sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

No dia de seu aniversário, papa doa sacos de dormir a pessoas sem-teto

sem-teto

O papa Francisco completou 78 anos de idade no último dia 17 de dezembro, quarta-feira passada, e a grande notícia da data foi o reatamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, processo no qual o pontífice teve importante papel.

Entretanto, naquela mesma data o papa enviou a Guarda Suiça pelas ruas de Roma, dentro de um micro-ônibus, e os guardas distribuíram sacos de dormir para pessoas que não têm um teto para repousar às portas do sempre intenso inverno europeu.

EMBLEMA PAPAL


Cerca de 400 sacos de dormir com o brasão papal foram doados aos indivíduos sem-teto, pelo menos todos os que os membros da Guarda Suíça encontraram, e os regalos eram declarados como um presente do papa, pedindo ainda que os beneficiários rezassem por ele.

A gente até tenta não dar notícias todos os dias sobre o papa, mas ele tem monopolizado a atenção do mundo desde que assumiu o trono do Vaticano, e como este é um blog com ênfase nas notícias religiosas, não podemos evitar de comentar os mais recentes gestos de Francisco.

VERGONHA ALHEIA


Enquanto isso, no Brasil, um certo Marco Feliciano, que se apresenta como pastor evangélico e deputado federal, faz de tudo para aparecer na mídia defendendo o direito de um colega deputado (cujo nome não merece ser mencionado) dizer que mulher ele quer ou não estuprar.

Por esses últimos, sentimos a mais profunda vergonha alheia e lhes dedicamos o nosso mais solene silêncio.



A fonte da notícia sobre o papa é o Vatican Insider. Sobre Marco Feliciano e outra conhecida evangélica defendendo aquele deputado que não merece ser mencionado (a rigor, nenhum deles merece), a fonte é o Brasil Post.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Papa Francisco teve papel essencial no reatamento entre EUA e Cuba

peace

Ontem, 17 de dezembro de 2014, não por acaso dia em que o papa Francisco completou 78 anos de idade, o mundo não poderia ter recebido presente melhor: o descongelamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, após 53 anos de mutismo, espionagem e incompreensão de lado a lado.

Ainda é cedo para que se normalizem as relações entre ambos os países, mas o passo dado ontem foi gigantesco. Significa, na prática, o fim de uma era onde a "guerra fria" imperou, fazendo com que as partes capitalista e comunista do globo se enfrentassem localizada e sistematicamente em qualquer região onde houvesse a possibilidade da troca de um regime pelo outro.

A queda do muro de Berlim em 1989 e o esfacelamento da União Soviética em 1991 foram os dois outros acontecimentos, nesse processo histórico, que podem se comparar em magnitude ao que ocorreu ontem, com o anúncio simultâneo da retomada dos laços diplomáticos pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro.

O PAPEL DO VATICANO E DO CANADÁ


Ainda não se conhece com exatidão qual foi o papel que o papa Francisco desempenhou nas conversações entre ambos os presidentes, mas o simples fato dele ter sido referido nos discursos dos dois mandatários revela o quanto sua participação foi importante, além, obviamente, do fato do anúncio do acordo ter sido feito no dia do aniversário do pontífice.

Segundo as primeiras informações, o papa Francisco teria escrito carta aos líderes dos dois países incentivando o diálogo. Não se pode esquecer ainda a importância  das visitas anteriores a Cuba dos  papas Bento XVI e João Paulo II, que deram sua contribuição para pavimentar o longo e difícil processo de paz.

Outro grande facilitador do diálogo entre EUA e Cuba foi o Canadá, segundo anunciou também ontem o primeiro-ministro canadense Stephen Harper, embora sem especificar em que extensão se deu essa colaboração. Apenas se sabe que diplomatas cubanos e estadunidenses se reuniram várias vezes sob os auspícios das representações diplomáticas do Canadá.

OS INCENDIÁRIOS BRASILEIROS


De qualquer maneira, é impossível não notar o contraste entre a posição do líder católico com a de muitos pastores evangélicos brasileiros, que fizeram de tudo durante a última campanha eleitoral para demonizar Cuba, e não foram capazes de levantar uma oração em favor da paz entre os povos.

Essas figuras, entre as quais o candidato derrotado à Presidência da República, pastor Everaldo, não perderam nenhuma oportunidade para estigmatizar o governo cubano a fim de obter ganhos políticos, e não devem estar nada satisfeitos ao ver que o próprio Barack Obama já negociava secretamente o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba.

OS PRÓXIMOS DESAFIOS


Há muitos desafios à frente, mas dois se destacam. O primeiro é o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, que depende da aprovação do Congresso Americano, hoje sob comando dos republicanos, que não só são adversários ferrenhos de Obama como sofrem influência do eleitorado cubanodescendente, majoritariamente concentrado no Estado da Flórida, do qual o senador Marco Rubio é o principal porta-voz.

O segundo desafio é saber qual a extensão das reformas democráticas que serão feitas em Cuba para que o país finalmente chegue ao século XXI no campo das liberdades e da cidadania. A tão desejada "solução biológica", que implicava em esperar a morte de Raúl Castro e seu irmão Fidel, ficou para trás, mas algo deverá ser feito para garantir ao país uma transição segura para a plena democracia e a economia de mercado, o que não será nada fácil.

De qualquer maneira, o mundo está hoje um pouco melhor, ou, como diriam os pessimistas, um pouco menos ruim.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Pastor nigeriano derruba a igreja toda

pastor Nigeria

Chris Oyakhilome, conhecido popularmente como "pastor Chris" é um televangelista nigeriano, fundador e líder da "Embaixada de Cristo", sediada em Lagos, capital da Nigéria, que tem milhões de seguidores na África e em outros países mundo afora, inclusive no Brasil, onde tem (ou tinha, não sabemos ao certo) um programa chamado "Atmosfera de Milagres" na Rede Brasil de Televisão, uma emissora pequena com presença maior na TV a cabo e por satélite.


