domingo, 1 de março de 2015

Uma investigação do "ateísmo religioso"

Artigo interessante publicado no IHU:

Os não crentes. Uma visão geral do ''ateísmo religioso''



A nova abertura para a religião entre os filósofos profissionais e aqueles que poderíamos chamar de filósofos da vida é uma boa notícia para os cristãos preocupados com o diálogo com o mundo secular. As polêmicas hostis dos "novos ateus" já são passado. Chegou a hora de um diálogo sério e mais bem informado entre crentes e intelectuais sensíveis à religião. 

A opinião é do jesuíta norte-americano Drew Christiansen, professor de Ética e Desenvolvimento Humano da Georgetown University e ex-editor da revista America. O artigo foi publicado na revista America, 02-02-2015. A tradução é de Cláudia Sbardelotto. 

Eis o texto.


Em sua exortação apostólica sobre a evangelização, "A Alegria do Evangelho", o Papa Francisco escreveu sobre a centralidade do diálogo com o mundo para a evangelização. Precisamos dialogar, insistiu ele, mesmo com aqueles que têm pontos de vista errôneos, porque eles possuem percepções que são dons para nós também. Nesse espírito, irei rever aqui várias obras do "ateísmo religioso", livros cujos autores levam a religião a sério. Faço isso na esperança de explorar as possibilidades de diálogo com um tipo qualitativamente diferente dos ateus polêmicos da primeira década do século.

Religião em questão

Por muitos anos, Thomas Nagel tem sido uma figura de destaque na filosofia norte-americana. Ultimamente, ele tornou-se um incômodo para seus companheiros filósofos. Sua desconstrução do materialismo científico como a metafísica de fato da ciência contemporânea e da cultura ocidental (Mind and Cosmos [Mente e Cosmo], 2012) foi um ponto de controvérsia entre os intelectuais norte-americanos.

Não menor o desafio para a filosofia contemporânea foi a acusação de Nagel, em seu artigo de 2005, intitulado "Secular Philosophy and the Religious Temperament" [Filosofia secular e o temperamento religioso] e um livro, de 2007, com o mesmo mesmo título, afirmando que a disciplina tinha virado as costas para uma das tarefas clássicas dos filósofos - a de ajudar as pessoas a dar sentido a suas vidas.

O "temperamento religioso" de Nagel consiste no desejo de fazer de nossas vidas um todo, inclusive integrando-as com o cosmos. Após uma avaliação de filósofos modernos, Nagel conclui que um "platonismo evolutivo" melhor satisfaria essa necessidade. Ele prefere Platão para definir o elemento aspiracional (transcendental) em sua filosofia; e o darwinismo, a visão científica aceita da cultura moderna, como a parte humana da história cósmica.

Ao ler a conclusão preliminar de seu argumento, eu naturalmente pensei na espiritualidade teilhardiana, que certamente pode ser descrita como um platonismo evolutivo. Mas, aparentemente, Teilhard não estava dentro do horizonte intelectual de Nagel, pois ele não o menciona. Ele não faz nenhuma tentativa, aliás, de explorar como outros pensadores religiosos podem ter desenvolvido um sistema holístico de pensamento semelhante. Em vez disso, sem explicação real, mas apenas um par de desculpas condicionais, ele afasta-se da pergunta que tão habilmente explorou. Dadas as opções restantes - ateísmo, humanismo e absurdo - Nagel cavalheiramente responde: "O absurdo tem o meu voto".

Mas, em Mind and Cosmos, Nagel assumiu a questão da transcendência mais uma vez. Ele defendeu a insuficiência do ponto de vista neodarwiniano e admitiu que "elementos teleológicos" são necessários para entender o nosso lugar no universo. Mas, mais uma vez ele negou, dizendo: "No presente clima intelectual, essa possibilidade é muito difícil de ser levada a sério".

Nagel sinalizou um descontentamento entre os filósofos não crentes com o agnosticismo seco que havia se tornado a ortodoxia de sua profissão. No último livro de Ronald Dworkin, Religion Without God [Religião sem Deus] (Harvard, 2013), o falecido filósofo político e jurídico professava a crença "no mistério e na beleza da vida" não explicado pelo naturalismo científico. No entanto, ele afirmava que se poderia aceitar o mistério sem postular a existência de Deus.

Para Dworkin, o "ateísmo religioso" não é um oxímoro. Os ateus são religiosos quando eles questionam o mistério da vida e dão um sentido significativo de suas próprias vidas como um todo. Tal como acontece com Nagel, Dworkin não demonstra nenhum interesse em saber o que os pensadores religiosos contemporâneos têm a dizer. Não há um diálogo com a teologia ou com os intelectuais religiosos de forma mais ampla.

Vivendo sem Deus

Além dos argumentos filosóficos para levar a sério as aspirações religiosas, como as de Nagel e Dworkin, há ricos estudos de como filósofos e outros têm preenchido a lacuna cultural criada pela perda da fé religiosa. Um dos primeiros e mais influentes foi o popular "Religion for Atheists" [Religião para ateus] (2012) de Alain De Botton.

De Botton, filósofo prático e ensaísta, identificou uma série de prazeres que, em sua rejeição da religião organizada, os ateus negavam a si mesmos. Estes incluíam música, inclusive a alegria de cantar com outros, arte, arquitetura, comunidade e festividade, como chama Charles Taylor. Para satisfazer essas necessidades, De Botton fundou uma assembleia dominical, onde os não crentes podem saborear estes prazeres sem o peso de qualquer credo.

Mais recentemente, o historiador intelectual Peter Watson, em The Age of Atheists: How We Have Sought to Live Since the Death of God [A era dos ateus: como temos procurado viver desde a morte de Deus (Simon and Schuster, 2014), explorou como, desde o século XIX, diferentes tipos de intelectuais ocidentais têm tentado suprir a ausência da fé na cultura ocidental.

O livro é uma verdadeira enciclopédia da descrença e da religião ateia. O que une a maioria dos autores, embora não todos, é a atitude de que "o impulso" transcendente "deve ser combatido". O objetivo de Watson é mostrar que ao longo dos últimos dois séculos, muitas pessoas encontraram várias maneiras de viver a vida sem Deus. Ele favorece a fórmula do filósofo canadense Mark Kingwell. "Felicidade", escreve Kingwell, "tem a ver com a capacidade de refletir sobre a própria vida e achar que ela vale a pena".

Fiquei particularmente impressionado com o amplo tratamento de Watson com a poesia: Mallarmé e Valéry, Herder e Rilke, Yeats e Heaney, Owen e Auden, Neruda, Stevens e Milosz. Para os seus devotos, a poesia tornou-se um substituto para a religião. Para Stefan Georg, o coração poderoso da poesia era o louvor, o auge do culto. "O propósito da poesia", escreveu Wallace Stevens, "é tornar a vida completa em si mesma". E mais uma vez, "o papel do poeta é suprir as satisfações da crença".

