sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Prédio da Av. Paulista treme com profecia de acidente aéreo para o dia 26/11


A esquisitice da vez foi publicada no R7 (com vídeo no final da matéria abaixo).

A coisa é tão doida que até a TAM mudou o número do voo JJ3720 no dia 26/11, que sai de Congonhas para Brasília, e que seria responsável pelo "acidente", segundo informa o G1.

Confira:

Temeroso com premonição, condomínio na Paulista faz comunicado sobre acidente aéreo

Administração do prédio diz não querer ser alarmista, mas deixa recado para condôminos

Caroline Apple

Com base na premonição do vidente Jucelino Nóbrega da Luz sobre uma possível batida entre uma aeronave e um prédio na região da Paulista, região central de São Paulo, a administração do condomínio Barão de Serro Azul distribuiu, de porta em porta, um comunicado aos condôminos sobre a possível tragédia.

Na visão do vidente, o acidente irá ocorrer no dia 26 de novembro, em um condomínio na avenida Paulista com a alameda Campinas, próximo ao Hotel Maksoud Plaza. O condomínio fica na "rota" da possível batida, no número 1.156 da emblemática avenida da capital.

No recado, que diz não ter o intuito de ser "sensacionalista" ou "alarmista", o corpo diretivo do prédio se mostra aliviado por avisar sobre o palpite do vidente. O texto também diz que cada responsável pela equipe de trabalho poderá tomar providências diante do fato exposto.

Uma empresária, que não quis se identificar, tem uma sala comercial no edifício. De acordo com ela, o recado pode ter sido escrito para aliviar a tensão dos condôminos que, há algum tempo vêm especulando sobre a premonição.

— É um assunto corriqueiro nos elevadores. Talvez seja por isso que a administração resolveu se pronunciar.

Mesmo achando a premonição algo "surreal", a empresária já decidiu: no dia para que está previsto o fatídico acidente, toda a sua equipe vai trabalhar de casa.

— Queremos muito rir disso depois que a data passar e nada acontecer. Mas vamos esperar em casa para rir.

O analista de sistemas Thiago Moreno, 31 anos, trabalha em um edifício na altura do número 1.000 da avenida Paulista — que também estaria na suposta rota de queda do avião —, afirma que a especulação não chegou aos corredores do prédio. Porém, em seu departamento, há funcionários que tomaram "precauções".

— Um colega de trabalho programou as férias para não estar aqui no dia do acidente. Outro, não para de pesquisar na internet sobre o assunto. Eu acho uma grande bobagem. Se depender de mim, quero estar aqui nesse dia grandioso.

As previsões de Jucelino Nóbrega da Luz ganharam destaque na mídia quando o avião do então candidato à Presidência Eduardo Campos caiu na Baixada Santista. O vidente afirma em seu site que, assim como todas as premonições anteriores, os casos foram comunicados e registrados em cartório.



Carolina Maria de Jesus, 100 anos depois


Em continuação ao Dia da Consciência Negra, comemorado ontem, São Paulo terá a oportunidade de conferir, a partir de amanhã, 22/11/14, o festival de literatura negra conhecido como Flink Sampa, a ser realizado no Memorial da América Latina.

A grande homenageada do evento é Carolina Maria de Jesus, mulher negra, pobre, semianalfabeta e favelada que escreveu "Quarto de Despejo", um clássico anti-racismo da literatura brasileira, que teve repercussão mundial na década de 1960  e - para vergonha de todos nós - ainda é muito atual, pois pouco ou nada mudou no que diz respeito ao trato de uma certa elite com a maioria afrodescendente do país.

Nascida no dia 14 de março de 1914, mesma data em que nasceu outro grande expoente da luta contra o racismo no Brasil, Abdias do Nascimento, nenhum dos dois pode ser esquecido, pois não se renderam ao discurso do "fiquem aí quietinhos no seu barraco e se conformem com as migalhas que caem da nossa mesa restrita", que é o que muita gente (negra, inclusive) advoga até hoje.

O artigo abaixo, de Karla Monteiro, publicado na Folha de S. Paulo de 20/11/14, continua revelador:

Escritora Carolina Maria de Jesus viveu do caos ao caos

Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, em Sacramento, interior de Minas, numa família de negros analfabetos. Chegou a ser presa, acusada de roubar 100 mil-réis de um padre. No raiar de 1947, aportou na Estação da Luz, em São Paulo, onde iniciaria uma caminhada de percalços até se tornar escritora best-seller.

Logo que se instalou na capital paulista conseguiu emprego na casa do médico Euryclides de Jesus Zerbini, precursor da cirurgia do coração no Brasil, que a deixava usufruir de sua biblioteca nos dias de folga. Com apenas dois anos de estudo, adorava ler.

Metida e indisciplinada, como a definem os que conviveram com ela, pulou de emprego em emprego até engravidar de João José, em 1948. Teria mais dois filhos: em 1949, nasceu José Carlos, e, em 1953, Vera Eunice.

Grávida e sem trabalho, foi viver na nascente favela do Canindé, nos arredores do recém-construído estádio da Portuguesa. Levantou um barraco de um cômodo e sobrevivia catando e vendendo papel.

Em 1958, o destino lhe sorriu, com todos os dentes. Apareceu na favela o jornalista Audálio Dantas, da extinta "Folha da Noite". Estava ali para escrever uma reportagem.

"Olhava uns marmanjos brincando no playground quando apareceu uma mulher esculachando, dizendo que se eles não caíssem fora, ia botá-los no livro", lembra Dantas. "Fui perguntar qual livro. Como era esperta, logo viu uma oportunidade."

Carolina de Jesus arrastou o repórter para o seu barraco, onde lhe mostrou uma pilha de cadernos. Entre eles, um diário no qual anotava acontecimentos do dia a dia na favela, iniciado em 15/7/1955.

"Me chamou a atenção. O texto tinha uma forma de narrar próxima da poesia", conta Dantas. "Voltei para a redação e publicamos trechos."

A edição da "Folha da Noite" de 9 de maio de 1958 repercutiu em vários outros jornais e revistas do país. Dois anos depois, a editora Francisco Alves publicou o diário no livro "Quarto de Despejo".

