Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Os 500 anos de Calvino

Há exatos 500 anos atrás, no dia 10 de julho de 1509, um menino chamado Jehan Cauvin nascia na pequena vila de Noyon, região da Picardia, cerca de 95 km ao norte de Paris. Com o nome devidamente aportuguesado para João Calvino, fica mais fácil saber de quem estamos falando, um dos dois maiores reformadores protestantes do século XVI. Apenas para fazer um paralelo com o outro reformador de destaque, em 1509, Martinho Lutero tinha 26 anos de idade, já havia sido ordenado sacerdote (em 1507), e lecionava Teologia na Universidade de Wittenberg desde 1508. Calvino tinha, portanto, 8 anos de idade quando Lutero afixou suas 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, dando início ao período da História da humanidade (e da Igreja) que ficou conhecido como a Reforma Protestante. Numa brevíssima biografia, Calvino foi estudar na Universidade de Paris, no Collège Montaigu, em 1521 ou 1523 (há divergências sobre a data). Curiosamente, foi contemporâneo de dois expoentes católicos, Francisco Xavier e Inácio de Loyola, que fundariam a Companhia de Jesus (os jesuítas) em 1534, o que dá uma ideia da efervescência teológica daquele momento histórico. A idéia inicial era que também Calvino deveria estudar Teologia, já que possuía uma espécie de bolsa da Igreja Católica francesa destinada a este fim. Entretanto, seu pai muda de idéia em 1529, e ele vai estudar Direito em Orleans, onde provavelmente desenvolveu melhor sua veia argumentativa que se nota tão bem na sua obra. Além de uma forte formação humanista, Calvino também continuou estudando Teologia Não se sabe, com precisão, qual é a data da conversão de Calvino ao protestantismo, até porque ele nunca deu detalhes sobre este fato. Só se pode afirmar que foi entre 1532 e 1533, quando o movimento de luteranos e anabatistas já havia influenciado boa parte da Europa. Com a perseguição aos protestantes na França, Calvino se refugia na Suíça, inicialmente na Basiléia, onde publica – em 1536 - a primeira versão de sua obra máxima, Instituições da Religião Cristã ("As Institutas"), que é, originalmente, uma defesa da fé protestante, endereçada ao rei Francisco I, procurando convencê-lo das boas razões da Reforma. É em 1536 também que ele vai a Genebra, onde após idas e vindas, se estabelece definitivamente como o chefe da Reforma Protestante na cidade, na qual vem a falecer em 27 de maio de 1564.

Se as breves linhas acima não dão conta de traçar uma biografia de Calvino, muito mais espaço seria necessário neste blog para discutir a extensão de sua influência na trajetória da Igreja e do mundo nos séculos seguintes. Paixões – pró e contra, e muitas vezes extremadas – são despertadas quando se abordam a vida e os ensinos de Calvino. No campo teológico, ele é muitas vezes visto – equivocadamente – como uma espécie de "pai" da doutrina da predestinação, quando este tema é examinado de maneira discreta nas Institutas, que é um tratado de teologia muito bem escrito e fundamentado sobre as mais variadas doutrinas cristãs. Não se pode ignorar que a predestinação era um tema recorrente nas cartas de Paulo, e, antes de Calvino, já havia sido desenvolvido por Agostinho, Tomás de Aquino e Lutero. Lamentavelmente, o preconceito faz com que muita gente despreze as Institutas e as demais obras de Calvino na base do "não li e não gostei". Outra crítica comum que lhe é dirigida, agora no campo materialista, é a de que a suposta ênfase calvinista na predestinação teria lançado as bases do capitalismo moderno, exercendo sobre ele uma enorme influência que, na verdade, não teve. Afinal, o sistema capitalista teve sua gênese no desmonte do feudalismo, no nascimento dos burgos e suas corporações de ofício, no colonialismo e nas novas rotas comerciais propiciadas pelas grandes navegações, todos esses fenômenos ocorridos nos séculos XIV e XV. A Reforma Protestante do século XVI se encaixa nesta agenda proto-capitalista como o xeque-mate no poder político da Igreja Católica, que até então mandava e desmandava na Europa. Como os séculos seguintes testemunharam, esse poder foi sendo perdido paulatinamente e, por mais que Max Weber tente, não se pode fazer uma associação direta e imediata entre a doutrina da predestinação com a riqueza da elite dominante e o destino proletário das classes trabalhadoras, como se Calvino tivesse tentado reproduzir na Europa o sistema hindu de castas, tudo com o objetivo de inaugurar um novo sistema, que, por sinal, só veio a tomar as feições modernas de capitalismo após as Revoluções Industrial (no campo econômico) e Francesa (no campo político), mais de 3 séculos depois.

Como indica o texto anterior, do historiador Justo L. González, muito do que se atribui a Calvino, ele efetivamente não fez, disse ou escreveu. Nunca se viu como o dono da verdade ou o fundador de uma nova doutrina ou religião, mas como um humilde servo de Deus num período especialmente conturbado para a Sua Igreja. É muito cômodo (e anacrônico) julgar um homem do século XVI com os olhos do século XXI, mas Calvino, além de ter sido um produto do meio em que viveu, foi um homem à altura do seu tempo, desafiando o establishment e lutando para construir um mundo em que a liberdade de culto fosse um direito reconhecido e protegido, isso num tempo em que milhares morreram por defender esta garantia, hoje tão preciosa à humanidade. Obviamente, teve que encastelar-se em Genebra para poupar a vida e as idéias, e não viveu para ver isso concretizado, nem a mudança se operou de forma instantânea, tanto que, 8 anos após sua morte, a França sofreu a infame Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), em que dezenas de milhares de protestantes foram massacrados a mando da realeza católica. Nos séculos seguintes, muito sangue fratricida ainda correria pelas ruas e pelos rios europeus até que desfrutássemos da atual liberdade religiosa (ou ateísta). Calvino pode até não ter sido um fator decisivo neste processo, mas foi um dos muitos homens e mulheres que dedicaram a vida a vê-lo realizado, ainda que pelos olhos do século XVI. Aquele foi um período em que era preciso tomar posição, geralmente desconfortável, e fazer escolhas terríveis com consequências potencialmente drásticas ou letais. Qualquer relação que se possa fazer com a intervenção divina na história da humanidade não é mera coincidência. Neste aspecto, Calvino preferiu não se omitir e foi o homem certo no lugar certo e na hora certa. Motivos não faltam, portanto, para celebrar o seu 5º centenário.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Calvino x calvinistas

por Justo L. González

Devido à sua importância e ao fato de que tem sido freqüentemente interpretada como representante da teologia de Calvino, a Confissão de Westminster merece alguma consideração detalhada, bem como uma comparação com a teologia do próprio Calvino.

A Confissão de Westminster começa com um capítulo sobre a Santa Escritura. Nele é declarado que os textos gregos e hebraicos do Antigo e Novo Testamento, que foram mantidos puros ao longo das eras são “imediatamente inspiradas” por Deus. A regra infalível para interpretar a Escritura não é outra senão a própria Escritura, em que os elementos necessários para a salvação estão claramente declarados – muito embora questões menores possam ser mais difíceis para o leigo interpretar. Embora Calvino concordasse com a importância que a Confissão deu à Escritura, existem dois pontos nos quais este documento se diferencia dele. O primeiro é o lugar da própria doutrina dentro da estrutura da Teologia. Calvino tomou a condição humana e o alvo da existência humana como ponto de partida para sua teologia. Dentro desta estrutura, a Escritura era importante como um meio para nos ajudar a alcançar o alvo para o qual fomos criados. Na Confissão, por outro lado, a Escritura se torna quase um livro de jurisprudência no qual textos devem ser encontrados para provar e apoiar vários pontos – incluindo a própria compreensão do que significa ser humano. Neste ponto, é interessante notar que os dois catecismos produzidos pela Assembléia de Westminster – redigidos por diferentes pessoas – concordam com Calvino, ao invés de concordarem com a Confissão. O outro ponto no qual a Confissão se diferencia de Calvino é a sua ênfase na inerrância escriturística. Embora Calvino cresse na inspiração divina da Escritura, ele nunca detalhou essa doutrina de forma detalhada ou mecanicista. A ênfase de Calvino estava no uso da Escritura pelo Espírito Santo na comunidade da fé, especialmente no ato da pregação. A Confissão trata com o texto sagrado de um modo mais individualista, como um guia para a fé de cada cristão.

A Confissão de Westminster coincide com a maioria dos calvinistas posteriores ao colocar a doutrina da predestinação em tal lugar na estrutura da Teologia que ela parece ser derivada da natureza de Deus, ao invés da experiência da graça dentro da comunidade da fé. Isto pode ser visto em que, imediatamente após afirmar a autoridade da Escritura, a Confissão prossegue discutindo a divindade no seu segundo capítulo, e os decretos eternos de Deus no terceiro.

Dois exemplos claros do modo em que o Puritanismo se diferenciou da teologia de Calvino podem ser vistos na maneira em que a Confissão de Westminster trata da oração e do Shabbat (descanso). Sobre a oração, Calvino diz que é o momento em que nós nos aproximamos mais intimamente do nosso propósito final. Na oração, nós glorificamos a Deus e nos relacionamos com o divino de tal forma que nós claramente esperamos que Deus seja a fonte de tudo o que somos e necessitamos. A Confissão aborda a oração de uma maneira muito legalista, afirmando que é “requerida de todo homem”, que deve ser no nome do Filho, numa língua conhecida e não (oferecida) pelos mortos. A respeito do Shabbat, o mesmo capítulo da Confissão adota uma posição diametralmente oposta a de Calvino. O reformador de Genebra afirma que o Shabbat era uma figura de coisas por vir e foi, portanto, abolido por Cristo, cuja ressurreição é o começo do Shabbat final. A celebração do domingo, então, não é uma nova forma de manter uma “observância supersticiosa de dias”, mas é, ao contrário, um modo prático de capacitar a igreja a adorar conjuntamente, e de dar descanso àqueles que trabalham. De certa forma, todos os cristãos estão agora no dia de descanso, pois não somos mais dependentes de nossas próprias obras (Institutas, 2.8; 28-34). A Confissão, por outro lado, afirma que Deus

“em Sua Palavra, através de um mandamento moral, positivo e perpétuo, unindo todos os homens, em todas as eras, apontou particularmente um dia em sete, como um shabbat a ser mantido santo para Ele: o qual, desde o começo do mundo até a ressurreição de Cristo, era o último dia da semana; e, a partir da ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que, na Escritura, é chamado o Dia do Senhor, e deve ser mantido até o fim do mundo, como o Shabbat cristão.

Esse Shabbat é, então, conservado santo para o Senhor, quando os homens, após uma devida preparação dos seus corações, e pondo em ordem seus assuntos comunitários com antecedência, não somente observam um descanso santo, todo o dia, das suas próprias obras, palavras e pensamentos sobre seus trabalhos seculares e recreações, mas também estão despendendo todo o tempo em exercícios públicos e privados de sua adoração, e nos deveres dos necessitados e de misericórdia.”


Este contraste marcante entre Calvino e a Confissão de Westminster pode ser visto como derivando da maneira em que os dois tratam da Escritura, o que foi discutido acima.

A influência de Calvino pode ser vista na Confissão onde ela afirma que tanto a lei quanto o evangelho pertencem ao pacto da graça. Dizendo isso, a Confissão evita o contraste marcante entre a lei e o evangelho que foi característico de Lutero e que Calvino tentara evitar. Mas então a Confissão prossegue para declarar que Adão, como originalmente criado, estava debaixo de um “pacto de obras” e que, apenas mais tarde, depois da queda, o “pacto da graça” foi estabelecido. Calvino nunca teria dito isso, pois isto pareceria fazer da fé um substituto para as obras que nós não podemos mais praticar. Se fé pertence a um novo pacto, segue-se que ela não foi requerida de Adão e Eva como é requerida dos seres humanos em todas as gerações posteriores.

Assim, a Confissão de Westminster, como muito do Calvinismo do século 17, esquematizou tanto a teologia de Calvino que uma grande parte do seu espírito original se perdeu.

Em resumo, o que dissemos sobre a Confissão de Westminster também pode ser dito sobre a maior parte do Calvinismo do século 17 – com a exceção notável de Amyraut e seu círculo na Igreja Reformada da França. Esta é a razão por que os historiadores freqüentemente se referem a esse período como um da “Ortodoxia Calvinista”. Esta ortodoxia geralmente centrou-se na questão da predestinação, que então se tornou o critério do Calvinismo. Isto é muito interessante, desde que durante o século 16, o ponto de maior divergência entre o Calvinismo e o Luteranismo não fora a predestinação – com o qual os dois grupos concordavam – mas, ao contrário, o modo da presença de Cristo na Ceia do Senhor.

A ortodoxia calvinista prestou um desserviço ao Calvinismo verdadeiro, na medida em que gerações posteriores creram que ela foi uma expressão acurada dos pontos de vista de Calvino, e, portanto, tenderam a vê-lo como mais rígido do que ele de fato fora. Isto, em contrapartida, significou que o reformador de Genebra tenha recebido menos simpatia do que ele merecia.

(extraído de “Uma História do Pensamento Cristão”, de Justo L. González, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. 3, pág. 299/302).

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

O significado da cruz

“Ao contrário do que se imagina, eu olho para trás e vejo as experiências que, à época, pareciam especialmente desoladoras e dolorosas com particular satisfação. De fato, eu posso afirmar com total sinceridade que todas as coisas que aprendi em meus 75 anos de permanência neste mundo, tudo o que, verdadeiramente, fortaleceu e iluminou a minha existência, veio através da aflição e não por intermédio da alegria, tenha sido ela gratuita ou conquistada. Em outras palavras, se fosse possível eliminar a aflição de nossa vida terrena, seja por meio de alguma droga ou medicina alternativa, o resultado não seria uma vida atenuável, mas, sim, uma vida intoleravelmente banal e trivial. Este é, claro, o significado da cruz. E foi a cruz, mais do que qualquer outra coisa, que me levou, de forma inexorável, a Jesus Cristo.”

(Malcolm Muggeridge, “A Twentieth Century Testimony”, citado por Eugene Peterson em “Corra com os Cavalos”, 2003, Ed. Textus e Ed. Ultimato, pág. 100)

As crônicas de Marvin - 12

Ameaça

Ponto de vista alternativo, 7 de setembro de 2051, 23:00

- Vigiar a moça? – perguntou um dos homens encapuzados.
- Sim. Quero saber mais sobre o envolvimento dela com o rapaz... Não será necessária uma vigilância reforçada como no caso dele... Só descubram mais sobre ela... Se ela possuir um relacionamento forte com ele, poderemos usá-la para conseguir o que queremos dele... Agora ele deve estar desconfiado, será mais difícil segui-lo. Será muito mais difícil descobrir como ele faz aquilo...
Por um breve momento, todos ficaram em silêncio. O velho ditado que dizia “quem cala consente” caia muito bem para a ocasião. Moshe então mudou de assunto...
- Não podemos mais perder membros... Temos que interromper os planos daquele jovem, antes que seja tarde. Yekhezqe'l, você sabe o que fazer, não?
- Sim, Moshe. Está tudo dentro do cronograma.
- Pois bem, prossiga conforme o combinado.
- Você acha que vai funcionar, Moshe? – indagou uma das figuras.
- Bem, acredito que o rapaz não terá coragem de desfazer nada do que fizermos. Colocaria em risco o próprio plano dele. E pelas nossas informações, este seria o plano principal do rapaz, não é Eliyahu?
- Isto mesmo. – respondeu brevemente uma daquelas figuras.
- Pois bem, se anularmos o efeito causado por ele, teremos bastante tempo para planejar os próximos passos. Portanto, Yekhezqe'l, não falhe. Nosso sucesso depende de sua atuação.
- Pode deixar comigo, Moshe.
- Bem, senhores, acredito que por hoje seja só. Se mais alguma coisa surgir, convocaremos outra reunião. Vigiem o jovem e a moça até definirmos nossos planos para eles. Qualquer movimento suspeito, me avisem. Estão dispensados.
Então, lentamente aquelas figuras se afastaram, desaparecendo nas sombras. Mais uma vez a figura principal ficou para trás. Olhava para os céus, talvez pensando no futuro...

Ponto de vista de Amanda, 8 de setembro de 2051, 10:00

Não havia nada melhor que um feriado prolongado para recompor as energias de uma pessoa. Parecia até que o céu ficava mais azul, os pássaros cantavam mais e os problemas... Ah, quais problemas?
Não era todos os dias que se podia dormir até mais tarde. E como eu estava aproveitando aquilo! Levantei preguiçosamente de minha cama e ainda usando meus pijamas, fui buscar alguma coisa para comer.
Não havia ninguém em pé ainda. Papai ficou até tarde bebendo para variar e mamãe provavelmente ficou esperando ele. Tadinha... eu que sou filha não consigo suportar isto às vezes, imagino como ela se sente... Ver o homem que ama se acabar mais e mais...
O homem que ama...
Lembrei-me dos motivos de minha felicidade naquela manhã, os mesmo motivos que me deixaram feliz toda aquela semana... Não era somente o feriado prolongado que me deixava assim, como uma pessoa estranha poderia dizer ao me ver...
Enquanto tomava o café, eu revisava os detalhes daquele dia, como um filme... Me lembro que não estava muito animada para uma festa. Não tinha com quem ir, com quem conversar... Mas eu quis pelo menos ter a oportunidade de vê-lo. Talvez conseguisse falar com ele? Não tinha muitas esperanças disto acontecer, por isto quando eu o vi conversando com a irmã Priscila, imaginei que tinha cometido um grande erro... Eu jamais imaginaria que ele ficaria o resto da noite comigo...
Estava mergulhada em meus pensamentos, quando me lembrei que deveria ir ao mercado para comprar algumas coisas que mamãe me pediu, para o almoço. Então resolvi agir, pois já estava tarde. Terminei meu café, me troquei e saí.
O mercado não era muito longe de casa. Para chegar lá, eu tinha que passar por uma pracinha, onde em dia de feriado, muitas crianças brincavam com os pais. Não havia uma vez que eu passasse por ali e não sorria ao ver aquelas crianças brincando e desta vez não foi diferente. O filho dos meus vizinhos era o mais engraçadinho, brincando com um carrinho na areia. Estava distraída vendo ele brincar, quando percebi que duas irmãs vinham em minha direção.
- Bom dia, irmãs! – disse eu sorrindo.
No entanto, elas sequer me olharam. Já estava me acostumando com esta atitude, mesmo assim eu quis acreditar que poderia arrancar um cumprimento delas. Eu estava realmente de bom humor naquele dia.
- Irmãs? Bom dia! – disse mais uma vez, mas agora me aproximando delas.
Foi então que elas, me olhando com aquela cara de desprezo, me responderam:
- Bom dia, irmã. – responderam, como se a resposta fosse algo muito prejudicial a elas.
- Ei, o que houve? Por quê vocês estão assim?
Elas se entreolharam, como se perguntassem “qual é a dela?”, então uma delas disse à outra:
- Irmã, eu não entendo o quê o irmão Marvin viu nela...
- Nem eu...
E continuaram a caminhar, me deixando sozinha ali. Aquele tipo de coisa doía tanto, que me deu vontade de chorar. Só não fiz isto pois estava naquela praça ainda. Em um instante, minha alegria foi derrubada... E aquela não era a primeira vez.
Assim que Marvin se tornou um destaque, as irmãs começaram a olhar para ele de maneira diferente. Ele havia se tornado um “bom partido”. Eu senti naquele Congresso mesmo que eu não poderia mais me aproximar dele e isto me entristeceu. Não esperava encontrar ele no ônibus na saída, talvez por isto ele tenha percebido minha tristeza... Uma tristeza não só por ficar difícil me comunicar com o novo profeta de Jeová, como dei a entender para ele... Agora, se eu me aproximasse dele, seria desprezada por estas irmãs. Eu seria uma rival.
Assim que ele me pediu para ajudá-lo, eu comecei a sentir este desprezo. Já não me convidavam muito para festas e eventos, ninguém conversava comigo direito... Depois disto, fui completamente isolada. A irmã Priscila também sofreu com isto, mas ela tinha muito mais amigas que eu, então ela não ficou tão sozinha. Talvez por isto a “estratégia” contra ela tenha sido totalmente diferente... As irmãs estavam usando o fato dela fazer um curso superior contra ela, dizendo que uma moça que se preocupa mais com as coisas do mundo do que com as de Jeová, não merecia ajudar os dois profetas... Para não dizer casar, que só não era dito, pois objetivos das irmãs com aquelas críticas ficariam claros demais...
Assim, ao mesmo tempo que nos ignoravam, também faziam de tudo para impressionar os dois irmãos. O irmão Estêvão parecia estar mais à vontade com elas. O Marvin era diferente. Eu sei que ele só tinha olhos para a irmã Priscila e isto no fundo dói um pouco... Mas por outro lado, eu ficava feliz pois por causa disto, ele parecia nem perceber o mico que as irmãs pagavam para chamar a atenção dele, como dançar quase na cara dele, olhando para ver se ele percebeu... Só faltava chamar ele com o dedinho indicador... Como dizia minha tia, “o tal homem é um bicho besta mesmo... Quando vê um rabo de saia...”
E agora, fui totalmente ignorada. As irmãs sequer falaram comigo. É como se elas falassem de uma outra pessoa... Como é que irmãs de fé podiam fazer isto? É difícil acreditar que algo assim acontecia...
Me sentei em algum dos bancos da praça, enquanto pensava sobre tudo aquilo... Nos absurdos, na humilhação... Como? Dei um tempo, então segui meu caminho... Mas estas coisas não saíam da minha cabeça, mesmo durante as compras no mercado... Quase esqueci o troco.
Quando saí do mercado, vi um carro parado do lado de fora. Nele estava uma pessoa que eu conhecia de algum lugar. Mas de onde? Não estava conseguindo me lembrar... Ah, sim. É um irmão, mas de outra congregação... O coitado morava longe, certamente estava procurando a casa de algum irmão e ficou perdido por aqui. Então resolvi conversar com ele, pois eu poderia ajudá-lo com algum problema.
Comecei a me dirigir ao carro. Isto ele percebeu. O estranho foi que ele deu a partida no carro e saiu depressa... É como se não quisesse falar comigo... Eu poderia até entender que as irmãs fizessem isto, mas um irmão de outra congregação? O que estava acontecendo?
O que estava acontecendo com os irmãos? Agora não estava entendendo mais nada. Cheguei em casa muito confusa, com vontade de chorar... Estava sozinha... Depois de uns 20 minutos, o telefone tocou. Eu sabia que não era para mim, ninguém nunca liga para mim mesmo. Quem atendeu foi minha mãe. E fiquei surpresa, ao ouvir minha mãe me chamando:
- Amanda, telefone para você!
- Já vou, mãe.
Enxuguei meu rosto, e fui atender.
- Alô?
- Alô, Amanda... Como vai?
Aquela voz... Eu a reconheceria de qualquer lugar...

8 de setembro de 2051, 10:00

Mais uma vez estavam lá fora. Durante toda a semana eu estive sendo observado.
Eram três carros diferentes, segundo pude notar. E nenhum deles mora na mesma região. Porém, era sempre regiões distantes de onde eu moro, provavelmente para que eu não reconheça ninguém. Muito esperto.
Isto eliminaria a hipótese de que um ancião estivesse me monitorando. Talvez um trabalho em equipe, ou então um trabalho do Estêvão. Preferia nem pensar nisto.
Eu poderia perguntar a Estêvão se ele está me vigiando. Mas eu tinha certeza que ele me negaria, mesmo que estivesse mesmo vigiando. Não tenho meios de persuadi-lo a me responder.
Já tentei me aproximar dos carros, mas eles sempre fugiam. Apesar de ter buscado as informações deles pelo site do DETRAN, não adiantaria nada chegar na residência deles e intimá-los a me responder. Simplesmente me negariam tudo, como fizeram os dois rapazes na festa. Eu precisava pegá-los em flagrante...
Na rua, além deles, havia apenas um garoto brincando com uma espécie de carrinho de controle remoto. Bom, pelo menos era isto o que o homem que me vigiava estava imaginando. Mal sabia ele que eu havia pedido para o garoto brincar com um carrinho que por fora parecia com um de meus projetos.
Assim, enquanto um dos carrinhos de controle remoto aparecia na rua, bem no campo de visão daquele homem, outro se aproximava cada vez mais do veículo. Não foi muito difícil colocar o carrinho em baixo do carro.
Os carros mais novos no ano de 2051 já vinham todos com o barramento CAN, que integrava todo o sistema do veículo. Para minha sorte, um dos três veículos era relativamente novo. Aproveitei que o turno deste carro era hoje, dia de feriado, para conseguir algumas respostas.
O desenvolvimento da robótica nos últimos anos também foi espetacular. Há 50 anos atrás eu não poderia construir um braço mecânico tão preciso. Com uma câmera na ponta, e com a capacidade de se expandir, guiei o braço até encontrar o ponto certo. Tinha que ser rápido, nunca poderia prever quando aquele homem decidiria partir. Mas mesmo com toda a complexidade da operação, eu obtive sucesso. Agora tinha acesso a todo o sistema do carro.
No carro, o observador despreocupado olhava para a minha casa. Às vezes prestava atenção na brincadeira do garoto. Ele sempre quis um daqueles quando pequeno. Levou um susto, quando o rádio do carro dele ligou, sintonizado na rádio Terra, que por coincidência (bem, eu esperei a música chegar neste ponto) tocava:

A coisa tá feia, a coisa tá preta
Quem não for filho de Deus tá na unha do Capeta...


Ele se assustou enormemente. E quem não se assustaria? Não entendendo nada, ele desligou o rádio. Em vão, já que este ligaria novamente...

Se o picasso fosse vivo ia pintar tabuleta
Bezerrada de gravata vê se cuida e não se meta
quem mamava no governo agora secou a teta


Mais uma vez sem entender, ele desligou o rádio. Olhava desconfiado para aquilo, pensando o que poderia estar acontecendo... Outra rádio tinha uma música muito legal! Compartilhemos...

"Cheguei, hein ! Estou no Paraíso!
Que abundância meu irmão!"