Watson interpreta de forma errada algumas coisas e outras ele nem considera. Ele trata repetidamente Søren Kierkegaard, crítico da religião burguesa, como se ele fosse um descrente, em vez de um cristão radical.

Seu tratamento do filósofo Whitehead omite o seu livro Religion in the Making e seu capítulo magistral "Peace" e a emoção coroada - e religiosa - da civilização, em Adventures of Ideas; e ele deixa a impressão equivocada de que Michael Polanyi brincou com a religião, em vez de dar uma contribuição significativa para a reconciliação entre ciência e religião. Ele também minimiza o poder da "presença" na crítica da arte de George Steiner. Steiner não é um daqueles que resistem ao impulso de transcendência. Sua escrita revela que ele aprecia totalmente sua atração, mas não se rende.

Mas Watson não esconde a insatisfação recorrente dos seculares com a incompletude de suas soluções. Muitas de suas figuras seculares são "ateus melancólicos, incrédulos com consciências culpadas", como um biógrafo de Rilke descreveu o poeta. "Até mesmo ateus", admite Watson, citando Dworkin sobre o ateísmo religioso "pode sentir um 'senso de fundamentalidade'". Ele cita a defesa da religião de Jürgen Habermas como "o resultado de uma história da razão", juntamente com a ciência. As religiões articulam, escreveu Habermas, "uma consciência do que está faltando ou ausente" em nossas vidas. Ao final, Watson deixa aos incrédulos uma ligeira consolação. "Na sociedade moderna", conclui ele, "é mais fácil - menor o fardo - ser secular do que ser religioso".

Seculares como crentes exemplares

Simon Critchley está em uma categoria única. Não há ninguém como ele na cena filosófica norte-americana. Como filósofo político, ele acredita que a mudança política exige fé; mas, ironicamente, são os incrédulos que foram submetidos a uma transformação interior paradoxal, não os crentes religiosos ligados a igrejas e credos, aqueles que possuem uma fé genuína.

The Faith of the Faithless [A fé dos sem fé] é um conjunto exigente de artigos que combinam um conjunto eclético de fontes filosóficas com textos místicos e paulinos. Os filósofos incluídos são: Rousseau, Badiou, John Gray, Heidegger e Benjamin; as figuras religiosas: Marguerite Porete, Paulo e Kierkegaard.

A introdução do livro é um relato do cristianismo de Oscar Wilde, que, como relata Critchley, passou por uma transformação na prisão, quando em pecado e em arrependido sofrimento, experimentou "uma exigência ética infinita". Essa exigência foi o foco de um livro anterior de Critchley, Infinitely Demanding [Infinitamente exigente] (2007).

Sendo um filósofo político, Critchley defende que somente o amor abnegado pode fornecer a cola para fazer uma sociedade justa permanecer unida. Mas o que interessa mais a ele neste livro não é a questão política, mas a transformação espiritual do ser humano, como refletida nos momentos purgativos em ascensão mística e os movimentos paradoxais da religião filosófica.

Critchley conclui com uma leitura de Works of Love [Obras de amor] de Kierkegaard. O que importa é o "rigor" do amor de alguém. O indivíduo abriu caminho, ou melhor, está constantemente abrindo caminho, de modo a dar espaço para o "outro"? É preciso estar "lutando" continuamente - "a cada momento" - em "um processo de descriação e empobrecimento" para esvaziar a si mesmo para a invasão do amor.

São os não crentes, não aqueles pertencentes a qualquer confissão religiosa, alega Critichley, os mais capazes de viver esta fé rigorista com uma "urgência constante de um engajamento ativo". Pois "sem garantias de segurança ou recompensas", os "sem fé" são capazes de se doar de uma forma não mediada à interioridade kierkegaardiana, onde eles "habitam com a demanda infinita do amor".

A alegação de Critchley de que os não crentes, na sua visão, "os sem fé", são crentes exemplares é, ao mesmo tempo, a afirmação mais ousada e duvidosa feita por ele. Já que os seculares dispostos a se entregarem ao auto-abandono do modelo de Porete ou a atos implacáveis de fé segundo Kierkegaard seriam muito poucos, de fato. Não há espaço para a intersubjetividade, nenhuma menção de amizade ou comunhão. Mesmo o "outro" na tríade eu-Deus-outro de Kierkegaard desaparece, e, no final, Deus é engolido, como que por um buraco negro, pela infinitamente auto-esvaziamento.

Nenhum substituto para a coisa real

Em Political Emotions: Why Love Matters for Justice [Emoções políticas: Por que o amor é importante para a justiça] (Belknap / Harvard, 2014), Martha Nussbaum, uma das filósofas mais proeminentes no campo moral e político dos Estados Unidos hoje, examina a forma como a religião civil tem sido utilizada para evocar virtudes políticas positivas, como a lealdade, o patriotismo, a compaixão e, notadamente, o amor.

Os fundamentos históricos de seu argumento residem nos esforços dos intelectuais dos séculos XIX e XX, como Auguste Comte e John Stuart Mill, para desenvolver religiões civis que fornecem a coesão social que a religião tinha oferecido anteriormente. Mas ela admite que a religião civil pode completar a religião, mas não substituir a coisa real. "Por agora", escreve ela, "temos motivos para pensar que em condições de liberdade, haverá uma pluralidade de religiões e doutrinas seculares de vida, muitas das quais continuarão a atrair seguidores".

O que precisamos na vida real para uma elevação espiritual, Nussbaum acredita, é a vivacidade da experiência não foi encontrada na filosofia acadêmica, uma riqueza que a religião proporciona. Rabindranath Tagore, poeta indiano, filósofo e teórico da educação, é o autor de quem Nussbaum busca a maior inspiração. Na sua visão, "a religião do homem" de Tagore tem a vantagem da sensibilidade à cultura e à expressão individual, dons que as religiões civis filosóficas iniciais negligenciaram.

Nussbaum também observa que o catolicismo romano, ao contrário das filosofias de Comte ou Mill, tem elementos respeitados e incorporados "muito astutamente" de culturas tradicionais para a prática de sua própria fé. Da mesma forma, a aceitação por parte da Igreja de artistas como "J.S. Bach, El Greco e Gerard Manley Hopkins", revela uma abertura para "o exercício da imaginação com a integridade pessoal", algo que as religiões civis filosóficas suprimiram, no interesse de uma uniformidade de expressão.

Ao contrário de Nagel e Dworkin, mas como De Botton, Nussbaum estima os prazeres estéticos que a religião fornece, bem como os benefícios mais especificamente religiosos, como a ampliação da compaixão, a devoção compartilhada, os modelos de vida (os santos) e, especialmente, o cultivo de apreciados afetos e virtudes.

