quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Acidente mata três familiares argentinos do papa

A notícia é do Opera Mundi:

Acidente de trânsito mata três familiares do papa Francisco

Mulher e dois filhos do sobrinho do pontífice morreram após colisão com um caminhão do automóvel onde estavam, a caminho de Buenos Aires

Um acidente de trânsito na província de Córdoba, na Argentina, matou três parentes do papa Francisco, informou a polícia local à Agência Efe.

As vítimas pertencem à família do sobrinho do pontífice, Emanuel Horacio Bergoglio (35 anos), que foi hospitalizado com ferimentos graves.

A mulher e o filho de Emanuel Horacio Bergoglio, Valeria Carmona (36 anos) e José Bergoglio (8 meses), morreram no momento do acidente, enquanto o outro filho do casal, Antonio Bergoglio (2 anos) faleceu no hospital.

Segundo informou à Agência Efe a delegada de polícia Carina Ferreira, o acidente aconteceu após o choque do automóvel com um caminhão que circulava à frente, por causas ainda indeterminadas.

O motorista do caminhão não teve ferimentos.

O acidente ocorreu durante a madrugada na estrada que conecta as cidades argentinas de Rosário e Córdoba, no centro do país. Emanuel Horacio Bergoglio, filho de um dos irmãos do papa Francisco, se encontra internado em estado grave no Hospital Pasteur de Villa María, com vários traumatismos.

"O Santo Padre recebeu a triste notícia do falecimento de sua sobrinha Valeria e seus dois meninos de 8 meses e de 2 anos, em um acidente de trânsito", disse Guillermo Karcher, encarregado de protocolo do Vaticano, em declarações recolhidas pela agência oficial Telam.

"Sabe também que seu sobrinho Emanuel está internado em um estado muito delicado", continuou Karcher.

"Francisco agradece a oração de todos e as expressões de pêsame e de solidariedade. Estamos o acompanhando e sustentando em sua dor", acrescentou o colaborador de Bergoglio.

A família retornava à capital argentina, onde têm residência, após uma viagem de lazer.



terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ônibus invade o Templo de Salomão em SP


Edir passa bem, mas parece que os céus mandaram um recadinho. A notícia é do UOL:

Ônibus bate em carro e invade Templo de Salomão, em São Paulo

Um ônibus invadiu os jardins do recém-inaugurado Templo de Salomão, no Brás, área central de São Paulo, após bater em um carro na madrugada desta terça-feira (19). Uma pessoa ficou ferida.

O acidente aconteceu por volta das 4h30 de hoje na avenida Celso Garcia, no sentido bairro, perto da rua João Boemer, de acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).

O motorista do ônibus perdeu o controle do veículo e colidiu com um carro. O motorista do carro ficou ferido e foi levado para o pronto-socorro da Vila Alpina, na zona leste da capital.

Por causa do acidente, duas faixas da direita da avenida, no sentido bairro, estavam bloqueadas por volta das 8h30, sem previsão para liberação. O corredor de ônibus, em direção ao centro, também estava interditado. Uma faixa reversível foi montada entre as ruas Júlio Cesar e João Boemer.

O trânsito flui bem na região, mas a CET recomenda que os motoristas evitem circular pela área. Agentes de trânsito monitoram o trânsito na região.

Por volta das 8h30, o centro da cidade tinha 15 km de lentidão. Em toda a cidade, a CET registrava 118 km de filas, acima da média para o horário, que varia entre 78 km e 98 km.



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Arábia Saudita proíbe casamento com estrangeiras

Matéria da BBC Brasil que vai pra gaveta das notícias esquisitonas:

Arábia Saudita proíbe casamento com estrangeiras de quatro países

O governo da Arábia Saudita ampliou as restrições ao casamento de seus cidadãos com estrangeiras, incluindo uma proibição expressa ao matrimônio com mulheres de quatro países.

Os homens sauditas estão proibidos de se casarem com mulheres nascidas no Paquistão, Bangladesh, Chade e Myanmar e que estejam vivendo na Arábia Saudita. Segundo estatísticas não oficiais, 500 mil mulheres desses países vivem hoje na Arábia Saudita.

A Arábia Saudita possui um dos maiores contingentes de mão de obra estrangeira entre os países do Golfo. São 9 milhões de pessoas – ou 30% da população. A nova medida gerou polêmica em jornais e revistas do Golfo e do Paquistão. Leitores do jornal paquistanês Pakistani Dawn acusaram a Arábia Saudita de racismo.

Já o diário saudita Saudi Gazette questionou o fato de que o novo decreto afetar apenas mulheres desses quatro países.

Divórcio e poligamia

Pelas novas regras, os noivos que quiserem se casar com estrangeiras têm de encaminhar à polícia o documento de identidade original junto com a proposta de casamento assinada pelo prefeito da cidade onde moram. A papelada será então remetida ao governo para apreciação, explicou o chefe de polícia de Mecca, Assaf Al-Qurshi.

Os solicitantes precisam ter idade superior a 25 anos. Caso tenham se divorciado, terão que esperar seis meses antes de um novo casamento, informou o jornal Makkah.

Para homens casados, o requerente "deve incluir um relatório de um hospital federal atestando que sua esposa está sofrendo de uma doença crônica ou é estéril".

Enquanto isso, homens casados com mulheres saudáveis precisam provar que suas esposas autorizam o segundo matrimônio. A Arábia Saudita permite a poligamia - um homem pode ter várias esposas.



domingo, 17 de agosto de 2014

A incompatibilidade entre o processo digital e um juiz cego


O processo eletrônico é, sem dúvida, um avanço na administração da Justiça brasileira em todos os seus níveis, mas que ainda caminha devagar e com problemas sério de integração entre as várias plataformas digitais escolhidas pelos Tribunais, além da limitação peculiar de cada profissional do Direito que tem que se adaptar ao novo sistema.

A notícia abaixo, do Supremo Tribunal Federal, dá uma ideia das dificuldades enfrentadas nessa complicada migração do papel para o computador:

Magistrado cego relata dificuldades com o PJe ao presidente interino do STF

Lançado em 2011 como forma de facilitar e agilizar o acesso à Justiça, o Processo Judicial Eletrônico (PJe) tem se mostrado um problema para as pessoas com deficiência, em especial os deficientes visuais. Ao invés de auxiliá-los a acessar a Justiça, usuários informam que a mudança trouxe novas dificuldades.

O tema foi tratado em audiência realizada hoje entre o presidente em exercício do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, e o desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9ª Região, único desembargador do Brasil deficiente visual. Em pauta estava a implementação de mudanças no PJe a fim melhorar sua acessibilidade.