Conheci uma menina que veio do sul
Pra dançar o tchan e a dança do tchu tchu
Deu em cima, deu em baixo,
na dança do tchaco
E na garrafinha deu uma raladinha
Agora o Gera Samba mostra pra vocês
A dança do bumbum que pegou de uma vez

Ele não deixou chegar ao refrão, que era o momento mais edificante da música. É uma pena. Bem, eu já o preparei psicologicamente. É hora do show.
De uma vez, todas as travas do veículo foram acionadas, enquanto os vidros subiam. O homem até tentou destravar o carro, mas a funcionalidade já havia sido desligada. Estava preso lá dentro. Imediatamente o veículo começou a jogar água no parabrisas, depois os limpadores começaram a limpá-lo.
Ele então deu umas pancadas no painel... Claro, se seu limpador de parabrisas ligar sozinho é problema de mau contato... O carro revidou a violência, ligando o ventilador na cara dele, com potência máxima. Desesperadamente o rapaz tentava mudar a direção do vento.
Como nada dava certo, ele deu a partida no carro. Foi inútil, a primeira coisa que eu fiz foi desligar a ignição. Então liguei o rádio, que na hora tocava alguma coisa como “Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”, em volume máximo. Quando o pisca-alerta ligou, já havia um punhado de gente olhando. Esperei um pouco mais de gente ficar olhando, para depois disparar a buzina. A esta altura do campeonato, todo mundo já o tinha como louco.
A sorte daquele rapaz é que não é muita gente que conhece o código Morse hoje em dia. Pois qualquer um que o conhecesse saberia que os sinais de luz alta que o carro fazia convidava as mulheres para programas e outras coisas indecorosas que não me atrevo a repetir por aqui.
Então de repente, tudo parou. Ele continuou trancado lá dentro, mas as coisas estranhas não estavam mais acontecendo. Então, liguei meu transmissor FM. Ele tinha potência necessária para transmitir para o carro. Sintonizei o rádio do carro para a frequência que estava usando e comecei a transmissão:
- Eu sei que vocês estão me observando, rapaz... E eu acho que agora você sabe o quê acontece com aqueles que me desafiam... Ou você acha que sou uma pessoa comum? Portanto, ou você me conta agora por quê está fazendo isto e quem te mandou, ou você sofrerá consequências mais sérias do que uma simples pane no seu veículo... Quando estiver disposto, bata três vezes no vidro de seu carro.
Imediatamente ele bateu umas dez vezes. Parece que ele vai cooperar. Desci um pouco o vidro do carro e fui até ele.
- Muito bem, rapaz. Me conte o que sabe...
- Irmão, sinto muito, eu não queria...
- Olha, se você me disser o que está havendo, eu te perdoo... Então me conte logo...
- Irmão, eu não sei de muita coisa não. Os anciãos nunca deixaram nós sabermos os motivos. Sempre que perguntamos, eles dizem que é sigiloso.
- Então, vocês se reportam aos anciãos?
- Sim, irmão.
- E fazem isto por celular?
- Não, usamos o celular apenas para nos comunicar durante nossa observação. Não é bom que uma pessoa apenas vá atrás de você, você descobriria mais fácil.
- Bem, acabei descobrindo... E vocês ligam para quem?
- Geralmente para nossos anciãos. Eles dão um jeito de atualizar as informações entre si.
- Humm, interessante. E eles, estão agindo em conjunto?
- Irmão, me parece que eles receberam a ordem de outra pessoa, mas eles nunca dizem quem é.
- Hummm... E por quê raios vocês aceitaram seguir ordens de forma tão cega assim?
- Bem, irmão, eles prometeram nos dispensar de muitas horas de pregação...
- Como é que é?
- Isto mesmo. Todo mundo que está ajudando a te observar está dispensado do serviço de campo.
- Deixe-me ver se entendi... Vocês estão fazendo barganha com o serviço de campo? Pensei que vocês se preocupassem com as pessoas que não conhecem a Verdade...
O rapaz baixou a cabeça, em sinal de vergonha. Mas geralmente a última coisa que eles se preocupam é sobre as pessoas. Tudo que eles mais querem é completar suas horas. Não os culpo. A própria Torre transformou a pregação em uma espécie de trabalho não-assalariado com carga horária.
- Muito bem, rapaz, você vai me escutar com muita atenção e vai fazer exatamente o que eu te disser. Você primeiro não vai comentar nada do que aconteceu aqui hoje com ninguém, entendeu?
- Entendi, irmão.
- Deixe que eles me vigiem. Se você quiser me vigiar também, não tem problema. Mas não diga nada a ninguém. Continue entregando seus relatórios. Se por acaso você contar o que aconteceu por aqui hoje para alguém, pode ter certeza que seu futuro estará em sério perigo.
Ele arregalou os olhos, demonstrando que entendeu bem o que eu dizia.
- Bem, eu vou então entrar em casa, e depois de dez minutos, seu carro estará normal. Quero que saia daqui quando isto acontecer. E lembre-se, não diga nada a ninguém.
- E... Está certo, irmão.
Então, me virei, e caminhei lentamente para a minha casa. Enquanto isto, o pequeno robô se desconectava da rede de dados do veículo, recolhendo o pequeno braço mecânico. Quando entrei em casa, já estava manobrando o carrinho para que ele saísse debaixo do carro. Como orientei ao garoto, ele foi até onde o carrinho estava e o pegou (o outro carrinho estava bem escondido). Exatamente em dez minutos, o rapaz ligou o carro e partiu em alta velocidade. Não demorou muito para que o garoto aparecesse em casa para entregar o meu equipamento.
Era óbvio que os anciãos estavam envolvidos. Porém, eu não imaginava que eles conseguissem guardar o segredo tão bem assim... Eu teria mesmo que visitá-los. E para isto, não deveria levantar suspeitas. Seria prudente fazer uma visita ao ancião daquele rapaz, acompanhado por alguém não tão suspeito...
Primeiro, decidi ligar para ele, avisando da visita. Não foi difícil conseguir o telefone daquele ancião.
- Olá, aqui é o Marvin. Como vai, irmão Rogério?
- Olá, irmão Marvin! Estou bem, e você?
- Estou bem também. Irmão, primeiramente gostaria de agradecer pela festa do último fim de semana.
- Ah, não foi nada. Vocês merecem.
- Hehehehe, nem tanto. Bem, em segundo lugar, eu gostaria de te avisar que eu farei uma visita até sua Congregação, com uma das irmãs que me ajudam por aqui. Gostaria de conversar com você, enquanto deixo ela e sua esposa conversando sobre a Congregação e seus problemas. Estou estendendo o que já faço por aqui, para ajudar todos os irmãos que eu puder.
- Ah, que bom saber disto, irmão. Pode deixar que vou avisar minha esposa sobre sua visita.
Pronto, minha reunião estava preparada. Agora eu tinha que avisar a pessoa que me acompanharia.
Priscila? Foi o primeiro nome que pensei, é claro... E foi esquisito isto, pois embora tenha pensado nela primeiro, eu não me senti empolgado de encontrá-la... É como se aquela magia de vê-la tivesse deixado de existir...
Descobri recentemente que gostava de conversar mais com outra pessoa... Sim, me descobri sorrindo ao mentalizar seu nome... Não havia melhor companhia para mim do que ela. Por isto, peguei meu telefone e liguei para ela. Quem atendeu foi a mãe dela.
- Olá, é da casa da Amanda?
- Sim, é sim. Vou chamá-la.
Em poucos minutos uma voz trêmula me atendeu no telefone:
- Alô?
- Alô, Amanda... Como vai?
- M... Marvin??
- Sim, sou eu... Que voz é esta, aconteceu alguma coisa?
- Ah... não aconteceu nada não... Mas a que devo a honra de sua ligação?
A voz dela parecia melhor...
- Bem, eu programei uma visita à Congregação do Alto da Glória e gostaria que você me acompanhasse. Você pode?
- Te acompanhar? Hum, claro que sim! Que horas seria?
- Sairemos às 13:00... Eu te encontro em sua casa, está bem?
- Está bem!
- Muito bom. Então até mais.
- Até mais.

8 de setembro de 2051, 13:00

Desta vez foi mais fácil sair de casa... Despois de despachar o meu vigia, poderia andar tranquilamente pela rua.
A casa de Amanda ficava um pouco longe... Tinha que andar um bocado. Mas até que eu gostava de caminhar. Ao chegar perto da casa dela, tive um susto... Havia um carro parado na porta dela. Um dos carros que eu já havia visto. Estariam vigiando ela também? Mas por quê?
Disfarcei um pouco, entrando rapidamente na casa dela. Ela já estava me esperando na porta.
- Olá, Marvin!
- Oi, Amanda. Está melhor?
- Melhor? Como assim?
- Me parecia triste ao telefone... Pensei que tivesse acontecido alguma coisa na sua casa e você não quisesse falar ao telefone...
- Ah, não... Não aconteceu nada... Às vezes eu fico assim mesmo... Não se preocupe...
- Hum, tudo bem então... Bem, vamos que a jornada é longa, hehehe...
Ela sorriu.
- Está certo. Vamos lá.Então fomos caminhando em direção ao ponto de ônibus, enquanto éramos observados...

Domingo, 5 de Julho de 2009

Um centenário



Se viva fosse, minha avó faria hoje 100 anos de idade. Infelizmente, faleceu aos 86, em 4 de abril de 1996. Viveu bastante e viveu bem. Fica aqui, então, a homenagem à D. Zinha, esse grande exemplo de mulher.




Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Grandes filmes - 8

"A General" é um título que pode despertar a curiosidade sobre um eventual erro de português, mas se trata de um nome feminino mesmo, já que "a General" é uma locomotiva, que é, com o perdão da redundância, o grande mote desta obra-prima de Buster Keaton, um filme mudo em preto-e-branco de 1927, que (pasmem!) continua assombrando os moderninhos por ter sido feito sem nenhum efeito especial e pelo fato do próprio Keaton, acrobata desde menino, ter dispensado dublês nas cenas perigosas, que são muitas e impressionantes. A história é parcialmente baseada num episódio real da Guerra Civil americana, em que um maquinista sulista passa pelas linhas yankees com a sua locomotiva. Buster Keaton, grande comediante mais conhecido - paradoxalmente - como "o homem que nunca ri", dá à tragédia da guerra uma veia cômica e séria ao mesmo tempo, e este é, para mim e para muita gente, um dos melhores filmes de todos os tempos. Felizmente, este clássico dos clássicos está disponível completo no Youtube (link abaixo), e você poderá conferir se isto é mesmo verdade. Desfrute-o então:

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

As crônicas de Marvin - 11

A busca pelo reconhecimento


Embora estivéssemos em época de seca, havia algumas nuvens no céu ainda. Às vezes a lua se escondia por trás de alguma nuvem, mas nada que pudesse impedi-la de reinar na escuridão da noite, deixando tudo bem mais claro. À medida que me afastava do núcleo da festa, menos ouvia o barulho de pessoas, e mais ouvia os grilos, em sua religiosa sinfonia noturna. Às margens do lago, eventualmente algum sapo se juntava a eles.
Naquela mesma margem, uma pessoa olhava fixa e melancolicamente para a água. Sua identidade ficava cada vez mais clara para mim, embora ela estivesse bem diferente do que eu estava acostumado a ver... Eu tentava imaginar o que ela fazia ali então o fato dela parecer ser uma pessoa solitária como eu passou pela minha cabeça...
- A... Amanda?
Ela se assustou tanto, que eu poderia jurar que ela tinha visto um fantasma, caso ela acreditasse nisto. Com o susto, ela se virou para mim, então pude perceber como estava diferente. Usava um vestido azul longo, que a deixava com ares de princesa. Agora estava com cabelos soltos, revelando belos cabelos cacheados, que combinavam muito bem com seus olhos verdes, não mais escondidos por aqueles óculos que ela sempre usava. Estava realmente bonita, embora me parecesse triste.
- Ma... Marvin? Irmão, o que faz... aqui?
- Bem... Eu vim aqui refletir um pouco sobre a vida... Puxa irmã, você está muito bonita hoje!!
Seu rosto ficou levemente corado pelo elogio. Enquanto desviava seus olhos de mim, sorria discretamente. Um sorriso que naquela noite, me parecia muito mais belo.
- Obrigada, irmão... Você também está muito elegante.
- Obrigado... Sabe, eu queria ficar sozinho, mas pensando bem foi até bom te encontrar por aqui. Mas me diga, irmã, o que faz sozinha por aqui?
Ela pensou um pouco, depois me respondeu.
- Bem, eu não tenho tantos amigos assim... Então resolvi caminhar por aí...
- Ora, por quê não me procurou? Eu sou seu amigo, você sabe disto...
- Sim, mas... Bem, você já estava acompanhado pela irmã Priscila, então resolvi não incomodar...
O sorriso do rosto dela desapareceu por alguns instantes. De certa forma eu a entendia, assim como eu, ela tinha dificuldade em se aproximar das pessoas. Eu não tinha sido um bom amigo para ela ainda... Só tinha feito promessas e eu, como testemunha de Jeová desprogramada, sei que promessas não cumpridas são frustantes. Estávamos longe de todos. Por isto, sem receios, resolvi pegar na mão dela, olhando em seus olhos:
- Irmã, sinto muito por te deixar sozinha assim... Te prometo que serei um amigo melhor daqui em diante... E para provar isto, farei companhia a você o resto da noite...
Pude perceber que mais uma vez seu rosto ficou vermelho, quando peguei em sua mão. Falei em amizade para não ser mal-entendido...
- Ah... Ma... Mas, irmão, não precisa me acompanhar... Tem muitos irmãos aqui para você dar atenção...
- Sim... Mas de todos eles, você é a mais importante para mim.
Deixei ela sem palavras com isto. Mas eu entendia que o que eu dizia era o que ela precisava ouvir. Mais do que ninguém, eu a entendia. Eu sabia que uma pessoa solitária, em seus momentos de baixa estima, precisa de elogios, precisa se sentir importante para alguém. Era aquilo que eu estava precisando naquele momento, e que as bajulações das outras pessoas da festa não conseguiram transmitir para mim.
Então sorri para ela, soltando a sua mão lentamente.
- Não se preocupe. Gosto de sua companhia.
Ela então me olhou, ficando em silêncio por um tempo... Então mais uma vez um sorriso se formou em seu rosto...
- E então, o que achou da festa, irmão?
- A festa?? Hummmm... Bem, para te dizer a verdade, quando o irmão Osvaldo entrou naquela estrada de chão, eu pensei que estava sendo sequestrado, hehehehe... A festa foi uma surpresa e um alívio...
Ela sorriu em resposta.
- Ah, mas vai me dizer que não gostou? Trabalhamos duro para arrumar tudo!!
- Hummm, se gostei? Deixe-me pensar...
- Ei, não seja malvado!!!
- Hahaha, está bem... Claro que gostei. Ninguém nunca fez uma festa para me homenagear...
- Entendo como se sente... Ninguém também nunca me disse que sou importante... – disse, sorrindo.
- Sério? Nem sua família?
- Nem eles... Sabe, eles brigam muito entre si, e tem aquele problema com meu pai... Eu sempre quis ter uma família normal, mas nem todo mundo tem este privilégio...
- E... Namorado?
- Ah, irmão... eu nunca namorei ninguém...
- Sério? Nem antes de estudar a Bíblia (eu odiava esta expressão usada por testemunhas de Jeová como sinônimo de “iniciação”, mas eu tinha que usar o vocabulário delas)?
- Não... Eu sempre fui tímida... e você?
- Ah, ainda estou tentando descobrir se o que tive foi um namoro ou não... Eu mais financiava os gastos dela do que outra coisa...
- Hummm... Você está falando daquela moça...
- Sim, a Kátia... Nem me lembre dela...
- É engraçado como as pessoas hoje em dia gostam mais dos meios do que os fins... - disse ela pensativa.
- Hum? Como assim?
- Bem, o natural seria amar pessoas, pessoas por completo. Mas as pessoas parecem gostar mais de coisas secundárias. Dinheiro e o que você faz com ele deveria servir apenas para manter o amor, seja qual for o tipo de amor... Mas eu já presenciei coisas absurdas, como uma mãe ensinando sua filha de 5 anos a procurar homens com muito dinheiro... As pessoas deixaram de ser a finalidade de qualquer relação, para serem os meios.
- Hehehe, você tem razão.
- Além do mais, a gente tem o péssimo hábito de procurar pessoas perfeitas, livres de defeitos... Acho que por isto muitas pessoas se decepcionam umas com as outras... Por isto eu disse que deveríamos ver a pessoa por completo, e esperar que ela possua alguma coisa que vai nos incomodar... Todos somos assim, cheios de manias e defeitos. Deixamos de procurar pessoas para procurar características... Andamos de um lado para outro, nunca satisfeitos. Mas eu acho também que muita gente consegue amar pessoas, e este sentimento acaba acima de qualquer defeito... Elas se completam, de uma forma inexplicável.
- É por isto que dizem por aí que o amor é cego...
- Provavelmente... – disse ela sorrindo.
Continuamos caminhando, contemplando a lagoa, que agora estava iluminada pela luz da lua.
- Veja!! – disse Amanda.
Eram cisnes. Provavelmente o dono da chácara os criava, para “enfeitar” mais o lugar. Os coitados estavam acordados, provavelmente por causa do barulho da festa. Alguns, sem ter o que fazer, resolveram até nadar. Amanda os observava com alegria, dizendo como eram belos. Ela tentou se aproximar deles para vê-los de perto, enquanto eu, parado no mesmo lugar, a observava de longe. Não muito tempo, ouvi um barulho em alguns arbustos ali perto. Ainda fui capaz de perceber o vulto humano que saía correndo dos arbustos, voltando para a festa. Estavam nos observando, como era de se esperar.
- Ei, acho melhor voltarmos... Antes que pensem algo errado de nós...
Amanda então se virou, voltando para onde eu estava. Caminhamos de volta, subindo um pequeno morro ali perto. Já estávamos perto novamente da festa...
- Irmão Marvin...
- Ei... me faz um favor?
- Hum? Sim, claro, o quê seria?
- Me chame apenas de Marvin...
Ela ficou um pouco vermelha com isto...
- Hummmm... Es... está bem então... Marvin...?
- Sim, Amanda?
- Eu só queria te dizer que não me importo muito sobre o que eles vão pensar de nós...
Certamente eu deveria estar mais vermelho que ela agora... Não esperava este comentário... Foi a multidão que impediu que nós continuássemos esta conversa. Havíamos chegado, e havia muita gente ali, dançando, conversando...
- Ei, Amanda, você já comeu?
- Ainda não... Vamos?
Por onde passávamos as pessoas paravam para nos observar, como se tivéssemos fazendo algo muito errado. E quem sabe era isto o que passava pelas mentes torpes deles. Amanda tinha razão, não valia a pena se preocupar com o que tais mentes poderiam estar pensando...
- Que gracinha os dois juntos!!! – disse alguém.
É isto aí... Para mim chega... Não queria fazer isto, mas serei obrigado a fazer. Além do mais, vou conseguir movimentar a festa mais... Tipo, festa de irmãos era sempre a mesma coisa: comer, dançar (para os casados), conversar... Tudo girava entre estes três verbos. Vamos mudar um pouco...
- Irmãos, gostaria de dizer algo a vocês...
A Amanda me olhou assustada, um pouco envergonhada também.
- Marvin, o quê você vai fazer?
- Não se preocupe, Amanda... É algo que há muito tempo precisava dizer...
A festa deveria estar tão chata já, que todo mundo se reuniu em minha frente em um piscar de olhos. Nem em treinamento de bombeiros se vê tanta eficiência.
- Muito bem, irmãos. Primeiro, gostaria de agradecer esta maravilhosa festa. Sei que todos trabalharam duro para isto.
- Não foi nada, irmão!! – respondeu alguém da multidão.
Estavam todos alegres. Que ótimo!
- Mas isto não dá o direito a ninguém ficar especulando sobre o que eu faço ou deixo de fazer... Por quê cada um não se ocupa de seus próprios afazeres, e deixa para se preocupar com minha vida, na medida que eu partilhar dela com os outros? Eu digo uma coisa: se vocês possuem tanto tempo livre, certamente poderiam dedicar-se mais tempo ao seu estudo pessoal. Se estivessem estudando mesmo, eu tenho certeza que saberiam que fofoca é algo desaconselhável por Jeová, como a primeira carta de Pedro, capítulo 4 versículo 15 mesmo serve de exemplo.
Uma multidão de gente sem-graça estava na minha frente. Tinha feito meu papel. Logo um rapazinho se levantou, dizendo:
- Ah, que paia. Pensei que ele fosse se declarar!!
- Ei, você! – disse eu, apontando o dedo para ele.
- O que foi? – respondeu com desprezo.
- Já que você é tão engraçadinho, vamos fazer o seguinte. Na entrada tem um espelho. Vá até lá e tire par ou ímpar com ele até dar ímpar!
- Ok, estou indo...
E lá se foi o garoto, sem se dar conta do problema que teria...
- Mais alguém?
Ninguém respondeu.
- Tudo bem, então podemos voltar aos festejos, sim?
Todo mundo então voltou ao que estava fazendo, sem ficar nos olhando com aquela cara de curiosidade tejotina. Fomos até o final da fila, onde mais uma vez as pessoas quiseram ceder sua vez para nós, o que rejeitei de imediato. Não muito tempo depois, alguém conhecido apareceu.
- Ah, então aí estão os dois. Marvin, você está mal-humorado, hein!! Pagando sapo em festa é coisa de gente chata...
- Sei... E brigar por ciúmes, Estêvão? Seria coisa de playboy bêbado, não é?
- Hahaha, Marvin, você é engraçado mesmo... Ciúmes, eu?? Eu estou sendo apenas um líder exemplar! Mas deixa pra lá... Ei, Amanda? Puxa, como você está bonita hoje!!! Eu tinha vindo ver quem estava com o Marvin... Já que é você, que tal se juntar a nós ali para conversar?
Como é? Isto era muito estranho... Estêvão nunca deu muita moral para a Amanda... Agora que ela estava comigo e estávamos conversando, ele veio convidá-la? Ele não estava com a Priscila?
Era uma atitude muito suspeita. Eu não poderia deixar de suspeitar de Estêvão, principalmente depois dos acontecimentos daquela manhã. Qual o interesse dele em me deixar sozinho?
- Irmão Estêvão... Hummm, sinto muito, mas não posso. Estou acompanhando o Marvin. Fica para uma outra vez...
- M...Marvin? – disse ele, surpreso.
Eu também me surpreendi com a resposta, o que me fez estimar mais ainda a companhia daquela jovem.
- Ahh... Você tem certeza?
- Sim, tenho. Gosto muito da companhia dele. – respondeu sorrindo.
- Hummm, então está bem... Até mais.
Estêvão nos deixou então, com um ar de seriedade. Muito esquisito. Terei que vigiá-lo. De todos que conheço na organização, ele é o único que possui poder suficiente para mandar irmãos me vigiarem.
Finalmente nos servimos, depois nos sentamos. Conversamos ainda sobre muitas outras coisas. Aos poucos, as pessoas com carro iam deixando o lugar. Eu não tinha percebido quando cheguei, mas haviam alguns ônibus do lado de fora, alugados para aqueles que não tinham carro. Amanda tinha vindo em um deles, mas não deixei que voltasse ainda.
- Pode deixar, hoje te acompanho até em casa.
- Mas... Não há espaço no carro do irmão Osvaldo para mim.
- Sem problemas. Eu aviso ele que vou voltar de taxi.
Assim, avisei ao irmão Osvaldo que voltaria de taxi. Ele insistiu um pouco para que eu fosse com eles, mas recusei educadamente.
O taxi não demorou muito. Então nos dirigimos à entrada da chácara, onde um rapaz ficava apontando a mão para o espelho.
- Ei, não tem jeito de sair ímpar aqui não!!!
Tive piedade dele, dispensando-o. Entramos então no taxi, e voltamos pelo mesmo caminho que percorri com o irmão Osvaldo. As ruas estavam mais vazias, já era tarde. Paramos em frente à casa da Amanda.
- Muito bem, acho que por hoje é só...
- É... Marvin... Muito obrigada por esta noite. Eu gostei muito de conversar com você...
- Hehehe, sou eu quem agradeço... Estava um pouco triste quando te encontrei... E fiquei feliz de poder te acompanhar... Espero fazer isto mais vezes, hehehehe.
Ela sorriu, envergonhada. Então peguei novamente sua mão, e a beijei.
- Boa noite, Amanda.
- Boa noite, Marvin.
Ela logo entrou em casa e eu segui meu caminho, à pé mesmo, diante dos olhos daqueles que escondidos, me vigiavam...

Ponto de vista alternativo, 7 de setembro de 2051, 23:00

Era um parque, imerso pela escuridão da noite. Alguns postes faziam a precária tarefa de iluminar o local por onde passam as pessoas. Mas ninguém era suficientemente louco de passar por ali naquela hora. Somente as corujas em busca de alimento estavam por ali.
No entanto, 12 figuras encapuzadas estavam ali, de pé. Loucos? Talvez...
- Muito bem, parece que muita coisa aconteceu desde nossa primeira reunião... – disse um deles.
- Sim... No domingo passado, nossos espiões perderam o jovem de vista...
- Humpf... Incompetentes... Eu não podia esperar outra coisa de pessoas que se preocupam mais com a comemoração do Natal do que pregar contra a ganância... Eles não perceberam que o jovem estava despistando eles não?
- Segundo seu relatório, a velocidade alta do moto-taxista não os preocupou, já que todos os moto-taxistas são incontroláveis.
- Humm... Isto é verdade. Mesmo assim, eles precisam ser mais espertos. Provavelmente agora, o jovem está desconfiado... Mas este não é o motivo principal de nossa reunião... Yekhezqe'l conseguiu as informações que buscávamos... Por favor, Yekhezqe'l, compartilhe conosco o que você descobriu.
- Muito bem... O jovem chamado Marvin é realmente uma pessoa genial. Ele fez o curso técnico em eletrônica, depois fazendo engenharia elétrica. Sempre obteve as melhores notas, e sempre surpreendia os professores. Um currículo exemplar, foi financiado por grandes empresas em seus trabalhos...
- Não é por menos que este jovem conseguiu o controle sobre a Torre de Vigia...
- Sim, Moshe... Mas sua vida profissional deu um reviravolta com a morte dos pais... Ele abandonou as grandes empresas e passou a trabalhar com pequenos empregos. Passou a trabalhar com eletrônica apenas como passatempo. Ele ficou bem solitário depois disto... Nunca foi uma pessoa de grandes amizades. Agora sem os pais, ficou completamente só. Depois de uns dois anos assim, começou a estudar com as testemunhas de Jeová.
- Hummm, entendo... Provavelmente a morte dos pais despertou seu lado espiritual... Bem, há alguma coisa que podemos usar contra ele?
- Não. A vida dele foi muito pacata... Porém, por ser um aluno exemplar, ele tinha alguns rivais... Talvez alguns deles poderiam nos ajudar...
- Humm... é uma possibilidade... veja se você consegue entrar em contato com eles... E vamos ter que contar com isto...
- Espere! - Disse outro vulto.
- Deseja acrescentar alguma coisa, Eliyahu?
- Sim... Uma informação muito interessante...
- Pois bem, diga-nos...
- Não sei se é de conhecimento de todos, mas no último dia 3, as testemunhas da cidade de Goiânia organizaram uma festa para os dois “escolhidos”... Hehehehe...
- Sim, eu fiquei sabendo. – respondeu Moshe.
- Bem, gostaria de mencionar que nossos espiões ali descobriram que o jovem não está tão sozinho assim...
- Como é que é?
- Parece que ele estava se dando muito bem com uma jovem chamada Amanda Alves Rezende... Eles relataram até que ele a levou para casa...
- Hummmm, isto que você está me dizendo é muito interessante... Ela sabe alguma coisa sobre as ações dele?
- Não...
Houve silêncio por um instante... Este foi quebrado apenas pela risada, risada de satisfação de Moshe, que aos poucos foi ficando mais alta. Rapidamente os outros entenderam o plano...- Um homem sem família é difícil de controlar... Mas um homem com uma amada... Vigiem ela também... Ela será nossa chave, cavalheiros. Com ela, finalmente os Profetas de Sião controlarão a Torre de Vigia com mãos de ferro...

O fim de uma era

Dizem que os mitos são eternos, mas o Michael Jackson morreu ontem, como o mundo inteiro já sabe. A sua pretensa eternidade agora será colocada à prova. Ainda que a sua metamorfose (e decadência física) fosse visível a olhos nus, e o fim - de certa forma - esperado, ainda fomos pegos de surpresa, talvez porque não tenhamos imaginado a exata medida do que ele significou para toda uma geração. Independentemente de gostar ou não do trabalho dele, e das considerações morais sobre as polêmicas e acusações criminais que envolveram sua vida, o fato é que ele marcou uma época, com o seu jeito único de cantar, dançar e interpretar. Michael Jackson foi o símbolo da transição, seja do LP para o CD, da rádio para o vídeo clip, de um mundo em que as mudanças eram lentas e graduais, para a era da tecnologia que torna tudo imediato e instantâneo. É plausível argumentar que ele tenha sido um elo importante na enorme engrenagem que tornou possível a abertura da caixa de Pandora do consumismo desenfreado, do sucesso passageiro e da multiplicação de celebridades que duram apenas os 15 minutos de fama. Nesta perspectiva, talvez tenha cabido a Michael Jackson o papel de último representante de uma era em que as músicas (e os ídolos) não envelheciam da noite para o dia. Talvez por isso a notícia da sua morte tenha tamanha repercussão, pois constatamos que nós envelhecemos e um pedacinho da história de cada um morreu na noite passada.




Smooth Criminal, minha preferida

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

A fé que Deus honra

AS TRÊS CAPINAS

Adriano é um irmão humilde e trabalhador de uma igreja batista do interior do Estado de São Paulo. Casado com Divanete, ambos levam a vida típica da gente simples do chamado Brasil profundo, lutando com as dificuldades e sempre buscando uma renda extra para fazer frente aos gastos da família. Adriano tem um trabalho digno e aproveita os dias de folga para fazer alguns bicos e ganhar um dinheirinho honestamente. Um desses bicos é capinar terrenos baldios, algo muito necessário nas cidades do interior. Num dia muito quente, Adriano foi capinar um terreno e, conversando com o pastor da sua igreja, este lhe aconselhou que usasse um chapéu, pois o sol estava muito forte naquele dia, mas Adriano não lhe deu ouvidos. Foi capinar com a cabeça desprotegida e quando estava na metade do serviço, percebeu - tarde demais - que o pastor tinha razão. O sol estava de "rachar mamona", como se diz na roça, e ele já estava se sentindo mal, se expondo aos riscos de uma insolação. Não teve dúvidas: parou o serviço e orou, pedindo a Deus que lhe ajudasse a suportar o calor. Pouco depois, capinando uma moita, viu que atrás dela, no meio do mato, estava um boné novinho em folha, o que o deixou muito feliz. Parou o serviço novamente e deu glórias a Deus por ter respondido a sua oração.