O que falta tanto na religião quanto na religião civil construída, embora Mill e Tagore lutassem com isso, ela observa, é a promoção da liberdade pessoal no contexto comunitário e uma visão de mundo compartilhada. No final, o seu apelo é que uma política humana requer um envolvimento emocional do público com seus concidadãos. Isso pode ser feito, talvez, em algumas religiões construídas, como a de Tagore, ou nas religiões tradicionais dentro de um Estado liberal; e também pode ser promovida com uma pedagogia de emoções que Nussbaum tenta fornecer no restante de seu livro.

Cinco lições para o diálogo

A nova abertura para a religião entre os filósofos profissionais e aqueles que poderíamos chamar de filósofos da vida é uma boa notícia para os cristãos preocupados com o diálogo com o mundo secular. As polêmicas hostis dos "novos ateus" já são passado. Chegou a hora de um diálogo sério e mais bem informado entre crentes e intelectuais sensíveis à religião. Aqui estão cinco lições que eu tirei destes livros para o diálogo com artistas e intelectuais não crentes.

1) As artes como um bem comum. O fato de que muitos pensadores seculares - como De Botton, os filósofos da religião e Nussbaum - veem as artes inspiradas pela fé e vividas nas celebrações litúrgicas como coisas boas que eles estão perdendo e que precisam ter em comunidade sugere que as artes fornecem uma campo em que os cristãos e não crentes têm dons para compartilhar uns com os outros que podem oferecer encontros frutíferos.

Nos séculos passados, os apologistas falavam de empregar a aprendizagem pagã como propedêutico para a compreensão da fé como "a espoliação dos egípcios". Nestes tempos mais ecumênicos, falamos de dons que compartilhamos. O que está faltando em muitos casos não é apenas o verdadeiro apreço para os dons dos não crentes, mas o conhecimento básico da cultura da outra parte. Por esse motivo, há uma necessidade real de uma partilha de dons entre as culturas espirituais.

Os católicos, por exemplo, precisam se familiarizar com a poesia, a música e a arte do universo simbólico liberal de Nussbaum. Nesse sentido, as artes, tanto cristãs quanto seculares, podem revelar-se como um bem comum que podemos compartilhar juntos. Os cristãos têm tanto a aprender com eles quanto para dar a eles.

2) Pontos de partida essenciais. Encontrar o significado global de nossas vidas (Nagel) e enfrentar o mistério em que vivemos (Dworkin) são questões religiosas graves. O envolvimento com tais questões abre terreno para uma busca comum pelas respostas às perguntas mais básicas da teologia filosófica e fundamental. São perguntas que os teólogos também examinam. É preciso progredir para que a busca disso seja feita em comum. Alguma limpeza do terreno será necessária para superar noções antropomórficas simplistas de Deus, uma falha não apenas dos novos ateus, mas também de pensadores não crentes mais sofisticados. No entanto, o diálogo sobre essas questões oferece uma oportunidade de compartilhar a experiência religiosa e explorar os anseios profundos que passam por elas.

É importante esclarecer como e por que a experiência de mistério e transcendência leva os pensadores cristãos a acreditar em Deus, mas não inspira pensadores seculares a fazer o mesmo. Não sou ingênuo para acreditar que tais conversas levarão os descrentes a ver a luz. Onde os pensadores seculares são sensíveis a fé, há todas as razões para limpar tanta incompreensão quanto possível e para os pensadores cristãos compartilhar com eles as suas explorações dos mesmos fenômenos, mesmo quando escutam os não crentes desvendarem as suas dúvidas.

3) A filosofia e a religião como modos de vida. Pensadores como Comte, Tagore e De Botton demonstram que a filosofia pode ser mais do que um exercício intelectual da Torre de Marfim. Ela também pode servir, como o falecido Pierre Hadot nos lembrou, como "um modo de vida" preocupado com viver e morrer bem (Philosophy as a Way of Life, 1981-1995; What Is Ancient Philosophy?, 1995/2002). Uma forma de diálogo inter-religioso existente é o diálogo intermonástico, onde monges e freiras das grandes religiões do mundo se reúnem para compartilhar seus estilos de oração e modos de vida uns com os outros.

Mosteiros Ecumênicos como Taizé e Bossey, por sua vez, onde os cristãos de diferentes denominações e não crentes compartilham uma vida juntos, encontraram grande interesse e aprovação tanto da Santa Sé quanto de pessoas que não estão religiosamente afiliados. Com seu carisma da unidade, o Focolare abre suas comunidades para muçulmanos e ateus, bem como para cristãos não católicos, onde os convidados, com seus próprios métodos, compartilham a vida com os focolarinos e focolarinas.

Estas comunidades mistas são fatos da nossa "era secular", como descreve Charles Taylor, onde as fronteiras religiosas são mais porosas e fluidas do que no passado. É inconcebível, portanto, que cristãos e filósofos "religiosamente musicais" possam juntos explorar a filosofia e a religião como modos de vida, e não como sistemas de ideias concorrentes? Explorar formas de vida conjuntamente pode abrir caminhos alternativos de conhecimento, levar ambos os lados a expressar suas convicções mais profundas, e assim pressionar os cristãos a expressar sua fé em formas mais articuladas e compreensíveis.

4) Uma liberdade religiosa mais perfeita. O desafio mais difícil que os filósofos religiosamente sintonizados apresentam aos crentes cristãos e, particularmente, aos católicos, tem a ver com a liberdade religiosa. Não é apenas um problema apenas para os cristãos. Como explica Nussbaum, os filósofos da religião civil e outros liberais como Mozart também lutaram com o problema e encontraram respostas apenas parciais. Após o Concílio Vaticano II, John Courtney Murray, SJ, argumentou que, assim como o Concílio tinha articulado o caso a favor da liberdade religiosa livre de coerção estatal, tinha chegado o momento de formular o caso para a liberdade dentro da Igreja institucional.

A teologia católica de liberdade não vai imitar o individualismo da cultura liberal secular. O catolicismo é uma tradição personalista, comunitária e que possui um credo, de modo que qualquer teologia da liberdade eclesial será colorida por estas dimensões da fé. No entanto, a tradição liberal e a filosofia secular, de uma forma geral, nos desafiam a desenvolver, na teoria e na prática, uma concepção mais adequada e ampla da liberdade das pessoas e grupos que hoje temos.

Precisamos reconhecer que um déficit de liberdade na cultura católica é um obstáculo para que os homens e mulheres modernos ouçam o evangelho. Da mesma forma, para muitos católicos contemporâneos, o mesmo déficit de liberdade é um impedimento para um discipulado mais convicto, resultando em evasão, ressentimento e dissonância cognitiva nos indivíduos e divisões prejudiciais dentro do corpo de Cristo. Nossas capacidades para viver plenamente o Evangelho e anunciá-lo corajosamente não são fomentadas devido a um respeito insuficiente por uma madura liberdade religiosa dentro da Igreja.

