar Barrabás.

Em 2014, no Brasil, nem isso mais é possível. Basta uma acusação qualquer que, em questão de segundos, o suposto meliante é executado pela massa ignara. Com direito a replay.

E pessoas que se dizem cristãs - e compartilham emotiva e hipocritamente lindos trechos bíblicos em suas redes sociais – disputam no tapa o delirante privilégio de atirar a primeira pedra.



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O garoto que fez o Natal chegar em outubro


Uma linda história natalina fora de época contada pelo Fantástico da Globo, sem final feliz.

Lamentavelmente, o garoto faleceu na última segunda-feira, 11 de novembro de 2013, mas seu desejo simples de ainda comemorar um Natal foi atendido por uma comunidade solidária:

Natal é antecipado em pequena cidade dos EUA para menino com câncer

Sem melhoras, Devin quis sair do hospital e celebrar sua data favorita.
Vizinhos enfeitaram a cidade em pleno outubro para realizar o desejo dele.

O garoto Devin Kohlman hoje tem 13 anos, é americano, fã de esportes, morador de Port Clinton, uma cidadezinha de seis mil habitantes, nos Estados Unidos. Levava uma vida normal, até descobrir, no passado, que tinha um câncer no cérebro.

Devin passou um ano lutando contra a doença. Internou-se em um hospital de uma cidade maior, mas o câncer era muito agressivo e o tratamento não deu certo.

"Ele perguntou: ‘O que os médicos disseram?’ Eu respondi que ele não estava melhorando", conta a mãe de Devin.

Devin, então, disse para a mãe que queria voltar para a sua cidade, ficar com as pessoas queridas e celebrar sua data favorita: o Natal.

Assim foi feito. O Devin chegou em casa conduzido por uma grande carreata, com carros da polícia e dos bombeiros. A cidade parou para receber o garoto.

O desejo de Natal foi revelado e, no dia seguinte, o prefeito fez uma convocação. Em questão de minutos, dezenas de pessoas estavam antecipando o Natal em Port Clinton.

Trouxeram um pinheiro enorme, a decoração oficial da cidade foi fornecida. Mas cada um contribuiu com suas próprias luzinhas, seus arranjos, seus enfeites e, principalmente, com a disposição para decorar um pedaço especial da cidade: o pedaço que o Devin pode ver da janela dele.

"A gente não sabe o que vai acontecer, mas a gente tinha que garantir que o Devin tivesse o Natal dele", diz uma mulher.

Fizeram até nevar na janela do Devin. O quarteirão foi isolado. E, naquele mesmo dia, 28 de outubro, chegou o Natal.

"Eu estou muito feliz que todo mundo tenha vindo, porque ele, agora, provavelmente, está com um sorriso enorme, e realmente feliz”, diz uma mulher.

Foi exatamente isso que a mãe dele contou. Ele ficou muito feliz.

Devin Kohlman, o garoto que fez o Natal chegar em outubro.






sábado, 19 de outubro de 2013

Iraniano sobrevive à forca mas vai ser executado de novo


Como é que pode uma coisa dessas? O sujeito fica 12 minutos pendurado, é considerado morto, mas no dia seguinte constatam que ele continua vivo.

Questões sinistras emergem desse fato:
  • O condenado não mereceria pelo menos a comutação da pena de morte numa outra menos, digamos, terminal?
  • Não teria sido a experiência do enforcamento punição suficiente para o seu crime?
  • Submetê-lo novamente à forca não é uma tortura demasiada tanto para ele como para sua família?
  • Já pensou a situação dos médicos que vão atestar que ele está pronto para ser executado de novo?
São coisas estranhas essas que o ser humano faz mundo afora...

A notícia é do Estadão:

Homem que sobreviveu à forca é tratado para nova execução

Iraniano condenado por tráfico de drogas resistiu a 12 minutos pendurado

Um homem condenado à morte, por tráfico de drogas, e enforcado na prisão de Bojnourd, no nordeste do Irã, na semana passada, poderá ser executado pela segunda vez. Alireza M., de 37 anos, foi encontrado vivo no necrotério, um dia após o enforcamento.

