quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Papa deixa porta aberta para diálogo com terroristas islâmicos

Ontem, 25/11/14, o papa Francisco esteve em Estrasburgo (Strassbourg), na França, para discursar perante o Parlamento Europeu, ali sediado.

O discurso foi relativamente tranquilo e teve pouca repercussão na mídia, o que impediu, inclusive, que fosse mais notado o protesto de alguns deputados da esquerda espanhola que saíram do recinto no momento em que o papa começou a discursar, alegando que ali não era local para um líder religioso se manifestar.

Logo depois, durante o voo de volta a Roma, o papa concedeu uma entrevista coletiva aos repórteres que o acompanhavam no avião, na qual esclareceu que não pôde visitar a catedral de Estrasburgo, que comemora seu milênio exatamente neste ano, devido ao fato de que, pela etiqueta diplomática, a visita seria considerada com a de um chefe de Estado, o que o papa Francisco ainda não fez à França, nem está programada.

O papa se disse satisfeito com sua recepção no Parlamento Europeu, ressaltando que seu maior objetivo é construir pontes e não muros.

A pergunta mais constrangedora da entrevista envolveu os três padres acusados de pedofilia que foram presos em Granada, na Espanha. 

O papa respondeu que ele próprio acolheu a denúncia de uma das vítimas, que também é sacerdote, e determinou que o bispo responsável desse início imediato ao processo que resultou na prisão provisória dos acusados. 

Declarou, ainda: "senti uma dor imensa, mas a verdade é a verdade e não se deve escondê-la".

A respeito da ameaça que o Vaticano sofreu do Estado Islâmico, o papa foi indagado sobre a possibilidade de diálogo com os extremistas do Oriente Médio, ou se seria um tempo perdido, ao que respondeu que "eu nunca dou nada por perdido. Talvez não se possa ter um diálogo... mas eu não fecho nunca uma porta. É difícil, digamos... quase impossível, mas a porta está sempre aberta, não?"

O papa se mostrou, ainda, muito preocupado com outras situações que, a seu ver, ameaçam o mundo atualmente: o trabalho escravo, o tráfico de crianças e os maus tratos às pessoas em geral, além daquilo que ele chama de "terrorismo de Estado", quando um país ataca outro sem o consenso da comunidade internacional.

Com informações do Zenit em italiano e do Público espanhol.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Os inimigos do papa


Matéria publicada no IHU:

Os inimigos de Francisco: poucos, mas muito poderosos

No Sínodo que terminou há menos de um mês, o primeiro de Francisco, pela primeira vez houve liberdade de expressão. Isso propiciou um debate que tirou a máscara daqueles que se opõem abertamente ao pontificado renovador de Jorge Mario Bergoglio que, na quinta-feira, dia 13 de novembro, completou 20 meses.

A reportagem é de Elisabetta Piqué e publicada no jornal argentino La Nación, 14-11-2014. A tradução é de André Langer.

No início dessa assembleia extraordinária sobre os desafios que as famílias de hoje enfrentam, no dia 06 de outubro passado, em uma breve mas incisiva mensagem, o Papa pediu aos 191 padres sinodais de todos os continentes para que falassem sem medo. E assim aconteceu: houve debate sobre muitos temas, mas sobretudo em torno de duas questões antes consideradas tabus: como responder ao desafio dos divorciados recasados que querem ser readmitidos à comunhão e ao desafio dos casais homossexuais?

Sabia-se de antemão que sobre estas duas questões há uma divisão entre conservadores e reformistas. Dois “partidos” opostos, liderados por dois cardeais alemães de peso: o prefeito da Congregação para a Doutrina de Fé, Gerhard Ludwig Müller, por um lado, e Walter Kasper, prefeito emérito da Congregação para a Unidade dos Cristãos e teólogo progressista, próximo a Francisco, de outro. Foram publicados inclusive alguns livros, assinados por diversos cardeais, rechaçando a solução penitencial proposta por Kasper, em certos casos, para os divorciados recasados.

Mas o sínodo, que foi uma primeira fase de um processo de discernimento que culminará num segundo sínodo, em outubro de 2015, deixou claro, com nome e sobrenome, quem são os “inimigos” da linha reformista de Francisco. Ou seja, os integrantes dessa resistência interna, pequena mas influente, que, na verdade, começou a existir no próprio dia 13 de março de 2013, dia da eleição de Jorge Bergoglio. Uma oposição que até há pouco tempo era bem mais silenciosa e subterrânea.

Em meio a uma reforma de estilo e fundo tanto na cúria romana como nas finanças do Vaticano, com um papa cada vez mais popular no mundo, aumentam aqueles que, inclusive na cúria, se animam a criticar abertamente o novo curso. Vários deles não gostaram nem um pouco que Francisco, com o sínodo, obrigasse a Igreja católica a ter que se deparar com a crua realidade de uma família em crise que necessita de respostas. O temor de setores conservadores é que a “revolução” de Francisco possa significar mudanças vistas como um desmoronamento da doutrina católica tradicional.

“Há uma forte sensação de que a Igreja está como um navio sem leme”, disse recentemente em uma entrevista à revista Vida Nueva o cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, ponta de lança dos setores conservadores, resistentes a qualquer discussão e eventual mudança. No sábado passado, Burke, com uma visão da Igreja nas antípodas da de Francisco, foi removido do seu cargo de prefeito da Assinatura Apostólica e transferido ao posto de chefe da Ordem de Malta, um cargo honorífico que está fora da cúria.

Mas, em sintonia com Burke, expressaram-se outros prelados da Igreja norte-americana que não participaram da assembleia. O arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, manifestou-se incomodado e confuso com o Sínodo dos Bispos que, para ele, criou “confusão” em torno dos ensinamentos da Igreja sobre homossexuais e divorciados recasados. “Penso que a confusão é do diabo, e penso que a imagem pública que o Sínodo deixou foi de confusão”, disse.

O bispo Thomas Tobin, de Providence, Rhode Island, foi mais longe e escreveu no sítio da sua diocese que “o Papa Francisco gosta de brigar”, e que, com o recente Sínodo, se poderia dizer “missão cumprida”.

No recente Sínodo, também integrantes da cúria romana, como o cardeal australiano George Pell, novo “czar” das finanças do Vaticano, e o cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, expressaram publicamente suas divergências com a linha de abertura do Papa.

Elementos de dissenso e mal-humorados para com Francisco tornaram-se palpáveis em âmbitos eclesiais, como reconheceu o cardeal italiano Camillo Ruini, que, em uma entrevista ao Corriere della Sera, pontualizou que “não é a primeira vez” que algo assim acontece. “Também ocorreu durante o Concílio Vaticano II”, destacou Ruini, que foi presidente da Conferência Episcopal Italiana entre 1991 e 2007.

