sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Ricardo Boechat e a depressão



Ontem, 27/08/15, o jornalista Ricardo Boechat deu um depoimento contundente e revelador sobre a depressão que o vitimou, na sua página no facebook:




Acho que devo uma explicação às centenas de pessoas que me escreveram nos últimos dias perguntando o que eu tinha e desejando minha pronta recuperação.

Pois bem, queridos amigos, o que eu tive foi um surto depressivo agudo. Minutos antes de começar o programa de rádio da quarta-feira retrasada eu simplesmente sofri um colapso, um apagão aqui no estúdio. Nada na minha cabeça fazia sentido. Nenhum texto era compreensível. Os pensamentos não fechavam e uma pressão insuportável dava a nítida sensação de que o peito ia explodir. Fiquei completamente desnorteado e achei melhor me refugiar no meu camarim e esperar socorro médico. Quando finalmente minha doce Veruska me levou ao doutor e eu descrevi o que estava sentindo ele foi categórico em dizer que era depressão. Que o estado de pânico, a balbúrdia mental, a insegurança e tudo mais eram sintomas clássicos do surto depressivo.

Quem cai num quadro desses perde qualquer condição de continuar ativo, de pensar as coisas mais simples. A pessoa morre ficando viva.

E eu fiquei impressionado nestes dias com a quantidade de gente que sofre do mesmo problema. Quando contei a alguns ouvintes que me ligaram o que estava acontecendo, muitos disseram já ter passado por isso, ou conhecer alguém que ainda passa ou já passou.

O Barão me mostrou um vídeo produzido pela ONU indicando que esse fenômeno é global. Uma amiga minha citou números da Organização Mundial da Saúde afirmando que a depressão é a doença que mais cresce no mundo. E o Bruno Venditti me mandou um texto muito bom do pregador Élder Holland sobre o assunto.

Tanto o vídeo da ONU quanto esse texto deixam claro que é importante não esconder a doença, não esconder a depressão. Não tratá-la na clandestinidade. É importante aceitá-la para combatê-la - e todo o silêncio, do próprio doente ou de quem está à sua volta, dificulta a recuperação. Essa necessidade de não fazer segredo, além da sinceridade que faço questão de manter na relação com os ouvintes, é a razão deste depoimento pessoal.

O texto que eu li fala do “transtorno depressivo maior” lembrando que isso não significa apenas um dia ruim, ou um contratempo, ou momentos de desânimo ou ansiedade, que são coisas que todos temos normalmente.

A depressão é muito mais que isso e muito mais séria. É uma aflição tão severa que restringe a capacidade de uma pessoa funcionar plenamente, um abismo mental tão profundo que ninguém pode achar que vai se safar apenas endireitando os ombros ou pensando coisas positivas.

Não, minha gente, essa escuridão da mente e do estado de espírito é mais do que um simples desânimo. É um desequilíbrio da química cerebral, algo tão físico quanto uma fratura óssea, ou um tumor maligno. É um fenômeno que atinge todo mundo: quem perde um ente querido, mães jovens com depressão pós-parto, estudantes ansiosos, militares veteranos, idosos de uma maneira geral e pais preocupados com o sustento da família.

A depressão não escolhe vítimas por seu grau de instrução ou situação econômica. Castiga sem piedade e da mesma forma pobres e ricos, anônimos e famosos.

Os médicos que estão me tratando disseram que eu estiquei a corda demais, que fiz mais coisas do que deveria fazer e em menos tempo do que seria razoável. Eu fui além dos limites que minha saúde permitia e ignorei todos os sinais físicos e avisos domésticos. Quantas vezes a minha doce Veruska me disse: "Você vai pifar! Você vai pifar!"...

O texto que eu li ensina que para prevenir a doença da depressão é preciso estar atento aos indicadores de estresse em sua própria vida. Assim como fazemos com nosso carro, é fundamental observar a temperatura do nosso motor interno, os limites de nossa velocidade, ou o nível de combustível que temos no tanque. Quando ocorre a “depressão por exaustão”, que foi o meu caso, é preciso fazer os ajustes necessários. A fadiga é o inimigo comum e recuperar forças passa a ser uma questão de sobrevivência.

A experiência mostra que, se não reservarmos um tempo para nos sentirmos bem, sem dúvida depois teremos que dispender tempo passando mal. E foi o que aconteceu. Mas a cura existe. Às vezes requer tratamentos demorados. Mas, como está no texto que eu li, "mentes despedaçadas também podem ser curadas, assim como corações partidos".

Eu sei que quem liga o rádio numa estação de notícias quer receber informações de interesse geral, quer saber da política, da economia, dos acidentes, do engarrafamento nosso de cada dia.

Então peço desculpas por não entregar nada disso a vocês neste papo inicial no dia de minha volta. Nada de impeachment, de renúncia, de Cunha, de Renan, de inflação, do ajuste fiscal e de tantas outras coisas que só têm feito infernizar nossas vidas mas que são as manchetes do momento.

Não falei neste bate papo nem mesmo das abobrinhas de que eu gosto tanto e que nos ajudam a cumprir a jornada diária sofrendo menos.

Este papo de hoje é sobre depressão. Um mal que afeta milhões de pessoas, milhares delas no Brasil, um mal sobre o qual é preciso estar informado e não fazer segredo.

Como eu agora me descobri fazendo parte dessa população doente, pensei muito nas noites sem dormir dos últimos dias e tomei a decisão de dividir essa experiência com vocês. Se com isso eu conseguir ajudar algum ouvinte a prevenir a depressão ou a curá-la, já me dou por satisfeito.

E toca o barco.



quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Marco Feliciano também quer liberdade de expressão só pra ele

Seguindo o exemplo de Silas Malafaia, Marco Feliciano quer liberdade de expressão só pra ele e não consegue distinguir uma piada da realidade.

A matéria é do Brasil Post:

Feliciano processa Sensacionalista por se sentir 'abalado moralmente e torturado'

Grasielle Castro

O pastor Marco Feliciano (PSC-SP) não soube lidar com as brincadeiras do site Sensacionalista e entrou na Justiça contra a página humorística. Ele pediu para não virar mais piada no site, quis danos morais pelas postagens já publicadas e ainda solicitou segredo de Justiça.

As alegações do deputado, entretanto, não foram acatadas pelo juiz Raimundo Silvino da Costa Neto, da Sétima Vara Cível de Brasília.

No despacho, o juiz argumenta que "o site em referência trata-se de atividade vinculada diretamente à imprensa humorística, retratando notícias com base em situações inusitadas e com caráter de comédia, sendo sabido que todos os leitores detêm conhecimento que suas matérias não retratam a realidade."

Ainda de acordo com Neto, a retirada imediata desse conteúdo fere o direito constitucional de livre imprensa e repúdio à censura.