A primeira edição saiu com 30 mil exemplares. Segundo a pesquisadora Raffaella Fernandez, da Unicamp, a obra foi reimpressa sete vezes em 1960. No total, vendeu 80 mil exemplares. "Quarto de Despejo" foi traduzido para 14 línguas em 20 países. "No lançamento em São Paulo, até o Pelé foi", conta Dantas.

Carolina de Jesus virou celebridade e se mudou para um sobrado de três andares no bairro de Santana. Lançou mais três livros: "Casa de Alvenaria", "Pedaços de Fome" e "Provérbios". Postumamente, em 1982, foi lançado na França, "Diário de Bitita", que chegou ao Brasil pela Nova Fronteira, em 1986.

BRIGAS

"Carolina não conseguiu viver em Santana. Brigou com todos os vizinhos, que a receberam mal", lembra Dantas. "Não era uma pessoa comum. Nunca teve alma de pobre favelada, queria brilhar."

De Santana, a escritora migrou para um sítio em Parelheiros, onde começou a definhar no mundo literário até sumir.

"Passada a novidade, Carolina foi rejeitada por todos. Pela direita, por expor a miséria. Pela esquerda, porque não queria saber de luta social", diz Joel Rufino, autor de "Carolina de Jesus - Uma Escritora Improvável" (Garamond).

Desse tempo, a filha Vera Eunice de Jesus Lima guarda as piores memórias: "Passamos outro tipo de fome, pois conhecemos a fartura. Tinha 13 anos quando minha mãe voltou a catar lixo".

Nunca parou de escrever, até a morte, em 1977, em decorrência de crise de asma.

"Quando conseguia dinheiro, ela voltava para casa feliz, com o pão, e escrevia noite adentro. Dizia que a noite lhe trazia as ideias", diz a filha.

CONFIRA DESTAQUES DA FLINK SAMPA

Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus
Sábado (22)

14h - Mesa Carolina Maria de Jesus, com Audálio Dantas, Vera Eunice e Elzira Perpétua

16h - Conversa com as misses negras Deise Nunes, Yitayish Ayenew (Israel) e Leila Lopes (Angola) e Paulo Borges

Domingo (23)

14h - Lançamento do livro "O Leito do Silêncio", da escritora angolana Isabel Ferreira

16h - Palestra com a ativista Graça Machel, viúva de Nelson Mandela, em defesa das mulheres e crianças

FLINKSAMPA

QUANDO sab. (22) e dom. (23), das 9h às 19h
ONDE Memorial da América Latina, av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, tel. (11) 3823-4600
QUANTO grátis
CLASSIFICAÇÃO livre



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cardeal fake engana igrejas católicas de São Paulo

A informação é do Estadão:

Falso cardeal conduz oração em igreja de SP

EDISON VEIGA

SÃO PAULO - Com forte sotaque alemão, um novo cardeal estaria circulando por paróquias paulistanas, apresentando-se como funcionário “de alto escalão” do Vaticano e dizendo-se “arcebispo nomeado de São Paulo”. De acordo com a Arquidiocese de São Paulo, não passa de uma fraude.

Trajando túnica e estola, Wolfgang Schuler é um senhor com cerca de 70 anos. Entre outras igrejas, foi visto na Paróquia São Paulo da Cruz, a Igreja do Calvário, no bairro de Pinheiros, zona oeste. Segundo testemunhas, conduziu uma oração - mas não celebrou missa. Chegou a escrever dedicatórias em livros católicos de fiéis, assinando como “arcebispo de São Paulo”. Não pede dinheiro. Diz que foi nomeado pelo Vaticano para “investigar irregularidades no clero”.

Essa movimentação causou estranheza e preocupação ao arcebispo de São Paulo, o cardeal d. Odilo Pedro Scherer. Como alerta, ele enviou carta a cada uma das paróquias sob sua circunscrição, informando a existência desse falso religioso e pedindo “que não se dê publicidade a este fato, antes que a ação da polícia possa fazer a sua parte”.

O Estado teve acesso à íntegra do documento. “Ele já se apresentou, em meados de outubro, na Diocese de Mogi das Cruzes, como ‘monge cartuxo’; depois se apresentou aqui em São Paulo, como ‘visitador apostólico’ de certa abadia do interior do Estado... E usou a falsa identidade de ‘bispo de Osnabrück, Alemanha, d. Franz-Josef Bode’, assinando com esse nome. Essa diocese existe e o seu bispo, de fato, tem esse nome; mas a foto do bispo é bem outra”, alerta Scherer.

Na carta, o cardeal-arcebispo de São Paulo também lembra da passagem do falsário por Salvador, sob o nome de André Von Hohenzollern. Lá sua ficha é extensa. Ele chegou a celebrar missas e a se hospedar em mosteiros da capital baiana, apresentando-se como arcebispo polonês. Na primeira vez em que foi desmascarado, em 2004, Schuler foi extraditado para a Alemanha. Retornou à Bahia em 2007, quando chegou a tomar café da manhã com as irmãs do Colégio Sacramentinas. Em agosto de 2010 foi detido pela segunda vez.

O Estado solicitou entrevista com d. Odilo Scherer sobre o caso, mas a Arquidiocese prefere tratar o caso internamente. Uma funcionária da Igreja do Calvário confirmou que o falso religioso esteve lá - mas o pároco, padre Rogério de Lima Mendes não autorizou que ninguém comentasse o assunto. No documento que fez circular na arquidiocese, o arcebispo pede a quem se deparar com Schuler que informe “imediatamente” a polícia. Também deixa à disposição o telefone da Assessoria Jurídica da Mitra: (11) 3660-3700.

Falso padre. Em 2009, o Estado denunciou outro falsário religioso. Marcos Rodrigues Fontana era visto com frequência no Cemitério do Araçá, na zona oeste de São Paulo, cobrando de R$ 50 a R$ 200 para realizar o rito das exéquias - oração celebrada em velórios católicos. No último Dia de Finados, de acordo com relatos de testemunhas, Fontana voltou à cena, rezando em troca de dinheiro no mesmo cemitério.