“O PJe apresenta problemas, mas no que diz respeito às pessoas com deficiência ele é absolutamente hostil”, afirma o desembargador. Segundo ele, as pessoas com deficiência visual ou mesmo física ou auditiva utilizam-se de programas de computador que possibilitam sua atuação. No caso dos cegos, há programas de voz que falam o que está na tela, e com isso eles podem trabalhar normalmente. O problema é que o sistema do processo eletrônico “trava” se o usuário estiver utilizando algum programa de assistência para pessoas com deficiência.

“Em um primeiro momento, quando se anunciou a generalização do PJe, houve grande expectativa. Mas a frustração foi terrível”, afirma. Segundo o desembargador, há 1.800 advogados com deficiência visual inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que não poderão trabalhar caso o Pje seja o único meio de acesso à Justiça.

Soluções

O desembargador preside comissão do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), que tem por finalidade fazer o PJe acessível. Por esse meio, foi desenvolvido um sistema que viabiliza o acesso às pessoas com deficiência visual. “O sistema está em fase experimental, mas é muito promissor, por isso procurei o ministro Lewandowski, a fim de marcar uma nova audiência para tratar do assunto oficialmente”, afirma.

O desembargador observa que a Recomendação 27 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 2009, estabelece que os tribunais devem trabalhar priorizando os interesses das pessoas com deficiência para tornar o Judiciário acessível. Para ele, não se trata, no caso da acessibilidade do PJe, de um problema normativo, mas de colocar em prática a determinação do próprio CNJ.

Convenção de Nova York

A comissão brasileira que participou da elaboração da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, publicada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2006, contou com a participação do prórpio desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca. Ele também trabalhou no Congresso Nacional pela ratificação do tratado, que foi o primeiro tratado internacional a ser ratificado no Brasil com status constitucional, nos termos do parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição Federal, incluído pela Emenda Constitucional nº 45/2004.

De acordo com Marques da Fonseca, essa convenção diz, em seu artigo 13, que o Poder Judiciário deve ser totalmente acessível ao deficiente, e estabelece, em seu artigo 2º, que é discriminatória também a recusa de adaptação. “Onde ocorre recusa de adaptação ocorre discriminação. É preciso que o CNJ atente para isso e dê cumprimento à Recomendação 27, para que se adapte e não crie um cenário de discriminação contra jurisdicionados e profissionais do direito”, afirma.

História

Marques da Fonseca é o primeiro juiz cego do Brasil e o segundo no mundo. Estudou na faculdade de direito da Universidade de São Paulo (USP), onde também fez mestrado, e tem doutorado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 1991, tomou posse como procurador do trabalho, aprovado em concurso público em sexto lugar. Foi empossado no TRT da 9ª Região em 2009, onde entrou pelo quinto constitucional.

Petições impressas

Em janeiro, o ministro Ricardo Lewandowski deferiu liminar no Mandado de Segurança (MS) 32751, a fim de garantir à advogada cega Deborah Maria Prates Barbosa, inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil seccional do Rio de Janeiro (OAB-RJ), a possibilidade de apresentar petições, em papel, até que os sites do Poder Judiciário tornem-se completamente acessíveis em relação ao Processo Judicial Eletrônico (PJe). A advogada impetrou o MS em seu próprio favor, a fim de restaurar seu direito de exercer a advocacia com liberdade e independência.



sábado, 16 de agosto de 2014

O perigo para Israel vem de dentro

É o que diz a socióloga israelense Eva Illouz em entrevista reproduzida pelo IHU:

Verdadeiro perigo para Israel vem de dentro, diz socióloga


Israel se retirou da Faixa de Gaza na terça-feira (5), mas deixou para trás morte e destruição. A socióloga israelense Eva Illouz diz à "Spiegel" que seu país está tomado pelo medo e está cada vez mais suspeitando da democracia. 

A entrevista é de Julia Amalia Heyer, publicada pelo Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 07-08-2014. 

Eis a entrevista.


Houve amplo apoio em Israel à operação na Faixa de Gaza, apesar dos números imensos de vítimas civis e a morte de centenas de crianças. Por que isso?

Onde você vê seres humanos, os israelenses veem inimigos. Diante dos inimigos, você cerra fileiras, se une no temor por sua vida, e você não pensa na fragilidade do outro. Israel tem uma autoconsciência esquizofrênica, dividida: ela cultiva sua força e não consegue deixar de se ver como fraca e ameaçada. Além disso, tanto o fato de o Hamas nutrir uma ideologia radical islâmica e antissemita quanto a existência de um racismo raivoso antiárabe em Israel explicam por que os israelenses veem Gaza como um baluarte de terroristas reais ou potenciais. É difícil ter compaixão por uma população vista como ameaçando o coração de sua sociedade.

Isso também se deve ao fato de a sociedade israelense estar se tornando cada vez mais militarista?

Israel é ao mesmo tempo um poder militar colonial, uma sociedade militarizada e uma democracia. O Exército, por exemplo, controla os palestinos por uma vasta rede de ferramentas coloniais, como postos de controle, tribunais militares (governados por um sistema legal diferente do sistema israelense), concessão arbitrária de licenças de trabalho, demolição de casas e sanções econômicas. É uma sociedade civil militarizada porque quase toda família tem um pai, filho ou irmão no Exército e porque os militares exercem um papel enorme na formação da mentalidade dos israelenses comuns e são cruciais tanto nas decisões políticas quanto na esfera pública. Na verdade, eu diria que "segurança" é o conceito primordial que guia a sociedade e a política israelense. Mas também é uma democracia, que concede direitos aos gays e possibilita ao cidadão processar o Estado.

Mesmo assim, muitos diriam que Israel foi longe demais nesta guerra contra o Hamas.

Eu acho que os israelenses perderam o que podemos chamar de "sensibilidade humanitária", a capacidade de se identificar com o sofrimento de um outro distante. Em Israel, ocorreu uma mudança na percepção do "outro palestino". O palestino se transformou em um verdadeiro inimigo na percepção dos israelenses, no sentido de que "eles estão ali" e "nós estamos aqui". Eles deixaram de ter um rosto e mesmo um nome.

Você tem uma explicação para a mudança?

Israelenses e palestinos antes se misturavam. Eles trabalhavam como operários de construção e como mão de obra barata, mal paga. O muro foi construído. Vieram os bloqueios de estrada, que impediram a liberdade de movimento dos palestinos. A redução imensa nas licenças de trabalho veio em seguida. E em poucos anos os palestinos desapareceram da sociedade israelense. A Segunda Intifada colocou um prego nesse caixão, por assim dizer. A natureza da liderança israelense também mudou. A direita messiânica ganhou progressivamente poder em Israel. Ela costumava ser marginal e ilegítima; agora é cada vez mais popular. Essa direita radical ocupa cadeiras no Parlamento, controla orçamentos e mudou a natureza do discurso. Muitos israelenses não entendem a natureza radical da direita em Israel. Ela se disfarça com sucesso como sendo "patriótica" ou "judaica".

Por que a direita é tão forte no momento, apesar de haver bem menos ataques terroristas em Israel do que no passado?