No entanto, Francisco não está preocupado com esse novo clima. “Como bom jesuíta, sente que com o Sínodo abriu um processo para convocar os bispos para lerem os sinais dos tempos e auscultar o que diz o Espírito Santo”, explicou um analista. “Como o próprio Francisco disse em seu discurso final – acrescentou –, teria sido preocupante se não tivesse havido discussão. E a verdade é que, para qualquer estrategista, o fato de amigos e inimigos terem se delineado representa uma grande vantagem”.



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Uma história mundial da fé


Resenha publicada no IHU:

História mundial da fé (relativa aos ateus e aos terroristas)


Os americanos se consideram – e não está errado – o povo mais religioso do Ocidente. Segundo pesquisas, 1/5 desses não pratica fé alguma, mas somente 6% se consideram ateus ou agnósticos. A cada ano nas universidades, cerca de 250.000 estudantes fazem um curso de religião. Igrejas, mesquitas e sinagogas estão cheias e o primeiro a dar o exemplo, exercendo a função aos domingos é o presidente. A escrita “Confiemos em Deus” acompanha todas as notas de 1 dólar. 


A reportagem é de Ennio Caretto, publicada pelo jornal La Lettura/Corriere della Sera, 16-11-2014. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.


Não surpreende porém que uma grande editora, a Norton, tenha publicado recentemente a “Norton Anthology of World Religions”, dois volumes de 4.200 páginas ($ 100,00) onde estão incluídos 3.500 anos de história religiosa com uma documentação extraordinária. Surpreende que a antologia, que trata das 6 principais fés da atualidade – no primeiro volume: hinduísmo, budismo, taoísmo; no segundo volume: cristianismo, judaísmo, islamismo – contenha textos como àqueles de Bin Laden, o líder da Al Qaeda, e do Sir Bertrand Russel, o filósofo inglês ateu.

Para Jack Miles, que coordenou a edição da obra, não existe nada de estranho. Miles ensina História das religiões na Universidade de Irvine, na Califórinia e é o autor de Deus. Uma biografia que em 1996 o rendeu o Pulitzer. Ex seminarista jesuíta, explica o desejo de conferir aos dois volumes uma “perspectiva laica”, que compreenda as vozes sociais e culturais “alternativas”, revalide o papel das mulheres e consinta uma análise comparativa das fés. O fato que no Antigo e no Novo Testamento e no Alcorão a antologia se aproxime de sermões de pecadores controversos, textos poéticos com parcela de blasfêmia, proclamações feministas, programas políticos, até a acusação de Bin Laden, profeta do terrorismo, desencadeou um debate vivaz.

Enquanto os extratos da obra de Bertrand Russel de 1927, “Porque não sou cristão”, são considerados de uma forma geral aceitáveis, o texto de “A face do mundo islâmico”, a declaração da guerra santa de Bin Laden de 1988, não o é de forma alguma. Segundo Jack Miles, não seria porem justo ignorar o líder terrorista.

“A antologia dá muito espaço às vozes moderadas do islamismo – declara – mas Bin Laden fez fluir correntes extremistas e o seu impacto será advertido por um bom tempo”.

O histórico acrescenta que despertam polêmicas na seção sobre o judaísmo aos escritos de Yeshayahu Leibowitz (1903-1994), o filósofo ortodoxo e sionista que contestou a concessão religiosa do Estado de Israel e falou que os soldados israelenses nos territórios ocupados corriam o risco de se transformar em “nazistas judeus”.

Que efeito terá a publicação dessa antologia? Miles deseja que seja promovida a tolerância e a cooperação entre as religiões e as aproxime dos não fiéis, que na América politicamente correta são chamados de “independentes espirituais”. E cita as memórias do poeta Christian Wiman (1966), ateu convertido ao cristianismo. Mas não é certo que será atingido o objetivo: “Uma coisa que aprendi – diz – é que no interior das religiões ainda existem divisões significativamente profundas”.



domingo, 23 de novembro de 2014

Malhe o seu cérebro

Matéria publicada no Estadão em 15/11/14:

Ginástica para o cérebro desenvolve habilidades e mantém a mente jovem

RAQUEL BRANDÃO

A neuróbica propõe mudanças na rotina que melhoram a capacidade de atenção e concentração, além de retardar doenças como Alzheimer

Esquecer palavras ou encontrar dificuldades para resolver situações são alguns dos sinais de que o cérebro precisa entrar em forma. A ginástica para a mente é conhecida como neuróbica, conceito criado pelo neurocientista americano Larry Katz, autor do livro Mantenha seu Cérebro Vivo. “A neuróbica é uma ideia nova e, por isso, não há comprovação científica sobre sua eficácia, mas é de bom senso exercitar o cérebro”, explica o neurologista da Unifesp Ivan Hideyo Okamoto.

Os exercícios para o cérebro funcionam a partir da reserva cognitiva, ou seja, seu conhecimento acumulado para desenvolver mecanismos capazes de superar alguma dificuldade. “Uma pessoa, quando esquece uma palavra, busca outra forma de se expressar. Se tiver mais recurso cognitivo, vai arranjar uma metáfora ou um sinônimo. Depende do seu repertório”, diz Okamoto.

Estudos como os do neurocientista Katz têm comprovado que o cérebro humano é capaz de se reorganizar se for corretamente estimulado. “Antigamente existia a ideia de fatalidade genética: a pessoa nascia com um certo grau de habilidade e não se desenvolvia mais. Hoje, ter várias habilidades é uma questão de decisão pessoal”, conta Antonio Guarini Perpétuo, presidente fundador do método Supera.

Não existe idade para começar a exercitar o cérebro. De acordo com Okamoto, uma das únicas formas de medir a reserva cognitiva de uma pessoa é pelo estímulo educacional, que deve acontecer desde o começo da vida."Se a pessoa for menos escolarizada, terá menos reservas e, assim, não conseguirá desenvolver tantas estratégias.”

Segundo Perpétuo, seus alunos vão desde os cinco até os 101 anos de idade e têm diferentes necessidades. Os jovens buscam melhor desempenho acadêmico; os adultos, o profissional; e os idosos querem envelhecer e manter o cérebro saudável. “Além de desenvolver habilidades, a ginástica cerebral é importante para manter a mente jovem e evitar as doenças degenerativas.”

Retardar e até evitar tais doenças é uma preocupação cada vez mais comum. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Alzheimer, por exemplo, afeta atualmente entre 24 e 37 milhões de pessoas. “Uma pessoa que está chegando aos 70 anos e aumentou sua reserva cognitiva, provavelmente conseguirá adiar o surgimento de um quadro demencial”, esclarece Okamoto.