De acordo com o Sensacionalista, a postagem que motivou a ação foi publicada no dia em que os Estados Unidos aprovaram o casamento gay, “Marco Feliciano cancela a remessa de Xampu comprado em Miami”.

O site explica que o deputado se sentiu ofendido, “abalado emocionalmente e torturado conscientemente, não podendo suportar a ideia de que qualquer pessoa possa acessar esse tipo de site virtual”. Procurado, o parlamentar não retornou.



quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Malafaia se engalfinha com Dilma Bolada no Twitter


Já que há um bom tempo Silas Malafaia preferiu partir para a militância política no mais baixo nível em vez de pregar o evangelho, não é surpresa que ele arranje muitas confusões no mundo virtual.

A encrenca da semana passada foi arranjada com Jeferson Monteiro, criador do perfil "Dilma Bolada" no Twitter com ramificações nas demais redes sociais.

Diante da denúncia da revista Época dando conta de que Monteiro recebe 20 mil reais por mês para manter o referido perfil ativo, Malafaia não teve dúvidas, chamou o rapaz de "bandido".

Este, por sua vez, não se fez de rogado e rebateu imediatamente a acusação, dizendo que "bandido é quem extorque em nome de Deus e com isenção fiscal".

Vai ver estão faltando esses dois versículos do capítulo 4 de Colossenses na Bíblia do Malafaia:
5 Andai em sabedoria para com os que estão de fora, usando bem cada oportunidade. 
6 A vossa palavra seja sempre com graça, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um.




terça-feira, 25 de agosto de 2015

Três tristes trens trincharam o transeunte nos trágicos trilhos do RJ


Com o perdão do péssimo trava-línguas do título acima, a vida real do brasileiro consegue ser ainda mais trágica do que a nossa vã política consegue imaginar.

Vitor Hugo Brandalise consegue sintetizar brilhantemente, no artigo abaixo publicado no Estadão de 23/08/15, os horrores a que são submetidas pessoas comuns pelas quais cruzamos na vida cotidiana.

Adilio Cabral (foto acima) era uma delas: menino pobre, abandonado na infância, ex-presidiário, tentando se recuperar como camelô e frequentando uma Assembleia de Deus, terminou sendo atropelado por três trens porque, como na canção "Construção" de Chico Buarque, estava "atrapalhando o tráfego".

Eunice, sua tia e mãe adotiva, teve que enterrar o quarto filho enquanto enfrenta uma quimioterapia para tratar de um câncer de estômago.

Esta é uma crônica tragicamente brasileira, com o depoimento - inclusive - de quem foi vítima de seu passado criminoso.

Leitura mais que obrigatória - para travar a sua respiração - a seguir:

Por cima, não: ‘acima’

Como uma questão semântica foi usada para desumanizar o ambulante Adílio Cabral, que ficou por baixo dos trens na Estação Madureira

Adílio morreu e, em vez de reza, recebeu uma ordem:

– Sai daí, ô, peste! Tá vindo o trem! – gritou um passante.

Como estava caído na linha férrea e não se mexia, o povo entendeu – “Ih, já era” –, e o caso ganhou urgência. Já tinha passado o trem modelo chinês, o diretão para a Central, o mais rápido e silencioso, que colheu o Adílio pelas costas e o jogou ao chão, com a cara na brita e o tronco desconjuntado. Pra ele pelo visto não tinha mais jeito, mas, e se vem outro trem, que fazer com o ambulante escangalhado bem no meio do ramal? Não deu tempo nem pra foto de celular, quanto mais pra um lamento, porque, de fato, lá vinha outra composição, e vinha com tudo.

– Ai, não vai dar pra parar! É um sem-serviço, tá rápido demais –, disse uma funcionária de lanchonete da Estação Madureira, onde tudo isso se deu, na zona norte do Rio. O trem vinha veloz, pois os sem-serviço só param na Estação Central, e não seria por causa de qualquer Adílio Cabral dos Santos, um homem negro de 33 anos que vendia doces na estrada de ferro, que aquela composição mudaria de planos.

Oito vagões passaram por cima dele, sempre em boa velocidade, estalando e guinchando, e o Adílio por baixo. O trem chacoalhando e soltando uns vapores, e o povo na plataforma só esperando. Foram-se os vagões e reapareceu o Adílio no dormente, ainda de bruços, com as pernas arqueadas e as mãos unidas acima da cabeça. Parecia até que descansava, não fosse a camiseta branca rasgada e ensanguentada, com umas marcas pretas de graxa. Tinha sido um presente da mãe de criação, Eunice, logo que ele deixou a cadeia, em outubro passado.

Uns três minutos se passaram, o povo estupefato desembainhou celulares e registrava o pobre-diabo, quando se percebeu a vinda de mais um trem. Foi recebido com alívio porque vinha devagar.

– Ufa! Agora é trem parador, não vai ter problema – disse a estudante Quézia Cristina de Lima, moradora da Baixada Fluminense, que assistia a tudo debruçada na cerca azul da plataforma, junto a centenas de outros passageiros. Quatro homens se aproximaram de Adílio: um guarda, dois agentes de linha e um paisano. O parador se aproximou com lentidão e estacou a dois metros do ambulante. Agora alguém filmava. Parecia que acabaria ali, mas o povo notou que o agente, vestido com o uniforme laranja da concessionária Supervia, fez sinal para o maquinista seguir adiante.

– Mas o rapaz continua na linha! – protestou Quézia, quase formando um L com o corpo, de tanto que se debruçava. Lá embaixo a máquina parecia indiferente. Era terça-feira, 28 de julho, às 16h20 – ainda fora do horário de pico. O trem voltou a se mover. Começou uma gritaria.

– Não aguento ver! Vai esmagar! – disse um rapaz, virando o rosto para o lado.

O condutor empurrou a alavanca e mais um trem, o terceiro, passou por cima do que já não era o Adílio, nem era ninguém. Quézia pensou no irmão mais velho, que para ela lembrava o homem deitado na linha. Anderson Medeiros, que vende lupas na estação, pensou no filho. “Não é um bicho, pelo amor de Deus!”, comentou o camelô, que escutou frases como “nem se fosse cachorro!” e “que sacanagem é essa?”

Um agente percebeu os ânimos do povo e interveio: “Se parar vai atravancar tudo e vai ter quebra-quebra”. Levou uma vaia, mas adivinhou o que diria seu empregador. A SuperVia alegou que 6 mil pessoas estariam em risco se os trens parassem e, por isso, teve de orientá-los a prosseguir. A concessionária informou também que só autorizou a passagem “após certificar-se de que não haveria contato com o corpo”.

Na semana passada em Madureira, no subúrbio, um lugar descrito por Lima Barreto como “refúgio dos infelizes” e por João Antônio como Rio Esquecido, Rio Abandonado e Rio Tristeza, um outro guardinha da estação resolveu com brilhantismo o dilema que atravessara o bairro.