5) Fé, verdade e mística. Para mim, o desenvolvimento mais marcante entre os ateus religiosos é a apropriação da "fé" de Critichley pelos não crentes. O diálogo com os não crentes sobre os modos de conhecimento religioso pode ajudar a esclarecer o que os cristãos querem dizer com fé.

Além disso, incluir a mística, como Critichley faz, pode ajudar ainda mais a iluminar a fé como "conhecimento pessoal" de Deus, um tema que o Papa Francisco (com base no trabalho do Papa Emérito Bento XVI) explorou na encíclica Lumen Fidei [Luz da Fé].

A questão religiosa chegou à maturidade entre alguns pensadores seculares finalmente. É hora de os cristãos envolverem-se nesse tema, confiando, como disse o Papa Francisco, que o Espírito trabalha no mundo, bem como na Igreja e que há dons para todos nesse engajamento mútuo.



sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sua capacidade de julgamento não é lá essas coisas

critique

Matéria da Superinteressante reproduzida no Brasil Post:

Duas ideias erradas que você tem sobre sua capacidade de julgamento

Ana Carolina Prado

A gente pode admitir que é ruim em esporte, que não tem o menor talento musical ou que tem gosto duvidoso para escolher roupas, mas uma qualidade que dificilmente abriríamos mão de defender sem falsa modéstia: nossa inteligência. Se você concorda com isso, leitor, este post pode abalar um pouco suas estruturas. Porque ele tem o objetivo de provar que você não é tão esperto quanto pensa. Não leve para o lado pessoal, estamos todos nessa – incluindo Einstein e Stephen Hawking.

É que nossos cérebros estão cheios de noções preconcebidas e padrões de pensamento que nos influenciam sem que percebamos. Como explica o livro “Você não é tão esperto quanto pensa”, do jornalista David McRaney (Editora Leya), somos cheios de crenças que parecem boas no papel, mas desmoronam na prática – e, mesmo quando elas desmoronam, nós tendemos a não notar. Temos esse desejo profundo de estarmos sempre certos e nos vermos sob uma luz positiva em termos morais e comportamentais – e isso norteia em muito a forma como a nossa mente funciona. Quer ver como? Leia dois exemplos tirados do livro:

1. A ideia errada: “Minhas opiniões são o resultado de anos de análise racional de objetiva dos fatos”.

A verdade: Suas opiniões são resultado de anos em que você prestou atenção a informações que confirmavam o que você acreditava. :/

Imagine a situação: você está de bobeira em casa e, em vez de ficar navegando para sempre pelo catálogo do Netflix, resolve realmente assistir a um filme e escolhe algum clássico oitentista, tipo “Os goonies”. Você vê e, no dia seguinte, encontra por acaso um texto que faz alguma referência ao filme. Coincidência engraçada, justo agora. Dois dias depois, vê um comercial na TV dizendo que vão exibir o filme naquela tarde. Eita. Para completar, um amigo seu, que não sabia que você havia assistido ao filme nos últimos dias, posta no Facebook uma matéria que fala sobre um dos atores que estavam lá. Gente, será que é o universo tentando te mandar uma mensagem? Seria legal (e estranho), mas não. Trata-se simplesmente de um negócio chamado “viés da confirmação”.

Você lê vários textos fazendo referência a várias coisas todos os dias, o Facebook está lotado de posts com notícias sobre pessoas famosas, os canais de TV estão sempre transmitindo algum filme. Mas, porque “Os goonies” estava na sua cabeça, você estava mais sensível a coisas que lhe fizessem referência e descartou as outras. Antes disso, você provavelmente passou várias vezes por conversas e textos e vídeos que mencionassem algo relacionado ao filme, mas na época tudo passou despercebido.

Algo parecido acontece em relação a outros temas – incluindo os que envolvem ideologias. É por causa desse viés que teorias da conspiração se mantêm: se você procurar APENAS provas de que o homem não foi à Lua, que a Avril Lavigne e a Anitta morreram e foram substituídas ou que o governo federal tem um plano de ocupação comunista no país, você vai encontrar.

Essa tendência também foi a responsável por fazer com que os apoiadores de Barack Obama comprassem livros que o retratavam de uma forma positiva durante a época da eleição presidencial norte-americana de 2008, enquanto aqueles que não o curtiam compraram livros que o mostravam de uma forma negativa. O pesquisador Valdis Krebs chegou a essa conclusão analisando tendências de compras na Amazon e o comportamento de pessoas nas redes sociais, e continuou o estudo por anos, chegando à conclusão de que as pessoas compravam livros para ter a confirmação de suas ideias, não para obter novas. A tendência dos humanos é querer estar certo sobre como veem o mundo, então procuram informações que confirmam suas crenças e evitam provas e opiniões que as contradizem.

Confirmando isso, um estudo de 2009 da Universidade de Ohio mostrou que pessoas passam 36% mais tempo lendo um ensaio se ele se alinha com sua opinião. Em outras palavras, prestamos mais atenção a materiais que validem nossa visão de mundo – até que ficamos tão confiantes dela que ninguém consegue nos fazer mudar de ideia. E isso é bem ruim. “Na ciência, você se aproxima mais da verdade ao procurar evidências contrárias. O mesmo método talvez devesse ser usado para formar suas opiniões”, diz David McRaney.

2. A ideia errada: Você entende como o mundo funciona baseando-se em estatísticas e fatos selecionados a partir de muitos exemplos.

A verdade: Sentimos informar, mas a sua visão de mundo não foi construída de forma tão ciente e cuidadosa. Na verdade, você é mais propenso a acreditar que algo é senso comum se puder encontrar só um exemplo disso e muito menos propenso a acreditar em algo que nunca viu antes.

Essa tendência se chama “heurística da disponibilidade” e é bastante usada por políticos, como quando eles contam, em um discurso, alguma anedota envolvendo uma situação que é familiar aos ouvintes. Ao fazer isso, eles estão apostando que aqueles que os ouvem entenderão esse exemplo como um indicativo de que existem muitos outros casos semelhantes.

É o mesmo princípio que faz as pessoas acharem, logo após algum caso envolvendo um atirador em uma escola, por exemplo, que isso virou uma espécie de “epidemia” – e faz com que os pais ignorem que seus filhos têm três vezes mais chance de serem atingidos por um raio do que receber um tiro de um colega. Na época em que aconteceu o caso de Columbine, uma pesquisa feita por Barry Glassner, autor do livro “Cultura do Medo”, mostrou que a violência nas escolas tinha caído 30% e que era mais fácil um estudante levar um tiro antes desse caso acontecer. Mas ninguém deu atenção a isso, já que haviam acabado de testemunhar a tragédia. A frase “só acredito vendo” também está relacionada à heurística da disponibilidade. Ter visto ou ouvido um caso que comprove uma ideia torna você muito mais propenso a adotá-la do que ler por alto outros 10 fatos distantes que provem o contrário. “Você não pensa em estatísticas, pensa em exemplos, em histórias”, escreve David McRaney.

