sábado, 10 de dezembro de 2016

De madame a mendiga, as duas vidas de D. Aninha


Anotem o nome dela: Sarah Teófilo é o nome da jornalista que escreveu este primor de artigo que foi publicado no Estadão de 03/12/16.

Faltam adjetivos para qualificar esta brilhante matéria. Uma dolorosa exaltação à humanidade que nos une, tremenda homenagem a D. Aninha, que se alegraria ao lê-la, esteja onde estiver.

Saboreie, então, esta obra-prima do jornalismo brasileiro (sim, ainda se produz isso por aqui):

As duas vidas da dona da rua: de proprietária de R$ 4 mi em imóveis a moradora de rua em Moema

A história de Ana Helena Furman, que de proprietária de R$ 4 milhões em imóveis em Moema se tornou moradora de rua – e acabou assassinada dentro de uma casa que um dia foi dela

Da manhã à noite, Aninha perambulava por um trecho da Avenida Jandira, em Moema, perto da Avenida Ibirapuera. Chegava à lanchonete Premium logo que abria, às 6 horas, e sentava-se ao fundo, antes da chegada de qualquer um – preferia que não notassem que ela não tinha casa, vinha direto da rua. Bebia um chá e comia pão puro, e logo saía bater perna. Passava pelo ponto de táxi da esquina, pelo bar, pela lotérica, cumprimentava quem encontrasse. Aninha era aquela moradora de rua que fica por perto, um rosto familiar, conhecida de todos por ali.

Mas, até 2008, a moradora de rua era a própria dona da Avenida Jandira, no valorizado bairro da zona sul de São Paulo. Ana Helena Furman, 48 anos, detinha dois comércios, metade de uma lanchonete e o sobrado amarelo da esquina – um patrimônio avaliado em R$ 4 milhões. De uns anos para cá, ela decidiu se desfazer dos imóveis. Um a um, vendeu tudo a preço baixo. “Só trazia coisa ruim”, justificou. A drástica decisão só não a impediu de continuar por ali. À noite, invadia o sobrado amarelo que antigamente era seu (abria a porta com uma faca), deitava-se sobre uns lençóis brancos no chão mesmo, perto da porta, e assim permanecia em casa, mesmo que não fosse mais dela.

Uma trajetória que já era inusitada, de proprietária a mendiga da rua – e que foi interrompida por tragédia. No fim de setembro, Aninha foi encontrada morta, sobre os mesmos lençóis onde até há pouco dormia, com a cabeça esmagada a pancadas com um pedaço de madeira. O noticiário contou na época, sem detalhar, que uma “ex-moradora foi assassinada dentro de casa em Moema”. Dizia-se que a ex-proprietária se tornara moradora de rua depois de se desfazer dos imóveis – e mais não se falou, nem da influência de Aninha na Jandira, e nem de como a vizinhança tinha apreço por ela. Ninguém da rua foi convidado a opinar sobre o fato de que, da noite pro dia, perdera a figura querida e ganhara um assassinato.

Todos por ali conheciam a mulher magrinha, de 1,55 metro. Muitos sabiam da trajetória dela, dos tempos de madame (em que mal cumprimentava o pessoal) e de como se tornara moradora de rua (quando, para surpresa do povo, foi se tornando afável). Na Jandira, ela ganhava comida, num bar ou na lanchonete Premium – contentava-se com pouco, e o único resquício dos tempos de bonança era o chá diário, do qual não abria mão. Eduardo Torres, um dos taxistas, franze o cenho como quem sente dor ao falar dela. “Ela foi se transformando, ficando mais legal, e falando mais com o pessoal.”

Aninha herdara os imóveis do pai, Horácio Furman, e naquele tempo vivia dos aluguéis. Mal conversava com o pessoal quando ainda era a “Dona Ana”. “Ela passava sem dar muita bola. Descia para falar com os inquilinos, ou cobrar o aluguel, e deixava o táxi parado, com o velocímetro rodando”, diz o taxista Martinho Nóbrega, há 18 anos no ponto da Jandira. Ela se vestia bem na época, com roupas “chiques”, mesmo sem extravagância. Por três meses, viveu no Hotel Bourbon Convention Ibirapuera. Nessa época, a Jandira era só seu meio de vida. O pessoal da rua sabia só que ela “era sozinha”, que não tinha filhos e não gostava de falar da família. Certa vez, deixou escapar que os Furmans vieram da Rússia no começo do século 20, e se estabeleceram em São Paulo e no Paraná. Depois que ela foi morta, soube-se que era filha única de Edithe e Horácio Furman – uma família de muitas posses, mas de relações conturbadas.

“Quando os Furmans chegaram a Moema, a região não valia quase nada. Nem bonde chegava lá. Compraram terrenos e depois imóveis e esses bens ficaram na família desde então”, diz Horácio Furman, de 81 anos, primo e homônimo do pai de Aninha. “Não sei o que pode ter acontecido com Ana para que decidisse vender tudo. Só sei que os pais dela ficaram pouco tempo juntos, se separaram quando ela era pequena. Depois, o contato da mãe e filha (Ana) foi quase zero com o pai”, complementa Alan Peter Blau, que foi próximo do pai de Ana. Só voltaram a ter contato com a família quando Horácio (o pai) morreu, há pelos menos 20 anos, e tiveram de tratar da herança.

Família era tabu para Aninha – ela não tinha filhos e o pouco que falava era que já haviam brigado muito por causa das posses e que “dinheiro era uma merda, especialmente quando envolve família”, segundo a memória de Helena Fukini, cabeleireira num salão de beleza perto dali. Com uma relação familiar assim, ela mal entrou nos 40, em 2008, e começou a se desfazer do que tinha. Um a um, foi vendendo os imóveis herdados, sempre pelo preço venal. Dizia que estava “cansada de inquilino” e que não queria mais nada, nem mesmo que a imobiliária cuidasse. Chegou a oferecer o sobrado amarelo – o mesmo onde foi assassinada – por R$ 20 mil de entrada para o taxista Eduardo. “O resto você vai pagando devagar. Larga de ser bobo!’, ela dizia”, relembra o taxista. O sobrado acabou vendido por R$ 150 mil – 10% do valor do imóvel hoje, avaliado em R$ 1,5 milhão.