– Por cima, não: passou “acima” – disse, em tom professoral, e prosseguiu a aula – E se o trem tivesse 3 metros, 4 metros de altura? Aí poderia? E se ele tivesse morrido embaixo de um viaduto, os carros continuariam circulando em cima, não é?

Fácil assim: trocou uma palavra e a decisão pareceu-lhe tão comum quanto a superlotação dos trens, a afobação geral nas plataformas, as 21 pessoas atropeladas nos trilhos neste ano. E assim a história de Adílio – logo ele que gostava de um samba – veio a assemelhar-se à canção de João Bosco: “Tá lá o corpo estendido no chão / Em vez de rosto uma foto de um gol / Em vez de reza uma praga de alguém / E um silêncio servindo de amém”.

Verdade que o rosto do Adílio só se viu quando a polícia divulgou um 3x4 seu, três dias depois de morto. Pouco se soube dele. Não se falou quem foi o Adílio, que nasceu em Queimados, na Região Metropolitana do Rio, e que ainda criança se mudou com a família para a Favela da Serrinha, berço da Império Serrano. Quando mais novo, ajudou a montar carro alegórico e participava de ensaios. Aprendeu a tocar bateria e teclado. Gostava de música, o Adílio, e também de futebol. Foi batizado em homenagem ao meia do Flamengo, e essa foi a única herança dos pais que receberia – aos 3 anos foi abandonado e quem o criou foi a tia Eunice, a quem chamava de mãe.

Largou a escola na sétima série, o que é um perigo para quem vive naquelas bandas – a castigada zona norte tem 650 mil pessoas vivendo em favelas, 45% da população favelada do Rio. Adílio beirou o crime até cair nele de vez. Dos pequenos furtos aos assaltos mais violentos foi um pulo e ele logo caiu em cana. Quatro vezes. Tanto fez que o irmão mais velho, Elcio, passou a repetir que o mais novo tinha “paixão pelo xadrez”.

Adílio tinha uma história, assim como os seus familiares. Ela não podia ser vista dos monitores da sala de comando lá na Central do Brasil, a 20 quilômetros de Madureira, onde um gerente decidiu deixar os trens passar. Tampouco se soube por lá que o homem nos trilhos era o quarto de seis filhos que a mãe, Eunice, enterrava. Ela também soube por uma tela, a da TV, sobre o atropelamento em Madureira – viu no telejornal da tarde e, desde o início, achou aquilo absurdo. Mas só descobriu que o borrão no vídeo era seu filho dois dias depois, quando o mesmo jornal deu o nome do atropelado.

No pátio de um hospital da zona norte, enquanto a mãe se submetia a uma sessão de quimioterapia (Eunice trata um câncer no estômago), Elcio relembrou o que sabia da trajetória do irmão.

Ao deixar a cadeia pela última vez, após cumprir nove anos por assalto à mão armada, Adílio prometera à mãe que não seria mais preso. Trocou o samba pelo gospel e voltou a tocar teclado nos cultos da Assembleia de Deus. À noite, trabalhava na lanchonete de Elcio e, até aqui, não voltara a ter problemas com o goró. Celular ele agora tinha também, comprado com recursos próprios. “Tava diferente, não ficava mais dando mole à noite”, disse o Elcio.

Vivia com a mãe e, nos nove meses entre a saída da prisão e a morte nos trilhos, conseguiu guardar “um qualquer”. Comprou um aparelho de som para animar a casa e, outro dia, foi visto dançando na cozinha no meio da tarde. Elcio o flagrou:

– Tá contente, é, malandro? Tá vendo como é melhor ter seu dinheirinho?

Adílio criara uma rotina: acordava às 7h e descia o morro até o Mercadão de Madureira, a 200 metros da estação. Ali comprava doces pra vender no pico da manhã. Depois, cometia uma transgressão: subia até a metade da escadaria lateral da estação, apoiava-se no outdoor de uma pastelaria – “Salgado & Cia, o melhor pastel do Rio” –, esquivava-se do arame farpado e caía direto na linha. Cruzava correndo e entrava no primeiro trem, para driblar os fiscais. Foi numa dessas que caiu no trilho na hora errada, justo quando o trem chinês estava para chegar.

O ambulante passava o dia no vaivém: vendia doces nos vagões até acabar a mercadoria, voltava ao Mercadão, pulava mais uma vez a cerca e tornava a se espremer no trem de subúrbio. Economizava R$ 12,80 todos os dias ao evitar as catracas. Devia tirar uns R$ 70 por dia, estimou um outro vendedor.

No pico da tarde, a Estação de Madureira inunda de gente cansada correndo pra chegar logo em casa. Nesse horário, 200 mil pessoas se acotovelam no sistema. O rumor é de passos apressados, apitar de trens e buzinas de carros. O cheiro de churrasquinho se mistura ao de pipoca doce e à fumaça dos escapamentos. Os ambulantes sabem que, nesse horário, a prioridade dos fiscais não é persegui-los. “Kit café por R$ 10”, anuncia um. “Ajuda aí, mermão, me ajuda a arrumar um troco pra escapar desse sufoco.”

Nos últimos meses, escapar do sufoco, para Adílio, significava juntar dinheiro para abrir uma barbearia. Fizera curso de cabeleireiro quando novo e, na cadeia, exercera essa função. Um dia, ao ver juntos o Elcio e a mulher, Roberta, casados há 18 anos, Adílio disse que pretendia se arranjar. “Talvez esse fosse o melhor momento da vida dele, quem sabe? Mas, num piscar de olhos, tudo muda”, disse o Elcio.

Os três atropelamentos do Adílio só ficaram conhecidos porque alguém filmou. Quem primeiro publicou foi o Guadalupe News, site que denuncia o tráfico de drogas em Guadalupe, um bairro da zona norte cercado de morros dominados pelo Comando Vermelho. “O objetivo é melhorar a cobertura da imprensa, que não tem interesse por bairros pobres e favelas. Nesse caso, foi só o pessoal da Globo mostrar para a Supervia admitir o erro”, disse o editor do site, um estudante de Administração de 21 anos que pediu anonimato, “pra não facilitar pra traficante”.

Uma página do Facebook de nome SuperVia: vergonha do povo carioca também expôs em vídeo a tragédia de Adílio no dia da ocorrência. “Foi uma decepção como os seguidores receberam. A maioria concordou que, se o trem parasse, atrapalharia o sistema”, disse Vitor Guimarães, de 27 anos, administrador do perfil. “Uma visão tão pouco solidária. E quando souberam que era ex-presidiário reagiram mal, como se fosse um ser humano menos importante.”

