domingo, 26 de junho de 2016

Papa desafia Turquia e lembra genocídio na Armênia

Papa Francisco e o presidente turco Recep Tayyp Erdogan, uma relação pra lá de delicada.

A mera menção à expressão "genocídio armênio" continua sendo fonte de dores de cabeça para o papa em sua relação com a Turquia.

A matéria é da Agência Brasil:

Papa usa a palavra genocídio em discurso no Palácio Presidencial da Armênia

Em seu primeiro dia de viagem à Armênia, o papa Francisco não se intimidou em usar a palavra "genocídio" para se referir ao extermínio de 1,5 milhão de armênios pelo Império Otomano há um século, mesmo sabendo que o vocábulo poderia desencadear um mal-estar diplomático com a Turquia, como já ocorreu no ano passado.

A Santa Sé não previa o termo "genocídio" nos discursos de Francisco, porém o líder católico não quis renunciar à palavra e a disse, em alto e bom som, na capital Erevan, dentro do Palácio Presidencial e diante das autoridades armênias, inclusive do presidente armênio Serzh Sargsyan.

Relembrando um encontro que teve com Sargsyan no dia 12 de abril de 2015, na Basílica Vaticana, o papa disse hoje (24) que, "naquela ocasião, se fez a memória do centenário de Metz Yeghern, o 'Grande Mal' que atingiu este povo e causou a morte de milhares de pessoas". "Aquela tragédia, aquele genocídio, abriu um triste elenco de imagens catastróficas do século passado, tornadas possíveis por motivações racionais, ideológicas ou religiosas aberrantes", disse Francisco, fazendo uma pausa e acrescentando a palavra "genocídio" à fala. O discurso foi proferido no Palácio Presidencial, em uma cerimônia com as autoridades locais e o corpo diplomático, seu primeiro compromisso da viagem de três dias que faz à Armênia.

A declaração do líder católico deve provocar novas críticas do governo turno, que recentemente convocou o embaixador na Alemanha após Berlim aprovar uma resolução sobre o genocídio armênio.

"Tendo diante dos nossos olhos os nefastos episódios conduzidos no século passado pelo ódio, preconceito e desenfreado desejo de domínio, espero vivamente que a humanidade saiba tirar destas trágicas experiências o ensinamento para agir com responsabilidade e sabedoria para prevenir os perigos de cair novamente em tais horrores", disse o papa. "É preciso multiplicar os esforços para que sempre prevaleça o diálogo nas desavenças internacionais e a constante e genuína busca pela paz, assim como a colaboração entre os Estados e o assíduo empenho dos organismos internacionais para que seja construído um clima de confiança propício a alcançar acordos duradouros".

Em suas primeiras horas na Armênia, Francisco também condenou as divisões e guerras atuais. "O mundo está muito marcado por divisões e conflitos, assim como por graves formas de pobreza material e espiritual, entre eles a exploração de pessoas, de crianças, de idosos".

Serzh Sargsyan, por sua vez, ressaltou que, em breve, a Armênia completará 25 anos de independência da União Soviética e que "muitas coisas importantes aconteceram nesse período, entre eles a visita de João Paulo II", ocorrida em 2001.

Primeiro país cristão

Francisco visita a Armênia a convite do patriarca Karekin II e autoridades políticas do país. A Armênia é considerada “o primeiro país cristão”, pois o rei Tiridates III proclamou o Cristianismo como religião de Estado em 301, ainda antes do Império Romano, sob o impulso de São Gregório, o Iluminador. O rito armênio é um dos mais antigos do cristianismo do Oriente, com origens que remontam à época apostólica com Tadeus e Bartolomeu – considerados os Apóstolos do país.

Esta é a segunda visita de um papa ao país. João Paulo II esteve na Armênia em 2001.



sábado, 25 de junho de 2016

Papa se manifesta sobre saída da Grã-Bretanha da União Europeia


A matéria é do IHU:

Francisco sobre a Brexit: “É a verdade manifestada pelo povo. 
Requer de nós uma grande responsabilidade”


O Papa já está na Armênia. Poucos minutos antes das 13h, o voo papal aterrissou no aeroporto de Erevan. Sua Santidade foi recebido por um coro de crianças, vestidas com os trajes típicos da Armênia, e pelo presidente do país, Serj Sargsian, e pelo líder da Igreja apostólica armênia, Karenin II, a quem deu um longo abraço. 

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada por Religión Digital, 24-06-2016. A tradução é de André Langer.


Começa uma viagem complicada e polêmica, com a questão do “genocídio armênio” sobre o papel. Não se espera que Francisco faça referência explícita ao assunto, embora exija à comunidade internacional respeito e reparação ao dano causado no sábado, durante a sua histórica visita ao Memorial de Tzitzernakaberd.

Faz calor em Erevan, de certa forma mitigado pela brisa. Uma representação do Exército acompanha o Pontífice até sua chegada ao Palácio Presidencial, onde acontece a cortesia ao presidente da República. À tarde, o Papa fará um discurso às autoridades civis e ao corpo diplomático, ao passo que o último ato do seu primeiro dia na Armênia será um encontro pessoal com o Catholicos, no Palácio Apostólico.

Antes, durante o voo papal – e contra a prática comum de conceder uma entrevista coletiva na volta – Francisco quis dar sua opinião sobre o resultado do referendo no Reino Unido e a assinatura do cessar-fogo entre o Governo colombiano e as FARC.


A votação sobre o Brexit é, segundo o Papa, “a vontade manifestada pelo povo. Requer de nós uma grande responsabilidade”. Francisco deixou o protocolo de lado e respondeu a duas perguntas feitas pelo padre Lombardi.

Sobre o Brexit, o Papa foi conciso e prudente: “Fiquei sabendo do resultado final aqui no avião, porque quando saí de casa ainda não estava nada definido”.

“Foi a vontade manifestada pelo povo – continuou Francisco – e isto exige de todos nós uma grande responsabilidade para garantir o bem do povo do Reino Unido e também o bem e a convivência de todo o continente europeu”.