Algum tempo depois, surgiu outro terreno para capinar, cujo proprietário lhe havia pedido urgência, pois precisava começar uma obra no dia seguinte. Já declinando a tarde, a enxada que Adriano usava soltou a cunha, e a gambiarra que ele fez não ajudava muito, já que ele mal conseguia capinar com aquela peça bamba. Recriminou-se por não ter pego uma enxada melhor. Não teve dúvida, parou tudo e orou pedindo ajuda a Deus. Pouco depois, deu uma enxadada numa quiçaça e ali, para sua grata surpresa, tinha uma cunha semi-enterrada, que cabia perfeitamente na sua enxada. Diante do achado, levantou as mãos ao céu e glorificou a Deus efusivamente, o que deve ter assustado a vizinha que via pela janela a cena insólita de um homem cansado, no fim da tarde, agradecendo a Deus por uma cunha. Pelo canto dos olhos, Adriano só teve tempo de ver a cortina se fechando rapidamente.

Passados alguns dias, outra pessoa pediu a Adriano um serviço de urgência, que ele não podia recusar nem fazer num dia só sem a ajuda de outra pessoa. Combinou com o seu irmão, mas este avisou-lhe a tempo que não poderia ir. Chamou um rapaz que às vezes lhe ajudava, mas no dia e hora combinados, ele simplesmente não deu as caras. Lá estava o terrenão enorme pedindo enxada, e só Adriano a lhe encarar. Decidiu-se a fazer o que podia, mas já terminava o dia e ainda faltava muito chão para capinar. Exausto e já próximo do desespero, não teve dúvida: parou tudo e clamou a Deus por socorro. Mal teve tempo de dizer o "amém", quando percebeu uma sombra estranha denunciando um vulto enorme que se aproximava. Era um homem negro, grande, mal encarado, como aquele personagem condenado à morte no filme "À Espera de Um Milagre", o que lhe deixou com um baita medo naquele ermo do sem fim. O homem se aproximou e disse:

- Ei, rapaz, você não quer que eu te ajude? Tem muito terreno ainda e eu posso te ajudar por um trocadinho qualquer...

Adriano combinou o preço com o socorro recém-enviado dos céus - que, segundo ele, era um verdadeiro trator - e terminou o seu dia feliz, levando dinheiro para casa e dando glórias a Deus.

Esta é uma história verídica...

Ouvindo esta história, eu fiquei pensando cá com os meus botões: esta é a fé que Deus honra. Não uma pseudo-fé auto-imputada, arrogante, soberba, que trata Deus como um menino de recados ou um escravo obrigado a "honrar" quem alega segui-lO, de preferência cobrindo-o de bens, mas uma fé simples, inocente, dedicada, que se dispõe e põe a mão no arado e na enxada com vontade de ser feliz, e não tem vergonha da sua condição, nem de pedir auxílio a Deus quando as coisas não saem exatamente como se pensava, e em tudo dando glória a Ele. Simples assim...

As crônicas de Marvin - 10

Baile sem máscaras

3 de setembro de 2051, 16:00

Estava novamente em casa, depois de uma longa conversa. Não foi difícil perceber que já havia pessoas me esperando, escondidas, do lado de fora. Fiz de conta que não havia percebido nada, e entrei.
Imediatamente liguei o meu computador. Enquanto ligava, peguei meus equipamentos e fui testar minha linha telefônica. Fiquei chocado ao perceber que estava realmente grampeada. Teria que tomar cuidado com conversas pelo telefone.
Quem estaria por trás disto? Quem gostaria de me vigiar? Seja quem for, tinha poder suficiente dentro da Organização para colocar testemunhas de Jeová para me perseguir... Será que alguém desconfia de algo? Ou a minha posição atual tenha despertado a curiosidade de alguém?
O único que sabia de algo era o Estêvão... Ele ocupa uma posição estratégica agora, e poderia muito bem fazer aquilo... Mas por quais motivos ele me perseguiria? Eu teria que investigar isto mais profundamente...
Voltei a meu computador, e imediatamente comecei a comprar o material necessário para me garantir: FPGAs, memórias, interfaces de comunicação. Fiquei na dúvida entre comprar microcontroladores ou DSP’s, mas optei pelo segundo, já que iria trabalhar com o processamento de alguns sinais de sensores. E eu queria deixar os FPGAs para outras aplicações. A compra feita pela internet iria demorar um pouquinho, então já deveria me virar com os componentes que eu já tinha.
Chequei o meu sistema de segurança, para ver se todas as implementações estavam funcionando corretamente. Pelo visto ninguém havia tentado entrar em casa ainda.
Resolvi então buscar todos os meus projetos disponíveis na área de segurança, e os projetos mais “perigosos”. Se queriam me enfrentar, eu levaria isto até o fim. Foi durante minha busca, que o telefone tocou. Resolvi atender, poderia ser algo relacionado com o que havia acontecido hoje.
- Olá, irmão Marvin. Aqui é o irmão Osvaldo. Como vai você?
- Oi, irmão. Estou bem... Um pouco cansado, mas estou bem...
- Puxa, espero não estar atrapalhando nada. Só queria te fazer um convite...
- Um convite?
- Sim. Você e o irmão Estêvão estão convidados para uma festa que estamos fazendo em família. Não precisa se preocupar com a locomoção, pois nós os levaremos até lá.
- Hummmm, não sei se estou a fim de sair hoje, irmão... Estou cansado, e amanhã tenho trabalho a fazer...
- Bem, tenho certeza que você vai gostar. Além do mais, se está cansado, fará muito bem em ir, e mudar a rotina um pouco...
O Estêvão ia... Talvez eu pudesse descobrir se ele estava mandando aquelas testemunhas de Jeová me seguirem.
- Hum, então está bem. Quando será mesmo?
- Às 20:00. Eu busco vocês às 19:30, pode ser?
- Combinado.

3 de setembro de 2051, 19:30

O irmão Osvaldo foi pontual, como sempre. Notei a falta de alguns membros da família dele, na verdade todos.
- Irmão, onde está o pessoal da sua casa?
- Ah, eles já estão lá. Passamos o dia lá, então não havia a necessidade de voltar todo mundo.
Seguimos até a casa onde o Estêvão estava morando. De lá, saiu uma figura toda atrapalhada, que acabava de se arrumar enquanto trancava a porta.
- Puxa, vocês vieram rápido, hein...
- Bem, nós chegamos na hora combinada, não?
- Hahaha, é mesmo... Marvin, sempre muito pontual...
- E você quando não está adiantado, está atrasado... – disse com cara de desprezo.
- Esquenta não, irmão. O importante é chegar!!
Saímos da casa dele, e seguimos uma rua escura e íngreme, até chegarmos na marginal Norte. Entramos nela e nos dirigimos para a saída para Nerópolis. Havia poucos veículos ali, a maioria caminhões que aproveitavam o pouco tráfego para adiantar suas viagens. Em pouco tempo estávamos pegando a estrada em direção a Nerópolis.
- Irmão, onde é que mora exatamente sua família? – perguntei.
- Em uma chácara aqui perto... Já estamos chegando.
Em pouco tempo, o veículo estaria entrando em uma estrada de chão, e se dirigindo para uma casa escura. Depois do que havia me acontecido hoje, dizer que os piores pensamentos não me passaram pela mente seria uma mentira deslavada. Eu já não poderia confiar que aqueles irmãos agiriam conforme o padrão. Julguei-me um tolo por ter aceitado o convite sem ao menos ter alguma cautela.
O carro foi parando aos poucos diante daquela casa. Para minha surpresa, o Estêvão parecia tão surpreso quanto eu:
- Puxa, que escuro... Tem certeza que é aqui?
- Tenho sim, irmão. Às vezes ficamos sem energia por aqui... Deve ter faltado. Mas venham, eu os mostro o caminho...
Ele desceu do carro, encostou a porta e foi adiante. Assim que descemos, ativou o alarme, trancando as portas do carro. Assim, o seguimos. Era uma chácara bem arborizada, e bem decorada. O jardim da frente era impecável, com seus arbustos bem podados, grama aparada... As famílias TJ’s não costumavam ter dinheiro para cuidar de algo assim. E isto me deixou ainda mais apreensivo.
Entramos por um portão e nos dirigimos a um pátio. Estava muito escuro para ver alguma coisa ali. De repente, uma voz começou a dizer:
- Senhoras e Senhores, finalmente nossos convidados chegaram. Sabemos como eles são importantes, e como eles têm se dedicado à nossa comunidade. Desde que o irmão Estêvão chegou de São Paulo, estávamos pensando em organizar isto. Por favor, cumprimentem eles...
Então, as luzes se acenderam, revelando uma grande multidão (que nenhum homem podia contar) que em pé, aguardava nossa chegada. E todos disseram, a uma só voz:
- Sejam bem-vindos, irmãos!
Então, a pessoa que estava com um microfone e que eu não conhecia ainda, continuou:
- Irmãos, aqui estão todas as testemunhas da cidade de Goiânia e região. Nós decidimos organizar uma festa em homenagem aos dois irmãos que estão desempenhando um papel muito importante nos planos de Jeová. Os irmãos aqui presentes concordaram alegremente de contribuir para esta homenagem.
Certamente aquilo havia me surpreendido mais do que uma possível emboscada. Para quem não deveria dar honra indevida a humanos, aquilo era um pouco demais. Mas de fato, não era muito diferente das boas-vindas dadas a Superintendentes de Distrito em visita às comunidades. No fundo, fiquei feliz... Por mais duro que seja um coração, ele sempre sucumbe a uma demonstração de afeto. E muito embora aquelas pessoas pudessem ser falsas (muitas pessoas são mesmo), ali, naquele momento, elas estavam sinceramente felizes.
Logo nos rodearam, para conversar conosco. Aquele frenesi da nossa promoção já havia desaparecido um pouco, então não ficavam à nossa volta por muito tempo. Além do mais, a comida e a bebida exercia uma atração tão forte sobre elas quanto a nossa. De fato, a fila para a comida era maior que para falar conosco.
Logo que todos nos cumprimentaram, ficamos à vontade para andar pela chácara. Era um local bem arrumado. Eu estava espantado de ver como eles conseguiram organizar e arrumar tudo em tão pouco tempo. Na verdade, um dos irmãos me contou que assim que souberam da chegada do Estêvão, ainda na sexta, já começaram a entrar em contato com outros anciãos. Como era uma festa surpresa, não falaram nada para mim ou para o Estêvão. O assunto foi discutido nas reuniões de sábado à noite ou do domingo de manhã. Em nossa congregação, o assunto foi discutido em segredo no domingo de manhã, para que nem eu ou o Estêvão ficássemos sabendo. Curiosamente ninguém ficou envergonhado de mentir para nós até chegarmos à festa.
Era uma chácara alugada. A festa estava acontecendo em um pátio grande, onde havia piscina. Mais atrás começava um gramado, que foi iluminado para caber mais pessoas. Era ali que estavam as mesas do buffet, além de outras mesas para os convidados. Nem era preciso dizer que as panelinhas se formaram rapidamente, juntando mesas.
Eles reservaram o local perto da piscina como pista de dança, já que ali havia um piso de cerâmica. Não demorou muito para que a música começasse. Como era típico aqui na região, tocou-se basicamente o velho e bom forró, devidamente selecionado pela comissão de censura às músicas do mundo. Logo aqueles que eram casados se aproximaram para dançar, enquanto os solteiros dançavam sozinhos. Na verdade as solteiras, já que as mulheres tinham mais coragem de dançar sozinhas, ou até mesmo umas com as outras. Isto era natural por aqui. Homens não tinham este costume de dançar sozinhos, eles preferiam mais ficar sentados, conversando sobre os problemas do mundo, ou os problemas que eles, testemunhas de Jeová, enfrentavam no mundo.
Como já tinha sido liberado, resolvi ir comer alguma coisa também. Caminhando até a mesa de comida, avistei dois rostos familiares... Os dois jovens que me perseguiram de manhã. “É mesmo, aqui estão todos as testemunhas de Jeová d,a região”, pensei. Era hora de tirar aquilo à limpo. Rapidamente me aproximei dos dois. Quando perceberam que eu estava próximo deles, já era tarde demais...
- Boa noite para vocês.
- Ah... hum, boa noite, irmão. – disse o primeiro.
- Boa noite, irmão... – respondeu o outro.
- Gostaria de falar com vocês... De qual congregação vocês são?
- Hummm, somos do Garavelo...
- Ah, entendo... Eu me lembro de vê-los na Anhanguera hoje... O quê faziam por lá?
- Anhanguera? Hummm...
Eles pensaram um pouco antes de continuar... Finalmente, um deles teve uma idéia...
- Ah, nós estávamos indo para a casa de um irmão, para ajudar a organizar esta festa. Por isto estávamos correndo ali para pegar o ônibus que iria para a casa dele.
- Hummm, entendi...
Claramente ele estava mentindo para mim... Era uma boa desculpa, principalmente por que eles estavam de fato falando em uma festa quando entraram no ônibus. Mas eles estavam nervosos demais, e o lugar onde descemos não era o melhor lugar para se pegar ônibus. Afinal de contas, estávamos em um terminal, por quê eles iriam sair dele para pegar outro ônibus? Os principais ônibus ali perto já entravam no terminal. Ninguém seria suficientemente estúpido de pagar uma passagem a mais sem necessidade... Ou seriam estúpidos? Eu ia perguntar outra coisa a eles, quando fui interrompido...
- Marvin?
Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Priscila. Meus pensamentos mudaram completamente. Sua voz era suficiente para me fazer sorrir. Me virei para vê-la, deixando os dois jovens perplexos.
- Irmã? Puxa, como está bonita...
Ela estava com um vestido branco, que combinava com seus cabelos loiros. Incrivelmente bem maquiada.
- Ah, obrigada... Mas então, o que está achando da festa?
- Hum, estou gostando de tudo. Foi uma ótima surpresa.
Os dois espertinhos perceberam a brecha, e saíram de fininho. Não os veria mais na festa...
- Que bom que gostou. Foi tudo organizado muito rápido, nossa sorte foi encontrar este local tão bonito e livre para hoje.
- Puxa, não precisava de tudo isto...
- Claro que precisava. Vocês dois são pessoas muito importantes!
A velha timidez tomou conta de mim, buscando alguma coisa para falar naquela hora... Só uma coisa me veio à mente.
- E então, você já se serviu?
- Ainda não...
- Hummm, gostaria de me acompanhar? Eu dei uma olhada na mesa, e fiquei com vontade de experimentar um pouco de cada coisa...
Ela sorriu, aceitando meu convite... Então caminhamos para a fila, onde alguns tentaram me ceder a vez, enquanto eu recusava. Afinal, poderia ficar mais tempo falando com ela...
- Fiquei sabendo que está fazendo faculdade... Como estão os estudos?
- Puxa, faculdade é muito puxada... Além do mais, é difícil conciliar estudos com as Reuniões... Às vezes tenho que matar aulas muito importantes, mas eu já conversei bastante com os professores, e de uma forma ou de outra, eu estou conseguindo levar o curso adiante...
- Que bom. O importante é ter força de vontade...
O sorriso dela desapareceu por uns instantes, dando lugar a uma cara de preocupação...
- Hum, irmão?
- Sim?
- Bem, eu sempre fui desencorajada a fazer faculdade, para que os estudos não tirassem um tempo que eu poderia me dedicar mais a Jeová. Nestes últimos dias há uma pressão ainda maior sobre mim, já que com a proximidade do fim do mundo, não haveria motivos para que eu ingressasse em uma faculdade... Mas eu sempre quis ser odontóloga, e amo esta matéria... Você parece não se importar muito com isto...
Naquele instante me dei conta que nem todas as testemunhas de Jeová são fundamentalistas. Na verdade, as pessoas normais não são 100% fundamentalistas. Elas sempre criam regras rígidas naqueles pontos que não faz nenhuma importância para elas. Um pastor pode dizer que baterias são instrumentos musicais pagãos ao lembrar dos tambores tribais, e por isto proibi-los. Mas ele não usa a mesma rigidez ao usar o próprio calendário. E se depois de tudo, ainda houver aqueles que são 100% fundamentalistas, certamente poderão ser encontrados em suas casas em árvores, em algum canto escuro da floresta amazônica.
E ali, diante de mim, estava mais um exemplo de como estereótipos são injustos. Uma pessoa que gostava de estudar, e não via problemas entre os estudos e suas crenças. E era testemunha de Jeová. De fato, embora a sociedade se empenhe muito em impedir os jovens de estudar, eles não são 100% eficientes em seus sermões. E eu mesmo discordei sempre de todos eles. E o mais irônico de tudo isto é que quando esta moça se formar, todos os irmãos vão aproveitar-se dela. O problema agora era explicar por quê eu discordava de toda aquela argumentação, para uma testemunha de Jeová. E eu tinha que começar...
- Irmã, eu não vejo problema algum em se estudar em uma faculdade. Eu mesmo estudei muito na área de engenharia elétrica.
- E o quê pensa de estudar quando estamos se aproximando do fim?
- Bem, irmã, na minha opinião, não há diferença nenhuma.
- Não? – Perguntou, fazendo aquela carinha de quem não estava entendendo nada...
- Não. Veja, nós vivemos em um mundo onde não podemos prever o que poderá acontecer conosco. Eu estou nesta festa agora, mas amanhã posso nem estar vivo. No entanto, eu não me preocupo com isto o tempo inteiro. Nem ninguém. Todos nós trabalhamos, estudamos e amamos como se nossas vidas nunca fossem terminar. O fim do mundo está próximo? Ora, mas o fim da minha vida pode estar bem mais próximo que o fim do mundo, e isto nunca me impediu de viver a vida que eu sempre quis.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre o que eu falei. Não pude deixar de reparar um leve sorriso se formando em seu rosto, com o tempo... Aquilo começava a fazer sentido para ela...
- Mas e o tempo que eu poderia estar dedicando a Jeová?
Dei um pequeno sorriso, e me aproximei de seu ouvido para cochichar a resposta:
- E quem disse que estudar não pode ser algo dedicado a Jeová?
Ela afastou o rosto, e me olhou atônita.
- Como assim?
- Ora, não é o próprio apóstolo Paulo quem diz “quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei todas as coisas para a glória de Deus”? Para mim, isto significa que estas coisas, quando feitas de modo digno, são consideradas obras sagradas. Coisas feitas de modo digno são dedicadas a Jeová, e Paulo usa este princípio aplicando-o a beber e comer. Podemos aplicar isto ao estudo também, não acha?
Ela ficou meio apreensiva, mas podia-se ver que aquele expressão de incômodo havia passado... Olhava para o chão, refletindo mais sobre o que eu tinha acabado de falar.
Eu ainda admirava sua expressão, quando um jovem se aproximou de nós. Rapidamente ele me cumprimentou, e se dirigiu depois à Priscila:
- Olá, irmã... Gostaria de falar com você em particular, poderia ser?
Rapidamente ela levantou seu rosto, e fitou ele nos olhos. Curiosamente vi seu rosto ficar pálido, depois corado... Alguma coisa estava acontecendo.
- Ah... Pu-puxa, o quê seria, irmão?
- Eh... bem, não poderia falar aqui... Você vem?
Ela olhou rapidamente para mim, então pensou um pouco antes de responder...
- Hum, pode ir na frente, já estou indo...
- Eu te espero, não tem problema.
- Pode me esperar ali então. Não vou demorar.
O rapaz então concordou, caminhando lentamente para o local que ela apontou.
- Quem é ele? – perguntei.
- Este é o irmão Aldo. É de outra congregação...
- Humm... O quê será que ele quer tanto falar com você?
Ela ficou um pouco pensativa, antes de me responder...
- Eu não sei... Mas talvez...
- Talvez...?
- Há algum tempo atrás estávamos para nos casar...
A revelação me deixou surpreso... Então toda aquela reação dela... Será que ela sentia alguma coisa por ele? No entanto, eu ainda via dúvida nela.
- E não deu certo?
- Não, ele me achou alegre demais... Parece que ele queria uma esposa mais “exemplar”...
- Puxa, que belo exemplo de pessoa...
- Irmão, obrigada por me dizer tudo que disse. Vou pensar bastante em tudo que me falou, mas vou tentar levar meu curso adiante...
- Então, vai falar com ele?
- Sim. Não sei o que ele quer... Até mais!
- Até mais!
Eu a observei caminhar até o tal do Aldo. Mal educado ele, será que ele não sabe perceber quando duas pessoas estão conversando? Tem que vir atrapalhar tudo? Ainda mais ex-pretendente! Deu o fora nela e agora se acha o bam-bam-bam... Lá no íntimo ele deve estar pensando como ele é fodão, fazendo o que bem entender com a pobre da Priscila... Mas ele vai se ver comigo...
De repente, senti alguém cutucando meu ombro.
- Marvin, você está parecendo nervoso... O quê aconteceu?
Me virei para ver o Estêvão, com uma cara de preocupação...
- Ah, nada... Não foi nada...
- Nada? Quem é aquele cara que chamou a Priscilinha para conversar?
Não consegui conter a expressão de estranheza ao ouvir aquilo...
- Priscilinha??? Desde quando você tem toda esta intimidade?
- Marvin, eu não tenho culpa se você é tão devagar... Agora, me diga quem é aquele ali.
- Aquele ali é o ex-noivo da Priscila.
A feição de Estêvão mudou rapidamente...
- Ex-noivo?
- Sim, e disse que queria falar algo com ela em particular...
Estêvão ficou furioso...
- Mas que cabra sem-vergonha... Ele está pensando o quê da vida? A fila anda!! Vou lá falar com o folgado agora...
- Ei, você ficou maluco?
- Não, mas aquele ali ficou...
Então ele saiu pisando duro, igual a um foguete. Foi explodir perto dos dois... Não dava para se ouvir o que eles estavam falando, mas o Estêvão gesticulava mais do que político em palanque, enquanto o jovem o respondia como podia. A pobre Priscila apenas ouvia, às vezes tentava interferir. De longe, eu observava a cena, enquanto outros irmãos se aproximavam tentando acalmá-lo. Foi quando alguém me chamou:
- Irmão, acho melhor você ir falar com o irmão Estêvão...
Eu não sou o tipo de pessoa que gosta de agir como babá dos outros. Mas aquilo poderia ficar sério. Decidi deixar a fila quase perto de minha vez, para ir até lá. Tudo que eu ouvi foi Estêvão acusando aquele cara de ter abandonado a Priscila, e agora tentando confundi-la com uma nova proposta de casamento. Cheguei perto dele, e falei no ouvido dele:
- Estêvão, você está ficando maluco? Os irmãos aqui estão estranhando tal atitude de um dos dois profetas do Apocalipse... Lembre-se, temos um papel a desempenhar, e não podemos ir contra as expectativas dos irmãos, ou levantaremos suspeitas...
Ele rapidamente se deu conta que as atitudes dele poderiam colocar em risco toda nossa operação. Então, retomando o controle de si, virou-se para a Priscila e continuou:
- Irmã, me desculpe pela cena... Poderia te convidar para uma conversa, longe deste rapaz?
Talvez a vontade de terminar toda aquela discussão a pressionou a aceitar o convite. Mais uma vez, esquecido em meu canto, fiquei observando ela se afastar, desta vez com Estêvão, como se fosse em câmera lenta.
Ver aquilo trouxe à tona várias lembranças do meu passado... Lembranças que me recordaram como eu não conseguia ficar feliz em uma festa... As pessoas felizes em suas rodas de amigos, enquanto eu tentava me distrair com qualquer coisa... Nunca entendi por quê às vezes eu era chamado para festas, embora não participasse de nenhuma roda de amigos. Talvez eu fosse apenas um número, que o dono da festa repetiria orgulhoso ao contar como fez uma festa onde compareceram todos da sala, algo parecido com as reuniões cristãs das Testemunhas de Jeová. Sempre que eles mencionavam o número de pessoas que compareceram à algum evento, eu tinha calafrios.
Aquela velha tristeza que eu conhecia tão bem aos poucos foi tomando conta de mim. Não era apenas o sentimento de ser deixado para trás que me deixava assim, era também o sentimento de que uma das pessoas que eu gostava estava se afastando... Como sempre aconteceu... Eu sempre observei minhas amadas de longe, e nunca fui capaz de lutar por elas assim... Agora teria que lutar contra dois.
Estava ali, no meio da multidão. Os casados dançavam alegres ao lado das solteironas viciadas no forró. De longe, crianças com camisas e sapatinhos de couro bem engraxados corriam em volta do pequeno parquinho que havia na chácara. Enquanto isto, os mais gulosos estavam pela terceira vez na fila, enchendo seus pratos com salgadinhos suficientes para toda a família, que aguardava em uma mesa ali perto. Estavam todos tão ocupados com suas respectivas diversões, que não se preocupavam em manter aparências (embora eu saiba que haverá comentários maldosos em todas as Congregações depois desta festa). Estavam felizes, talvez por quê a imagem da velha Torre de Vigia não estava ali, a vigiar. Por um momento, estavam livres para ser eles mesmos. Era um perfeito baile sem máscaras, e imediatamente me perguntei se eu também não estava ali, sem a minha. Não seria eu na realidade aquela figura triste e solitária perdida em uma multidão, minha verdadeira personalidade?
Todos procuram reconhecimento. E eu sempre procurei desesperadamente o meu, até certo ponto em minha vida. A verdade é que eu desisti de procurar, e passei a fazer de conta que estava satisfeito com a solidão... Ou eu estava de fato? Não sei. O que sei é que às vezes eu queria ser o centro das atenções... Outras vezes, desejava a solidão, e isto quase sempre acontecia quando mais pessoas me procuravam. Sou um eterno inconstante, como uma folha levada pelo vento... Como eu poderia mudar aquelas pessoas, se eu mesmo não conseguia definir minhas convicções? Mudar...

“Mas se você quer mudar o mundo, você deve começar com você mesmo.”

As palavras ecoaram em minha mente, e nada pude fazer a não ser concordar... Eu precisava mudar a mim mesmo... Pelo menos eu precisava deixar de me lamentar diante das dificuldades... Nós sempre nos lamentamos dos problemas, não nos jubilamos dos momentos de alegria. Isto deveria deixar claro que os problemas são temporários, que os problemas são os “intrusos” em nossas vidas. Porém, eu ainda precisava de algum tempo para me recompor...Assim, decidi ir para um local mais afastado, onde eu pudesse pensar mais sobre minha vida. Havia uma lagoa ali perto, bem iluminada. Além do som da festa e o barulho de pessoas conversando, somente os grilos faziam algum barulho digno de se reparar. Fui caminhando lentamente até lá, cumprimentando aqueles que puxavam conversa comigo. Foi chegando perto da lagoa, que havia mais uma pessoa por ali. Estava tão sozinha quanto eu, observando a lagoa, mergulhada em seus pensamentos...

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Ele é o cara

Domingo, 31 de Maio de 2009

O mercado da fé

Transcrevo abaixo artigo do católico Frei Betto, publicado originalmente no site da Alainet (América Latina en Movimiento - Agencia Latinoamericana de Información), em que ele faz uma análise interessante do crescimento evangélico no Brasil, que, apesar do título, é muito mais crítica em relação à própria Igreja Católica:


MERCADO DA FÉ


Como os supermercados, as Igrejas disputam clientela. A diferença é que eles oferecem produtos mais baratos e, elas, prometem alívio ao sofrimento, paz espiritual, prosperidade e salvação.

Por enquanto, não há confronto nessa competição. Há, sim, preconceitos explícitos em relação a outras tradições religiosas, em especial às de raízes africanas, como o candomblé e a macumba, e ao espiritismo.

Se não cuidarmos agora, essa demonização de expressões religiosas distintas da nossa pode resultar, no futuro, em atitudes fundamentalistas, como a “síndrome de cruzada”, a convicção de que, em nome de Deus, o outro precisa ser desmoralizado e destruído.

Quem mais se sente incomodada com a nova geografia da fé é a Igreja Católica. Quem foi rainha nunca perde a majestade... Nos últimos anos, o número de católicos no Brasil decresceu 20% (IBGE, 2003). Hoje, somos 73.8% da população. E nada indica que haveremos de recuperar terreno em futuro próximo.