De acordo com a Anistia Internacional, o juiz responsável pelo caso afirmou que Alireza está em um hospital, mas será executado novamente quando a "equipe médica confirmar que seu estado de saúde é bom o suficiente". A organização pediu ao Irã, na quarta-feira, que pare a execução.

"A perspectiva terrível desse homem diante de uma segunda execução, depois de ter passado por todo o calvário já uma vez, apenas reforça a crueldade e a desumanidade da pena de morte", disse Philip Luther , diretor da Anistia Internacional no Oriente Médio e no norte da África.

"As autoridades iranianas devem suspender imediatamente a execução de Alireza e emitir uma moratória sobre todos os outros (condenados)."

A imprensa oficial do Irã informou que Alireza foi declarado como morto após ter ficado pendurado durante 12 minutos. Quando a família do prisioneiro foi buscar o corpo, no dia seguinte à execução, ele foi encontrado ainda respirando. Segundo a Anistia, um membro da família teria dito que as duas filhas do prisioneiro eram as pessoas "mais felizes do mundo", depois de descobrirem que o pai estava vivo.

"A realização de uma segunda execução de um homem que de alguma forma conseguiu sobreviver a 12 minutos de enforcamento, depois de ter sido certificado que ele estava morto e cujo corpo estava prestes a ser entregue a sua família, é algo simplesmente medonho. Isso denuncia uma falta básica da humanidade que, infelizmente, está por baixo do sistema de Justiça do Irã", disse Luther.

Estatísticas. A Anistia Internacional estima que pelo menos 314 pessoas tenham sido executadas no Irã em 2012. Neste ano, a organização contabiliza 508 execuções, incluindo 221 não confirmadas oficialmente. A maioria dos executados foi condenada por delitos relacionados ao tráfico de drogas.

De acordo com a Anistia, a condenação de Alireza foi, provavelmente, feita pelo Tribunal Revolucionário, cujos processos, muitas vezes, não atendem aos padrões internacionais de julgamento justo.

"É natural que as autoridades iranianas devam combater a sério os problemas sociais, de segurança e econômicos relacionados ao tráfico e ao abuso de drogas. No entanto, a dependência em relação à pena de morte para combater o tráfico de drogas é errada e viola o direito internacional", disse Luther. "As pessoas querem ser protegidas do crime, mas a pena de morte não torna as sociedades mais seguras."

Em 2011, o secretário-geral do Conselho Superior do Poder Judiciário iraniano para os Direitos Humanos, Mohamed Javad Larijani, disse ter dúvidas se a pena de morte reduziria os crimes relacionados ao tráfico de drogas. No ano passado, o número de países onde a condenação à morte existe caiu de 63 para 58, segundo a organização.



domingo, 6 de outubro de 2013

Ter compaixão pode tornar a sua vida melhor

Como a compaixão (ou empatia) pode tornar a sua vida melhor? 

É essa questão que o filósofo Roman Krznaric se propõe a responder, numa entrevista interessante publicada no blog da Sonia Racy no Estadão.

Mais abaixo, você poderá conferir um vídeo em que ele resume as suas ideias, falado em inglês com legendas em espanhol:

‘A ideia de felicidade ocidental, baseada no individualismo, falhou’

Fundador da The School of Life vem ao País dar palestras sobre compaixão e trabalho. Para o filósofo australiano, colocar-se no lugar do outro é a verdadeira revolução.

Há 20 anos, Roman Krznaric se inscreveu para um curso de culinária na Bahia; mas, como não conseguiu uma bolsa de estudos, declinou a viagem. Hoje, o filósofo australiano, um dos fundadores da The School of Life, na Inglaterra, finalmente conhecerá o Brasil. Abriu uma exceção para viajar de avião – ele se preocupa com as emissões de carbono – e virá ao País para uma palestra sobre trabalho, dia 22, no Teatro Augusta.