Essa tendência foi apontada em 1973, no estudo dos pesquisadores Amos Tverksy e Daniel Kahneman. Os voluntários ouviram uma gravação com nomes de homens sendo ditos em voz alta, sendo 19 deles de pessoas famosas e 20 de desconhecidos. O estudo foi repetido depois com nomes de mulheres. Depois, eles tiveram de lembrar o máximo de nomes possível ou identificá-los a partir de um banco de palavras. Cerca de 66% das pessoas se lembraram dos nomes de pessoas famosas com maior frequência que os nomes desconhecidos e 80% disseram que a lista tinha mais nomes de famosos do que de não-famosos. Para os autores, isso mostrou que, quanto mais disponível estiver a informação, mais rápido você a processa e, assim, mais acredita nela e maior sua tendência a ignorar outras informações que a contradigam.



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Papa autoriza enterro de mendigo no Vaticano

mendigos vaticano

Willy Herteller era um mendigo muito conhecido nos arredores do Vaticano, e chegou a fazer amizade com vários integrantes do clero e do governo da cidade papal.

Já há muitos anos era conhecido e estimado por praticamente todos os moradores e funcionários de lá, segundo informa o diário italiano La Stampa.

Herteller tinha 80 anos de idade e vivia de esmolas até morrer no dia 12 de dezembro de 2014, e um de seus amigos, o monsenhor Americo Ciani, pediu ao papa que autorizasse o seu enterro no cemitério teutônico, que tem uma história antiga dedicada à última morada da nobreza e aristocracia da Alemanha.

O cemitério em questão está localizado entre a basílica de São Pedro e a Sala Paulo VI, e o papa autorizou o enterro de Herteller, cujo funeral aconteceu dia 9 de janeiro de 2015, e foi oficiado pelo próprio monsenhor Ciani.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Papa revisa teologia do inferno


Matéria publicada no IHU:

O papa Francisco revisa a teologia do inferno

"A Igreja oficial defende desde o século XV que o castigo do inferno destinado aos pecadores é 'eterno', ideia iniciada no século VI com Santo Agostinho. O papa Francisco acaba de revisar tal doutrina católica ao afirmar que a Igreja 'não condena para sempre'”. O comentário é de Juan Arias em artigo no El País, 20-02-2015.

Eis o artigo.

Sem necessidade de grandes encíclicas, com suas falas habituais, Francisco está realizando uma revisão da Igreja para aproximá-la de suas raízes históricas.

Deu o último golpe de graça em um momento um pouco mais solene do que suas conversas habituais com os jornalistas. Dessa vez aproveitou, dias atrás, seu discurso aos novos cardeais para recordar-lhes que o castigo do inferno com o qual a Igreja atormenta os fiéis não é “eterno”.

Segundo Francisco, no DNA da Igreja de Cristo, não existe um castigo para sempre, sem retorno, inapelável.

O Papa jesuíta é formado em teologia, ainda que não tenha feito o doutorado. Dele, talvez hoje o papa renunciante e doutor em teologia, Bento XVI, possa dizer o que afirmava sobre seu antecessor, o papa polonês João Paulo II: que sabe pouca teologia.

Durante um jantar informal em Roma, na casa de um jornalista alemão seu amigo, Ratzinger confessou, efetivamente, aos poucos comensais presentes, que o papa Wojtyla “era mais poeta que teólogo” e que ele, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que ocupava na época, precisava revisar seus discursos e documentos papais para que não escapasse “alguma imprecisão teológica”.

Francisco é, entretanto, um fiel seguidor da teologia inspirada no cristianismo original, que era, afirma ele, não o da “exclusão”, mas o da “acolhida” de todos, até mesmo dos maiores pecadores. É inspirado por aquele cristianismo antes que a teologia liberal do profeta Jesus de Nazaré fosse contaminada pela severa teologia aristotélica e racional.

Não foi um lapso a afirmação de Francisco aos cardeais de que a Igreja “não condena ninguém para sempre”, o que equivale a dizer que o castigo de Deus não é “eterno”, já que as portas da Igreja da misericórdia e do perdão estão sempre abertas ao pecador.

O Papa que está exigindo aos seus, começando pelos cardeais, a ir ao encontro daqueles que o mundo esquece e marginaliza, ao invés de perder seu tempo nos palácios do poder, sabe que essa doutrina teológica sobre a eternidade e irreversibilidade das penas do inferno, foi sofrendo mudanças ao longo da História da Igreja.

Até o século III a Igreja nunca defendeu a doutrina da eternidade do inferno. Pelo contrário, o exegeta das Escrituras, Orígenes (250) defendeu a doutrina da apocatástase, segundo a qual o Deus dos Evangelho perdoa sempre. Orígenes baseava-se na parábola do Filho pródigo que volta aos braços do pai e é recebido com tanta festa que causa a inveja do irmão bom e fiel.

Somente no século VI começa a aparecer o conceito de “condenação eterna”, sobretudo com Santo Agostinho, o mesmo que defendia que as crianças mortas sem batismo deveriam ir para o inferno. Diante dos protestos das mães dessas crianças, a Igreja criou a doutrina do Limbo, um lugar onde essas crianças “não gozam nem sofrem”, algo completamente estranho aos Evangelhos

Em nossos dias, o falecido papa polaco, João Paulo II, no Catecismo da Igreja Universal nascido das discussões do Concílio Vaticano II, aboliu o Limbo. De acordo com comentários de amigos pessoais do papa, Wojtyla nunca aceitou que uma irmã sua nascida morta e que não pôde ser batizada, pudesse não estar no céu por ter morrido antes de ser libertada do pecado original com o batismo.

A família do futuro Papa era muito católica e, fiel àquela doutrina, nem sequer enterraram o corpo da pequena por não ter podido receber o batismo. Ele mesmo confirmou quando ao falar do túmulo no qual gostaria de juntar os restos de toda sua família, frisou que faltava somente sua irmãzinha, “pois havia nascido morta”. Foi jogada no lixo.

Foi o Concílio de Florença no século XV que rubricou definitivamente a doutrina de Santo Agostinho de um castigo e um inferno eterno. Já no século V, entretanto, São Jerônimo estava convencido de que a doutrina do inferno com a misericórdia de Deus não era conciliável. De todo modo, pedia-se aos sacerdotes e bispos que continuassem defendendo a doutrina tradicional “para que os fiéis, por temor ao castigo do inferno eterno, não pecassem”.