Vendeu, mas, pelo visto, não aceitou bem o fato de que não seria mais dona da Jandira. Mesmo sabendo que o novo proprietário do sobrado havia proibido, ela continuou dormindo ali, geralmente no vão entre uma escada e a porta da rua. Despertava e passava a maior parte do dia nos comércios da rua, unidades que também haviam sido dela. E mantinha o orgulho intacto. Dono de um bar quase na esquina da Ibirapuera com a Jandira – que ainda está no nome de Hilda Furman, tia de Aninha – o comerciante Walter Rocha conta que, certa vez, uma juíza passou pelo local e disse que a ajudaria. Nervosa, Aninha rejeitou tudo o que a mulher falava e disse que ninguém tinha nada a ver com sua vida. “Ela era muito boa de cabeça, não era doida. Mas, ultimamente, não aceitava a vida que levava. Não é fácil ser morador de rua”, diz.

Um dia, o novo dono do que havia sido sua casa soube que Aninha passava as noites no sobrado e chamou a polícia, que a expulsou. Esse parece ter sido o estopim para que os moradores e frequentadores da Jandira a acolhessem e não a largassem mais. Fizeram uma vaquinha para pagar alguns dias de pensão para a mulher. Quanto menos tinha, mais despertava compaixão. “Ela não queria mais saber de valores materiais, dizia que davam dor de cabeça. E ela parecia viver em paz com isso. Só fui descobrir que um dia foi rica depois que morreu”, conta Helena.

Aninha retribuía a ajuda da vizinhança. Na hora do almoço, trabalhava (sem receber salário) como entregadora da lanchonete, levando marmita pra gente da região. No decorrer do dia, fazia as vezes de office-boy: os comerciantes, da lotérica, do bar, do ponto de táxi, confiavam a ela boas quantias (R$ 1mil, R$ 2 mil, até R$ 5 mil) para que depositasse no banco. Com os trocados que recebia por um serviço ou outro comprava suas poucas coisinhas. Não aceitava doações em dinheiro. “Um dia, fui dar R$ 20, mas ela não aceitou. Disse que ‘não queria esmola’”, explica Walter. De resto, Aninha vivia do tratamento dos antes desconhecidos que agora a conheciam bem, desde que se livrou do que tinha e passou a ser valorizada pelo povo da rua.

Os pequenos serviços às pessoas de quem ela dependia agora enchiam os seus dias. Almoçava (pouco) na lanchonete Premium. Comia carne vermelha, mas dizia preferir frango, e evitava gordura. De vez em quando chupava um picolé, ou comia um chocolate – a sobremesa ela fazia questão de pagar. Além dos serviços que fazia para a rua, comprava bolos no supermercado abaixo da Avenida Ibirapuera, cortava em pedaços, os embalava em uma mesa da lanchonete Premium e revendia aos pedaços pela região. Outras vezes fazia sanduíches naturais. Usava touca e luvas para embalar os alimentos, com cuidado. Mais de uma vez os taxistas enganaram a fome com os petiscos da moradora da rua.

Aninha tinha um jeito requintado, elegante, falava inglês. Funcionários da lanchonete contam que ela conversava com os gringos, quando por acaso aparecia algum pela área. Andava sempre limpa, mesmo sem casa e um chuveiro. Simples, com roupas doadas, mas vaidosa. Passava um batom sempre que possível. E se engordava um quilo sequer, o desespero se instaurava. “Teria ajudado mais se soubesse que ela estava numa situação tão difícil, teria chamado ela para tomar banho lá em casa, por exemplo”, lamenta Marlene Pereira, a mais próxima de Aninha na rua – e que, depois do assassinato, passou a depositar flores à porta do sobrado que havia sido da antiga dona de metade da rua. “Mas ela dizia que não queria incomodar com nada. Ela reclamava de dor e cabeça, mas, quando a gente oferecia, não aceitava nenhum remédio”, conta Marlene.

Nos últimos tempos, ela relutava em se afastar de sua rua. A amiga Helena lhe ofereceu emprego no salão de beleza, um salário mínimo para “oficializar” a ajuda que ela já prestava ali. Aninha negou por razões geográficas. “Gosto de ficar na minha área”, justificou – e olhe que o salão fica a menos de 200 metros de onde a moradora da rua costumava circular. Conhecidos diziam que, até os últimos dias, ela continuava a se referir aos imóveis como se ainda fossem dela. Zelava pelos espaços, não gostava que os ambulantes colocassem a muamba em frente à porta do sobrado.

O pessoal da Jandira conta que, um dia, Aninha chegou a impedir uma tentativa de estupro em sua rua. Ela teria evitado que o Pedrão, vendedor de panos de prato do semáforo na esquina com a Ibirapuera, abusasse de uma moça perto dali. Daquele dia em diante, segundo conta a amiga Marlene, ganhara um inimigo. “Ela dizia que ‘aquele homem a odiava’ e de vez em quando se desentendiam.” Ana não gostava, por exemplo, quando Pedrão deixava os produtos no meio da calçada, pelo que lembram os vizinhos.

Mas era um desentendimento mais profundo do que poderiam prever – e foi o que resultou no fato que, há dois meses e meio, chocou aquele pedaço da cidade. Pedro Vieira da Silva, o Pedrão, confessou ter matado Aninha a pancadas enquanto ela dormia sobre os lençóis brancos, no chão do sobrado amarelo. Pedrão não explicou suas motivações a contento, disse apenas que “teve um surto”, então a polícia não descarta que o crime tenha sido encomendado e continua a investigar. Conforme o delegado Nilton Montoro, do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Pedro mostrou laudos de problemas psiquiátricos e hoje responde o processo em liberdade. O pessoal da rua não se conforma que ele continue andando pelas ruas de Moema (mas sumiu da Jandira).

A história triste da dona da rua que perdeu tudo e acabou assassinada poderia ter um final ainda pior – sem família para reclamar o corpo, Aninha poderia ter se tornado mais uma das 1.585 pessoas não reclamadas, enterradas como indigentes pela Prefeitura de São Paulo de 2014 para cá. Mas uma mobilização capitaneada por Celina da Silva, funcionária da lanchonete Premium, deu à moradora pelo menos a oportunidade de um fim mais digno. Foi à polícia, ao Instituto Médico Legal (IML), e fez o reconhecimento do corpo, o que evitou que Ana fosse parar numa cova rasa, sem identificação. Celina também levantou uma nova vaquinha, desta vez para que Ana tivesse um túmulo próprio, no Cemitério Jardim São Luiz. Levou ainda um batom para passar em Aninha, mas não foi possível encontrar a boca no rosto da mulher.