Escritor do best seller Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida, o filósofo continua interessado em culinária, mas se dedica a incentivar o que chama de “questionamentos sobre a vida”. E a vida laboral, segundo o escritor, é uma das questões que causam mais insatisfação e inquietação no mundo contemporâneo. “Hoje, pessoas de todas as classes sociais começam a enxergar o trabalho como algo para além da sobrevivência. É uma ocupação que pode fazer você se sentir preenchido”, conta. A saída para a insatisfação, explica, tem algumas alternativas: aplicar seus valores pessoais no trabalho; procurar um emprego que faça diferença no mundo; e usar seus talentos e habilidades; entre outras. “Uma das maiores razões de satisfação no trabalho não é dinheiro, mas autonomia”, diz.

Além de aulas e conferências pelo mundo, o australiano toca, paralelamente, um projeto definido por ele como “a grande ambição de sua vida”: a criação de um Museu da Empatia. “Trata-se de um lugar onde você poderá entrar e conversar com pessoas que não conhece. Assim como emprestamos livros de uma biblioteca, será possível emprestar pessoas para uma conversa”, explica. O projeto não é de todo utópico. Segundo o filósofo, depois de um vídeo explicando seu conceito de empatia, com 500 mil visualizações, sua caixa de e-mail recebe, pelo menos, uma mensagem por dia de pessoas do mundo inteiro se propondo a ajudar na criação do museu.

É por meio dessa troca e da disseminação desse conceito de empatia que o filósofo acredita ser possível fazer uma revolução: “As pessoas acham que a paz e as revoluções são construções de acordos políticos. Mas acredito que é possível que isso seja feito nas raízes das relações humanas. Desmontando ignorâncias e preconceitos”, diz.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

No seu livro, o senhor fala que 60% das pessoas estão insatisfeitas com a vida profissional. Por que esse desconforto crescente?

Parte dessa insatisfação vem do fato de que, nos últimos 20 ou 30 anos, houve um grande crescimento de expectativa com relação ao trabalho. Antes disso, poucos se questionavam sobre seus empregos. Hoje, pessoas de todas as classes sociais começam a ver o trabalho como algo para além da sobrevivência. Uma ocupação pode fazer você se sentir preenchido. De taxistas a investidores de banco, médicos, faxineiras… todos procuram por mais significado no trabalho. Nasceu o conceito de que trabalho pode ser um lugar para se aplicar os talentos, as paixões, os valores.

Como essa mudança ocorreu?

À medida que as necessidades básicas são alcançadas, como casa, comida, educação, as pessoas buscam mais propósitos na vida. E, claro, hoje em dia há mais profissões. Na Europa do século passado, se você quisesse trabalhar com algo que envolvesse suas visões políticas e sociais, existiam poucas possibilidades. Atualmente, há um enorme mercado de trabalho para isso, como ONGs, órgãos de meio ambiente, sociais, em que as pessoas podem sentir que estão fazendo a diferença diariamente. Isso é algo novo. Ter um trabalho onde me sinto valioso e cheio de significados.

O senhor não acha que essa tendência contemporânea de que o emprego tem de ter alguma função social pode criar uma certa culpa coletiva? A maioria das pessoas não trabalha com algo que faz diferença para o mundo.

Sim. Nossos valores são grandes motivadores para o trabalho e para a satisfação laboral. E sim, existe uma culpa de quem pensa “se eu não estou trabalhando com meninos de rua, então sou uma pessoa ruim”. Entretanto, há outras maneiras de encontrar satisfação no trabalho. Uma delas é essa: aplicar seus valores pessoais na prática. Outra é usar seus talentos – sendo um artista ou um jogador de futebol, você não está necessariamente mudando o mundo, mas sua satisfação virá do uso de suas habilidades e paixões. Para mim, o maior problema não é a culpa, mas o arrependimento. É a sensação de chegar ao fim da vida e saber que não fez o que gostaria realmente de ter feito.

O que acha da corrente que defende que as pessoas trabalhem em casa, sozinhas?

Isso é um tópico contemporâneo muito importante. Nos últimos meses, especialmente nos EUA, as empresas não estão deixando seus funcionários trabalharem de casa. O exemplo mais clássico é a nova chefe executiva do Yahoo, Marissa Mayer, que há alguns meses não permite que seus funcionários trabalhem de casa. Isso é trágico. Uma das revoluções modernas laborais, no mundo ocidental, é a ideia de trabalhar de casa.