Atualização de 21/11/14: o falso cardeal foi preso em 20/11/14, segundo também noticia o Estadão.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Pizzolato diz que Jesus impediu a extradição da Itália para o Brasil


A matéria é da Folha de S. Paulo:

Pizzolato diz ter obtido no presídio 'pequenos sinais' da existência de Deus

GRACILIANO ROCHA

Condenado no julgamento do mensalão, o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato afirma ter "encontrado pequenos sinais da existência de Deus" na prisão. Disse também que Jesus atuou como seu "advogado" e impediu sua extradição para o Brasil.

A alegada "liberdade com Jesus" foi tema de um testemunho de fé dado por Pizzolato na igreja pentecostal Fonte de Vida, na periferia da cidade italiana de Módena, no último domingo, conforme vídeo mostrado à Folha.

Falando em italiano num púlpito montado diante de uma cruz luminosa, Pizzolato foi interrompido três vezes pelos aplausos de um grupo de cerca de setenta fiéis que assistiam ao ofício religioso.

"Um dia antes do julgamento, o pastor me mandou uma carta e me deu um livrinho. Sublinhei um trecho da carta que dizia que o senhor Jesus era meu advogado", contou Pizzolato em sua primeira aparição pública desde que a Corte de Apelação de Bolonha o libertou, no último dia 28.

"Quando os juízes começaram a ler a decisão, senti qualquer coisa, e o meu advogado começou a tremer. E a gente se abraçou. Ele me disse: Você será livre'", afirmou.

Sobre os quase nove meses que ficou na penitenciária italiana, Pizzolato disse que viveu a experiência de ser "um dos últimos dos últimos" e comparou a prisão aos leprosários onde eram depositados doentes na Idade Média.

Ele citou o episódio em que Saulo, o futuro apóstolo Paulo, foi convertido ao cristianismo após uma queda de cavalo a caminho de Damasco.

"Eu me vi no escuro, na dificuldade e na derrota, não tinha mais forças, e era como se me apertassem e asfixiassem. Procurava um meio de poder sobreviver e pedi a Jesus que me mandasse um sinal de qual era a sua vontade", relembrou.

Os sinais de Jesus, diz, foram os cultos celebrados pelo pastor Romolo Giovanardi todas as quintas na penitenciária de Módena.

"O pastor segurava a Bíblia e pôs a mão na minha cabeça. Naquele momento eu me senti mais leve, me sentia com um pouco mais de ar e de luz", disse, enquanto alguns fieis respondiam com "amém".

A igreja de Pizzolato na Itália não tem nenhuma relação com a denominação evangélica de mesmo nome que opera no Brasil.

O petista mencionou também Steve Jobs, o fundador da Apple, para exemplificar como os milagres de Deus precisam de tempo para serem compreendidos.

Ele citou o episódio em que Jobs, após abandonar a universidade, fez um curso de caligrafia e design que mais tarde seriam importantes para o desenvolvimento de softwares.

"Deus deu a ele a oportunidade de aprender, e ele levou 20 anos para compreender isso. Hoje eu não sei qual é a vontade de Deus, mas o que eu quero é não falhar no Seu projeto ("¦). Deus me deu uma oportunidade ao me mandar para um lugar difícil", disse sobre sua conversão religiosa na prisão.

Livre na Itália, Pizzolato disse que, como aposentado do Banco do Brasil, poderá se dedicar a alguma atividade voluntária na igreja. "Se tivesse a oportunidade de viver de novo, não mudaria nada na minha vida. Nem a passagem pelo presídio, pela alegria e os amigos que conheci lá. Espero dedicar o que me resta de vida a poder ajudar os outros", encerrou, sob aplausos.

O Ministério Público italiano impetrou ontem na Corte de Cassação (a instância mais alta do Judiciário local) um recurso para tentar obter a extradição do petista para o Brasil, onde foi condenado por corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Como o confronto político favoreceu o ateísmo nos EUA

Artigo interessante publicado na Folha de S. Paulo de 16/11/14:

O ateísmo sai do armário

RAUL JUSTE LORES


RESUMO Pesquisas apontam crescimento acelerado dos que se declaram sem religião nos EUA, parcela que hoje corresponde a 20% da população adulta. Para estudiosos, tanto o aumento da descrença quanto eventuais reações conservadoras religiosas estão diretamente vinculadas ao ambiente político do país.

*

Pela Constituição do Tennessee, um cidadão não pode concorrer a cargo público se não acreditar em Deus; mas em Nashville, a capital do Estado, um grupo de 150 pessoas se reúne semanalmente na Assembleia dos Domingos, um fórum de ateus praticantes, que conta com mil inscritos.

Nos encontros, de uma hora de duração, revezam-se os "mestres de cerimônias". "Não queremos que uma figura carismática se repita na condução", explica um dos organizadores, o designer gráfico Landry Butler, 47. Durante o encontro, uma dona de casa lê, de um púlpito, escritos de Margareth Mead e J. R. R. Tolkien; uma assistente social relata sua evolução como mãe solteira e seu trabalho com pacientes de Alzheimer; e um grupo desfila um repertório que vai de "Start Me Up", dos Rolling Stones, a "The Cave", dos Mumford & Sons. "Quantas chances você teria de cantar em público regularmente sem ser um artista?", indaga o vocalista Adam Newton, 39.

Nashville ainda é conhecida como "a fivela do Cinturão da Bíblia", formado pelos Estados mais religiosos do Sul dos EUA -título que disputa com Dallas, no Texas.

Um fazendeiro que viajou 75 km com a mulher para não perder o evento dominical dos não crentes relata uma conversa que ouviu na fila para fazer compras em um entreposto agrícola. O vendedor contava a uma freguesa que um dos candidatos a xerife, escolhido em eleição direta, não frequentava nenhuma igreja. A mulher reagiu dizendo: "Esse não leva o meu voto, deve ser imoral". O fazendeiro calou-se. "Fiquei no armário", diz.

Apesar da compreensível cautela do visitante, o fato é que ateus, agnósticos e os "sem religião" estão saindo do armário em um dos países mais religiosos do mundo. O número de adultos menores de 30 anos que se encaixam nesta última categoria já é mais que o triplo do observado no Brasil.

O crescimento é recente e acelerado: em 2007, 15% dos americanos não tinham religião, contra 20% em 2012, segundo pesquisa do Pew Research Center. No Brasil, entre 2000 e 2010, os sem religião oscilaram de 7% para 8%.