Paquiderme numa avenida de trânsito acelerado, a Igreja Católica não consegue se modernizar. Sua estrutura piramidal faz com que tudo gire em torno das figuras de bispos e padres. O resto são coadjuvantes. Aos leigos não é dada formação, exceto a do catecismo infantil. Compare-se o catecismo católico à escola dominical das Igrejas protestantes históricas e se verá a diferença de qualidade.

Crianças e jovens católicos têm, em geral, quase nenhuma formação bíblica e teológica. Por isso, não raro encontramos adultos que mantêm uma concepção infantil da fé. Seus vínculos com Deus se estreitam mais pela culpa que pela relação amorosa.

Considere-se a estrutura predominante na Igreja Católica: a paróquia. Encontrar um padre disponível às três da tarde é quase um milagre. No entanto, há igrejas evangélicas onde pastores e obreiros fazem plantão toda a madrugada.

Não insinuo assoberbar ainda mais os padres. A questão é outra: por que a Igreja Católica tem tão poucos pastores? Todos sabemos a razão: ao contrário das demais Igrejas, ela exige de seus pastores virtudes heróicas, como o celibato. E exclui as mulheres do acesso ao sacerdócio. Tal clericalismo trava a irradiação evangelizadora.

O argumento de que assim deve continuar porque o Evangelho o exige não se sustenta à luz do próprio texto bíblico. O principal apóstolo de Jesus, Pedro, era casado (Marcos 1, 29-31); e a primeira apóstola era uma mulher, a samaritana (João 4, 28-29).

Enquanto não se puser um ponto final à desconstrução do Concílio Vaticano II, realizado para renovar a Igreja Católica, os leigos continuarão como fiéis de segunda classe. Muitos não têm vocação ao celibato, mas sim ao sacerdócio, como acontece nas Igrejas anglicana e luterana.

Ainda que Roma insista em fortalecer o clericalismo e o celibato (malgrado os escândalos frequentes), quem conhece uma paróquia efervescente? Elas existem, mas, infelizmente, são raras. Em geral, os templos católicos ficam fechados de segunda à sexta (por que não aproveitar o espaço para cursos ou atividades comunitárias?); as missas são desinteressantes; os sermões, vazios de conteúdo. Onde os cursos bíblicos, os grupos de jovens, a formação de leigos adultos, o exercício de meditação, os trabalhos voluntários?

Em que paróquia de bairro de classe média os pobres se sentem em casa? Não é o caso das Igrejas evangélicas, basta entrar numa delas, mesmo em bairros nobres, para constatar quanta gente simples ali se encontra.

Aliás, as Igrejas evangélicas sabem lidar com os meios de comunicação, inclusive a TV aberta. Pode-se discutir o conteúdo de sua programação e os métodos de atrair fiel. Mas sabem falar uma linguagem que o povo entende e, por isso, alcançam tanta audiência.

A Igreja Católica tenta correr atrás com as suas showmissas, os padres aeróbicos ou cantores, os movimentos espiritualistas importados do contexto europeu. É a espetacularização do sagrado; fala-se aos sentimentos, à emoção, e não à razão. É a semente em terreno pedregoso (Mateus 13, 20-21).

Não quero correr o risco de ser duro com a minha própria Igreja. Não é verdade que ela não tenha encontrado novos caminhos. Encontrou-os, como as Comunidades Eclesiais de Base. Infelizmente não são suficientemente valorizadas por ameaçarem o clericalismo.

Aliás, as CEBs realizarão seu 12º encontro intereclesial de 21 a 25 de julho deste ano, em Porto Velho (RO). O tema, “Ecologia e Missão”; o lema, “Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia”. São esperados mais de 3 mil representantes de CEBs de todo o Brasil.

Bom seria ver o papa Bento XVI participar desse evento profundamente pentecostal.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Decadência global

O Jornal Nacional dedicou ontem um amplo espaço ao trabalho social dos evangélicos no Brasil, naquilo que eles chamam de uma "série de reportagens", que deve ter continuação durante a semana. O que chama a atenção é que a Globo, por muitas décadas, praticamente ignorou as igrejas evangélicas no Brasil, desde o tempo em que elas eram conhecidas apenas como "protestantes". Quem assistiu as novelas da Globo nas últimas décadas, e não conhecia a realidade brasileira, poderia ter imaginado que não havia "protestantes" ou "evangélicos" no Brasil, já que nas poucas vezes em que eles eram retratados nas produções globais, sempre havia um viés depreciativo, como se fossem um bando de tolos tocando bumbo na praça, como aconteceu na primeira versão da novela "Selva de Pedra", ainda em preto-e-branco, no começo dos anos 70. Entretanto, para a Globo também não havia negros ou orientais no Brasil, e quando havia, eram representados como escravos ou feirantes. Até hoje, um estrangeiro que assista uma novela pela Globo Internacional, pode imaginar que somos todos escandinavos.

Talvez o crescimento evangélico no Brasil (muito mais quantitativo do que qualitativo, deve ser registrado) tenha assustado a Globo, em declínio no Ibope, enquanto a Record (da Universal) tenta alcançá-la. Desde as brigas com Edir Macedo, na década de 90, em que a Globo até tentou, mas não conseguiu separar o joio do trigo no meio evangélico, inclusive com a minissérie "Decadência" (1996), em que Edson Celulari interpretava um pastor profano e corrupto, que aprofundou a ruptura com muita gente séria que se viu ridicularizada nesse episódio. Provavelmente, o alerta vermelho tenha despertado a atenção dos iluminados diretores da Globo, que sempre se consideraram inatingíveis. Afinal, indispor-se com uma parcela considerável da população brasileira parece não ser um bom negócio. Pelo menos, a iniciativa serve para revelar o trabalho sério que muitas igrejas boas fazem em prol da sociedade brasileira.

Sábado, 16 de Maio de 2009

Os estados do direito

"Estado de Direito" é um daqueles chavões, daquelas palavras-coringa, que são (ab)usados aleatória e indiscriminadamente por quem quer se esconder atrás de algo que tem aparência de verdade, apenas para justificar seus atos que nem sempre a acompanham. Assim, o respeito às determinações judiciais é tido como um respeito ao Estado de Direito, mas ninguém explica qual é a garantia que o cidadão tem contra o mau juiz ou o mau tribunal que revisa a sua má decisão. O Estado de Direito é o estado do direito de uns, mas não de outros? Afinal, temos ou não o direito de resistência? Pode-se resistir ao Estado de Direito exclusivo de alguns? Curiosamente, este é um dos temas mais polêmicos do direito, e dos menos abordados, talvez pelo medo das suas consequências.

Felizmente, a internet nos proporciona boas surpresas, com ótimos textos opinativos, como o do Blog do Braga da Rocha, que tomo a liberdade de recomendar e transcrever abaixo:


TSE, Jackson Lago e a oportunidade de crise institucional para uma necessária 'refundação' da República


Do noticiário político do fim de semana destaca-se a cassação do mandato do governador do Maranhão, Jackson Lago, pelo Tribunal Superior Eleitoral - TSE, seguida da decisão tomada por Lago — da qual, lamentavelmente, logo recuou — de resistir à decisão judicial com um expressivo gesto político: a recusa em deixar o Palácio dos Leões, sede do governo daquele Estado.
Tenho repetido a meus alunos e colegas do meio jurídico que o primeiro e inarredável compromisso de todo jurista e de todo cidadão deve ser com o chamado estado de direito, entendida esta expressão em sua acepção mais elementar, como aquele ambiente em que o ordenamento se põe e se aplica segundo regras e mecanismos institucionais preestabelecidos.
No caso Jackson Lago, todavia, devo confessar que me sinto algo frustrado e decepcionado pela decisão do governador de abandonar o palácio, em sinal de acatamento, ainda que a contragosto, de mais uma espúria decisão do TSE.
Sem discutir o mérito da causa, que desconheço em profundidade — mas que a todos os olhos isentos parece representar um coup d'état, revestido de aparência institucional, contra um governador legitimamente eleito —, deve-se lembrar que o TSE não passa de mais um entre os desmoralizados órgãos superiores do Poder Judiciário brasileiro, fonte de incontáveis decisões estapafúrdias movidas à corrupção do desregrado lobby, como aquela, no ano de 2004, relativa ao então governador Joaquim Roriz, do Distrito Federal, em ação proposta pelo Ministério Público com vistas à cassação de seu mandato.
Na ocasião, apenas para avivar a memória do leitor, deixou o TSE de cassar o ilegítimo mandato obtido por aquele execrável político brasiliense, conquanto figurassem nos autos provas inequívocas de uso de recursos públicos em prol de sua reeleição — entre as quais fotografias de veículos alugados pelo governo distrital, a exibir e transportar material de campanha do candidato —, provas essas que a relatora do processo, ministra Ellen Gracie, acompanhada, entre outros, por Carlos Mário Veloso e Peçanha Martins, preferiram não considerar "suficientemente robustas" para demonstrar o ilícito eleitoral que autorizaria a cassação. Registre-se, no julgamento desse feito, memorável voto divergente do então presidente da Casa, ministro Sepúlveda Pertence, homem público de rara integridade, como já não se vê na cortes do País.
Desta feita, como aparentemente sopram em tal sentido os ventos políticos — não se olvide que a decisão favorece os interesses diretos do mais importante clã maranhense, uma vez que a segunda colocada no pleito é a senadora Roseana Sarney, prontamente empossada no cargo usurpado —, achou por bem o TSE legitimar um golpe contra o governador Jackson Lago e, com isso, acomodar tenebrosos interesses que, por óbvio, não se limitam às fronteiras do longínquo e inexpressivo Maranhão.
Minha torcida pela resistência de Lago, até o limite do uso da força, se necessário fosse, representava, sim, a aposta em um conflito cujos reflexos bem se poderiam dilargar até o ponto de uma crise institucional de âmbito nacional que, a esta altura, me pareceria muito oportuna para uma necessária 'refundação' da República brasileira.
Infelizmente, apenas uma passageira quimera. Restou somente o golpe, consagrado pelo corrompido Judiciário e limitado, em seus efeitos mais evidentes e imediatos, ao governo de um mero coadjuvante estado da Federação.

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Grandes canciones - 5

OLVIDARTE

Ricardo Arjona
Composição: Gabar'el Arley Raven

Olvidarte es mas difícil que encontrarse al sol de noche
Que entender a los políticos o comprar la Torre Eiffel
Mas dificil que fumarse un habano en American Airlines
Mas dificil que una flor plastica marchita
Olvidarte es mas dificil que una flaca en un Botero
Que encontrarse a un gato verde, o a un cubano sin sabor
Mas dificil que Lady Di en la estacion del metro
Olvidarte es tan dificil olvidarte

Olvidarte, olvidarte
Es querer jalarle el pelo a una botella
Es creer que la memoria es un cassette para borrar
Olvidarte es recordar que es imposible
Olvidarte, olvidarte
Incluso es mas dificil que aguantarte
Si extraño tu neurosis y tus celos sin razon
Como no extrañar tu cuerpo en mi colchon

Olvidarte es un intento que no lo deseo tanto
Porque tanto es que lo intento que me acuerdo mucho mas
Y he llegado a sospechar que mi afan de no acordarme
Es lo que me tiene enfermo de recuerdos
Olvidarte es lo que espero para reanudar mi vida
Harto de seguir soñando con la posibilidad
De que un dia por error, o pura curiosidad
Le preguntes a un amigo por mis huesos

Olvidarte, olvidarte
Es querer jalarle el pelo a una botella
Es creer que la memoria es un cassette para borrar
Olvidarte es recordar que es imposible
Olvidarte, olvidarte
Incluso es mas dificil que aguantarte
Si extraño tu neurosis y tus celos sin razon
Como no extrañar tu cerpo en mi colchon

Es querer jalarle el pelo a una botella
Es creer que la memoria es un cassette para borrar
Olvidarte es recordar que es imposible
Olvidarte, olvidarte
Incluso es mas dificil que aguantarte
Si extraño tu neurosis y tus celos sin razon
Como no extrañar tu cuerpo en mi colchon

A perpetuação do profano

E quando a gente acha que já viu de tudo no meio dito "evangélico", eles conseguem se superar. Não sei o que chama mais a minha atenção: a tragédia perpetuada, a vítima que, mesmo depois de morta, contribui para se auto-indenizar; ou a modalidade de dízimo em parcelas fixas no cartão de crédito. A notícia saiu no Estadão e no Jornal da Tarde, e foi reproduzida no blog Paulopes, e aproveito para repeti-la aqui, como uma "homenagem" à profanação do evangelho no Brasil:

Renascer cobra dízimo de fiel morta no desabamento de templo

Luiza Silva, 62, foi uma das pessoas que morreram no desabamento do tempo da Igreja Renascer em Cristo no Cambuci, em São Paulo.

A igreja do apóstolo Estevam e da bispa Sônia não indenizou ninguém até agora, alega que espera decisão judicial, mas, veja só, um mês após a morte de Luíza, a Renascer cobrou no dia 18 de janeiro R$ 30 do cartão dela para o pagamento do dízimo.

Gleice Raquel Valente Mendonza, advogada da família de dona Luiza, informou ao Estadão que avisou a administradora do cartão para suspender os pagamentos.

A advogada também está cuidado da papelada que encaminhará à Justiça reivindicado uma indenização da Renascer pela morte de Luiza.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

As crônicas de Marvin - 09

O contorno das sombras

Ponto de vista alternativo, 3 de setembro de 2051, 00:00

A noite sem lua mergulhava as ruas em completa escuridão. A chuva, que castigava a cidade, impedia que seus moradores saíssem, transformando aquela cidade em um completo vazio. Esta era a noite perfeita para sair sem ser visto, para falar sobre o que não pode ser ouvido. Fazer pactos que não podem ser conhecidos.
Em algum lugar da cidade, um galpão que deveria estar abandonado, agora abrigava 11 vultos. Aguardavam em silêncio, reunidos em um círculo. Intencionalmente, não havia luz. Havia escuridão, havia tensão. O silêncio foi quebrado apenas quando o 12º vulto apareceu de uma das portas e se juntou aos 11 originais.
- Vejo que todos estão aqui. – disse.
- Sim, acabamos de chegar também. – disse um dos vultos.
- Então podemos começar nossa primeira reunião, cavalheiros. Creio que todos já sabem os motivos para a convocação. Como estão os números?
- Segundo relatórios, já são 60% de desassociados. Eu diria que estes números são preocupantes, se continuarem aumentando assim. – comentou outro vulto.
- Sim, mas no momento, não há nada que possamos fazer sobre isto.
- Por quê, Moshe? – perguntou um dos vultos.
O vulto que se intitulava Moshe, parou por um instante, refletindo sobre sua resposta. Então continuou:
- Cavalheiros, não seria bom tentar desfazer o que já foi feito agora... Os fiéis ficariam chocados se isto fosse feito...
Um dos vultos que escutava, escorado em uma das paredes, deu uma pequena risada sarcástica, comentando em seguida:
- Ora, foi exatamente para isto que a doutrina de novas luzes foi criada... enquanto esta doutrina existir, a disputa pelo poder ficará mascarada por uma correção divina...
- Sim, Eliyahu, mas não podemos esquecer que esta doutrina só é bem sucedida, quando aplicada a longo prazo. E com certeza, não teremos estas condições agora...
- Hummm, entendo onde você quer chegar... Então, este é o motivo de nossa reunião, não é?
- Sim...
Houve um breve silêncio, até que o outro vulto chamado de Eliyahu retomou a discussão:
- Bem, acredito que será bem mais fácil pegar uma pessoa, do que todo o Corpo Governante...
- Não contaria com isto. – respondeu Moshe.
- Hummm... qual seria a dificuldade?
- Bem, o jovem que estamos falando foi capaz de planejar uma forma de controlar todo o Corpo Governante, e está conseguindo, com sucesso, acabar com a Torre de Vigia. Ele é bem habilidoso, não acha?
- Entendo... Então foi por isto que me pediu para buscar informações sobre ele... – comentou outro dos vultos.
- Sim, Yekhezqe'l... Como está nosso detetive?
- Ainda buscando informações... Teremos dados importantes em breve...
- Muito bom. Enquanto isto, Yeshayahu, vamos colocar algumas testemunhas para vigiá-lo...
- Tudo bem... Mas, o quê diremos a eles, Moshe?
- Diga que são ordens do Corpo Governante, que é um chamado especial, e que é para manter isto em segredo. Diga também que a questão é tão sigilosa, que não poderão saber os motivos pelos quais estão sendo chamados para vigiar tal pessoa. E mais uma coisa: peça para eles não deixarem que ele descubra. Ele não pode sonhar que está sendo vigiado... Ele é esperto, e pode chegar até nós, se quiser...
- E se eles continuarem perguntando?
- Dispense eles do serviço de campo, e lhes dê uma boa quantidade de horas. Eles acharão isto o máximo.
- Este rapaz não estaria disposto a vir para nosso lado? – perguntou mais um vulto.
- Não acho que seria possível, Yona... Pelo que sei, ele andou se tornando uma espécie de idealista, do pior tipo. Pessoas como ele não estão interessadas no poder... Ele podia ter visto desde o princípio, que possuía em mãos o controle total sobre um grande número de pessoas. Um controle que foi habilmente construído durante anos. Eu tenho que elogiar nosso caro Juiz Rutherford, ele é um gênio. Ele pegou um grupo de pessoas idealistas e inocentes, e transformou aquilo em um instrumento perfeito de controle. Quando ele colocou a Torre de Vigia como único canal de comunicação com Deus, ele simplesmente fez com que todos os questionamentos teológicos tivessem que passar por sua aprovação. Assim, até mesmo para se questionar a Torre de Vigia, era necessário sua permissão. Nem mesmo o papa conseguiu tanto sucesso, embora eles tenham o mesmo tipo de ensino. Se os católicos não tivessem tanta liberdade como possuem hoje, certamente nosso alvo seria o Vaticano. Talvez algum dia, se os tradicionalistas conseguirem derrubar o Concílio Vaticano II, as condições na igreja Católica permitam um domínio tal qual a Torre possui. Por isto é importante para a Torre fechar-se ao mundo. A igreja Católica se abriu um pouco, e tudo foi buraco abaixo...
- Sim, mas agora isto pode ser perdido, se não impedirmos aquele garoto.
- Sim... E vamos impedí-lo... Este é o primeiro passo. Temos que neutralizá-lo. Mandaremos as testemunhas de Jeová vigiarem ele. Ele deve cometer algum deslize... E quando cometer...
Fez-se por algum tempo, silêncio na sala... Por fim, Moshe disse em tom solene:
- Cavalheiros, por hoje é só. Quando Yekhezqe'l obtiver mais dados sobre nosso objeto, voltaremos a nos reunir.
Um a um, cada um dos 12 foram se afastando. O último a sair foi aquele que chegou por último. Lentamente se deslocando para a porta, sussurrou suas últimas palavras...
- Em breve, Juiz, retomaremos seus passos...
A chuva caia mais forte lá fora, escondendo em cumplicidade aqueles 12 homens...

3 de setembro de 2051, 10:00

Para compensar as traquinagens do sábado, decidi que eu merecia dormir até mais tarde aquele dia... Foi bom assim, pelo menos eu estava com mais disposição para as viagem daquele dia.
Tomei logo meu café, peguei minhas coisas e saí. Havia muita coisa para se fazer ainda. O ônibus demorou um pouquinho, como era costume nos domingos.
Estava novamente mergulhado em meus pensamentos, e sobre o que eu iria dizer... Eu estava para fazer algo totalmente diferente do que já havia feito até aquele momento. Certamente se eu contasse o que eu faria para o Estêvão, ele iria me reprovar. Por isto não mencionei nada a ele.
Em certo ponto, o ônibus parou para pegar os passageiros. Eu observava aquelas figuras, indo para seus trabalhos, passeios... Mas uma delas chamou mais atenção: um rapaz, de uns 27 anos mais ou menos, vestido de terno, levando uma pastinha. Com o cabelo penteado como se uma vaca tivesse lambido, e com um ar celestial. Pensei: “Droga, uma testemunha de Jeová... Fui encontrado...”. Disfarcei o máximo que pude, mas ele não pareceu me reconhecer.
Chegando no centro, na avenida Tocantins, desci em meu ponto. Pelo visto ele não tinha me reconhecido. Desci a avenida até a Anhanguera, para pegar o eixo. Mas algo me incomodava... Decidi olhar para trás, e eis que vejo novamente o mesmo jovem. Rapidamente ele começou a falar com a pessoa mais próxima dele, que levou um susto. Pelo canto do olho pude ver ainda ele pegando de sua pequena pastinha, uma Sentinela... “É mesmo uma testemunha de Jeová”, pensei. Mas por que estaria me seguindo, sem ao menos vir me puxar o saco? Toda testemunha de Jeová gosta de cumprimentar seus superiores...
Tudo aquilo era muito estranho para mim... E não estava disposto a ser seguido por uma testemunha. Felizmente, na esquina da Tocantins com a Araguaia, havia uma cigana, que me entregou um folheto, e me perguntou:
- Senhor, gostaria que eu lesse sua mão? Quer saber seu futuro?
Olhei para ela por um instante, e logo a respondi.
- Bem, minha senhora, eu realmente não posso. Mas vou te contar um segredo. Logo passará por aqui um jovem de terno e com uma pasta na mão. Ele está se fazendo passar por testemunha de Jeová, por que ele quer encontrar uma pessoa que consiga convencê-lo a fazer algo contra a vontade dele. Sabe, estes ricaços excêntricos inventam cada uma... Eu tentei por cerca de meia hora convencê-lo a passar o Natal lá em casa, e ele se manteve em sua posição...
Ela me olhou com uma cara de espanto.
- Mas, moço, o quê acontece se eu convencê-lo?
- Bem, aquela pasta dele está cheia de dinheiro. Alguém me disse que ele juntou o que podia dentro dela, e vai oferecer para aquele que o convencer. É por isto que ele vai negar até a morte que não é testemunha de Jeová, e não vai aceitar ser convencido do contrário...
Seus olhos arregalaram ainda mais... Deixei a mulher para trás, e entrei no pequeno terminal de ônibus. Logo, o rapaz veio atrás, mas foi abordado pela cigana.
O terminal tinha uma visão privilegiada daquela cena. A velha ficou na frente do rapaz, dizendo várias coisas. O rapaz tentava educadamente se livrar dela, e como não conseguia nada, se colocou para orar na frente dela. A velha, percebendo que sua conversa não estava surtindo resultados, segurou a mão do rapaz, que se assustou, gritando:
- MINHA SENHORA, LARGUE MINHA MÃO AGORA. EU NÃO QUERO SABER DE LEITURA DE MÃO, PREVISÃO DO FUTURO. NADA!!! ISTO É COISA DE SATANÁS, O DIABO!!!!
Vendo que não tinha jeito mesmo, a mulher começou a dizer:
- Bem, já que é assim, eu acho que vou começar então a ler suas revistas...
Então com um pulo, pegou a pasta do rapaz e saiu correndo. Logo se via uma cena de perseguição, uma velha correndo como um velocista, e o jovem quase sem fôlego, gritando:
- PEGA ESTA SENHORA, ELA ROUBOU MINHA PASTA!!!
As pessoas observavam aquela cena grotesca, enquanto comentavam:
- Puxa, ela está em forma, hein!!
Não pude ver o resto, pois o meu ônibus tinha chegado. Entrei no eixo Anhanguera, e logo achei um lugar, perto da porta. Ainda estava pensando sobre aquele fato, quando o ônibus parou no próximo ponto, onde dois jovens bem arrumados entraram pela porta que eu estava. Usavam camisa, calça social e sapato de couro.
- Então, vamos marcar uma festa para esta noitinha? – conversavam.
Droga, me encontraram novamente!!! E não vieram falar comigo... Alguma coisa estava acontecendo... Será que eles não tinham serviço de campo a cumprir não? Por quê estavam me seguindo? Quem estava mandando eles fazer aquilo? Ainda não tinha respostas para aquilo. Mas não poderia deixá-los ver que eu havia percebido que estavam me seguindo. Primeiro, por que não queria dar satisfações para ninguém de onde eu estava indo. Segundo, por que se eu os alertasse, faria com que eles tomassem mais cuidado. Eu posso descobrir depois quem estava mandando me seguir.
Fiquei refletindo sobre aquilo até chegarmos ao terminal da praça da Bíblia. Decidi descer por ali, e não fiquei surpreso de ver aqueles dois me seguirem. Saí do terminal, e atravessei a rua, na frente de um ônibus, o que obrigou os dois a esperarem do outro lado. Ruim para eles, já que comecei a correr em seguida.
Percebendo o que eu estava fazendo, eles começaram a correr também. Eu não sou um atleta, então teria que fazer algo, e rápido. Peguei meu celular e disquei 190.
- Alô, eu preciso de ajuda, por favor.
- O que aconteceu, senhor?
- Estou sendo perseguido por dois homens bem vestidos, se não me engano, acho que vi uma arma na cintura de um deles.
- Onde o senhor está? – disse o policial.
- Estou na praça da Bíblia.
Se eu fosse católico, certamente faria uma oração a santo Expedito para que os policiais aparecessem antes que eu perdesse o fôlego. Como não era, resolvi garantir minha segurança...
- O senhores virão logo? Antes de ser perseguido, aqueles dois estavam falando o quanto os policiais desta área são lerdos e bundões.
Em um minuto a viatura da polícia parou na frente dos dois jovens. Dois policiais irados saíram do carro, apontando suas armas e gritando:
- PARADOS, POLÍCIA!! PARA O CHÃO, AGORA!!
Sem saber o que estava acontecendo, os dois obedeceram. Continuei correndo até encontrar um moto-taxista. Como tinha deixado o ônibus que eu queria, pensei que fosse uma boa idéia continuar o trajeto de moto mesmo. Informei então o endereço ao motorista, e fomos. Descemos a mesma avenida pela qual eu estava subindo, tendo a oportunidade de ver um dos policiais lançando o um dos jovens no porta-malas da viatura, enquanto o outro chutava a perna do outro.
Continuando pela Anhanguera, tive que retomar o fôlego, pensando sobre o quê significava tudo aquilo. Paramos no primeiro sinaleiro, e enquanto descansava, parou ao nosso lado outro motoqueiro. Sapatos de couro, calça social, camisa... Como? Esperei o sinal abrir, e pedi para o motorista:
- Senhor, me faz um favor?
- Sim, se não for difícil...
Tirei o panfleto da cigana do bolso e entreguei para ele.
- Entrega isto para aquele motoqueiro de roupa social ali atrás... Inventa qualquer motivo...
No próximo sinaleiro, o motoqueiro parou novamente ao nosso lado. O moto-taxista então cumpriu o prometido:
- Senhor, minha mulher é vidente, e estou distribuindo os panfletos dela...
- Me desculpe, senhor, mas eu não estou interessado.
- Pode ficar com o papel, às vezes algum conhecido seu está.
Ele então colocou o papel na mão do motoqueiro engomado, que logo amassou o papel e o jogou no chão.
- O senhor está maluco? Eu disse que não queria.
Então o sinal abriu, e o moto-taxista foi embora.
- Senhor, aquele cara ali atrás está me seguindo... Por acaso o senhor consegue despistá-lo?
- Bem, eu vou então para a BR, depois te trago de volta, OK?
Você normalmente não diz a um moto-taxista para andar rápido. Seria loucura, uma perda completa da razão... Mas não havia jeito ali.
Rapidamente o moto-taxista se dirigiu para a rodovia. Tive que tomar cuidado com os retro-visores, pois ele passava muito rápido por eles... Eu poderia ficar preso em algum. Meu coração quase saiu pela boca, quando entramos na BR-153, na frente de um caminhão que estava embalado pela descida do viaduto. A moto amarela urrava, enquanto zigue-zagueava entre os carros da estrada. A esta velocidade, nosso perseguidor já estaria para trás, já que eles não costumam arriscar as próprias vidas. Olhei para trás, para me certificar, mas não gostei do que vi.
O mesmo motociclista estava atrás de nós, correndo até mais do que nós. Desesperado, virei para frente e disse:
- Senhor, ele está nos alcançando!!
Ele então acelerou o que podia, enquanto nos dirigíamos para perto do Serra Dourada. Ali, encontramos um carro ultrapassando outro. O moto-taxista, não sei por quê razão, achou melhor passar entre os dois. Enquanto isto, o testemunha de Jeová nos seguia quase na mesma velocidade. Sinceramente jamais pensei que eles corressem tanto assim...
Passando o Serra Dourada, nos deparamos com 3 caminhões desta vez, um entrando na rodovia, outro ao seu lado e o terceiro, tentando ultrapassar o segundo, mas desenvolvendo uma velocidade um pouco maior. “Me lasquei”, pensei. Torci para o moto-taxista não resolver fazer o que fez com os últimos dois carros, mas felizmente, ele foi sensato desta vez, e passou pelo acostamento. Por um tempo, esperou nosso perseguidor aparecer também pelo acostamento, então mudou para o outro lado da pista, e foi para trás de outro caminhão que estava mais adiante.
- Tive uma idéia, rápido, vista esta jaqueta.
Rapidamente me deu uma jaqueta que estava vestindo.
- Mas isto é seguro?
- Vai por mim, acho que vamos despistá-lo.
Então, tentei fazer o que ele me disse, o mais rápido possível. Não era seguro usar apenas uma mão para me prender àquela moto. Felizmente consegui vestir a jaqueta antes de nosso perseguidor nos encontrar. Neste momento, o moto-taxista acelerou, finalmente ultrapassando o caminhão, agora já em frente ao Carrefour, se direcionando ao jardim botânico. Enquanto corríamos, o moto-taxista me dizia:
- Muito bem, agora eu quero que você ligue para o número que vou te falar...
Demorou um certo tempo para nosso perseguidor perceber que éramos nós. Isto nos fez distanciar dele. Infelizmente, nossa moto tinha mais pessoas, e corria menos por isto. Então, logo ele estaria nos alcançando novamente. Passamos pelo jardim botânico, onde saímos da rodovia, e fomos em direção ao Parque das Laranjeiras. Antes de chegarmos neste bairro, viramos em uma das ruas, que em um domingo de manhã não tinha muita gente. Havia apenas um mendigo, envolvido em seus cobertores.
O perseguidor então veio com cautela, pois em sua mente, ele não havia sido percebido ainda... Dobrando a esquina daquela rua, se assustou imensamente ao ver a nossa moto vindo na direção contrária, com toda velocidade. Somente o mendigo naquela rua foi capaz de ouvi-lo ele dizendo:
- Droga!! Ele acabou de mudar de posição. Diga aos outros que ele voltou a seguir para o Parque das Laranjeiras!!
Então, acelerou sua moto, e seguiu a moto amarela, em direção ao Parque das laranjeiras. Aquela barulheira parecia ter acordado o velho mendigo, que agora se revolvia por baixo dos cobertores.
Nosso perseguidor então se manteve atrás, sempre atento à direção que o moto-taxista escolhia. Estranhamente, o moto-taxista não corria mais como antes. Não demorou muito para que chegasse ao seu destino. Qual não foi a surpresa de nosso perseguidor, quando o passageiro desceu daquela moto, e ele não era eu? A jaqueta ajudou a disfarçar bem aquela pessoa, e a pressa do nosso perseguidor não permitiu que ele visse as diferenças entre mim e aquela pessoa ali.
Na verdade, aquele não era o destino do passageiro. Nem do moto-taxista. Eles apenas pararam, pois ficaram sabendo que tudo havia corrido conforme nosso plano. Um outro moto-taxista, conhecido do primeiro, logo chegou àquela rua do mendigo. Ao vê-lo, não teve dúvidas de se aproximar e perguntar:
- É o senhor que se chama Marvin?
Finalmente pude sair debaixo daquele cobertor. Pelo menos ele serviu para seu propósito: pude finalmente confirmar algumas suspeitas minhas. A primeira é que eu estava realmente sendo seguido. Segundo, que os meus perseguidores estavam usando celulares e não rádios. Isto significa que a pessoa que gerenciava a operação estava de longe, o que lhe daria a possibilidade de deslocar a quantidade de pessoas necessária para me seguir. Eles também dificultariam para mim, tentar escutar sua conversa. Rádios costumam usar frequência aberta, e os que codificam a mensagem costumam ser mais caros. Com celulares, o perseguidor não precisaria investir recursos, e não chamaria atenção.
Subi na nova moto, não sem antes devolver a coberta àquela mulher, que aguardou escondida na outra esquina. Ela ainda me emprestou outra jaqueta, para que não corresse o risco de outro testemunha de Jeová me encontrar. Sorte minha que o primeiro moto-taxista morava por perto. Agradeci à senhora, e finalmente seguimos nosso destino.

