sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Vaticano "condena" padre pedófilo a vida de oração

A notícia é da Folha:

Vaticano condena padre acusado de pedofilia "a uma vida de oração"

Um padre católico de Nova York acusado de ter abusado de uma dezena de adolescentes nos anos 1980 em uma escola no bairro do Harlem foi condenado pelo Vaticano "a uma vida de oração e penitência", confirmou nesta quinta-feira à Agência Efe um porta-voz da arquidiocese da cidade.

Wallace Harris, antigo pároco da Igreja de St. Charles Borromeo, no Harlem, está sob supervisão religiosa em uma residência do templo.

Antes de as denúncias terem vindo à tona, Harris era um dos padres mais conhecidos do Harlem e foi um dos principais organizadores da grande missa que o papa Bento 16 celebrou no estádio dos Yankees em 2008.

Meses depois da visita do papa a Nova York, o sacerdote foi afastado das funções depois que dois homens o acusaram de ter abusado deles em uma escola católica do Harlem na década de 1980.

Posteriormente, outras oito pessoas, inclusive um agente do Departamento de Polícia de Nova York, denunciaram Harris por abusos, mas a promotoria de Manhattan não chegou a apresentar acusações criminais contra ele porque os crimes já haveriam prescrito.

"Monsenhor Wallace Harris deveria ser afastado do sacerdócio pelo Vaticano", afirmou o sacerdote Robert Hoatson, conhecido por suas críticas à maneira como o Vaticano lidou com os casos de pedofilia.

Hoatson disse que as vítimas que tiveram a coragem de denunciar Harris "merecem algo mais" e, por isso, lamentou que o Vaticano envie à sociedade a mensagem de que nunca se responsabilizará por esses "desprezíveis" abusos, informa o jornal "Daily News".



Pastor de verdade não usa carro

O vídeo abaixo deixa no chinelo os pregadores da "teologia" do carro 0km na garagem...



P.S.: o caso das ovelhas perdidas aconteceu na Rússia e a dica é do Page Not Found.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quatro anos de blog e um funeral

Hoje não é um bom dia para comemorar o 4º aniversário do blog. Acabo de chegar do enterro de um amigo de infância, o Zé Augusto, que faleceu ontem aos 48 anos de idade, vítima de um mieloma múltiplo, uma espécie rara de câncer ósseo. Lembrei-me então de uma foto que tiramos exatos 40 anos atrás (vide abaixo), no 1º semestre de 1972, quando cursávamos o 3º ano do curso primário, como se chamava à época. Como a foto alegre denuncia, nela estão crianças felizes na faixa dos 8 anos de idade e na simplicidade de uma infância em que o bem maior era a amizade que as unia. O Zelão (como o chamávamos) era o último garoto sorridente agachado à direita, do meu lado. No funeral desta manhã, das crianças retratadas apenas o Reginaldo, o último agachado à esquerda, estava lá do meu lado. As lembranças, entretanto, continuam presentes. No mês passado, eu conversava com o Zelão e percebíamos o quanto aquela ligação antiga continuava viva. Brincávamos com o fato dele ser 3 dias mais velho que eu e, apesar da distância natural e temporária causada pelos caminhos diferentes que cada uma dessas crianças trilhou, conseguimos manter firmes e fortes os laços antigos. Poucos, entretanto, têm essa possibilidade e esse prazer de manter viva uma amizade de infância. Imagino que, depois de uma certa idade, muitos prefiram descartar todas as lembranças que os ligam a situações difíceis, especialmente da adolescência, e belas e valiosas histórias de vida se perdem nessa faxina emocional deletéria. Um funeral, 40 anos de uma foto e 4 anos do blog. Ainda que seja um fenômeno recente na história da humanidade, manter vivo um blog também é tarefa difícil. Requer amor, trabalho, carinho, desprendimento, renúncia às vezes. Mas tanto o blog, a infância e mesmo a morte jamais deixam de ser celebrações da vida, com todas as alegrias e dificuldades que ela nos apresenta. Se a morte marca o fim da existência terrena, apesar da tristeza e da saudade, os que ficam não podem perder a alegria de viver e deixar de celebrar tudo o que foi vivido antes da pessoa querida partir, encontrando nisso forças para seguir adiante. Prosseguir sempre, enquanto pudermos, é isto o que o blog e nós todos faremos, inclusive como homenagem aos que não tiveram tempo e oportunidade de nos acompanhar até aqui.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cristo Redentor fora das Olimpíadas já em 2012