Do dia do enterro para cá, a amiga Marlene tem cuidado da memória de Aninha, para que continue sendo lembrada na rua onde passou a maior parte da vida – a cada uma ou duas semanas, deposita rosas brancas na porta do sobrado amarelo. Os moradores insistem também para que as investigações sobre a morte dela não parem. A imagem do corpo estirado pra lá da portinha amarela ficou na cabeça dos que vivem e trabalham por ali. Pela fresta, ainda é possível ver os lençóis com que a dona da rua forrava o chão. Ana deixou memórias boas – mas também espanto e horror. As flores deixadas por Marlene vão secar. O sobrado amarelo será ocupado por outro. Um investigador do DHPP teve tanta dificuldade para levantar a história da moradora de rua que, ao chefe, resumiu como “se ela não tivesse existido”. O povo da Jandira, ao acolhê-la em vida e depois ao impedir que Ana Helena Furman tivesse seu fim como indigente, conseguiu provar o contrário.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

TJSC condena igreja católica de Floripa por invasão de terreno

A informação é do próprio Tribunal de Justiça de Santa Catarina:

Igreja que invadiu terreno alheio para construir seu templo indenizará particular

A 2ª Câmara de Direito Público do TJ manteve sentença que condenou a Mitra Metropolitana a indenizar cidadão em R$ 50 mil após edificar templo religioso em parte de seu imóvel, localizado em município da Grande Florianópolis. A instituição religiosa, em apelação, sustentou a titularidade do terreno com base em escritura pública e acrescentou que obteve a propriedade através de usucapião.

Seus argumentos não convenceram os integrantes do órgão julgador, o qual baseou sua convicção em laudo pericial acostado aos autos. De acordo com o estudo do perito, o lote da esquina onde a igreja foi construída não lhe pertence.

Rasuras efetuadas sobre o documento de loteamento foram detectadas e corrigidas pelo expert. "Os lotes da requerida se localizam 'um lote' após esta rua, e não na esquina como indica a rasura feita na planta", pontuou.

"(Tal) ponto de vista não decorre de mera interpretação do perito, mas de minucioso trabalho realizado pelo profissional, motivo que, por se tratar de questão técnica, merece credibilidade para embasar o julgamento", registrou o desembargador substituto Jorge Luiz Costa Beber, relator da matéria.

Para o magistrado, constatado que a igreja abrange terreno pertencente a particular e ausentes elementos que possam afastar a conclusão a que chegou o perito, a manutenção da sentença de procedência do pedido se impõe. A decisão foi unânime (Apelação n. 0017379-40.2005.8.24.0064).



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Satanista cai no golpe do falso bruxo no interior de SP

É... não tá fácil pra ninguém!

A notícia pra lá de esquisitona é do Diário de Marília:

Satanista perde R$ 3 mil para falso bruxo e procura a Polícia Civil em Marília

Falso delegado da ordem dos bruxos teria prometido entregar seu filho em sacrifício satânico

Um balconista de Garça (35 km de Marília), integrante de uma seita satânica, procurou a Polícia Civil na manhã desta terça-feira, dia 6, relatando ter sido vítima de um golpe, perdendo R$ 3 mil em dinheiro, por um falso bruxo, que o teria convidado para participar da sociedade fraternal da qual supostamente fazia parte em Marília. O estelionatário teria mostrado um túmulo violado no cemitério da Saudade para a vítima e prometido entregar seu filho para sacrifício quando ele completasse sete anos.

O balconista de 50 anos procurou a Polícia Civil de Marília, revelando ter sido enganado por um estelionatário. Ele contou que fazia parte de uma seita satânica, conhecendo o criminoso na internet, que teria se apresentado como sendo delegado de uma suposta ordem de bruxos e presidente de uma irmandade. O desconhecido começou a pressioná-lo para entrar em sua sociedade fraternal, dizendo que procuraria a Polícia Federal para denunciá-lo como farsante.

A vítima entrou em contato pessoal com o suposto delegado da ordem de bruxos em sua residência, no Jardim América, pedindo para conhecer o templo, mas o estelionatário disse que o prédio havia sido destruído por evangélicos. O balconista passou então a pagar uma mensalidade para manutenção de um site, além de uma taxa de adesão, chegando ao valor total de R$ 3 mil em dinheiro.

O satanista também contou que o falso bruxo o levou até o cemitério da Saudade, onde teria mostrado um túmulo violado. Ele afirmou ter condições de levar os policiais até o local, para confirmar a veracidade das informações. Também contou que o estelionatário prometeu dar o seu filho em sacrifício para ritual satânico quando o garoto completasse sete anos de idade.

O crime apenas foi percebido quando o satanista pediu ao falso bruxo o número de registro de sua ordem, não obtendo êxito em sua solicitação. O balconista então decidiu procurar a Polícia Civil de Marília para denunciar o falso delegado da ordem de bruxos. O caso foi registrado como estelionato no Plantão da Central de Polícia Judiciária (CPJ) e será investigado.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Padre de SP escandaliza fiéis com drag queen em missa


A informação é do Extra:

Fiéis pedem afastamento de padre por presença de drag queen em missa

Um grupo de fiéis que frequenta o Santuário Nossa Senhora da Paz, no distrito de São Miguel Paulista, em São Paulo, criou um abaixo-assinado solicitando o afastamento de Paulo Sérgio Bezerra, o pároco local. A revolta dos fiéis foi motivada pela presença de uma drag queen durante uma das missas celebradas pelo religioso.

O texto, que até o momento foi assinado por 1.849 pessoas, é endereçado ao Bispo Dom Manuel Parrado Carral e afirma que os fiéis da igreja "estão perplexos com as atividades, pronunciamentos e posicionamentos escandalosos" adotados pelo padre. Segundo eles, o religioso convidou uma drag queen para frequentar a igreja, além de abrir as portas da instituição religiosa para que umbandistas também pudessem acompanhar as missas.

Em julho, o ator Albert Roggenbuck, criador da drag queen Dindry Buck, foi convidado pelo pároco para ministrar a homilia no novenário de Nossa Senhora do Carmo. Durante a celebração da missa, Albert também participou da distribuição da comunhão para os fiéis.