Sobre o acordo de paz na Colômbia, Francisco disse: “estou feliz com esta notícia, que recebi ontem. Mais de 50 anos de guerra, de guerrilha, muito sangue derramado! Foi uma bela notícia; espero que os países que trabalharam para fazer a paz sejam fiadores, deem a garantia para que isto prossiga”.






sexta-feira, 24 de junho de 2016

Rapaz belga pede eutanásia por não aceitar ser gay


Há pessoas que lamentavelmente vivem um inferno pessoal, segundo noticia a BBC Brasil:

Belga pede autorização para eutanásia por não se aceitar gay

Jonathan Blake

Um homem gay belga quer receber autorização legal para morrer. Para isso, argumenta que sofre psicologicamente por não conseguir aceitar sua sexualidade. Identificado apenas como Sébastien, ele diz já ter pensado cuidadosamente sobre o momento em que sua vida chegará ao fim.

“No momento em que puserem o soro em minhas veias, para mim será apenas um tipo de anestesia”, afirmou o belga, de 39 anos, ao programa Victoria Derbyshire, da BBC.

A eutanásia é legal na Bélgica desde 2002. No ano mais recente em termos estatísticos, 2013, houve 1.807 casos no país, a maioria deles de pessoas idosas sofrendo de doenças terminais - apenas 4% tinham distúrbios psiquiátricos.

Sébastien diz ter feito terapia durante 17 anos, além de tomar remédios, e acreditar não ter outra opção. Ele afirma sentir atração por homens jovens e adolescentes e ter traumas de infância.

“Minha mãe tinha demência, então eu também não estava bem mentalmente. Sentia-me absurdamente solitário, introvertido e inibido. Tinha medo o tempo todo”, contou.

“Tinha 15 anos quando me apaixonei por um rapaz. Mas era insuportável para mim, porque eu não queria ser gay.”

A lei belga estabelece que, para ter direito à eutanásia, os pacientes precisam demonstrar constante e insuportável sofrimento psicológico ou físico.

Nos casos de transtornos psicológicos, três médicos precisam concordar que pôr fim à vida do paciente, caso essa seja sua vontade, é a melhor opção. Mas Sébastien está determinado a buscar a autorização.

“Sempre pensei na morte. O que sinto é um sofrimento permanente, é como estar aprisionado em meu próprio corpo”, explicou.

“É uma constante sensação de vergonha, uma sensação de cansaço de estar atraído por quem você não deveria. É como se tudo fosse ao contrário do eu que gostaria.”

Há imenso apoio público à eutanásia na Bélgica. O número total de casos aprovados tem crescido anualmente desde 2002 - dois anos atrás, a lei foi alterada para permitir a prática inclusive para crianças em estado terminal.

Mas especialistas debatem se isso deveria se aplicar a pessoas que são mentalmente frágeis.

Caroline Depuydt, psicóloga que trabalha no hospital psiquiátrico Clinique Fond’Roy, em Bruxelas, diz que prefere encorajar pacientes a buscar tratamento.

“Sempre temos algo que pode funcionar. Tempo, remédios, psicoterapia - algo que precisamos tentar e perseverar. O psiquiatra sempre precisa dar esperanças ao paciente de que as coisas não terminaram”, afirmou ela.

“É uma lei difícil, que envolve questões filosóficas e éticas. Não há uma única resposta.”

Todas as mortes na Bélgica são revistas por um comitê de médicos e advogados. Para Gilles Genicot, professor de legislação médica da Universidade de Liége e membro do comitê que revê os casos de eutanásia, o caso de Sébastian não preenche o critério legal para a prática.

“É bem mais provável que ele tenha problemas psicológicos relacionados à sua sexualidade. Não consegui encontrar um traço de alguma doença mental nele. Mas o que você não pode fazer é simplesmente desconsiderar a opção de eutanásia para pacientes”, afirmou.

“Esses pacientes podem entrar no espectro da lei se todos os tratamentos prescritos pelos médicos falharem e três médicos concluírem que não há mais opções.”

À espera de análise

O pedido de Sébastien foi aceito inicialmente - ele precisa passar por mais exames para que seja determinado se a lei se aplica ao seu caso.

O homem mostra ceticismo ao ser questionado sobre a possibilidade de desistir da eutanásia.

“Se alguém me desse uma cura milagrosa, por que não? No momento, porém, eu não acredito mais. Estou cansado.”

Apesar de estar calmo a respeito da decisão de morrer, ele admite que isso afetará as pessoas à sua volta.

“O maior problema será contar para minha família. Se eu receber um sim (a autorização para morrer), esse será o maior problema.”



quarta-feira, 22 de junho de 2016

Programas religiosos dominam televisão brasileira


A conclusão foi publicada na coluna Televisão do Estadão:

Fé eletrônica lidera espaço na TV aberta, segundo monitoramento de 9 canais

Cristina Padiglione

A boa notícia é que 83,3% do total de programação monitorada em nove canais abertos (Band, CNT, Globo, Record, RedeTV!, SBT, TV Brasil, TV Cultura e TV Gazeta) em 2015 é nacional. A má notícia é que a programação religiosa encabeça a lista dos gêneros mais frequentes, com 21,1% no total de horas da programação. Em 2º lugar estão os telejornais, com 14, 6%. Os dados são do Informe de Acompanhamento do Mercado de TV Aberta, realizado pela Superintendência de Análise de Mercado (SAM) da Agência. A pesquisa completa está no o site do OCA – Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (http://oca.ancine.gov.br/estudos.htm).

Educação é a categoria que menos ocupa tempo na grade. É mais bem representada na TV Brasil, com 10,8%, e na TV Cultura, com 9,6%.