Gerações inteiras foram criadas com os territórios, com Israel sendo um poder colonial. Elas não conhecem outra coisa. Você tem os assentamentos que são altamente ideológicos. Eles expandiram e entraram na vida política israelense. Os assentamentos foram fortalecidos por meio de políticas de governo sistemáticas: eles recebem incentivos fiscais; eles contam com soldados para protegê-los; eles contam com estradas e infraestrutura muito melhores do que no restante do país. Há segmentos inteiros da população que nunca conheceram uma pessoa secular e foram educados religiosamente. Alguns desses segmentos religiosos também são muito nacionalistas. A realidade que enfrentamos dentro de Israel é que devemos escolher entre liberalismo e o judaísmo, e se escolhermos o judaísmo, estamos condenados a nos tornarmos uma Esparta religiosa, o que não será sustentável. Enquanto nos anos 60 era possível ser tanto socialista quanto sionista, hoje não é possível, por causa das políticas e da identidade de Israel. E há o papel que os judeus que vivem fora de Israel exercem em Israel. Muitos desses judeus têm pontos de vista de direita e contribuem com dinheiro para jornais, centros de estudos e instituições religiosas dentro de Israel. Vamos encarar: a direita tem sido mais sistemática e mais mobilizada, tanto dentro quanto fora de Israel.

Os judeus na diáspora veem Israel de modo diferente dos judeus em Israel?

Os judeus da diáspora foram moldados pela memória do Holocausto. Eles costumam viver em sociedades nas quais seus próprios direitos democráticos são garantidos. Às vezes estão sob ataque do antissemitismo e, portanto, sentem um ímpeto de reforçar a identidade judaica. Eles não entendem a aflição dos israelenses que veem a democracia sendo progressivamente devorada por forças sombrias. Hoje, os judeus da diáspora e os judeus em Israel não têm mais os mesmos interesses.

O que acontecerá se os princípios democráticos continuarem ruindo?

Há um ou dois anos, o jornal "Haaretz" realizou uma pesquisa que apontou que 40% das pessoas disseram estar considerando deixar Israel. Eu não sei os números reais, mas nunca soube de tamanha alienação em relação a Israel como durante esse período. As pessoas que vivem na secular Tel Aviv têm muito menos em comum com seus pares religiosos em Jerusalém do que com as pessoas que vivem em Berlim.

Você descreve um país temeroso e ansioso.

O medo está profundamente entranhado na sociedade israelense. O medo do Holocausto, o medo do antissemitismo, o medo do Islã, o medo dos europeus, o medo do terror, o medo do extermínio. E o medo gera um tipo muito particular de pensamento, que eu chamaria de "catastrofista". Sempre se pensa no pior cenário, não no curso normal dos eventos. Nos cenários catastrofistas, é permitido violar muito mais normas morais do que se você imaginasse um curso normal dos eventos.

Essa percepção diferente das ameaças e conflitos é problemática. Enquanto Israel se vê como vítima, o resto do mundo cada vez mais vê o país como um poder de ocupação violento.

Imagine que você seja uma menina criada por um pai muito brutal. Você desenvolveria uma suspeita "saudável" dos homens e se tornaria muito cautelosa. Se você vivesse por algum tempo em um ambiente de homens bons e carinhosos, sua suspeita relaxaria. Mas se você vivesse em um ambiente no qual alguns homens fossem muito brutais e alguns não, sua suspeita saudável se transformaria em uma incapacidade obsessiva de diferenciar entre os tipos diferentes de homens, os brutais e os carinhosos. Esse é o trauma histórico da consciência com o qual os judeus convivem. A psique israelense se tornou incapaz de fazer essas distinções.

Esse medo justifica o tipo de violência brutal imposta à população civil na Faixa de Gaza?

Claro que não. Eu só estou dizendo que o medo é central na psique israelense. Esses temores são cinicamente usados por líderes como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ele faz os israelenses acreditarem que todos eles querem nos destruir. O Hamas quer nos destruir, a ONU quer nos destruir, a Al Qaeda e o Irã querem nos destruir. O EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) quer nos destruir. Os europeus antissemitas querem nos destruir. Esse é basicamente o filtro pelo qual o conflito com o Hamas é interpretado pelo israelense comum. Outra dimensão desse prisma é que "eles" não são seres humanos. Os palestinos são desumanizados porque colocam seus soldados entre os civis, enviam suas crianças à luta, gastam e desperdiçam seu dinheiro na construção de túneis mortais em vez de construindo sua própria sociedade. Além da desumanização do outro, os israelenses têm um forte senso de sua própria superioridade moral. "Nós pedimos às pessoas para deixarem suas casas; nós telefonamos para elas para assegurar que os civis sejam evacuados. Nós nos comportamos de forma humana", pensa o israelense. Um Exército com bons modos.

Mesmo assim, uma enorme onda de ódio se tornou visível em Israel nas últimas semanas. E não é direcionada apenas aos palestinos, mas também a segmentos da sociedade israelense.

Algumas normas básicas de discurso foram violadas por alguns rabinos e membros do Knesset, que não têm escrúpulos em expressar ódio pelos árabes de formas que legitimam o ódio. Isso é muito preocupante. Isso acontece porque gerações inteiras foram criadas acreditando nas posições religiosas e ultranacionalistas. Eu não acho que há mais ódio em Israel do que em alguns bolsões racistas da sociedade alemã ou francesa. Mas quando alguns palestinos cantaram recentemente nas ruas de Paris, "Morte aos Judeus", a reação do governo do primeiro-ministro Manuel Valls foi rápida e clara. As autoridades enviaram uma forte mensagem de que há formas de discurso e de crença que são inadmissíveis. O que falta na sociedade israelense é esse tipo de forte posicionamento moral vindo de seus líderes.

Como você explica esse paradoxo --o ódio por um lado e a ênfase de Israel em seus valores liberais do outro?

Israel começou como uma nação moderna. Ela extraía sua legitimidade do fato de ter instituições democráticas. Mas também construiu instituições altamente antimodernas em seu desejo de criar uma democracia judaica, ao dar poder aos rabinos, ao criar profundas desigualdades étnicas entre diferentes grupos étnicos, como os judeus de países árabes contra judeus de descendência europeia; árabes contra judeus; judeus contra não judeus. Isso bloqueou o pensamento universalista.

Você diria que o caráter judeu do país subordinou o caráter democrático?

Sim, com certeza. Nós estamos em um ponto onde se tornou claro que o judaísmo sequestrou a democracia e seu conteúdo. Isso acontece cada vez mais quando o currículo escolar começa a ser mudado e passa a enfatizar mais conteúdo judeu e menos conteúdo universal; quando o Ministério do Interior expulsa trabalhadores estrangeiros porque membros do partido Shas temem que não judeus possam se casar com judeus; quando direitos humanos são pensados como sendo uma ideia esquerdista, porque os direitos humanos pressupõem que judeus e não judeus são iguais.