3 de setembro de 2051, 12:00

Finalmente cheguei ao meu destino, em algum lugar de Senador Canedo. Olhei o pedaço de papel em meu bolso, para confirmar o endereço que haviam me passado. Me aproximei da porta, e toquei a campainha. Logo alguém veio me atender.
- Olá, eu queria saber se é aqui que mora Elizabete dos Santos?
A mulher sorriu, respondendo:
- Sim, sou eu mesma.
- Ah, que bom. Há muito tempo queria vir aqui, falar com você sobre um assunto um pouco delicado...
- Puxa, e o quê seria.
- Bem, seria sobre sua mãe... A dona Ana Clara...

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Ceticismo e Revelação em Santo Agostinho

por Paul Tillich:


Depois que Agostinho abandonou o grupo maniqueu, caiu no ceticismo, como em geral acontece quando nos desiludimos de algum sistema de verdades. Passamos a duvidar de todas as possibilidades da verdade. Além disso, nessa ocasião, o ceticismo estava na moda. Até mesmo na escola platônica, conhecida pelo nome de Academia, o ceticismo sobre o conhecimento expressava-se com o nome de probabilismo. Somente as declarações prováveis eram possíveis; a certeza não era possível. Todos os primeiros escritos filosóficos de Agostinho estudam o problema da certeza. Trata-se de importante elemento em seu pensamento porque pressupõe o fim negativo da filosofia grega. A heróica tentativa grega de construir um mundo baseado na razão filosófica se acabava catastroficamente no ceticismo. A tentativa de criar um mundo novo, em termos da doutrina das essências, fracassou. É a partir daí que se deve entender a nova ênfase na revelação. O ceticismo, fim da filosofia grega, foi o pressuposto negativo da maneira como o cristianismo veio a receber a idéia da revelação. O ceticismo é, em geral, a base da doutrina da revelação. As pessoas que dão ênfase na revelação, em termos mais absurdos e supernaturalistas, são precisamente as que se comprazem em ser céticas sobre todas as coisas. O ceticismo e o dogmatismo, a respeito da revelação, se correlacionam. A maneira como o cristianismo valorizou a revelação até o Renascimento, relaciona-se com o tremendo choque com que a razão ocidental experimentou o fracasso de todas as tentativas filosóficas gregas de alcançar a certeza.

(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: 2000, 2. ed., p. 121)

As crônicas de Marvin - 08

Rivais

Eu realmente me surpreendi com aquela aparição. O que o Estêvão estaria fazendo por aqui?
- Olá, Marvin. Eu recentemente consegui me transferir para Goiânia, estamos finalmente na mesma Congregação...
Olhei para ele com certa desconfiança, dizendo:
- Transferir? Como assim, por quê você se transferiu para cá?
- Ora Marvin, você não sabe mesmo? Nós tínhamos um plano, que você não cumpriu... Até o momento, eu estava confiando em você... Mas agora prefiro acompanhar tudo de perto, para não sair mais nada do rumo que nós havíamos planejado...
Não podíamos continuar aquela conversa do lado de fora. Convidei-o para entrar, convite que ele aceitou prontamente, enquanto estralava o pescoço.
- Hehe, você não mudou nada, não é? Continua caminhando como se fosse o Mr. Bean... O povo deve te achar muito esquisito, não?
- Na verdade já me disseram que eu sou um exemplo de como Jeová pode escolher até os esquisitos...
Estêvão caiu na gargalhada... Eu nem sei por que contei isto para ele, afinal, ele pegaria no meu pé por causa disto durante todo o mês. Ao entrarmos, ele já foi continuando sua conversa...
- Pois bem, resolvi viver aqui, para mantermos mais o foco de nossas atividades. Não é só você que tem o direito de se divertir, sabia? Se eu não fosse médico e estivesse disposto a te ajudar, seu plano jamais teria dado certo.
- Sim, eu sei. Mas se eu não conhecesse tanto de eletrônica, principalmente aplicada à medicina, você também não poderia ter feito nada.
- Claro. Por isto é que é importante agirmos juntos. Eu gostaria que você me apresentasse à Congregação amanhã.
- Hummmm, está bem então. Parece que não tenho muita escolha não, não é mesmo?
E não tinha. Estêvão estava mesmo querendo acompanhar minhas ações de perto. Bem, eu não tinha nada contra aquilo.
Terminamos nossa conversa, e ele se despediu. Esperei que ele se afastasse, peguei minha carteira e a mochila que estava em meu quarto e saí. Passei na farmácia primeiro, e perguntei ao atendente, mostrando uma lista:
- Eu estou precisando destes dois remédios aqui. Você os possui?
Com os remédios em mãos, me dirigi rapidamente ao supermercado. Tive o cuidado de escolher um supermercado em um bairro diferente, para não ser visto por ninguém. A moça do caixa ficou um pouco assustada quando me viu comprando 4 pacotes de papel higiênico, àquela hora da noite. Eu nem fiz muita questão disto, precisava mesmo era comprar aquilo e voltar logo para casa. Guardei minhas compras na mochila e voltei imediatamente. Felizmente não fui visto por ninguém.
Não foi muito fácil não. Primeiro, desenrolar todo aquele papel higiênico deu muito trabalho. Fiz com cuidado 4 bolas grandes de papel higiênico com os pacotes que comprei. Preparei as 2 cápsulas de plástico, que aguardavam os ingredientes finais. As boas lembranças me vieram à mente ao fazer isto. Certamente aquele tempo de escola me ajudou muito.
A madrugada estava fria e tranquila, como as madrugadas de setembro. Não havia lua aquele dia, para minha sorte, então a noite estava bem mais escura que o normal. O frio segurava qualquer alma viva em suas casas, menos um vulto negro, encapuzado. Eu era quase um ninja, se não fosse pela falta de conhecimentos em ninjutsu...
Entrei por uma das portas do salão do Reino, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Por segurança, deixei do lado de fora um aparelho que miava aleatoriamente, para o caso de algum vizinho acordar à noite.
A operação levou umas 2 horas, mas tudo foi concluído com sucesso. Finalmente poderia voltar para casa, e descansar, para as aventuras do outro dia.

2 de setembro de 2051, 14:00

Naquele dia eu tinha dormido até mais tarde. Não pude dormir além das 11, já que o Estêvão me ligou.
- Olá, Marvin...
- Nhamm... Alô, Estêvão... Por quê você está me ligando tão cedo?
- Cedo? São 11 horas!!!
- Já?
- Sim. Você não vai encontrar as irmãs para iniciar as visitas domiciliares às 14?
- Humm, é mesmo... Ei, como você sabe disto?
- Estive conversando com os anciãos. Eu gostaria de participar, estou te ligando para avisar. Vocês marcaram na porta do salão do Reino?
- Hummm, sim. Mas...
- Tudo bem, então te encontro por lá. Até mais.
- Estêvão? Alô?? Droga, ele desligou...
Três horas depois estávamos os 4 no salão do Reino. Eu fui o último a chegar. Como era de se esperar, o Estêvão já estava mantendo uma animada conversa com a Priscila, enquanto que a Amanda apenas ouvia.
- Puxa, finalmente você chegou, dorminhoco. – Dizia Estêvão, com um sorriso no rosto.
- Bem, nós marcamos às 14:00 em ponto, não foi?
- Hahaha, está certo, Marvin. Só estou pegando no seu pé. Bem, acho interessante irmos em duplas hoje, para as irmãs pegarem o jeito. Façamos assim, eu vou com a irmã Priscila, e você com a irmã Amanda.
O sem vergonha chegou ontem, e já está mandando em tudo...
- Mas por quê?
- Ora, irmão... Com a conversa que tivemos enquanto te esperávamos, eu acabei conhecendo melhor a irmã Priscila. Tenho certeza que você não terá problemas com a irmã Amanda.
Ele é muito esperto... O pior é que não posso dizer nada contra isto, poderia levantar suspeitas.
- Ah, Marvin, não faça esta cara. É por causa de feições como esta que as pessoas te acham esquisito. A irmã aqui mesmo pensava assim, não é irmã?
A Priscila me olhou com uma cara meio tímida, e respondeu hesitante:
- Hummm, foi...
- Hahahaha, pois então. Bem, então está definido. Vamos, irmã, temos muito o que fazer ainda...
Foram então os dois. A irmã Priscila ainda olhava para trás, despedindo de nós. Olhava como se quisesse ficar ainda. O que pude fazer foi apenas observar, enquanto a palavra esquisito ecoava em minha mente...
- Hummm, irmão?
De repente, me lembrei que a irmã Amanda ainda estava por ali.
- Ah, irmã... Me desculpe, nós temos que ir também, não?
- Sim...
Então fomos também. Começamos a nos dirigir à casa da irmã Ana Clara. Decidimos que ali seria um bom começo, já que nós dois a conhecíamos bem. Subíamos uma rua íngreme, quando a irmã Amanda acabou quebrando o silêncio...
- Hummm, irmão, algo está te incomodando? Seria a conversa com o irmão Estêvão, agora há pouco?
- O irmão Estêvão não sabe o que diz, irmã... Não tem nada me incomodando não...
Me lembrei do “esquisito”, e de como o Estêvão só tem curtido com minha cara desde que chegou. Aquilo ficou martelando em minha cabeça...
- Na verdade, irmã... Me incomodou um pouco o fato dele me chamar de esquisito...
- Ah, entendo...
Ela fez uma breve pausa, depois continuou...
- Humm, de certa forma irmão, acho que as pessoas pensam o mesmo de mim. E-eu geralmente não converso muito, não sou “popular”. Toda pessoa tímida acaba sendo conhecida assim...
Realmente, ela de certa forma é igual a mim.
- Isto me incomoda às vezes também... Mas então, eu chego à conclusão que não há motivos para se incomodar com isto...
- Não há? Por que?
- B-Bem, quando uma pessoa diz que você é esquisito, na verdade está dizendo que você é muito diferente dele... Isto só poderia ser levado para o lado negativo, se você considerar ele como um padrão de normalidade ou de qualidade...
De fato... O que ela me disse me fez sorrir um pouco...
- Para mim, irmão... Você não é... esquisito... Humm... Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Você sabe medir suas palavras, você sabe ser gentil, se preocupa com os outros e não se vê acima de ninguém... E-Eu acho que agora que você ocupa uma posição de tanta responsabilidade será o momento certo para todos perceberem todas estas qualidades suas, e poderão perceber o quanto estavam enganados a seu respeito...
Ninguém nunca me elogiou assim... Fiquei surpreso com tais palavras, imediatamente olhando com aquela cara de “como é que é?” para ela. Não pude deixar de reparar que ela ficou vermelha na mesma hora. Ou ela já estava vermelha?
Estávamos entrando na rua da casa da dona Ana Clara. Algumas crianças brincavam de bola na calçada, enquanto outras corriam para se esconder, provavelmente outra brincadeira.
“Perceber que estavam enganados”? É difícil mudar pessoas. Eu nunca consegui mudar ninguém. As lembranças de minhas tentativas tornaram a me entristecer...
- Irmã, acho difícil mudarem as opiniões que eles possuem sobre mim. Você não acha difícil mudar as pessoas? Já muitas vezes quis mudar o mundo, em vão...
Por um instante ela ficou calada, pensando, com uma carinha de tristeza também.
- Eu sei... Mas se você quer mudar o mundo, você começar com você mesmo. O mundo é muito grande, e cada pessoa nele tem suas próprias vontades, seus próprios planos. Eventualmente, você encontrará alguém que não quer ser mudado, ou talvez pior, alguém que quer te mudar, por que também quer mudar o mundo. Planos de mudar o mundo geralmente falham no momento que são idealizados...
Depois de uma curta pausa, ela completou:
- Não há angústia maior em não conseguir mudar aqueles que você mais ama...
- Irmã?
- Por muito tempo eu quis que meu pai mudasse... Que ele parasse de beber, e que pudesse se dedicar mais à nossa família... Mas ele gosta de beber, e ignora tudo que nós dizemos para ele... Nós é que somos idiotas, por não beber. Infelizmente ele só vai mudar, quando algo muito grave acontecer, e ele perceber que aquilo que ele está fazendo o vai levar para o fundo do poço...
Interrompemos o assunto, e finalmente paramos. Chegávamos à casa da irmã Ana Clara.

2 de setembro de 2051, 19:00

Era chegada a reunião... Hora de deixar um pouco os pensamentos tristes gerados durante a tarde, e me concentrar em coisas mais alegres.
Quando cheguei no salão do Reino, havia alguns irmãos já tomando água. Já tinha avisado ao Estêvão que a água poderia não ser boa naquele dia, mensagem que ele entendeu imediatamente. Não perdi tempo, fui até a irmã Amanda, e lhe dei uma garrafinha de água mineral.
- Irmã, é para não perder muito tempo indo beber água.
- Ah, obrigado, irmão.
Então fui até a irmã Priscila, e fiz o mesmo.
- Irmã, esta aqui é para que você não perca muito tempo indo beber água.
- Puxa, muito obrigado, irmão... Ei, irmão, eu queria te dizer uma coisa...
- Hum, sim? O que é?
- Bem, eu gostaria de te pedir desculpas por hoje à tarde. Na verdade, eu preferia ter ido com vocês... Gosto do irmão Estêvão, mas eu prefiro você...
- Oh, puxa, nem sei o que dizer...
- Bem, se tiver alguma coisa para dizer, só não o diga para o irmão Estêvão, hahahaha...
Então iniciei a reunião, chamando a todos:
- Irmãos, gostaria de anunciar algo muito importante hoje, então prestemos mais que a devida atenção. Eis que nosso irmão Estêvão, que compartilha comigo a responsabilidade de ser uma das testemunhas do Apocalipse, se mudou para esta congregação. A partir de hoje, estaremos agindo juntos aqui.
Todos se espantaram com tal declaração. Agora, aquela congregação pequena possuía duas figuras de alta importância. Pedi então que todos mudassem de posição, finalmente começando a reunião. A música de abertura foi linda, a letra era mais ou menos assim:

Eu te louvarei
Enquanto eu viver
Meu louvor estará para sempre
Em meu coração – meu coração
Levantarei minhas mãos
Enquanto eu louvar
Para não mais pecar contra ti
Me consagrarei

Faz-me um vaso
Faz-me feliz
Meu prazer, meu prazer
È cumprir, é cumprir
O que diz.


Houve até quem ensaiou uma dança, mas nada digno da Broadway ainda. Tudo em clima de alegria. Logo o discurso público começou. E tudo que eu tinha que fazer é esperar. No mínimo, uns 40 minutos, foi o que me disseram.
Bem, era um discurso sobre o fim do atual sistema de coisas, algo que estava se tornando corriqueiro, principalmente depois das nomeações minha e do Estêvão.
- O fim está muito perto, irmãos... – dizia o palestrante.
Enquanto isto, eu prestava atenção aos irmãos... Depois de uns 50 minutos, quase no final do discurso, um dos irmãos levanta-se correndo e vai até o banheiro, se trancando por lá. ‘Beleza, já começou’, pensei. Logo outros irmãos começaram a ir ao banheiro e formar duas filas por ali, uma no banheiro masculino e outra no feminino. A coisa começou a esquentar quando o irmão que estava lá dentro abriu a porta e cochichou algo para o primeiro da fila. Logo o irmão Marcos estava lá na porta, querendo saber o que havia acontecido. Todos na congregação se assustaram, quando aos berros, o irmão dizia:
- PUTA QUE PARIU, IRMÃO!!! EU VOU TER QUE LAVAR ESTE BANHEIRO AMANHÃ, DE TERNO, E COM UMA ESCOVA DE DENTES!!!!!!!
Ele abriu a porta e entrou de uma vez, para acabar escorregando na água e caindo de bunda no chão. O vaso estava entupido!! Não sei se foi mais engraçado o fato dele cair, ou o fato de algo ficar carimbado nas calças dele.
O irmão Jonas então correu lá para ver o que estava acontecendo... O pessoal da fila estava se contorcendo, enquanto o irmão desesperado só colocava a cara pra fora, tentando acalmar todo mundo. Só pra por moral, eu me levantei e disse:
- Irmão, olha o palavreado. Evitemos hábitos impuros.
Ele não me escutou... Estava tão preocupado com o que estava acontecendo dentro do banheiro que não me deu ouvidos... Logo o resultado no banheiro das mulheres pôde ser visto, então os dois anciãos ficaram mais desesperados. Quem estava fora ou estava se borrando, já que o purgante que eu coloquei na água era realmente forte, ou estava correndo para casa, pedindo desculpas para todos por sair mais cedo. Depois eu ouvi dizer que mais da metade deles não conseguiu chegar em casa a tempo. Nem era preciso dizer que eu tinha conseguido interromper a reunião, não é?
Logo, a tarefa de tentar desentupir os vasos começou. Um ancião em cada banheiro tentava fazer o possível para deixá-los pelo menos utilizaveis. ‘É agora’, pensei. Peguei meu celular, e através de um programa que fiz para ele, enviei o comando para as duas cápsulas que coloquei lá dentro.
“Bummmmmmmm”... Foi o barulho que saiu, e que assustou todos os irmãos... O Marcos já saiu de lá xingando:
- Mas que... MERRRRRRRRRDA!!!!
Muita merda, irmão. A explosão foi nostálgica... Bons tempos aqueles quando eu fazia isto na escola técnica... Eles nunca me descobriram naquele tempo, pois eu tinha aperfeiçoado minhas técnicas. E assim como naquela época, eu conseguia sujar bastante o banheiro, desde o chão até o teto. Bastava entupir o vaso com uma parede de papel higiênico, colocar a cápsula lá dentro, e depois colocar a segunda parede de papel. Com meu comando, as cápsulas imediatamente liberaram o seu conteúdo na água, que através de uma reação, começam a efervecer... Assim, a pressão entre as duas paredes de papel higiênico aumenta bastante, a ponto de forçar as duas paredes, uma para cada lado. Tem que se ter muitos anos de experiência para causar a explosão, sem destruir o vaso, como alguns diziam que acontecia.
- O diabo é muito sujo! - Falou um dos irmãos.
- É, e ele está usando nosso banheiro. – completei com ironia...
Enquanto o Estêvão saia para rir (ele tinha acabado de descobrir o significado de humor escatológico), eu cancelava a reunião daquele dia. Que pena, não conseguimos estudar a Sentinela naquele dia... E os anciãos ficaram um bom tempo para limpar o banheiro no domingo, com suas escovas de dentes...

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

A fé cura


“Não temas, crê somente.”
(Marcos 5:36)



Marcos 5:21-43 apresenta-nos duas mulheres doentes: uma menina de doze anos e uma mulher adulta, doente há doze anos.

A filha de Jairo está à morte. O pai vem ao encontro de Jesus, clamando por sua vida. Pergunto: tomando a menina como símbolo da nossa alma, conseguimos sentir quando nossa “criança interior” adoece? Temos um “lado pai” que cuida do nosso interior, que vai em busca da vida abundante em Cristo?

Dessa vez Jesus não faz um milagre à distância. Vai até a casa da menina. A restauração da alma ferida é um processo a realizar na intimidade, no “quarto-interior”.

No caminho, é tocado por uma mulher doente. Algo se esvai nessa mulher – perde sangue e recursos há doze anos. Segundo a lei da época, está impura, proibida de ter vida afetiva. Está sem abraços, marginalizada.

Talvez também estejamos assim na nossa adultez – fizemos tudo que sabíamos, gastamos toda a nossa sabedoria, nosso dinheiro, nossa educação, mas nada estancou a dor da alma. Será que nos arriscamos, como essa mulher, a quebrar os tabus e expor nossa dor? Jesus identifica e abençoa essa mulher que ousa. Bela combinação de atividade de Jesus e atividade humana na busca da cura.

Então chegam os pessimistas de plantão para anunciar que a menina já morreu. Também conhecemos o que em nós diz: “não adianta mais, já morreu”. E Jesus responde, encorajando: “não tenhas medo, somente fé”. Novamente, este é o requisito: fé.

O Evangelho relata como Jesus, acompanhado de poucos, chega à casa de Jairo, retira os pranteadores e, num ambiente de calma e intimidade, cuida da menina. Para tratar nossa criança interior, precisamos escolher apenas o essencial. E o toque restaurador de Jesus Cristo curará o que está ferido e moribundo dentro de nós.