Hoje, o papa Francisco deu um salto de séculos, colocou-se ao lado das primeiras comunidades cristãs ainda embebidas da doutrina do misericordioso profeta de Nazaré, que veio “para salva e não para condenar”.

Os primeiros cristãos sabiam que Jesus havia sido duro e severo com a hipocrisia e com o poder tirano, enquanto abraçava os marginalizados pela sociedade bem como os que a Igreja oficial de seu tempo tachava de pecadores.

Podem parecer minúcias teológicas para os não religiosos, mas são muito importantes para milhões de cristãos que durante séculos sofreram oprimidos pela doutrina de um Deus tirano, sedento de castigo e de castigo eterno.

Lembro que no final dos anos 60, após escrever no jornal espanhol Pueblo um artigo intitulado “O Deus no qual não acredito”, em que defendia que os cristãos precisavam escolher entre Deus e o inferno eterno, já que ambos eram conceitos inconciliáveis, sofri um duro interrogatório do então arcebispo de Madri, Monsenhor Casimiro Morcillo, que me acusou de “ter escandalizado os fiéis”.

Aqui no Brasil, o teólogo da libertação, Leonardo Boff, me contou que há 16 anos o grande escritor e poeta de Pernambuco João Cabral de Mello Neto estava para morrer e, apesar de não ser religioso, estava angustiado naquele momento pela doutrina sobre o medo do inferno, que lhe haviam inculcado na infância. Foi chamado para o tranquilizar. Boff, que foi condenado ao silêncio pelo papa Bento XVI quando este era Prefeito da Congregação da Fé, usou com o escritor as mesmas palavras que agora o papa Francisco usa para assegurar que Deus não condena ninguém para sempre.

Boff disse com humor ao poeta que alguém capaz de escrever a joia literária, social e humana Morte e Vida Severina, merecia indulgência plena na hora de se despedir da vida.

A mudança é copernicana. Hoje é um papa como Francisco que afirma com total naturalidade que o Deus cristão “não condena ninguém para sempre”, que é como dizer que não existem infernos eternos, uma afirmação que há pouco tempo atrás poderia ter servido para abrir um processo contra um teólogo e condená-lo ao ostracismo.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Uma estátua de Buda com um monge mumificado dentro


A matéria é do Gizmodo Brasil:

Esta estátua de Buda tem uma múmia dentro dela

Cheryl Eddy

Esta não é uma estátua de Buda qualquer. Como a radiografia mostra claramente, há uma múmia dentro dela.

Radiografia e endoscopia foram feitas para examinar as cavidades torácicas e abdominais do paciente mais velho — como a estátua é conhecida — no Centro Médico Meander, na cidade de Amersfoort, na Holanda. A radiografia identificou a múmia como o corpo do mestre budista Liuquan.

A endoscopia revelou algo fantástico: pedaços de papel com caracteres chineses e outros materiais apodrecidos foram encontrados no lugar de órgãos. Testes de DNA foram feitos, mas o resultado só será revelado em uma publicação sobre a vida do Mestre Liuquan a ser publicada em breve.

O artefato é uma das obras de uma exposição de múmias que esteve no Museu Drents, em Assen. É a primeira vez que a “múmia de Buddha” é exposta fora da China; de acordo com o museu, a estátua contém os restos mortais do mestre budista que viveu “por volta do ano 1100” e é possivelmente um exemplo de auto mumificação, que, segundo a CNET, consistia em:

Uma dieta de mil dias consumindo água, sementes e nozes, seguida de outros mil dias consumindo raízes, cascas de pinheiro e um chá especial feito da seiva de uma árvore chinesa — uma substância tóxica, usada para repelir bactérias e larvas. Depois disso os monges eram então selados em uma tumba de pedra para aguardar a morte.

Agora a estátua está em Budapeste, no Museu Nacional de História Natural, onde ficará até maio de 2015.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Capelão da PM de SP é investigado por suspeita de desvio de dinheiro

patrono policia militar
Santo Expedito vai ter muito trabalho
na PM de São Paulo
A informação é do Estadão:

Corregedoria investiga capelão militar


MARCELO GODOY

Justiça quebrou sigilo de padre Osvaldo Palópito, que é tenente-coronel, por supostas irregularidades em contas da Capelania

SÃO PAULO - A Corregedoria da Polícia Militar está investigando o suposto desvio de recursos da Capelania Militar da corporação. O alvo do Inquérito Policial-Militar (IPM) é a atuação do tenente-coronel Osvaldo Palópito, que é padre da Igreja Católica e dirigia o órgão até o dia 31 de janeiro, quando pediu a sua passagem para a reserva.

Com a crise em torno da Capelania, o comandante-geral da PM, coronel Ricardo Gambaroni, decidiu acabar com o cargo de capelão militar - o sacerdote que é ao mesmo tempo oficial da corporação. Com isso, a vaga de tenente-coronel de padre Palópito será transferida para o quadro de oficiais da PM.

A decisão de instaurar o inquérito foi tomada pelo coronel Levy Anastácio Félix, comandante da Corregedoria. Suspeita-se de enriquecimento ilícito e de desvios que envolveriam até R$ 2 milhões. As desconfianças contra o padre Palópito na corporação surgiram em 2009, mas só agora teriam sido achados indícios que justificariam a abertura da investigação.

Cantor - ele gravou seis discos -, bem falante e com vida social intensa, Palópito era o responsável pela Paróquia Santo Expedito - santo que foi militar -, na Rua Jorge Miranda, na Luz, no centro de São Paulo. É ali que funciona a Capelania, cujo prédio foi erguido nos anos 1940 com doações feitas pelos integrantes da antiga Força Pública, corporação que deu origem à Polícia Militar.

Na primeira metade do século passado, a Força Pública era uma tropa que ficava em sua maioria aquartelada, com pouca participação no policiamento das ruas. Sua lógica organizacional era militar. Isso significava que cada batalhão devia ser autossuficiente, com oficinas mecânicas, serviço de alimentação, equipe médica e com sacerdotes que acompanhavam a tropa em missões, como no caso da combate à coluna Miguel Costa-Prestes, nos anos 1920.

Palópito entrou para a PM por meio de concurso - outros padres concorreram ao cargo. Aprovado, ganhou a patente de segundo-tenente e fez carreira na corporação como os demais oficiais. O Estado procurou o sacerdote por meio de seu telefone para contatos e de seu perfil em uma rede social. Até as 20 horas deste domingo, 22, ele não havia sido localizado ou respondido às mensagens deixadas.