No vídeo abaixo, o pastor Chris derruba toda a sua igreja dizendo que é pelo poder do Espírito Santo. No fundo, parece mais um caso de histeria de coletiva que não contribui em nada para o evangelho. Pelo contrário, só diminui. Confira:





terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Papa não disse que animais vão para o céu

dogs go to heaven
Rex após ler esta matéria
A polêmica infrutífera da vez, segundo o IHU:

Papa Francisco não disse que animais de estimação vão para o céu



Quando o Papa Francisco, recentemente, procurou confortar um menino entristecido cujo cão havia morrido, o pontífice adotou a abordagem pastoral que lhe tornou famoso - dizendo ao jovem que não se preocupasse, que um dia ele iria ver o seu animal de estimação no céu.

"O paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus", disse Francisco.

A reportagem é de David Gibson, publicada no sítio Religion News Service, 12-12-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Foi um momento brilhante em um dia chuvoso de novembro, e a configuração na Praça de São Pedro só poliu ainda mais a reputação de Francisco como um gentil "papa do povo". A história naturalmente iluminada pelas mídias sociais tornou-se material promocional instantâneo para vegetarianos e grupos de direitos dos animais e, na sexta-feira, chegou à primeira página do The New York Times.

Há apenas um problema: aparentemente nada disso aconteceu.


Sim, uma versão dessa citação foi proferida por um papa, mas foi dita décadas atrás por Paulo VI, que morreu em 1978. Não há nenhuma evidência de que Francisco repetiu as palavras durante a audiência pública no dia 26 de novembro, como tem sido amplamente relatado, e nem estava lá um menino de luto por seu cão morto.

Então, como poderia tal fábula ter sido tomada tão rapidamente como verdade?

Parte da resposta pode ser o tema da catequese do papa para a multidão naquele dia, que se centrava nos fins dos tempos e na transformação de toda a criação em um "novo céu" e uma "nova terra". Citando São Paulo, no Novo Testamento, Francisco disse que "não se trata de aniquilar o cosmos e tudo o que nos circunda, mas de levar todas as coisas à sua plenitude de ser".

A trilha digital de "migalhas de pão", em seguida, parece levar a uma reportagem italiana que estendeu a discussão de Francisco de uma criação renovada à questão de saber se os animais também irão para o céu.

"Um dia vamos ver nossos animais de estimação na eternidade de Cristo", dizia a reportagem citando as palavras de Paulo VI a um menino desconsolado anos atrás.

A história foi intitulada, de uma forma um pouco enganadora: "Paraíso para os animais? O papa não descarta". No entanto, não ficou claro a qual papa o autor da reportagem se referia.

No dia seguinte, 27 de novembro, uma história no jornal italiano Corriere della Sera escrita pelo veterano vaticanista Gian Guido Vecchi foi mais adiante com a manchete: "O papa e os animais de estimação: 'O paraíso está aberto a todas as criaturas'".

Vecchi contou fielmente o discurso do papa sobre uma nova criação e também citou a observação de Paulo VI.

Mas a manchete colocou essas palavras na boca de Francisco, e isso tornou-se a história.

A versão italiana do Huffington Post foi adiante e publicou um artigo citando Francisco como dizendo: "Vamos ir para o céu com os animais" e afirmou que o papa estava citando São Paulo - não o Papa Paulo VI - como base para consolar um menino que perdeu seu cachorro. (Essa história, por sinal, não está em lugar algum na Bíblia.)

A lenda urbana tornou-se desenfreada uma semana depois, quando foi traduzida para o inglês e foi propagada pela imprensa britânica, que cita São Paulo, dizendo que "Um dia vamos ver nossos animais novamente na eternidade de Cristo", ao mesmo tempo que afirma que Francisco acrescentou a frase: "o paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus".

O que abasteceu o meme foi o fato de que Francisco foi fotografado aceitando um presente de dois burros de uma empresa de promoção do uso de leite de burra para crianças alérgicas ao leite de vaca - e Francisco disse que sua própria mãe deu-lhe leite de jumenta quando ele era bebê.

As mídias sociais e outros meios de comunicação, em seguida, adotaram a história, misturando ainda mais com as declarações e a cronologia. Tornou-se uma confusão calorosa de uma história que também provocou mais um debate teológico gerado por um papa que já era conhecido por suas controvérsias.

Quando o The New York Times saiu com a história, juntamente com a contribuição de especialistas em ética e teólogos, tornou-se verdade do evangelho.

Os programas de televisão discutiram o avanço teológico do papa, as agências de notícias criaram galerias de fotos dos papas com animais bonitinhos, e outros usaram a história como ponto de partida para discutir o que outras religiões pensam sobre animais e a vida após a morte. Na revista America, o reverendo James Martin escreveu um ensaio discutindo as implicações teológicas das declarações de Francisco e qual o nível de autoridade que elas podem ter. Foi tudo muito interessante e esclarecedor, mas tudo com base em um mal-entendido.

Uma série de fatores provavelmente contribuíram para esse desastre jornalístico:

  • A história tinha tanta coisa relacionada: Francisco tem o seu nome papal em homenagem a São Francisco de Assis, o santo padroeiro do ambientalismo, aquele que notoriamente considerava os animais como irmãos e irmãs.
  • O Papa Francisco está também preparando um grande documento de ensino sobre o meio ambiente, e quase desde o dia em que foi eleito, em 2013, ele salientou o dever cristão de cuidar da criação.
  • Francisco também abençoou o cão-guia de um cego logo depois que ele foi eleito, uma imagem de efeito que foi muitas vezes utilizada em conexão com estes últimos relatórios de sua preocupação com os animais.
  • Além disso, os meios de comunicação e o público estão tão preparados para ouvir Francisco dizer coisas novas e desconsiderar costumes convencionais que a história era boa demais para ser verificada; ela se encaixa com o padrão.
  • Na maioria dos relatos, os comentários de Francisco também foram comparados com as declarações do seu antecessor, Bento XVI, que insistiu que os animais não têm alma. Esse aparente contraste combina com a narrativa comum que coloca o mais conservador Bento XVI contra o supostamente liberal Francisco.


Isso pode ser verdade em algumas áreas, mas provavelmente não quando se trata de animais.