(“Devocionais para Todas as Estações”, Ed. Ultimato, meditação de 28 de janeiro)

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

As crônicas de Marvin - 07

Auto-destruição

A congregação estava inquieta. A simples menção de pessoas suspeitas na congregação era motivo de preocupação. Acostumados a acreditar que não fazem parte do mundo, eles nunca pararam para pensar que no fundo são imperfeitos. Qualquer um ali poderia cair agora. Este era o motivo de tanto alarde. Resolvi então tomar uma atitude. Fui até a frente, e avisei:
- Irmãos, com a autoridade concedida a mim, tenho o dever de organizar tudo isto. Façamos o seguinte: se alguém conhecer pessoas que apresentaram o comportamento descrito na carta, me enviem, ou me telefonem. No dia primeiro nos reuniremos à noite para decidirmos algumas coisas, e falarmos sobre este tema.
Pronto. Agora eles teriam tempo para listar todos os que eles conheciam e que apresentaram tais dúvidas.
Naquela mesma noite recebi uma ligação. Eu havia acabado de chegar em casa, e me preparava para dormir, quando o telefone tocou.
- Alô.
- Marvin, aqui é o Estêvão. Por acaso você perdeu o juízo?
- Olá, irmão. Como vai você, como tem passado?
- Deixa disto. Eu quero saber por que você está usando nossa “arma final”. Você não deveria usá-la até nós aproveitarmos um pouco nosso tempo como manda-chuvas. O que houve?
- Estêvão, eu simplesmente perdi a minha paciência. Não poderia ver pessoas sofrendo por causa daqueles lunáticos mais... Eu tinha que fazer alguma coisa...
Estêvão estava nervoso com a situação, e não sem motivos. Ele estava adorando ser bajulado pelos seus irmãos de fé. Ele não ligava muito para questões morais não, na verdade ele achava aquilo mais do que justo pelo que ele teve que passar, depois de perder a irmã.
Nosso plano era perfeito. Dividimos ele em duas partes. Primeiro, pretendíamos colocar todas as testemunhas de Jeová como pessoas que defendiam qualquer coisa que fosse pregada pela Torre de Vigia, mesmo que fosse ridículo ou que fosse contraditório aos ensinos anteriores. A verdade é que nossa experiência havia levantado uma pergunta muito séria: Se considerarmos a Torre como a única referência da Verdade®, como distinguir se ela ainda se mantém na Verdade® ou não? Nós estávamos controlando o Corpo Governante, de forma a inserir as doutrinas que queríamos, e ninguém falava nada... Queríamos mostrar também que eles nunca checavam as fontes passadas pela Torre, ou suas declarações. Este seria um prato cheio para todos os grupos de ex-testemunhas existentes, pois daria mais e mais material para que eles construíssem uma resposta efetiva contra a Torre. Assim, estaríamos fortalecendo estes grupos, quase patrocinando eles. Todo mundo sabe que o pior inimigo da Torre é ela mesma. Ela tem um grande histórico de mudanças doutrinais, que já era bem explorado pelos grupos dissidentes. Só precisávamos deixar estas mudanças mais aparentes, destacando os erros que antigamente eram muito sutis para que uma testemunha normal pudesse perceber.
Mas isto não era suficiente. As testemunhas de Jeová já existiam há pelo menos 150 anos e uma coisa já havia ficado bem claro: simplesmente mostrar contradições não faria ninguém cair em si, e se voltar contra a Torre de Vigia. Muita gente já havia tentado isto durante estes anos, e os resultados não foram muito significativos. Isto porque a Torre se aproveita de conceitos que as pessoas geralmente possuem, para construir um raciocínio bem sólido entre seus fiéis. Um bom exemplo é usar o conceito de que todo mundo na igreja deve ser um santo, livre de qualquer defeito. Com base neste conceito, eles constroem uma definição de santidade que somente eles seguem, uma definição feita sob encomenda. Para provar que a definição está errada, você teria que primeiro se enquadrar nela, para se tornar uma pessoa confiável. Depois você teria que demonstrar seus argumentos contra esta definição, mas aí você seria contraditório, por ter adotado o padrão de santidade que tenta destruir. Até hoje, somente uma coisa conseguiu quebrar este raciocínio circular de forma eficaz: a desilusão.
É difícil encontrar uma ex-testemunha que deixou de ser testemunha por que resolveu estudar a Bíblia e descobriu as contradições doutrinárias da Torre. Sempre o “gatilho” para que a pessoa resolva estudar realmente suas doutrinas foi alguma desilusão com a Torre, ou com seus adeptos. Pessoas que foram proibídas de amar alguém de fora da Torre ficaram desiludidas com a atitude segregária da Torre. Pessoas que foram humilhadas por outras testemunhas ficaram desiludidas com tal atitude vinda de irmãos “santos”. Pessoas que perderam parentes ficaram desiludidas com as decisões malucas da Torre. Tudo foi desilusão. A desilusão é um sentimento muito poderoso, capaz de colocar as mentes mais acomodadas para trabalhar, embora não se saiba qual o resultado final de uma desilusão. E aí entra a segunda parte de nosso plano: causar uma desilusão coletiva nas testemunhas mais sinceras.
De fato, não criamos nada que já não existisse entre as testemunhas de Jeová. Ali dentro sempre há os grupinhos de testemunhas, sempre há aqueles que não se dão bem com alguém, aqueles que no fundo se acham mais conhecedores da Bíblia... E estes estão sempre buscando nas regras da Torre, algo para diminuir o papel de seus “rivais”. Traição seria algo a se lembrar aqui. Sempre havia aqueles que estavam prontos a trair suas amizades, esperando apenas uma justificativa moral para isto. Todo mundo espera justificativas morais para cometer os atos mais insanos. Afinal de contas, foi Deus quem declarou que o mundo era pecador. Nada mais justo (na visão deles) que Deus abrisse alguma exceção para eles, talvez por que em suas mentes insanas, eles achassem que eram mais santos do que os outros. Assim houve guerras e assassinatos, roubos, inveja, egoísmo, discriminação... Tudo permitido por um deus criado por eles mesmos... Então tudo o que fizemos foi criar uma regra clara que resultasse em desassociação rápida, permitindo que eles justificassem moralmente a traição. Foi o perfeccionismo que os levou à Torre, o mesmo perfeccionismo faria eles se excluírem. Todo mundo tentou destruir a Torre de fora, mas é muito mais simples destruí-la por dentro... Fizemos seus próprios membros se desassociarem.
Certamente os mais sinceros serão os primeiros desassociados. Eles possuem a sinceridade suficiente para confessar que possuem dúvidas. E os que não confessam dúvida nenhuma são aqueles que se consideram mais evoluídos espiritualmente. Escolhemos então o tema mais polêmico entre as testemunhas de Jeová, e lançamos um artigo muito ambíguo, que causasse dúvidas em todos. Deixaríamos então as dúvidas se firmarem, então lançaríamos a carta que tornasse estas dúvidas motivos de desassociação.
Então, testemunhas sinceras seriam desassociadas por sua sinceridade, sinceridade sobre um tema polêmico entre as testemunhas. Não seria muito difícil nestas condições ver como seus irmãos são pessoas em quem não se pode confiar, pessoas que estão sempre dispostas a mostrar sua santidade, até mesmo às custas dos outros. Eles verão a injustiça e a injustiça produzirá neles a desilusão. Desiludidos, eles finalmente estarão em condição de analisar os argumentos contrários à Torre sem pensamentos pré-concebidos. E aí, eles encontrarão todas as ex-testemunhas e seus argumentos enriquecidos pela nossa primeira parte do plano.
- Marvin, eu sei que eles são uns canalhas... Mas não podemos nos apavorar. Você mesmo que elaborou todo o plano, você deveria segui-lo mais à risca.
- Eu sei. Mas não pude me conter mais. Agora, o que está feito, está feito. Não há mais volta, Estêvão... Nós queríamos acabar com a Torre de uma vez por todas, e vamos fazer isto. Acho que qualquer plano de vingança só poderá ser bem-sucedido, se conseguirmos isto. Não podemos mais enrolar, temos que acabar logo com isto... Vidas humanas estão em jogo. Pense em sua irmã, e pense que muitas pessoas estão passando pelo mesmo que ela agora.
De certa forma, consegui fazer Estêvão se contentar com o que estava acontecendo. Era difícil para ele, ele estava gostando muito de ser o centro das atenções. Mas nosso plano deveria continuar. E se demorássemos muito, o efeito do artigo sobre o Mediador passaria. Era aquela a hora certa, apesar de tudo.

1 de setembro de 2051, 19:00

Estávamos novamente reunídos no Salão do Reino. Eu me sentia mais malvado que o próprio the Punisher, e estava preparado para usar todo o poder que consegui nos últimos meses.
A maioria dos irmãos estava sentada em seus lugares, somente alguns conversavam em pé, espalhados pelo salão. Minha chegada causou olhares desconfiados, como vítimas olhando para seu carrasco.
Peguei uma cadeira, e me sentei na frente, pedindo para todos se sentarem também. Então fiz o anúncio:
- Irmãs e irmãos, como todos vocês sabem, estamos nos aproximando do dia de Jeová, e estamos passando por tempos complicados. Estive por algum tempo observando a congregação, e avaliando a capacidade de orientação dos anciãos. Como todos sabem, nos primeiros dias muitos me procuraram para ser orientados, mas tive que redirecioná-los para os anciãos. Agora todos podem saber que eu estava os avaliando como anciãos.
Todos se entreolharam, assustados.
- Bem, irmãos, estou com a lista de pessoas que apresentaram comportamento suspeito. Estes nomes foram obtidos através de conversas com os irmãos, pessoalmente ou por telefone. E a lista é preocupante, o que reflete bastante a atitude de nossos anciãos. Afinal de contas, todos os irmãos foram denunciados aqui. Inclusive a irmã Mariana...
Uma voz assustada falou lá no fundo:
- Mas a Marianinha só tem 4 anos....
Eu também me assustei ao ver isto. Como disse antes, eu pensava que somente os mais sinceros seriam atacados... Mas me enganei. Na verdade, o que aconteceu é que os irmãos se aproveitaram do fato que não foi mencionado em momento algum, a exigência de provas para a denúncia. Eu mesmo não tinha me dado conta disto, a Torre geralmente não pede provas concretas. Ela simplesmente acredita. Como as investigações da Inteligência da Torre de Vigia eram conduzidas em segredo, ficava muito mais simples deixar a pessoa como culpada ou inocente, baseando-se apenas em simpatia. Provas só atrapalham nestes casos.
- Isto mesmo, até ela. É por isto que há muito para se fazer aqui. Não vou tomar as devidas atitudes ainda, prefiro trabalhar um pouco com vocês, para melhorar a situação por aqui. Em primeiro lugar, gostaria de falar ao irmão Marcos, que com muito pesar, terei que tratar de sua falta de humildade. Irmão, graças a esta falta de humildade, os irmãos viveram até o momento em dúvidas e sem direção. Por isto, você vai receber tarefas consideradas mais degradantes, para aprender o verdadeiro significado da humildade.
O irmão Marcos prontamente me respondeu:
- Degradantes?
- Sim. Você vai limpar a congregação. Quero ver os banheiros tinindo.
- Mas irmão...
- Não discuta comigo, eu sei o que é melhor para minhas ovelhas.
Ele baixou a cabeça...
- Ah, não se esqueça, você tem a obrigação de vir à congregação vestindo suas melhores roupas. Não pagamos mais o dízimo, mas devemos dedicar sempre a melhor parte a Jeová.
- O que você quer dizer com isto?
- Venha trabalhar aqui com seu terno.
- Mas onde já se viu fazer limpeza com terno?
- Deixe-me ver se entendi bem, irmão... Você está querendo definir nossos costumes segundo os hábitos do mundo?
- Eh... mas... Hummm....
- Não é por que as pessoas do mundo fazem a limpeza de suas casas e trabalhos com as piores roupas, que você fará o mesmo. Você tem que dar o exemplo. Mais uma coisa, venha aqui e pegue uma...
Tirei de minha pasta uma caixinha, e a abri. O irmão Marcos veio a meu encontro, e olhou com uma cara atônita. Estendeu a mão, e tirou de lá uma escova de dentes.
- Uma escova de dentes? Por quê?
- Você vai usar esta escova para fazer a limpeza da Congregação. Eu quero muita dedicação sua nesta tarefa.
Ele olhou assustado para a escova, e deu uma boa olhada para o Salão, medindo a área das paredes e do chão... É isto iria demorar muito. Enquanto isto, o irmão Jonas segurava-se para não rir.
- Irmão Jonas... A outra escova é sua.
Ele deu um salto da cadeira, e engoliu o riso.
- Eu??
- Sim, você. Você também é ancião aqui, e o tamanho desta lista também é culpa sua... Além do mais, eu sei que você tem alguns problemas de relacionamento com o irmão Marcos... Um pouco de trabalho em equipe irá aproximar os dois.
Certamente aproximou. Os dois agora me odiavam.
Enquanto o irmão Jonas pegava sua escova, continuei:
- Bem, tenho visto também que alguns jovens correm o risco de ir para o caminho do mundanismo. É por isto que eu resolvi tomar algumas medidas mais severas. Por favor, me entendam, é para o próprio bem de vocês. Pois bem, o caso mais sério é o do irmão Sérgio. Gostaria que ele desempenhasse um papel especial dentro da Congregação, que o fará se sentir mais próximo de Jeová.
Ele arregalou os olhos para mim.
- Bem, acho que não é o momento para ele se casar agora, pois ele tem muito o que dedicar a Jeová. Eu gostaria que ele, como filho de um dos anciãos, prestasse o serviço de cuidar de nossas viúvas e idosas, pois como Tiago mesmo diz, a verdadeira religião faz isto. Por isto, gostaria que ele evitasse namoros por este período, para ter mais tempo para a tarefa, como Paulo mesmo orientou.
Todos ficaram surpresos com a decisão. O Sérgio logo exclamou:
- O quê!?!?
Ficaram todos calados. Quem quebrou o silêncio foi a irmã Solange, a mais provável candidata à esposa do Sérgio:
- Mas isto não é justo!
Todos olharam para ela, certamente concordando com ela... Podia-se perceber o olhar triste das outras irmãs que faziam parte do fã-clube não oficial do Sérgio. De repente, o silêncio foi novamente quebrado, desta vez pelo irmão Júlio:
- Droga, isto é uma sacanagem!!
Imediatamente todos olharam para o Júlio com aquela cara assustada, como se dissesse “como assim?”. Até eu fiquei sem palavras... Ele percebeu a besteira que fez, enquanto olhava para todo mundo pensando no que iria falar.
- Ehrr, quer dizer... Bem, eu na verdade... Tipo, isto pode acontecer comigo também, não é? Eu tenho que falar algo antes que aconteça...
Percebi nesta hora que uns três afastaram um pouco suas cadeiras dele. A situação estava ficando meio estranha, então resolvi retomar o assunto antes que ficasse pior.
- Ehrr, irmãos, voltando ao assunto, como nossos dois anciãos estarão ocupados com as tarefas propostas aqui, resolvi anunciar outro ancião para ser o responsável por nossa congregação, durante este tempo.
Todos voltaram sua atenção novamente para mim... Consegui o que queria.
- Bem, devido a seu histórico como um irmão zeloso, gostaria de chamar o irmão Benedito para esta posição.
Todos ficaram sem entender mais nada... A conversa paralela foi inevitável, até que um irmão mais corajoso resolveu perguntar:
- Mas irmão, o irmão Benedito é surdo-mudo...
- Sábia observação, irmão! – Respondi com um sorriso...
- Mas ninguém aqui sabe a linguagem de sinais... Só o irmão Tiago, que ministrou seus estudos... E ele nem é tão bom assim...
- Oh, muito bem. Então eu acho que vocês terão uma grande oportunidade de aprendê-la aqui, não? Além do mais, o nome dele está na lista também, como é que vocês não entendem a linguagem de sinais, e dizem que ele apresentou aquelas dúvidas apresentadas na carta do Escravo?
Eu pelo menos já sabia que o nome do irmão Benedito estava ali naquela lista por que ele era muito próximo do irmão Jonas.
- Mas nem tudo que vim falar aqui hoje são críticas, irmãos... Tenho realmente muito apreço pela fé que algumas irmãs tem demonstrado, por isto, gostaria de destacá-las, dando uma melhor participação na congregação. É por isto que eu estou pedindo para a irmã Rosa fazer nossas leituras durante as Reuniões.
Todos estranharam a decisão, principalmente o irmão Osvaldo:
- Mas irmão, não nos é dito para que as mulheres fiquem caladas durante as reuniões?
- Irmão, seja qual for a interpretação daqueles versículos, isto nunca impediu que as irmãs respondessem as perguntas feitas na hora do estudo. Portanto, recomendo que estude melhor a passagem, para entender o que ela realmente quer dizer.
O irmão Osvaldo ficou envergonhado e acenou com a cabeça, consentindo com minha recomendação. Eu sei que fazer a leitura nas reuniões não é algo muito grandioso, mas já é o começo. Eu sinceramente nunca achei que as mulheres estavam ali apenas para aumentar os números nas estatísticas da Torre.
- É por isto também, que quero nomear duas mulheres para monitorar o trabalho de todos aqui, e me fazer um relatório sobre isto. Elas também poderão transmitir quaisquer instruções adicionais minhas que eu elaborar posteriormente. Primeiro gostaria de chamar a irmã Priscila...
Já estava olhando para ela quando ela sorriu. Tentei disfarçar qualquer tipo de sentimento comprometedor, e fiquei o mais frio possível. Eu havia escolhido ela, por que gostava da companhia dela, de sua alegria... Não me levem a mal... Está bem, ela é bonita, por isto escolhi ela. Seus cabelos cacheados e loiros eram muito bonitos...
Nem ia escolher outra pessoa, mas me lembrei que havia alguém que merecia algum reconhecimento... Alguém que como eu foi ignorado, mas que o episódio com a irmã Ana Clara me fez ver que era uma grande pessoa, preocupada com aquelas pessoas mais necessitadas.
- A outra irmã que gostaria de convidar é a irmã Amanda.
Ela estava com uma cara bem depressiva quando a chamei. De certa forma, eu consegui vê-la sorrir com aquele convite. Espero conseguir fazer algo por ela, já que ela fazia tanto pelos outros... Seus olhos verdes brilhavam agora, com o convite, enquanto ela me olhava, um pouco envergonhada.
- Gostaria de passar para as duas as intruções necessárias depois desta nossa reunião. Acho que por enquanto é só. Peço que os irmãos, em minha falta, comuniquem-se com uma das duas irmãs, que elas me repassarão os problemas. Infelizmente sou apenas um, por isto preciso de ajuda. Estão todos dispensados.
Todos se levantaram, talvez imaginando se aquilo era um pesadelo. Eu não tinha pensado ainda nas várias formas de tortura psicológica que eu poderia fazer. Há muito tempo que eu queria imitar meu personagem de filme brasileiro preferido e dizer “Pede pra sair, pede pra sair”, “Você é um fanfarrão”, e coisas do gênero. Claro, eu teria que adaptar para a linguagem tejotina, algo do tipo “Pede pra voltar (pro mundo), pede pra voltar (pro mundo)”, “Você faz parte do mundo”... Acho que está chegando a hora...
As duas moças estavam em minha frente, então. A Priscila, alegre como nunca. A Amanda, tímida como sempre.
- Ei, Amanda não fique tão tímida. Agora fomos escolhidas para fazer algo importante! – dizia a Priscila.
- Hummm, eu sei, desculpa...
- Bem, senhoritas, o que vou passar para vocês é bem simples. Aqui está meu telefone, me liguem em qualquer emergência. Vamos organizar visitas domiciliares. O importante é identificar os problemas existentes na família que vocês visitarem. Vamos fazer uma lista das famílias aqui na congregação, e dividí-las em três. Cada um visitará uma família, e buscará seus problemas...
Assim, discutimos todos os detalhes sobre aquela vistoria... Enquanto isto, corria a notícia de que pelo menos 40% das testemunhas de Jeová já haviam sido desassociadas por todo o mundo. Um bom número, mas que não foi maior por causa do receio das pessoas. Bom sinal, isto significa que eles não estavam tão dispostos a trair uns aos outros como eu pensava. Quanto à minha congregação, vou dar um choque neles primeiro, antes de permitir as desassociações.
Bem, voltei tranquilamente para casa. Tinha descarregado um pouco da minha raiva nos outros. Foi até legal.
Chegando em minha casa, avistei uma figura parada em meu portão. Seria um ladrão? Me aproximei, e no entanto, percebi que era uma pessoa bem conhecida...- Estêvão, o que você está fazendo por aqui?

Através de tudo

Daniel 3:8-30

“Foi nessa hora que alguns astrólogos aproveitaram a ocasião para acusar os judeus. Eles disseram ao rei Nabucodonosor:
- Que o rei viva para sempre! O senhor deu a seguinte ordem: “Quando ouvirem o som dos instrumentos musicais, todos se ajoelharão e adorarão a estátua de ouro. Quem desobedecer a essa ordem será jogado numa fornalha acesa.” Ora , o senhor pôs como administradores da província da Babilônia alguns judeus. Esses judeus – Sadraque, Mesaque e Abede-Nego – não respeitam o senhor, não prestam culto ao deus do senhor, nem adoram a estátua de ouro que o senhor mandou fazer.
Ao ouvir isso, Nabucodonosor ficou furioso e mandou chamar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Eles foram levados para o lugar onde o rei estava, e ele lhes disse:
- É verdade que vocês não prestam culto ao meu deus, nem adoram a estátua de ouro que eu mandei fazer? Pois bem! Será que agora vocês estão dispostos a se ajoelhar e adorar a estátua, logo que os instrumentos musicais começarem a tocar? Se não, vocês serão jogados na mesma hora numa fornalha acesa. E quem é o deus que os poderá salvar?
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam assim:
- Ó rei, nós não vamos nos defender. Pois, se o nosso Deus, a quem adoramos, quiser, ele poderá nos salvar da fornalha e nos livrar do seu poder, ó rei. E mesmo que o nosso Deus não nos salve, o senhor pode ficar sabendo que não prestaremos culto ao seu deus, nem adoraremos a estátua de ouro que o senhor mandou fazer.
Ao ouvir isso, Nabucodonosor ficou furioso com os três jovens e, vermelho de raiva, mandou que se esquentasse a fornalha sete vezes mais do que de costume. Depois, mandou que os seus soldados mais fortes amarrassem Sadraque, Mesaque e Abede-Nego e os jogassem na fornalha. A ordem do rei tinha sido cumprida, e a fornalha estava mais quente do que nunca; por isso, as labaredas mataram os soldados que jogaram os três jovens lá dentro. E, amarrados, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego caíram na fornalha.
De repente, Nabucodonosor se levantou e perguntou, muito espantado, aos seus conselheiros:
- Não foram três os homens que amarramos e jogamos na fornalha?
- Sim, senhor! – responderam eles.
- Como é, então, que estou vendo quatro homens andando soltos na fornalha? – perguntou o rei. – Eles estão passeando lá dentro, sem sofrerem nada. E o quarto homem parece um anjo.
Aí o rei chegou perto da porta da fornalha e gritou:
- Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saiam daí e venham cá!
Os três saíram da fornalha, e todas as autoridades que estavam ali chegaram perto deles e viram que o fogo não havia feito nenhum mal a eles. As labaredas não tinham chamuscado nem um cabelo da sua cabeça, as suas roupas não estavam queimadas, e eles não estavam com cheiro de fumaça. O rei gritou:
- Que o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja louvado! Ele enviou o seu Anjo e salvou os seus servos, que confiam nele. Eles não cumpriram a minha ordem; pelo contrário, escolheram morrer em vez de se ajoelhar e adorar um deus que não era o deles. Por isso, ordeno que qualquer pessoa, seja qual for a sua raça, nação ou língua, que insultar o nome do Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja cortada em pedaços e que a sua casa seja completamente arrasada. Pois não há outro Deus que possa salvar como este.
Então o rei Nabucodonosor colocou os três em cargos ainda mais importantes na província da Babilônia.”

Versículo-chave:

- Ó rei, nós não vamos nos defender. Pois, se o nosso Deus, a quem adoramos, quiser, ele poderá nos salvar da fornalha e nos livrar do seu poder, ó rei. E mesmo que o nosso Deus não nos salve, o senhor pode ficar sabendo que não prestaremos culto ao seu deus, nem adoraremos a estátua de ouro que o senhor mandou fazer.
(Daniel 3:17-18)

Meditação:

Duas palavras apenas, mas que nos dão a fé para passarmos pelas fornalhas da vida: “Se não”. A fé que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego tinham firmava-se profundamente na soberania de Deus sobre toda a criação e em seu cuidado para com seu povo na Babilônia. Mas se Deus não decidisse tirá-los da fornalha, ainda assim não adorariam o bezerro de ouro de Nabucodonosor. A história do que aconteceu a Daniel e a seus amigos é uma fonte de ânimo e confiança para nós hoje. Jamais ficamos a sós em nossas fornalhas. O Senhor está conosco quando as chamas das dificuldades e provações nos envolvem. Ele está pronto a unir-se a nós no calor da vida, se pudermos dizer: “Se Deus pode ajudar-me nesta situação, ele me ajudará. Mas ainda que ele decida não intervir da maneira que eu gostaria, não desistirei, pois estou vivo para sempre. Nada nesta vida pode separar-me do seu amor.”
Esse tipo de submissão da dor e dos problemas da vida solidifica a crença de que jamais estamos sozinhos. As palavras que trouxeram o quarto homem, libertarão o seu poder hoje. Há um maravilhoso encontro de poder e paz sempre que sabemos com certeza que fornalha alguma ficará sem o Senhor, e que nada pode destruir nosso relacionamento com ele. Podemos ter o gozo do Senhor se possuirmos uma qualidade de fé que prossegue a despeito de tudo. Nossa esperança não se baseia no conseguir que Deus faça o que queremos, mas em desejar a ele, a despeito de como os eventos se resolvem.

Pensamento do dia:

“Através de tudo, através de tudo, aprendi a confiar em Deus” (André Crouch).

(“O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Lloyd John Ogilvie, Ed. Vida, meditação de 08 de dezembro)

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

As crônicas de Marvin - 06

Prelúdio de uma “caça às bruxas”

Foi desta forma que passei de vingador a conselheiro das testemunhas de Jeová. Assim foram os dias que se seguiram à minha auto-escolha como uma espécie de profeta.
Eu poderia simplesmente me negar a aconselhar qualquer pessoa. Agora eu tinha autoridade para isto. Agora todos queriam saber o que eu pensava. E eu não precisava mais da atenção deles. Eu precisava da atenção das pessoas quando me encontrava sozinho antigamente, procurando alguém para conversar. Alguém que eu pudesse chamar de amigo. Agora que eu havia me acostumado, não me importava mais com eles.
Mas não poderia fazer algo muito drástico, para não chamar muito a atenção. Uma coisa que tive em mente ao planejar minha vingança era de introduzir sempre mudanças sutis. Esta era a forma de agir da Torre, e ela provou na prática que era uma tática boa para manter adeptos. Eu queria mostrar ao máximo de pessoas possível, como eles estavam sendo enganados. Para isto, eu teria que ficar o maior tempo possível na liderança.
Por isto, a primeira coisa que eu fiz foi elaborar um discurso para fortalecer o papel dos anciãos. Eles já se dispuseram com toda a alegria do mundo para fazer este papel mesmo. Tive que lembrar que aquele era o arranjo estabelecido por Jeová. Não foi fácil elaborar o discurso, mas acredito que tenha sido um sucesso. Muitos deixaram de me procurar, embora ainda houvesse aqueles que me procurassem. Este discurso eu fiz no primeiro fim de semana após o nosso congresso de distrito.
Assim, tudo foi mais tranquilo depois do discurso. Agora eu teria mais tempo para planejar outras formas de evidenciar os erros das testemunhas de Jeová.