O índice de norte-americanos sem religião sobe de 20% para 32% se considerada somente a faixa de 18 a 30 anos. Entre brasileiros, 8% dizem não ter religião e apenas 10% dos que têm de 15 a 29 anos se enquadram nessa categoria, segundo o IBGE (2010). Ateus no Brasil são 0,8% da população -enquanto o cálculo do Pew, que soma ateus e agnósticos, é de 6% da população americana.

Nesse cenário, ateus famosos começam a tratar do assunto -ainda tabu- em público, caso do ator Brad Pitt ou do criador do Facebook, Mark Zuckerberg. Promovem-se conferências anuais para os não crentes, chamadas "Skepticons" (conferência dos céticos), e "paradas do orgulho ateu" são organizadas pelas redes sociais.

"Hoje é mais fácil ser ateu também por causa internet. De repente, começamos a nos achar na rede, a marcar encontros e a nos expor", diz P. Z. Myers, 57, cientista e professor de biologia da Universidade de Minnesota, autor do best-seller "The Happy Atheist" (o ateu feliz), lançado no ano passado.

Com essa onda, coexiste a maioria da população, que preserva um fervor religioso pouco comum em países ricos: a frequência semanal a igrejas e templos nos EUA ainda é quatro vezes superior à europeia. Os que acreditam no criacionismo são 44%, enquanto 55% dizem rezar diariamente.





São o rebanho de uma nação cuja história foi forjada pela presença inaugural de puritanos e outros grupos religiosos em fuga da Europa, que estreitavam os laços com Deus na busca da nova terra prometida. Um país em que se popularizou uma imagem retratando Jesus, entre George Washington e outros patronos da nação, segurando a Constituição como se fossem os Dez Mandamentos.

Especialistas concordam que o enfraquecimento da religiosidade nos EUA tem relação direta com a política. "George W. Bush [2001-09] prestou grande ajuda à causa ateísta", ironiza Myers.

"O que vemos é uma reação a anos em que forças religiosas se colocaram do lado errado da história, apoiando guerras, atitudes machistas, homofobia e doutrinas cada vez mais associadas à crença. No quesito 'relações públicas', foi um desastre para a religião", diz o professor, que tem mais de 150 mil seguidores no Twitter e um blog, premiado pela revista "Nature", no qual mistura ciência, feminismo e ativismo antirreligioso.

O estudioso britânico Nick Spencer, diretor de pesquisa do centro de estudos Theos, frisa que os EUA são "um raro país ultracientífico, onde grandes descobertas tecnológicas acontecem desde o século 19, que ainda é muito religioso". Autor do recém-lançado "Atheists: the Origin of the Species" (ateus: a origem das espécies), Spencer lembra que, como pastores e religiosos abraçaram a revolução americana e participaram do processo de independência, os "pais fundadores" asseguraram na primeira emenda da Constituição a liberdade de culto, proibindo o Estado de legislar sobre o tema e de se assumir oficialmente como cristão.

Foi, na realidade, no século 20, em oposição ao socialismo e seus regimes de ateísmo forçado, que os governos americanos passaram a abraçar com mais convicção a identidade cristã.

Em 1952, por exemplo, foi criado pelo presidente Harry Truman (e aprovado pelo Congresso) o Dia Nacional de Oração, celebrado até hoje em 1º de maio -data em que diversos países comemoram o Dia do Trabalho, escolhido pela Internacional Socialista para marcar um atentado contra grevistas em Chicago, em 1886. Os americanos, no entanto, celebram seu "Labor Day" em setembro.

O juramento à bandeira, repetido em repartições públicas, escolas, quartéis e no Congresso americano, foi modificado em 1954, em plena Guerra Fria, para acrescentar a expressão "uma nação sob Deus". E a célebre inscrição "In God we trust", nas cédulas de dólar, nasceu em 1956, no governo do general Dwight Eisenhower.

Eram os anos do auge do macarthismo, quando o Senado promoveu investigações sobre atividades consideradas "un-american", e o senador Joseph McCarthy (cujo nome veio a batizar a era), via comunistas por todos os lados -do Departamento de Estado a Hollywood.

Em seu primeiro discurso famoso, de 1950, quando denunciou diplomatas de seu país como "comunistas infiltrados", McCarthy disse que a "grande diferença entre o mundo ocidental cristão e o mundo comunista" não era política, "mas moral". "Hoje estamos em uma batalha final, de tudo ou nada, entre cristãos e ateus", anunciou. Pouco depois, pessoas consideradas comunistas, homossexuais e ateus entraram em "listas negras" -centenas foram presas.



CONTRACULTURA

Não tardaria muito para que a crise de identidade da Guerra Fria, com a contestação do conflito no Vietnã, o florescimento de movimentos de liberação sexual e a onda da contracultura, nos anos 1960, passassem a colocar em xeque esse processo de exacerbação persecutória e religiosa. Nas décadas seguintes, situações como a aprovação do aborto pela Suprema Corte, em 1973, e a maior visibilidade dos gays, associada à epidemia de Aids, terminaram por acirrar conflitos e despertar uma nova reação.

Uma espécie de segundo macarthismo desenhou-se a partir do final da década de 1980, época em que líderes religiosos cada vez mais assertivos passaram a condenar a "ruína moral da América". Evangélicos, que vinham conquistando espaço nos meios de comunicação, mostravam-se mais diretamente preocupados com o ativismo político. Chegou-se a ensaiar um impeachment contra um presidente adúltero (Bill Clinton, 1993-2001) e o primeiro episódio da clássica série de TV "The West Wing", sobre os bastidores da Casa Branca, trazia um grupo de evangélicos cobrando compromissos de um presidente democrata.

A reação religiosa-moralista fez a então superstar Janet Jackson ser praticamente banida da TV por ter exibido, acidentalmente ou não, um mamilo durante o show no intervalo da final do Super Bowl, o campeonato de futebol americano, em 2004. E o marqueteiro do então presidente George W. Bush, Karl Rove, estimulou a realização de plebiscitos contra o casamento gay, como garantia de que muitos eleitores sairiam de casa para votar contra -o que favoreceria a reeleição do mandatário naquele ano, que de fato aconteceu.