Comentaristas de redes sociais, sabemos como podem ser. Mas a reação ao vivo não foi bem essa. As pessoas debruçadas na cerca não sabiam que o corpo era de ex-presidiário – faria alguma diferença naquele momento? E o que poderiam dizer sobre o destino de Adílio as vítimas de alguns dos crimes que ele cometeu?

Em 1.º de abril de 2002, logo após praticar um assalto na Tijuca, Adílio e dois comparsas decidiram roubar um carro para fugir. Depararam-se com um Fiat Tipo prata e renderam o condutor, Ricardo Nunes, um motorista contratado. No banco de trás havia duas crianças, que voltavam da aula no Colégio Cruzeiro, um dos mais tradicionais da elite carioca. Rinúccia La Ruina tinha 14 anos quando isso aconteceu, e um outro menino, chamado Guilherme, tinha 10. Adílio, com a arma na mão, sentou ao lado do garoto.

Circularam por 15 minutos e Adílio se manteve calado e com a arma apontada para o chão. Os criminosos rumaram para o Morro da Mangueira. Um motorista que vinha atrás percebeu e parou uma viatura. Antes de subirem o morro, eles foram rendidos. O crime resultou em 9 anos de prisão para Adílio. Ao sair do carro, a garota de 14 anos, amparada por ambulantes, chorou.

Rinúccia, hoje aos 27 anos, é advogada, com passagens por escritórios como o do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, onde estagiou em 2011. Ela nasceu e cresceu na zona norte, bairro de Irajá, e hoje faz mestrado em Freiburg, na Alemanha. Soube do atropelamento pela internet e, sem conhecer a ligação com o sequestro relâmpago de 2002, sentiu compaixão pelo homem nos trilhos. “Podia ser um conhecido, muitos amigos usam o trem”, comentou. Ao saber quem era ele por intermédio do pai, que soube do fato por mim, Rinúccia releu a notícia. Sua opinião não mudou. “Não importa se a pessoa é um ex-presidiário, se é negro ou branco. Se cometeu um equívoco, ele pode pagar judicialmente. Não sei o que pensaria se o assalto tivesse sido pior, mas, como acabou bem, costumo lembrar disso quando falo da violência no Brasil. Agora posso adicionar um detalhe: ele sai da prisão e vira ambulante ilegal no trilho do trem. Isso é um sistema penal que capacita a pessoa?”

O pai de Rinúccia e dono do Tipo roubado, o auditor fiscal Savério La Ruina, foi três vezes candidato a deputado federal pelo Partido Popular Socialista e vive no Irajá desde os anos 1960. Suas plataformas são mobilidade urbana a todos e educação em tempo integral. “Essa pessoa teve creche, escola profissionalizante? Funciona assim: negam-se as letras, negam-se as luzes e depois eu te acuso: bandido! São tantos direitos negados que não é surpresa que, no fim, ele tenha sido tratado como um nada.” Faz lembrar o que disse o irmão de Adílio quando perguntei sua opinião sobre quem decidiu deixar o trem passar. “Se estivesse na linha um bacana de terno, será que deixariam? Por isso o nosso país está do jeito que está. Um só quer passar por cima do outro.”

O corpo de Adílio foi tirado dos trilhos às 20h50 daquela terça, após a perícia – um laudo sai em setembro. Foi enterrado no Cemitério de Irajá três dias depois. A mãe de criação adicionou um novo túmulo ao périplo dominical que faz às covas rasas dos filhos. Pensa em Adílio à tarde, quando liga o rádio que ele lhe deu. Na casa da Serrinha, ela guarda também uma caixa de sapatos que era dele. Ali ficava o dinheiro que Adílio juntou na linha do trem e que planejava usar pra tentar sair lá de baixo.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

No conflito entre Israel e Palestina, sobrou até para Matisyahu na Espanha

Graças a YHWH por não haver limites para a mensagem e o talento de Matisyahu.

Os leitores que acompanham o nosso blog há alguns anos já devem ter percebido que o nosso rapper preferido é Matisyahu, com sua mistura de rap, hip hop e reggae difícil de imaginar para um judeu de origem ultra-ortodoxa.

Seja cantando, seja fazendo a barba, seja estrelando filme de exorcismo judaico, Matisyahu é figurinha carimbada aqui no blog. Talento ele tem de sobra e nós somos fãs de carteirinha.

O Rototom SunSplash é um conceituado festival de reggae realizado anualmente em Benicassim, região litorânea próxima a Valencia, na Espanha, que convidou Matisyahu para se apresentar.

Sabedor disso, o grupo intitulado Boycott, Divestment, and Sanctions (BDS) se manifestou contrário à apresentação do cantor judeu nascido nos Estados Unidos, devido ao que chamou de "sua posição sionista", ou seja, pró-Israel.

A organização do festival então pediu que Matisyahu fizesse uma declaração pública repudiando a política israelense em relação aos palestinos, o que o rapper nem se deu ao trabalho de responder.

Matisyahu preferiu se manifestar na sua página no facebook, em 17/08/15, dizendo que apoiava paz e compaixão para todas as pessoas, que sua música falava por si mesma e que não mistura política com sua arte. 

Diante disso, ele foi "desconvidado" para o festival, mas a repercussão foi extremamente negativa para os organizadores. O governo espanhol e as embaixadas de Israel e dos Estados Unidos no país protestaram, e não houve outra maneira senão pedir desculpas e "reconvidar" Matisyahu para se apresentar no SunSplash, o que ele prontamente aceitou alegando que sua maior motivação para tanto era privilegiar a liberdade de expressão.

Depois do rebuliço, a própria representação local do BDS desconversou de maneira um tanto quanto truncada, dizendo que não era bem assim e que Matisyahu seria bem-vindo à Espanha.

Para felicidade dos fãs espanhóis e de todos que compreendem e espalham a mensagem pacifista do rapper judeu, o bom senso prevaleceu e ele compareceu - sim - ao festival.

O concerto de Matisyahu aconteceu no último sábado, 22/08/15, e - ao contrário do que muitos imaginavam - tudo transcorreu de maneira tranquila. 

Terminada a apresentação, ele postou no seu facebook:
Esta noite foi difícil, mas especial. Obrigado a todos que a permitiram! Qualquer chance de fazer música é uma bênção!
No vídeo abaixo, você pode ver que há várias bandeiras da Palestina no meio da multidão que acompanhou o show, mas isso não impediu Matisyahu de se apresentar e cantar seus sucessos, entre eles "Jerusalem", que é exatamente a música que ele canta para a plateia.

Inclusive há uma pessoa na audiência segurando um cartaz com a inscrição "Peace for Jerusalem" ("Paz para Jerusalém").