Por quê?

Uma das razões apontadas pela maioria das pessoas que são felizes no trabalho não diz respeito à remuneração, mas à autonomia. É o senso de liberdade, o poder de decisão sobre o próprio trabalho, que cria satisfação. Mesmo que não seja o emprego dos sonhos. Trabalhar de casa é uma dessas possibilidades. Controlar o próprio horário, a disciplina.

Recentemente, um estagiário se suicidou na Inglaterra, depois de trabalhar 72 horas seguidas. O que acha da cultura que incentiva trabalhar demais?

Muitas empresas fazem o culto do “overwork”, em que trabalhar muito, além da conta, é valorizado. Especialmente em bancos e consultorias. Na Inglaterra, um milhão de pessoas afirmam ser viciadas no trabalho. Ou seja, trabalham mais do que precisariam. A ideia de “work adiction” é um grande problema. O Japão é um caso clássico. Muitas pessoas cometem suicídio ou sofrem de ataque do coração, depois de trabalhar demais. Existe, inclusive, uma palavra no dicionário japonês para “morrer de tanto trabalhar”. Espero que isso seja uma mensagem para indivíduos e para essas empresas.

No livro, o senhor afirma que encontrar o “trabalho da vida” é como encontrar o amor perfeito.

Isso aprendi com uma mulher que, aos 30, pediu demissão e testou 30 profissões diferentes durante um ano. E ela me disse, no fim desse processo, que encontrar o emprego perfeito é como encontrar um amor perfeito. Você pode fazer uma lista com qualidades que gostaria num parceiro e, no fim, se apaixonar por um que não tenha nenhuma delas. Trabalho é isso. Empregos inesperados podem ser surpreendentemente bons. Por isso, experimentar é importante. Para se dar chance de descobrir novas paixões e talentos. O contrário também acontece.

Como?

Eu, por exemplo, trabalhei como jardineiro em um grande jardim público. O salário era ruim, mas achei que seria fantástico, porque estaria perto da natureza, fazendo algo para o público. No fim, trabalhava o dia inteiro, com um esforço físico enorme e as pessoas nem me notavam. Era invisível. Todos nós precisamos de respeito e sentir que nosso trabalho é válido.

O senhor acredita que o aspecto financeiro não provoca satisfação no emprego. No entanto, existe uma questão social, especialmente nos países em desenvolvimento, como o Brasil.

Sim, o dinheiro importa. Se você tem de ter dois empregos para alimentar a família, claro que não há tempo para ficar experimentando ser um professor de ioga, por exemplo. Nesses casos, a pergunta é: como posso fazer com que meu trabalho seja mais prazeroso?

Crê que as sociedades contemporâneas continuam incentivando o sucesso por meio das conquistas individuais?

Perseguir o interesse próprio foi a grande propaganda do último século. Entretanto, ser humano não é apenas seguir os desejos individuais. A ideia de felicidade ocidental falhou. A introspecção, o interesse próprio, perseguir valores que não envolvam o coletivo… Temos a tendência a sentir compaixão uns pelos outros. Somos criaturas empáticas. Há estudos que mostram que compaixão dá prazer. Somos também coletivos. Formamos comunidades de todos os tipos, o tempo inteiro. As pessoas estão, cada vez mais, querendo fazer parte de algo maior do que elas mesmas.

O senhor tem a ideia de criar um Museu da Empatia. O que é esse projeto?

É a maior ambição da minha vida. Estamos em desenvolvimento ainda. Trata-se de um lugar onde você pode entrar e conversar com pessoas que não conhece. Fazer um “laboratório humano”. Assim como você empresta livros de uma biblioteca, será possível “emprestar pessoas” para uma conversa. Nesse processo também quero criar uma plataforma online, em que será possível “baixar” exposições.

Como?