Por meio de suas redes sociais, Padre Paulo se defendeu e reafirmou seu propósito na igreja:

"Sou discípulo do homem mais livre que existiu sobre a face da terra: Jesus de Nazaré. Há 57 anos ando com ele (e com outros/as tantos que por ele se deixaram seduzir e convencer) - não me arrependo. Ele (eles) me inspiram ao diálogo com quem quer que seja, à tolerância, à abertura pluralista de idéias e práxis, a não me deixar engessar pela burocracia eclesiástica jurídica, fria e anacrônica. Mesmo que for parar na cruz, vou até o fim e, para escândalo de alguns e loucura para outros tantos, confesso: Ele é meu Senhor e meu Redentor", desabafou o pároco.

Procurado pelo Extra, o padre Paulo preferiu não se manifestar e argumentou que uma nova entrevista poderia "dar mais pano pra manga". O Bispo Dom Manuel Parrado Carral não foi localizado na Diocese para comentar o caso.



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Bispo católico de San Diego peita Trump em defesa dos imigrantes

Placa alerta imigrantes ilegais na fronteira dos EUA com o México

Hummmm... pensando aqui, o que será de Boca Raton, Florida, o campo missionário mais carente do mundo, segundo os evangélicos brasileiros que moram lá?

Sorte dos demais latinos que há católicos nos EUA dispostos a defendê-los e protegê-los.

A matéria é do IHU:

O bispo de San Diego enfrenta Trump e promete uma “mobilização em massa” caso deportar os imigrantes

Em caso de deportações em massa, “mobilizações em massa” da Igreja. O bispo de San Diego, Robert McElroy, enfrentou Donald Trump, e qualificou o plano do presidente eleito dos Estados Unidos de expulsar mais de 10 milhões de imigrantes indocumentados como “um ato de injustiça que mancharia a nossa honra nacional”.

A reportagem é de Cameron Doody e publicada por Religión Digital, 02-12-2106. A tradução é de André Langer.

Falando, na semana passada, em uma conferência na Universidade de San Diego, o bispo comparou as já anunciadas deportações em massa do magnata republicano com as expropriações históricas de terras dos indígenas nos Estados Unidos ou com o encarceramento de soldados japoneses no país durante a Segunda Guerra Mundial. Uma grande injustiça social, disse, diante da qual os católicos não devem se calar.

“Para nós, é impensável que nos mantenhamos quietos enquanto 10% do nosso rebanho é arrancado de nós e deportado”, denunciou McElroy. “É igualmente impensável que nós, como Igreja, presenciemos a destruição da nossa acolhida histórica aos refugiados em um momento em que a necessidade de oferecer santuários aos refugiados está crescendo em todo o mundo”.

Perguntado depois de sua intervenção por quais medidas concretas a Igreja pode tomar a favor dos imigrantes sob a sombra das políticas propostas por Trump, o bispo de San Diego primeiro mostrou-se consciente do medo que muitos deles estão experimentando, inclusive afirmando que “Eu também tenho medo”.



Simpatizar com os imigrantes indocumentados, no entanto, não é suficiente para os católicos, e inclusive o medo que muitos deles sentem pode fazer parte do problema.

“Quando falamos com a comunidade de indocumentados”, disse McElroy, “não podemos dar uma falsa sensação de serenidade. A nossa única esperança é dizer que nos manteremos unidos”. Solidariedade com os imigrantes que pode passar, inclusive, pela conversão dos templos católicos em santuários, ou que os católicos utilizem estratégias dos movimentos históricos pelos direitos civis.

“Todos os passos da campanha pelos direitos civis terão que ser empregados no caso de ter de enfrentar uma deportação em massa que destruísse famílias”, asseverou McElroy, referindo-se às lutas de políticos como Martin Luther King ou sacerdotes como Maurice Ouellet pela igualdade dos afro-americanos no sul dos Estados Unidos durante as décadas de 50 e 60.

“Temos que ter a mesma energia, compromisso e agilidade que caracterizaram a oposição católica ao aborto ou à liberdade religiosa em anos recentes”, animou o prelado os participantes da conferência, antes de acentuar novamente que, dada a situação em que se puseram em marcha as políticas racistas de Trump, “a Igreja nunca pode estar de acordo ou colaborar com um mal tão grande em nossa sociedade”.

Parece que não restou outra alternativa à Estátua da Liberdade...




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Tatuagem faz polícia identificar assassino


Bom, se você achava que já tinha vista de tudo, é melhor repensar essa pretensão.

A matéria é da BBC Brasil:

Tatuagem de suspeito de matar a própria mulher dá pistas sobre crime

Na Espanha, a polícia prendeu um suspeito de homicídio foragido e encontrou uma pista importante sobre o crime em uma tatuagem sua.

O homem estava sendo procurado pela polícia alemã após o assassinato de sua namorada na Baviera, no sudeste da Alemanha.

As autoridades não sabem a data exata da morte, mas uma tatuagem do homem mostra seu nome, Lisa, e data de falecimento - 27 de outubro de 2016.

O homem foi preso em Lloret de Mar, na Catalunha, com o filho de 18 meses do casal, que estava em boas condições de saúde.

O corpo da mulher fora encontrado por sua mãe na semana passada em um bloco de apartamentos na cidade alemã de Freyung, perto da fronteira checa.

Uma autópsia inicial apontou que a mulher morrera cerca de três semanas antes de ser encontrada.

A polícia federal da Espanha disse que o telefone celular da vítima tinha sido levado pelo suspeito com a intenção de usar suas redes sociais, enganando investigadores. O homem, identificado na Alemanha como Dominik R, foi rastreado na Espanha depois de ter retirado dinheiro no país.

A polícia da Espanha, que o deteve após a emissão de um mandado europeu de prisão, acredita que ele estava a caminho do norte da África.

Em nota, a polícia federal espanhola disse que a tatuagem "pode ser interpretada como a data de morte (da vítima)". Agora, o suspeito aguarda extradição para a Alemanha.



sábado, 3 de dezembro de 2016

Como identificar e se defender do assédio moral

A matéria é do Conselho Nacional de Justiça:

CNJ Serviço: O que é assédio moral e o que fazer?