Alguns métodos especializados oferecem testes computadorizados, como jogos, para ganhar velocidade de processamento, tempo de resposta, capacidade de atenção e concentração. Porém, existem algumas formas simples de melhorar o desempenho do cérebro. “Tire seu cérebro da zona de conforto com coisas novas, variadas e desafiadoras”, sugere Perpétuo. Veja a seguir algumas dicas para fazer algumas mudanças na rotina:

  • Para evitar que seu cérebro entre no “piloto automático”, faça caminhos novos. Assim, você criará novas conexões neurais
  • Veja imagens ou fotografias de cabeça para baixo. Nós usamos os dois lados do cérebro para analisar informações visuais. Com a imagem invertida, nossa mente precisa criar novas conexões
  • Aposte na leitura. Ao ler um livro, selecione uma frase e tente formar uma frase diferente utilizando as mesmas palavras
  • Brinque de cabra-cega e tente identificar objetos pelo tato
  • Escreva com a mão com a qual não está habituado
  • Coloque o relógio no pulso oposto ao que você usa
  • As relações sociais são essenciais para a mente. Encontre os amigos, faça refeições em família. "Se já tiver netos, pratique a netoterapia", indica o neurologista Ivan Hideyo Okamoto
  • Cuide dos fatores de risco vascular: controle a pressão e o nível de açúcar no sangue
  • Não fume. O cigarro está relacionado ao aumento das alterações cognitivas
  • Pratique atividades físicas. Exercitar o corpo oxigena e melhora o desempenho cerebral
  • Mantenha uma dieta rica em Ômega 3, um tipo de gordura boa muito encontrada em peixes, castanhas, óleos vegetais e verduras escuras




sábado, 22 de novembro de 2014

O dilema sempre presente da eutanásia

Artigo publicado no Estadão em 08/11/14:

Entre o crime e a compaixão

ANA CRISTINA DE SÁ, FLÁVIO CÉSAR DE SÁ

Em um Brasil de forte tradição católica, ideia de sacralidade da vida afeta profundamente os pacientes graves e terminais

Ao dar divulgação a sua decisão, a jovem americana Brittany Maynard, que resolveu ter algum controle sobre o momento e as condições de sua morte, contribuiu muito para a discussão desse assunto. A morte é um tabu na sociedade moderna, que privilegia a vida a qualquer custo e, mesmo ciente de que todos vão morrer, prefere viver sem considerar o fato. Até os rituais que contribuem para amenizar a dor e a tristeza que acompanham a perda de um ente querido, permitindo que as pessoas expressem seu luto, são hoje realizados com pressa, sem a oportunidade de uma reflexão sobre a biografia do morto. A morte é escondida (não se levam mais crianças a velórios e sepultamentos), rápida, asséptica. Ela passou de um acontecimento natural, doméstico e familiar para uma ocorrência cercada de tecnologia hospitalar - e, frequentemente, solitária.

Não nos preparamos para este momento, que deveria ser cercado de amor e pleno de significado, considerando a espiritualidade, a justiça e o respeito à individualidade de cada ser humano.

Dessa forma, não é difícil entender por que a discussão sobre como morrer evolui lentamente no Brasil. Suicídio assistido e eutanásia (voluntária ou não) são crimes em nosso país e não há sinais de que isso vá mudar tão cedo. Ainda é motivo de luta para profissionais que militam na bioética, como médicos, enfermeiros, psicólogos, sacerdotes, filósofos, advogados, entre outros, tornar a ortotanásia - que é a morte acompanhada por equilíbrio de atitudes, com o paciente recebendo um tratamento proporcional a seu prognóstico, com atenção à redução da dor e do sofrimento, visando ao conforto e melhor qualidade de vida possível no período de finitude - uma realidade para a maioria das pessoas. A ortotanásia já foi objeto de uma resolução do Conselho Federal de Medicina em 2006 que afirma ser “permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal”, sendo, portanto, considerada atitude correta e ética.

Essencial nessa discussão é considerar a inclusão no projeto terapêutico de todos os profissionais que cuidem de pacientes com doenças graves e incuráveis, dos cuidados paliativos desde o momento do diagnóstico. Existe, porém, algum preconceito quando se fala nesse tipo de cuidado, encarado por muitos como um tipo de assistência que se destina exclusivamente a pacientes já em avançado processo de morte, “quando não resta nada a fazer”. Não temos ainda no Brasil muitas equipes multiprofissionais competentes nessa área, mas é cada vez maior a preocupação com a abordagem.

O pensamento mais frequente por parte de pacientes, familiares e muitos profissionais de saúde ainda é o de que os pacientes devam receber todos os tratamentos possíveis que existam, incluindo meios artificiais e extraordinários de sustentação de vida - como respiração artificial, hemodiálise e drogas para manter a pressão arterial, por exemplo - mesmo diante da morte inevitável, prolongando a vida (vida?) até que a morte sobrevenha de forma inexorável, geralmente depois de inúmeras, inúteis e agressivas tentativas de reanimação, causando sofrimento a todos os envolvidos.

Somos um país de forte tradição católica e está disseminada uma compreensão errônea do conceito de sacralidade e intangibilidade da vida que afeta profundamente a conduta com os pacientes graves e terminais. O papa João Paulo II, porém, no discurso aos participantes da assembleia plenária da Pontifícia Academia para a Vida, em fevereiro de 1999, afirmou que “a Igreja, ao defender a sacralidade da vida também do moribundo, não obedece a alguma forma de absolutização da vida física (...). Daqui promana uma linha de conduta moral para com o doente grave e o moribundo que, por um lado, é contrária à eutanásia e ao suicídio e, por outro, àquelas formas de ‘obstinação terapêutica’ que não são de verdadeiro apoio à vida e à dignidade do moribundo”. A ortotanásia, portanto, está em completo acordo com a doutrina católica.

A prática em saúde no Brasil privilegia a beneficência e é ainda um tanto quanto paternalista, ou seja, os profissionais fazem pelos pacientes aquilo que considerem melhor, sem levar em conta o que o paciente ou sua família pensem sobre o tratamento e final de vida. No Hemisfério Norte, predomina o respeito à autonomia dos pacientes como eixo condutor da prática, inclusive nos assuntos relacionados à forma de morrer. Mesmo assim, é de se observar que são poucos os países em que o suicídio assistido é permitido. Nos Estados Unidos ele é permitido legalmente em apenas 5 estados, dos 50 que compõe a federação.

Esse é, portanto, um tema difícil e polêmico no mundo ocidental, qualquer que seja o panorama cultural. Em nosso contexto cultural e legal, hoje, o melhor que nós, profissionais da saúde, podemos oferecer a nossos pacientes é uma morte digna, sem excessos, dor ou sofrimento, serena, que se aproxime ao máximo do natural, se possível na presença de familiares, amigos e quem mais fizer parte da história do paciente.