O formato séries e minisséries, brasileiras e estrangeiras, ocupou 12% do total de horas. Filtrando o segmento para a origem brasileira, foram veiculados 85 títulos. A TV Brasil, com 53%, e a TV Cultura, com 31%, são as que mais programaram séries e minisséries nacionais – mas isso inclui todo o pacote de reprises de ambas. A Globo ocupa a 3ª posição, representando 10% do tempo total. CNT e Rede TV! zeraram nesse quesito. Nesse universo seriado brasileiro, cresceu a participação de Animação (24,9%), de ficção (52,1%) e caiu a de Documentário (23%). O cinema nacional marcou presença com 384 veiculações, de um total de 262 filmes. A TV Brasil lidera, com 120 títulos, seguida da Globo, com 87 filmes, e da TV Cultura com 55. O SBT não exibiu nenhum filme nacional, só 177 estrangeiros.



terça-feira, 21 de junho de 2016

TJSP nega remoção de placa religiosa em Sorocaba


A informação é do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo:

MANTIDA DECISÃO QUE NEGOU REMOÇÃO DE PLACA COM TEXTO RELIGIOSO EM SOROCABA

A 11ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo manteve decisão que negou pedido do Ministério Público para remover placa com dizeres religiosos das ruas de Sorocaba. O julgamento aconteceu hoje (14).

Consta dos autos que o MP propôs ação civil pública pleiteando a remoção de placa com os dizeres “Sorocaba é do Senhor Jesus Cristo” do espaço público municipal sob o fundamento de que o equipamento violaria os princípios constitucionais da liberdade de crença e do Estado laico. Vencida em primeira instância, a Municipalidade apelou e a sentença foi reformada por maioria de votos, razão pela qual a Promotoria opôs embargos infringentes.

Ao julgar o pedido, o relator, desembargador Oscild de Lima Júnior, entendeu não haver ofensa à liberdade religiosa ou laicidade do Estado. “O Brasil foi colonizado e formado dentro dos parâmetros da civilização cristã. Este é um fato indesmentível a que não se pode fugir, tornando a questão muito mais cultural do que religiosa. A prevalecer a tese sustentada pelo autor, pergunta-se como seria feita esta depuração religiosa cultural? Quantos milhares de ações civis públicas terão que ser propostas para afastar essa tradição cristã? Sem perder de vista o fato de o Brasil ter tido o catolicismo como religião oficial por mais de 300 anos.”

O julgamento, por maioria de votos, contou com a participação dos desembargadores Ricardo Dip, Marcelo L. Theodósio, Aroldo Viotti e Jarbas Gomes.

Embargos infringentes nº 3008630-80.2013.8.26.0602



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Apesar das ameaças de ausência, começou o Concílio Pan-Ortodoxo


A matéria é do IHU:

O Concílio ortodoxo “que cambaleia” e os sinais dos tempos


O Santo e Grande Concílio ortodoxo, meio cambaleando, começa hoje [domingo, 19 de junho] na ilha de Creta. (1) E, independentemente do jeito que terminar, já pertence à categoria dos eminentes sinais dos tempos. Visto na perspectiva da fé dos Apóstolos, o cabo de guerra que surgiu “in extremis” no âmbito do encontro de comunhão que estava sendo preparado há décadas pelas Igrejas que compartilham o mesmo tesouro apostólico e sacramental mostra, pelo menos por um momento, o vertiginoso caminho pelo qual procede sempre na história a promessa da salvação cristã, encomendada aos sucessores desses mesmos apóstolos. 

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 19-06-2016. A tradução é de André Langer.


As últimas notícias sobre as decisões e os pronunciamentos dos líderes das Igrejas ortodoxas são muito sugestivas. O Santo e Grande Concílio começa com a presença dos líderes de 10 das 14 Igrejas autocéfalas ortodoxas, sob a presidência do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

Do ponto de vista dos grupos e dos equilíbrios de força, tem um peso relevante a participação da Igreja ortodoxa da Sérvia (que no começo tinha se negado a participar), a qual, em seu último comunicado oficial, se reserva o direito de abandonar o encontro caso este se negar a “considerar todas as questões, problemas e diferenças” expressadas durante as últimas semanas pelos quatro patriarcas ortodoxos (de Antioquia, Bulgária, Geórgia e Rússia) que decidiram não participar.

Com a decisão manifestada na segunda-feira passada, o Patriarcado de Moscou de alguma maneira deixou cair a máscara e mostrou-se com o verdadeiro artífice das iniciativas que, coagulando diversos mal-estares e reservas, apostavam na suspensão ou em dar outra direção, “in extremis”, à máquina conciliar que já estava em andamento.

O Patriarca de Moscou, Kirill, em sua última mensagem oficial dirigiu-se intencionalmente aos “Primados e representantes das Igrejas ortodoxas locais que se reúnem em Creta”, sem utilizar a expressão “Concílio”, para dar a entender que esta reunião era “um encontro que pode servir para a preparação do Santo e Grande Concílio”, negando ao encontro de Creta a categoria de Assembleia Conciliar.

Além disso, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, homem chave na política eclesiástica do aparelho ortodoxo russo, em uma entrevista, fez algumas advertências pessoalmente ao Patriarca Bartolomeu, indicando que o “Primus inter pares” entre os primados ortodoxos “dará prova de prudência” e destacando que “se se convoca o Concílio apesar da ausência de ao menos quatro das Igrejas locais, constituirá uma brutal transgressão do regulamento do próprio Concílio, que estabelece que deve ser convocado pelo patriarca ecumênico com o consenso de todas as Igrejas”.

Enquanto isso, a partir de Kiev, os círculos nacionalistas ucranianos tratam de aproveitar a confusão e o Parlamento pede oficialmente ao Patriarca Bartolomeu para que reconheça a autocefalia da Igreja ortodoxa ucraniana (atualmente sujeita com um estatuto de autocefalia à jurisdição do Patriarcado de Moscou), patrocinando um “Concílio de unificação pan-ucraniana” com o qual possam unir-se “todas as Igrejas ucranianas ortodoxas”.

No entanto, em Creta, a máquina midiática do Concílio, nas mãos de órgãos da imprensa estadunidenses, começa a inundar a rede de comunicados e informes feitos de acordo com padrões já acordados em nível global para encontros e “quermesses” religioso-espirituais para todos os gostos.