Quando o inverno de 2016 chegar, centenas, talvez milhares, de turistas, dirigentes e atletas cristãos, hindus, muçulmanos, ateus, etc., subirão ao Corcovado e farão questão de tirar a tradicional foto com os braços abertos aos pés da estátua do Cristo Redentor, símbolo soberano que paira sobre a cidade do Rio de Janeiro, que sediará os Jogos Olímpicos daquele ano. Mais do que um símbolo religioso, o monumento é um cartão postal não só do Rio, mas do Brasil, imediatamente reconhecido e associado com a cidade e o país. Entretanto, agências internacionais repercutem hoje a notícia de que ameaça ruir a iniciativa da Embratur em aproveitar as Olimpíadas de 2012, em Londres, e montar uma réplica do Cristo no elegante bairro de Primrose Hill. A proposta tem enfrentado resistências, muito mais relacionadas à perturbação da paz das mansões milionárias que ali se aninham na capital britânica do que propriamente por razões religiosas. Entretanto, essas últimas são sempre ventiladas quando se trata de representar o monumento cristão num mundo e num país em que, cada vez mais, as diferenças religiosas e os movimentos ateístas optam por bloquear qualquer situação em que uma determinada religião tenha lugar de destaque em relação às outras ou mesmo à falta de fé. Você acha que Richard Dawkins vai perder uma oportunidade de ouro dessas para "tacar pedras na cruz" (à sua maneira, é claro)? O Cristo Redentor, que tecnicamente pertence à Arquidiocese católica do Rio de Janeiro, já havia tido uma participação mínima nos vídeos promocionais da campanha carioca para conseguir a indicação em 2009, justamente para se afastar a polêmica desde o início, mas daqui em diante não há mais como evitá-la. Como mostrar o Rio de Janeiro e o Brasil ao mundo escondendo o seu principal monumento? O que fazer para que ninguém se sinta ofendido com a ostentação de um símbolo religioso incontornável? Essas são apenas algumas das questões que veremos o mundo esportivo discutir nos próximos anos. Enquanto isso o conhecido monumento carioca terá que experimentar a sua fase equilibrista de "balança, mas não cai". De qualquer maneira, dificilmente alguém perderá a oportunidade de tirar a clássica e acolhedora foto com os abraços abertos. Minha modéstia me leva a confessar, entretanto, que cometi um erro ao iniciar este texto: não existe inverno no Rio de Janeiro...