Urge que nossa sociedade volte a encarar a morte com maior naturalidade, que se converse mais sobre o tema nos cursos de formação de profissionais da saúde e com a sociedade em geral, para que possamos passar por esse momento único e inevitável, culminante na vida de cada um de nós, com mais amor, serenidade, qualidade de vida/morte e respeito por nossa autonomia.

Ana Cristina de Sá, enfermeira, psicóloga e pedagoga, é professora do Programa de Mestrado e Doutorado em Bioética do Centro Universitário São Camilo

Flávio César de Sá, médico, é coordenador da disciplina de Ética e Bioética da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Prédio da Av. Paulista treme com profecia de acidente aéreo para o dia 26/11


A esquisitice da vez foi publicada no R7 (com vídeo no final da matéria abaixo).

A coisa é tão doida que até a TAM mudou o número do voo JJ3720 no dia 26/11, que sai de Congonhas para Brasília, e que seria responsável pelo "acidente", segundo informa o G1.

Confira:

Temeroso com premonição, condomínio na Paulista faz comunicado sobre acidente aéreo

Administração do prédio diz não querer ser alarmista, mas deixa recado para condôminos

Caroline Apple

Com base na premonição do vidente Jucelino Nóbrega da Luz sobre uma possível batida entre uma aeronave e um prédio na região da Paulista, região central de São Paulo, a administração do condomínio Barão de Serro Azul distribuiu, de porta em porta, um comunicado aos condôminos sobre a possível tragédia.

Na visão do vidente, o acidente irá ocorrer no dia 26 de novembro, em um condomínio na avenida Paulista com a alameda Campinas, próximo ao Hotel Maksoud Plaza. O condomínio fica na "rota" da possível batida, no número 1.156 da emblemática avenida da capital.

No recado, que diz não ter o intuito de ser "sensacionalista" ou "alarmista", o corpo diretivo do prédio se mostra aliviado por avisar sobre o palpite do vidente. O texto também diz que cada responsável pela equipe de trabalho poderá tomar providências diante do fato exposto.

Uma empresária, que não quis se identificar, tem uma sala comercial no edifício. De acordo com ela, o recado pode ter sido escrito para aliviar a tensão dos condôminos que, há algum tempo vêm especulando sobre a premonição.

— É um assunto corriqueiro nos elevadores. Talvez seja por isso que a administração resolveu se pronunciar.

Mesmo achando a premonição algo "surreal", a empresária já decidiu: no dia para que está previsto o fatídico acidente, toda a sua equipe vai trabalhar de casa.

— Queremos muito rir disso depois que a data passar e nada acontecer. Mas vamos esperar em casa para rir.

O analista de sistemas Thiago Moreno, 31 anos, trabalha em um edifício na altura do número 1.000 da avenida Paulista — que também estaria na suposta rota de queda do avião —, afirma que a especulação não chegou aos corredores do prédio. Porém, em seu departamento, há funcionários que tomaram "precauções".

— Um colega de trabalho programou as férias para não estar aqui no dia do acidente. Outro, não para de pesquisar na internet sobre o assunto. Eu acho uma grande bobagem. Se depender de mim, quero estar aqui nesse dia grandioso.

As previsões de Jucelino Nóbrega da Luz ganharam destaque na mídia quando o avião do então candidato à Presidência Eduardo Campos caiu na Baixada Santista. O vidente afirma em seu site que, assim como todas as premonições anteriores, os casos foram comunicados e registrados em cartório.



Carolina Maria de Jesus, 100 anos depois


Em continuação ao Dia da Consciência Negra, comemorado ontem, São Paulo terá a oportunidade de conferir, a partir de amanhã, 22/11/14, o festival de literatura negra conhecido como Flink Sampa, a ser realizado no Memorial da América Latina.

A grande homenageada do evento é Carolina Maria de Jesus, mulher negra, pobre, semianalfabeta e favelada que escreveu "Quarto de Despejo", um clássico anti-racismo da literatura brasileira, que teve repercussão mundial na década de 1960  e - para vergonha de todos nós - ainda é muito atual, pois pouco ou nada mudou no que diz respeito ao trato de uma certa elite com a maioria afrodescendente do país.

Nascida no dia 14 de março de 1914, mesma data em que nasceu outro grande expoente da luta contra o racismo no Brasil, Abdias do Nascimento, nenhum dos dois pode ser esquecido, pois não se renderam ao discurso do "fiquem aí quietinhos no seu barraco e se conformem com as migalhas que caem da nossa mesa restrita", que é o que muita gente (negra, inclusive) advoga até hoje.

O artigo abaixo, de Karla Monteiro, publicado na Folha de S. Paulo de 20/11/14, continua revelador:

Escritora Carolina Maria de Jesus viveu do caos ao caos

Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, em Sacramento, interior de Minas, numa família de negros analfabetos. Chegou a ser presa, acusada de roubar 100 mil-réis de um padre. No raiar de 1947, aportou na Estação da Luz, em São Paulo, onde iniciaria uma caminhada de percalços até se tornar escritora best-seller.

Logo que se instalou na capital paulista conseguiu emprego na casa do médico Euryclides de Jesus Zerbini, precursor da cirurgia do coração no Brasil, que a deixava usufruir de sua biblioteca nos dias de folga. Com apenas dois anos de estudo, adorava ler.

Metida e indisciplinada, como a definem os que conviveram com ela, pulou de emprego em emprego até engravidar de João José, em 1948. Teria mais dois filhos: em 1949, nasceu José Carlos, e, em 1953, Vera Eunice.

Grávida e sem trabalho, foi viver na nascente favela do Canindé, nos arredores do recém-construído estádio da Portuguesa. Levantou um barraco de um cômodo e sobrevivia catando e vendendo papel.

Em 1958, o destino lhe sorriu, com todos os dentes. Apareceu na favela o jornalista Audálio Dantas, da extinta "Folha da Noite". Estava ali para escrever uma reportagem.

"Olhava uns marmanjos brincando no playground quando apareceu uma mulher esculachando, dizendo que se eles não caíssem fora, ia botá-los no livro", lembra Dantas. "Fui perguntar qual livro. Como era esperta, logo viu uma oportunidade."

Carolina de Jesus arrastou o repórter para o seu barraco, onde lhe mostrou uma pilha de cadernos. Entre eles, um diário no qual anotava acontecimentos do dia a dia na favela, iniciado em 15/7/1955.

"Me chamou a atenção. O texto tinha uma forma de narrar próxima da poesia", conta Dantas. "Voltei para a redação e publicamos trechos."