23 de agosto de 2051, 19:00

Estava voltando do meu serviço naquele dia. Já estava me acostumando a ver os irmãos lotando o ônibus e conversando sobre o Novo Mundo. Pelo menos agora eles não me seguiam até em casa.
Resolvi passar na feira que havia perto de casa para fazer as compras do mês. Não ia comprar muita coisa, e grande parte era besteira. O doce de leite que vendiam ali era o melhor de todos...
Estava em uma das bancas, escolhendo o que eu iria levar, quando ouvi uma voz ao meu lado, dizendo:
- Olá, irmão. Você por aqui.
Pensei logo: “droga, me acharam aqui também...” Quando me virei para olhar, qual não foi minha surpresa ao ver a irmã Priscila, uma das duas irmãs que pregaram aquele dia em minha porta? Diante de tanta beleza, só pude sorrir.
- Olá, irmã. Como está?
Para minha sorte, ela tinha muito mais experiência em escolher legumes do que eu. Afinal de contas, era ela quem estava responsável por fazer a feira na casa dela. Ela fez questão de me ensinar todos os detalhes relevantes na hora de escolher os legumes. Ela era muito espontânea, e sabia sempre puxar conversa. Para alguém como eu que não sabe conversar, ter uma companhia assim é essencial. Além do mais, ela possuía uma alegria invejável e contagiante. Era difícil não ficar alegre também. Me lembro que no dia que resolvi estudar com as testemunhas, foi ela quem tomou a iniciativa de conversar comigo. Talvez por isto eu sempre tive uma grande simpatia por ela. Está certo que ela nunca me deu atenção depois daquele dia, mas eu já estava me conformando com o fato de que não costumo chamar muita atenção.
- Irmão, agora que você está tão destacado na congregação, e os irmãos sempre procurando sua ajuda, você deve estar muito sem tempo, não?
- Bem, não tenho tempo como tinha antigamente... Mas não posso reclamar. Estou gostando de tudo. Por que está me perguntando isto?
Quem sabe ela esteja querendo marcar um encontro? Hehehe... (engoli um sorriso)
- Hummm, sabe, é que eu queria aproveitar esta chance que estou tendo de falar com você à sós, para te confessar algo que está “martelando” em minha cabeça já há algum tempo...
Eu juro que tentei encarar isto com naturalidade. Mas não dei conta... É mesmo, eu agora tinha saltado para o topo da lista dos casáveis... Será? Será? Puxa, foi tudo tão repentino...
- “Martelando”? O que seria irmã?
- Bem, irmão. Eu queria que não se chateasse comigo...
- Não vou me chatear, pode falar...
Como eu poderia me chatear com alguma coisa que ela me dissesse? Sou todo ouvidos!!
- Está bem. Irmão, sabe, eu sempre pensei que você fosse muito esquisito... Fechado, no seu canto... Parecia ser de outro planeta...
Realmente eu estava enganado. Puxa, que sinceridade mortal. Valeu por fazer meu dia melhor, irmã.
- ... você sempre nos olhava com aquele olhar estranho... Dava calafrios, sabe? Primeiro a gente achou que você era bobo, ou coisa parecida, depois pensamos que você era safado e até colocamos em você o apelido de “o tarado da rua 10”...
Naquele momento percebi ali que as pessoas que dizem gostar de sinceridade são mentirosas. Eu não gosto de sinceridade, eu gosto de elogios! Tente ser sincero com alguém para ver se ele não te esgana... Basta observar que quando alguém quer ofender outra pessoa, ela simplesmente diz o que vai dizer e completa que está sendo sincera, como forma de se desculpar.
- Eu???
- Sim... desculpa por dizer isto tudo, irmão... Mas eu precisava te dizer isto, pois agora eu percebi o quanto fui tola... Me perdoa irmão... Sabe, esta vida é cheia de surpresas mesmo. Jeová é sábio o bastante em escolher a pessoa mais esquisita neste mundo para mostrar para nós o quanto nosso julgamento é errado e superficial...
E o Oscar de esquisitice vai para... Marvin!!!! Obrigado a todos, dedico este meu prêmio aos meus pais, que possibilitaram minha existência.
- Puxa, irmã, é claro que te perdoo... Eu não poderia guardar mágoa de você, ainda mais depois de toda sua sinceridade.
- Você me perdoa mesmo?
- Claro! Esqueça isto. Você pediu desculpas, isto é o que importa.
Foi então que ela deu aquele sorriso. Era um sorriso tímido, que eu nunca tinha visto em uma pessoa tão comunicativa como ela. Seus olhos também brilhavam, com um brilho diferente... Como se tivessem ganhado vida. Ela estava envergonhada da confissão, mas parecia estar mais “leve”.
- Obrigado, irmão. Eu tenho que ir.
Então ela olhou para os lados, talvez para ver se encontrava alguém conhecido. É claro que não havia ninguém naquela hora, eu estava até surpreso de encontrá-la. Para minha surpresa, ela não estava procurando uma nova companhia. Ela subitamente me deu um beijo no rosto, e saiu correndo...
- Tchau, Marvin!
A vida naquele momento parecia um filme, correndo em slow motion. Eu só a via correndo pela multidão, como se quisesse esconder. Eu estava paralisado. Mas por qual razão? Talvez eu tivesse percebido que ela foi realmente sincera em tudo que fez e disse. Talvez ela agora gostasse mesmo de mim. E isto era inédito para mim. Já me enganei muitas vezes com as pessoas, mas aquela experiência foi muito diferente... Daquela vez, eu estava realmente feliz.
Estava voltando para casa, enquanto pensava nestas coisas. Como deveria encarar o que aconteceu? Deveria aproveitar o momento? Deveria negá-la para que quando revelasse meus planos mais tarde, ela não me odiasse?
Estava passando pela porta da irmã Ana Clara neste momento. Foi quando me lembrei que já havia algum tempo que ela não estava indo às reuniões. Ela era viúva, e sozinha. Vendo aquela casa de luzes apagadas me fez lembrar dela. O que aconteceu com ela? Talvez a felicidade que me acompanhava aquela hora me fez decidir por investigar isto pessoalmente.
Toquei a campainha. Aguardei uns 5 minutos e nada. Toquei mais uma vez. Nova demora. Resolvi insistir mais um pouco, só que não esperando tanto tempo. Foi assim que pude reparar na cortina da janela se movimentando. Ela tinha me visto, e foi me atender.
Sua cara não era das melhores. Estava pálida, abatida.
- Irmã, fiquei preocupado com você. O que houve?
- Eu não estou me sentindo bem, irmão. Eu sei que você vai pensar que minha fé não é grande o suficiente, mas irmão, neste momento estou sentindo uma tristeza tão grande que mal posso suportar...
- Mas, por que eu acharia que você não tem fé suficiente?
- Ora, irmão, foi o irmão Marcos que me preveniu para não deixar que minha fé desapareça... Eu não sou tão forte quanto gostaria... Sinto muito...
- Não há necessidade de desculpas, irmã... Todos ficamos tristes de vez em quando...
- Ao ponto de desejar a própria morte? Pois não consigo deixar esta idéia de lado, irmão...
Percebi então que a alegria que me acompanhava havia pedido licença para tomar água. Ainda não entendia por que ela estava daquele jeito...
- Mas o que aconteceu para você estar assim?
- Irmão, eu fiquei muito feliz por você ser escolhido para uma tarefa tão importante. Você sempre foi atencioso comigo, não poderia ser outra pessoa além de você. Mas não posso deixar de lembrar que minha única filha, a única pessoa que ainda me resta, abandonou Jeová para viver no mundo... Faz 5 anos que não posso sequer olhar na cara dela... Sempre que penso nisto, me lembro de como eu e meu marido esperávamos pelo nascimento dela. Nos vestidinhos que compramos, no berço... Me lembro das primeiras palavras. Me lembro de como ela contava empolgada como tinha conhecido novas amiguinhas na escola. Me lembro dos livros de estórias que comprei, para contar para ela à noite, e como ela dormia como um anjinho... Agora não consigo nem dar um abraço nela, e às vezes sinto tanta saudade dela, que parece que vou morrer sufocada...
A voz baixa e tranquila adicionava a melancolia necessária para contagiar até mesmo eu com aquela tristeza... É, eu também sabia o que era solidão...
- Irmã, por que eu te faço lembrar dela?
- É por quê você é uma das testemunhas de Apocalipse... Isto quer dizer que o fim está mais próximo do que nunca... Isto quer dizer que eu não tenho muito tempo mais para convencer minha filha a voltar... Em pouco tempo, ela não estará mais conosco... Minha única filha... Eu nunca mais a verei...
Fez-se um breve silêncio. Ela então continuou...
- Irmão, eu peço desculpas pela minha fraqueza... Mas eu simplesmente não consigo mais ir às reuniões... Todo mundo lá está feliz pela proximidade do dia de Jeová. Eles já não fazem parte do mundo, e certamente muitos deles estarão no paraíso... Eu não consigo ficar feliz... Não poderia chorar no meio deles, e estragar a alegria que eles possuem... Tudo que eu queria era abraçar mais uma vez minha filha... Eu sei que isto é errado... Se você me condenar, eu não me importo irmão... Eu mereço isto... Não consigo mais fazer nada para Jeová... Sou inútil agora...
Eu tinha planejado toda minha vingança direitinho. Tinha imaginado cada caso. Mas para isto não estava preparado. Eu não tinha planejado me arrepender.
Vingança?
À primeira vista me parecia uma ótima opção. Mas naquele momento eu percebi que muitas vezes se paga um preço alto por um pouco de auto-satisfação. Eu me sentia como um assassino, e tinha acabado de tirar o último fio de vida daquela senhora... Aquela senhora que agora sentava-se em uma cadeira, e se colocava a chorar. Na mesma noite recebi dois choques, e eu ainda não conseguia compreender o significado daquilo. O que eu faria? O que eu diria? Eu não era nada. Eu não tinha sabedoria suficiente para lidar com aquilo. Eu era um tolo brincando com a vida das pessoas...
- Irmã, eu é que tenho que te pedir desculpas...
Ela enxugou o rosto...
- Mas por quê, irmão...? Você não fez nada.
- Exatamente, irmã... Eu não fiz nada... Este é meu erro...
Me aproximei dela, e a abracei. Assim ela começou a chorar novamente... Quem já foi testemunha de Jeová sabe mais do que ninguém que o amor entre eles é um amor distante, praticado verbalmente. E era exatamente as palavras que me faltavam... Um abraço era a última coisa que ela poderia esperar de mim, mas tinha o mesmo efeito de grandiosas palavras do mais hábil orador.
As pessoas precisam umas das outras. Ninguém vive sozinho. Elas podem se enganar às vezes, mas no fundo, elas estão sempre buscando o reconhecimento de alguém. Talvez o que consolou aquela senhora naquele momento foi saber que eu a reconhecia, que eu me importava com ela.
- Irmã, volte a ir à congregação. Nós vamos cuidar de você. Eu sou seu amigo, acima de tudo. Não quero te ver triste.
- Mas quase ninguém dá atenção para mim lá, irmão. Acho que ali só você e a irmã Amanda que se preocupam comigo.
- A Amanda?
- Sim... Ela é sempre tão atenciosa com todos...
Disto eu não sabia... Ela quase nunca falou comigo...
- Pois então, irmã... Já é um começo. Aos poucos, conversando com todo mundo, faremos mais amizades... Façamos o seguinte... Eu venho aqui na próxima reunião para ir com você, o que acha?
Ela ficou relutante, mas consegui convencê-la... Fui embora, mas ainda com uma certa melancolia... Tudo era mais fácil quando eu tinha que simplesmente me divertir às custas das testemunhas de Jeová... Infelizmente cometi o maior erro de todos, eu esqueci que eu estava lidando com pessoas, e muitas delas pessoas sinceras. Pessoas que sofrem, que se alegram, pessoas estas que estão de certa forma presas.
Me lembrei então da Priscila, correndo pela multidão. O que há de errado com aquele povo? Então compreendi que eles eram proibidos de ser imperfeitos. Já dizia o ditado, errar é humano. Eles estavam desesperadamente tentando deixar de ser humanos. Buscavam a santidade e perdiam a humanidade. Eles estavam proibidos de amar, e principalmente de demonstrar este amor. Havia uma espécie de lei que ditava como devia-se comportar quando se gostava de alguém, e isto tornava as relações tão superficiais, que a última coisa que se percebia ali era o sentimento (e a espontaneidade). Era um grande teatro, feito para agradar ao pequeno grande público. Isto obrigava as pessoas a se esconder quando desejavam vivenciar de fato o tão falado amor...
Mas eles estavam proibidos também de sofrer... A busca pela perfeição não podia permitir sofrimentos... Todas aquelas pessoas sentadas em suas cadeiras, cheias de preocupações, sofrendo seus problemas em silêncio para que a imagem de religião perfeita fosse mantida, às custas das imperfeições sufocadas. Os aconselhamentos tinham que ser sigilosos.
Aquela noite choveu. Uma chuva mansa, sem vento. Era quase como se todos os anjos juntos chorassem de uma só vez, junto comigo. Desde que jurei vingança até aquela noite, não tinha pensado seriamente sobre Deus. Agora, estava eu pedindo sabedoria... Certamente alguma coisa eu faria, e iria começar colocando meu velho plano em prática. Era hora de tirar as máscaras.

27 de agosto de 2051, 19:00

Como havia prometido, passei na casa da irmã Ana Clara. Ela estava melhor, mas ainda abatida. Perguntei a ela como ela passou aqueles dias, e ela me contou que ficou bem melhor.
Chegamos então na congregação. Como era de se esperar, todo mundo me cercou, deixando a irmã Ana Clara em segundo plano. Pelo menos a irmã Amanda se aproximou dela, e puxou conversa.
Ainda estava com raiva daquelas pessoas. Não podia mais suportar aquilo. Então fui até a frente, e pedi para iniciar a reunião. Então, falei para todos:
- Boa noite, irmãos. Gostaria de falar algumas coisas antes de iniciarmos a reunião de hoje.
Estavam todos com seus lindos sorrisos, aguardando o que eu tinha para dizer.
- Em primeiro lugar, gostaria de pedir aos irmãos que não me cerquem mais quando entrar neste salão. Há irmãos aqui que precisam muito mais de atenção do que eu. Hoje por exemplo, eu quero que todos se levantem, vão até a irmã Ana Clara, dêem um abraço nela, e digam a ela que ela é uma irmã preciosa para todos.
Não foi difícil reparar a surpresa daquelas pessoas. Eles se olhavam, como se perguntassem, “o que deu nele”?
- Isto mesmo, eu quero que vocês façam isto. De preferência agora, por favor.
O irmão Marcos então se levantou em defesa deles.
- Mas irmão, isto é dar honra indevida a uma pessoa...
- Não, irmão. Isto não é dar honra indevida a uma pessoa. Isto é diminuir a honra que vocês dão a vocês mesmos, e dar a uma pessoa que precisa e a merece.
Imediatamente ele fez uma cara de que não gostou da resposta. Não é para menos.
- E não faça esta cara. Você deveria ser o primeiro a ouvir e aplicar a correção dada. Seja humilde, você deveria ser o primeiro na fila.
Mas ele não foi o primeiro. A irmã Amanda, que já estava perto da irmã Ana Clara, foi a primeira. Depois dela, o resto da congregação. Havia tempo que não via a irmã Ana Clara tão feliz.
Eu já previa que o clima ali ficaria pesado. Foi por isto que providenciei uma música sobre amor no cancioneiro... A letra era mais ou menos assim:

One man come in the name of love
One man come and go
One man come, he to justify
One man to overthrow

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

One man come on a barbed wire fence
One man he resist
One man washed on an empty beach
One man betrayed with a kiss

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

Early morning, April four
Shot rings out in the Memphis sky
Free at last, they took your life
They could not take your pride

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

Spoken: For the Reverent Martin Luther King - saint.

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

In the name of love

Ninguém parece ter reconhecido a letra, mas cantaram muito bem, e até com alegria. Formaram um belo coro, e fizeram questão de ignorar a menção a Martin Luther King...
Mas esta não era a parte principal... O ponto máximo da reunião foi o aviso final, uma carta enviada do corpo governante a todas as congregações. Ela dizia assim:

Caros irmãos,

É com muito pesar que viemos por meio desta comunicar que alguns irmãos têm abandonado a fé verdadeira. Estes irmãos preferiram seguir as próprias especulações do que aguardar a orientação do Escravo Fiel e Discreto em tempo oportuno.
Há alguns dias, foi lançada uma matéria sobre o papel do Mediador para os cristãos. Parece que alguns irmãos ficaram com dúvidas se Jesus Cristo sendo uma criatura, poderia de fato nos salvar. Esta dúvida em si já seria motivo de grande preocupação. Mas percebeu-se que a partir desta dúvida, alguns irmãos concluíram que a saída lógica para isto seria crer, como algumas religiões da Babilônia a Grande, que Jesus seria Deus.
É por este motivo que estamos pedindo para os anciãos de cada congregação para conduzirem uma comissão para apurar quem despertou este tipo de dúvida, e questionar até que ponto ela foi prejudicial às pessoas. Os irmãos que apresentarem a fé comprometida serão desassociados por período indeterminado, a fim de salvar as ovelhas que ainda se mantém na fé verdadeira.
Se algum irmão souber de alguém que tenha apresentado tais dúvidas, que seja fiel a Jeová, e avise os anciãos, para que eles possam cuidar deste irmão da forma apropriada.

Pronto, meu primeiro plano estava completo. Eu acabei de abrir a caixa de Pandora, e ninguém sabe o que vai acontecer de agora para frente. Dava para perceber a cara assustada de todos eles... Dava ainda para ver o mórbido semblante satisfeito de alguns...

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Reencontro selvagem

O amor é uma linguagem universal...

Esses dois jovens criaram este filhote de leão a que eles deram o nome de Christian. Infelizmente, ele ficou muito grande para eles cuidarem e eles decidiram libertá-lo para que ele pudesse viver como um leão selvagem. Depois de um ano, eles foram à África para vê-lo. Eles foram alertados de que o leão não se lembraria dele. Este vídeo foi feito quando eles o encontraram.


Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Grandes canciones - 4

Um pouco de música folclórica argentina:

COSA PELIGROSA

por Los Nocheros


Me bastará tan sólo de tu boca oír te amo
y desde la distancia al infinito te hallaré
en cada movimiento pendular de un triste otoño
veré todo el verano resbalar sobre mi pie

Me bastará tan sólo que un "te quiero" de tu boca
se escape cielo adentro hacia una nueva dimensión
así aceptar que sólo yo comprendo esta locura
y nadie más divulgue lo increible de este amor

Pero mira que cosa tan graciosa es mi ilusión
yo aquí soltando sueños y esperanzas a los vientos
Pero mira que cosa peligrosa es tu querer
te juegas al azar y apuestas con mis sentimientos

El río va llevando las caricias de tus manos
y el aire aquel momento que inventamos la pasión
No existe fiel testigo que describa con palabras
el beso que provoca mi peregrina tentación

Pero mira que cosa tan graciosa es mi ilusión
yo aquí soltando sueños y esperanzas a los vientos
Pero mira que cosa peligrosa es tu querer
te juegas al azar y apuestas con mis sentimientos

pero mira que cosa que cosa peligrosa
pero mira que cosa que cosa peligrosa


Terça-feira, 17 de Março de 2009

As crônicas de Marvin - 05

A maravilhosa fama

7 de agosto de 2051, 7:00

Não foi fácil dormir aquela noite. Agora como um “profeta”, muitas possibilidades surgiram para mim. Pensei nas formas mais cruéis de me vingar daquelas pessoas que não só me enganaram, mas me ignoraram... De certa forma, eu tinha que expor o extremo puxa-saquismo deles...
Bem, já era segunda-feira, e eu tinha que agir... Infelizmente não tinha mais tempo para vinganças pessoais, tinha que trabalhar. Quem mandou ser pobre? De qualquer forma eu tinha que recuperar o dinheiro gasto em minha vingança, senão não poderia fazer as contribuições voluntárias dignas de um “profeta”. Comi apressadamente o meu cereal matinal, e corri para o ponto de ônibus.
Se estivéssemos falando de qualquer dia normal, e de qualquer ponto de ônibus normal, eu não estaria assustado ao vê-lo cheio de pessoas. Mas por incrível que pareça, ao virar a esquina e me deparar com o ponto de ônibus onde costumo pegar meu ônibus, tive uma grande surpresa: ele estava lotado. Mas não de quaisquer pessoas, estava lotado de testemunhas de Jeová... Pessoas que nunca vi pegando ônibus, pessoas que pegavam ônibus em outros horários. Até pessoas que pegavam outros ônibus. Estavam todos ali, e abriram um grande sorriso quando me viram.
Me aproximei lentamente, como quem ainda estava esperando acordar de algum pesadelo. Mas não acordei, e ele ficava cada vez pior. Cheguei perto do ponto, para ouvir meus caros irmãos, e suas explicações. O irmão Pedro foi plenamente capaz de explicar aquele aglomerado humano:
- Irmão, ontem ao voltar do congresso, e ver que você preferiu pegar um ônibus ao invés de uma carona, comecei a refletir sobre esta sua atitude... Você está certo, meu irmão. Como se diz em Revelação 11:18, Jeová Deus virá para destruir os que destroem a terra, e nós não podemos contribuir com isto. Por isto, vamos todos andar mais de ônibus, para diminuir a poluição gerada. E já que estamos fazendo isto, aproveitamos para acompanhá-lo, de forma que possamos aprender alguma coisa com o irmão.
A irmã Marta ainda completou:
- Puxa irmão, você demorou, hein! Eu deixei 3 ônibus passarem para ver se te encontrava...
Como dizia o sábio filósofo Homer Simpson, “Duh!!”. Era tudo que eu precisava. Um grupo de testemunhas de Jeová com sérios problemas espirituais (perdão pelo pleonasmo). Enquanto tirava umas fotos com a irmã Marta, que queria uma lembrança minha, pensava em como iria sair desta fria... Não me ocorreu nada. O pior foi decidir quem iria comigo, afinal o ônibus não conseguiria levar muita gente... Falei para entrarem em ordem de chegada.
Foi a pior viagem de ônibus que tive. Me incomodava o fato de aqueles que foram sentados estavam com seus caderninhos a postos para anotar qualquer coisa que eu dissesse ou fizesse. Fui em pé, apesar da insistência geral. Podia até deixar para alguém pagar minha passagem, mas minha consciência não permitiu. Fui obrigado a fazer uma mini-palestra sobre o cristão e o trabalho. Não foi muito difícil, apesar de tudo. Basicamente falei para não se mentir em hipótese alguma (puxa, como sou hipócrita), mesmo que isto custe seu emprego. Qualquer coisa que termine com o famoso “não somos parte do mundo” tem um grande poder de deslumbramento...
Consegui descer do ônibus, e ir rapidamente para meu serviço. Bem, eu trabalho com manutenção de computadores. Um nerd tem que fazer aquilo que sabe com maestria. Além disto, é um trabalho que não exige contato com o cliente. Pelo menos eu pensava assim, até que as vendas da loja aumentaram 50% naquele dia. Parece que meus irmãos concluíram que o computador não é tão mau assim, já que um de seus “profetas” trabalhava com eles. Tive que parar meu serviço 16 vezes para trocar algumas palavrinhas com os irmãos, exigência do chefe. Pelo menos assim ele reparou em minha existência. Talvez eu peça um aumento em momento oportuno.
Não costumo sair do serviço pela janela, aliás acho que ninguém faz isto. Não fazia. O pior de ser famoso é ser um famoso pobre. Pelo menos os ricos possuem seguranças, carros e coisas assim para despistar as multidões. Tive que correr e pegar um ônibus diferente desta vez... Mas correu tudo bem. Eu pelo menos teria a chance de ver o documentário que eu queria ver na televisão, e que há muito tempo esperava. Era sobre energia renovável, algo que sempre me interessou.
Cheguei em casa e fui preparar algo para comer. A história de despistar os irmãos me fez demorar muito para chegar. Estava quase na hora do documentário... Quando o telefone tocou. Era o irmão Osvaldo:
- Olá, irmão Marvin. Aqui é o irmão Osvaldo! Eu não te vi saindo da loja hoje, você está bem?
Respondi com desânimo:
- Estou sim, como vai irmão Osvaldo?
- Eu estou indo...
Podia mesmo ir, e me deixar ver o meu programa...
- Bem, irmão Marvin, eu te liguei por que eu queria te perguntar algo muito sério... Sabe, há muito tempo eu e minha esposa temos brigado muito, e isto nos entristece muito. Sabe, eu amo ela demais, e ela também me ama, e nós gostaríamos de nos dar bem, mas confessamos que precisamos de ajuda... Os anciãos já conversaram conosco, e não adiantou ainda... Então decidimos pedir sua ajuda, já que você foi apontado pelo Escravo como uma das duas testemunhas de Revelação...
Foi aí que me caiu a ficha... Eu entrei na maior furada de minha vida, e livremente. Tinha acabado de assinar meu contrato de conselheiro gratuito e vitalício... Eu tinha dificuldades até para falar bom dia para todo mundo, agora dar conselhos? Tinha que pensar rápido em uma solução, o documentário estava para começar...
- Irmão, eu só tenho uma coisa a dizer. Você possui algum objeto que foi dado por um espírita, e este objeto está causando todos estes problemas.
- Puxa, irmão, você tem certeza? Pois os anciãos já falaram sobre isto, e eu até me desfiz de um monte de objetos que possuíam alguma relação com o espiritismo...
É claro. Eu peguei a solução básica para este tipo de problema, e esqueci que ela seria a primeira que os anciãos tentariam... Bem, eu não estava muito criativo naquele dia...
- Irmão, ainda tem algum objeto relacionado com o espiritismo em sua casa. Você não se livrou de todos. Se você valoriza seu casamento mesmo, você deveria começar a procurar imediatamente. Ache este objeto, ele está aí em algum lugar. Chame mais pessoas e procure. Seu casamento depende disto!
Desliguei o telefone, e corri para a televisão. O programa tinha acabado de começar. Com sorte, o irmão Osvaldo ficaria pelo menos um mês procurando. Mas o irmão Osvaldo não era o único com problemas... Por isto, o telefone tocou mais uma vez. Resolvi não atender.
Passados 10 minutos do documentário, toca a campainha. Era o ancião Marcos no portão, para minha infelicidade. Agora não dava para fazer de conta que não estava em casa, as luzes estavam acesas, a televisão ligada. Tive que atendê-lo...
- Irmão Marvin, boa noite... Eu peço desculpas por vir aqui a esta hora, mas eu tentei te ligar, e ninguém atendeu...
- Sério? Puxa, eu não ouvi ele tocando... Deve ser quando eu estava tomando banho...
- Tudo bem, não tem problema. Foi melhor vir pessoalmente, pois o assunto é sério.
- Assunto sério? Sobre o quê se trata?
- Bem, há algumas coisas que você não conhece sobre nossa congregação... E achei melhor te contar antes que você ouça de outras pessoas.
- Hummm, e o que seria?
- Eu acredito que o irmão Jonas não aprova algumas coisas que eu faço pela congregação. A verdade é esta.
- O irmão Jonas? Mas vocês são anciãos há tanto tempo, sempre demonstraram ser amigos.
- Sim, pois não seria um bom exemplo para a congregação ter dois anciãos que discutissem entre si. Mas a verdade é que muitos procedimentos adotados por ele não são corretos.
- Ah, não?
- Não. Por exemplo, não acho apropriado que um ancião faça um discurso de casamento para pessoas que sequer são batizadas.
- Ah, disto eu não sabia.
- Isto mesmo. O irmão Jonas não é rigoroso, dá muitas concessões. E por isto, é o mais procurado. Claro, é mais fácil afrouxar aqui e ali, do que seguir as orientações do Escravo.
Uma disputa por poder, completamente oculta aos cristãos comuns... Esta foi inesperada para mim, e por um momento até me esqueci do meu documentário. Quem seria capaz de imaginar isto? Mas o irmão Marcos estava ali, bem na minha frente, tentando fazer minha cabeça contra o irmão Jonas. Provavelmente movido pelos ciúmes...
Nisto toca o telefone... Eu estava ignorando, mas o irmão Marcos interrompeu seus “reclames” para dizer:
- Irmão, se quiser pode atender o telefone...
- Ah, tá, tudo bem, vou ver quem é...
Atendi então o telefone. Sem nenhuma identificação, alguém grita do outro lado da linha:
- ACHHHHHEEEEEIIIIIIII, IRMÃÃÃÃOOOOO!!!
- Irmão.... Osvaldo??
- Isto mesmo, irmão. Puxa, você é um homem de Deus mesmo! Eu sabia que poderia contar com você!
- Puxa, achou mesmo?
- Sim, claro. Minha esposa tinha um anel que foi dado pela irmã de uma mulher cujo marido é espírita... Como ela não queria se desfazer do anel, que é caro, então ela escondeu isto de mim.
- Puxa, sério?
- Sim! Ainda bem que você é guiado pelo espírito de Jeová. Pode ter certeza que vou contar isto para todos os irmãos! Temos um profeta entre nós!! Puxa, como estou feliz... E então, o que devemos fazer agora, irmão?
Como diria outro sábio chamado Dick Vigarista, “Raios, raios duplos!!”. Antes mesmo de todas as nações se unirem para congregar no templo de Deus, no novo mundo, elas se congregarão aqui em casa, me impedindo de viver... Agora não tinha mais jeito...
- Ora, irmão, basta queimar...
- Mas irmão, é um anel... Ele não vai queimar...
- Tem razão. Então faz o seguinte. Pegue todo mundo que você encontrar, e vá até a Vila Esperança. Encontre um lote vago, faça um buraco e enterre. Depois, faça uma oração. Vou pedir para o irmão Marcos te acompanhar, já que ele é ancião.
- Puxa, muito obrigado, irmão Marvin. Mas a Vila Esperança não é muito longe não?
- Exatamente por ser longe que eu estou te mandando para lá. Você vai querer que este objeto que tanto prejudicou seu casamento fique perto de vocês?
- Puxa, irmão, é mesmo!! Como sou tolo, é claro que não. Vamos fazer isto agora.
- Tudo bem então, vou mandar o Marcos. Não saia sem ele.
Desliguei o telefone, e falei para o Marcos:
- Irmão, seja o que for que você tem para me dizer, acho que pode esperar. Eu quero que você ajude o irmão Osvaldo a se livrar de um objeto dado por um espírita. É urgente, vai lá agora.
- Mas irmão...
- Irmão, eu sei o que é bom para você e o Osvaldo. Por ora, vá. Teremos muito tempo para falar disto depois.
- Está bem então. Até mais.
Matei dois coelhos com uma cajadada só. Espero que agora eu tenha um pouco de paz... Me despedi do irmão Marcos, e corri para o sofá. Por via das dúvidas, apaguei as luzes e fechei as cortinas. Ao me sentar, descobri que o programa estava quase no fim... A esta altura, o telefone toca de novo... Já tinha perdido todo o programa, não ia entender mais nada mesmo, então resolvi atender...
- Olá, irmão Marvin. Aqui é a irmã Rosa.
- Olá, irmã. Como está?
- Hummm, eu não estou muito bem... Irmão, eu queria um conselho... Estou me sentindo muito solitária...
- Mas irmã, você mora com 5 pessoas!!
- Eu sei... Mas aqui em casa cada um vai para seu canto. Ninguém quer saber sobre meu dia, sobre como me sinto, o que eu desejo... Ninguém liga para mim... Estou muito triste...
Se eu dissesse que eu também não ligo para ela, eu pioraria mais as coisas. Tudo bem, hora de fingir de novo... Eu sempre me impressiono com a habilidade humana de conseguir sempre piorar as coisas. Infelizmente não fiz curso de psicologia. Eu repasso.
- Irmã, você tem que deixar claro para as pessoas de sua casa, que você precisa deles. Por quê não conversa com todos, e expõe o que está sentindo?
- Mas irmão, eles não iriam me escutar. Nunca me escutaram!!
- Irmã, muita coisa nesta vida não vem fácil. Se você deseja conquistar algo, deve lutar sem vacilar...
Depois de uma longa conversa, consegui despistar a irmã Rosa. Sugeri que ela visitasse um psicólogo. Além de estarem mais preparados, são pagos para isto. Finalmente entendi por que ela tem seu famoso dom da fala. Ninguém conversava com ela, e por isto alguém tinha que escutá-la. Foram 2 horas de conversa que não deram em nada. Depois disto desliguei o telefone, as luzes, e fui dormir. Pelo menos tentei, já que tive um pesadelo maluco onde testemunhas de Jeová cercavam minha casa como zumbis, dizendo “Me ajude, Marvin”, e eu corria para o quintal, onde os passarinhos cantavam “Me ajuuuddeee, Marrrvinnn”. Então me viro para o lado e vejo 7 vacas magras e 7 vacas gordas, cada uma com uma letra, que formava a palavra “INTERPRETE-NOS”. No fundo, Golias enfrentava a besta de sete cabeças e dez chifres em um campeonato de vale tudo, Golias agora com um capacete de motoqueiro. Ambos gritavam “É tudo sua culpa, é tudo sua culpa!!!”. O pior de tudo é que eu não bebo... Agora eu entendo por Michael Jackson escreveu Thriller, afinal, ele também foi TJ um dia...