Você poderá estar em São Paulo e fazer parte do Museu da Empatia, dividindo histórias de como, por exemplo, você faz uma “conversa-refeição” – que é um conceito criado por nós na The School of Life. “Conversa-refeição” nada mais é do que estranhos que se sentam a uma mesa e, no lugar de um menu gastronômico, recebem um cardápio de ideais. Com questões sobre a vida, do tipo: “De que maneira o amor mudou a sua história?”, “Como ser mais corajoso?” ou “Como ter mais satisfação no trabalho”. Meu objetivo é que as pessoas possam baixar esses menus, com instruções para fazer isso em suas comunidades.

O senhor diz que a “empatia”, no sentido de compaixão, é algo capaz de criar uma revolução. Poderia explicar?

A ideia de empatia é, para mim, o ato de “calçar os sapatos de outra pessoa”. Olhar o mundo pela visão do outro. E, normalmente, quando pensamos nessas coisas, sempre consideramos um relacionamento somente entre duas pessoas. Entretanto, se olharmos a história, em todo o mundo, vemos que movimentos de empatia coletiva tiveram momentos de grande êxito. Em outros, sofreram um colapso e desapareceram, como no Holocausto e no genocídio de Ruanda. As pessoas podem agir juntas. Fazendo esse exercício de se colocar no lugar do outro, é possível, sim, mudar o mundo.

Tem um exemplo de um desses momentos?

Na Europa e nos EUA, no século 18, quando houve um grande movimento contra a escravidão. Foi disseminada uma grande reflexão sobre o que era ser escravo. De tempos em tempos, surgem pessoas que se organizam para desafiar atitudes de injustiça. E muitas dessas pessoas são motivadas pela empatia. Hoje, no Oriente Médio, há muitas iniciativas para criar paz entre palestinos e israelenses. As pessoas acham que a paz e as revoluções são construções de acordos políticos. Mas acredito que é possível que isso seja feito nas raízes das relações humanas. Desmontando ignorâncias e preconceitos. Há um enorme potencial no diálogo para comandar mudanças profundas nas sociedades.

Como nutrir esse sentimento em épocas de extremismos?

Nutrir empatia em um local cheio de preconceitos é difícil. A saída para isso é alimentar a curiosidade pelo outro. Nós não conversamos com quem não conhecemos. Esse seria um belo exercício de sensibilização. Ficamos muito tempo com pessoas que são como nós. /MARILIA NEUSTEIN





segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Quando a graça e a verdade se encontram


Carlos é Promotor de Justiça com carreira de sucesso em um dos Estados brasileiros.

Entre as muitas áreas em que atuou ao longo de vários anos, se destaca o júri, onde lhe coube centenas de vezes a função de Estado de acusar pessoas que foram processadas por terem cometido crimes contra a vida.

Aquela terça-feira seria um dia como outro qualquer: mais um júri para fazer, mais jurados para convencer, mais uma vítima de homicídio cujo sangue e família clamavam por Justiça, mais um réu para – se possível - condenar.

Só que Carlos não estava tão convicto da culpabilidade desse réu em particular.

18 anos haviam se passado desde que Juca fora assassinado, e o principal suspeito do crime era seu cunhado Silas, que havia sido casado à época com a irmã da vítima.

18 anos antes, Silas havia deixado a esposa no interior do Brasil e chegou à capital daquele Estado, com a intenção declarada (e tida como inocente) de fazer ali uma breve escala para depois ir a São Paulo procurar melhor sorte.

Chegando lá, foi se hospedar – sem ter sido convidado - no barraco em que Juca a duras penas sobrevivia.

Este, gentil ao extremo, como só os humildes conseguem ser, cedeu ao cunhado a sua própria cama e passou a dormir num colchão estendido no chão.

Mal sabia o pobre coitado que essa hospitalidade lhe custaria a existência.

Já Silas sabia que Juca estava então recebendo seguro-desemprego, o que, naquela ciranda de infortúnios, era uma quantia tentadora para quem tinha pouca (se alguma) esperança na vida.

Silas ficou uma semana no barraco de Juca, e saiu um sábado qualquer dizendo que - por fim – iria a São Paulo. Com que dinheiro ninguém soube precisar.

Na manhã seguinte, um domingo, dois vizinhos que eram grandes amigos de Juca estranharam não tê-lo visto logo cedo, como era seu costume de regar todos os dias as parcas plantas de seu miserável jardim.