A edição da "Folha da Noite" de 9 de maio de 1958 repercutiu em vários outros jornais e revistas do país. Dois anos depois, a editora Francisco Alves publicou o diário no livro "Quarto de Despejo".

A primeira edição saiu com 30 mil exemplares. Segundo a pesquisadora Raffaella Fernandez, da Unicamp, a obra foi reimpressa sete vezes em 1960. No total, vendeu 80 mil exemplares. "Quarto de Despejo" foi traduzido para 14 línguas em 20 países. "No lançamento em São Paulo, até o Pelé foi", conta Dantas.

Carolina de Jesus virou celebridade e se mudou para um sobrado de três andares no bairro de Santana. Lançou mais três livros: "Casa de Alvenaria", "Pedaços de Fome" e "Provérbios". Postumamente, em 1982, foi lançado na França, "Diário de Bitita", que chegou ao Brasil pela Nova Fronteira, em 1986.

BRIGAS

"Carolina não conseguiu viver em Santana. Brigou com todos os vizinhos, que a receberam mal", lembra Dantas. "Não era uma pessoa comum. Nunca teve alma de pobre favelada, queria brilhar."

De Santana, a escritora migrou para um sítio em Parelheiros, onde começou a definhar no mundo literário até sumir.

"Passada a novidade, Carolina foi rejeitada por todos. Pela direita, por expor a miséria. Pela esquerda, porque não queria saber de luta social", diz Joel Rufino, autor de "Carolina de Jesus - Uma Escritora Improvável" (Garamond).

Desse tempo, a filha Vera Eunice de Jesus Lima guarda as piores memórias: "Passamos outro tipo de fome, pois conhecemos a fartura. Tinha 13 anos quando minha mãe voltou a catar lixo".

Nunca parou de escrever, até a morte, em 1977, em decorrência de crise de asma.

"Quando conseguia dinheiro, ela voltava para casa feliz, com o pão, e escrevia noite adentro. Dizia que a noite lhe trazia as ideias", diz a filha.

CONFIRA DESTAQUES DA FLINK SAMPA

Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus
Sábado (22)

14h - Mesa Carolina Maria de Jesus, com Audálio Dantas, Vera Eunice e Elzira Perpétua

16h - Conversa com as misses negras Deise Nunes, Yitayish Ayenew (Israel) e Leila Lopes (Angola) e Paulo Borges

Domingo (23)

14h - Lançamento do livro "O Leito do Silêncio", da escritora angolana Isabel Ferreira

16h - Palestra com a ativista Graça Machel, viúva de Nelson Mandela, em defesa das mulheres e crianças

FLINKSAMPA

QUANDO sab. (22) e dom. (23), das 9h às 19h
ONDE Memorial da América Latina, av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, tel. (11) 3823-4600
QUANTO grátis
CLASSIFICAÇÃO livre



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cardeal fake engana igrejas católicas de São Paulo

A informação é do Estadão:

Falso cardeal conduz oração em igreja de SP

EDISON VEIGA

SÃO PAULO - Com forte sotaque alemão, um novo cardeal estaria circulando por paróquias paulistanas, apresentando-se como funcionário “de alto escalão” do Vaticano e dizendo-se “arcebispo nomeado de São Paulo”. De acordo com a Arquidiocese de São Paulo, não passa de uma fraude.

Trajando túnica e estola, Wolfgang Schuler é um senhor com cerca de 70 anos. Entre outras igrejas, foi visto na Paróquia São Paulo da Cruz, a Igreja do Calvário, no bairro de Pinheiros, zona oeste. Segundo testemunhas, conduziu uma oração - mas não celebrou missa. Chegou a escrever dedicatórias em livros católicos de fiéis, assinando como “arcebispo de São Paulo”. Não pede dinheiro. Diz que foi nomeado pelo Vaticano para “investigar irregularidades no clero”.

Essa movimentação causou estranheza e preocupação ao arcebispo de São Paulo, o cardeal d. Odilo Pedro Scherer. Como alerta, ele enviou carta a cada uma das paróquias sob sua circunscrição, informando a existência desse falso religioso e pedindo “que não se dê publicidade a este fato, antes que a ação da polícia possa fazer a sua parte”.

O Estado teve acesso à íntegra do documento. “Ele já se apresentou, em meados de outubro, na Diocese de Mogi das Cruzes, como ‘monge cartuxo’; depois se apresentou aqui em São Paulo, como ‘visitador apostólico’ de certa abadia do interior do Estado... E usou a falsa identidade de ‘bispo de Osnabrück, Alemanha, d. Franz-Josef Bode’, assinando com esse nome. Essa diocese existe e o seu bispo, de fato, tem esse nome; mas a foto do bispo é bem outra”, alerta Scherer.

Na carta, o cardeal-arcebispo de São Paulo também lembra da passagem do falsário por Salvador, sob o nome de André Von Hohenzollern. Lá sua ficha é extensa. Ele chegou a celebrar missas e a se hospedar em mosteiros da capital baiana, apresentando-se como arcebispo polonês. Na primeira vez em que foi desmascarado, em 2004, Schuler foi extraditado para a Alemanha. Retornou à Bahia em 2007, quando chegou a tomar café da manhã com as irmãs do Colégio Sacramentinas. Em agosto de 2010 foi detido pela segunda vez.

O Estado solicitou entrevista com d. Odilo Scherer sobre o caso, mas a Arquidiocese prefere tratar o caso internamente. Uma funcionária da Igreja do Calvário confirmou que o falso religioso esteve lá - mas o pároco, padre Rogério de Lima Mendes não autorizou que ninguém comentasse o assunto. No documento que fez circular na arquidiocese, o arcebispo pede a quem se deparar com Schuler que informe “imediatamente” a polícia. Também deixa à disposição o telefone da Assessoria Jurídica da Mitra: (11) 3660-3700.

Falso padre. Em 2009, o Estado denunciou outro falsário religioso. Marcos Rodrigues Fontana era visto com frequência no Cemitério do Araçá, na zona oeste de São Paulo, cobrando de R$ 50 a R$ 200 para realizar o rito das exéquias - oração celebrada em velórios católicos. No último Dia de Finados, de acordo com relatos de testemunhas, Fontana voltou à cena, rezando em troca de dinheiro no mesmo cemitério.



Atualização de 21/11/14: o falso cardeal foi preso em 20/11/14, segundo também noticia o Estadão.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Pizzolato diz que Jesus impediu a extradição da Itália para o Brasil


A matéria é da Folha de S. Paulo:

Pizzolato diz ter obtido no presídio 'pequenos sinais' da existência de Deus

GRACILIANO ROCHA

Condenado no julgamento do mensalão, o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato afirma ter "encontrado pequenos sinais da existência de Deus" na prisão. Disse também que Jesus atuou como seu "advogado" e impediu sua extradição para o Brasil.

A alegada "liberdade com Jesus" foi tema de um testemunho de fé dado por Pizzolato na igreja pentecostal Fonte de Vida, na periferia da cidade italiana de Módena, no último domingo, conforme vídeo mostrado à Folha.

Falando em italiano num púlpito montado diante de uma cruz luminosa, Pizzolato foi interrompido três vezes pelos aplausos de um grupo de cerca de setenta fiéis que assistiam ao ofício religioso.

"Um dia antes do julgamento, o pastor me mandou uma carta e me deu um livrinho. Sublinhei um trecho da carta que dizia que o senhor Jesus era meu advogado", contou Pizzolato em sua primeira aparição pública desde que a Corte de Apelação de Bolonha o libertou, no último dia 28.

"Quando os juízes começaram a ler a decisão, senti qualquer coisa, e o meu advogado começou a tremer. E a gente se abraçou. Ele me disse: Você será livre'", afirmou.

Sobre os quase nove meses que ficou na penitenciária italiana, Pizzolato disse que viveu a experiência de ser "um dos últimos dos últimos" e comparou a prisão aos leprosários onde eram depositados doentes na Idade Média.

Ele citou o episódio em que Saulo, o futuro apóstolo Paulo, foi convertido ao cristianismo após uma queda de cavalo a caminho de Damasco.

"Eu me vi no escuro, na dificuldade e na derrota, não tinha mais forças, e era como se me apertassem e asfixiassem. Procurava um meio de poder sobreviver e pedi a Jesus que me mandasse um sinal de qual era a sua vontade", relembrou.

Os sinais de Jesus, diz, foram os cultos celebrados pelo pastor Romolo Giovanardi todas as quintas na penitenciária de Módena.

"O pastor segurava a Bíblia e pôs a mão na minha cabeça. Naquele momento eu me senti mais leve, me sentia com um pouco mais de ar e de luz", disse, enquanto alguns fieis respondiam com "amém".

A igreja de Pizzolato na Itália não tem nenhuma relação com a denominação evangélica de mesmo nome que opera no Brasil.

O petista mencionou também Steve Jobs, o fundador da Apple, para exemplificar como os milagres de Deus precisam de tempo para serem compreendidos.

Ele citou o episódio em que Jobs, após abandonar a universidade, fez um curso de caligrafia e design que mais tarde seriam importantes para o desenvolvimento de softwares.

"Deus deu a ele a oportunidade de aprender, e ele levou 20 anos para compreender isso. Hoje eu não sei qual é a vontade de Deus, mas o que eu quero é não falhar no Seu projeto ("¦). Deus me deu uma oportunidade ao me mandar para um lugar difícil", disse sobre sua conversão religiosa na prisão.

Livre na Itália, Pizzolato disse que, como aposentado do Banco do Brasil, poderá se dedicar a alguma atividade voluntária na igreja. "Se tivesse a oportunidade de viver de novo, não mudaria nada na minha vida. Nem a passagem pelo presídio, pela alegria e os amigos que conheci lá. Espero dedicar o que me resta de vida a poder ajudar os outros", encerrou, sob aplausos.

O Ministério Público italiano impetrou ontem na Corte de Cassação (a instância mais alta do Judiciário local) um recurso para tentar obter a extradição do petista para o Brasil, onde foi condenado por corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Como o confronto político favoreceu o ateísmo nos EUA

Artigo interessante publicado na Folha de S. Paulo de 16/11/14:

O ateísmo sai do armário

RAUL JUSTE LORES


RESUMO Pesquisas apontam crescimento acelerado dos que se declaram sem religião nos EUA, parcela que hoje corresponde a 20% da população adulta. Para estudiosos, tanto o aumento da descrença quanto eventuais reações conservadoras religiosas estão diretamente vinculadas ao ambiente político do país.

*

Pela Constituição do Tennessee, um cidadão não pode concorrer a cargo público se não acreditar em Deus; mas em Nashville, a capital do Estado, um grupo de 150 pessoas se reúne semanalmente na Assembleia dos Domingos, um fórum de ateus praticantes, que conta com mil inscritos.

Nos encontros, de uma hora de duração, revezam-se os "mestres de cerimônias". "Não queremos que uma figura carismática se repita na condução", explica um dos organizadores, o designer gráfico Landry Butler, 47. Durante o encontro, uma dona de casa lê, de um púlpito, escritos de Margareth Mead e J. R. R. Tolkien; uma assistente social relata sua evolução como mãe solteira e seu trabalho com pacientes de Alzheimer; e um grupo desfila um repertório que vai de "Start Me Up", dos Rolling Stones, a "The Cave", dos Mumford & Sons. "Quantas chances você teria de cantar em público regularmente sem ser um artista?", indaga o vocalista Adam Newton, 39.

Nashville ainda é conhecida como "a fivela do Cinturão da Bíblia", formado pelos Estados mais religiosos do Sul dos EUA -título que disputa com Dallas, no Texas.

Um fazendeiro que viajou 75 km com a mulher para não perder o evento dominical dos não crentes relata uma conversa que ouviu na fila para fazer compras em um entreposto agrícola. O vendedor contava a uma freguesa que um dos candidatos a xerife, escolhido em eleição direta, não frequentava nenhuma igreja. A mulher reagiu dizendo: "Esse não leva o meu voto, deve ser imoral". O fazendeiro calou-se. "Fiquei no armário", diz.

Apesar da compreensível cautela do visitante, o fato é que ateus, agnósticos e os "sem religião" estão saindo do armário em um dos países mais religiosos do mundo. O número de adultos menores de 30 anos que se encaixam nesta última categoria já é mais que o triplo do observado no Brasil.

O crescimento é recente e acelerado: em 2007, 15% dos americanos não tinham religião, contra 20% em 2012, segundo pesquisa do Pew Research Center. No Brasil, entre 2000 e 2010, os sem religião oscilaram de 7% para 8%.

O índice de norte-americanos sem religião sobe de 20% para 32% se considerada somente a faixa de 18 a 30 anos. Entre brasileiros, 8% dizem não ter religião e apenas 10% dos que têm de 15 a 29 anos se enquadram nessa categoria, segundo o IBGE (2010). Ateus no Brasil são 0,8% da população -enquanto o cálculo do Pew, que soma ateus e agnósticos, é de 6% da população americana.

Nesse cenário, ateus famosos começam a tratar do assunto -ainda tabu- em público, caso do ator Brad Pitt ou do criador do Facebook, Mark Zuckerberg. Promovem-se conferências anuais para os não crentes, chamadas "Skepticons" (conferência dos céticos), e "paradas do orgulho ateu" são organizadas pelas redes sociais.

"Hoje é mais fácil ser ateu também por causa internet. De repente, começamos a nos achar na rede, a marcar encontros e a nos expor", diz P. Z. Myers, 57, cientista e professor de biologia da Universidade de Minnesota, autor do best-seller "The Happy Atheist" (o ateu feliz), lançado no ano passado.

Com essa onda, coexiste a maioria da população, que preserva um fervor religioso pouco comum em países ricos: a frequência semanal a igrejas e templos nos EUA ainda é quatro vezes superior à europeia. Os que acreditam no criacionismo são 44%, enquanto 55% dizem rezar diariamente.





São o rebanho de uma nação cuja história foi forjada pela presença inaugural de puritanos e outros grupos religiosos em fuga da Europa, que estreitavam os laços com Deus na busca da nova terra prometida. Um país em que se popularizou uma imagem retratando Jesus, entre George Washington e outros patronos da nação, segurando a Constituição como se fossem os Dez Mandamentos.

Especialistas concordam que o enfraquecimento da religiosidade nos EUA tem relação direta com a política. "George W. Bush [2001-09] prestou grande ajuda à causa ateísta", ironiza Myers.

"O que vemos é uma reação a anos em que forças religiosas se colocaram do lado errado da história, apoiando guerras, atitudes machistas, homofobia e doutrinas cada vez mais associadas à crença. No quesito 'relações públicas', foi um desastre para a religião", diz o professor, que tem mais de 150 mil seguidores no Twitter e um blog, premiado pela revista "Nature", no qual mistura ciência, feminismo e ativismo antirreligioso.

O estudioso britânico Nick Spencer, diretor de pesquisa do centro de estudos Theos, frisa que os EUA são "um raro país ultracientífico, onde grandes descobertas tecnológicas acontecem desde o século 19, que ainda é muito religioso". Autor do recém-lançado "Atheists: the Origin of the Species" (ateus: a origem das espécies), Spencer lembra que, como pastores e religiosos abraçaram a revolução americana e participaram do processo de independência, os "pais fundadores" asseguraram na primeira emenda da Constituição a liberdade de culto, proibindo o Estado de legislar sobre o tema e de se assumir oficialmente como cristão.

Foi, na realidade, no século 20, em oposição ao socialismo e seus regimes de ateísmo forçado, que os governos americanos passaram a abraçar com mais convicção a identidade cristã.

Em 1952, por exemplo, foi criado pelo presidente Harry Truman (e aprovado pelo Congresso) o Dia Nacional de Oração, celebrado até hoje em 1º de maio -data em que diversos países comemoram o Dia do Trabalho, escolhido pela Internacional Socialista para marcar um atentado contra grevistas em Chicago, em 1886. Os americanos, no entanto, celebram seu "Labor Day" em setembro.

O juramento à bandeira, repetido em repartições públicas, escolas, quartéis e no Congresso americano, foi modificado em 1954, em plena Guerra Fria, para acrescentar a expressão "uma nação sob Deus". E a célebre inscrição "In God we trust", nas cédulas de dólar, nasceu em 1956, no governo do general Dwight Eisenhower.

Eram os anos do auge do macarthismo, quando o Senado promoveu investigações sobre atividades consideradas "un-american", e o senador Joseph McCarthy (cujo nome veio a batizar a era), via comunistas por todos os lados -do Departamento de Estado a Hollywood.

Em seu primeiro discurso famoso, de 1950, quando denunciou diplomatas de seu país como "comunistas infiltrados", McCarthy disse que a "grande diferença entre o mundo ocidental cristão e o mundo comunista" não era política, "mas moral". "Hoje estamos em uma batalha final, de tudo ou nada, entre cristãos e ateus", anunciou. Pouco depois, pessoas consideradas comunistas, homossexuais e ateus entraram em "listas negras" -centenas foram presas.



CONTRACULTURA

Não tardaria muito para que a crise de identidade da Guerra Fria, com a contestação do conflito no Vietnã, o florescimento de movimentos de liberação sexual e a onda da contracultura, nos anos 1960, passassem a colocar em xeque esse processo de exacerbação persecutória e religiosa. Nas décadas seguintes, situações como a aprovação do aborto pela Suprema Corte, em 1973, e a maior visibilidade dos gays, associada à epidemia de Aids, terminaram por acirrar conflitos e despertar uma nova reação.

Uma espécie de segundo macarthismo desenhou-se a partir do final da década de 1980, época em que líderes religiosos cada vez mais assertivos passaram a condenar a "ruína moral da América". Evangélicos, que vinham conquistando espaço nos meios de comunicação, mostravam-se mais diretamente preocupados com o ativismo político. Chegou-se a ensaiar um impeachment contra um presidente adúltero (Bill Clinton, 1993-2001) e o primeiro episódio da clássica série de TV "The West Wing", sobre os bastidores da Casa Branca, trazia um grupo de evangélicos cobrando compromissos de um presidente democrata.

A reação religiosa-moralista fez a então superstar Janet Jackson ser praticamente banida da TV por ter exibido, acidentalmente ou não, um mamilo durante o show no intervalo da final do Super Bowl, o campeonato de futebol americano, em 2004. E o marqueteiro do então presidente George W. Bush, Karl Rove, estimulou a realização de plebiscitos contra o casamento gay, como garantia de que muitos eleitores sairiam de casa para votar contra -o que favoreceria a reeleição do mandatário naquele ano, que de fato aconteceu.

"Os evangélicos abandonaram o mutismo e encontraram sua voz, às vezes problemática e grotesca. Como resposta, assistimos a um recrudescimento do ateísmo. Não em nome da ciência, mas porque Deus voltou à arena política americana", diz Spencer.

Alguns ateístas têm adotado a política dos decibéis a mais praticada pelos evangélicos -mas para metralhar religiões. Myers diz que "gosta do confronto" e que "precisamos denunciar as loucuras dos crentes". Nessa trincheira também se aloja Sam Harris, um dos principais ativistas ateus do país, presente na lista dos livros mais vendidos desde setembro, com sua segunda obra, "Waking Up" (acordando). A primeira, "O Fim da Fé", de 2004, virou best-seller e fustiga não apenas religiões cristãs mas especialmente o islã.

Foi no programa de Bill Maher -um show de humor político e entrevistas há 20 anos no ar na TV americana- que Harris se meteu em uma arenga a respeito da islamofobia de parte dos ateus que, como ele, fomentam o confronto.

Maher, que já produziu um documentário hostil às religiões ("Religulous", de 2008), disse que "a esquerda americana, em nome do multiculturalismo, é muito tímida em denunciar os absurdos do mundo islâmico". Acrescentou que o islã se tornou "como a Máfia, que mata quem ousa falar mal dela". Harris pegou a deixa e foi mais longe: "O islã é a mãe de todas as más ideias do presente", atacou.

Ben Affleck, o ator e diretor de "Argo", disse que Maher estava generalizando e que "os EUA já mataram mais muçulmanos do que qualquer grupo fundamentalista muçulmano, mas nós não somos acusados disso". O vídeo do embate viralizou em 24 horas.

Maher também fez piada com os pacatos ateus da Assembleia dos Domingos. "A graça de ser ateu" -disse ele- "é não ter que ir a uma igreja. Frequentar essa assembleia é um contrassenso. É como convidar um membro do Tea Party para uma feira de ciências".



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Deu a louca nas "freiras"


Um pouco de humor no blog, com todo respeito aos religiosos, aproveitando as esquetes cômicas do "Juste Pour Rire" (ou "Just For Laughs") da TV canadense:




Já existe Bíblia com GPS


Bom, não é exatamente isso o que você está pensando, mas aproveite para ler a matéria que foi publicada no Estadão:

A 'Bíblia' se diversifica para atrair mais leitores

JOSÉ MARIA MAYRINK

Edições requintadas convivem com outras despojadas

De edições despojadas de uso cotidiano a versões requintadas para pesquisa e estudo, as editoras evangélicas e católicas usam a criatividade no marketing, o aprimoramento das traduções e uma renovação gráfica aprimorada para atrair mais leitores da Bíblia, o livro mais vendido no mercado editorial.

A Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) distribuiu mais de 131 milhões de textos das Escrituras Sagradas, desde a inauguração de sua gráfica, em setembro de 1995, até 25 de outubro de 2014. Foram 114.926.286 da Bíblia completa e 16.742.102 do Novo Testamento.

Em 2013, foram distribuídas 7.910.360 exemplares do Antigo Testamento, com crescimento de 7% em comparação com o ano anterior. Essa tem sido a média anual, informa o pastor luterano Erni Seibert, secretário de Comunicação e de Ação Social da SBB.

O total de Escrituras - somando-se a Bíblia completa, Novo Testamento, livretos com trechos escolhidos e folhetos - alcança 265.151.267 de publicações. A SBB tem parceria com Edições Paulinas, católica, para publicação da Bíblia católica, com os oito livros canônicos não reconhecidos pela Reforma protestante.

“Um de nossos lançamentos mais recentes é a Bíblia GPS, projeto vindo da Alemanha e climatizado no Brasil, com um roteiro de referências e mapas que ajuda o leitor a situar-se no texto”, explica Seibert. A interligação entre diferentes passagens permite ao leitor ter acesso a informações, por exemplo, sobre que relação existe entre o Antigo e o Novo Testamento. O termo GPS, moderno instrumento de localização para se traçar um roteiro entre pontos geográficos, deve ser entendido, nessa apresentação das Escrituras, como uma analogia.

O texto inclui-se na série de edições destinadas a acadêmicos e estudiosos, mas, ao alcance dos leitores comuns, na grande maioria evangélicos de várias igrejas. A mesma coisa ocorre com outras versões da Bíblia. A SBB adapta apresentação gráfica e explicações a segmentos bem definidos. A editora tem A Bíblia da Mulher, Bíblia Sagrada Entre Meninas e Deus, Bíblia Missionária de Estudo, Bíblia do Samaritano e outras variações, além de panfletos com histórias bíblicas para crianças. A tradução da maioria delas é a Almeida (Antônio Ferreira de Almeida) Revista e Atualizada, na linguagem de hoje.

No caso da Bíblia GPS, a editora parceira é a Esperança, ligada à Allianz Mission na Alemanha, com trabalhos em mais de 20 países, entre os quais China e Vietnã. Edições do Antigo Testamento em hebraico e do Novo Testamento em grego, nos dois casos com tradução interlinear, são dirigidas a professores, estudantes e biblistas evangélicos, católicos, ortodoxos e judeus.

Uma edição do Novo Testamento, Salmos e Provérbios em chinês, lançada em parceria com a Sociedade Bíblica de Hong Kong, destina-se à colônia chinesa no Brasil e aos cristãos na China. No Brasil, há traduções para línguas indígenas (guarani e kaingang) e para dialetos alemães falados por pequenos grupos no Sul e do Espírito Santo. O Livro de Rute foi publicado em Calon Chibi em parceria da SBB com a Missão Amigos dos Ciganos. A SBB tem também edição em Braile.

O best-seller da editora é a Bíblia de Lutero, editada em 2012. A tradução do alemão para o português (Almeida Revista e Atualizada) é baseada na versão protestante de Martinho Lutero que, na Reforma, lançou as Escrituras em língua vernácula, quando a Igreja Católica só oferecia o texto da Vulgata em latim. Essa edição contém mais de 900 reflexões de Lutero intercaladas no texto e anexos com partituras e hinos de autoria do reformador. Essa Bíblia despertou enorme interesse também entre os católicos, com a aproximação, incentivada pelos últimos papas, entre Roma e os luteranos. A diferença das bíblias evangélicas em relação às católicas é que elas não incluem oito livros que Lutero e outros reformadores não consideram canônicos, ou seja, de inspiração divina.

A publicação anual da SBB corresponde a cinco vezes a tiragem somada da Bíblia nas principais editoras católicas, que venderam ano passado cerca de 1,6 milhão de exemplares. A Ave Maria publicou 600 mil cópias. Seu produto mais conhecido é a Bíblia Sagrada Ave Maria, cuja primeira edição saiu em 1959. Foi uma novidade na época, porque a Igreja Católica não divulgava traduções em português. A editora lançou em 2009 Minha Primeira Bíblia com a Turma da Mônica, em forma de historinhas infantis.

Além da Editora Ave Maria, publicam a Bíblia, em diversos modelos e traduções, as editoras católicas Loyola, Paulinas, Paulus, Santuário e Vozes. Outras editoras, como a da Canção Nova, participam de coedições. A Paulus, dos padres paulinos, lançou, em 2013, a Nova Bíblia Pastoral, em linguagem acessível a tradução feita das línguas originais. Em 1990, Edições Paulinas (das irmãs paulinas) havia publicado a Bíblia Sagrada - Edição Pastoral. O texto só foi ligeiramente revisado. As diferenças mais notáveis estão nas notas de pé de páginas e nos entretítulos. A Bíblia Pastoral é muito utilizada nas comunidades eclesiais de base e nos movimentos populares da Igreja.

Há sete anos no mercado, a Edições CNBB lançou uma versão comemorativa pelos 500 anos de evangelização do Brasil e dos 50 anos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 2001. “No próximo ano, será lançada a Bíblia Sagrada, resultado de oito anos de estudos de doutores em Bíblia”, informa o diretor geral da Edições CNBB, padre Valdeir dos Santos Goulart.



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