Internet assusta liderança mórmon

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, cujos membros são mais conhecidos como mórmons, imaginava que pudesse ser benéfica para a denominação a enorme exposição na mídia local e mundial acarretada pela presença de um forte pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney, ex-governador do Estado de Massachussets (2002-2007). Independentemente do fato de Romney continuar sendo um forte candidato a obter a vaga na disputa pelo Partido Republicano, tendo vencido ontem as prévias no Estado da Flórida com 46% dos votos sobre os 32% do segundo colocado, Newt Gingrich, parece que os mórmons estão tendo que enfrentar alguns efeitos colaterais um tanto quanto inesperados. O receio dos líderes da religião é que a campanha renhida reforce o preocupante fenômeno de desfiliação crescente dos membros da igreja nos últimos anos, provocado sobretudo pela facilidade com que sua história, seus preceitos e dogmas são questionados na internet. Como a maior parte dos apoiadores do Partido Republicano é formada por evangélicos fundamentalistas, e eles não consideram os mórmons como evangélicos no sentido lato do termo, a tendência é que essa divulgação de pontos contrários à fé mórmon só faça aumentar conforme o tempo passa. O que é mais grave é que os Estados Unidos são não apenas o berço da religião como também o lugar onde se encontra o maior contingente de membros. Quando o caso é repercutido na imprensa de Salt Lake City, capital do Estado de Utah, fundado por mórmons e onde está a sua sede mundial, além de 60% da população ser filiada à igreja, isto significa que nuvens negras cobrem o famoso Templo da cidade. Em artigo publicado no jornal The Salt Lake Tribune, Peggy Fletcher Stak comenta, por exemplo, que um estudante mórmon, consultando a internet, soube que o fundador da religião, Joseph Smith, tinha várias esposas, tendo inclusive se casado com uma adolescente de 14 anos de idade. Outro missionário mórmon, preparando uma lição para a escola dominical, obteve a informação de que o Livro de Mórmon, texto-base da igreja e atualmente objeto de um musical de sucesso na Broadway, teria sido plagiado de outra obra. Assim, surpreendidos pelas informações que encontram facilmente online, como acusações de plágio a outro texto-base, "A Pérola de Grande Valor", e os 130 anos de banimento de negros da plena comunhão com a igreja, cada vez mais mórmons estão enfrentando uma crise de fé, tendo muitos chegado a se desfiliar da igreja por se sentirem traídos, e ao fazer isso passam para o lado dos adversários da religião. Isto se deve principalmente ao fato de que, até bem pouco tempo atrás, a única fonte de informação para os mórmons era a sua própria liderança, que determinava o que eles deveriam saber sobre sua história oficial. Por isso, Marlin Jensen, historiador e líder da igreja, foi designado como um dos responsáveis por responder a essas questões e tentar aplacar a ansiedade dos afiliados. Segundo declarou ao The Salt Lake Tribune, "nunca antes tínhamos enfrentado essa era da informação, com redes sociais e blogs publicando pontos de vista sem investigá-los adequadamente. A igreja está preocupada com a desinformação e informações distorcidas, mas estamos fazendo o nosso melhor e tentando duramente fazer com que a nossa história seja contada de maneira acurada". Ressaltando que polêmicas como a da poligamia não têm tanta ênfase "porque não são necessariamente pertinentes ao que se ensina no presente", Jensen salientou ainda que "a igreja não faz nenhum esforço para esconder ou obscurecer a sua história", razão pela qual quer reforçar a publicação online de dados históricos confiáveis sobre o seu passado. De qualquer maneira, não é nada fácil para um mórmon se desfiliar de sua religião, nem tanto pela decisão em si, mas pelo rompimento  brusco de laços familiares, profissionais e de amizade que essa atitude acarreta, sobretudo em Utah. Nessa altura do campeonato, parece não ser tão interessante assim que Mitt Romney vença as eleições primárias do Partido Republicano e assim se credencie para enfrentar o atual presidente Barack Obama no próximo dia 6 de novembro. Ficar debaixo da luz dos holofotes até lá não vai ser nada fácil...