Neste mundo tão conturbado pela intolerância e incompreensão, a manifestação pacífica de Matisyahu precisa ser constantemente ouvida:




domingo, 23 de agosto de 2015

Após trauma do hino, Vanusa diz que "isso tudo é frescura"


Entenda o porquê na interessante entrevista que ela deu ao Estadão de 21/08/15.

Leia até o final, vale a pena:

Depois do trauma, Vanusa anuncia disco novo e tem obra relançada

Seis anos depois de ser ridicularizada por uma interpretação do Hino Nacional, a cantora comemora retorno e diz que ainda sofre da Síndrome do Pânico que desenvolveu depois do episódio

Julio Maria

Aos 2 minutos e 27 segundos do Hino Nacional, Vanusa procurou por uma palavra na folha de papel à sua frente e não encontrou. Sentia-se mal, sob o efeito de remédios, e insegura por não saber os versos de cor. Depois de “és belo, és forte” vacilou, trocou “impávido colosso” por “és risonho” e a Assembleia Legislativa que a assistia em continência petrificou. Na sequência, a cantora perdeu também o controle da melodia e seguiu um calvário por cinco minutos e meio como se caminhasse lentamente para a própria execução.

Vanusa ainda luta para se recuperar do que ela chama de um de seus maiores sofrimentos. Quando percebeu o devastador alcance de um vídeo de sua performance colocada no YouTube, decidiu não cantar nunca mais. Entrou em profunda depressão, ficou internada por seis meses com quadro de Síndrome do Pânico e, mesmo depois da alta, seguiu em fases de total reclusão, seções de terapia e muitos medicamentos.

Aos 67 anos, seis depois do episódio, ela sente que a virada está próxima. Seu primeiro disco em 20 anos, com produção de Zeca Baleiro, será lançado no próximo mês e duas caixas com oito CDs resgatados pelo selo Discobertas, do produtor Marcelo Fróes, com o que ela fez de melhor em sua carreira, entre 1967 e 1979, já estão sendo distribuídas. Vanusa abriu a porta de seu apartamento na Avenida Rio Branco para o Estado. Fumando bastante, mas tranquila, parecia desarmada de rancores e leve para concluir até mesmo que o Hino Nacional que quase a enterrou viva tem sido uma porta de entrada para que outras gerações a conheçam.

Não atrapalha o fato de verem você ainda como uma integrante da Jovem Guarda?

Pois é, me chamaram agora mesmo para uma festa dos 50 anos da Jovem Guarda. Gente, esse povo não coloca na cabeça que eu não fiz parte da história da Jovem Guarda! Havia dois grupos. O do Roberto Carlos na TV Record e o do Eduardo Araújo, Carlos Imperial e Os Incríveis na Excelsior. Eu fazia parte desse último. Um dia, recebi o convite para fazer o programa do Roberto e fui. Mas foi o último programa do Roberto. Eu não era da Jovem Guarda, não usava aquelas roupas, tinha um estilo próprio. E minhas músicas eram diferentes.

Havia muito rock and roll naqueles seus discos dos anos 70...

Olha aqui (mostra que veste uma camiseta de Janis Joplin). Eu ouvia Bob Dylan, Janis, Doors. Meu pai era técnico de eletrônica e recebia LPs de clientes que não tinham dinheiro para pagar o trabalho dele. Você já ouviu minha What To Do?

Sim.

Então, disseram até que ela foi uma cópia da música do Black Sabbath (Sabbath Bloody Sabbath), mas pedi uma pesquisa e concluíram que eles lançaram a música depois de mim (os dois álbuns saíram em 1973). Se alguém copiou alguém, então, foram eles.

A música que você fez nesta época não deveria tê-la aproximado mais da MPB?

Era essa a minha ideia, eu queria exatamente isso. Eu adorava letras, fui a primeira pessoa a gravar Zé Ramalho (Avohai).

Mas o que a impediu de fazer parte desse cenário?

O preconceito, o fato de me enxergarem como cantora de iê-iê-iê. Mas eu não dava muita bola para isso, consegui passar, subir alguns patamares, mesmo assim. Quando eu estava casada com o Antonio Marcos, ele chegou em casa dizendo que havia feito uma música linda em parceria com o Sérgio Sá para ser gravada pela Elis Regina. Eu comecei a ouvi-la e, quando acabou, eu disse: “Não, essa música não é para a Elis, essa música é minha”. Ele disse que era a chance de ser gravado pela Elis, mas eu bati o pé: “Não me interessa, essa música é minha, é a minha cara”. Ele insistiu e eu disse: “Ah é? Você vai dormir no sofá da sala enquanto não resolver”. Ele dormiu no sofá até o dia em que bateu na porta: “Tá bem, eu dou a música que você quer, mas me deixa dormir na cama”. A música era Sonhos de Um Palhaço.

Você teve algum confronto com Elis Regina?

Foi catastrófico. Uma vez fomos fazer um show no Recife, em um ginásio imenso. Eu, ela, Wanderley Cardoso e Nelson Ned. Eu, que estava prevista para cantar por último, só escutava ela gritando: “Eu não quero saber, eu quero encerrar a noite”. O empresário tentou explicar que meu show era muito para cima, que depois de mim ficaria difícil, mas ela gritou, bateu o pé. Eu chamei o empresário e disse: “Deixe ela encerrar”. E então, entramos em sequência o Nelson Ned, o Wanderley Cardoso e eu. Aí arrebentei mesmo, rolava no chão no final da música Era Um Garoto.... Depois de acabar, saímos todos, não ficamos para o último show, e quando já estávamos no carro, ouvimos o povo vaiando muito Elis. Mas o erro partiu do empresário, porque ali não estava o público dela. Imagine ela ali, só com o Baden Powell ao violão?

Pode ter sido a única vaia na vida de Elis.

Pergunte ao Wanderley Cardoso, ele deve se lembrar. Elis era muito arrogante, mas eu tenho que dizer uma coisa: quando ela cantava, eu prestava atenção. Ela era perfeita, era um instrumento.

Você nunca tentou imitá-la?

Não, pelo contrário. Quando gravei Sonhos de Um Palhaço, fui para casa ouvir e, quando acabou, liguei para o produtor e pedi para refazer a voz. Achei que estava muito parecido com a voz da Elis.

Você fala de Antonio Marcos de forma carinhosa. Foi ele o amor da sua vida? (Ela foi casada também com o diretor de TV da Globo, Augusto César Vanucci)?

(Silêncio). Sim. Eu estava na RCA e o vi na sala de espera. Nós nos olhamos e foi aquela coisa. Eu namorava o cantor Fábio na época. Saí de lá, peguei o carro e fui ver o Fábio: “Eu vim aqui terminar com você”. E ele: “Como assim, o que eu fiz?”. “Nada, mas eu conheci o homem da minha vida. Não conversamos ainda, mas eu o vi e, se ele me quiser, quero estar livre para ficar com ele.” Um mês depois, fui a uma festa na casa do Antonio Marcos e fiquei lá para sempre.