Chamaram por ele, e a ausência de resposta os levou a investigar melhor. O que não foi difícil, já que nem muro ou cerca separava o pobre Juca da curiosidade alheia.

Uma porta entreaberta denunciou que nunca mais teriam o companheiro de tantas histórias sofridas e mínimas alegrias. Seu corpo jazia no colchão estendido no chão com as marcas sanguinolentas de uma marretada na cabeça.

O assassino nem se dera ao trabalho de levar ou esconder a marreta, que – ensanguentada – servia de testemunha inanimada do fim inglório de Juca.

Os bolsos da calça de Juca estavam para fora, como se seu algoz os tivesse revirado, e o suspeito mais provável era Silas, que fizera questão de alardear sua finalmente chegada viagem a São Paulo um dia antes como um álibi talvez por demais conveniente.

Investigadores, delegados, promotores e juízes se sucederam no caso, os amigos de Juca mantiveram firmes suas versões por todo o tempo, mas por quase duas décadas não foi possível encontrar o paradeiro de Silas, até que alguém o localizou a milhares de quilômetros dali.

Trazido ao banco dos réus, o promotor Carlos agora não tinha certeza se havia evidências suficientes para condenar Juca, mas antes de pedir a absolvição por falta de provas, decidiu inquirir melhor o acusado.

Afinal, presentes ao tribunal estavam os pais de Juca, e aguardavam para depor os dois amigos e vizinhos que - por 18 anos – não faltaram nenhuma vez quando era necessário ouvi-los a respeito do que havia ocorrido naquele fatídico dia perdido na penumbra dos tempos.

Ao ser interrogado pela última vez, Silas não conseguiu sustentar a versão de sua viagem a São Paulo, por mais que ele e seu advogado tivessem tentado fazê-la parecer crível.

No confronto de sua narração dos fatos com os testemunhos convincentes dos dois amigos, não restava nenhuma dúvida sobre quem falava a verdade.

Ficou óbvio para todos os presentes ao tribunal que Silas não conseguia contar uma história minimamente coerente com pessoas, horários e locais compatíveis, e ele próprio terminou se enredando e contradizendo em sua ficção.

O veredito final, que claudicava antes do julgamento, agora não podia ser outro: condenação!

Os pais e amigos de Juca não conseguiram disfarçar sua dolorosa satisfação. Haviam honrado o compromisso de punir o responsável pela morte de alguém tão gentilmente simples, mas tão humildemente querido.

Como os quatro amigos que um dia destelharam uma choupana a fim de descer pendurado o leito de um paralítico para que Jesus o curasse (Marcos 2:1-12), Juca, embora morto, tinha quatro pessoas com quem contar, quatro seres queridos que – por 18 anos – não desistiram de honrar o amor e a amizade e prestar-lhe a perene homenagem dessa tão humana justiça.

Como Abraão, creram em esperança contra a própria esperança (Romanos 4:18) para que não perecesse o grito sufocado de socorro e a memória singela de um ente querido.

Quatro pessoas e um Promotor de Justiça podiam agora voltar para casa com a alma lavada e a consciência serena do dever cumprido.

O promotor Carlos, com tantos júris nas costas, tampouco conseguia esconder seu íntimo regozijo por “vingar”, representando o Estado, a morte de um cidadão que perambulou rápida e cordialmente por uma vida que lhe foi tão sovina.

Não havia, entretanto, tempo para celebrações. O dia seguinte chegaria inexoravelmente para todos eles, trazendo seus dilemas, rotinas e as mesmas ou novas obrigações.

O sol só não se levantaria mais para Juca, que – pelo menos - finalmente repousaria em paz.

Esta é uma história real. Os nomes e alguns pequenos detalhes foram trocados para que os verdadeiros personagens não fossem identificados.

É bom saber que ainda existe um Brasil que funciona, que existem amigos verdadeiros e há pessoas que agem em nome do Estado, agindo em nome de fracos e oprimidos e procurando dar voz e honra a vivos e mortos que não puderam se defender.