Quebra de sigilo. A investigação contra o capelão começou em setembro de 2014. De imediato, o comando da Corregedoria decretou sigilo no inquérito. Ao Tribunal de Justiça Militar (TJM) de São Paulo, o corregedor da corporação pediu a quebra dos sigilos bancário e telefônico do sacerdote. Chefiada pelo juiz Luiz Alberto Moro Cavalcante, a Corregedoria do TJM deferiu ambas as medidas.

O Estado apurou que as interceptações telefônicas forneceram pistas que justificaram a realização de uma busca e apreensão realizada em 11 de fevereiro em um imóvel que seria frequentado pelo sacerdote em uma praia do litoral norte.

Procurado pela reportagem, o comando da corporação informou apenas que "a Polícia Militar confirma a existência de um Inquérito Policial-Militar em andamento, para apurar denúncias de possíveis irregularidades na administração do capelão Osvaldo Palópito na Capelania Militar Santo Expedito".

Paróquia de Santo Expedito na área militar estadual de São Paulo (bairro do Bom Retiro)




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Revista Época condenada a indenizar ex-empregada de Edir Macedo


A história é daquelas cheias de detalhes, conforme a matéria publicada no Brasil Post, com vídeo mais abaixo:

Ex-mulher de pastor demitido da Igreja Universal ganha indenização de R$ 10 mil por polêmica matéria na revista Época


Thiago de Araújo

A 9ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) acolheu a ação indenizatória de Jacira Aparecida da Silva contra a Editora Globo, responsável pela revista Época. A decisão, oficializada na última sexta-feira (20), prevê o pagamento de R$ 10 mil por conta de uma polêmica envolvendo o ex-marido de Jacira, Gustavo Alves da Rocha, ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus.

A matéria em questão, com o título “Aprendi a extorquir o povo”, publicada em 18 de setembro de 2009, apresentava Rocha como um pastor demitido pela Universal em 2004, mas que pouco tempo antes era responsável por contar e fazer o depósito do dízimo recolhido nos 26 templos da Universal em Nova York (EUA). Na mesma matéria, Rocha afirmou “ter morado” na mansão do bispo Edir Macedo, líder da Universal e dono da Rede Record, por três anos.

Foi lá que o ex-pastor teria conhecido Jacira, com a qual foi “orientado por Macedo” a se casar, na época em que ela seria empregada doméstica do líder da igreja. A ex-mulher de Rocha moveu o processo contra a Editora Globo por conta das denúncias feitas por ele, atribuindo a ela informações falsas e declarações inexistentes sobre supostas irregularidades praticadas por representantes da instituição.

“Tal conduta, por certo, extrapola o mero exercício do direito de liberdade de informação, já que a reportagem ultrapassa os limites da função jornalística, que é de informar à coletividade fatos e acontecimentos, de maneira objetiva, sem alteração da verdade, resvalando nos direitos de personalidade da autora”, afirmou em seu voto o desembargador Alexandre Alves Lazzarini. A decisão muda àquela de primeira instância da ação que começou em 2011, a qual julgou improcedente o pedido de indenização. A editora ainda pode recorrer da decisão.

Na Record, Jacira já havia negado reportagem


Na época da reportagem, a Record produziu uma matéria com Jacira (que, segundo a revista, tinha confirmado o relato do ex-marido), na qual ela negava as denúncias feitas Gustavo Alves da Rocha. Antes de ser pastor da Universal, ele teria conhecido Edir Macedo em Londres, onde o líder da igreja estaria aumentando o número de templos e precisava de ajuda.

Já pastor nos EUA, ele garantia ter presenciado os planos de Macedo para construir o seu império, afirmando ainda que o dízimo ajudou na expansão da emissora.

“Todos os salários dos funcionários da Rede Record são pagos pela emissora em conta corrente dos beneficiários e todos os investimentos são pagos pela emissora com recursos próprios (...). Edir Macedo nos ensinava a atingir as metas que ele criava para cada igreja, e a meta era financeira. Não era de fiéis”, comentou o ex-pastor à Época em 2009.

A Record negou as informações prestadas por Rocha, assim como a Universal. Em seu blog pessoal, Edir Macedo rebateu todo o conteúdo da revista, chamando tudo de um “recomeço da guerra entre Globo e Record”.





domingo, 22 de fevereiro de 2015

É possível "aprender dormindo"?


A matéria é da BBC Brasil:

A ciência de 'aprender dormindo'

David Robson

A ideia de aprender enquanto dormimos é tão atraente quanto controversa. Na literatura e no cinema, o mais comum é que ela tome a forma de uma mente inconsciente absorvendo novas informações a partir de uma gravação tocando ao fundo.

Hoje, se sabe que este tipo de aprendizado durante o sono é quase certamente impossível. Embora estudos iniciais tivessem sugerido que as pessoas sejam capazes de guardar alguns fatos durante o sono, a verdade é que os cientistas nunca puderam descartar que elas não tivessem simplesmente acordado levemente e ouvido a gravação.

Para testar essas suspeitas, Charles Simon e William Emmons conectaram eletrodos ao couro cabeludo de voluntários e se asseguraram de que suas 'cobaias' estavam dormindo no momento em que gravações fossem tocadas. As pesquisas, feitas nos anos 1950, confirmaram as suspeitas: as pessoas não aprenderam nada do que foi tocado para elas enquanto dormiam.

Apesar de ser impossível ensinar habilidades do zero a uma pessoa durante o sono, há muitas maneiras, básicas ou sofisticadas, de ajudá-la a consolidar conhecimento adquirido enquanto descansa.

Quando dormimos, nosso cérebro pode não enxergar ou escutar novas informações, mas está absorvendo as experiências do dia anterior, enviando memórias do hipocampo, onde os cientistas acreditam que elas se formam, para as várias áreas do córtex, onde são armazenadas a longo prazo.

"O sono ajuda a estabilizar as memórias e a integrá-las a uma rede de recordações mais antigas", diz Susanne Diekelmann, da Universidade de Tubingen, na Alemanha. Dormir também possibilita a generalização daquilo que aprendemos, para podermos aplicar o conhecimento em novas situações.

'Manipulando' sonhos

Assim, vários experimentos têm buscado estimular o cérebro durante o sono com a finalidade de ajudá-lo a consolidar fatos e habilidades aprendidos durante o dia.

Entre os métodos existentes para alcançar esse fim, o mais simples deriva de uma pesquisa realizada no século 19 pelo nobre francês Marquês d’Hervey de Saint-Denys.

Explorando maneiras de manipular seus sonhos, ele descobriu que podia evocar certas lembranças com odores, sabores e sons. E usava esses estímulos durante o sono para ter noites com sonhos mais prazerosos.

Essa mesma abordagem pode fazer o cérebro reproduzir, durante o sono, habilidades e fatos adquiridos, reforçando o aprendizado.