Nas últimas notícias, a questão do Concílio ortodoxo e seu semi-naufrágio ou seu desejado “êxito midiático”, seguem sendo apresentados principalmente como uma questão político-eclesiástica. Os comentários e narrações da mídia, com poucas exceções, ressaltam as estratégias, alianças, provas de força, pressões, sintonias mais ou menos claras entre os aparelhos político-clericais.

Nos tribunais da rede que infestam a blogosfera católica, as manipulações mais descaradas e interesseiras usam como pretexto os problemas ortodoxos para confeccionar condenações baratas sobre as dinâmicas da sinodalidade eclesial, tão citadas pelo Papa Francisco. Mas estes informes “déjà vu” que elucubram sobre as mutáveis alquimias do poder eclesiástico ou sobre os erros táticos (verdadeiros ou não) dos diferentes aparelhos clericais raramente intuem a raiz profunda das tribulações ortodoxas.

Podem ajudar muito mais as intuições manifestadas por Bartolomeu em uma antiga entrevista de 2004 à revista italiana 30Giorni, na qual o patriarca ecumênico, ao falar sobre o cisma entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, disse que a origem distante dessa divisão está nas “primeiras manifestações do pensamento mundano na Igreja”. Se os ortodoxos sempre reconheceram em tal infiltração a matriz da pulsão “hegemônica” do Papado ocidental, agora parece muito mais claro que tal pulsão não só não foi neutralizada por um ou outro modelo abstrato de eclesiologia “institucional” e pode facilmente servir-se das dinâmicas e dos instrumentos sinodais.

Em relação ao caso das Igrejas ortodoxas, a referência à penetração do pensamento mundano nas dinâmicas eclesiais tem muito pouco a ver com a tradicional e dócil sintonia com os poderes civis nacionais que os polemistas católicos sempre reprovaram na Ortodoxia. Os problemas do Santo e Grande Concílio não dependem de Putin, que paradoxalmente, justamente perseguindo seus interesses, poderia ter sido capaz de favorecer um resultado mais fecundo para o caminho e para a missão apostólica das Igrejas ortodoxas.

Pelo contrário, o que criou muitos obstáculos foi o peso morto do orgulho clerical enquanto tal, a “hybris” que contamina os aparelhos eclesiásticos cada vez que as Igrejas, em qualquer nível, constroem e perseguem um modelo de auto-suficiência e de auto-afirmação no cenário do mundo. Nenhuma das instâncias eclesiais é imune a esta tentação de uma desnaturalização semelhante, como repetiu em várias ocasiões o Papa Francisco ao fazer alusão à gangrena do “mundanismo espiritual”.

Neste momento, devemos admitir que esta atitude ameaça particularmente a Igreja russa. Considerando apenas as últimas duas semanas (e inclusive o que aconteceu antes do início das convulsões sobre o Concílio ortodoxo), o Patriarca Kirill disse que a Igreja russa tem agora, nada mais e nada menos, a tarefa de “mudar a atitude em relação à fé e ao cristianismo em muitos países da Europa e da América”, para voltar a dar uma relevância global ao cristianismo (19 de maio).

O Metropolita Hilarion, por sua vez, apresentou, em 19 de abril passado, a Rússia atual como a única nação de destaque na qual se “expandem a fé e a Igreja”, descrevendo um Ocidente completamente aniquilado pelo ateísmo e o secularismo, com uma inversão total de papéis com relação aos tempos da União Soviética. Em um ataque de triunfalismo identitário, o próprio Hilarion, no final de maio, disse que o Patriarcado de Moscou ocupa “o segundo lugar no mundo” em número de fiéis, atrás apenas da Igreja católica, separando conceitualmente os fiéis russos de todos os outros cristãos ortodoxos.

Apenas aqueles que amam com sincera gratidão a grande aventura cristã que começou com o batismo do Grande Príncipe Vladimir sentem a urgência de informar aos irmãos russos a deriva de retrocesso a que parecem tão expostos neste momento. Mas o escorregão pelo Concílio ortodoxo antes de mesmo de começar deve fazer pensar que não apenas entre os líderes da Ortodoxia russa se rarefez a percepção do tempo escatológico vivido pela Igreja de Cristo.

“Os Primados das Igrejas que colocam em primeiro lugar questões mundanas como o primado de honra”, disse em meio às convulsões pré-conciliares Theodoros II, Patriarca ortodoxo de Alexandria, “deveriam descer de seus tronos suntuosamente decorados e visitar a África, para ver o que quer dizer ser pobres e humildes filhos de Cristo”.

Como já aconteceu em outros momentos da história, o tropeço inicial do encontro conciliar ortodoxo, seu “fracasso” em termos de estratégia humana, vivido à luz da cruz, da descida aos infernos, da Ressurreição e do Pentecostes, poderia sugerir novas vias de fuga para abandonar a soberba clerical e andar mais rapidamente para Cristo.

Como disse Matta el Meskin – o pai da renovação dos monges coptas durante um rico congresso organizado pela comunidade monástica de Bose –, a unidade entre os cristãos, embora pertençam à mesma confissão, nunca nasce como espírito de “coalizão” para sentir-se mais fortes, para unir forças contra inimigos verdadeiros ou imaginários e dar maior relevância e poder à Igreja e aos homens da Igreja. Sempre nasce acompanhada da perda do instinto de conversação e da pretensão de caminhar na história por força própria, como uma realidade autossuficiente.