Adicionando insulto à injúria, o artigo do NY Times citou São João Paulo II, dizendo em 1990 que os animais têm alma e estão "tão perto de Deus quanto os homens". Mas isso, também, era citação falsa, como a crítica de mídia, Dawn Eden, explicou no website GetReligion.

Por outro lado, deveria ter havido sinais de avisos: Francisco faz careta para a moderna tendência de favorecer os "pets" em detrimento das pessoas, e ele criticou a grande quantidade de dinheiro gasto pelas sociedades ricas com os animais, enquanto as crianças passam fome.

Além disso, a enorme popularidade do papa levou a pelo menos uma outra instância de mito construído: reportagens no ano passado disseram que Francisco estava escapando do Vaticano durante a noite para alimentar os sem-teto nos arredores de Roma.

O papa pessoalmente desmascarou esse boato em uma entrevista em março passado, dizendo que a ideia "nunca passou pela minha cabeça" e que "descrever o papa como sendo espécie de super-homem, um tipo de estrela, parece ofensivo para mim".

Talvez ele terá que dar outra entrevista para esclarecer essa última história e para oferecer seus reais pensamentos sobre os animais de estimação e o paraíso.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Brasileira pode ser uma das reféns de terroristas islâmicos na Austrália


As informações ainda são um tanto quanto desencontradas, mas existe a suspeita de que uma das reféns seja a goiana Marcia Mikhail.

A crise ainda está se desenrolando e pode ser acompanhada em tempo real no Estadão:

Homem armado faz reféns em café em Sidney; acompanhe

Suspeito mantém reféns no local, que fica no distrito financeiro da maior cidade australiana; governo trata o episódio como terrorismo Um homem armado mantém há mais de 12 horas reféns em um café no centro comercial de Sidney, a maior cidade da Austrália. Durante a madrugada, cinco pessoas conseguiram deixar o local e a polícia negocia com o sequestrador, que fez os reféns exibirem na janela uma bandeira com dizeres islâmicos. O governo australiano trata o caso como terrorismo. Acompanhe a crise em tempo real.

Um dos primeiros atos do sequestrador de um café em Sidney foi exibir uma bandeira preta com inscrição islâmica conhecida como Shahada, que diz: "Só Alá é Deus e Maomé é seu profeta".





domingo, 14 de dezembro de 2014

Mais reis que deuses no novo filme sobre Moisés


Resenha publicada no IHU:

Êxodo, mais reis que deuses. Um colossal com pouca inspiração


Êxodo: Deuses e Reis nos recorda que o relato bíblico é uma fonte inesgotável de argumentos para o cinema. Neste caso colocando a serviço do espetáculo audiovisual todo o novo aparato tecnológico (3D, efeitos especiais especialmente para as massas e nas pragas, assim como para reconstruções históricas do contexto). O argumento centra-se na rivalidade entre Moisés e Ramsés, com a vitória do primeiro, que abre o caminho para a libertação de seu povo obedecendo ao mandamento de Deus, neste caso representado, com originalidade e acerto, por uma criança. 


A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 06-12-2014. A tradução é de André Langer.


O britânico Ridley Scott já havia ressuscitado o gênero do peplum(*) no oscarizado Gladiador (2000), onde um bom roteiro ficou completado com uma grande produção que contou com as atuações destacadas de Russell Crowe e Joaquin Phoenix. Entre seus primeiros filmes recordamos Alien, o 8º passageiro (1979), Blade Runner (1982) e Thelma e Louise (1991), que se converteram em obras de culto. No entanto, em seus últimos filmes parece ter perdido a inspiração. Em que grupo devemos incluir Êxodo: Deuses e Reis? Entre os filmes imprescindíveis ou entre os exclusivamente comerciais?

Se há algo de significativo em Êxodo: Deuses e Reis é uma realização sensacional onde em muitos momentos se vê a mão de um mestre da composição. Ressaltemos especialmente a batalha dos hititas, as 10 pragas e o milagre da passagem do mar. No entanto, o filme se ressente de um roteiro superficial em relação ao estudo das fontes históricas egípcias e bíblicas, com desequilíbrio e desproporção no relato, na falta de dramaticidade dos personagens secundários e na desorientação da temática de fundo. Vê-se que a acumulação de roteiristas, inclusive do sobressalente Steven Zaillian – de quem devemos destacar Tempo de Despertar (1990), A Lista de Schindler (1993) e Gangues de Nova York (2002) – não é sinônimo de acerto.

O filme gira em torno do eixo, durante a maior parte do excessivo metragem (150 minutos), do enfrentamento entre Moisés, o melhor do filme é a atuação de Christian Bale, e Ramsés, correto Joel Edgerton. Ambos sob o olhar, no começo, do faraó Seti, interpretado por John Turturro. Para depois ficar quase sozinho o duelo de interpretações assinalado, com a companhia fugaz e limitada de Nun (Ben Kinsgley), de Séfora a mulher de Moisés interpretada por María Valverde, de Tuya (Sigourney Weaver) e de Josué (Aaron Paul), entre outros. Após uma interessante apresentação da vocação de Moisés no episódio da sarça ardente, um desenvolvimento sensacional das pragas e da passagem pelo mar, o filme acaba mal e com pressa passando na ponta dos pés pelo Sinai e fazendo apenas uma alusão à terra prometida.

O filme referência de Os 10 Mandamentos (1956), do reincidente Cecil B. DeMille, que também fez outro filme com o mesmo título, é um modelo ruim. Os tempos não apenas mudaram nas técnicas, mas também na interpretação dos textos que servem de base. Os grandes temas do relato, assim como a eleição e a aliança, o deserto e a terra prometida ou, em definitiva, a constituição do povo de Deus ficam eclipsados por tanto fogo de artifício.