Apesar de não ser uma prática nova no mercado de trabalho, o assédio moral vem sendo amplamente divulgado na última década, e as condutas de empregadores que resultam em humilhação e assédio psicológico passaram a figurar nos processos trabalhistas com mais recorrência. O assédio moral pode ser configurado em qualquer nível hierárquico e ocorre de forma intencional e frequente. Neste CNJ Serviço, procuramos esclarecer como costuma se caracterizar o assédio moral, suas consequências e o que fazer a respeito.

Conceito – Entende-se por assédio moral toda conduta abusiva, a exemplo de gestos, palavras e atitudes que se repitam de forma sistemática, atingindo a dignidade ou integridade psíquica ou física de um trabalhador. Na maioria das vezes, há constantes ameaças ao emprego e o ambiente de trabalho é degradado. No entanto, o assédio moral não é sinônimo de humilhação e, para ser configurado, é necessário que se prove que a conduta desumana e antiética do empregador tenha sido realizada com frequência, de forma sistemática. Dessa forma, uma desavença esporádica no ambiente de trabalho não caracteriza assédio moral.

Situações vexatórias – Como exemplos frequentes de assédio moral no ambiente de trabalho, podemos citar a exposição de trabalhadores a situações vexatórias, com objetivo de ridicularizar e inferiorizar, afetando o seu desempenho. É comum que, em situações de assédio moral, existam tanto as ações diretas por parte do empregador, como acusações, insultos, gritos, e indiretas, ou ainda a propagação de boatos e exclusão social. Os processos trabalhistas que resultam em condenações por assédio moral, quase sempre envolvem práticas como a exigência de cumprimento de tarefas desnecessárias ou exorbitantes, imposição de isolamento ao empregado, restrição da atuação profissional, ou ainda exposições ao ridículo.

Consequências – O assédio moral no trabalho desestabiliza o empregado, tanto na vida profissional quanto pessoal, interferindo na sua autoestima, o que gera desmotivação e perda da capacidade de tomar decisões. A humilhação repetitiva e de longa duração também compromete a dignidade e identidade do trabalhador, afetando suas relações afetivas e sociais. A prática constante pode causar graves danos à saúde física e psicológica, evoluir para uma incapacidade laborativa e, em alguns casos, para a morte do trabalhador.

Processo judicial – Não existe uma lei específica para repressão e punição daqueles que praticam o assédio moral. No entanto, na Justiça do Trabalho a conduta de assédio moral, se caracterizada, gera indenização por danos morais e físicos. Na esfera trabalhista, o assédio moral praticado pelo empregador ou por qualquer de seus prepostos autoriza o empregado a deixar o emprego e a pleitear a rescisão indireta do contrato.

As práticas de assédio moral são geralmente enquadradas no artigo 483 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que determina que o empregado poderá considerar rescindido o contrato e pleitear a devida indenização quando, entre outros motivos, forem exigidos serviços superiores às suas forças, contrários aos bons costumes ou alheios ao contrato, ou ainda quando for tratado pelo empregador ou por seus superiores hierárquicos com rigor excessivo ou ato lesivo da honra e boa fama. Já na Justiça criminal, conforme o caso, a conduta do agressor poderá caracterizar crimes contra a honra, como a difamação e injúria, contra a liberdade individual, em caso, por exemplo, de constrangimento ilegal ou ameaça.

O que o trabalhador pode fazer – O trabalhador que suspeitar que está sofrendo assédio moral em seu ambiente de trabalho deve procurar seu sindicato e relatar o acontecido, assim como a órgãos como o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Superintendência Regional do Trabalho. Ele também pode recorrer ao Centro de Referência em Saúde dos Trabalhadores, que presta assistência especializada aos trabalhadores acometidos por doenças ou agravos relacionados ao trabalho. Para comprovar a prática de assédio, é recomendado anotar todas as humilhações sofridas, os colegas que testemunharam o fato, bem como evitar conversas sem testemunhas com o agressor. Buscar o apoio da família e dos amigos é fundamental para quem passa por um processo de assédio moral.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Alguns portugueses pedem que papa não prestigie centenário de Fátima

Os "pastorinhos" de Fátima

A matéria foi publicada no El País de 26/11/16:

Fátima: milagre, mentira e/ou negócio

Um abaixo-assinado pede que o papa Francisco não respalde com sua visita a misteriosa aparição na cidade portuguesa

JAVIER MARTÍN

O papa Francisco visitará Portugal no ano que vem para comemorar o centenário da aparição da virgem a três pastorzinhos na localidade de Fátima, segundo a Igreja Católica.

O anúncio motivou um manifesto intitulado Contra a Credibilização do “Milagre” de Fátima, que está recolhendo assinaturas via Internet para que o pontífice visite o que quiser, mas que não perpetue essa história. Já são mais de 600 assinaturas em poucos dias, entre elas a de um sacerdote, além de antropólogos e personalidades da sociedade civil, como o músico Pedro Barroso, um de seus porta-vozes.

O abaixo-assinado não se opõe à visita nem à Igreja Católica, e sim, segundo os signatários, à propagação de algo infundado. “O milagre é um embuste, uma farsa, uma má encenação com cem anos, tempo suficiente para ter desmascarado o que hoje em dia é um negócio”, declarou Barroso à agência Lusa.

“O papa Francisco é uma personalidade que merece algum respeito nosso por muitas atitudes em favor de uma Igreja mais moderna, uma Igreja de verdade, uma Igreja Católica de grande responsabilidade, e muitas vezes com intervenções sociais e públicas de grande valor. Como vai referendar uma coisa destas?”, pergunta-se Barroso.

Os signatários pedem a Francisco que, se visitar Fátima, se muna do açoite para expulsar os vendilhões do templo que, no entender deles, é o que virou o santuário edificado no lugar das supostas aparições aos pastores, visitado por milhares de pessoas anualmente.

O manifesto recomenda uma série de livros sobre o que realmente ocorreu, como Fátima Nunca Mais (1999) e Fátima S/A (2015), do padre Mário do Oliveira, signatário do manifesto, e ressalta que a época do suposto milagre era marcada por um “grande obscurantismo cultural e com evidente aproveitamento dessa rústica ignorância” por parte da Igreja

“Não é preciso um grande esforço”, diz o texto, “para chegar a esta conclusão, nem grande erudição teológica para analisar o caso. A evidência do logro fica bem clara, bastando, no essencial, ler alguns documentos oficiais e alguns livros de pessoas – algumas assumidamente católicas – com autoridade na matéria [...] para concluir pela sua total inconsistência”.