Isso não soa particularmente encorajador.

A única resposta é a criação de um vasto campo de pessoas que defendam a democracia. A divisão direita-esquerda não é mais importante. Há algo mais urgente agora: a defesa da democracia. A voz da extrema direita está muito mais alta e clara do que antes. Isso é que é novo: uma direita racista que não tem vergonha de si mesma, que persegue os dissidentes e até mesmo as pessoas que ousam expressar compaixão pelo outro lado. O verdadeiro perigo para Israel e sua sustentabilidade vem de dentro. Os elementos fascistas e racistas não são uma ameaça menor à segurança do que os inimigos externos.



sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Justiça gaúcha incentiva famílias transitórias para menores em situação de risco

Uma boa iniciativa que precisa ser mais divulgada e adotada Brasil afora, conforme noticia o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

Famílias acolhedoras:
De portas e coração abertos
para crianças que aguardam um lar

Acolher uma criança ou um adolescente que sofreu maus tratos, abuso sexual ou que foi abandonada pode não ser tarefa fácil. A carga emocional que envolve cada caso é pesada. Num abrigo, por mais que os esforços sejam no sentido de receber bem esses jovens, as dificuldades são muitas: desde falta de estrutura física, financeira até a atenção limitada para cada uma daquelas vidas que ali estão temporariamente. A ideia de utilizar as famílias transitórias vem ganhando força. A medida representa a possibilidade da convivência familiar, pode minimizar sofrimentos e ser uma experiência enriquecedora para quem empresta um pouco da sua vida a esses jovens.

Na Comarca de Santo Ângelo, atualmente há 14 jovens (cinco adolescentes e nove crianças) em acolhimento familiar. O acompanhamento diário é feito pela equipe técnica do programa, coordenado pelo Município, e pelo Juizado da Infância e Juventude (JIJ). O acolhimento familiar está previsto como medida protetiva no art. 101 do Estatuto da Criança e do Adolescente - juntamente com o acolhimento institucional - nas hipóteses em que as crianças ou adolescentes estejam em situação de vulnerabilidade, sem condições de permanecer com a família de origem.

Mesmo que o acolhimento familiar tenha preferência sobre o institucional, como determina o ECA, essa medida só ganhou força em 2009, com a vigência da Lei Nacional de Adoção. "Diferentemente do acolhimento institucional - antigo abrigo - com seu atendimento massificado, com todos os problemas que são amplamente conhecidos por quem milita na área da Infância e Juventude, o acolhimento familiar propicia um atendimento individualizado, solidário, humanizado para crianças e adolescentes que temporariamente estão afastados do convívio com a família de origem, ou mesmo na pendência de um processo de destituição do poder familiar", afirma o Juiz de Direito Luís Carlos Rosa.

Os benefícios de estar numa casa, cita o Juiz, são muitos. "Não tenho a menor dúvida de que o acolhimento institucional precisa, urgentemente, passar por uma reformulação, existem dificuldades de toda ordem - financeira, estrutural, técnica - sem contar o sentimento de institucionalização dos acolhidos, que não veem a hora de ser desacolhidos, havendo uma nítida falta de sintonia entre a burocracia do processo e o tempo dessas crianças e adolescentes, que acabam vendo os dias, meses e por vezes anos passarem sem que seja dada uma solução".

Longo caminho

O desafio é conseguir mais famílias que se disponham a receber esses jovens. Hoje, na Comarca, são 12 famílias cadastradas, sendo que nove estão acolhendo. "Boa parte das pessoas sequer se cadastram, sequer passam pela seleção, quando são esclarecidas dos objetivos do acolhimento, quando tomam conhecimento que o acolhimento é temporário, o que é perfeitamente compreensível, na medida em que não há como imaginar que quem acolha uma criança ou adolescente, não venha a se apegar, a criar laços a amá-la. O desafio está em encontrar pessoas que, mesmo sabendo disso, exerçam a solidariedade e o amor de forma incondicional, sabendo que serão extremamente importantes na vida daquela criança, ou adolescente, auxiliando na formação da personalidade, mesmo que de forma transitória", considera o Juiz.

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o número de crianças e adolescentes acolhidos por famílias ainda é baixo se comparado ao universo de acolhidos no Brasil. São cerca de 730 crianças e adolescentes para 45,7 mil meninas e meninos abrigados, de acordo com dados do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Acolhidos (CNCA), em maio deste ano. Ainda conforme o CNJ, são 381 famílias acolhedoras no país.

Decisão em família

"Muitas vezes me perguntei: Se eu fosse uma dessas crianças, onde eu preferiria estar? No abrigo ou acolhido em uma família?". Foi buscando essa resposta que a Pediatra Adriana Pizzutti dos Santos, de 48 anos, resolveu que iria participar do programa de famílias acolhedoras de Santo Ângelo. Ela soube da iniciativa através de uma amiga advogada e, após conversar com os dois filhos - Lucas, de 19 anos, e Natália, 16 - resolveu fazer parte da iniciativa. "Meses antes eu havia visitado, juntamente com um grupo de jovens, um abrigo para crianças, que estavam afastadas de suas famílias, por situações várias que colocavam em risco a sua segurança, e senti grande compaixão pela situação de todas elas. A partir daí comecei a pensar na possibilidade do acolhimento", conta a médica.

Tomada a decisão, ela procurou o programa, encaminhou a documentação e deu início ao processo de habilitação. A equipe - formada por pedagoga, assistente social e psicóloga - esteve várias vezes na casa dela para analisar a possibilidade de acolhimento. "Recebi informações valiosas e pude tirar dúvidas, em conversas agradáveis e muito produtivas", ressalta.

Adriana ficou quase sete meses com um menino de 8 meses, até que ele foi adotado por uma família que estava há sete anos na fila. A experiência, ela garante, foi transformadora (leia abaixo o depoimento da médica). Tanto que ela e a família estão de portas e corações abertos para um novo acolhimento.

"Aprendi e ensinei" - Depoimento de Adriana Pizzutti dos Santos, Pediatra

Em outubro de 2012 eu conheci o Mateus (nome fictício) quando uma amiga pediu orientações acerca do leite que deveria ser oferecido a um bebê que havia chegado ao Lar do menino. Ele tinha apenas oito dias de vida, era o primeiro bebê a ser recebido no Lar. Como moro perto de lá, resolvi ir pessoalmente ver como ele estava. Um bebezinho em meio a tantas crianças grandes. Frágil, desprotegido... Passei a acompanhá-lo profissionalmente e, quando conheci melhor o programa, comecei a dizer prá ele: 'Vou te levar pra minha casa!'