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

De Cat Stevens a Yusuf Islam

Existem histórias de vida pouco conhecidas das gerações mais jovens que parecem vir da ficção, como a do garoto britânico Stephen Demetre Gergiou, nascido em Londres em 1948, filho de pai greco-cipriota e mãe sueca, que mais tarde seria conhecido como cantor e compositor brilhante pelo nome artístico de Cat Stevens. Naquele caldeirão efervescente de grandes talentos da virada dos anos 60 para os 70, Cat Stevens era um dos gênios, compondo e cantando músicas belíssimas que são conhecidas até hoje. Em 1975, chegou a morar por três meses no Rio de Janeiro, e o Brasil era um lugar constante em suas viagens para se refugiar da fama e se inspirar no país (e na sua música) para recarregar o seu excepcional talento. Se a história tivesse parado por aí, já seria o suficiente para se apreciar uma das maiores obras musicais do século XX. Só que em 1977 Cat Stevens se converteu ao islamismo e abandonou a carreira. Isto numa época em que ser muçulmano era visto como algo estranho para um cristão ocidental, mas não havia toda essa aura de espanto pós-Bin Laden. Afinal, o supercampeão boxeador norteamericano Cassius Clay também havia se convertido ao Islã em 1975, e usava o nome Muhammad Ali desde 1964, pelo qual se tornou mais conhecido, mas isso era visto como um fenômeno típico da revolta afroamericana contra a secular repressão no país. Além disso, era comum ver ícones pop flertando com religiões exóticas para os ocidentais (da época) como budismo e hinduísmo. Entretanto, mesmo numa época recém-saída da sociedade alternativa dos anos 60, soava estranho que um tremendo talento inglês com essa história de vida se tornasse muçulmano da noite para o dia. Curiosamente, tudo teria começado em 1976 na praia de Malibu, na California (EUA), quando Cat Stevens teria ficado a um fio de morrer afogado durante um banho de mar, e teria prometido a Deus que - se Ele o salvasse - iria servi-lo daí em diante. Na sua narrativa, uma grande onda teria aparecido "do nada" em seguida e o levado até a praia, assim meio o profeta Jonas sendo expelido pelo grande peixe. A partir de então, procurou abrigo no budismo, numerologia, I Ching, etc., até que numa viagem de férias ao Marrocos, logo depois de ter visitado Ibiza, se encantou com o Aḏhān, o canto ritual muçulmano que convoca às orações diárias da religião. Chamou-lhe a atenção que - pela primeira vez na vida, segundo ele disse - ouvia uma música cantada diretamente para Deus. Em 1977 Cat Stevens se converteria oficialmente ao Islã e a partir de 1978 adotou o nome árabe de Yusuf Islam ("Yusuf" é uma das transliterações arábicas do nome "José"), o que lhe rendeu inclusive uma negativa de entrada nos Estados Unidos em 2004, provavelmente por outro Yusuf ou Youssef (ou outra forma de escrever o nome) estar na lista negra dos terroristas procurados pelas autoridades norteamericanas, problema que depois foi resolvido, não sem alguns incidentes diplomáticos com o Reino Unido. 


Apesar de seu líder espiritual na época da conversão (o imã da mesquita que frequentava) ter lhe dito que não havia problema em prosseguir na carreira musical desde que observasse os valores morais da religião, Yusuf Islam, com aquele rigor, determinação e desejo de romper com o passado, típicos dos novos convertidos, preferiu abandoná-la. Mesmo assim, seus álbuns continuaram vendendo aos milhões pelas décadas seguintes. Estimativas de 2007 davam conta de que ele continuava recebendo cerca de US$ 1,5 milhão ao ano em direitos autorais, isto porque em 2006 ele havia lançado um novo disco depois de décadas de ausência, mas sempre com o supremo cuidado de adequar sua nova música aos preceitos islâmicos. De qualquer maneira, seria praticamente impossível suplantar a qualidade de sua música anterior, fruto de um talento raríssimo que soube combinar, ainda muito jovem, belas letras com melodias da melhor qualidade. Sua canção mais conhecida talvez seja "Wild World", uma das mais belas composições musicais do gênero humano, que todo mundo conhece, mas pouca gente hoje se lembra que é dele. Abaixo, segue um vídeo de "Wild World" numa apresentação em 1971, em seguida outra mais recente da mesma canção com trechos em zulu, já como Yusuf Islam. Nesse segundo vídeo, afine seus ouvidos e perceba a finíssima delicadeza da melodia realçada pelo simples e belíssimo piano ao fundo (a partir de 1m30s). Coisa de gênio. Depois, mais algumas belas composições do insuperável Cat Stevens, obras-primas como "Father and Son", "Morning Has Broken", "Where do the Children Play" e "The First Cut is the Deepest", só pra citar algumas. Delicie-se:















segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O centenário de Francis Schaeffer