A unidade em Cristo dos cristãos, escreveu Matta el Meskin, “é um estado de fragilidade divina perante o mundo, seguindo o exemplo de seu Mestre, que renunciou ao seu poder infinito para ser crucificado por qualquer pessoas que ele amava e na maneira como a amava. E todos os problemas que dividem a Igreja – acrescentou Matta – demonstram exatamente que o Senhor não está presente no meio da assembleia. E sua ausência nos obriga a voltar a colocar em questão a finalidade da reunião, o método da busca e as intenções dos membros reunidos [...] O problema da unidade encontra-se clara e decisivamente no problema da presença do Senhor”, porque “só o Senhor ‘pode fazer de dois povos um só, tendo derrubado os muros que os separam (cf. Ef 2, 14)’”.



domingo, 19 de junho de 2016

TJSP nega direito ao esquecimento

imagem meramente ilustrativa
A informação é do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo:

TJSP REJEITA DIREITO AO ESQUECIMENTO E NEGA EXCLUSÃO DE NOTÍCIAS

Homem detido em 2007 por integrar grupo skinhead e cujo nome foi divulgado em várias publicações à época teve negado seu pleito para exclusão das matérias constantes em alguns veículos de comunicação. A decisão, por maioria de votos, foi proferida pela 10ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Consta dos autos que ele ajuizou ação sob o fundamento de que as notícias, mesmo após anos dos acontecimentos, ainda lhe causam constrangimento e dificuldade para arrumar emprego. Sentença proferida em primeira instância acolheu o pedido de “direito ao esquecimento”, determinando a condenação dos órgãos de imprensa a interromper definitivamente a publicação e circulação, nos sites eletrônicos, das notícias em questão, mas rejeitado o pedido de eliminação da pesquisa referente ao link por parte do Google, por não se tratar de provedor de conteúdo.

Ao julgar a apelação interposta pelos veículos de imprensa, o desembargador Cesar Ciampolini afirmou que há a necessidade de sopesar valores constitucionais que se contrapõem, qual sejam, a liberdade de imprensa e de informação e o direito à intimidade do cidadão. O desembargador lembrou que o direito de invocação à liberdade de imprensa está limitado pela veracidade da informação e, na ação em questão, o apelado não pôs em dúvida a veracidade do fato. “Nos dias de hoje, querer que órgãos de imprensa excluam de seus arquivos digitais notícias verdadeiras equivale a uma ordem que se tenha dado em momentos menos esclarecidos da História, para queima de livros e destruição de bibliotecas. Como é veraz o fato relatado relativamente ao autor, não há como apagá-lo. Terá ele outros meios, se preciso, de justificar-se, mas não tem o direito de excluir de arquivos jornalísticos, o registro do fato.”

Os desembargadores Elcio Trujillo, Carlos Alberto Garbi, João Carlos Saletti e Araldo Telles também participaram do julgamento.

Apelação nº 1113869-27.2014.8.26.0100



sábado, 18 de junho de 2016

Governo brasileiro não quer mais refugiados sírios


E pensar que o usurpador de plantão, Michel Temer, que bate a porta na cara dos seus patrícios,  é descendente de libaneses, ali do lado, hein...

A informação é do HuffPost Brasil:

Brasil suspende negociações com União Europeia para trazer refugiados sírios

Como parte de uma nova e restritiva política de acolhimento de estrangeiros, a gestão do presidente em exercício Michel Temer suspendeu as negociações entre Brasil e União Europeia para acolher refugiados sírios no Brasil.

A postura contrasta com a da presidente afastada, Dilma Rousseff, que salientava que o Brasil estava "de braços abertos" para receber aqueles que fogem da guerra civil da Síria, que já dura mais de cinco anos e já fez com que mais de 5 milhões de pessoas deixassem o país. É a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.

De acordo com informações da BBC, a ordem veio do ministro interino da Justiça, Alexandre de Moraes e foi comunicada à equipe nesta semana.

O Brasil tem pouco menos de 10 mil refugiados formalmente reconhecidos, sendo a maioria de nacionalidade síria. Por meio da Resolução Normativa 17 do Conare, todos os sírios que desejarem vir para o Brasil terão direito ao visto humanitário e entrada imediata no território brasileiro.

Com os esforços do anterior ministro da Justiça, Eugênio Aragão, a intenção era obter recursos internacionais para trazer 100 mil sírios ao país nos próximos cinco anos, com o respaldo de Dilma.

Procurado pela reportagem, O Ministério da Justiça e Cidadania informou que não houve nenhuma suspensão das negociações com a União Européia, que continuam do ponto inicial onde estavam.

"O governo anterior não havia estabelecido nenhum programa ou projeto nesse sentido, nem previsto tampouco qualquer previsão orçamentária", afirma o governo provisório em nota.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

O encontro do papa com o tigre


Aconteceu esta semana em Roma, na tradicional audiência que o papa concede a alguns convidados, e por pouco não terminou mal. Confira no vídeo abaixo:




quinta-feira, 16 de junho de 2016

A pequena cidade americana que produz extremistas cristãos e islâmicos

Na dúvida, é melhor passar longe de Fort Pierce, na Florida.

A matéria é do Estadão:

Cidade do atirador de Orlando vive traumas do extremismo

CLÁUDIA TREVISAN

Homem-bomba da Al-Qaeda e famílias de Omar Mateen e do terrorista de Oklahoma Timothy McVeigh moraram em Fort Pierce

Com 44 mil habitantes, Fort Pierce é uma típica cidade do sul dos EUA, na qual igrejas evangélicas são mais presentes na paisagem urbana do que bancos, McDonald’s ou shopping centers. No domingo, seu nome passou a ser associado ao extremismo e à intolerância, depois que o morador Omar Mateen dirigiu por duas horas até Orlando, entrou no clube gay Pulse e matou 49 pessoas a tiros.

Essa não foi a primeira vez que Fort Pierce viu o radicalismo de perto. Em 2014, Moner Mohammad Abu-Salha partiu da cidade em direção à Síria, onde se uniu à Al-Qaeda e se transformou no primeiro americano a morrer como homem-bomba.

Mas os que vivem em Fort Pierce há muitos anos se lembram de outro caso de extremismo que tocou a cidade, associado não ao islamismo, mas aos defensores da supremacia branca. Mildred Frazer morava na cidade em 1995, quando seu filho, Timothy McVeigh, explodiu um edifício governamental em Oklahoma, matando 168 pessoas e deixando 680 feridas.