"Os evangélicos abandonaram o mutismo e encontraram sua voz, às vezes problemática e grotesca. Como resposta, assistimos a um recrudescimento do ateísmo. Não em nome da ciência, mas porque Deus voltou à arena política americana", diz Spencer.

Alguns ateístas têm adotado a política dos decibéis a mais praticada pelos evangélicos -mas para metralhar religiões. Myers diz que "gosta do confronto" e que "precisamos denunciar as loucuras dos crentes". Nessa trincheira também se aloja Sam Harris, um dos principais ativistas ateus do país, presente na lista dos livros mais vendidos desde setembro, com sua segunda obra, "Waking Up" (acordando). A primeira, "O Fim da Fé", de 2004, virou best-seller e fustiga não apenas religiões cristãs mas especialmente o islã.

Foi no programa de Bill Maher -um show de humor político e entrevistas há 20 anos no ar na TV americana- que Harris se meteu em uma arenga a respeito da islamofobia de parte dos ateus que, como ele, fomentam o confronto.

Maher, que já produziu um documentário hostil às religiões ("Religulous", de 2008), disse que "a esquerda americana, em nome do multiculturalismo, é muito tímida em denunciar os absurdos do mundo islâmico". Acrescentou que o islã se tornou "como a Máfia, que mata quem ousa falar mal dela". Harris pegou a deixa e foi mais longe: "O islã é a mãe de todas as más ideias do presente", atacou.

Ben Affleck, o ator e diretor de "Argo", disse que Maher estava generalizando e que "os EUA já mataram mais muçulmanos do que qualquer grupo fundamentalista muçulmano, mas nós não somos acusados disso". O vídeo do embate viralizou em 24 horas.

Maher também fez piada com os pacatos ateus da Assembleia dos Domingos. "A graça de ser ateu" -disse ele- "é não ter que ir a uma igreja. Frequentar essa assembleia é um contrassenso. É como convidar um membro do Tea Party para uma feira de ciências".



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Deu a louca nas "freiras"


Um pouco de humor no blog, com todo respeito aos religiosos, aproveitando as esquetes cômicas do "Juste Pour Rire" (ou "Just For Laughs") da TV canadense:




Já existe Bíblia com GPS


Bom, não é exatamente isso o que você está pensando, mas aproveite para ler a matéria que foi publicada no Estadão:

A 'Bíblia' se diversifica para atrair mais leitores

JOSÉ MARIA MAYRINK

Edições requintadas convivem com outras despojadas

De edições despojadas de uso cotidiano a versões requintadas para pesquisa e estudo, as editoras evangélicas e católicas usam a criatividade no marketing, o aprimoramento das traduções e uma renovação gráfica aprimorada para atrair mais leitores da Bíblia, o livro mais vendido no mercado editorial.

A Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) distribuiu mais de 131 milhões de textos das Escrituras Sagradas, desde a inauguração de sua gráfica, em setembro de 1995, até 25 de outubro de 2014. Foram 114.926.286 da Bíblia completa e 16.742.102 do Novo Testamento.

Em 2013, foram distribuídas 7.910.360 exemplares do Antigo Testamento, com crescimento de 7% em comparação com o ano anterior. Essa tem sido a média anual, informa o pastor luterano Erni Seibert, secretário de Comunicação e de Ação Social da SBB.

O total de Escrituras - somando-se a Bíblia completa, Novo Testamento, livretos com trechos escolhidos e folhetos - alcança 265.151.267 de publicações. A SBB tem parceria com Edições Paulinas, católica, para publicação da Bíblia católica, com os oito livros canônicos não reconhecidos pela Reforma protestante.

“Um de nossos lançamentos mais recentes é a Bíblia GPS, projeto vindo da Alemanha e climatizado no Brasil, com um roteiro de referências e mapas que ajuda o leitor a situar-se no texto”, explica Seibert. A interligação entre diferentes passagens permite ao leitor ter acesso a informações, por exemplo, sobre que relação existe entre o Antigo e o Novo Testamento. O termo GPS, moderno instrumento de localização para se traçar um roteiro entre pontos geográficos, deve ser entendido, nessa apresentação das Escrituras, como uma analogia.

O texto inclui-se na série de edições destinadas a acadêmicos e estudiosos, mas, ao alcance dos leitores comuns, na grande maioria evangélicos de várias igrejas. A mesma coisa ocorre com outras versões da Bíblia. A SBB adapta apresentação gráfica e explicações a segmentos bem definidos. A editora tem A Bíblia da Mulher, Bíblia Sagrada Entre Meninas e Deus, Bíblia Missionária de Estudo, Bíblia do Samaritano e outras variações, além de panfletos com histórias bíblicas para crianças. A tradução da maioria delas é a Almeida (Antônio Ferreira de Almeida) Revista e Atualizada, na linguagem de hoje.

No caso da Bíblia GPS, a editora parceira é a Esperança, ligada à Allianz Mission na Alemanha, com trabalhos em mais de 20 países, entre os quais China e Vietnã. Edições do Antigo Testamento em hebraico e do Novo Testamento em grego, nos dois casos com tradução interlinear, são dirigidas a professores, estudantes e biblistas evangélicos, católicos, ortodoxos e judeus.

Uma edição do Novo Testamento, Salmos e Provérbios em chinês, lançada em parceria com a Sociedade Bíblica de Hong Kong, destina-se à colônia chinesa no Brasil e aos cristãos na China. No Brasil, há traduções para línguas indígenas (guarani e kaingang) e para dialetos alemães falados por pequenos grupos no Sul e do Espírito Santo. O Livro de Rute foi publicado em Calon Chibi em parceria da SBB com a Missão Amigos dos Ciganos. A SBB tem também edição em Braile.

O best-seller da editora é a Bíblia de Lutero, editada em 2012. A tradução do alemão para o português (Almeida Revista e Atualizada) é baseada na versão protestante de Martinho Lutero que, na Reforma, lançou as Escrituras em língua vernácula, quando a Igreja Católica só oferecia o texto da Vulgata em latim. Essa edição contém mais de 900 reflexões de Lutero intercaladas no texto e anexos com partituras e hinos de autoria do reformador. Essa Bíblia despertou enorme interesse também entre os católicos, com a aproximação, incentivada pelos últimos papas, entre Roma e os luteranos. A diferença das bíblias evangélicas em relação às católicas é que elas não incluem oito livros que Lutero e outros reformadores não consideram canônicos, ou seja, de inspiração divina.