Foram muitos preparativos, adaptações na casa, seleção e contratação de babá. Lembrava o tempo todo como seria divertido chegar em casa e encontrar ele, poder brincar, dar comidinha, abraçar, fazer dormir. É claro que teríamos doencinhas, chorinhos, manhas, noites mal dormidas, mas com isso eu não me preocupava!

No dia 10 de junho de 2013 quando ele completou oito meses, depois da audiência, que definiu o acolhimento, eu passei no Lar, peguei ele e disse: 'Chegou o dia! Vou te levar pra casa'. Começava aí minha experiência de acolhimento. Foram quase sete meses de indefinível alegria por poder fazer parte da história do Mateus. Acompanhando, protegendo, cuidando. Aprendi e ensinei.

Os pais esperavam há mais de sete anos na fila de adoção. Imaginem! Eles ficaram encantados com o Mateus, que logo foi brincar no tapete com o pai. Foi muito comovente. Durante todo o período de adaptação à família, pude observar a grande ternura, carinho pelo filho que respondia com abraços e beijos estalados. Até a definitiva partida para a nova casa. Nós continuamos nos visitando e trocando ideias, sempre que possível.

Tenho absoluta convicção que o melhor, para qualquer criança, é estar inserida em uma família, com condições adequadas de cuidados, alimentação, segurança. Se a família original não possui essas características, nada melhor do que outra família fazê-lo em ambiente que proporcione à criança um bom desenvolvimento físico e emocional, bem como o desabrochar das suas habilidades e capacidades em todos os setores.



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O império da fé na política


Artigo interessante publicado no IHU:

Império da fé

Se nos anos 1990 a Igreja Universal do Reino de Deus ganhava destaque no Jornal Nacional pelos chutes de um pastor na estátua de uma santa católica ou por gravações de Edir Macedo ensinando discípulos a arrecadar doações dos fiéis, a instituição que agora chegou às páginas do New York Times ostenta uma nova imagem.

A reportagem é de Leticia Duarte, publicada pelo jornal Zero Hora, 10-08-2014.

Ao afirmar que o recém-inaugurado Templo de Salomão faz o “icônico Cristo Redentor do Rio de Janeiro, que tem apenas metade da altura, parecer um enfeite em comparação”, um dos jornais mais respeitados do mundo reconhece não apenas a magnitude da obra, mas as novas bases que sustentam a ascensão evangélica no país.

Com referências do Antigo Testamento e ares de profetismo – reforçados pela barba branca que Edir Macedo deixou crescer no ano passado como um “voto” de espera pelo templo –, o visual repaginado da Universal foi minuciosamente planejado. De olho na classe média emergente, o movimento busca acrescentar consistência simbólica à escalada pentecostal na sociedade brasileira.

Ao erguer uma réplica do espaço sagrado do judaísmo numa área equivalente a cinco campos de futebol, hastear a bandeira de Israel na inauguração da sede de R$ 680 milhões e adorná-la com símbolos judaicos, como os menorás (candelabros de sete pontas) que decoram as paredes do templo, a Universal passa a reivindicar também o seu quinhão na “terra santa”. Um ambiente bem diferente de sua fundação, em 1977, em um coreto na periferia do Rio.

Naqueles tempos de vacas magras, não demorou a aparecer o debochado apelido de “supermercado da fé”. Uma alusão não apenas aos galpões onde os cultos ocorriam, com placas de néon piscando nas fachadas, mas também à teologia da prosperidade – uma marca da Universal reprovada por protestantes mais tradicionais –, que promete curas e glórias materiais em troca de dízimos.

– Por outro lado, a Igreja Católica sempre ocupou os ambientes mais nobres da cidade, com sedes em praças públicas ou ao lado das prefeituras – lembra Ricardo Mariano, professor da Universidade de São Paulo e pós-doutor em Sociologia da Religião.

– De 15 anos para cá, a Universal vem erguendo catedrais para obter maior respeitabilidade e legitimidade.

O faraônico Templo de Salomão surge como ápice dessa demonstração de força. Para o sociólogo Clemir Fernandes, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (Iser), a Universal muda sua identidade porque os fiéis também mudaram. Além de os antigos adeptos terem sido beneficiados pelo avanço econômico da classe C, a instituição cobiça novos públicos.

– A igreja agora busca uma tradição, e essa tradição é ressignificada à luz de seus interesses. Como não tem história, precisa se embasar no que é sólido, apoiando-se na tradição judaica – analisa Clemir.

Embora a Igreja Universal tenha perdido 200 mil fiéis no último censo de 2010 em relação ao anterior, disputando espaço com uma dissidência, a Igreja Mundial do Poder de Deus, os evangélicos têm hoje uma representatividade inédita. Na contagem do IBGE, saltaram de 2,61% da população, em 1940, para 22,16% em 2010.

No Congresso, a Frente Parlamentar Evangélica reúne 70 deputados e três senadores – e a tendência é de aumento. Nas eleições deste ano, o número de candidatos pastores cresceu 40%, saltando de 193 para 270, enquanto apenas 16 concorrentes se apresentam como “padres”, uma queda de 30% em relação ao pleito anterior, conforme os registros do Tribunal Superior Eleitoral. Não por acaso, todos os candidatos fazem adequações no discurso para contemplar os evangélicos – como a presidente Dilma Rousseff, que, diante de fiéis da Assembleia de Deus na sexta-feira, afirmou que “todo dirigente precisa da graça de Deus”.

Conhecida por posturas conservadoras nas esferas moral e sexual, com apoio de católicos em temas como a proibição do aborto, a bancada evangélica aos poucos espicha seu olhar. Professor da PUC Goiás, o cientista das religiões Alberto da Silva Moreira observa que a aproximação dos pentecostais com o judaísmo não se dá somente no campo simbólico: também estreitam laços com Israel na esfera política. Uma expressão disso seriam as manifestações de líderes evangélicos contra a condenação do governo Dilma à ofensiva israelense em Gaza – que incluíram um protesto com cerca de 80 fiéis diante do Ministério das Relações Exteriores.

– Isso significa que igrejas como a Universal estão se alinhando em bloco à direita cristã conservadora filo-israelense. É o mesmo que faz a direita cristã dos Estados Unidos – analisa Moreira, recordando que a defesa de boas relações com Israel é ao mesmo tempo uma forma de defender a continuidade do rentável turismo de crentes à Terra Santa.

Mas seria um erro imaginar que a bancada evangélica funciona como um coral afinado de mãos erguidas o tempo todo. No dia a dia, divisões internas e interesses particulares separam os congressistas de diferentes igrejas, o que limita seu poder.

Autor do livro Mercado Religioso Brasileiro: do Monopólio à Livre Concorrência (Nelpa, 2012) e professor da Universidade Federal do Maranhão, o sociólogo Gamaliel da Silva Carreiro identifica que a maioria dos eleitos por voto evangélico está ali para defender interesses miúdos dos setores que representam, como uma concessão de rádio ou um terreno para a nova igreja, e não para pensar um projeto de país.