Nos dias seguintes ao atentado, dezenas de jornalistas permaneceram em Fort Pierce, na expectativa de entrevistar a mãe do criminoso.

Os moradores tentam agora se recuperar do massacre de Orlando, que dominou o noticiário global e levou outro exército de repórteres à cidade. “É uma pena que Fort Pierce tenha notoriedade por uma coisa tão terrível”, disse Barbara, dona de uma loja de móveis que fica a cerca de 200 metros da mesquita que Mateen frequentava e pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome.

A pequena comunidade muçulmana local também tenta superar o trauma, enquanto vive o temor de ser estigmatizada. No centro islâmico que o atirador frequentava de três a quatro vezes por semana, muitos se recusaram a ser entrevistados.

O paquistanês Aziz Chagani foi o único que concordou em falar a jornalistas na tarde de ontem. “Eu o vi várias vezes na mesquita. Algumas vezes, ele vinha com o filho, outras sozinho. Era sério, não falava muito, mas não parecia violento.” Mateen esteve pela última vez na mesquita na sexta-feira.

Chagani afirmou não temer a retórica anti-islâmica de Donald Trump, candidato republicano à presidência. “Estou vivendo a vida normalmente aqui há 30 anos. Veio o 11 de Setembro, agora isso. As coisas vêm e vão. Esse é um país pacífico. Uma ou duas maçãs podres não vão mudar isso.”

Mateen foi investigado pelo FBI em 2014 por suspeita de ligação com Abu-Salha, que esteve na mesma mesquita antes de viajar para a Síria. Chagani lembra de tê-lo visto, mas afirmou que o extremista não era de sua comunidade, mas sim da mesquita de Little Beach, a 45 minutos de distância. Perguntado sobre o que poderia ter radicalizado jovens de Fort Pierce, Chagani preferiu não opinar.

Depois do ataque cometido por McVeigh, sua mãe escreveu um artigo para o jornal Fort Pierce Tribune refletindo sobre os atos do filho. “Parece que ele poderia ser o filho de qualquer um de nós, certo? Pessoas que vivem em uma casa de vidro não deveriam atirar pedras. Isso poderia ter ocorrido na sua família da mesma maneira que ocorreu nessa.”



quarta-feira, 15 de junho de 2016

Quando Michel Temer se entregava "à fé de Eduardo Cunha"

O cinismo e o disse-não-disse parecem ser a principal característica de certos políticos e "evangélicos" brasileiros.

Confira no vídeo abaixo:




terça-feira, 14 de junho de 2016

Banda Resgate recusa ser paga com dinheiro público e cancela show

A informação é do Portal 6:

BANDA RESGATE CANCELA SHOW EM ANÁPOLIS APÓS SABER QUE SERIA PAGA COM DINHEIRO DA PREFEITURA

A indignação pelo uso de dinheiro público para bancar o 2º Festival Gospel de Anápolis não ficou restrito à população da cidade. Nesta sexta-feira (10), a representante legal da Banda Resgate enviou nota de esclarecimento ao Portal 6 informando que o grupo não se apresentará mais no evento.

Na nota, os representantes da Banda Resgate revelam que não foram informados, no momento da assinatura do contrato, que o Festival receberia recursos da Prefeitura de Anápolis.

A atitude, alegam, serve para “resguardar a imagem da banda, tendo em vista que na cidade esse evento esta sendo questionado por conta do valor que a prefeitura está repassando ao Conselho de Desenvolvimento de Joanápolis e Região – CDJ”.

Formada em 1989, em São Paulo, sendo uma das primeiras bandas de rock do segmento evangélico do Brasil, a Banda Resgate é conhecida pela seriedade de seus integrantes, liderados pelo cantor e bispo Zé Bruno.

A informação sobre a entrega de dinheiro público para o 2º Festival Gospel de Anápolis foi dada com exclusividade pela coluna “Bastidores”, do Portal 6. Até o momento, o grupo Disco Praise e o cantor Kleber Lucas permanecem confirmados para evento.

Veja a nota da Banda Resgate na íntegra:





segunda-feira, 13 de junho de 2016

Papa rejeita doação de 16.666.000 pesos do governo argentino

Que as relações entre o papa Francisco e o atual presidente argentino, Mauricio Macri, não são nada boas, isso já se sabia, sobretudo em razão da prisão - desde janeiro de 2016 - da líder popular Milagro Sala, na província de Jujuy, no Norte do país.

Apesar de ser parlamentar do Mercosul e da Legislatura jujeña, a ativista peronista Milagro Sala continua presa, malgrado os protestos papais e internacionais que a consideram uma presa política e exigem a sua liberação.

Agora, não se sabe a razão exata pela qual caiu muito mal a iniciativa de Macri em doar 16.666.000 pesos à Fundação Pontifícia Scholas Occurrentes, instituição com responsabilidades educacionais e ligada à Igreja Católica.

Seria o cabalístico número 666 uma provocação subliminar introduzida no meio da cifra milionária? Teria sido a pressa do governo argentino em demonstrar - com a doação - que está tudo às mil maravilhas entre Francisco e Macri?

A quantia equivale hoje, pelo câmbio oficial, a 4.124.162 reais brasileiros, cá entre nós, uma soma nada fácil de ser rejeitada, mas o papa não se deu por logrado e bateu a porta na cara do presidente argentino. Com gosto, pelo jeito...

Já pensou se Michel Temer resolve doar uns milhõezinhos às denominações ditas "evangélicas" lideradas por certos "pastores" que o ajudaram a tomar o poder?

Como se comportariam certas celebridades "góspeis" ao ouvir milhões de moedas originárias de dinheiro público tilintando no cofre do Tio Patinhas?

Você acha que eles rejeitariam? (risos sarcásticos)

A matéria é do IHU:

Quando a esmola é grande, até o Papa desconfia

Bergoglio ordenou não aceitar os 16 milhões e 666 mil pesos que o Governo doou à Fundação Scholas Occurrentes. A decisão aumentou novamente a tensão na relação entre o Governo e o Papa Francisco.