A publicação anual da SBB corresponde a cinco vezes a tiragem somada da Bíblia nas principais editoras católicas, que venderam ano passado cerca de 1,6 milhão de exemplares. A Ave Maria publicou 600 mil cópias. Seu produto mais conhecido é a Bíblia Sagrada Ave Maria, cuja primeira edição saiu em 1959. Foi uma novidade na época, porque a Igreja Católica não divulgava traduções em português. A editora lançou em 2009 Minha Primeira Bíblia com a Turma da Mônica, em forma de historinhas infantis.

Além da Editora Ave Maria, publicam a Bíblia, em diversos modelos e traduções, as editoras católicas Loyola, Paulinas, Paulus, Santuário e Vozes. Outras editoras, como a da Canção Nova, participam de coedições. A Paulus, dos padres paulinos, lançou, em 2013, a Nova Bíblia Pastoral, em linguagem acessível a tradução feita das línguas originais. Em 1990, Edições Paulinas (das irmãs paulinas) havia publicado a Bíblia Sagrada - Edição Pastoral. O texto só foi ligeiramente revisado. As diferenças mais notáveis estão nas notas de pé de páginas e nos entretítulos. A Bíblia Pastoral é muito utilizada nas comunidades eclesiais de base e nos movimentos populares da Igreja.

Há sete anos no mercado, a Edições CNBB lançou uma versão comemorativa pelos 500 anos de evangelização do Brasil e dos 50 anos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 2001. “No próximo ano, será lançada a Bíblia Sagrada, resultado de oito anos de estudos de doutores em Bíblia”, informa o diretor geral da Edições CNBB, padre Valdeir dos Santos Goulart.



domingo, 16 de novembro de 2014

Quando a PM encontra Dostoievski

Dostoievski e Tolstoi com suas obras-primas. Nada mais atual...

A matéria d'O Dia foi reproduzida no IHU:

"Polícia morre e mata muito. Temos que mudar", diz comandante interino da PM


Se não fossem o distintivo e o uniforme, ninguém diria que Ibis Silva é policial há 31 anos, ainda mais comandante da Polícia Militar. Com os seus poucos mais de 1,60 metro de altura e corpo franzino, o coronel com pose de intelectual cita Guimarães Rosa, o escritor russo Dostoiévski e a filósofa alemã Hannah Arendt quando fala sobre como vai comandar a tropa até a posse do coronel Alberto Pinheiro Neto, no dia 2 de janeiro, que se recupera de uma cirurgia. Mesmo com pouco tempo de gestão, Ibis tem planos grandes, como aumentar a punição de policiais corruptos. 


A entrevista é de Constança Rezende, publicada pelo jornal O Dia, 10-11-2014.


Entre os casos que o novo comandante promete observar está o caso da Máfia da Saúde, em que O DIA denunciou fraudes em compras do Hospital Central da Polícia Militar. Esta entrevista exclusiva foi feita depois de uma inspeção na unidade, no sábado, dia em que Ibis trocou o comando de 11 unidades, inclusive na corregedoria na PM. Segundo o comandante, outras mudanças estratégicas serão feitas esta semana.

Eis a entrevista.

Quais as condições do hospital da PM?

Estão bem precárias. Estão faltando investimento, higiene, manutenção, principalmente nos elevadores e nos aparelhos de ar-condicionado. Vamos corrigir isso. Mas me impressionou muito a dedicação dos profissionais da saúde. Se não fosse isso, a situação estaria pior, já teria entrado em colapso.

E em relação às denúncias de corrupção em hospitais da Polícia Militar?

Temos inquéritos instaurados. Não conheço todo o teor dos processos, o que está sendo apurado, apenas sei das denúncias de um modo geral. A gente chama isso de corrupção porque não encontra um termo mais terrível sobre desviar da saúde, que é colocar em risco a vida de policiais. Esse hospital é mantido pelo dinheiro deles próprios. É um ato repugnante. Não tenho dúvidas de que as pessoas responsáveis serão identificadas e presas. Com o Ministério Público à frente, isso não vai acabar em pizza.

Como avalia a corrupção policial?

Corrupção gera descrédito. Quando a polícia se envolve em corrupção, sua imagem fica diretamente comprometida e, consequentemente, o seu trabalho também. As pessoas passam a não confiar mais na polícia e não a procuram mais para denunciar os crimes dos quais são vítimas. Quando isso acontece, não temos capacidade de planejar. A corrupção é lesiva.

O que pode ser feito para combatê-la?

Uma reforma estrutural. As pessoas se corrompem por conta dos valores e da oportunidade. Veem facilidade nas coisas e acham que podem aproveitar. A primeira coisa a se fazer é sinalizar que não se tolera isso e que quem insistir em se envolver com corrupção será responsabilizado criminalmente. As pessoas têm que entender que não existe brecha para roubar, e que há uma estrutura para investigar.

"Prender um policial porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é anacronismo"

Como fazer isso?

Revendo a legislação. Os regulamentos que estruturam a polícia, e sem os quais não se pode prender ninguém, são anteriores à Constituição Federal, que é voltada para o Estado de Direito Democrático. A nossa, que é da época da ditadura militar, tem que estar adaptada a isso. Como é hoje uma grande colcha de retalhos, cheia de emendas, é uma legislação onde é possível provocar lentidão nos processos. Um bom dispositivo tem que ser rápido. Uma pessoa não pode levar sete anos para ser excluída de uma corporação, e depois a sua história é de abandono. Só se resgata isso com diálogo. Não se faz polícia de cima para baixo. A gente tem que dizer que corrupção não vale a pena. Colocar um policial na prisão porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é um anacronismo.

Quando a legislação poderá ser mudada?