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

O mais jovem santista

JJJ - Jiu-Jitsu de Jesus (?!)

A Folha de S. Paulo de ontem trouxe artigo (reproduzido na Folha Online) sobre um ringue de vale-tudo montado no templo da Igreja Renascer de Alphaville (município de Barueri, na Grande São Paulo), em que jovens são atraídos para as lutas de vale-tudo, segundo os pastores da igreja, para "propósitos evangelísticos". Fica difícil entender como é que algum pastor considera "normal" ver rapazes em trajes sumários lutando jiu-jitsu dentro da igreja, afinal a única manifestação de ira de Jesus, relatada nos evangelhos, diz respeito à expulsão dos vendilhões do templo, mas não consta que ele tenha recorrido ao vale-tudo para fazer isso. Graças a Deus não havia pitbulls naquela época.

Definitivamente, o profano se instalou em algumas igrejas que se dizem "evangélicas". Há uma polêmica antiga envolvendo o boxe, em que há muita gente que diz que não se trata propriamente de um esporte, mas de violência gratuita. O mesmo não se diz de lutas marciais como o judô, o karatê e o tae-kwon-do, que têm toda uma moderação nos golpes (e proteção nos lutadores) que os tornam mais parecidos com arte do que propriamente com esporte. Não acontece o mesmo, entretanto, com o vale-tudo, em que a violência do boxe é exarcebada e mitigada com o que há de mais violento nas outras lutas. Se já é discutível levar lutas de judô para dentro de um templo, muito mais questionável é fazer do vale-tudo um ritual litúrgico. o que mais parece com um nocaute no evangelho. Por outro lado, esses tropeços têm o seu lado positivo (como quase tudo na vida): revelam que para algumas igrejas (e seus pastores) vale tudo mesmo...

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Ceticismo, Cristianismo e Hedonismo

por Paul Tillich:


Esse vasto projeto dos filósofos gregos de criar um mundo de significados começou a desmoronar no apagar das luzes do mundo antigo e produziu o que chamo de epílogo cético do desenvolvimento antigo. Originalmente, o termo skepsis queria dizer "observar as coisas". Mas assumiu um sentido negativo de examinar os dogmas, até mesmo as dogmata das escolas gregas de filosofia, para rejeitá-los. Os céticos, assim, duvidaram de todas as formulações das escolas de filosofia. Não que essas escolas não contivessem em seu ensino boa parte desses elementos céticos, como, por exemplo, a academia platônica. O ceticismo não conseguiu avançar além do probabilismo enquanto que as outras escolas tornaram-se pragmáticas. Assim, essa atmosfera cética invadiu todas as escolas e permeou a vida toda no mundo antigo de então. Tratava-se de assunto vital e muito sério. Não se tratava novamente de se sentar em mesas de estudo para descobrir que se podia duvidar de todas as coisas. Essa tarefa seria comparativamente fácil. Na verdade, esse movimento significava o desabamento de todas as convicções. A conseqüência dessa atitude – bastante característica da mentalidade grega – foi uma espécie de paralisia da ação. Se não somos mais capazes de pronunciar juízos teóricos, não podemos agir na prática. Portanto, introduziram a doutrina da epoché, "suspensão de juízo, reserva, não julgar nem agir, não decidir nem teórica nem praticamente". A doutrina da epoché significava a resignação do juízo em todos os aspectos. Por isso, os céticos retiraram-se para os desertos vestidos de uma simples túnica ou manto. Os monges cristãos, mais tarde, seguiram-nos nessa atitude, porque eles também se desesperaram sobre a possibilidade de se viver neste mundo. Alguns céticos da igreja primitiva eram sérios e agiam de acordo, ao contrário de certos céticos esnobes de nossos dias que não se animam a arcar com as conseqüências de seu ceticismo, que levam vidas alegres e confortáveis enquanto duvidam de todas as coisas. Os céticos gregos retiraram-se da vida e assim mostraram-se consistentes.

O ceticismo foi, pois, um dos importantes elementos para a preparação do cristianismo. As escolas gregas, como os epicuristas, os estóicos, os acadêmicos, os peripatéticos e os neopitagóricos, não eram escolas no sentido em que temos hoje escolas filosóficas, como a escola de Dewey ou a de Whitehead. As escolas filosóficas gregas eram também comunidades cúlticas; eram meio rituais e meio filosóficas. Seus membros queriam viver de acordo com as doutrinas de seus mestres. Quando surgiu o movimento cético, procuravam acima de tudo a certeza; queriam-na para poder viver. Acreditavam que os grandes mestres, Platão ou Aristóteles, o estóico Zenão ou Epicuro, e mais tarde Plotino, não eram apenas pensadores ou professores, mas homens inspirados. Muito antes do cristianismo existir, a idéia de inspiração já se desenvolvia nessas escolas gregas: seus fundadores eram inspirados. Quando membros dessas escolas entraram mais tarde em discussão com cristãos, diziam, por exemplo, que não era Moisés o inspirado, mas Heráclito. Essa doutrina da inspiração também ajudou o cristianismo a entrar no mundo. A razão pura não era capaz de construir a realidade na qual se pudesse viver.

O que se dizia sobre os fundadores dessas escolas filosóficas era semelhante ao que os cristãos diziam a respeito do fundador de sua igreja. É curioso notar que um homem como Epicuro – de tal maneira atacado pelos cristãos que só restam dele poucos fragmentos – era chamado soter pelos discípulos. Essa palavra era usada no Novo Testamento para significar "salvador". Assim, o filósofo Epicuro era conhecido como salvador. Por quê? Em geral, Epicuro é considerado um homem que sempre viveu bem nos seus agradáveis jardins e que ensinou uma filosofia hedonista rejeitada pelos cristãos. Mas o mundo antigo não tinha essa idéia sobre Epicuro. Era chamado de soter porque fizera a coisa mais importante que alguém poderia fazer pelos seus seguidores: libertava-os da angústia. Epicuro, com seu sistema materialista de átomos, libertava as pessoas dos demônios presentes na totalidade da vida do mundo antigo. Vê-se bem que a filosofia era assunto muito sério nessa época.

Outra conseqüência desse espírito cético era o que os estóicos chamaram de apatheia (apatia), que significa ausência de sentimentos em relação às forças e impulsos da vida, como desejos, alegrias, dores, indo-se além de tudo isso ao estado da sabedoria. Sabiam que somente algumas pessoas conseguiram alcançar esse estado. Os céticos que se retiraram para os desertos demonstravam até certo ponto essa capacidade. Por trás de tudo isso, naturalmente, situava-se a crítica anterior aos deuses mitológicos e aos ritos tradicionais. A crítica da mitologia deu-se na Grécia cerca da mesma época em que o Segundo Isaías fazia o mesmo na Judéia. Essa atividade crítica minava a crença nos deuses do politeísmo.


(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2000, 2ª ed., pp. 26-28)

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

As Crônicas de Marvin - 04

Bem, como eu atrasei em postar o capítulo 3 aqui, e também demorei a escrever o capítulo 4, estou colocando eles um depois do outro. Então aqui está o capítulo 4.






Os eleitos

O artigo da Sentinela foi um fenômeno de popularidade. Acho que ninguém nunca se lembrou tanto dos outros artigos como se lembraram deste. Por dias comentavam, e a dúvida colocada no artigo se espalhou. Os fiéis faziam de conta que tinham entendido tudo, mas no fundo, no fundo se sabia que ainda se perguntavam, “estamos mesmo com a salvação garantida”? Infelizmente eles não podiam duvidar de nada. A dúvida era como uma grave heresia.
Enquanto eles meditavam sobre esta matéria, e suas dúvidas amadurecessem, eu estava focado agora na Assembléia de Circuito. A jogada que eu estava para fazer era como, em xadrez, capturar a rainha adversária. Eu devia planejar tudo com cuidado. Por enquanto, a crescente dúvida dos fiéis poderia esperar.
Aos poucos, outro assunto foi dando lugar ao controverso artigo da Sentinela. A próxima Assembléia de Distrito traria novidades! Entre elas, um dos membros do Corpo Governante faria um pronunciamento por video-conferência para todas as congregações. Isto sim estava provocando o maior frenesi em todos. O quê seria? Será que temos novidades? Até que o grande dia chegou.

6 de agosto de 2051, 07:00

Não tinha pregado os olhos durante a noite. Quando o despertador tocou, já estava acordado, em meu 187235o carneirinho. Será que eu conseguiria levar o plano adiante? Não sei. Até um ano atrás, eu era uma pessoa quase inexistente. Não chamava atenção, não era assunto de conversas (exceto durante as demonstrações dos dons especiais da fala de algumas irmãs, e até irmãos). Agora seria tudo diferente.
Meditava sobre isto ao subir no ônibus. Eu teria muito tempo para pensar sobre isto pegando os 3 ônibus necessários para chegar ao salão de Assembléia. Puxa, por que eles constroem estes salões tão longe? Será que é para fazer qualquer pessoa que queira protestar na frente do salão desistir disto? O fato é que quase todo mundo tinha carona para ir ao salão, infelizmente ainda não sou tão popular para conseguir uma. E não me importo com isto, é até melhor, já que eu queria estar sozinho naquela hora.
Entre minhas meditações, eu olhava para as pessoas no ônibus. Domingo não costuma ter muita gente no ônibus. Todo mundo deve ter coisa mais interessante para fazer do que ir à um Salão de Assembléia. É praticamente impossível manter a concentração depois de umas 5 horas sentado, vendo “palestras bíblicas”. Os banheiros viviam cheios, e sua concentração populacional crescia com o tempo.
Entre os rostos naquele ônibus, um rostinho familiar: a irmã Amanda. E só ela. Parece que havia mais desprezíveis em minha congregação, e eu não sabia. Se bem que a irmã Amanda era uma das pessoas mais tímidas que eu conhecia. Talvez por isto eu conhecia tão pouco dela. De qualquer forma, já que ela estava sozinha, resolvi acompanhá-la. Ela estava me olhando fixamente, então pensei que ela quisesse uma companhia.
Fui e me sentei perto dela. Ela parecia um pouco incomodada, talvez pela timidez.
- Olá, irmã, não tinha visto que você estava por aqui.
- Ah, olá, irmão... Sim, eu subi junto com você, não tinha reparado?
- O pior é que não, hehehe... Puxa, me desculpe, eu estava mergulhado em vários pensamentos...
- Não tem problema, irmão... Isto quase sempre me acontece, eu já estou acostumada.
Percebi um certo ar de tristeza... Realmente, nunca a vi com amigas. Isto me comoveu um pouco, já que eu também era assim, até me adequar aos padrões tejotinos... Mesmo assim, eu ainda estava sem carona.
De qualquer forma, começamos a conversar. Aquela garota tinha uma grande necessidade de conversar com as pessoas, pelo que notei. Conversamos sobre muitas coisas, e felizmente poucas sobre a Torre e sobre as testemunhas de Jeová. Ela me contou um pouco de sua vida... É a única da família que é TJ, o pai é alcólatra, infelizmente.
Foi uma boa conversa, e foi melhor que ficar refletindo sobre o que eu faria hoje. Ao final da viagem, comentei:
- Gostei muito de nossa conversa hoje, irmã.
Ela ficou meio encabulada com isto, e completou, bem baixinho:
- Também gostei muito.
Estávamos já no Salão de Assembléia, uma cópia menos fiel do que o Corpo Governante considera o Novo Mundo. Lá a grama é sempre verde, o chão sempre limpo, a construção melhor que qualquer casa dos irmãos. Tudo para nos aproximar mais do Novo Mundo.
Fui obrigado a me sentar no fundo do salão, já que todas as cadeiras já estavam marcadas. Se fosse possível, os irmãos acampariam na porta para pegar os melhores lugares. Eu acho até que algumas senhoras já chegavam com as bolsas cheias de revistas, todas nomeadas, e iam passando pelas fileiras, deixando uma revista a cada cadeira. Elas eram uma espécie de cambista teocrático, você conversava com as irmãs, e elas reservavam seu lugar no outro dia. Se fizessem isso na fila do INSS de madrugada seriam massacradas ou levadas à delegacia mais próxima.
E por falar em irmãs, todas as irmãs estavam extremamente belas, aliás, como sempre. Ouvia boatos de que a coisa era mais ou menos como uma disputa para um concurso de Top Model. E pensar que os primeiros cristãos se vestiam da forma mais humilde. Mas eu sabia que tudo girava em torno, principalmente, do casamento. Talvez Paulo seja a única pessoa que eles considerassem cristão, que via a falta de um companheiro com bons olhos. Desde que me tornei testemunha de Jeová, percebi uma certa pressão em cima dos mais jovens para o casamento. Ah, mas também pudera, todo mundo só pode namorar à distância... Então, aquelas pobres jovens estavam se vestindo ali para desempenhar o único papel que lhes coube neste latifúndio (improdutivo, no caso).
A Assembléia foi chata do início ao fim, como de costume. Para matar o tempo, eu peguei a minha caneta, e fiz bolinhas de papel para atirar no grande público. Eu estava atrás mesmo, ninguém iria ver. Fui o mais discreto possível.
Mas como todo bom conhecedor de eletrônica, eu estava disposto a testar alguns artefatos mais tecnológicos. Tirei de minha pasta então o super-transmissor que eu tinha desenvolvido para a ocasião. Quando ajudei a limpar o salão de Assembléia, eu instalei alguns hacks na parte do controle do salão, sem que os irmãos vissem, tudo devidamente controlado por meu celular. Assim, todo mundo ficou espantado quando começou a rolar aquele tributo ao funk brasileiro da primeira década nos autofalantes do Salão. Ficaram agitados mesmo quando começou a tocar o funk do créu, os organizadores correram para desligar as caixas de som antes da música chegar no nível 3. Isto nos rendeu alguns minutinhos para acordar um pouco. O irmão Batista estava até babando quando foi acordado pela bagunça. Todo mundo estava sério, mas alguns se divertiam com a situação. E pela primeira vez que eu me lembre, vi a irmã Amanda sorrindo.
Depois de meia hora, a reunião continuou. Ao invés de chavear a rádio para as caixas de som, eu resolvi fazer algo mais divertido. O microfone tinha um ajuste automático de altura. Resolvi ficar ajustando a altura durante o discurso. Até que o expositor teve jogo de cintura. Eu descia o microfone, e ele se abaixava para falar nele. Então subia de uma vez. Outras vezes eu subia e descia o microfone rapidamente, como se ele palpitasse. Então comentei com os irmãos da frente:
- Satanás deve estar incomodado com a anunciação do Corpo Governante e está tentando boicotar nossa reunião.
Foi como colocar fogo em palha seca. Todo o salão de Assembléia já estava comentando sobre isto. Foi quando o microfone aquietou um pouco. Então, quando eu tive certeza que até os irmãos na sala de controle já estavam achando que era obra de Satanás, mandei uma mensagem de texto para a sala de controle (que aparecia em um painel lá dentro):

Olá, Luiz, eu vim aqui para te levar comigo.

Não demorou muito para o irmão Luiz sair correndo de lá, gritando mais do que uma moça. Ele dizia, olhando para a sala:

- Sai, Satanás, sai!!!!

Todo mundo olhava para aquela cena, e imaginava o que poderia estar acontecendo. Falei quase gritando:

- O irmão Luiz está sendo possuído!!!

Se eu tivesse dito aquilo em uma Assembléia de Deus, todo mundo teria tratado com a maior naturalidade. Mas estávamos em uma Assembléia das Testemunhas de Jeová. As reações foram as mais diversas. Os mais novos na fé correram para um lugar bem longe de Luiz. Grande parte dos fiéis ficou sentada no mesmo lugar, orando e pedindo para Deus afastar Satanás daquele lugar. Já os anciãos tentaram conversar com Luiz. Ele negava veementemente que estava possuído. Bem, eu não podia deixar a diversão parar.
- Eu poderia até acreditar em você, mas acredito que se Satanás está te possuíndo, ele deveria mesmo negar que o fez. Você poderia provar para nós que é você mesmo?
Bem, nem é preciso dizer que o irmão Luiz demorou bastante para provar que era ele mesmo. Por fim, oramos, e voltamos a nossos lugares.
Como o discurso do membro do Corpo Governante tinha hora marcada, alguns discursos foram sendo cancelados. Bom pra mim, não precisava ver toda aquela chatice.
Na hora do almoço houve grande discussão sobre tudo que aconteceu. Alguém poderia imaginar que tamanha confusão poderia tirar todo mundo do sério, mas engana-se. Aquilo era como um combustível para a fé daquelas pessoas, muito mais que os artigos da Sentinela. Ora, ler um artigo que elogia você e os próprios autores como exemplos de moralidade e perfeição humana pode ser legal, mas no fundo não convence muito. Sempre fica aquele gostinho de que está faltando alguma coisa. É quase como receber um elogio de sua mãe. Mas quando tudo aquilo que você lia é experimentado na prática, a coisa muda de figura. Toda testemunha de Jeová lê em seus artigos que elas são perseguidas por ser o que são. Mas o grande problema é que elas não vivenciam isto. Elas precisam reinterpretar sua vida, para inserir este gostinho do martírio, a fim de que se sintam mais cristãs. Quando um familiar se opõe à sua crença, isto acaba se tornando um êxtase para elas. Quando elas são criticadas por apóstatas ou pessoas de outras religiões, elas se vangloriam. E é fácil observar que elas geralmente só percebem que estão sendo criticadas, mas nunca param para meditar sobre o conteúdo da crítica. Isto por que o ato da crítica que é o importante para elas. É o que as faz vivas. Agora, imaginem se elas vêem que o próprio Satanás não está se contendo em perseguí-las. Eu promovi mais alegria a elas do que 200 anos de revista Sentinela!
Enquanto elas se jubilavam ao comer, eu fiz questão de colocar pó-de-mico nas cadeiras marcadas dos irmãos mais chatos. Ficaram mesmo um bom tempo “coçando”, agora poderiam concretizar o ato.
Depois do almoço, veio a dramatização, que foi muito boa por sinal. Eu achei que seria bom apenas trocar as falas dos personagens, nada demais. Foi por isto que o profeta Elias da apresentação, se apresentou à viuva de Sarepta (1 Reis 17), dizendo:

- Você é a doença, eu sou a cura. (Stallone Cobra)

E ela, respondendo, disse:

- John Spartan multado em 1350 créditos por ofensa à moral e os bons costumes. (O Demolidor)

O profeta então retrucou:

- Francamente, querida, eu não dou a mínima. (...E o Vento Levou) Eu vou lhe fazer uma proposta que [ele] não pode recusar(O Poderoso Chefão): Deus é minha testemunha, jamais passarei fome novamente! (... E o Vento Levou)

Ela então hospeda o profeta, mas infelizmente seu filho morre. É uma cena dramática, onde as últimas palavras do garoto são:

- Hasta la vista, baby. I’ll be back!! (Exterminador do futuro 2)
- Peixe?? Por que você dorme?? Acorda, peixe!! (Procurando Nemo) - Dizia a mãe dele. Vendo que o garoto morreu, ela vai reclamar ao profeta:

- Houston, we have a problem here!! (Apollo 13)

Ele olhou para o garoto, e exclamou, triste:

- A vida é como uma caixa de chocolates. (Forrest Gump)

Então com um ato milagroso, traz o garoto de volta à vida. Todos ficam alegres novamente, com Elias motivando o garoto:

- Que a força esteja com você!! (Star Wars)

A lição da história era sobre a confiança em Deus, mas eles aprenderam um pouco de cinema junto. Claro, Testemunhas de Jeová quase não sabem sobre a cultura “do mundo” já em sua época, ainda mais de cultura “antiga”.
Então, finalmente, chegou o momento esperado: o discurso do ancião do Corpo Governante. Estavam todos sérios, principalmente depois de tudo que aconteceu. A preocupação era se o discurso do irmão seria interrompido pelas gracinhas. Bem, eu não iria fazer mais nada. Foi então que ele iniciou seu discurso:

- É com muito prazer que venho anunciar boas novas a vocês, irmãos. Nós nos sentimos como o apóstolo João, que disse que ‘amava verdadeiramente’ seus irmãos e se alegrava por estarem “andando na verdade”. Que bênção a verdade é para todos nós! Ela nos libertou de Babilônia, a Grande, e de suas doutrinas e traduções que desonram a Deus. A obediência à verdade nos ajuda a ser pessoas amorosas, bondosas e misericordiosas. E a verdade nos deu a possibilidade de ter uma condição limpa perante Deus e a perspectiva de vida eterna. Como vocês devem saber, estamos hoje fazendo o lançamento de mais uma publicação, que vocês poderão encontrar no balcão de pedidos. Estamos nos referindo a um novo cancioneiro, onde vocês encontrarão novos cântigos para Jeová Deus. Acho importante destacar que optamos por deixar algumas letras de músicas no idioma inglês, por apresentar uma melhor sonoridade, além de manter a mensagem da música.

Ele fez uma pausa, apresentando o novo cancioneiro. Então, retomou o discurso.

- Bem, mas isto não é só. Temos uma séria notícia aqui, que todos esperávamos ansiosos. Há muito tempo, um texto cujo significado era obscuro para nós, nos fazia imaginar o que ele significava. Este é o texto de Revelação 11, versículo 3, que diz “E farei as minhas duas testemunhas profetizar por mil duzentos e sessenta dias trajadas de saco”. Quem são estas testemunhas? Até pouco tempo, suas identidades não eram reveladas, mas Jeová Deus nos enviou uma luz sobre este ponto. Há alguns dias atrás, recebemos a visita de dois jovens muito especiais. Suas vidas sofreram uma reviravolta tremenda antes de nos visitar, e finalmente sentiram uma imensa vontade de entrar em contato conosco. Isto por que, irmãs e irmãos, estes dois jovens são as duas testemunhas de quem o versículo fala. Ficamos bastante surpresos e nos regozijamos por ver que o fim está próximo, e que Jeová está agindo. Bem, mas quem são estes dois jovens? Jeová parece amar o país chamado Brasil, pois é de lá que os dois jovens são. Seus nomes são Estêvão Marques da Silva e Marvin Leônidas Barbosa...

A notícia caiu como uma bomba. Abaixei minha cabeça, e fiquei sério. Todos olharam para trás, olhavam para mim. Agora eu era o centro das atenções. Todos agora podiam ligar uma coisa com a outra: minha mudança súbita de visual, meu jeito diferente de falar, minha viagem súbida aos Estados Unidos. Ainda unindo-se aos acontecimentos daquele dia, todos se deram conta de que estavam realmente presenciando algo extraordinário. Ninguém sabia ainda o que pensar, o que fazer. Apenas olhavam.
Fui chamado até o púlpito. Levantei-me e caminhei lentamente até a frente. Olhava as pessoas pelos cantos dos olhos. Como elas me admiravam. Como elas falavam bem de mim agora. Aquelas pessoas que me ignoravam durante toda a minha vida de fé, agora me respeitavam. Subi ao púlpito, e disse poucas palavras:

- Olá, irmãos. É um grande prazer estar aqui, e ser recebido por todos. Não tenho muito a dizer, mas os anciãos do Corpo Governante sempre me trataram muito bem, e eu não sabia dizer por quê. Sabia que havia um papel especial para desempenhar, mas não sabia ainda dizer o que era. Finalmente sei o que é agora, e este papel é ajudar os irmãos a entenderem a verdadeira fé. Espero que eu consiga desempenhar esta tarefa. Obrigado.
Isto foi suficiente para uma salva de palmas. O meu plano estava dando certo. Quando fui me sentar, vários irmãos ofereceram seus lugares para mim. Teve até disputa, parecia campeonato de vale-tudo. Recusei com educação, e disse que iria me sentar onde eu estava. Fui voltando devagar, e analisando a reação de cada irmão. O irmão Elias e sua esposa estavam radiantes. Ela como de costume, não parava de comentar com suas amigas. A irmã Teresa abriu aquele sorriso para mim, as duas irmãs que pregaram para mim da primeira vez tentaram sorrir mais. A dona Ana sorria com aquela humildade que lhe era peculiar. O irmão Osvaldo parecia orgulhoso, talvez de participar daquele momento “histórico”. O ancião Marcos e família (incluindo o tal do Sérgio) estavam da mesma forma orgulhosos. Agora eu fazia parte da panelinha teocrática do bairro. A irmã Amanda, no entanto, parecia um pouco preocupada, apesar de sorrir também. Ela sempre foi diferente.
Nem é preciso dizer que se formou outra disputa para me dar carona para casa. As ofertas vinham acompanhadas de uma oferta de jantar, cada uma mais irresistível que outras. Aquele dia não estava muito a fim de conversar sobre reuniões e sobre minha escolha, então dispensei todos. Disse que não poderia aceitar as ofertas deles, e que iria voltar de ônibus mesmo. Houve aqueles que quiseram voltar comigo, deixando suas caronas, ou até seus carros. Tive que despistá-los, me escondendo no banheiro.
Finalmente na rua, eu já me dirigia ao ponto de ônibus. Eu pude então pensar sobre tudo o que se passou, e finalmente rir do que aprontei na assembléia. Fui até um ponto onde tinha certeza que não haveria irmãos para me espreitar. O ônibus demorou bastante, como é normal em dia de domingo. Felizmente estava vazio. Talvez por ironia do destino, pude reparar um rosto familiar. A única pessoa que não tinha carona para voltar, e voltaria de ônibus também: a irmã Amanda.
- Olá, irmã. Puxa, estava até agora no salão? Eu não te vi por lá quando saí.
- Oi, irmão Marvin. Eu bem que saí cedo, mas o ônibus demorou demais hoje. Parece que o ônibus que passa geralmente no horário que saímos quebrou, e ônibus hoje já é demorado, imagina se um quebra.
- Tem razão, hehehe.
- Ei, por quê você não quis ir de carona? Eu vi muita gente te oferecendo.
- Ah, irmã, acho que eu queria mesmo um tempo para pensar.
- Hum, então eu estou te atrapalhando? – perguntou, preocupada.
- Não, nada disto. Eu até prefiro conversar com você do que estar sozinho...
Ela abaixou a cabeça, pensativa e vagamente triste. Então perguntei:
- Aconteceu algo, irmã?
- Não, nada. Não aconteceu nada.
- Então por quê parece triste?
- É bobeira minha, só isto...
- Ah, pode me contar. Pelo menos acho que agora eu estou habilitado a ouvir as pessoas, não é?
- É, acho que sim...
- Então?
- Bem, quando conversamos hoje de manhã, eu estava realmente feliz. É raro ter uma oportunidade de conversar assim. Pensei que pudéssemos ser finalmente amigos. Mas acho que agora vai ser mais difícil, não é?
- Não se preocupe com isto, irmã. Vou anotar meu telefone para você, e sempre que você desejar pode me ligar, está bom assim?
E conversamos pelo resto da viagem. Ela era uma pessoa solitária, que sofria os maus tratos do pai, e por possuir toda a família de “pessoas mundanas”, era deixada de lado pelos outros. Oficialmente todos éramos irmãos, e sempre tratávamos uns aos outros assim. Mas era nos pequenos detalhes que o isolamento se tornava claro. Eu sabia disto, eu também era assim. Então, acho que tudo que ela queria era um amigo, alguém para conversar.
Ao chegar em casa, esperei o horário certo, e me conectei à internet. Meu amigo Estêvão demorou um bocado para aparecer:

Marvin_the_martian:
Puxa, demorou hein, irmão!!
O Escolhido, versão turbo:
Puxa, foi mal, irmão. Sabe como é, você é anunciado como uma das duas testemunhas de apocalipse, e logo recebe vários convites para o jantar... A comida estava boa pacas...
Marvin_the_martian:
Quer dizer que você estava enchendo a pança? Hahahaha...
O Escolhido, versão turbo:
Claro!!! Você acha que eu vou perder a oportunidade?
Marvin_the_martian:
Olha, tome cuidado com o que você faz, para aproveitarmos o máximo possível. Não tem muito tempo que condenamos a gulodice.
O Escolhido, versão turbo:
Tudo bem, tudo bem. E então, qual é o próximo passo?
Marvin_the_martian:
Olha, vamos esperar um tempo, e então vamos dar prosseguimento ao plano “Caça às bruxas”.
O Escolhido, versão turbo:
Tudo bem. Quando você achar melhor...