– Eles têm dificuldade em pensar o Brasil. Pensam pequeno. Só conseguem se organizar quando há temas muito contraditórios que afrontam valores cristãos – afirma Carreiro.

Na avaliação do pesquisador, há preconceito em parte das críticas à atuação política dos evangélicos, já que a organização em defesa de interesses particulares é considerada legítima quando se trata de outros grupos, como a bancada ruralista ou os metalúrgicos. Lembrando que os católicos historicamente exercem grande influência política, Carreiro cita um conceito do sociólogo alemão Norbert Elias para explicar a diferença atual entre o poder das duas igrejas: enquanto os católicos são os “estabelecidos”, seus concorrentes ainda são “outsiders”.

– Por mais que os evangélicos venham crescendo, eles ainda são outsiders, e a sociedade sempre desconfia de outsiders. Como a Igreja Católica está estabelecida por muito tempo, os católicos têm confiança e credibilidade junto ao Estado, com muitos recursos destinados a ONGs católicas. A vinda do Papa, por exemplo, recebeu muita verba do Estado – compara Carreiro.

A associação entre fé e política no Brasil remonta ao período colonial. Como observa a cientista da religião Sandra Duarte de Souza, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista, a Igreja Católica foi essencial para legitimar o projeto colonizador. E essa influência sobrevive até hoje, apesar da laicidade, consagrada pela Constituição de 1891.

– O problema que a gente enfrenta é que a confissão religiosa de alguns acabe sendo imposta para todos. O Estado tem que cuidar de todos, mas isso não é possível quando uma bancada impede. O risco é que a religião se sobreponha à cidadania e obstaculize políticas públicas – preocupa-se Sandra.

Mas até que ponto pode chegar a influência evangélica? Apesar da curva ascendente, o professor Eduardo de Quadros, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Goiás, não acredita em riscos à democracia. Por mais que seus membros atuem na arena política, o projeto pentecostal teria um recorte mais individualista, associado ao mercado.

– Talvez a Universal seja a maior multinacional brasileira, presente nos cinco continentes. Nenhuma empresa nacional fez esse sucesso em tão pouco tempo. É a empresa de salvação – analisa Quadros.

Na era do consumo, nada mais oportuno do que a fé ostentação.

Partido Republicano Brasileiro (PRB)

Braço político da Igreja Universal, tem como expoente o bispo Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo. Senador eleito, Crivella foi ministro da Pesca e hoje concorre ao governo do Rio.

Partido Social Cristão (PSC)

Ligado à Assembleia de Deus, lançou Pastor Everaldo como candidato a presidente, embora seu nome mais conhecido seja Marco Feliciano. Em março, insatisfeito com o espaço no governo, o partido rompeu com Dilma Rousseff.

Partido da República (PR)

Abrange filiados das igrejas Batista, Universal, Assembleia de Deus e várias outras. Presbiteriano, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho integra a legenda. Tiririca, embora nada tenha a ver com os evangélicos, busca a reeleição pelo PR.

Outras legendas

A influência evangélica não se restringe a três partidos. Há representantes em praticamente todas as siglas – uma mostra disso é a eclética Frente Parlamentar Evangélica.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Futebol e triunfalismo gospel: uma combinação destinada ao fracasso?

O título deste artigo é uma pergunta porque ele não se pretende conclusivo, mas busca fomentar a discussão em torno de um fenômeno muito comum no campo desportivo atual: a união entre esporte e religião, mais especificamente entre futebol e evangélicos.

Ainda é cedo - acredito - para avaliar, com possíveis isenção e distanciamento, o desastre que foi a participação da seleção brasileira na última Copa do Mundo, realizada em solo pátrio.

A ensacolada (gíria basqueteira para "goleada") de 7x1 ainda dói demais...

Entretanto, a participação do técnico Emerson Leão no programa "Bola da Vez" do canal a cabo ESPN Brasil, algumas semanas atrás, me animou a escrever essas mal traçadas linhas, inspirado que fui por uma determinada fala do treinador em questão.

Lá pelas tantas da entrevista, Leão se queixa do papel que cabe ao técnico nos times hoje em dia, que seria - segundo ele - sempre o último a ter a oportunidade de influenciar o jogador.

Não me lembro da ordem exata, mas, segundo o treinador, o jogador sempre estaria disposto a ouvir - em primeiro lugar - seu empresário e sua família, depois o pastor, e somente a partir daí o presidente do clube e - talvez - o técnico do seu time.

A curiosa inclusão de um "pastor" entre as pessoas que o jogador de futebol consagrado mais ouve, ainda que não seja uma novidade propriamente dita, me levou a ver o desempenho da seleção brasileira na Copa 2014 com outros olhos.

Se a máxima boleira "em time que está ganhando não se mexe" é verdadeira, o mesmo se pode dizer do discurso triunfalista de certos jogadores evangélicos quando o seu time está na crista da onda.

É um tal de "Deus me abençoou" pra cá, "Deus me honrou" pra lá que fica difícil encontrar algo de concreto que realmente tenha beneficiado o jogador.

Parece que esta foi a grande influência dos jogadores evangélicos na Copa. Não vou nomeá-los porque aqui não se trata de uma crítica pessoal, mas da análise de um comportamento que merece ser melhor pensado por eles próprios.

Enquanto o time estava ganhando, ainda que a duras penas, tudo estava maravilhoso, pastor aparecia em vídeo do youtube ao lado do jogador, falando sobre sua denominação (basta procurar que você acha!), as mãozinhas eram levantadas para o céu enquanto "glórias a Deus" eram entoadas.

A partir do momento em que a Alemanha desceu a bordoada de 7x1 no Brasil, não apareceu ninguém para "glorificar a Deus" ou tentar explicar por que é que uma seleção - até então tão abençoada - sucumbiu de forma tão vexatória.

O choro compulsivo dos jogadores - durante a execução do hino nos jogos anteriores e a cobrança de pênaltis contra o Chile - se parece muito mais com a reação emotiva e sentimentaloide de alguns jovens dessa geração com o show ou a presença de seus ídolos gospel. Algo assim como se estivessem ouvindo a mais chorosa das cantoras gospel do momento.

O problema surge quando o desempenho profissional é cobrado, e isto diante da arena televisiva de bilhões de pessoas.

Não se trata mais de um recinto fechado com - talvez - algumas centenas de pessoas, em que os bordões gospel são batidos e explorados à exaustão, mas de outro tipo de batalha onde a razão deve(ria) vencer a emoção.

E foi aí que a gospelfutebolândia degringolou. Não soube responder às exigências do momento com a responsabilidade adequada que lhe era devida.

A Copa se lhes esvaiu pelas lágrimas, o tempo - implacável como o ataque alemão - não voltará mais.