Isso não é uma coisa que vamos conseguir de um dia para o outro. Temos que apresentar o projeto ao Poder Executivo e discutir na Assembleia Legislativa. Mas já estamos costurando isso. Não quero chegar para o secretário de Segurança e dizer: olha, isso aqui é uma legislação que eu e meia dúzia de coronéis pensamos. Quero dizer que a gente discutiu com as associações, soldados, sargentos e que o projeto é um consenso. Meu desafio como comandante interino e futuro chefe de gabinete de coronel Pinheiro Neto é conseguir resolver o que só depende de mim.

As UPPs estão incluídas nisso?

A Secretaria de Segurança está empenhada em mapear todas as unidades de polícia pacificadora para conhecer as especificidades de cada uma. A gente precisa conversar com as pessoas, ouvir as críticas que elas têm sobre o programa. A lógica desse policiamento exige a construção de um diálogo com as comunidades e o resultado disso passa pelo que a sociedade quer. O nosso maior desafio é a Maré. São 16 comunidades, tem milícia. Mas é uma comunidade politizada, e isso é o melhor da Maré, o nosso maior trunfo. Quando as pessoas são conscientes de seus direitos e obrigações, cobram e sabem de quem cobrar. Está mobilizada e isso já facilita o diálogo. Temos interlocutores lá. Sem críticas, nós não evoluímos.

Muitas das queixas dos moradores envolvem o tratamento de alguns policiais e a corrupção. O que pode ser feito?

Uma mudança na estrutura da nossa corregedoria. Ela tem que estar na rua, investigando e fiscalizando a conduta dos policiais, indo aos batalhões, às unidades. Hoje ela trabalha muito dentro da lógica do papel, solucionando processos, sindicâncias. Podemos fazer isso sem mexer no efetivo, pela tecnologia, interligarmos as corregedorias, apesar de termos dificuldade com a nossa internet, por incrível que pareça. Como podemos falar de inteligência com internet ruim em pleno 2014?

O governador reeleito Luiz Fernando Pezão costuma dizer que hoje temos uma polícia formada para a guerra. O senhor concorda?

Sim, e por isso a palavra de ordem é humanização. O que acontece quando a lógica é a guerra? Se desumaniza, os marcos morais sofrem abalo, e já não se sabe o que é certo e errado. Quem despreza a vida não está preocupado com a corrupção. Enfrentamos as drogas invadindo favela, tentando prender traficante, trocando tiros. Imagina o que passa na cabeça de um garoto de 25 anos que deve entrar num caveirão de madrugada? Vai se transformar num bruto, numa máquina de matar e morrer e, quando isso acontece, está a um passo da corrupção. Se ele não respeita a vida, não respeita mais nada. O grande mérito das UPPs é que ela opera com outra lógica.

Isso passa por diminuir os elevados índices de auto de resistência dos policiais?

Sim. A polícia tem que garantir a dignidade humana e isso não combina com auto de resistência elevado. Hoje a polícia mata cinco pessoas por dia no país. Ela morre e mata muito. É um ciclo perverso de brutalidade. Temos que mudar isso. A violência está comprometendo o futuro. Cerca de 70% dos homicídios são de jovens negros, pobres e moradores de periferia. Isso é barbárie.

Como mudar?

Podemos começar cuidando do nosso efetivo, tornando as academias mais humanas, melhorando as escalas. Trabalho policial é afetivo, com a redução do medo da sociedade. Por isso que a arte e a poesia amenizam isso.

O senhor usa a literatura para lidar com policiais?

Sim. Meu escritor favorito é Guimarães Rosa. Em ‘Grande Sertão: Veredas’, o personagem Riobaldo diz que comandante é para aliviar os aflitos. A gente precisa aliviar a alma dos nossos comandados, filosofia também de Dostoiévski.

Qual será seu principal desafio?

Conseguir mapear todas as medidas que a gente precisa tomar imediatamente. Já identifiquei os problemas, agora tenho que fazer o panorama operacional. É o que São João Batista fez com Jesus, pacificar o caminho para o Salvador. O meu papel é ser uma espécie de João Batista para o Pinheiro.



sábado, 15 de novembro de 2014

A estranha relação entre livre-arbítrio e vontade de fazer xixi

A matéria esquisita foi publicada no Brasil Post:

Estudo indica relação entre vontade de urinar e descrença no livre arbítrio

Ione Aguiar

Spinoza, Hobbes, Lutero, Santo Agostinho, Schopenhauer: todos eles já perderam noites de sono pensando no livre arbítrio.

Para este último, por exemplo, o ser humano tem apenas a ilusão de liberdade, mas é escravo de suas vontades e necessidades.

Um estudo publicado na revista Consciousness and Cognition coloca mais uma pitada de sal na discussão. De acordo com a pesquisa, quanto mais as pessoas sentem vontade de fazer xixi, menos elas acreditam no livre-arbítrio.

Parece que não faz sentido, mas o raciocínio é o seguinte: como observou este artigo da Scientific American, quando passamos por experiências físicas que nos lembram das leis da natureza, deixamos de acreditar que controlamos nosso destino.

A pesquisa faz parte de uma controversa corrente de estudos cognitivos que investiga como nossos estados corporais afetam nossa mente. É a chamada teoria da cognição corporificada, que sugere, por exemplo, que sorrir nos faz mais felizes, ou que nosso senso de julgamento é afetado pela temperatura ambiente.

Como funcionou a pesquisa?

Os pesquisadores submeteram os 193 participantes a um questionário amplo, envolvendo seus desejos, suas crenças e inclusive as vontades que sentiam enquanto respondiam às perguntas.

Os pesquisadores observaram uma tendência clara: pessoas que declaravam estar com vontade de dormir, comer, urinar, fazer sexo e outros desejos corporais acreditavam menos na liberdade de escolha.

A única exceção foram os participantes que estavam de dieta. Nesse caso, a sensação de fome foi associada à sensação de liberdade de escolha.

Conclusão: está cheio de caraminholas na cabeça? Faça xixi...



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O papa é pop mas América Latina é cada vez menos católica


A matéria é da BBC Brasil:

Aprovação do papa é alta, mas católicos continuam deixando religião, diz estudo

Camilla Costa

Pouco mais de um ano e meio após sua eleição, a aprovação do papa Francisco é alta em seu continente de origem, a América Latina. Mesmo assim, católicos continuam a deixar a religião – a maioria deles, para se tornar protestante.