Se vivo fosse, o teólogo Francis Schaeffer completaria hoje exatos 100 anos de idade. Nascido no bairro de Germantown na Philadelphia, Pennsylvania, nos Estados Unidos, no dia 30 de janeiro de 1912, e falecido aos 72 anos de idade no dia 15 de maio de 1984, Schaeffer é pouco conhecido das gerações mais jovens de cristãos, mas até a sua morte exerceu enorme influência no cristianismo em todo o mundo, influência esta mais percebida entre os de origem protestante, mas que também foi sentida em menor escala nos outros ramos da religião. Em 1955, juntamente com sua esposa Edith, fundou a comunidade L'Abri ("o abrigo" em francês) na Suíça, instituição hoje presente em todo o mundo, inclusive no Brasil, em Belo Horizonte (MG). O L'Abri serviu para a sua época inicial, principalmente, como um ponto de encontro e discussão para jovens e líderes de todo o mundo que enfrentavam a ansiedade típica de seu tempo (do nosso também, é forçoso reconhecer) e buscavam respostas para conciliar a sua fé com os parâmetros relativistas da modernidade (com o perdão da aparente contradição no termo, já que parâmetros deveriam ser minimamente estáticos ou "absolutos", mas a pós-modernidade impõe parâmetros que mal duram um ano, ou um mês às vezes). Francis Schaeffer se viu, então, de certa maneira compelido a orquestrar uma reação cristã de raiz protestante às muitas influências que ameaçavam solapar a fé de tanta gente. Para atingir este objetivo, trabalhou basicamente em duas áreas principais: a apologética e a política. Na primeira, salientou a necessidade de se debater de maneira direta e contundente quando se tratava de defesa da fé. Na segunda, incentivou a participação política maciça dos cristãos para que assim influenciassem os destinos de sua nação e do mundo em geral. Seu livro "Um Manifesto Cristão" de 1981 era uma clara referência, já no título, ao Manifesto Comunista de 1848 e ao Manifesto Humanista de 1933 e 1973. O subtítulo da edição americana era suficientemente claro: "A crise moral da América e o que os cristãos devem fazer". Os títulos de outros livros seus, como "A Morte da Razão", "O Deus que se Revela", "O Deus que Intervém" e "Como Viveremos", revelam por si só como ele não se intimidava ao enfrentar as angústias de seu tempo. Talvez no tema do aborto se sinta a maior influência que ele teve em outras searas cristãs, como a Igreja Católica, já que advogava por uma militância anti-aborto tão ativa como a dos partidos políticos e movimentos feministas. Como você percebe, qualquer semelhança com o tema aborto levantado por religiosos nas últimas eleições presidenciais brasileiras não é mera coincidência, ainda que quase nenhum deles (provavelmente nenhum) soubesse que foi Francis Schaeffer que deu o pontapé inicial no jogo político dos evangélicos fundamentalistas, primeiro em seu país natal, e agora em todo o mundo. Por isso mesmo, ele é muito criticado por ter sido o precursor e incentivador desse movimento, sobretudo nos Estados Unidos, onde o Partido Republicano é dirigido pelo conservadorismo evangélico local. Muito provavelmente, Francis Schaeffer não tinha ideia de onde o seu ativismo político-religioso poderia desembocar, mas o convívio muito próximo com a direita fundamentalista norteamericana levou com que seu filho Frank Schaeffer, que havia participado de todas as iniciativas políticas de Francis, após a morte deste se afastasse do protestantismo e hoje ele professa a fé ortodoxa grega, além de combater as ideias dos políticos religiosos que beberam na fonte de seu pai. Frank escreveu inclusive uma espécie de autobiografia dessa época, intitulado "Crazy for God" ("Louco por Deus"), mas dando uma conotação diferente à frase do que aquela que você talvez imagine. De qualquer maneira, Francis Schaeffer deixou um legado muito importante para a Igreja que talvez ainda não tenha sido compreendido em toda a sua extensão e nas amplas teias de suas implicações. Vivemos tempos muito conturbados no último século, nos quais ainda estamos emaranhados, e talvez um dia possamos avaliar melhor a sua obra, inclusive naquilo que a acusam de politização excessiva ou extremismo conservador. Algumas questões poderiam ser levantadas desde já. Até que ponto, por exemplo, essa ênfase excessiva na política pode ser culpada pela bandalheira da prosperidade e do materialismo que vem assolando o meio evangélico nas últimas décadas? Em que medida o foco cristão na campanha ideológica pela normatização de preceitos morais pode ter descaracterizado, sublimado ou - pior - substituído a pregação pura e simples do evangelho da cruz de Cristo? Entretanto, se este blog aqui existe (como tantos outros ditos "apologéticos", diga-se de passagem) não deixa de ter o seu 0,01% de influência de Francis Schaeffer, já que o que procuramos fazer, de maneira equilibrada, responsável e descontraída, é defender a fé cristã, mas sem desprezar ou desrespeitar ninguém, na medida do possível, é claro, já que não somos perfeitos e nem sempre aquilo que se escreve é entendido da maneira correta, aquela pretendida pelo emissor da mensagem. Talvez tenha sido este o caso de Francis Schaeffer. Quem pode garantir o contrário? Apesar da data estar passando em branco no Brasil (ah! estava até agora!)- nem a editora que publica seus livros por aqui aproveitou a efeméride -, e com pouca repercussão pelo mundo afora, parabéns pelo centenário, Francis!