Resta, portanto, a especulação: ¿ os jogadores que se dizem "evangélicos" estão ligados muito mais a uma emoção passageira (às vezes devastadora) de um discurso triunfalista do que ao culto racional pregado por Paulo em Romanos 12:1 ?

O que você acha?



Recomendamos a leitura, também, de:






terça-feira, 12 de agosto de 2014

Carpe diem, Robin Williams!

Robin Williams
(1951-2014)
Há certos atores tão extraordinários que eles se transformam em pessoas conhecidas, como um parente ou amigo muito querido que mora distante. Robin Williams era um deles.

Todas as suas aparições na telona eram pontuadas por interpretações geniais, que iam do histriônico ao dramático com uma facilidade inigualável no seu meio.

Difícil dizer qual foi o personagem que ele representou melhor, ou qual foi seu filme mais marcante.

"Sociedade dos Poetas Mortos" (1989) parece levar uma pequena vantagem, num empate técnico com "Bom Dia, Vietnã!" (1987), "Tempo de Despertar" (1990), "O Pescador de Ilusões" (1991),  "Patch Adams" (1998) e "O Homem Bicentenário" (1999), pelo menos na minha opinião. Seis filmes extraordinários protagonizados por um ator espetacular. 

E ainda há muitos outros bons filmes no seu currículo. Seu nome no cartaz era a garantia de que o dinheiro da entrada no cinema não seria desperdiçado. E ninguém se importaria se - no final - tivesse que passar na bilheteria para pagar de novo.

"Gênio Indomável", por exemplo, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante em 1997 é um bom filme, com mais uma grande interpretação sua, mas a película não chegou a empolgar, apesar do Oscar de melhor roteiro conferido a Matt Damon e Ben Afleck. Cá entre nós, o filme não era lá essas coisas, mas Robin Williams compensava qualquer falha.

Suas excelentes comédias sempre tinham traços dramáticos, como em "Uma Babá Quase Perfeita" (1993), "Moscou em Nova York" (1984), "Uma Noite no Museu" (2006 e 2009) e o remake de "A Gaiola das Loucas" (1996). Sabia atuar, improvisar e fazer rir e chorar como ninguém.

Ao que tudo indica, Robin Williams sucumbiu à depressão, esse mal da modernidade que não respeita idade, talento, fama, posição social ou histórico de vida. Ataca a todos indistintamente e destrói sonhos, famílias e carreiras se instalando com o silêncio de uma brisa e devastando como a fúria de um furacão.

No caso dele, estava sempre presente a ameaça de voltar ao vício na cocaína e no álcool, o que agravava ainda mais sua situação.

Dizem que é sua a frase: "Eu costumava pensar que a pior coisa que podia acontecer na vida era terminá-la sozinho. Não é. A pior coisa da vida é terminá-la ao lado de pessoas que te fazem sentir completamente só".

Palavras fortes e tristes que talvez espelhem o que ele realmente sentiu quando foi atropelado pelo rolo compressor da depressão.

Amigos até o fim: Robin Williams beija Christopher Reeve
Nada disso o impediu, entretanto, de ser capaz de belos atos de amor e generosidade. Conheceu Christopher Reeve (o primeiro Superman do cinema) antes da fama de ambos, e com ele desenvolveu uma grande amizade.

Quando Reeve sofreu o acidente a cavalo que lhe deixou tetraplégico, Williams sempre estava por perto para animar o amigo e ajudá-lo a encontrar um novo sentido para a vida.

Reeve veio a falecer em 2004 (com 52 anos de idade) e sua esposa, Dana, não resistiu a um câncer de pulmão (embora nunca houvesse fumado na vida) e morreu em 2006, quando tinha apenas 44 anos de vida. Então, o sempre presente Robin Williams adotou o filho do casal amigo, William, que havia nascido em 1992.

O grande ator de Hollywood - que a todos encantou e nos fez rir e chorar - não está mais entre nós. Testemunharão sobre ele, por muitas gerações, o seu talento e a sua capacidade de fazer-nos acreditar na veracidade dos papéis que brilhantemente interpretou.

"Carpe diem" é a frase em latim, que significa algo como "Aproveite o seu dia", e que marcou o filme "Sociedade dos Poetas Mortos".

Robin Williams aproveitou os seus dias enquanto pôde. Generoso como era, dividiu com milhões de pessoas ao redor do mundo as alegrias e as agruras da vida cotidiana.

Talvez não tenha tido forças de resistir a uma depressão profunda, que o tirou do nosso convívio quando tinha apenas 63 anos de idade.

Muito cedo para partir alguém que nos presenteou com momentos tão felizes. Queira Deus que ele possa realmente descansar em paz.


"Oh Captain, my Captain!"
A cena final de "Sociedade dos Poetas Mortos",
filme em que um suicídio transforma a vida de todos
os personagens e obriga adolescentes a tomarem uma posição adulta
contra aqueles que só exigem deles conformidade.

E, é claro, encerramos nossa pequena homenagem com as cenas antológicas de "Sociedade dos Poetas Mortos" com a poesia "Oh Capitão, meu Capitão!" de Walt Whitman no final do segundo vídeo abaixo:









segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O evangelho gangsta da periferia


Artigo interessante de Anna Virginia Balloussier no seu blog Religiosamente da Folha de S. Paulo:

Os profetas do gangsta gospel

Eles cantam sobre a “vida loka” da periferia, com roupas “de mano”, em meio a carrões “da hora”. E fazem isso em nome de Deus.

Pastor Ton, Marcio Santos e Paulo “Profeta” Deivid são expoentes do gangsta gospel.

Esse estilo musical une pregação evangélica a um gênero particular do rap, com batida agressiva e letras sem rodeios sobre drogas (“bagulho mesmo”), criminalidade (“a chapa esquenta”) e violência policial (“os gambé embaça”).


O gangsta –derivativo de gângster– conta a vida como ela é. E ela nem sempre era bonita de onde vieram pioneiros americanos como Snoop Doggy Dogg e Tupac Shakur (morto há 18 anos, com quatro tiros em Las Vegas).

“Sempre sonhei em fazer clipe que nem os gringo”, diz Pastor Ton, 36, autor de músicas como “Serial Killa” e “121” (número do homicídio no Código Penal).

Ele curte carrões “lowrider”, aqueles que andam quase arrastando no chão e quicam feito bola de basquete, bem comuns entre gangues de mexicanos nos Estados Unidos.

“Assim como os carros deles pulam na presença da [Nossa Senhora de] Guadalupe, quero que aqui pulem aos pés do meu Deus”, diz.

No vídeo “É Us Crent’s”, que ele mesmo dirigiu, canta com cara de mau ao lado de um Chevrolet Impala 1962, cor azul.


Na vida real, Ton tem um Gol 1999 e duas lojinhas de salgado. O dízimo que recebe, segundo Ton, mal paga o aluguel de R$ 600 de sua igreja, em Guaianases, zona leste de São Paulo.