E o que pode dizer que aprendeu com ele?

A dar entrevistas, por exemplo (risos). Ele falava muito bem, e eu era tímida. Um dia, perguntei o que ele fazia? “Vanusa, o segredo é o seguinte: se você não quiser responder a alguma pergunta, desvie o assunto antes que o jornalista chegue ao fim dela.” Eu apaguei as coisas ruins e só guardei as boas. O sofrimento acontece, brigas de casal, esqueci isso tudo. Quando recebi a caixa dele (lançada também pelo selo Discobertas), eu chorei. Tenho que tirar um dia inteiro para ouvir, porque eu choro do início ao fim (Antonio Marcos morreu em 1992).

Você chegou à Globo, gravou trilha para o ‘Fantástico’, esteve no auge. O que houve para esse sucesso escapar da sua mão?

Antes mesmo de me casar com o Vanucci, eu ia ao Globo de Ouro, ao Fantástico, estava na Globo toda semana. Então nos casamos e todo mundo dizia que eu estava na Globo por causa dele. Quando ele morreu (em 1992), eles simplesmente me cortaram da emissora. A filha da Débora Duarte faz novela, a Luiza Possi (filha de Zizi Possi) canta na Globo, e canta muito bem, mas eu fui cortada. Não sei explicar como.

O episódio do ‘Hino Nacional’ enterrou sua carreira?

Foi uma maldade de quem fez, de quem retirou aquela gravação da Assembleia. Eles cortaram a parte inclusive em que eu desmaiei depois de cantar. Eu comecei a cantar e não sabia mais o que estava fazendo, e pouca gente sabe ainda que eu desmaiei. Mas olha só: com essa história do Hino Nacional, até as crianças de 5 anos passaram a me conhecer. Os pais colocam a imagem para elas darem risada de mim.

E isso não perturba você?

Meu Deus, eu tive de ser internada, não queria ver ninguém. “Como pode?”, me perguntava. Eu fiz tudo certinho, cuidei do meu trabalho, fiz os discos que fiz, e, de repente uma coisa dessas joga tudo, no chão. Eu não queria mais cantar. Fiquei seis meses internada em uma clínica e fiz terapia todos os dias. Quando voltei, o meu filho Rafael veio me dizer que uma empresa de cartões de crédito gostaria de fazer um comercial comigo. Eu comemorei até ele dizer: “Só que tem uma coisa: eles querem que você cante o Hino Nacional”. Eu fiquei p... da vida. “Será que esse Hino não vai sair da minha vida!” Ele voltou e disse: “Mãe, se não for pela grana, que é uma baita grana, tem que ser pelo menos para tirar esse Hino da cabeça da senhora antes que a senhora morra com isso”. Eu topei. Fiz o comercial e não deu outra. Nada melhor do que quando você consegue dar risada de si mesmo.

E o Hino saiu de você?

Ainda faço terapia. Eu entrei em uma depressão total por causa desse episódio e ela evoluiu para Síndrome do Pânico. Quando estava internada, o Zeca Baleiro me ligou – o único artista que me ligou foi ele. Queria saber como eu estava. Um dia, disse que queria fazer um disco meu. Eu quase desmaiei, não gravava há 20 anos. O disco está para sair.

E como está hoje?

Quando fui internada, eu só queria andar no carro se fosse deitada no banco de trás para ninguém me ver. Foi uma das coisas mais sofridas da minha vida. Quando via TV, as zoações que as pessoas faziam, eu dizia “gente, trabalhei tanto para isso?”. Mas ter ido para a clínica foi bom porque eu convivi com garotos de 14 anos que fumavam crack, meninos que tinham de tomar remédio para dormir por três dias, que tinham de vencer crises de abstinência terríveis. Eu conversava com uma garota de 25 anos que a mãe foi buscar na rua, tirar das drogas. Um senhor que era viciado em sexo pegou até a irmã da mulher dele. Até que um dia ajoelhei no meio da sala, coloquei as mãos para o céu e disse: “Senhor, me perdoa porque eu não tenho problema. Não tenho problema nenhum, Senhor. Isso tudo é frescura”.



sábado, 22 de agosto de 2015

Comer pimenta pode ser o segredo para uma vida longa


É o que diz uma pesquisa da Universidade de Harvard, que segue mais abaixo.

Restam duas dúvidas cruéis entretanto, uma real e outra imaginária, se bem que a primeira é praticamente uma certeza: quem tem hemorroida ou doença hemorroidária deve continuar passando longe de pimenta?

A dúvida imaginária é uma tentativa de se fazer humor: imagine o quanto vive aquele sujeito que você chama de "seca-pimenteira"?

Confira a matéria do Brasil Post:

Pessoas que comem pimenta têm menos risco de morrer cedo, sugere pesquisa

Ione Aguiar

Boa notícia para quem curte pimenta: pessoas que comem comida picante mais de três vezes por semana podem viver mais.

Cientistas da Harvard University analisaram os hábitos alimentares e o estado de saúde de quase 500 mil chineses ao longo de sete anos, considerando fatores como sexo, idade, estado civil, frequência de exercícios, escolaridade e outros.

A conclusão do estudo, publicado no British Medical Journal, foi a taxa de mortalidade foi 10% menor entre aqueles que comem pimenta -- principalmente a fresca-- mais de uma vez por semana, e 14% menor entre aqueles que come entre três e sete vezes por semana.

"A relação inversa entre a mortalidade e o consumo de alimentos apimentados foi mais forte até do que a diferença entre os que consumiam álcool e não consumiam", disseram os pesquisadores.

Estúdios prévios já mostraram que a capsaicina, substância que faz a pimenta arder, tem propriedades antiinflamatórias, além de ser uma espécie de "antibiótico natural".

Vale lembrar que, como em quase todo estudo desse tipo, não há como comprovar relação de causalidade entre a pimenta e a taxa de mortalidade.

O fato é que quem comeu pimenta não morreu tão cedo, mas isso pode ter várias explicações. É possível, por exemplo, que pessoas com saúde mais fraca evitem coisas picantes.

Por isso, os autores do estudo não recomendam que você passe a comer pimenta todo dia se você já não tem esse hábito, principalmente se tiver o estômago sensível.

"Basta aumentar a quantidade moderadamente. Comer de uma a duas vezes por semana tem efeito muito similar a comer de três a cinco vezes", disse Lu Qi, professor da Harvard School of Public Health e autor do estudo, à Time.