A reportagem é de Washington Uranga e publicada por Página/12, 12-06-2016. A tradução é de André Langer.

Em um gesto de indubitável repercussão política, o Papa Francisco ordenou aos responsáveis da Fundação Pontifícia Scholas Occurrentes para que não aceitem a doação de 16 milhões e 666 mil pesos que lhe foram outorgados há 10 dias pelo governo de Mauricio Macri com a finalidade de contribuir para a “manutenção da equipe profissional, da infraestrutura e do equipamento da sede central” da organização impulsionada por Bergoglio.

De maneira extra-oficial, sabia-se que a decisão tornada pública pelo Governo como um gesto de aproximação com Francisco caiu muito mal no Vaticano e deixou o Papa chateado. O sítio italiano Vatican Insider refletiu isso em uma nota que deu conta da perplexidade que a doação causou em Bergoglio e que mesmo no Vaticano pareceu uma brincadeira de mau gosto o fato de que a doação fosse de 16 milhões e 666 mil pesos, quando se sabe que “666” é “o número da besta”.

Agora, em uma carta com data de 09 de junho e dirigida a Marcos Peña, na sua condição de Chefe de Gabinete, os responsáveis pela Scholas Occurrentes, José María del Corral (presidente) e Enrique Palmeyro (secretário), comunicaram ao governo de Mauricio Macri que “considerando que há quem queira desvirtuar este gesto institucional feito no marco da Lei 16.698, com a finalidade de provocar confusão e divisão entre os argentinos, e de acordo com os comentários compartilhados por telefone, achamos por bem suspender a contribuição econômica não reembolsável destinada a cobrir os gastos com pessoal, infraestrutura e equipamento da sede central em nosso país”.

Colocando em relevo, no entanto, a necessidade de recursos que a fundação tem, os assinantes assinalam na mesma carta que “procuraremos obter este aporte necessário no imediato através dos organismos multilaterais de crédito e da ajuda de privados”.

A Fundação Scholas Occurrentes é uma rede mundial educativa que pretende promover a vinculação entre escolas de todo o mundo, compartilhar projetos, estabelecer alianças e cooperação, com a intenção de favorecer as escolas de recursos mais baixos propiciando uma educação sem excluídos. Os antecedentes da iniciativa remontam ao tempo em que Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires, e sob o lema de “Escolas irmãs” impulsionou uma linha de ação que denominou “unir escolas, esportes populares e solidariedade”.

Por decisão e impulso do Papa, desde agosto de 2015 a fundação tem reconhecimento legal por parte do Vaticano e conta com uma direção formada por três argentinos: o bispo Marcelo Sánchez Sorondo e dois colaboradores próximos a Francisco: José María del Corral e Enrique Palmeyro.

Em 2014, por solicitação da hoje ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner, o Congresso aprovou a Lei 26.985 declarando de “interesse nacional” o projeto Scholas Occurrentes.

Um dos pontos que mais chateou o Papa sobre a doação foi que a determinação não lhe foi comunicada oficialmente, mas que tomou conhecimento do decreto assinado por Macri através da imprensa. Por esse mesmo motivo, Bergoglio fez saber também seu descontentamento a Palmeyro e del Corral, a quem teria reprovado o gesto assinalando que a Argentina tem outras necessidades mais urgentes e às quais o Governo deve atender.

O chefe de Gabinete, Marcos Peña, aceitou o pedido dos diretores da Scholas para anular a doação e respondeu com outro texto no qual assinalou que “sem prejuízo de tomar nota da suspensão proposta, ratificamos o compromisso do nosso Governo de acompanhar a Fundação na importante tarefa de impulsionar e defender os valores da paz, da inclusão e do encontro dos jovens de todo o mundo”.

A contrariedade de Francisco com a doação oficial aumentou após perceber que diversos porta-vozes da Aliança Mudemos procuraram apresentar o subsídio como uma forma de “reconciliação” com o Papa depois que a máxima autoridade da Igreja católica fez manifestações muito claras de distanciamento com o governo de Macri, incluindo seu gesto adusto nos apenas 22 minutos de audiência que lhe concedeu em 27 de fevereiro passado no Vaticano.

Sobre a doação à Scholas, Juan Grabois, um dirigente social muito próximo ao Papa, disse ao Vatican Insider que quem “pensa que por dar dinheiro, especialmente recursos públicos, a uma fundação, escola, ONG, cooperativa ou movimento popular pelo simples fato de estar direta ou indiretamente vinculado ao Papa, está fazendo um ‘gesto a Francisco’ é realmente um imbecil, além de corrupto e prevaricador”.

No sábado, foi divulgada a notícia de que Grabois, líder da Confederação da Economia Popular e do Movimento de Trabalhadores Excluídos (TEM), foi nomeado pelo Papa como consultor do Pontifício Conselho da Justiça e Paz. Este organismo vaticano, integrado majoritariamente por leigos, trabalha para “a formação entre os povos de uma sensibilidade sobre o dever de promover a paz” e desenvolver ações pela justiça no mundo.

Uma vez conhecida a sua nomeação, Grabois disse que “este é um reconhecimento para a tarefa dos movimentos populares e um estímulo para continuar trabalhando, como fiz até agora, pelos direitos dos mais pobres”.

O dirigente é uma pessoa da confiança de Bergoglio desde quando o agora Papa era arcebispo de Buenos Aires e tem uma ativa presença em organizações sociais de favelas e bairros pobres da Grande Buenos Aires, trabalhando com carrinheiros, vendedores ambulantes, camponeses, costureiros, artesãos e operários de empresas recuperadas.

Já em Roma, Francisco confiou a Grabois a organização dos encontros de movimentos populares que o Papa presidiu em Roma em outubro de 2014 e em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, em julho de 2015. O agora consultor da Justiça e Paz é também professor de Teoria do Estado na Universidade de Buenos Aires (UBA) e de prática profissional na Universidade Católica Argentina (UCA).



domingo, 12 de junho de 2016

Terror islâmico é suspeito no atentado em boate gay que matou 20 na Florida

A informação é da BBC Brasil:

'Havia sangue por toda a parte', diz testemunha de tiroteio em boate gay de Orlando

Uma das testemunhas do tiroteio ocorrido na madrugada deste domingo em uma boate gay de Orlando, no Estado americano da Flórida, relembrou os momentos de terror que viveu após um homem abrir fogo no local.