O abaixo-assinado diz que, seguindo a postura de seriedade que vem adotando em seu pontificado, “o melhor serviço que o papa Francisco prestaria à verdade histórica, seria NÃO vir a Fátima, assim desmistificando o chamado ‘milagre dos pastorinhos’, recusando colaborar com ele, ou dar-lhe o seu aval”.

Francisco será o quarto Papa a visitar Fátima, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

STF decide que aborto até 3º mês de gestação não é crime


Reviravolta na Suprema Corte. A matéria é do ConJur:

Interromper gestação até 3º mês não é crime, decide 1ª Turma do STF em HC

Brenno Grillo

A proibição ao aborto é clara no Código Penal brasileiro, mas deve ser relativizada pelo contexto social e pelas nuances de cada caso. Por exemplo, a interrupção da gravidez é algo feito por muitas mulheres, mas apenas as mais pobres sofrem os efeitos dessa prática, pois se submetem a procedimentos duvidosos em locais sem a infraestrutura necessária, o que resulta em amputações e mortes.

Essa é a síntese do voto-vista proferido pelo ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, nesta terça-feira (29/11), no julgamento do Habeas Corpus 124.306. Com o voto de Barroso, a 1ª Turma da corte, por maioria, entendeu que a interrupção da gravidez até o terceiro mês de gestação não pode ser equiparada ao aborto. No caso, duas pessoas foram presas acusadas de atuar em uma clínica de aborto. A decisão não é vinculante.

Sobre as prisões — que foram anuladas de ofício porque o HC foi visto como substitutivo do recurso ordinário constitucional —, Barroso destacou não haver razão para mantê-los detidos, pois todos têm endereço fixo, são réus primários e não apresentam riscos à ordem pública ou à instrução criminal. O ministro também ressaltou que os acusados têm comparecido aos atos de instrução e cumprirão pena em regime aberto se forem condenados.

Os réus foram presos preventivamente em 2013, mas soltos pelo juízo da 4ª Vara Criminal da Comarca de Duque de Caxias (RJ). Um ano depois, foram detidos novamente após recurso do Ministério Público estadual à 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do RJ. A reforma na decisão motivou questionamento ao Superior Tribunal de Justiça, que não conheceu do pedido de liberdade dos acusados.

Criminalização desproporcional Já sobre o aborto, Barroso disse que a criminalização de atos como o julgado ferem diversos direitos fundamentais, entre eles, os sexuais e reprodutivos da mulher. “Que não pode ser obrigada pelo Estado a manter uma gestação indesejada.”

O ministro também ressaltou a autonomia da mulher, o direito de escolha de cada um e a paridade entre os sexos. Mencionou ainda a questão da integridade física e psíquica da gestante. “Que é quem sofre, no seu corpo e no seu psiquismo, os efeitos da gravidez.”

Especificamente sobre a condição social da mulher que decide abortar, Barroso criticou o impacto da criminalização do ato sobre as classes mais pobres. “É que o tratamento como crime, dado pela lei penal brasileira, impede que estas mulheres, que não têm acesso a médicos e clínicas privadas, recorram ao sistema público de saúde para se submeterem aos procedimentos cabíveis. Como consequência, multiplicam-se os casos de automutilação, lesões graves e óbitos.”

A criminalização, continuou Barroso, viola o princípio da proporcionalidade por não proteger devidamente a vida do feto ou impactar o número de abortos praticados no país. “Apenas impedindo que sejam feitos de modo seguro”, disse. “A medida é desproporcional em sentido estrito, por gerar custos sociais (problemas de saúde pública e mortes) superiores aos seus benefícios.”

Para impedir gestações indesejadas, em vez da criminalização, Barroso destacou que existem inúmeros outros meios, como educação sexual, distribuição de contraceptivos e amparo à mulher que deseja ter o filho, mas não têm como sustentá-lo. “Praticamente nenhum país democrático e desenvolvido do mundo trata a interrupção da gestação durante o primeiro trimestre como crime, aí incluídos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá, França, Itália, Espanha, Portugal, Holanda e Austrália.”

Clique aqui para ler o voto do ministro Barroso.



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

10.000 brasileiros mórmons vivem em Utah

O Templo - centro da devoção mórmon em Salt Lake City e no mundo.

Mesmo sem ser mórmon, tive o prazer de conhecer o Estado de Utah duas vezes, passando pela capital Salt Lake City em 2014 e 2015.

Utah é uma terra de grandes belezas naturais, com seus lindos e imensos parques nacionais, além dos pontos turísticos que fazem parte do inconsciente coletivo mundial como o Monument Valley.

Na segunda oportunidade, tomei mais tempo para conhecer um pouco da capital, em especial a praça do templo onde estão instalados os principais órgãos diretivos dos mórmons no mundo, além do Templo que é sede da religião.

Quando puder, ainda que de passagem, visite o Utah e a sempre bela e 

As fotos que ilustram esta matéria são de minha autoria e os artigos abaixo foram escritos por Cláudia Trevisan e publicados no Estadão de 27/11/16:

Dez mil brasileiros vivem o ‘sonho americano mórmon’

No centro mundial da religião, ainda reside o veterano Cláudio dos Santos, de 101 anos, que embarcou para Salt Lake City em 1955

SALT LAKE CITY - Ser mórmon no Brasil de 1955 era integrar uma minoria de 500 pessoas, entre as quais estava Cláudio dos Santos. Naquele ano, ele decidiu se mudar com a família para Salt Lake City, o centro mundial da religião fundada nos Estados Unidos na década de 1820. Aos 101 anos, Santos é o veterano dos cerca de 10 mil brasileiros que vivem na cidade, a maioria dos quais integrantes da igreja.

Em 1955, ele embarcou com a mulher e os três filhos para Miami em uma Fortaleza Voadora, um avião militar de quatro motores usado na 2.ª Guerra Mundial. De lá, eles viajaram por uma semana de ônibus até Utah, o Estado do Oeste americano cuja paisagem árida e montanhosa foi um dos cenários preferidos para os clássicos filmes de cowboy hollywoodianos.



Placa de boas-vindas na fronteira sul do Estado, com o Arizona, já anunciando o esplendor do Monument Valley a seguir.