Infelizmente, nem todas as histórias terminam assim nos tribunais, mas esse parece ser um lembrete de que é sempre possível que a Justiça seja solenemente servida a quem pouco ou nada tem para esperar.


“Encontraram-se a graça e a verdade,
a justiça e a paz se beijaram
Da terra brota a verdade,
dos céus a justiça baixa o seu olhar”
(Salmo 85:10-11)






domingo, 10 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 14

Parte 14 - Justiça, compaixão e paz

por Richard Foster

Numa passagem especialmente comovente, a Escritura reúne os três conceitos hebraicos que estudamos: justiça, compaixão e paz. O salmista aponta para o dia em que a “graça e a verdade” se encontrarão, em que “a justiça e a paz” se beijarão (Salmo 85:10).

Qual é a palavra que Deus usa para o mundo no qual vivemos? Será que Ele vê a justiça e a retidão aumentando entre nós? Será que está triste com nossa falta de compaixão? Há quem abrace de Deus como modo de vida?

Não estou propondo estas perguntas apenas para o mundo em geral. Questiono aqueles de nós que professamos a Cristo como sendo a nossa vida. Será que Deus pode se agradar das vastas e crescentes iniquidades entre nós? Ele não se entristece com nosso acúmulo arrogante, enquanto irmãos e irmãs cristãs em outras regiões definham e morrem? Não temos a obrigação de olhar além do nariz do nosso próprio interesse nacional para que a justiça possa rolar como águas e a retidão como um ribeiro perene? Não é uma obrigação que se nos impõe fazer justiça e amar a misericórdia e caminhar com humilde diante de Deus, se quisermos viver em sua maravilhosa paz?

Estas são perguntas difíceis, eu sei. Mas são perguntas que precisamos fazer se é para levarmos a sério a palavra de Deus para nós através da Antiga Aliança.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 46-47)

domingo, 3 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 10

Parte 10 - A prática da compaixão

por Richard Foster

Salpicadas por toda a Antiga Aliança encontram-se o que chamo de suas leis de compaixão e preocupação. Talvez uma das mais fáceis de reconhecer seja a lei da respigadura (Levítico 19:9-20; 23:22; Deuteronômio 24:19-20). Na colheita, o lavrador devia deixar uma parte da produção ao longo das beiras e o cereal que caiu enquanto ele trabalhava, de forma que os pobres pudessem ajuntá-lo. “Quanto segardes a messe da vossa terra, não rebuscareis os cantos do vosso campo, nem colhereis as espigas caídas da vossa sega; para o pobre e o estrangeiro as deixareis: eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 23:22). Da mesma forma, as vinhas e os olivais não deveriam ser totalmente colhidos de modo que pudesse haver provisão para os necessitados. O livro de Rute dá um quadro vívido da ternura dessa lei. Noemi e sua nora, Rute, haviam voltado a Israel viúvas e sem terra e, portanto, indefesas, mas puderam colher as espigas deixadas no campo de Boaz (Rute 2:1 e seguintes).

No coração de Deus há uma preocupação compassiva pelos alquebrados e desesperados. Por meio da lei da respigadura, ele colocou na economia de Israel provisão para aqueles que, por qualquer motivo que fosse, tivessem ficado em posição desvantajosa. Parecia existir uma indiferença quase santa a respeito de se a pessoa merecia ou não ser pobre. O simples fato da carência da pessoa era motivo suficiente para prover para suas necessidades.

Considere a ternura nas antigas leis de dar e receber penhor. Se um vizinho tomasse emprestado seu carro de boi e deixasse a veste em penhor, você tinha de certificar-se de devolver o agasalho antes do por do sol, mesmo que ele não tivesse terminado de usar o carro. Por quê? Porque o ar noturno era frio e ele precisava da veste para se agasalhar. Se você se recusasse e seu vizinho clamasse a Deus na noite gelada, Deus advertia: “Eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Êxodo 22:26-27). Deuteronômio tornou essa lei especialmente obrigatória se o penhor tivesse sido dado por um pobre, visto que havia forte possibilidade de ele não ter outra veste com a qual se agasalhar (Dt 24:12). A veste da viúva não podia ser recebida como penhor – ela já era indefesa o suficiente na situação normal (Dt 24:17). A mó do moinho não podia ser recebida como penhor – era o meio de vida do homem. Era proibido invadir a casa do vizinho para tomar um penhor. A pessoa devia esperar do lado de fora da porta até que ele o trouxesse (Dt 24:10-11). A amabilidade e cortesia comum deviam permear todos os relacionamentos humanos, até as transações de negócios.