Diekelman fez uma experiência com voluntários na qual pediu para eles memorizarem uma sequência de objetos enquanto inalavam um aroma artificial e sutil. Quando os voluntários dormiam, a cientista borrifou o mesmo aroma nas narinas de alguns deles.

Uma tomografia mostrou que eles apresentavam uma comunicação maior entre o hipocampo e as áreas do córtex. No dia seguinte, esses voluntários lembraram de 84% dos objetos na sequência, enquanto o grupo que não foi submetido ao aroma durante o sono lembrou de apenas 61%.

Upgrade tecnológico

Em um futuro próximo, a tecnologia poderá oferecer novas maneiras de incentivar os ciclos do sono no cérebro. Cientistas acreditam que a consolidação da memória ocorre durante oscilações específicas e lentas da atividade elétrica cerebral. Por isso, estão tentando estimular esse tipo de onda no cérebro sem acordar o paciente.

Jan Born, da Universidade de Tubingen, é um dos pioneiros nesse tipo de experiência. Recentemente, Born testou uma espécie de touca de eletrodos que medem a atividade neural enquanto um fone de ouvidos toca sons em sincronia com as ondas cerebrais.

"O método aprofunda o sono de ondas lentas e o torna mais intenso. É uma maneira mais natural de fazer o sistema funcionar em um certo ritmo", explica.

Já Miriam Reiner, do Instituto de Tecnologia Technion, em Haifa, em Israel, está elaborando um tipo de "neurofeedback" que permite aos voluntários controlar sua atividade neural enquanto estão acordados. Um eletrodo ligado à cabeça dos voluntários envia sinais a um jogo no qual cada pessoa tem que dirigir um carro com o poder do pensamento.

Quando o eletrodo registra a frequência correta de ondas cerebrais, normalmente associada com a consolidação da memória durante o sono, elas aceleram. A mudança no estado mental é visível. "Me sinto mais relaxada, como se estivesse em um lugar sereno e bonito", diz Reiner.

A ideia é dar um impulso à consolidação da memória logo após o aprendizado, o que faz com que o cérebro funcione melhor durante o sono.

Pesquisas

Ainda são necessários testes mais abrangentes e com mais voluntários antes que essas técnicas sejam adotadas no dia-a-dia. Para Reiner, ainda precisamos nos perguntar se seria correto começar a manipular as memórias das pessoas, ainda que com boas intenções.

"O sono é um estado vulnerável", observa ela.

Mas a cientista ressalta que questões como essa não devem conter o interesse em aprender dormindo.

Em última instância, pesquisas sobre o assunto podem mudar a maneira como percebemos essa parte tão subestimada de nossas vidas.

Em uma cultura ocidental onde ser workaholic é aceitável, o sono às vezes tende a ser considerado uma perda de tempo que tentamos vencer com uma boa dose de cafeína. Mas quem sabe um dia comecemos a valorizar o dormir como uma parte do dia rentável na qual não precisamos fazer nada, a não ser relaxar.



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Teoria radical da física quântica diz que somos afetados por outros universos


Artigo publicado no Brasil Post:

Nova teoria quântica radical diz que outros universos afetam o nosso

David Freeman

Universos paralelos há muito são um dos pilares da ficção científica. Mas segundo uma nova teoria radical de mecânica quântica, publicada em 23 de outubro na Physical Review X, outros universos são reais – e existem em grande número.

Além disso, os cientistas por trás da teoria dizem que os outros universos exercem uma ligeira força repulsiva sobre o nosso universo – e essa força é o que torna o reino quântico tão bizarro.

“Qualquer explicação de fenômenos quânticos vai ser esquisita, e a mecânica quântica padrão não oferece nenhum tipo de explicação – ela só faz previsões para experimentos de laboratório”, disse por email ao Huffington Post Howard Wiseman, físico da Universidade Griffith, de Brisbane, na Austrália, e um dos criadores da nova “teoria de muitos mundos interativos”. “Nossa nova explicação ... é que existem mundos paralelos comuns que interagem de forma particular e sutil.”

A teoria é uma nova guinada na chamada “interpretação de muitos mundos” da mecânica quântica, que tem origem nos anos 1950. Como explicou Wiseman em um comunicado por escrito:
“Na conhecida ‘interpretação de muitos mundos’, cada universo se ramifica em vários novos universos cada vez que é feita uma medição quântica. Todas as possibilidades se realizam, portanto – em alguns universos, o asteroide que matou os dinossauros não atinge a Terra. Em outros, a Austrália foi colonizada pelos portugueses. Mas os críticos questionam a realidade desses outros universos, pois eles não influenciam em nada o nosso universo. Desse ponto de vista, nossa abordagem dos ‘muitos mundos interativos’ é completamente diferente, como indica o nome.” Wiseman e seus colaboradores – Michael Hall, também da Universidade Griffith, e Dirk-Andre Deckert, da Universidade da Califórnia em Davis, dizem que sua teoria pode ter implicações importantes no campo da dinâmica molecular, que é crítica para o entendimento das reações químicas.
Será que ela também sugere que os humanos possam um dia interagir com outros universos?

“Não é parte de nossa teoria...”, disse Wiseman à Motherboard. “Mas a ideia de interações com outros universos não é mais pura fantasia.”

O que os outros especialistas acham da nova teoria?

Lawrence Krauss, físico teórico da Universidade do Arizona em Tempe, disse ao Huffington Post ser “cético”. E um físico popular da República Tcheca escreveu em seu blog que, apesar de Wiseman e seus colaboradores terem “conseguido apresentar algumas ideias que são ao menos ligeiramente originais”, o paper é “outro exemplo do fato de que tais esforços são uma empreitada sem esperanças e um enorme desperdício de tempo”.

Mas Charles Sebens, filósofo da física na Universidade de Michigan em Ann Arbor disse à Nature que estava empolgado com a abordagem de Wiseman e seus colaboradores.

“Eles fazem análises interessantes de fenômenos particulares como energia de ponto zero e tunelamento quântico”, disse ele à revista. “Acho que, juntos, eles fizeram uma boa apresentação de uma ideia nova e empolgante.”

Claramente não há consenso. Mas, se Wiseman está chateado com as respostas variadas à teoria, ele não dá sinais disso.

“Alguns estão completamente felizes com suas próprias interpretações da mecânica quântica, e é pouco provável que os façamos mudar de ideia”, disse ele por email. “Mas acredito que há muitos que não estão felizes com as interpretações atuais, e são esses que vão se interessar pela nossa. Espero que o interesse seja suficiente para que haja novos trabalhos, pois ainda há muitas perguntas sem resposta.”

Enquanto isso, a última palavra deveria ficar provavelmente com o físico teórico e ganhador do Nobel Richard Feynman (1918-1988), que disse certa vez: “Acho que posso afirmar com segurança que ninguém entende mecânica quântica”.



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