Quando se fala no País, a especialidade lembrada é o rodízio

Feijoada ainda aparece, mas em segundo plano; grande parte dos funcionários é brasileira e busca aprender inglês

SALT LAKE CITY - Rodízio é sinônimo de Brasil nos Estados Unidos e, em Salt Lake City, a concorrência de espetos é acirrada. Na capital do Estado de Utah também há lugares de prato feito, feijoada, pudim e brigadeiro, regados a guaraná. Com o nome gringo de Rodizio Grill, o restaurante da família Utrera abriu as portas na cidade em 1998, quando a rede que já tem 19 endereços no país ainda engatinhava.

Dos 70 funcionários da empresa em Salt Lake City, 70% são brasileiros, na maioria integrantes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, segundo Nicolas Utrera, filho do fundador do negócio, Ivan Utrera. Entre eles está Diego Souza, que se batizou como mórmon em 2007, quando tinha 16 anos, e se mudou para a capital de Utah em 2014.

Depois de estudar inglês por alguns meses, ele entrou na LDS Business College, a escola de negócios ligada à igreja –a sigla de três letras se refere à versão em inglês de Santos dos Últimos Dias. Os mórmons são a força dominante em Utah e representam 60% da população do Estado. Além da igreja, eles controlam algumas das melhores instituições de ensino locais e oferecem a seus seguidores estrangeiros as mesmas anuidades que cobram dos americanos – em geral, os estudantes internacionais estão sujeitos a preços mais elevados.

Souza estuda contabilidade e se formará no fim de 2017. No ano passado, ele se casou com uma americana que conheceu na igreja, com a qual pretende ter o primeiro filho em breve. “No Brasil, eu era pobre. Aqui eu também sou pobre, mas tenho carro e consigo viajar para o exterior e pensar em comprar uma casa”, disse Souza, que trabalha como garçom e churrasqueiro. Enquanto ele falava com a reportagem, um de seus colegas passou anunciando o resultado de um jogo entre Corinthians e Flamengo: “2 a 1 para o Coringão!”.

Diego Cavalcante Quiroga, de 32 anos, chegou a Salt Lake City em abril com a mulher, Jessica, e os dois filhos, de 5 e 2 anos. Mórmon como o xará, ele é garçom da Rodizio Grill, estuda inglês e pretende entrar em uma faculdade de Utah. “Para ter algo melhor, eu precisava do inglês e vim para cá para aprender mais rápido”, disse Quiroga, que é de uma família mórmon.

Feijoada. O Rodizio Grill é um dos pelo menos seis restaurantes brasileiros que existem na região de Salt Lake City – em sua maioria churrascarias. Uma das exceções é o Sweet Spot, da família Drogueti, especializado em feijoada, salgadinhos, pratos feitos e doces brasileiros. Atrás do balcão, o patriarca Reinaldo Drogueti atende cerca de 150 brasileiros a cada sábado em busca de feijoada.

A cearense Lucy Filizola, que não pertence ao mundo dos restaurantes, se mudou para Salt Lake City em 1997, quando tinha 17 anos. “Minha mãe queria que eu viajasse”, disse a filha de uma família mórmon de classe média alta do Ceará. A brasileira se casou no ano seguinte e teve seis filhos, seguindo a tradição de grandes famílias da igreja. Formada em contabilidade na LDS Business College, Lucy é separada e cria sozinha os seus seis filhos, um dos quais tem paralisia cerebral. “Não tenho empregada e todos ajudam com o irmão na cadeira de rodas”, disse a cearense, dona de uma empresa de consultoria. “Não é como no Brasil. Aqui, eles são autossuficientes e cada um é responsável por suas coisas.”

Saída em missão é ritual de ‘transição’ para a vida adulta

Aos 17 anos, Vitor, o filho de Solange Cruz e de Silvio, prepara-se para seus dois anos como missionário, um ritual que todos os homens da igreja são encorajados a desempenhar. As mulheres servem por períodos menores – 18 meses – e representam um número crescente dos jovens mórmons que tentam converter pessoas ao redor do mundo. Atualmente, a igreja tem 75 mil missionários, alguns dos quais trabalhando nos Estados Unidos.

Há 16 meses, a brasileira Luiza Renta saiu de Porto Seguro para ser missionária em Salt Lake City. Sua função é ficar na Praça do Templo para explicar a visitantes os princípios e a história da igreja, em um misto de relações públicas e busca de convertidos para a religião. Missionárias de diferentes países trabalham no local, levando crachás com suas respectivas bandeiras. Como os homens, elas andam em dupla. A atual companheira de Renata é da Mongólia, mas o par muda a cada duas semanas. “Não trocaria os 18 meses por nada.”


Placa de boas-vindas na fronteira norte de Utah, com o Idaho, na rodovia I-15 que leva a Salt Lake City.


Clã Neeleman fica entre EUA e Brasil há 60 anos

Missionários chegaram ao País na década de 1950; família reúne hoje cerca de 80 pessoas

SALT LAKE CITY, UTAH - “Você voltaria para o Brasil comigo?” foi a primeira pergunta que Gary Neeleman fez à então namorada, Rose Lewis, quando retornou a Utah, depois de servir por dois anos como missionário mórmon no interior do Paraná e Santa Catarina. “Mas você acabou de voltar”, ela respondeu. “Sim, mas ainda não acabei”, justificou ele.

O ano era 1956. Dezoito meses mais tarde, o casal chegava a São Paulo com seu filho de 4 meses, John. Nos dez anos seguintes, Neeleman trabalharia como correspondente da agência de notícias United Press Internacional no Brasil. Nesse período, 3 dos 7 filhos do casal nasceram no Hospital Samaritano, na capital paulista, entre os quais David, dono da empresa de aviação Azul.

Sessenta e dois anos depois de pisar pela primeira vez no Brasil, Neeleman ainda não terminou sua história com o País. Desde 2001, ele é cônsul honorário do Brasil em Salt Lake City, responsável por atender uma comunidade estimada em 20 mil pessoas nos Estados de Utah, Idaho, Wyoming, Montana e Oeste do Colorado. Nove de seus descendentes foram missionários no Brasil, entre os quais um neto e uma neta que ainda estão servindo em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Além dos sete filhos, Neeleman e Rose têm 35 netos e 21 bisnetos, a maioria dos quais detentores de cidadania americana e brasileira. Com maridos e mulheres que foram agregados à família, o clã é formado por 80 pessoas.