Note o enfoque sobre a concessão de empréstimos. Visto ser presumido que os devedores estariam entre os pobres e vulneráveis, era proibido cobrar juros sobre os empréstimos. Essa prática era vista como uma exploração pouco fraterna da infelicidade de outrem e apenas servia para aprofundar a dependência dessa pessoa (Dt 23:19).

O salário deveria ser pago ao pobre no dia em que o trabalho fosse feito, sem falta, porque o dinheiro seria necessário para comprar alimento (Dt 24:14-15). Se você estivesse faminto, podia comer da vinha ou campo de cereais do seu vizinho, mas não tinha permissão para guardar nada num cesto (Dt 23:24). E assim por diante. Ordens ternas. Instruções sábias e comoventes sobre relacionamentos interpessoais.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 43-44)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 9


Parte 9 - Justiça e compaixão

por Richard Foster

Mas mais surpreendente que tudo é a maneira como os escritores bíblicos unem a justiça de mishpat e a compaixão de hesed. Dar às pessoas o que lhes é devido é uma coisa; a qualidade de espírito através da qual nos relacionamos com elas é bem outra. Zacarias recebeu esta poderosa palavra do Senhor: “Assim fala o Senhor dos Exércitos: Executai juízo verdadeiro [mishpat], mostrai bondade e misericórdia [hesed] cada um a seu irmão; não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um em seu coração o mal contra o seu próximo” (Zacarias 7:9-10). Em seu chamado ao arrependimento, Oséias implora ternamente ao povo: “converte-te a teu Deus, guarda o amor [hesed] e o juízo [mishpat], e no teu Deus espera sempre” (Os 12:6). E no que deve ser considerado um dos resumos mais perceptivos da nossa tarefa em todo o Antigo Testamento, temos de novo a exigência exterior de justiça combinada com o espírito interior de compaixão:

Ele te declarou, ó homem, o que é bom;
E que é o que o Senhor pede de ti,
Senão que pratiques a justiça [mishpat] e ames a misericórdia [hesed], e
Andes humildemente com o teu Deus?
(Miqueias 6:8)

Compaixão e justiça combinada nos chamam à simplicidade de vida.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 42-43)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 8

Parte 8 - O lugar da compaixão

por Richard Foster

O tema da compaixão está entremeado por todo o Antigo Testamento e pode ser visto de maneira vívida na palavra teologicamente rica hesed (חסד). Hesed é tão carregada de significado que todos os tradutores se debatem para encontrar o equivalente em outras línguas, muitas vezes traduzida por “benignidade” ou “misericórdia”. Mas hesed traz também em si a ideia de capacidade de suportar ou fidelidade. Ela é mais frequentemente usada em referência à compaixão inabalável de Deus por seu povo. Sua maravilhosa hesed é de eternidade a eternidade (Salmo 103:17). Ela dura para sempre (Salmo 106:1). Foi esta qualidade de misericórdia sem limites que Deus revelou a Moisés quando este havia pedido para ver a glória de Deus: “E, passando o Senhor por diante dele, clamou: Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo, e grande em misericórdia [hesed] e fidelidade; que guarda a misericórdia [hesed] em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado” (Êxodo 34:6-7).

Contudo (e aqui está o grande desafio), esse amor da aliança, essa misericórdia duradoura, tão fundamental ao caráter de Deus, deve ser também refletida em nossas vidas. Deus declara através de Oséias, o profeta: “Pois misericórdia [hesed] quero, e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Os 6:6). E a sabedoria de Provérbios aconselha: “O que segue a justiça e a bondade [hesed] achará a vida, a justiça e a honra” (Pv 21:21).

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 41-42)

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