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O dízimo da corrupção

Os piedosos homens da Assembleia de Deus Madureira precisam se explicar

A denúncia do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, contra o deputado evangélico Eduardo Cunha, é uma peça jurídica de 85 páginas, das quais surgem informações aterradoras quanto ao uso de uma igreja da Assembleia de Deus à qual o parlamentar é ligado. Confira:
Por fim, uma vez já consumados os delitos de corrupção ativa, o denunciado EDUARDO CUNHA ocultou e dissimulou a natureza, origem, localização, disposição, movimentação e propriedade de valores provenientes, direta e indiretamente, do crime contra a Administração acima mencionado, mediante o recebimento fracionado de valores no exterior, em contas de empresas offshore e por meio de empresas de fachada, mediante simulação de contratos de prestação de serviços e, ainda, pagamento de propina sob a falsa alegação de doações para Igreja. (pág. 5)
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Em razão da pressão exercida, os pagamentos foram retomados, por volta de setembro de 2011, após reunião pessoal entre FERNANDO SOARES, JÚLIO CAMARGO e o denunciado EDUARDO CUNHA, ocorrida no Rio de Janeiro, em 18 de setembro de 2011. O valor restante – cerca de dez milhões de dólares – foi pago por meio de pagamentos no exterior, entregas em dinheiro em espécie, simulação de contratos de consultoria, com emissão de notas frias, e transferências para Igreja vinculada ao denunciado EDUARDO CUNHA, sob a falsa alegação de que se tratava de doações religiosas. (pág. 8)
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Os valores foram transferidos por meio de quatro processos distintos de lavagem: (i) transferências para a conta da empresa RFY IMPORT EXPORT LIMITED e DGX IMP. EXP. LTD. no exterior; (ii) simulação de prestação de serviços e transferência de valores para as empresas HAWK EYES ADMINISTRAÇÃO DE BENS LTDA e TECHINIS PLANEJAMENTO E GESTÃO EM NEGÓCIOS LTDA, ambas de FERNANDO SOARES; (iii) transferências para a conta da empresa GFD INVESTIMENTOS no Brasil (de propriedade de ALBERTO YOUSSEF); (iv) transferências para Igreja Evangélica, a pedido de EDUARDO CUNHA. (págs. 72/73)
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Por fim, ainda no ano de 2012, FERNANDO SOARES ainda procurou JÚLIO CAMARGO, afirmando que faltava uma quantia a ser paga ao Deputado Federal EDUARDO CUNHA.
FERNANDO SOARES, por orientação do Deputado Federal EDUARDO CUNHA, indicou a JÚLIO CAMARGO que deveria realizar o pagamento desses valores à IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS. Segundo FERNANDO SOARES, pessoas dessa igreja iriam entrar em contato com o declarante, o que realmente ocorreu. Repassados os dados bancários da IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS para fins de efetivação dos pagamentos, foram feitas duas transferências para a IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS (CNPJ 44595395/0001-98): a) uma no valor de R$ 125.000,00 da empresa PIEMONTE em 31 de agosto de 2012; b) uma outra no mesmo valor de R$ 125.000,00 da empresa TREVISO na mesma data de 31 de agosto de 2012, em valor total de R$ 250.000,00, ambas com a falsa justificativa de “pagamentos a fornecedores”.
No e-mail em que foi solicitado o pagamento, datado de 31 de agosto de 2012, os dados são encaminhados como se se tratasse de uma “doação”. Porém, não há dúvidas de que referidas transferências foram feitas por indicação de EDUARDO CUNHA, para pagamento de parte do valor residual da propina referente às sondas.
É notória a vinculação de EDUARDO CUNHA com a referida Igreja. O Diretor da referida Igreja perante a Receita Federal é SAMUEL CASSIO FERREIRA, irmão de ABNER FERREIRA, Pastor da Igreja Assembleia de Deus Madureira, no Rio de Janeiro, que o denunciado frequenta. Foi nela inclusive que EDUARDO CUNHA celebrou a eleição para Presidência da Câmara dos Deputados, conforme amplamente divulgado na imprensa.
É digno que nota que JÚLIO CAMARGO nunca havia feito anteriormente doações para a IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS, nunca frequentou referida Igreja e professa a religião católica (Igreja Católica Apostólica Romana).
Assim, o valor total da propina residual foi paga ao denunciado EDUARDO CUNHA, bem como a FERNANDO SOARES, conforme solicitado. Tanto assim que, além de não ter havido qualquer tipo de reclamação, as pressões direcionadas a JÚLIO CAMARGO cessaram. Inclusive, este último, em outra oportunidade, encontrou o denunciado EDUARDO CUNHA em Hotel no Rio de Janeiro, ocasião em que o denunciado não apenas cumprimentou JÚLIO CAMARGO de maneira efusiva, como se colocou à disposição para qualquer outro assunto. (fls. 79/81)
A notícia do envolvimento da Assembleia de Deus já tinha circulado no fim do último mês de julho e a divulgamos aqui com o valor de R$ 125.000,00 (cento e vinte e cinco mil reais) que teriam sido desviados para a instituição religiosa.

Agora, a denúncia consolidada da Procuradoria Geral da República atualiza os valores para R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais), conforme destacamos acima, em duas parcelas de R$ 125.000,00 (cento e vinte e cinco mil reais), uma repassada pela empresa PIEMONTE e outra pela empresa TREVISO.

Eduardo Cunha, que é presidente da Câmara dos Deputados no Congresso Nacional, se defende partindo para o ataque, dizendo que está sendo vítima de perseguição pelo governo.

Seu amigo Silas Malafaia tentou se desvincular do nobre deputado, a quem apoiava ostensivamente até outro dia, desconversando e tentando fazer parecer que a coisa não é bem assim:



No que foi prontamente ironizado pelo Twitter mesmo:



De qualquer maneira, é mais um escândalo envolvendo o bom nome que os "evangélicos" um dia, num passado remoto, tiveram no Brasil, antes que "pastores" boquirrotos tentassem representá-los.

Agora, cá entre nós, do que será que Malafaia tá com medo, hein?

A íntegra da denúncia pode ser baixada clicando aqui.




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Um padre entre duas ditaduras sulamericanas


A matéria é do IHU:

'A Missão' do jesuíta Luis Caravias entre o Paraguai de Stroessner e a Argentina de Videla


Durante a visita pastoral do Papa Francisco ao Paraguai, no meio da multidão que se reuniu para ouvi-lo estava um jesuíta especial. Alguém que viu cumprir-se nas palavras de Francisco o sonho de toda uma vida. Embora em uma determinada época aqueles sonhos lhe estavam custando muito caro, e quem o ajudou nesse momento foi precisamente o jovem Jorge Mario Bergoglio. O padre José Luis Caravias seria o missionário perfeito para um filme: um herói romântico com uma ideia radical de missão, somada a uma pitada de inconsciência que o converte em candidato ideal ao martírio. O padre Caravias tinha também um defeito próprio dos romances, uma dessas características que não agradam os militares. Fundava cooperativas, organizava sindicatos, reivindicava salários dignos para as classes exploradas, apontava o dedo contra os latifundiários e os homens da lei, supondo que naquele tempo houvesse diferença entre uns e outros. 