Aproximadamente 20 pessoas morreram, segundo a polícia [atualização: às 13 h de 12/06/16, horário de Brasília - o número é de 50 mortos]. Outras 42 foram levadas ao hospital.

"Me joguei no chão e me arrastei até o banheiro para sair pela porta dos fundos. Me deparei com um homem que havia sido baleado nas costas. Tirei minha bandana e fiz uma compressa para estancar o sangramento, mas ele não parava de sangrar. Então coloquei os braços dele ao redor dos meus ombros e o ajudei a sair de lá", contou Christopher Hansen.

"Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo porque havia três ambientes tocando músicas diferentes. Depois que saí da boate, ainda escutei disparos. Logo em seguida, os paramédicos chegaram. Vi corpos por toda a parte. No estacionamento, as pessoas foram marcadas com cores diferentes ─ de modo que os paramédicos pudessem saber quem ajudar primeiro. Havia sangue por toda a parte", acrescentou ele.

Na madrugada deste domingo, um homem armado abriu fogo na boate gay Pulse em Orlando, no Estado americano da Flórida. Pelo menos 100 pessoas participavam de uma festa com temática latina no local.

A polícia confirmou a morte do atirador, que ainda não foi identificado.

Um porta-voz do FBI, a polícia federal americana, afirmou que o tiroteio está sendo investigado como um "ato terrorista". Questionado se o atirador teria ligações com algum grupo radical islâmico, Ronald Hopper disse: "Temos indicações de que o indivíduo tem inclinações por uma ideologia em particular".

Segundo a polícia, ele estaria carregando um "tipo de detonador". Um esquadrão antibomba realizou uma explosão controlada no local.

Testemunhas afirmam que, após efetuar os disparos, o atirador permaneceu dentro da boate e fez alguns reféns. A informação foi confirmada pela polícia.

Mais cedo, imagens que circularam nas mídias sociais mostraram dezenas de ambulâncias no entorno do local e pessoas recebendo cuidados médicos nas calçadas.

Em entrevista à BBC, Ricardo Negron Almodovar, que estava dentro da boate, afirmou que o atirador abriu fogo por volta das 2h locais (3h de Brasília), pouco antes do fechamento da casa noturna.

"Ouvimos vários tiros sendo disparados. No ambiente onde eu estava, as pessoas se jogaram no chão. Não pude ver o atirador ou gente ferida", relatou.

"Em dado momento, houve uma pequena pausa, e o grupo em que eu estava se levantou e correu em direção à saída que leva à área do pátio externo. Achamos a saída e depois saímos correndo", acrescentou.

'Fim de semana trágico'

O incidente ocorre menos de 48 horas depois de outro homem armado matar a cantora Christina Grimmie, de 22 anos, após um show na cidade.

Ex-participante da edição americana do programa de TV The Voice, ela estava dando autógrafos a fãs quando foi baleada por Kevin James Loibl, de 26 anos. O irmão de Christina chegou a lutar com Loibl, mas ele se matou em seguida.

Ainda não se sabe qual teria sido a motivação do atirador.



sábado, 11 de junho de 2016

O pastor que reagiu ao caso de estupro que revoltou os EUA

Brock Turner, o estuprador que o juiz julgou
"bonzinho"
A matéria é do HuffPost Brasil:

'Seu filho agiu como um monstro', diz autor de carta destinada a pai de estuprador

Nesta semana, o caso de Brock Turner ganhou destaque no noticiário americano - e mundial. Flagrado estuprando uma jovem desacordada em janeiro de 2015, o ex-aluno da universidade de Stanford foi condenado a apenas seis meses de prisão pelo crime.

Entre os motivos que fizeram com que o juiz americano Aaron Persky condenasse Brock a tão pouco tempo de prisão estava uma carta escrita pelo pai do jovem. No texto (leia a íntegra aqui), Dan Turner afirmava que o encarceramento era um castigo muito duro para um 'ato que só durou 20 minutos'. O pai do jovem ainda acrescentou que se fosse preso, a vida do jovem "nunca seria a que ele sonhou alcançar".

Pastor e escritor, John Pavlovitz resolveu publicar, em seu blog "Stuff that needs to be said" (Coisas que precisam ser ditas, em tradução livre)uma carta diretamente ao homem que tentou (e conseguiu) defender seu filho no tribunal.
"Brock não é a vítima aqui. Sua vítima é a vítima. Ela é quem foi ferida. Ele foi quem feriu."
Em seu texto, Pavlovitz critica ainda a cultura do estupro, e afirma o óbvio: embora o ato em si tenha durado "apenas 20 minutos", a vítima de Brock vai lidar com o trauma para o resto da vida e é categórico: "em nenhum cenário seu filho deveria despertar simpatia aqui".

"Eu não acredito que seu filho seja um monstro, mas ele agiu como um, e isso deve ser levado em conta". Brock foi visto por dois jovens estuprando uma garota atrás de uma lata de lixo, após uma festa de estudantes. A jovem estava inconsciente, mas sua defesa - que vai recorrer da sentença - insiste em dizer que ela consentiu o ato.

"Se a vida dele foi 'profundamente alterada' é porque ele alterou, horrivelmente, outro ser humano; porque ele fez a escolha repreensível de tirar vantagem de outra pessoa para seu próprio prazer".

O pastor ainda afirma o que todos nós gostaríamos de dizer: "Eu entendo que você está tentando humanizar seu filho em sua carta, contando ao juiz sobre suas comidas favoritas, treinos de natação e memórias que para você, como pai, são doces - mas, honestamente, eu não dou a mínima e se a vítima fosse sua filha, eu tenho certeza de que você também não daria."



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