“Eu gostei do Brasil e gostei dos brasileiros”, disse Neeleman, lembrando sua experiência de meados da década de 1950. Aos 82 anos, ele caminha com ajuda de uma bengala fabricada por outro empreendedor da família, Mark, dono de uma fábrica de produtos de bambu no Brasil.

Ao lado de Rose, que tem 81 anos, Neeleman fez seis viagens à Amazônia nos últimos anos para entrevistar pessoas e levantar dados para dois dos quatro livros sobre o Brasil que escreveram juntos: Trilhos na Selva, de 2011, e Soldados da Borracha, publicado no ano passado.

O primeiro conta a história fracassada da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, no início do século 20, na qual cerca de 10 mil trabalhadores faleceram, vítimas de doença tropicais. O outro fala da história de milhares de seringueiros que morreram na Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial para garantir o crucial fornecimento de borracha para as forças aliadas durante o conflito. Em uma das viagens que fizeram à Rondônia para levantar dados para os livros, Rose e Gary passaram uma noite na estrada, quando o carro em que os levava a Jaci-Paraná quebrou.

Guerra Civil. O mais recente livro do casal, A Migração Confederada ao Brasil, conta a história dos americanos que imigraram para o Brasil no fim do século 19, deixando o Sul dos Estados Unidos, depois da derrota para o Norte na Guerra Civil americana (1861-1865).



terça-feira, 29 de novembro de 2016

O desafio de (ainda) ser cristão no Iraque


Um dia, no futuro, quando alguém escrever a história atualizada do cristianismo, pelo menos um capítulo especial será reservado para o exemplo de força e fé que poucos, mas valorosos cristãos estão vivendo (e sobrevivendo) diariamente no Oriente Médio.

A matéria é da BBC Brasil:

‘Destruam nossos filhos antes de nossas igrejas’: cristãos iraquianos falam sobre devastação deixada pelo EI em Mossul

Quando o Estado Islâmico (EI) avançou sobre o território do Iraque, em 2014, milhares de cristãos foram os primeiros a deixar o país. Os poucos que restaram sob domínio do EI foram mortos ou forçados a se converter ao Islã. Agora, com a ofensiva do exército iraquiano sobre o local, alguns cristãos estão retornando às suas casas – e à sua religião.

Mossul, segunda maior cidade do Iraque, foi tomada pelo EI em junho de 2014. Localizada em uma província rica em petróleo e próxima da Síria - e das posições do EI no deserto - a cidade se tornou símbolo do poder dos extremistas. Foi ali que seu líder máximo, Abu Bakr al-Baghdadi, proclamou um "califado".

Por isso, desde o dia 17 de outubro, uma força de ataque formada por 50 mil combatentes iraquianos, entre soldados, guerrilheiros peshmerga (como são conhecidos os curdos iraquianos), tribos sunitas e milicianos xiitas – assistidos por aviões militares e consultores de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos – luta para reconquistar Mossul.

A batalha ainda está longe do fim, mas muitos têm conseguido escapar em meio aos combates e fugir para campos de refugiados ou para outras cidades no Iraque.

Uma delas é a cidade de Qaragosh. No mês passado, o exército iraquiano retomou o controle sobre a cidade, considerada a mais importante para os cristãos locais antes da invasão. Lá, as igrejas foram destruídas, estátuas de Maria decapitadas e crucifixos queimados pelo EI.

“Eu preferia perder meus filhos do que ver a igreja assim”, disse uma mulher à BBC.

Já Ismail, um jovem de 16 anos, e sua mãe foram forçados pelo Estado Islâmico a se converter ao Islã. “Eles me disseram ‘não há outro Deus além de Alá’ e ‘você será um muçulmano’. Eu disse ‘não há outro Deus além de Jesus’ e ele me bateu”, contou.

"Ele apontou uma arma na minha cabeça e disse à minha mãe 'se você não se converter ao Islã, vamos matar seu filho'", disse Ismail à BBC.

De volta a uma igreja perto de sua casa, Ismail espera começar uma nova vida. Mas para ele - e para milhares de outros cristãos no Iraque - o futuro ainda é incerto.



sábado, 26 de novembro de 2016

Adeus, Russell Shedd

Hoje foi um dia triste para os protestantes brasileiros, em especial os batistas, que tinham em Russell Shedd uma referência ímpar em termos de conhecimento e dignidade.

Tive o prazer de conhecê-lo no carnaval de 1986, quando participei de um retiro interdenominacional no Recanto Sal em Americana (SP), então de propriedade da Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo (CEPC), organização missionária de grande relevância no século XX, fundada por Bill Bright (1921-2003).

Foram dias de profunda comunhão e intenso aprendizado, e jamais me esquecerei das preleções de Russell Shedd sobre o evangelho de João, quando ele explicava os textos com aquela fala mansa, folheando lentamente as páginas da Bíblia que ele próprio editou pela Vida Nova.

Vai-se o servo e fica o legado, portanto.

Curioso que ele tenha falecido no mesmo dia em que Fidel Castro teve sua morte anunciada. Shedd aos 87 anos, Castro aos 90 anos de idade.

Duas vidas que, cada um à sua maneira, influenciaram o século XX e ajudaram a moldar o mundo em que vivemos, para o bem ou para o mal, segundo a ótica de quem se sentia abençoado ou ameaçado por cada um deles.

Tive o prazer de visitar Cuba em 2000. A ilha ainda guardava os sinais de uma época em que a Guerra Fria entre americanos e soviéticos dividia o mundo entre "bons" e "maus" ao gosto do freguês.

Senti-me bem, entretanto. Havia um nítido desejo de mudar, mas não se sabia como. O embargo econômico que o governo americano lhes havia imposto desde os tempos da Revolução Cubana parecia ser o mais importante fator limitador para uma mudança de regime.

Lendo a mensagem do presidente dos EUA, Barack Obama, ao povo de Cuba, dizendo que a História julgará Fidel e que o povo cubano está no limiar de novos (e melhores) tempos, fica a esperança de que aquele povo digno e batalhador encontre o lugar de honra que merece na comunidade das nações.

Por seu lado, Russell Shedd conquistou o seu lugar no coração de cristãos brasileiros e de outras nações com a sua humildade e seu enorme amor pela Palavra de Deus, da qual foi um dos maiores e melhores pregadores nas muitas décadas em que esteve entre nós.



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