A reportagem é de Nello Scavo e publicada por Tierras de América, 16-08-2015. A tradução é de André Langer.


Nascido na Espanha em 1935, quando terminou os estudos de jesuíta foi enviado ao Paraguai, onde começou a organizar os camponeses em cooperativas. Até o dia 05 de maio de 1972. “Um dia me fizeram entrar numa camioneta da polícia e me abandonaram em uma estrada de Clorinda (Argentina)”. Da boca do padre Caravias saíam palavras estranhas. “Democracia” era uma delas. No Paraguai, o general Alfredo Stroessner tomou o poder abolindo a Constituição. Foi o mais longevo dos ditadores latino-americanos, que permaneceu no poder de 15 de agosto de 1954 até o dia 03 de fevereiro de 1989, quando foi destronado pelo general Andrés Rodríguez. Duas gerações de cidadãos cresceram sem saber sequer o que significava liberdade de opinião.

Contou sua história em um dos dois blogs que escreve na Paróquia Cristo Rei, em Assunção. A igreja recorda vagamente as reduções, as missões jesuítas onde os filhos de Santo Inácio de Loyola restituíam direitos e dignidade aos índios ameaçados pelos conquistadores. “Conheço bem o Bergoglio. Encontrei-me com ele repetidas vezes em 1975. Foi o meu superior provincial. Ouviu-me e atendeu-me sempre com carinho. Mas eu era um problema para ele”.

Tudo começou três anos antes, em Assunção. “Foi sequestrado por um comando policial e expulso do país sem papéis na fronteira com a Argentina. A ditadura de Stroessner não poupou calúnias para sujar o meu compromisso com as Ligas Agrárias Cristãs, das quais eu era o assessor nacional”. Durante dois anos permaneceu no Chaco argentino, no extremo norte do país. Ali recomeçou do zero. “Consegui formar um sindicato dos lenhadores, cruelmente explorados pelos contratadores de mão de obra da região”.

Também desta vez não lhe perdoaram. Certa manhã, a polícia, que cumpria ordens da Junta encabeçada por Videla, apresentou-se na paróquia onde Caravias morava. Acusaram-no de repassar armas aos lenhadores. Reviraram toda a igreja, mas não encontraram nada. Então, antes de deixar o local, quebraram tudo. “O superior da Companhia de Jesus ordenou que deixássemos imediatamente a região. Pois na próxima vez a própria polícia poderia deixar uma arma plantada por eles mesmos...”. A única alternativa foi ir para Buenos Aires. “Fui para Buenos Aires, ao Teologado de San Miguel, onde passei seis meses estudando Cristologia”. “Lá comecei a incursionar nas “Villas Miseria” atendendo os paraguaios”.

Era previsível que também ali não pudesse trabalhar tranquilo. “Poucos meses depois, Bergoglio me comunicou que tinha informações de que a Tríplice A (paramilitares que preparavam o caminho para a ditadura) tinha decretado a minha morte”.

Antes de deixar a Argentina, Caravias decidiu despedir-se de seus amigos do Chaco. Não foi uma boa ideia. Foi preso junto com a religiosa que o levava no carro. “A verdade é que estavam muito bem informados sobre as minhas atividades”. Parecia “bem fichado”. Sabiam inclusive a hora e com quem tomou um sorvete nessa mesma tarde. Meteram-no num calabouço. “Quão duro me soou o barulho seco da tranca da porta! Não sabia o que seria de mim. É terrível essa insegurança!”

O cheio da cela, o travesseiro imundo, a sujeira. “Quantas pessoas teriam apoiado sua cabeça nesse travesseiro para estar tão sujo!” Foi uma noite insone, não só pelo calor e pela umidade. Antes de amanhecer, tiraram-no arrastado. Explicaram-lhe que ali tudo acabava. No meio da escuridão chegou a ver as armas que apontavam na sua direção. “Fogo”, gritou um, que devia ser o chefe. Era o rito macabro das simulações de fuzilamento. O primeiro passo para quebrar as defesas psicológica dos detidos.

Na manhã seguinte, tiraram-no novamente do calabouço. Pensou que seguramente iria “desaparecer”. Mas, na realidade, alguém interveio para que o libertassem. O jesuíta espanhol foi entregue a um monsenhor alertado por Bergoglio. Três dias depois estava em um avião rumo a Madri. “Pessimista, desanimado, com um terrível complexo de herege em meu coração, comecei o meu segundo desterro”. Mas quando chegou de volta a Espanha, ardia em desejos de voltar a ser missionário na América do Sul.

Bergoglio deu-lhe indicações precisas sobre a maneira de agir durante as conversas telefônicas e na correspondência. Escolheram a metáfora da meteorologia. Caravias perguntava como estava o clima. Bergoglio lhe respondia que a umidade do ar ainda era muito elevada, ou então que “não lhe convém vir porque faria mal à sua saúde”. Anos depois, quando finalmente houve a redemocratização do país, o padre José Luis pôde voltar. “Aqueles que pensavam como eu eram considerados comunistas. Mas Bergoglio foi um padre de coração nobre e me ajudou a fugir de uma morte certa. E por isso sempre lhe serei grato”.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Astronauta diz que extraterrestres pacifistas evitaram fim do mundo


A matéria é da revista Galileu:

Astronauta da missão Apollo afirma: Ovnis evitaram a guerra nuclear

Edgar Mitchell citou Roswell

Edgar Mitchell, participante da missão Apollo 14 e o sexto homem a caminhar na Lua, afirmou em uma entrevista recente que acredita que aliens pacifistas visitaram a Terra. O objetivo era impedir que ataques nucleares acontecessem durante a Guerra Fria. Isso, de acordo com ele, explicaria os avistamentos de Ovnis perto de bases militares na época.

“Falei com muitos oficiais da força aérea que trabalharam nessas estações durante a Guerra Fria. Eles me contaram que os Ovnis eram vistos com frequência e que eram capazes de desligar seus mísseis. Outros oficiais da costa do Pacífico contaram que os mísseis eram derrubados com frequência por naves alienígenas”, afirmou Mitchell.

Não é de hoje que sabemos que o astronauta acredita em visitas extraterrestres. Anteriormente ele já havia declarado crenças similares sobre a presença de ETs em Roswell. Ele cresceu no Novo México, próximo a Roswell, onde as primeiras bombas nucleares foram testadas. “Os ETs estavam por lá porque queriam saber da nossa capacidade militar”, afirmou.

Já falamos aqui na GALILEU sobre como, possivelmente, toda a história de Roswell foi usada justamente para acobertar operações militares. Vale a leitura!




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