No vídeo “É Us Crent’s”, posa ao lado de um Chevrolet Impala 1962, cor azul. Na vida real, Pastor Ton tem um Gol 1999 e duas lojinhas de salgado. O dízimo que recebe, diz, mal paga os R$ 600 do aluguel de sua igreja em Guaianases, zona leste de SP.

Um galpão com fachada grafitada abriga a Comunidade Profética Descendentes de Davi, liderada por ele e pela mulher, a ex-prostituta e hoje pastora Angela de Jesus. Com 35 caideiras de plástico branco e um orelhão com o picho “JESUS”, fica próxima a uma boca de fumo.

Quando compõe coisas como “no meio da Babilônia o demônio impera com um fuzil em punho” ou “a fumaça encobre o rosto de Lúcifer”, Pastor Ton tem um objetivo claro: “Converter a cultura gangsta aos pés do Senhor”.

“O gansgta diz o que tá rolando, mas não mostra saída. O gangsta gospel fala, ‘ó, tá rolando isso’, mas tem uma saída. Deus.”

Nos anos 1990, a chamada “linguagem das ruas” ganhou força nos Estados Unidos e uma “versão brasileira, Herbert Richers”, encabeçado pelos Racionais MC’s.

Quando Pastor Ton começou, na banda Criminal Base, não era pastor nem Ton: atendia por Everton Santos, um rapper que se amarrava no som de Mano Brown e andava pra lá e pra cá com um revólver calibre 32, escondido na mala dos vinis (“enferrujado, se atirasse só dava tétano”).

“Até que Deus pediu para que eu trocasse minhas roupas”, diz.

MUDANÇA DE HÁBITO

Certa madrugada, após curtir todas num bailão, esperava um ônibus que nunca chegava. Para passar o tempo, refugiou-se numa Assembleia de Deus. Gostou do que viu e decidiu ficar.

“De repente, eu tava de cabelo curto, sem brinco, sem roupas largas, todo de social.”

Everton saiu “do mundão”. O mundão, contudo, não saiu dele. Se passava um carro tocando Racionais, “a lágrima escorria” de tanta saudade. Aos poucos, foi percebendo que sua “maneira de pregar o Evangelho era gangsta”. E que ele podia usar isso a seu favor.

Os jovens em particular o escutavam: taí um pastor que falava a língua deles. “Entro em lugares que a música dos caras de terno e gravata não vai entrar.”

Hoje Pastor Ton afinou o discurso e folgou as roupas. Usa uma blusa bege três vezes maior do que seu número, como tantos manos da periferia, “porque na cadeia não tem essa de tamanho de roupa”.

Nos pés: All-Star preto. Na cabeça: o boné dos Los Angeles Kings, um time de hóquei. Completam o visual óculos escuros (faz sol), relógio dourado (comprou no Brás) e luva de ciclista (acha estilo).

Quando o veem, alguns “crentes engravatados” até torcem o nariz. Mas, em geral, conta que evangélicos de todas as idades costumam entrar na onda.

Pastor Ton estica os braços até a altura do peito: “As mais tradicionais de coque dão um pulo deste tamanho”.

Marcio Santos, 33, também acha que deu um salto na vida.

Na juventude, vendia drogas como crack e cocaína para a molecada. Uma tentativa de superar o irmão mais velho, Mauricio. “Quis crescer pior do que ele.”

Mauricio, traficante, morreu esfaqueado numa emboscada com 48 presos de uma facção rival, durante uma rebelião numa penitenciária de Sorocaba (SP). Era “Superman” do caçula. “Aquele ladrão que onde chegava era representado. Quando chegava, o pessoal já fazia churrasco para ele”, diz.

Depois da tragédia familiar, Marcio entrou de cabeça na “vida bandida”. Num dia de tempestade, quis entrar de cabeça no asfalto. Viu um carro passando e, de saco cheio de tudo, decidiu se jogar na frente dele. “Aí escutei Deus falar comigo. ‘Não se joga, Marcio, vai para a igreja’.”

Ele foi. No mesmo dia, perdeu na chuva o dinheiro do aluguel. Depois, uma moça ligou dizendo que achou a carteira.

Marcio viu um sinal. “Deus já tá começando, por mais que eu seja um pecador…”

Hoje, ele é pastor e faz gangsta gospel com a mulher e o filho, no grupo Terceiro Dia. “Jesus foi crucificado, ressuscitou no terceiro dia. Morre o velho homem, nasce a nova criatura.”

No clipe “Amor em Extinção”, o trio discorre sobre como o amor está acabando no “mundão”. Cenas da família se intercalam à de palhaços assustadores –imagens tiradas de filmes de terror do “Cine Trash”, programa que o personagem Zé do Caixão apresentava na Band. “É o próprio demônio dando risada da humanidade”, Marcio explica a simbologia.

Outros símbolos ele carrega no corpo: tatuagens da época em que ainda não era convertido, como um escorpião, um dragão e um ícone da gangue que ele fazia parte, a Mais 1 Tranqueira (“a gente rivalizava com a Operação Maloca”).

Marcio carrega a cruz no pescoço: um crucifixo sobreposto à camisa social cinza, que combina com uma bermuda militar, meião branco quase até o joelho e All-Star preto.

Ele conversa com amigo Deivid, 31, da Profetas da Z/O (de Zona Oeste, onde começou a carreira), sobre um festival cristão que ambos vão participar, o Louvorzão –também escalados, o Grupo de Pagode Resgate e a Pura Unção.

Estamos na casa/estúdio/futura igreja de Marcio, em Francisco Morato (Grande SP): um cômodo com teto de telha onde coexistem fogão, geladeira, mesa de som, cama de casal e armário amarronzado tipo Casas Bahia (na porta, adesivos de galinhas e dos dizeres “Glória a Deus”, em amarelo berrante).

Deivid passa sempre lá para discutirem o “movimento”.

“No passado eram os profetas da Bíblia. Hoje nós, servos de Deus, somos constituídos perante a Bíblia como profetas”, diz o rapper de Carapicuíba (Grande SP), de jeans, blusa branca extralarga e lenço lilás no pescoço.

Deivid alisa o cavanhaque e discursa: estilo não é documento. “As pessoas mais tortas e mais erradas, que mais roubam no país, não andam dessa forma, andam muito bem vestidas.”

No Facebook, ele “dá like” nas séries de TV “Breaking Bad”, “Chaves” e “The Big Bang Theory”. Como literatura, curte uma única opção: a Bíblia. As escrituras, para ele, deixam claro: “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”.

Foi um adolescente “loucão, que chapava de bebida”, acostumado a crescer numa vizinhança onde os tiros às vezes eram tantos que pareciam milho em panela de pressão.

Convertido, caiu a ficha. “Nosso foco é resgatar os mano da rua como a gente foi resgatado”. Uma batalha e tanto pela frente, ele crê. “É Deivid contra Golias.”



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