Pontos obscuros

Teria sido inteligente colocar um narrador-escritor bíblico, o que teria dado mais jogo às possíveis interpretações que vencem uma leitura literal. Assim, por exemplo, a figura do menino para representar Deus teria ficado mais simbolicamente coerente, embora seja uma das melhores descobertas do roteiro. A apresentação das pragas e a questão dos primogênitos oferece mais o espetáculo do que o sentido. Ao final, fica uma imagem de um Deus sádico, por mais menino que seja. A intenção do texto bíblico é ressaltar a defesa por parte de Deus dos primogênitos de Israel como futuro da humanidade. “Deus tem um desígnio para o seu povo e, através dele, para a humanidade; e que a oposição a este desígnio, nesse momento e outras muitas vezes depois, acarreta inevitavelmente sofrimento” (Joseph Blenkinsopp). A ausência de protagonismo de Aarão, Josué e os próprios Nun, Jetro e Séfora concentra muito a ação sobre Moisés apagando a imagem do seu povo. Assistimos, pois, a um bom espetáculo durante duas horas e meia, mas a visão comercial, que segue os mesmos parâmetros das velhas glórias de Hollywood, sacrifica o sentido. Colossal sim, mas com pouca inspiração.

(*) peplum = nome dado ao gênero "espada e sandálias" de filmes, geralmente bíblicos (do grego antigo πέπλος , translit. péplos: 'túnica')



sábado, 13 de dezembro de 2014

Papa Francisco celebrou "misa criolla" no Vaticano

Primeiramente, dado o significado preconceituoso que a palavra "crioulo" tomou no português falado no Brasil, é preciso lembrar que seu equivalente em castelhano, "criollo" (assim como foi no nosso período colonial), é o nome dado aos descendentes dos europeus e africanos nascidos no continente americano nos primeiros séculos da colonização, e a toda a cultura mesclada que eles geraram. No Brasil, infelizmente, a palavra "crioulo" ficou muito mais associada ao tratamento pejorativo dos afrodescendentes.

"Misa Criolla" é a peça musical composta pelo argentino Ariel Ramírez em 1964 (há 50 anos, portanto), com adaptação litúrgica dos padres Alejandro Mayol e Jesús Gabriel Segade.

Fortemente influenciada pelas músicas andina e folclórica argentina, a "Misa Criolla" é considerada a obra clássica argentina mais executada no mundo. E, cá entre nós, é de uma beleza ímpar.

Pois ontem, 12 de dezembro de 2014, o papa Francisco celebrou em espanhol uma "missa crioula" em homenagem à Virgem de Guadalupe, padroeira do México e de toda a América, com presença de bandeiras e representantes de todo o continente, com uma das leituras em português.

A "Misa Criolla" foi executada por um grupo de cantores e músicos regidos por Facundo Ramírez, filho do compositor Ariel Ramírez (falecido em 2010), tendo como solista Patricia Sosa.

Não foi a primeira vez que a obra foi apresentada na Basílica de São Pedro, mas o ineditismo do ocorrido ontem se deve ao fato de um papa do continente americano ter presidido a cerimônia tipicamente latina.

Confira no vídeo abaixo um trecho do "Kyrie" (Piedade) e do belíssimo "Gloria" da "Missa Criolla":


A gravação integral da "Misa Criolla" celebrada pelo papa Francisco pode ser vista no canal do Vaticano no youtube:




sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Os invisíveis nas ruas do Rio e de SP

O Facebook tem duas páginas tristemente indispensáveis que merecem ser divulgadas e conhecidas por mais gente: Rio Invisível e São Paulo Invisível.

Como o nome de ambas sugere, trata-se de uma coleção de depoimentos de pessoas em situação de rua que ninguém vê nem ouve, ou finge que não vê.

Nas páginas em questão, essas pessoas sem vez nem voz contam as suas histórias de vida e suas percepções de mundo, e fazem isso de uma maneira pungente, à qual é impossível ficar impassível.

No depoimento publicado no Rio Invisível de 11/12/14, quem conta sua história é André, o rapaz da foto acima, e é interessante observar a sua ligação com a religiosidade:



“Meu nome é André, tenho 44 anos. Moro na rua há um tempão. Eu tive uma casa por uma tempo, mas aí veio a enchente e eu perdi tudo. Vim pra rua aos 12 anos. Virar adulto na rua é uma experiência terrível que você nunca mais vai querer lembrar. É difícil sair daqui. Eu perdi meus documentos, sem eles você fica de bola parada, fica encostado.

Pra passar o tempo eu leio o jornal. De vez em quando vem uma pessoa e me dá uns livros, mas eu gosto mesmo é de ler a Bíblia. A palavra de Deus é sábia - tira os espíritos ruins, só de ler. Eu sou religioso, mas a maioria não é, não. Dou minha cara a tapa. Tem gente que fica deitado, só pedindo alimentação. Eles parecem que só vivem de pão. Na Bíblia fala assim “não só de pão vive o homem”. Tu tá ligada, né? Conheço a palavra.

Eu tava na praia pegando esse sol brabo. Na minha idade, não dá pra ficar andando muito por aí. Tô bem fraco, não consigo comer direito. Meu estômago não está aceitando comida. Não adianta empurrar pra dentro porque não faz efeito. Não sinto mais o gosto das coisas. Aí minha perna fraqueja, eu começo a tremer, dá um retrocesso e eu preciso sentar. Velhice! Você tá vendo que eu tô só na caveira. Eu sou um esqueleto retirado do armário. Mas, quando novo, já trabalhei com construção. Minha melhor época foi quando era jovem. Agora já estou rendido.

Tomei um temporal, fiquei com uma gripe no peito – catarro pra caramba. Dei tanta tossida bem forte, de cabeça pra baixo, que os caracão foi tudo saindo. Chupei limão à balde, desceu limpando. Agora falta essa parada aí do estômago.

Há um tempão que eu não tomava banho de mar. Tomei 30 logo de uma vez. Só saí da água quando eu vi que tava mesmo limpinho. A água salgada bate nas pernas e, você sabe como é que é né, parecia que eu tava flutuando. O mar acaba com tudo – com doença, com espírito ruim... Iemanjá leva tudo!

Eu queria que Deus me desse outra direção. Meu sonho é mudar – tendo um teto pra morar já seria uma grande coisa, aí eu sairia da rua.”

André comia uma manga e disse que só conseguia botar pra dentro porque “caia em outra corretiva”. Ele havia ganho um saco de frutas.



Ewan McGregor interpreta Jesus e o diabo em filme sobre tentação no deserto


A informação é da Veja:

Ewan McGregor: mais um 'Jesus-gato' na história do cinema

Ator estrela o longa ‘Last Days in the Desert’, inspirado na história bíblica sobre a tentação vivida pelo filho de Deus no deserto

O ator Ewan McGregor (de Trainspotting e Moulin Rouge) acaba de entrar para um seleto grupo: o de atores bonitões que emprestaram seus rostinhos para dar vida a Jesus no cinema. Porém, a beleza de McGregor será um dos poucos pontos que deve agradar ao público cristão. Em Last Days in the Desert (Últimos Dias no Deserto, em tradução livre), que será exibido no Festival de Sundance 2015, McGregor vai se revezar no papel de Jesus e também do diabo.

A trama, dirigida por Rodrigo García (Albert Nobbs), foi inspirada na passagem bíblica que narra os 40 dias em que Jesus fica em jejum no deserto e é tentado pelo demônio. “Eu interpretei Jesus com a total convicção de que ele é o filho de Deus e que seu pai o pediu para seguir esse caminho, de morrer pela humanidade, e eu tentei imaginar como isso seria para um homem”, diz McGregor. “E quando interpretei o diabo, eu tentei me desvencilhar dessa convicção. Ele tenta afastar Jesus de seu propósito.”

Na adaptação, Jesus encontra outra família no deserto, que vive uma luta parecida com a sua. “Eu me senti muito pressionado. Mas entendi que não interpretava Jesus. Eu interpretei um homem que o pai é Deus e ele tenta se comunicar com esse pai. Então, na verdade, é um filme sobre o relacionamento entre pais e filhos”, diz o ator.

A livre adaptação da Bíblia já causou problemas a outros filmes, como Noé, com Russell Crowe, que não seguiu à risca a história do dilúvio narrada no livro de Gênesis. “Esta não é uma trama da Bíblia. É uma história que o Rodrigo García criou. Você pode assistir ao filme e pensar que aquele não é Jesus. Ele poderia apenas ser outro cara santo, como um rabino, andando no deserto em busca de respostas.”



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O padre que tem horror (ou nojo?) de quem lhe beija a mão


O vídeo abaixo mostra o desespero do padre polonês Tadeusz Rydzik, aparentemente distribuindo livros sobre o seu conterrâneo papa João Paulo II numa cerimônia religiosa, ao negar que os fiéis lhe beijassem a mão.

Cá entre nós, não deve ser muito agradável tanto beija-mão...

São momentos hilários, entretanto, o que nos leva a tentar imaginar o que leva o padre Tadeusz a ter semelhante atitude. Alguma sugestão?


Dica do Chato


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ex-Globeleza diz que teve "encontro mágico" com Deus

No final da entrevista concedida a Bruno Astuto, colunista da revista Época, publicada em novembro de 2014, a ex-Globeleza Valéria Valenssa conseguiu expressar em poucas palavras muito do que caracteriza o atual movimento evangélico brasileiro. Eis a frase:
Não tinha uma religião e tive um encontro mágico com Deus. Passei a ler mais a Bíblia e hoje tenho uma Igreja Batista.
Esta frase está no contexto de uma resposta de Valéria à pergunta sobre se sentia falta da época em que era uma celebridade carnavalesca.

Não estamos aqui querendo analisar a experiência de conversão da celebridade em questão, até porque não a conhecemos pessoalmente e sinceramente esperamos que ela tenha tido um verdadeiro encontro com Deus.

Portanto, não há nenhuma crítica pessoal a ela, que pode, inclusive, passar a escolher melhor as palavras daqui por diante.

O que nos chama a atenção no discurso de Valéria Valenssa é a presença de dois lugares comuns no fenômeno evangélico considerado como um todo no país.

O primeiro lugar comum é o "encontro mágico" com Deus.

Parece que muitos evangélicos (não só no Brasil, diga-se de passagem) pautam sua vida pelo "pensamento mágico", do qual o "pensamento positivo" é uma subespécie e a teologia da prosperidade o seu tentáculo mais visível.

Grande parte dos evangélicos não está preocupada no que creem, mas "como" creem. É o discurso utilitarista da "fé na fé", conforme já tivemos oportunidade de abordar aqui.

O segundo lugar comum é o "hoje tenho uma Igreja Batista". Talvez tenha sido um ato falho de Valéria Valenssa, mas boa parte dos líderes evangélicos brasileiros realmente pensa assim: eles têm uma igreja para chamar de sua, e isso no sentido mais possessivo e patrimonialista da palavra.

Muitas denominações hoje são verdadeiros conglomerados familiares, pequenos ou grandes feudos em que o poder (supostamente vindo do alto) é mundanamente hereditário. Passa de pai a filho sem pudor algum.

É de se duvidar que Deus realmente precise dessa profusão de nomes e placas de igreja, que escancaram a incapacidade de seus caciques de se submeterem a uma doutrina firmemente estabelecida, daí não terem vergonha alguma de inventar as suas próprias "teologias", geralmente copiando as heresias que estão dando certo na denominação concorrente da rua de trás (as tais "igrejas customizadas", sobre as quais escrevemos em 2010).

Cá entre nós, no fundo é uma ofensa a Ele ver que seus supostos "servos" precisam "ter" uma igreja sem necessariamente "serem" cristãos.

É muito provável que Valéria Valenssa tenha apenas escolhido mal as palavras, que eventualmente não correspondam à sua vivência espiritual nem expressem com precisão o que ela pensa do cristianismo, mas o seu discurso enviesado nos permite enxergar um pouco mais além do óbvio ululante que motiva muitos movimentos evangélicos no Brasil.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade destaca apoio de igrejas ao golpe militar de 1964

Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 1964
A matéria é do Estadão:

Comissão relata papel de igrejas no golpe

ROLDÃO ARRUDA

Documento sobre abusos da ditadura, a ser revelado quarta-feira, menciona apoio e depois condenação de religiosos ao regime de 64

O apoio dado pelas igrejas do Brasil ao golpe militar de 1964 e, mais tarde, à consolidação da ditadura, terá destaque no relatório final da Comissão Nacional da Verdade - que será entregue à presidente Dilma Rousseff na quarta-feira. A informação é do coordenador do grupo de trabalho encarregado de analisar a questão religiosa naquele período, o cientista social Anivaldo Padilha.

Em entrevista ao Estado, ele observou que já existe grande quantidade de estudos e pesquisas sobre as perseguições sofridas pelas igrejas e a resistência de religiosos e leigos à ditadura. O colaboracionismo, porém, ainda teria sido pouco estudado. "Lideranças religiosas católicas e protestantes apoiaram o golpe e contribuíram em seguida para a legitimação e consolidação da ditadura", afirmou.

"Nós já sabíamos, desde o início, do papel importantíssimo que as igrejas tiveram, às vésperas do golpe, na disseminação da ideologia anticomunista, provocando medo e pânico em alguns setores da sociedade. Nesse sentido foram absolutamente responsáveis por criar o clima político que possibilitou o golpe. Agora, porém, obtivemos mais detalhes, chegamos a casos de padres e pastores que denunciaram membros de suas igrejas, fiéis e até colegas."

Segundo Padilha, o relatório da comissão terá nomes dos delatores. Ele não quis citar nenhum, afirmando que faz parte de um acordo com a coordenação-geral da Comissão Nacional, pelo qual as informações só poderão ser divulgadas após a entrega do relatório a Dilma.

"Nós tivemos acesso a um documento que revela que um bispo e um pastor metodista se ofereceram para ser informantes da polícia", contou. "Mas esse não foi um caso isolado. Aconteceu em outras igrejas."

Pai do ex-candidato petista ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, Anivaldo Padilha, que militou na juventude metodista e na Ação Popular, sendo depois preso e torturado, disse que um pastor metodista sabia das prisões e das torturas. "O que se viu muito naquele período foram opções ideológicas - e não o resultado de ignorância ou falta de informação", afirmou.

Unânime. O apoio ao golpe foi quase unânime entre os religiosos em 1964. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que mais tarde se tornaria uma das principais vozes contra a ditadura, estava entre os apoiadores. Outros dois ícones da resistência, posteriormente, os bispos d. Paulo Evaristo Arns e d. Hélder Câmara também apoiaram o início do movimento, como lembrou Padilha.

"Menciono isso não para desqualificar, mas para mostrar a grandeza desses dois bispos", explicou. "No momento em que perceberam que haviam caído numa cilada, tomaram consciência de suas responsabilidades e se tornaram dois gigantes na luta contra a ditadura. Vários outros bispos católicos apoiaram o golpe e depois se redimiram. No campo protestante também ocorreram casos assim."

O documento do grupo coordenado por Padilha tem quase 200 páginas - mas só uma parte dele faz parte do relatório da Comissão Nacional a ser divulgado na quarta-feira. O material restante deve ser transformado numa publicação para distribuição e debate nas igrejas.



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Bispo de Marília (SP) enfrenta ira de fiéis por suspeita de racismo


A exclusão de um padre de Adamantina, por suspeita de racismo de alguns fiéis da paróquia, continua dando o que falar.

Para o bispo se submeter a esse escândalo todo, o problema, talvez, seja que essa minoria - que quer ver o padre pelas costas - tenha o poder nas suas mãos.

A matéria é do Terra:

SP: protesto acua em igreja bispo que substituiu padre negro

Segundo manifestantes, substituição ocorreu após pedido de um grupo poderoso da cidade de Adamantina

O bispo de Marília (SP), Dom Luiz Antonio Cipolini, deixou a igreja matriz de Adamantina, no interior de São Paulo, escoltado por dezenas de policiais na noite deste domingo. O bispo, que foi à cidade comandar a missa de Crisma, ficou por mais de 1h40 encantoado no interior da igreja, esperando que milhares de pessoas, que o esperavam do lado de fora, se acalmassem. O motivo da revolta dos fieis foi a substituição de um padre conhecido por suas ações sociais junto a usuários de drogas e à comunidade carente. Segundo os manifestantes, o padre Wilson Luís Ramos já havia sofrido preconceito racial por ser negro.

Antes de sair escoltado, o bispo enfrentou a revolta dos fieis já dentro da igreja. Foi vaiado por centenas de manifestantes quando comandava a missa. No momento em que ele conduzia a eucaristia, já no final da celebração, manifestantes levantaram cartazes e começaram a gritar palavras de ordem em favor do padre.

O padre teria sido substituído pelo bispo a pedido de um grupo de fieis ricos e conservadores, que tinham sido substituídos pelo padre de cargos de coordenação da igreja, que ocupavam há 13 anos. O grupo estava descontente com a opção dada pelo padre aos pobres e jovens usuários de drogas, que passaram a frequentar a principal igreja da cidade desde que o padre chegara a Adamantina, em 2012.

Durante a missa deste domingo, revoltados com a saída do padre, manifestantes também passaram a jogar moedas no altar da igreja, enquanto gritavam a palavra “indignação” e frases pedindo para o padre Wilson permanecer na paróquia. Diante do protesto e do barulho, padre Wilson pediu que os manifestantes – na maioria jovens - parassem com o protesto, mas não foi atendido. Eles continuaram gritando enquanto o restante dos fieis – cerca de 800 - que ocupavam a igreja, lotada, os ajudavam batendo palmas.

“Nunca vi uma coisa dessas. As pessoas acabaram se esquecendo de que se tratava de um local sagrado. Mas acho que elas têm razão porque o bispo até agora não deu uma explicação convincente sobre a saída do padre. Se há culpado, o bispo é o culpado”, disse o comerciante Orlando Ferrari. “Muitos pensam, e eu também, que se trata simplesmente de um ato de preconceito porque o padre é negro, pois não há motivo algum para substituí-lo”, disse um empresário da cidade, que pediu anonimato.