A conclusão é do estudo "Religião na América Latina – Mudanças difundidas em uma região historicamente católica", do instituto americano de pesquisas Pew, que mapeou as práticas religiosas em 18 países da América Latina e do Caribe, exceto Cuba.

Os resultados mostram que o número de pessoas que se declaram protestantes continua crescendo em todo o continente e que pessoas criadas no catolicismo vem deixando a religião em favor da fé propagada por igrejas evangélicas.

"Se temos hoje o primeiro papa latino-americano é principalmente por causa da competição pentecostal na América Latina. A Igreja Católica está em uma crise de pânico. Se não conseguirem parar o avanço protestante no continente, que abriga 40% dos católicos do mundo, o futuro da instituição está seriamente ameaçado", disse à BBC Brasil Andrew Chesnut, professor da Virginia Commonwealth University e um dos autores da pesquisa, divulgada nesta quinta-feira.

"O Brasil ainda tem a maior população católica do planeta, mas agora só 61% se dizem católicos. Em 2030, o país já não deverá ter uma maioria católica."

A aprovação de Francisco entre os católicos é alta: acima dos 70% deles dizem ter uma opinião favorável ao papa em todos os países onde o estudo foi feito. O número passa de 90% em países como Brasil e Colômbia e chega a 98% na Argentina, seu país de origem.

No entanto, o estudo afirma que é cedo para dizer se o papa conseguirá diminuir ou reverter o êxodo de católicos. "O papa Francisco ainda não impressionou a todos", afirma o instituto. "Os ex-católicos são mais céticos a respeito do papa. Em todos os países pesquisados, exceto na Argentina e no Uruguai, pouco menos da metade têm uma opinião favorável a ele e acham que seu papado pode significar mudança na Igreja."

"Eu suspeito que, a longo prazo, Francisco não conseguirá parar esse processo mais longo de pluralidade religiosa. Pesquisas feitas nos Estados Unidos já mostraram que, mesmo dizendo que amam o papa, os católicos não estão indo mais à missa. Se eles não se tornarem mais ativos, (gostar do papa) não significa nada para a Igreja", afirma Chesnut.

No Brasil, apenas 37% dos católicos afirmam que vão à igreja ao menos uma vez por semana, contra 76% dos protestantes. Na Argentina, terra natal de Francisco, o número cai para 15% e chega a apenas 9% no Uruguai.

O estudo indica que, além do crescimento do número de protestantes, o número de pessoas que abriram mão de qualquer filiação com uma religião organizada também aumentou na região.

A categoria, na qual estão 8% dos entrevistados na pesquisa, inclui pessoas que se descrevem como ateus, agnósticos ou sem religião. No Brasil, a porcentagem é a mesma. O Instituto Pew é um dos mais respeitados órgãos de pesquisa independentes dos Estados Unidos. O levantamento se baseia em mais de 30 mil entrevistas realizadas entre outubro de 2013 e fevereiro de 2014 em espanhol, português e guarani.

'Ênfase na moralidade'

Atualmente, 69% dos latino-americanos se identificam como católicos, apesar de 84% afirmarem ter sido criados na religião. No Brasil, uma em cada cinco pessoas é ex-católica, segundo o Instituto Pew.

De acordo com o estudo, a maioria deles parece estar migrando para as religiões protestantes, especialmente as pentecostais e neopentecostais – como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer em Cristo. No Brasil, 54% dos atuais protestantes dizem ter sido criados como católicos. A taxa chega a 76% na Colômbia.

Perguntados a respeito das razões para a conversão, a maioria dos entrevistados afirmou que buscava "uma conexão mais pessoal com Deus". Das oito opções de resposta disponíveis, a segunda mais escolhida dizia que os fiéis "gostam mais do estilo de culto da nova igreja", a terceira, que "encontraram uma igreja que ajuda mais seus membros" e a quarta, que "queriam uma ênfase maior em moralidade".

"De um modo geral, igrejas pentecostais atraem pessoas que já têm atitudes mais conservadoras. Elas costumam ser reforçadas e até mesmo intensificadas dentro das congregações. Mesmo assim, é importante lembrar que há muita diversidade entre as denominações pentecostais. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, apoiou Dilma em sua reeleição", diz Chesnut.

A pesquisa afirma que mais protestantes do que católicos latino-americanos se opõem a questões como aborto e casamento gay. A diferença entre eles é pequena na maioria dos países, sobretudo em relação ao aborto.

No Brasil, a maioria dos católicos também se coloca a favor de mudanças em tradições católicas como o celibato dos padres e a proibição de que mulheres se tornem sacerdotes.

Influência pentecostal

A tentativa de tornar os rituais católicos mais atraentes e evitar a perda de fiéis também impulsionou o crescimento da corrente Renovação Carismática entre os católicos. Padres e fiéis ligados ao movimento incorporam às celebrações católicas elementos de cultos pentecostais, como música, dança, pregações contundentes e rituais de exorcismo.

"Em todos os países pesquisados, os carismáticos são grande parte da população católica. E em alguns países – Panamá, Brasil, Honduras, República Dominicana e El Salvador –, pelo menos metade dos católicos dizem ser carismáticos", afirma o estudo.

Para Andrew Chesnut, padres "superstar" brasileiros, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo, são expoentes do poder carismático dentro da Igreja católica latina. Pelo menos 58% dos católicos brasileiros se dizem carismáticos. "Há equivalentes ao padre Marcelo Rossi em quase todos os países latino-americanos, mas nenhum é tão superstar quanto ele", diz.

"Sem o crescimento pentecostal, não haveria carismáticos ou Marcelo Rossi. É uma reação católica a esse crescimento."

A prática do exorcismo, que havia se tornado rara dentro do catolicismo, também voltou à tona por influência das igrejas neopentecostais, de acordo com o pesquisador. "No Brasil, o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, foi o pioneiro em fazer exorcismos públicos e espetaculares, e outros o seguiram. Agora, há todo tipo de exorcismos não autorizados sendo feitos na Igreja Católica. Normalmente seria necessária a autorização de um bispo, mas entre os carismáticos há muitas mulheres leigas fazendo isso", afirma.



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails