terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Brasileiro que causou crise diplomática com Venezuela diz ser "médium"


Parece que os manuais psiquiátricos e a C.I.D. terão que abrir, em breve, espaço para as novas manias geradas pela compulsão-obsessão político-ideológica, como se não já tivéssemos lunáticos suficientes, tristemente...

A matéria é do IG Último Segundo:

Brasileiro que foi preso na Venezuela já teve internação em clínica psiquiátrica

Em entrevista ao Estadão, Jonatan Diniz reafirma que foi à Venezuela com a intenção de ser preso para divulgar sua ONG e os problemas no país

Jonatan Diniz, o brasileiro de 31 anos que ficou 11 dias preso na Venezuela e foi expulso do país no último sábado (6), disse, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que viajou ao país já prevendo que seria preso. Sua intenção, afirmou, era promover sua ONG, que conforme Diniz ajuda crianças em situação de rua.

Em sua entrevista ao Estadão, o brasileiro também disse já ter sido internado em clínicas psiquiátricas por ser médium. “Tenho uma mediunidade, recebo mensagens. A prisão de 11 dias na Venezuela não é nada comparado às minhas internações”, relatou.

“Eu sabia que ia ser preso. Eu estava em um país com enorme repressão. Eu critiquei o governo e eles sabiam quem eu era. Só um burro ia achar que eu não seria preso. Eu estava tentando ajudar”, contou ao jornal.

Antes, em suas redes sociais, Jonatan havia dito que decidiu ir para o país para doar parte do dinheiro que tinha e para iniciar o projeto “Time To Change The Earth” junto com amigos ao redor do mundo. “Nada mais era que doar roupas, comidas, brinquedos e o que necessitasse para quem realmente precisasse”, escreveu.

Para o governo venezuelano, entretanto, a entidade seria uma “organização criminosa com tentáculos internacionais”, que distribuiria alimentos e bens a moradores de rua com o objetivo de obter recursos em moeda nacional com vistas a promover ações contra o governo.

Jonatan diz que o que mais o impressionou em sua estada no país foi a participação de crianças nos protestos contra o governo de Nicolás Maduro. “Sim, odiei muito Maduro nesse tempo por todas as bombas lacrimogêneas que tive que respirar e sim, vi muita barbaridade tanto de um lado quanto do outro. Quando eu não chorava pela notícia de mais um jovem assassinado que batalhava por liberdade e por um país melhor, eu chorava por ver crianças de 5, 6 anos prepararem bombas molotov no meio da avenida para se prepararem para os confrontos”.

O Movimento Brasil Livre (MBL), que pediu nas redes sociais a liberdade de Jonatan, quando soube que ele havia premeditado a prisão na Venezuela disse estar arrependido pelo apoio. Questionado pelo Estadão sobre o que achou disso, Jonatan disse que sequer havia ouvido falar do movimento.



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sobrinho autista cobrava pensão alimentícia de tio, mas TJSP negou


A informação é do próprio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:

TJSP nega pedido de pensão alimentícia 
proposto por sobrinho

Obrigação não abrange tios.


A 10ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo negou pedido de um rapaz que pleiteava pagamento de pensão alimentícia por parte de seu tio. O autor, que é portador do Transtorno do Espectro Autista, ajuizou ação sob o argumento de que a responsabilidade por seu sustento recai apenas sobre a mãe, uma vez que o pai não arca com a obrigação e a avó paterna não dispõe de condição financeira para ajudá-lo. Na petição inicial, ele afirmou que o tio paterno possui excelente padrão de vida e não tem filhos.

Em primeira instância, o pedido foi julgado procedente para condenar o tio ao pagamento de pensão no valor equivalente a 10% de seus rendimentos líquidos. A decisão, no entanto, foi modificada na segunda instância.

Para a turma julgadora a doutrina majoritária e o entendimento pacificado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) afirmam que a obrigação alimentar decorre da lei, que indica de forma taxativa os parentes obrigados: pais, filhos, ascendentes, descendentes e colaterais até o segundo grau – o que não abrangeria tios e sobrinhos.

O julgamento ocorreu no início de dezembro com a participação dos desembargadores Carlos Alberto Garbi, João Batista de Mello Paula Lima e João Carlos Saletti.

Comunicação Social TJSP – AM (texto) / internet (foto)



sábado, 13 de janeiro de 2018

O primeiro imperador chinês queria ser (literalmente) imortal

Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China

A curiosa informação foi publicada na BBC Brasil:

Como fracasso na busca de imperador chinês por 'elixir da vida' deu origem ao Exército de Terracota

O enorme poder de Qin Shi Huang tinha apenas um limite: a morte.

O primeiro imperador da China, o "senhor dos dez mil anos", o filho do sol, o senhor de todas as terras e dos céus, descobriu precocemente que apenas a imortalidade estava fora do seu alcance.

E, por isso, tentou alcançá-la de todas as maneiras possíveis.

Conforme revelado por um estudo recente com base em textos milenares encontrados em 2002, o imperador tornou-se tão obcecado com a ideia da imortalidade que ordenou uma busca desesperada por um elixir da vida em todos os cantos da China.

Os textos, de 2 mil anos de idade e escritos em milhares de lâminas de madeira (utilizados antes da invenção do papel), dão contam de uma incrível cruzada que tomou o país asiático na busca pela poção mágica.

Os documentos, encontrados em um poço na província de Hunan (região central do país), incluem um decreto imperial pelo início das buscas e, também, as ambíguas e desanimadas respostas de comunidades que não tinham outra opção senão dar uma resposta negativa ao imperador.

Uma localidade identificada como Duxiang, por exemplo, informou ao soberano que nenhum remédio milagroso havia sido encontrado ali.

O exército de terracota, um legado impressionante para a humanidade.

Mas a comunidade não deu o braço a torcer: disse que continuaria com as buscas.

Outro local, chamado Langya, parte da atual província de Shandong (no leste do país), indicou a existência de uma milagrosa planta que poderia ser colhida em uma "montanha sagrada".

Mas nenhuma planta ou poção mágica funcionou e Qin Shihuang morreu em 210 a.C., após 11 anos de reinado.

O imperador, que conquistou, um após o outro, os seis reinos que integravam a China, dando forma ao país como o conhecemos hoje, morreu aos 49 anos, segundo historiadores. E, até os últimos momentos da vida, obcecado com a imortalidade.

Huang construiu a Grande Muralha, forjou um vasto império - impondo sistemas únicos de escrita, dinheiro, pesos e medidas e encomendando canais e estradas - e ordenou que um exército "eterno" de guerreiros o acompanhasse ao reino da morte.

Foi assim que seus súditos construíram o formidável Exército de Terracota, uma coleção de esculturas de 8 mil soldados, cavalos e carros que foram enterrados junto com o imperador, depois que este perdeu sua última batalha: contra a morte.

8 mil soldados "acompanharam" o imperador até o além.



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O cachorro que trocou o pastor evangélico pelo padre



A história é antiga, a reportagem é de 2015, mas continua atual e divertida. Confira no vídeo abaixo:




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Para os restaurantes, clientes paulistanos são os mais chatos do mundo



Finalmente, alguém conseguiu colocar em palavras algo que eu já havia percebido nos meus muitos anos em que fui um feliz habitante da capital bandeirante, e que eu já havia comentado sob outro ângulo no texto intitulado "A síndrome do turista paulista".

O artigo foi publicado no blog Cozinha Bruta do portal da Folha de S. Paulo:

Cliente paulistano é o mais chato do mundo – e paga caro por isso no restaurante

POR MARCOS NOGUEIRA

Mimado, exigente, arrogante e rude, o cliente de restaurantes paulistano é o mais chato do mundo. É por isso que ele paga caro pela comida.

Eu, tão paulistano quanto a estátua do Borba Gato, estou no balaio. Ouso dizer que já fui mais chato do que a maioria dos chatos – depois de medicado corretamente pela minha psiquiatra, melhorei bastante.

Claro que existem chatos de muitos tipos (caso você tenha interesse em se aprofundar no assunto, sugiro a deliciosa leitura do “Tratado Geral dos Chatos”). Em algumas partes do país, é corriqueiro o tipo de cliente que chega ao restaurante e se comporta como se fosse dono do lugar. Fala alto para caramba e deixa as crianças quicando pelo salão. Se a mesa estiver perto da entrada, estaciona o carro em frente e liga o som. Em geral, fala com os funcionários como se fosse seu melhor amigo. E não estressa com a lentidão do serviço.

Essa modalidade não é muito comum em São Paulo. Não nos lugares que eu costumo frequentar.

O cliente paulistano é folgado à sua própria maneira. Por ser pagante, ele julga merecer tratamento de realeza.

O indivíduo – gênero neutro, repare – chega ao restaurante e pede uma mesa. Caso haja espera, a pessoa supõe que haja também uma área em que ela possa esperar sentada. Se a espera não permitir o consumo de bebidas e petiscos, o sujeito fica contrariado. A espera muito longa irrita sobremaneira essa gente.

(Reservar mesa não é para o paulistano médio. Ele presume que a mesa estará à sua disposição em qualquer hora e situação.)

Uma vez acomodado, trata os garçons como serviçais particulares.

O cliente exige disponibilidade total. O atendente anota as bebidas e, quando as entrega, comanda o suco de acerola da Valentina, que a mamãe esqueceu de pedir antes. Ao trazer o suco, é instado a substituir o copo do pequeno Enzo, que queria apenas gelo, não gelo e limão. Com o copo em mãos, alguém na mesa resolve pedir lula frita. O garçom anota. Assim que ele entrega a comanda na cozinha, é chamado de volta porque deve trocar a lula por mandioca – o João Vítor é alérgico a frutos do mar, mas o tio não sabia. Então, eu um ato audaz, ele sugere que a mesa peça os pratos principais: todos entram em pânico e solicitam o cardápio novamente, numa clara manobra protelatória.

E assim vai até o pagamento da conta.

Quando viaja dentro do país, o paulistano quase enlouquece nos restaurantes. Especialmente se o destino é Salvador. No estrangeiro, se comporta bem. Porque sabe que vai tomar uma bela invertida de quem serve a mesa – e porque não tem repertório linguístico para encarar uma discussão.

Em países mais, hum, desenvolvidos, os restaurantes informais costumam ser familiares. Os pais são donos e os filhos servem as mesas, ou algo do tipo. Mesmo quando o negócio é um pouco maior, o número de garçons é muito limitado. A pessoa tem pouco tempo de atenção a dispensar para cada mesa. Então, ela supõe que o freguês peça tudo ao mesmo tempo – a cozinha se encarrega de soltar primeiro as entradas, depois os principais.

Menos funcionários no salão, menos custo. Matemática elementar.

Em São Paulo, esperamos que o botequim tenha o mesmo padrão de serviço do Fasano. Essa pressão faz com que as casas contratem mais gente. E o custo, é evidente, aparece na dolorosa.



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

TJSP garante posse de funcionária pública com síndrome de Asperger



Justiça garante posse de candidata com Síndrome de Asperger

Autora foi reprovada na perícia.

A 12ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo garantiu o direito a nomeação e posse de uma pessoa com deficiência em cargo da Secretaria de Administração do Município de Osasco. A candidata, que possui síndrome de Asperger, foi aprovada em concurso para o cargo de fiscal tributário, dentre as vagas reservadas a pessoas com deficiência, mas reprovada na perícia médica. Segundo os médicos da Prefeitura, a aspirante à vaga não apresentava deficiência alguma. A candidata entrou com mandado de segurança contra a avaliação médica que a impediu de ser nomeada.

Em primeiro grau, o juiz José Tadeu Picolo Zanoni, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Osasco, garantiu a nomeação e a posse, diante da documentação nos autos que comprova a deficiência da candidata e, também, com base na legislação que considera como deficiente a pessoa com “transtorno do espectro autista”, no qual a síndrome de Asperger se inclui.

Em reexame necessário do mandado de segurança, foi confirmada a decisão judicial, pelos mesmos fundamentos. Em seu voto, o relator do caso, desembargador José Manoel Ribeiro de Paula, afirmou que “existe farta documentação nos autos que atesta a deficiência da impetrante, ou seja, relatórios médicos desde 2013 assinados por médicos que compravam a existência da doença”.

Participaram do julgamento os desembargadores Edson Ferreira da Silva e José Roberto de Souza Meirelles. A votação foi unânime.

Reexame Necessário nº 1009260-43.2017.8.26.0405

Comunicação Social TJSP – DM (texto)



sábado, 6 de janeiro de 2018

Viaduto de SP terá nome de filho do casal Hernandes da Renascer

No lugar, funciona há décadas um albergue para a população de rua.  
A informação é do Estadão:

Viaduto de SP terá nome de filho de 
fundadores da Igreja Renascer

Sancionada por Doria, mudança homenageia filho de Sonia e Estevam Hernandes; logradouro da região central passa a se chamar Viaduto Pedroso - Bispo Tid Hernandes

SÃO PAULO - O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), sancionou na quinta-feira, 4, a mudança do nome do Viaduto Pedroso para Viaduto Pedroso - Bispo Tid Hernandes. A mudança é uma homenagem ao bispo evangélico Tid Hernandes, filho dos fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, Sonia e Estevam Hernandes, morto em 2016.

A Lei Municipal 16.788/18 é de autoria dos vereadores evangélicos Carlos Apolinário (PDT) e Gilberto Nascimento (PSC) e foi aprovada na Câmara Municipal de Vereadores em dezembro.

Uma placa será afixada no viaduto com a nova denominação. "A execução da presente lei contará com recursos orçamentários próprios, suplementados se necessário", diz o texto.

Polêmica. Outro viaduto de São Paulo foi recentemente alvo de críticas após ser batizado com o nome da ex-primeira dama Marisa Letícia, que foi casada com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A lei foi sancionada em dezembro pelo então prefeito em exercício Milton Leite (DEM), presidente da Câmara, e foi chamada de uma homenagem "injusta" pela Prefeitura de São Paulo.



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Cuidadores e advogados são os profissionais que menos dormem


A informação foi publicada no portal Nação Jurídica:

Advogados estão em 2º lugar no ranking dos 10 profissionais que menos dormem

Um ranking americano elaborado pela rede de colchões Sleepy’s fez um levantamento dos dez profissionais que menos dormem. Em comum, as profissões lidam com situações de vida e morte ou são extremamente estressantes.

O ranking se baseia em quase 30 mil entrevistas à Pesquisa Nacional de Saúde Americana, feita pelo governo norte-americano. Os entrevistados declaram sua média de sono e suas ocupações. A pesquisa foi divulgada no site do jornal New York Times.

Confira abaixo os 10 profissionais que menos dormem:

1. Acompanhantes de pessoas doentes (6h57min)

2. ADVOGADOS (7h)

3. Policiais (7h1min)

4. Médicos e paramédicos (7h2m)

5. Economistas (7h3min)

6. Assistentes sociais (7h3min)

7. Programadores de computador (7h3min)

8. Analistas financeiros (7h5min)

9. Operadores de máquinas em fábricas (7hmin)

10. Secretárias (7h8min)

Por Amanda Previdelli
Fonte: Guia do estudante



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Morre 16º presidente mundial dos mórmons aos 90 anos de idade

Thomas S. Monson, 1927-2018 


Faleceu na noite passada, na cidade de Salt Lake City, capital do Estado de Utah nos EUA e sede mundial da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (também conhecidos como SUD ou mórmons), o presidente da instituição, Thomas S. Monson.

Depois de longa enfermidade, o passamento do Sr. Monson ocorreu na sua residência, cercado por sua família, às 22:01 h locais do dia 2 de janeiro de 2018, 3:01 h do dia 3 de janeiro de 2018 pelo horário de Brasília,

Nascido em 1927, o presidente Monson faleceu a um mês de completar 10 anos no cargo que assumiu em 3 de fevereiro de 2008 (sucedendo Gordon B. Hinckley), e o novo líder mórmon será escolhido pelo chamado Quórum dos Doze Apóstolos da igreja logo após o seu funeral.

Thomas Monson esteve no Brasil para dedicar o templo mórmon de Curitiba (PR) em 1º de junho de 2008.

Aos mórmons, nossos sentimentos.

As informações aqui repassadas foram publicadas no portal da sala de imprensa mórmon no Brasil.



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Sumô luta para sobreviver após 15 séculos de tradição no Japão


A matéria foi publicada na BBC Brasil:

'Chorava todos os dias': o lado obscuro da vida dos lutadores de sumô no Japão

Rebecca Seales

De pé em meio ao frenesi dos flashes disparados em sua direção, o lutador anuncia com os olhos marejados sua aposentadoria imediata. "Desculpem-me do fundo do meu coração", ele diz após se curvar e permanecer nessa posição por um longo tempo.

Harumafuji é um grande campeão do sumô, conhecido em japonês como yokozuna. Em 25 de outubro, ele agrediu um lutador mais jovem em um bar, fraturando seu crânio, um caso que foi alvo de um inquérito policial e permaneceu nas manchetes por semanas.

O atleta, de 33 anos, chegou a pedir desculpas pelo ocorrido e decidiu se aposentar do esporte, mas foi acusado formalmente de agressão na última quinta-feira. Ele deve pagar uma multa, em vez de ser julgado em um tribunal.

De acordo com relatos, Harumafuji teria ficado furioso quando tentou dar conselhos ao rapaz e este continuou olhando o próprio celular.

O incidente reacendeu uma discussão sobre o esporte nacional do Japão, e não é a primeira vez que algo assim acontece. Há uma década, a reputação do sumô entrou em crise quando um rapaz de 17 anos que treinava para ser lutador morreu após levar uma surra com uma garrafa e um taco de baseball.

Os agressores eram seus toshiyoris, ou anciãos, como são chamados os ex-lutadores que assumem posições de autoridade, podendo ser treinadores e gerentes de um ginásio de sumô.

Em 2010, o esporte levou um novo golpe com a descoberta do envolvimento de um atleta e de um treinador em um esquema ilegal de apostas em partidas de baseball que teria ligações com a máfia japonesa, a yakusa.

No mesmo ano, o mentor de Harumafuji, o grande campeão mongol Asashoryu, deixou o sumô após se envolver, embriagado, em uma briga do lado de fora de uma boate na capital do país, Tóquio. Depois, vieram à tona provas da combinação prévia de resultados na segunda divisão do esporte.


Seriam sinais de que o sumô está em declínio e que a disciplina que um dia o definiu está em decadência? Ou será simplesmente que, após 15 séculos, o lado obscuro do esporte está finalmente vindo à tona? 


'Os mongóis estão chegando'


Uma forma de responder essas questões é olhar para a origem do esporte e para o duro regime de treinos ao qual os lutadores são submetidos.

Ainda que o sumô tenha surgido a partir de rituais de templos japoneses entre 1,5 mil e 2 mil anos atrás, o país não domina mais o circuito internacional da luta. Até a aposentadoria de Harumafuji, havia quatro grandes campeões. Três deles, inclusive o do agora aposentado Harumafuji, eram da Mongólia.

Rússia, Havaí, Samoa e países do leste europeu costumam enviar lutadores promissores para os ginásios de sumô do Japão, locais em que mestres treinam adolescentes na arte que um dia foi a grande atração das cortes imperiais da nação asiática.

O sumô não é apenas um esporte no país. É uma cerimônia que abre uma janela para o passado, calcada na tradição e na essência do que é ser japonês. Rituais rígidos estabelecem um código de conduta, e ser nascido no exterior não é desculpa para não receber um tratamento tão duro quanto o conferido aos nativos.

Todos os lutadores devem usar trajes tradicionais em público, inclusive um coque como o de samurais. Nas competições, o triunfo e o fracasso devem gerar a mesma reação impassível. Em conversas, o lutador deve ser um modelo de humildade e falar suavemente, comportando-se com hinkaku, ou dignidade. O status é tal que estranhos se curvam quando cruzam com eles na rua.

Cada um dos 45 centros de sumô no país aceita treinar apenas um estrangeiro, ou gaikokujin, de cada vez, por ordem da conservadora Associação de Sumô do Japão. E, quando conseguem chegar lá, normalmente aos 15 anos e com no máximo 23, devem comer, falar, vestir e respirar como japoneses.

Cozinhando, limpando – sem nada para o café da manhã

"(Os lutadores) São como soldados recebendo treinamento básico", explica Mark Buckton, um ex-comentarista e colunista de sumô do jornal Japan Times. "São eles que cozinham, limpam, descascam batatas... E todos aprendem japonês."

O ginásio de sumô é regido por uma hierarquia rigorosa, com um mestre – um ex-lutador – no comando. "Não é como no futebol, em que você pode se transferir de um time para outro", diz Buckton à BBC.

"Você faz parte de um ginásio para o resto da vida. A única forma de sair dele é abandonando o sumô."

Os lutadores deixam o cabelo crescer, normalmente até o meio das costas, para que o cabeleireiro do ginásio possa fazer um penteado tradicional. Só lavam o cabelo a cada uma ou duas semanas, e passam nele bintsuke, um tipo de cera feita a partir de soja com um cheiro adocicado que acompanha o lutador aonde ele vá.

As refeições, geralmente compostas de um caldo quente rico em proteína com vegetais, são tão controladas quanto o regime de treinos, em que os jovens passam horas tentando empurrar seus enormes colegas em um círculo coberto por areia. "Eles comem muito. Mas o crucial é ir dormir logo após de comer", diz Buckton.

"Eles não tomam café da manhã. Todo o treinamento ocorre pela manhã. Eles almoçam quase o mesmo que uma pessoa normal, talvez um pouco mais. Mas comem isso com uma grande quantidade de arroz. Depois, vão para a cama e só acordam no meio da tarde. Comem de novo à noite e vão dormir cedo, porque se levantam às 5h, 6h da manhã para treinar."

Ginásios mais rigorosos costumam gerar lutadores melhores? "Com certeza, com certeza", afirma o especialista.

Sem salário, namoradas ou telefones

Há seis competições profissionais de sumô por ano, todas no Japão. Um lutador ganha ao forçar seu oponente a sair do círculo ou ao fazê-lo tocar o chão com alguma parte do corpo que não os pés. Conforme acumula vitórias, o lutador sobe no ranking.

Há cerca de 650 lutadores nas seis divisões, mas apenas cerca de 60 disputam a primeira. Eles não recebem salários nas quatro divisões inferiores. Um lutador talentoso pode levar de dois a três anos para começar a receber um salário.

Quando há pagamento, ele é bom: cerca de US$ 12 mil (R$ 39,6 mil) por mês na segunda divisão, um valor que pode chegar a US$ 60 mil (R$ 198 mil) na elite do esporte, incluindo contratos de patrocínio.

Os lutadores mais jovens devem usar um traje de tecido de algodão fino, o yukata, e geta, ou sandálias de madeira, mesmo no auge do inverno. Dirigir não é permitido, mas os melhores lutadores têm motoristas, algo que é tanto um símbolo de status quanto uma necessidade, já que seu tamanho dificulta a vida ao volante.

Celulares e namoradas são tecnicamente proibidos abaixo das duas primeiras divisões, ainda que haja uma tolerância crescente com isso. Mulheres não podem morar nos ginásios, e lutadores não podem se casar ou morar em outro local com sua namorada até atingir ao menos a segunda divisão.

Caso se machuque e caia para a terceira divisão, o lutador deve deixar sua mulher e filhos para trás e voltar a morar no ginásio.

O que acontece se os jovens não atenderem os padrões dos mestres ou criticarem o regime quase monástico do ginásio? "Ah, eles são terríveis", diz Buckton. "Antes do rapaz ser morto em 2007, havia espancamentos frequentes. Você via os caras com marcas nas costas e na parte de trás das pernas por não se esforçarem o suficiente."

No ano passado, segundo relatos, um lutador recebeu quase 32,4 milhões de ienes (R$ 946,3 mil) de indenização após de ter sido maltratado diariamente e ficar cego de um olho.

Depois que Takashi Saito, de 17 anos, foi espancado até a morte por ter ameaçado deixar seu ginásio, o grande campeão mongol Hakuho relatou experiências chocantes de surras que chegam a durar 45 minutos.

"Você pode olhar para mim agora e ver um semblante feliz, mas, na época, eu chorava todos os dias", disse. "Os primeiros 20 minutos são muito dolorosos, mas, depois, fica mais fácil, porque mesmo que você esteja apanhando, começa a sentir menos dor. Claro que chorei e, quando meu ancião disse que isso era para meu próprio bem, chorei de novo."

Quebrando o silêncio

Mas por que - em um esporte que submete seus maiores talentos a anos de punição corporal - Harumafuji foi forçado a se aposentar após agredir um lutador mais jovem? "Bem, ele bateu no rapaz em um bar...", afirma Buckton.

O escritor Chris Gould, que acompanha o universo do sumô há três décadas, diz que o "pacto de silêncio" no esporte é bem poderoso.

"Há uma consistência impressionante em como o treinamento e as punições são aplicados em diferentes ginásios e ao longo do tempo. Isso significa que, quando ocorrem incidentes como o de Harumafuji, não se fala sobre o assunto para preservar o grupo", diz Gould.

No episódio mais recente, o técnico do lutador agredido foi quem fez a denúncia e defendeu mudanças no esporte. "É interessante ver um técnico ser criticado por quebrar o código de silêncio. Na maioria dos esportes, ele seria celebrado como um herói."

Com esse tipo de atitude, é possível esperar que jovens continuem se interessando pelo esporte?

Os dias em que a promessa de duas boas refeições diárias atraía jovens de famílias pobres do Japão rural para o sumô ficaram no passado, e esportes como o futebol e o baseball oferecem salários melhores sem o risco de sofrer violência.

Mas, apesar de tudo isso, a popularidade do sumô vem crescendo. Em janeiro, foi consagrado o primeiro campeão japonês em quase duas décadas, para a alegria dos fãs. A Associação de Sumô do Japão também tem feito campanhas publicitárias para voltar a tornar o esporte atraente.

Na visão de Chris Gould, a previsões sobre a ruína do sumô foram prematuras. "Ainda não é hora de entrar em pânico quanto ao futuro. Mas a associação precisa divulgar o que o sumô defende ou não, seus valores fundamentais. A não ser que isso aconteça, o número de grandes lutadores em potencial que nem chegam a entrar para o esporte só vai continuar a crescer."



domingo, 31 de dezembro de 2017

sábado, 30 de dezembro de 2017

É muito provável que a sua percepção de mundo esteja equivocada. Saiba por quê.


Talvez você ache que 2016 foi melhor que 2017, e que não tem jeito de 2018 não ser pior.

Melhor rever esta percepção, de acordo com matéria que foi publicada na BBC Brasil:

Por que achamos que o mundo está pior do que realmente é

No Brasil, a taxa de homicídios hoje é bem mais alta do que no ano 2000, quase metade das meninas e mulheres de 15 a 19 anos engravidaram e quase metade dos adultos sofrem de diabetes.

Essas afirmações acima não correspondem à realidade do país, mas refletem o que pensa a maioria dos brasileiros, segundo a uma pesquisa recém-divulgada pela Ipsos-Mori chamada Perigos da Percepção.

A partir de quase 30 mil entrevistas conduzidas entre setembro e outubro passado em 38 países, a enquete testou a percepção das pessoas sobre 14 temas que causam precupação ou são de grande importância na mídia. Em resumo, a ideia era saber se o que as pessoas achavam sobre esses assuntos estava perto da realidade - "realidade" essa baseada em informações retiradas "de uma variedade de fontes verificadas", segundo a Ipsos-Mori.

A conclusão da pesquisa é de que pessoas no mundo inteiro estão bem equivocadas sobre questões-chave e características da população de seus próprios países.

E no ranking dos países cujas populações mais "erraram" - onde a média percentual obtida pelas respostas esteve mais distante do número "real" - o Brasil aparece em segundo lugar, atrás apenas da África do Sul.

Percepção x Realidade

Mas por que existe essa lacuna entre percepção e realidade? Por que muitos enxergam as coisas piores do que são?

"Nós sabemos de estudos anteriores que isso ocorre, em parte, porque superestimamos o que nos causa preocupação", diz Bobby Duffy, diretor gerente da Ipsos Public Affairs, em texto para apresentar os resultados da pesquisa.

Os pesquisadores afirmam que somos geneticamente programados para acreditar mais nas más do que nas boas notícias.

O estudo mostra, por exemplo, que a taxa de homicídios caiu na maioria dos países analisados, nos últimos 15 anos, mas que a maior parte das pessoas acredita que o quadro piorou.

No Brasil, 76% têm essa percepção, embora o índice tenha permanecido estável em relação ao ano 2000, usado como base de comparação.

A porcentagem de mulheres entre 15 e 19 anos que têm filhos também é superestimada. No Brasil, a média estimada pelos entrevistados foi de 47% - quase a metade das mulheres adolescentes do país. Mas o dado registrado no Brasil corresponde a apenas 6,7%. v O índice de mortes por ataques terroristas ao redor do mundo, que nos últimos anos diminuiu em relação aos 15 anos anteriores, também é percebido de forma equivocada. Apenas um quinto das pessoas entre todas as entrevistadas nos 38 países acredita que houve queda.

Reação é mais forte a imagens negativas

Nossos cérebros, segundo os pesquisadores, processam informações negativas de um jeito diferente e as armazenam de forma a estarem mais acessíveis que as positivas.

Um neurocientista comprovou isso mostrando a pessoas imagens de coisas conhecidas, como pizzas e Ferraris, para estimular sensações positivas, e outras, como um rosto mutilado e um gato morto, por exemplo, para despertar outro tipo de reação.

A partir desse experimento, ele mediu a atividade elétrica no cérebro e constatou que respondemos mais fortemente a imagens negativas.

Temer para sobreviver

A mídia, geralmente, leva a culpa por mergulhar as pessoas em um mar de desânimo e pessimismo.

Eles questionam: se somos alimentados com uma dieta tão implacavelmente negativa, é de admirar que acabemos pensando que o mundo é um lugar terrível?

Na prática, essa hipersensibilidade que temos a informações negativas - ou a más notícias - aparentemente desempenha uma função importante na evolução.

Um cérebro mais sensível a más notícias reage mais intensamente a informações sobre possíveis perigos - o que acaba pesando no instinto de sobrevivência.



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O filho que não perdoa o pai pelo que ele fez durante a ditadura argentina


A matéria foi publicada na BBC Brasil:

A luta de argentino para denunciar o próprio pai por crimes da ditadura

Marcia Carmo

O advogado Pablo Verna, de 44 anos, fez um pedido ao Congresso Nacional do seu país, a Argentina: ele quer que a legislação em vigor, que impede familiares de denunciarem e prestarem depoimentos à Justiça contra seus parentes, seja modificada.

Seu objetivo é ter o direito de denunciar e depor contra o pai, que foi médico do Exército durante a ditadura argentina (1976-1983). Ele diz que Julio Alejandro Verna, hoje aos 70 anos, admitiu ter injetado sedativos em vítimas do regime militar antes que elas fossem lançadas dos chamados "voos da morte", que arremessavam os prisioneiros ainda vivos em rios ou no mar.

O pai dele está livre. Questionado certa vez por uma repórter, o médico negou ter sedado desaparecidos políticos para esse fim. "Não, senhora. De onde tiraram isso?"

Pablo Verna integra o Histórias Desobedientes, grupo que reúne 25 filhos de ex-repressores da ditadura argentina. Leia seu depoimento à BBC Brasil:

"Há muito tempo eu desconfiava que meu pai tinha cometido crimes na ditadura militar. Nas conversas em casa, ele demonstrava conhecer detalhes demais dos crimes cometidos naquele período horrível. Mas quando eu perguntava por que ele sabia tanto, respondia que eram as enfermeiras que lhe contavam.

Meu pai era médico do Exército argentino. E com o passar dos anos, baseado no que ele mesmo me dizia, passei a questioná-lo com tom mais critico, e de acusação.

Nossa relação foi ficando cada vez mais tensa. Duas conversas foram aos gritos. Em 2009, eu já tinha certeza de que ele tinha participado dos crimes. Mas não sabia como. Não tinha os fatos concretos. Além disso, como filho, acho que queria manter a dúvida diante de algo tão pavoroso.

Então, em meados de 2013, em mais uma conversa tensa, ele admitiu que tinha cometido os crimes. Não lembro as palavras exatas que usei para que admitisse isso. Mas naquele encontro lembrei o que meu pai tinha contado a um familiar e as respostas anteriores que tinha me dado cada vez que abordei o assunto. Foi impossível para ele negar o que tinha feito. E até que me disse: 'foi isso mesmo'.

Como médico, meu pai participava dos crimes da ditadura injetando sedativos nas pessoas que seriam jogadas vivas ao rio ou ao mar. Eram anestesias que as deixavam imediatamente paralisadas, mas respirando. E quando elas estavam assim, as jogavam dos 'voos da morte', como ficaram conhecidos.

Meu pai cometeu outros crimes. Ele também participava dos sequestros dos opositores, dos militantes sociais e políticos. Foram 30 mil desaparecidos no nosso país. A ditadura genocida sequestrava e fazia essas pessoas desaparecerem.

Depois daquela conversa em meados de 2013, ele disse a um familiar que não estava arrependido. E ainda acrescentou que tinha participado de um caso específico que teve muita repercussão aqui na Argentina.

Em 1979, quatro pessoas foram sequestradas e também receberam as injeções de anestesia. Elas foram jogadas em um riacho, uma simulação de um acidente de carro em uma ponte. As quatro morreram.

Como médico militar, meu pai estava sempre armado. Isso até passar para a reserva, em 1983, com o retorno da democracia no país. E além desses crimes genocidas, certa vez ele apareceu em casa com uma maleta de primeiros-socorros de médico que não era dele. Que era de uma das vítimas da ditadura. Eu perguntei porque estava com duas maletas, e me respondeu que tinha sido um presente. Que uma das maletas tinha sido de um subversivo.

Na minha casa, as palavras que ele usava eram chamativas, como 'subversivo'. Eram palavras de um genocida. Era um discurso ideológico para eliminar os que eram opositores ao regime militar. Uma vez, disse que os opositores eram mortos porque, quando eram presos e soltos, ficavam ainda piores.

A nossa relação foi rompida naquela conversa em meados de 2013, quando meu pai admitiu os crimes. Mas no dia seguinte ele me ligou para saber se eu tinha contado para minha mulher. Depois disso, ficamos sem nos falar até pouco tempo - dias atrás, ele me telefonou para, ao meu ver, fazer ameaças. Também faz isso por meio de conversas com parentes, cujos relatos chegam até mim.

Eu me afastei de muitos familiares. Primeiro, para evitar encontrá-lo, e ainda porque uma parte da minha família se recusa a saber, nega o que ocorreu. Acha que isso é um problema entre duas pessoas - no caso meu pai e eu. Mas isso não é um simples problema entre duas pessoas, é entre ele e a humanidade, na qual eles, os familiares, estão incluídos.

Hoje meu pai está livre, mas é investigado porque o denunciei na Secretaria de Direitos Humanos poucos meses depois daquela nossa conversa. Agora o caso dele faz parte de uma imensa apuração, levada adiante pelos defensores das vítimas na que ficou conhecida como 'megacausa contraofensiva', pela repressão e extermínio ocorridos no Campo de Mayo nos anos 1970 e 1980. O local foi um centro clandestino de prisão e extermínio horrível no nosso país.

Essa casa deixou poucos sobreviventes e provas. Meu problema hoje, como filho, é que, apesar de ter essas certezas contra meu pai, encontrei barreiras na legislação que me impedem de denunciá-lo penalmente. No Código de Processo Penal da Argentina, existem dois artigos que proíbem que familiares denunciem e deem depoimento, já no processo, contra outros familiares.

Ou seja, não podem ser testemunhas contra outros familiares. Por isso, entramos com esse projeto de lei pedindo que essas proibições não sejam aplicadas para os casos de crimes contra a humanidade. E assim nós, filhos de repressores, poderemos denunciar nossos pais judicialmente, além de prestar depoimento contra eles nos julgamentos.

Nós do coletivo Historias Desobedientes, que somos filhos e filhas de genocidas, vivemos nas nossas casas, com nossos pais, a imposição de um mandato de silêncio, de maneira implícita ou explicita.

Os genocidas fizeram um pacto de silêncio que cumprem até hoje. Eles não revelam o que fizeram e o que os outros militares fizeram. Mas depois de muitos anos, e de conscientização do que aconteceu, e da nossa própria ética, decidimos levar as acusações adiante. Mas aí nos deparamos com esses artigos da legislação argentina.

Apresentamos esse projeto de lei no dia 7 de novembro na mesa de entrada da Câmara dos Deputados. No nosso grupo, alguns já têm os pais mortos, outros condenados e outros, impunes.

No meu caso, espero que meu pai seja investigado. E que ele e os outros genocidas reflitam e tenham alguma dignidade em seus últimos anos de vida. Que deem um pouco de paz a tantos familiares que não sabem qual foi o destino de seus parentes desaparecidos. E paz até para eles, genocidas. Porque eles também devem viver um inferno em suas mentes e corações.

Nós, como coletivo, sabemos que nossa iniciativa, com esse projeto de lei, pode ajudar no contexto das investigações. Coisas que ouvimos nas nossas casas podem aportar no contexto em que os crimes foram cometidos. Inclusive os casos de roubo que as vítimas da ditadura sofreram.

Nossa iniciativa não dará resposta a tudo. Mas pode contribuir para acabar com a impunidade mantida pelos genocidas."



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Aumenta perseguição aos "não-religiosos" no mundo



Caso você não tenha percebido isto no ex-país em que habita, segundo informa a BBC Brasil:

Discriminação severa contra pessoas não religiosas está crescendo ao redor do mundo, diz ONG

Valeria Perasso

No Paquistão, em abril passado, um universitário acusado de blasfêmia contra o Islã teria sido espancado até a morte, segundo relatos, por uma multidão de colegas no campus.

Algumas semanas antes, nas Maldivas, um blogueiro conhecido por apoiar o secularismo e fazer graça com a religião foi encontrado morto, com sinais de apunhalamento, em seu apartamento.

E no Sudão, o ativista pelos direitos humanos Mohamed al-Dosogy foi preso depois de solicitar oficialmente que, na sua carteira de identidade, o registro de sua religião constasse como "ateu".

Estes são apenas três exemplos daquilo que a União Internacional Humanista e Ética (IHEU, na sigla em inglês) diz ser uma crescente tendência global de discriminação, pressão e ataques contra ateus e céticos quanto à religião em todo o mundo.

No seu relatório "Freedom of Thought" ("Liberdade de Pensamento") de 2017, a organização registrou casos de "discriminação grave ou severa" contra pessoas não religiosas em 85 países ao redor do mundo.

E em sete destes lugares - Índia, Malásia, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Sudão e Arábia Saudita - os não religiosos foram "ativamente perseguidos", segundo a organização.

A IHEU - um guarda-chuva para mais de 120 grupos humanistas, ateus e seculares de mais de 40 países - apresentou suas constatações ao Parlamento Europeu.

"[Esta] tendência preocupante vai contra um direito humano básico, que simplesmente não está sendo garantido pelos governos", afirmou à BBC o diretor-geral da IHEU, Gary McLelland.

O direito à liberdade de pensamento, religião ou crença está protegido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 - que inclui a liberdade de mudar de religião e expressar a fé, ou a falta dela.

"Muitos países estão fechando os olhos para esta norma internacional", acrescentou McLelland.





Violações 'graves'


Dos 85 países listados como perigosos para aqueles que não se identificam com as religiões, 30 estão na pior situação no ranking, com "violações graves" relatadas nos últimos 12 meses.

Esses incidentes variam de execuções extrajudiciais à pressão apoiada pelo governo, incluindo também o desaparecimento de supostos blasfemos.

Em 12 desses países, a apostasia - termo que denomina a troca ou o abandono de religião - é punível com a morte, afirma o relatório.

No nível seguinte, há 55 países onde a discriminação é considerada "severa".

Isto pode ocorrer com o controle religioso por meio de leis e tribunais, doutrinação fundamentalista em escolas públicas ou da prisão por críticas a certas crenças - embora vários países, como a Alemanha ou a Nova Zelândia, pertençam a essa categoria por manter ativas leis arcaicas para a blasfêmia e delitos afins, ainda que raramente as apliquem.

"Muitos dos países com as manifestações mais graves de discriminação têm maioria muçulmana (ou regiões de maioria islâmicas dentro de nações multirreligiosas, como o norte da Nigéria)", diz McLelland.

"A discriminação tem maior probabilidade de acontecer onde as regras têm motivação religiosa e a liberdade de expressão é muito restrita. Isto é um reflexo da situação, e não um julgamento por parte do relatório".

A situação do Brasil

O relatório recém-divulgado especifica a situação em apenas alguns países - não é o caso do Brasil. Mas, em 2016, o Brasil foi descrito no levantamento como um país "soberano e secular".

"Além de ter a maior população católica do mundo (130 milhões de pessoas, ou 64,6% da população), o Brasil também aparece como um dos dez países mais religiosos do mundo (...) O protestantismo é a segunda maior crença religiosa, cujos adeptos representam aproximadamente 22% da população.

Há também uma comunidade não religiosa relativamente grande que compõe cerca de 8% da população, com o pequeno restante dividido entre o espiritismo, o islamismo e o judaísmo", diz o site do relatório.

Entre as quatro grandes áreas avaliadas (Justiça e governo, educação, interações sociais, e liberdade de expressão), o Brasil aparece com a melhor classificação ("Livre e igualitário") no item "interações sociais".

O relatório destaca que, ainda que a Constituição garanta que o ensino religioso nas escolas seja opcional, quase metade das escolas fazem deste ensino obrigatório.

Na categoria de "discriminação sistêmica", recaem duas áreas avaliadas: Justiça e governo e liberdade de expressão. No primeiro caso, o relatório aponta que, embora a lei brasileira garanta a liberdade religiosa e o Estado laico, há registros de repressão policial desproporcional a ativistas dos direitos humanos e uma forte influência de setores religiosos na política.

Já no que diz respeito à liberdade de expressão, o relatório aponta que o Código Penal brasileiro criminaliza a blasfêmia, mas, diz o documento, "embora esta lei esteja nos livros, na prática, ela não parece ter sido usada para proibir ou obstruir críticas às religiões".

Em 2012, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu uma liminar determinando que o YouTube retirasse do ar o vídeo que promoveria islamofobia e gerou uma série de protestos e até mortes ao redor do mundo.

Um problema ocidental também

No entanto, casos de discriminação contra pessoas não religiosas também foram registrados em países europeus e nos Estados Unidos.

Este é o caso em lugares onde o nacionalismo conservador e o populismo estão em ascensão.

"Nos Estados Unidos, a discriminação e a aversão às pessoas não religiosas se tornaram comuns", diz Lois Lee, pesquisador em estudos religiosos da Universidade de Kent.

"Em pesquisas recentes, os ateus aparecem entre os grupos que geram mais desconfiança".

Em áreas com forte presença religiosa e caráter social conservador no sudeste dos Estados Unidos - o chamado "Cinturão da Bíblia" - a hostilidade contra indivíduos não religiosos aumentou, de acordo com relatos locais.

Em um exemplo recente, uma escola no Kentucky foi investigada após queixas de que alguns professores estariam perseguindo estudantes não-cristãos.

Lee diz que o que está acontecendo pode ser explicado pelo fato de que um número crescente de pessoas agora define sua identidade por meio de suas crenças religiosas - e isso inclui o ateísmo.

"A política de identidades mudou parcialmente de nações e etnias para a religião", disse à BBC.

"Esta é agora uma questão mais sensível e, portanto, um alvo mais frequente para a discriminação".

Ateísmo em expansão

É claro que a perseguição a ateus ao redor do mundo não é um fenômeno novo.

Em 2014, o blogueiro Mohamed Cheikh Ould M'khaitir recebou uma sentença de morte na Mauritânia por supostamente cometer apostasia. Sua sentença foi recentemente reduzida para dois anos de prisão.

Na Arábia Saudita, outro blogueiro, Raif Badawi, está preso desde 2012 por "insultar o Islã por meio de canais eletrônicos", apesar de existir uma mobilização internacional por sua libertação.

Um estudante de direito de Bangladesh que expressou seu ponto de vista secular na internet morreu após um ataque perpetrado por extremistas religiosos em 2013.

A lista continua.

No entanto, para muitos analistas, a razão para o aumento no registro destes casos é que, embora a religiosidade esteja aumentando no mundo, também é crescente o número de pessoas que não se identificam com crença alguma.

O centro de pesquisas Pew Research Center estima que o número absoluto de pessoas sem filiação religiosa (ateus, agnósticos e aqueles que não se identificam com nenhuma religião em particular) aumentará em todo o mundo para 1,2 bilhão em 2060, ante 1,17 bilhão hoje - embora o crescimento previsto não seja tão rápido como o de fiéis de algumas religiões.

"Os não religiosos são hoje a terceira maior população por categoria de crença no mundo", diz Lee. "E nem sequer temos um vocabulário específico para nomeá-los, apenas uma identidade negativa".

"Em alguns países, os governos frequentemente vêem os ateístas como pequenos grupos, mas é precisamente por conta das ameaças que eles podem sofrer que eles não se revelam como ateus. Então, há também um problema de invisibilidade", acrescenta McLelland.

Críticos ao relatório argumentam que a metodologia pode deixar a desejar ao tentar retratar uma realidade precisa.

Por exemplo, um país secular com uma divisão clara entre Igreja e Estado, e com leis que proíbem explicitamente a discriminação baseada na religião, pode ter um desempenho ruim por conta de apenas uma subcategoria (se o Estado patrocina escolas religiosas ou dá isenções fiscais às igrejas).

"As realidades em todo o mundo e o grau de infração variam enormemente, é difícil fazer uma comparação", diz Lee.

Em todo caso, os não religiosos tendem a não estar sozinhos nos países onde as violações graves são gritantes - os crimes contra ateus não são "eventos desconectados, mas parte de um padrão".

"Como podemos ver no relatório deste ano, os direitos humanos tendem a ficar em pé ou a cair juntos", escreveu o presidente da IHEU, Andrew Corpson.

"Quando os não religiosos estão sendo perseguidos, geralmente isto é um indicativo de que as minorias religiosas (ou outras minorias, como as de gênero) também são. Não é uma coincidência".



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