O vídeo do protesto contra o bispo dentro da igreja pode ser visto aqui:

http://terratv.terra.com.br/trs/video/7703347




domingo, 7 de dezembro de 2014

8 mil mortos numa só noite em Bhopal, 30 anos depois

Na semana que passou, poucos se lembraram dos 30 anos da tragédia de Bhopal, na Índia, onde mais de 8.000 pessoas morreram em decorrência do vazamento de gases letais na fábrica da Union Carbide na noite de 2 para 3 de dezembro de 1984.

Triste noite em que uma morte silenciosa e instantânea vitimou milhares de pessoas (além dos animais) em poucas horas, numa espécie de revisitação moderna da última praga bíblica do Egito.

Em memória daquela que é considerada a maior tragédia da era industrial, que não puniu nenhum poderoso e jamais poderá ser esquecida, reproduzimos o artigo abaixo da BBC Brasil:

Como nuvem letal matou mais de 8 mil pessoas em 72 horas

Em apenas uma noite, entre 2 e 3 de dezembro de 1984, um vazamento em um tanque de armazenamento subterrâneo de uma fábrica de pesticidas na Índia lançou ao ar 40 toneladas do gás isocianato de metila e causou o mais grave acidente industrial da história.

Em questão de poucas horas, uma nuvem letal se dispersou sobre a densamente povoada cidade de Bhopal, com 900 mil habitantes, matando mais de 8 mil pessoas.

Y.P. Gokhale, diretor da fábrica, a americana Union Carbide, disse na época que o gás tinha escapado quando uma válvula no tanque quebrou, sob pressão.

Meio milhão de pessoas foram expostas ao gás. As doenças crônicas geradas pelo contato com a substância deixaram um assombroso legado para gerações futuras.

Mas como o desastre se desenrolou na noite fatal de 3 de dezembro de 1984? Veja abaixo a sequência dos trágicos acontecimentos daquela noite.

Meia-Noite

A cidade de Bhopal estava dormindo. Era como qualquer outra noite para os moradores que viviam no aglomerado de casas em volta da fábrica da Union Carbide.

A fábrica foi construída em 1969 para a produção de agrotóxicos que contêm um produto químico altamente perigoso - o isocianato de metila.

As favelas construídas junto à fábrica abrigavam muita gente.

Leia mais: 30 anos depois, adolescentes carregam marcas de gás tóxico

Cerca de 1h

Alguns moradores próximos à fábrica foram os primeiros a notar um cheiro forte - e seus olhos começaram a arder.

Alguns disseram que "parecia que alguém estava queimando um monte de pimenta''.

O cheiro ficou ainda pior e mais forte. As pessoas logo começaram a se queixar de falta de ar e a vomitar.

Caos e pânico eclodiram na cidade e em áreas vizinhas. Dezenas de milhares de pessoas tentaram escapar.

"As pessoas começaram a cair no chão, espumando pela boca. Muitos não podiam abrir os olhos", contou à BBC a moradora Hasira Bi.

''Acordei por volta da meia-noite. As pessoas estavam na rua vestindo o que usavam para dormir, algumas com apenas suas roupas íntimas."

Multidões de pessoas aterrorizadas começaram a fugir e inalaram ainda mais gás.

"O gás venenoso era mais pesado que o ar, por isso, quando vazou, estabeleceu-se em uma nuvem densa que se moveu silenciosamente pelos bairros pobres ao redor da fábrica", disse Swaraj Puri, chefe da polícia de Bhopal na época, em entrevista à BBC em 2009, recordando a noite fatídica.

02h30

A sirene da usina soou. "Gás está vazando da usina", gritavam pessoas nas ruas de Bophal.

"Nós estávamos tendo asfixia e os nossos olhos queimavam, mal podíamos ver a estrada em meio à neblina, as sirenes eram estridentes, não se sabia qual o caminho a ser seguido. Todo mundo estava muito confuso", disse à BBC Ahmed Khan, morador de Bhopal, pouco após o desastre em 1984.

"As mães não sabiam que filhos tinham morrido, crianças não sabiam que mães tinham morrido e homens não sabiam que tinham perdido suas famílias."

O correspondente da BBC Mark Tulley relata que o "hospital principal da cidade estava irremediavelmente superlotado, com pacientes que não paravam de chegar".

"Milhares de gatos mortos, cães, vacas e aves estavam espalhados pelas ruas e os necrotérios da cidade foram enchendo rapidamente".

Leia mais: Três irmãs e três destinos: esterilizações em massa na Índia matam 15

04h00

Swaraj Puri, ex-chefe de polícia de Bhopal, disse à BBC que, ao amanhecer, "coube a mim e aos meus homens começar a recolher os corpos. Havia mortos em quase todos os lugares".

"Minha reação foi 'Oh meu Deus! O que é isso? O que aconteceu?' Nós ficamos chocados, não sabíamos como reagir."

O número de mortos continuou subindo rápido. Em 72 horas, mais de 8 mil pessoas tinham morrido. Outros milhares morreram nos meses seguintes.

O governo declarou que 5.295 morreram no desastre, mas ativistas falam em mais de 20 mil vítimas fatais.

Ambientalistas dizem que a toxina vazada ainda contamina o solo e as águas subterrâneas. Mas o governo do Estado nega, insistindo que o abastecimento de água ao redor da planta é seguro.

Ativistas e grupos de apoio às vítimas alegaram mais de 150 mil sofreram sequelas e contraíram doenças como câncer, cegueira, danos no fígado e nos rins após a contaminação.

Eles têm publicado relatos que mostram que Bhopal tem uma incomum - e alta - incidência de crianças com problemas congênitos e deficiência de crescimento, assim como tipos de câncer e outras doenças crônicas.

O local da antiga fábrica de agrotóxicos está agora abandonado. O governo do Estado de Madhya Pradesh assumiu o controle sobre a instalação em 1998.

Nenhum funcionário de primeiro nível da Union Carbide foi julgado sobre o que aconteceu em Bhopal.

O ex-presidente da Union Carbide Warren Anderson foi preso pela polícia indiana durante uma visita à fábrica após o desastre, mas foi libertado sob fiança e prontamente deixou o país.

Ele foi oficialmente classificado como "fugitivo", mas o governo indiano jamais seriamente pressionou por sua extradição dos Estados Unidos. Anderson morreu em setembro passado.

Como representante legal dos sobreviventes, o governo indiano pediu por US$ 3,3 bilhões (R$ 8,4 bilhões) de indenização, mas, em um acordo na Justiça, a empresa concordou em pagar US$ 470 milhões, o que os ativistas consideram totalmente insuficiente.



sábado, 6 de dezembro de 2014

México resiste à barbárie


Artigo publicado no Brasil Post:

O México cansado do medo

Maurício Santoro
Assessor de direitos humanos da Anistia Internacional

Julio César Mondragón estava feliz. Era um rapaz pobre que queria continuar a estudar e conseguir um emprego para sustentar a filha recém-nascida, Melisa. Em agosto havia começado as aulas numa escola de formação de professores primários que lhe garantia gratuitamente educação, moradia e a possibilidade quase certa de trabalho após a formatura. Mudou-se da Cidade do México para o estado de Guerrero para aproveitar a oportunidade.

Em 26 de setembro de 2014 Julio Cesar tornou-se um dos 43 estudantes mexicanos assassinados após participarem de um protesto na cidade de Iguala. Em novembro, a Procuradoria Geral do México afirmou que os responsáveis foram a polícia municipal e uma quadrilha de traficantes de drogas. A maioria dos corpos foram esquartejados e queimados. Como o México chegou a tal ponto? A resposta passa por uma longa trajetória de impunidade de atrocidades cometidas pelo Estado e pelo conluio entre agentes públicos e crime organizado.

Iguala fica no mesmo estado das belas praias de Acapulco, conhecidas internacionalmente. Contudo, a maioria dos turistas estrangeiros que lotam seus hotéis de luxo não sabem os detalhes da tradição de mobilização política local, que remonta às revoltas camponesas durante o período colonial, atravessa as guerras civis do século XIX e a Revolução Mexicana. Na década de 1960 houve um massacre de camponeses na região que serviu de estopim para lutas de trabalhadores rurais e estudantes, reprimidas pelo Estado com torturas, mortes e desaparecimentos na chamada "guerra suja".

Além da violência política, também floresceram as relações promíscuas entre o Estado e grupos do crime organizado. Guerrero é a região de maior produção de heroína do México. Quadrilhas conquistaram influência considerável junto a políticos e a cidades inteiras.

O papel dos estudantes

Os estudantes assassinados eram alunos da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, na comunidade de Ayotzinapa. Eram jovens em sua maioria entre 17 e 22 anos, vindos de famílias pobres e descendentes de indígenas. Desde sua fundação na década de 1920, a escola é famosa pelo ativismo político de seus alunos, um centro de mobilização à frente das principais lutas sociais numa região na qual 70% dos habitantes vivem na pobreza.

Em setembro de 2014 um grupo de 100 estudantes foi até o município vizinho de Iguala, para protestar. Queriam mais verbas para a educação, mudanças nas políticas de contratação de professores e ajuda do governo para viajar até a Cidade do México participar de uma manifestação que lembraria o aniversário do massacre de Tlatelolco (1968). Em manifestações anteriores, haviam acusado o prefeito de Iguala da tortura e assassinato do líder camponês Arturo Hernández Cardona, em maio de 2013. O político temia que a mobilização estudantil prejudicasse a campanha para fazer da esposa sua sucessora no cargo.

Os jovens nunca chegaram até Iguala, foram interceptados na estrada pela polícia da cidade. Embora os detalhes do que ocorreu ainda sejam controversos, sabe-se que houve um confronto no qual seis pessoas foram mortas a tiros e outras 25 feridas. Quarenta e três alunos foram detidos pela polícia e quase todos desapareceram - Julio César foi uma exceção. Seu cadáver, com marcas de tortura, foi largado nas ruas de Iguala.

O caso horrorizou a sociedade mexicana e levou a gigantescas mobilizações em todo o país, cobrando justiça e o aparecimento com vida dos estudantes. O governo federal agiu e nas investigações que se seguiram, as autoridades prenderam mais de 70 pessoas, incluindo o prefeito e a primeira-dama de Iguala.

Segundo a Procuradoria Geral da República, os alunos foram levados pelos policiais até um lixão, em furgões superlotados. Quinze morreram por asfixia. Os demais foram entregues a bandidos do cartel Guerreros Unidos, que os assassinaram. De acordo com as investigações, um dos pistoleiros teria dito ao chefe do bando que os rapazes pertenciam a um grupo rival do crime organizado. Seus cadáveres foram queimados numa grande fogueira.

Consequências da militarização

Conluio entre autoridades públicas e crime organizado (quadrilhas, milícias, paramilitares), chacinas, massacres e guerras sujas e desaparecidos que atravessam ditaduras e democracias também são lamentavelmente frequentes em muitos outros países da América Latina, como Brasil, Colômbia, El Salvador e Honduras. Cerca de 30% dos homicídios do planeta acontecem nesta região, que só tem 10% da população mundial.

No México, esse padrão assustador piorou desde 2006, com a decisão do governo federal em engajar as Forças Armadas diretamente no combate ao narcotráfico. Desde então, houve mais de 100 mil assassinatos no país - aumento de mais de 160% antes da militarização - e 26 mil desaparecimentos. Na procura pelos estudantes, foram encontradas seis covas coletivas, onde estavam 28 corpos. De quem são?

O México é um dos países-chave na campanha "Chega de tortura" da Anistia Internacional que destaca a importância de combater esse crime em meio ao aniversário da convenção da ONU contra ele. A escolha do México como uma das prioridades se deu em função do aumento exponencial das denúncias de tortura no contexto da guerra às drogas - 600%, com 7 mil casos de 2010 a 2013. Apenas sete resultaram em condenações. Isso mesmo: uma em mil .

"Já me cansei do medo", bradam os manifestantes. O México hoje é a América Latina em volume mais alto, lá se mostram de maneira mais dura tendências preocupantes que estão presentes também nos outros países da região. Os protestos impulsionados pelo assassinato dos 43 estudantes tocam problemas estruturais que estão na base desses crimes, mas vão além deles. O desdobramento dessas mobilizações é importante para todos os países latino-americanos.



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