Governo de SP condenado por racismo em livro didático

Essa história é uma daquelas que - infelizmente - merece ser divulgada para que se perceba a terrível sutileza do racismo, e como ele consegue se perpetuar mediante a ideologia ensinada às crianças, penetrando subrepticiamente nas mentes dos baixinhos e se manifestando das maneiras mais inesperadas, como no caso noticiado pelo Brasil247 (vide abaixo). Permito-me discordar apenas do título da manchete. Ainda que tenha muitas discordâncias com o estilo Geraldo Alckmin de governar, não acho que ele seja pessoalmente responsável pelo absurdo cometido, como a manchete dá a entender, pois certamente nem sabia do que estava escrito no livro didático. Isso deve ser obra de mais um daqueles inúmeros assessores super úteis, pagos a peso de ouro, que encomendam coisas sabe-se lá a quem e dá nisso. Aí, sim, no quesito "gestão", em pelo menos saber escolher as pessoas certas para os postos-chave, o governador é responsável:

Governo Alckmin é condenado por racismo

Material distribuído por professora da rede pública a alunos associava a cor negra ao demônio; indenização será de R$ 54 mil à família que se sentiu atingida

Fernando Porfírio _247 - O governo paulista foi condenado por disseminar o medo e a discriminação racial dentro de sala de aula. A decisão é do Tribunal de Justiça que deu uma “dura” no poder público e condenou o Estado a pagar indenização de R$ 54 mil a uma família negra. De acordo com a corte de Justiça, a escola deve ser um ambiente de pluralidade e não de intolerância racial.

O Estado quedou-se calado e não recorreu da decisão como é comum em processos sobre dano moral. O juiz Marcos de Lima Porta, da 5ª Vara da Fazenda Pública, a quem cabe efetivar a decisão judicial e garantir o pagamento da indenização, deu prazo até 5 de abril para que o Estado dê início à execução da sentença.

O caso ocorreu na capital do Estado mais rico da Federação e num país que preza o Estado Democrático de Direito instituído há quase 24 anos pela Constituição Federal de 1988. Uma professora da 2ª série do ensino fundamental, de uma escola estadual pública, distribuiu material pedagógico supostamente discriminatório em relação aos negros.

De acordo com a decisão, a linguagem e conteúdo usados no texto são de discriminatórias e de mau gosto. Na redação – com o título “Uma família diferente” – lê-se: Era uma vez uma família que existia lá no céu. O pai era o sol, a mãe era a lua e os filhinhos eram as estrelas. Os avós eram os cometas e o irmão mais velho era o planeta terra. Um dia apareceu um demônio que era o buraco negro. O sol e as estrelinhas pegaram o buraco negro e bateram, bateram nele. O buraco negro foi embora e a família viveu feliz.

O exercício de sala de aula mandava o aluno criar um novo texto e inventar uma família, além de desenhar essa “família diferente”. Um dos textos apresentados ao processo foi escrito pela aluna Bianca, de sete anos. Chamava-se “Uma Família colorida” e foi assim descrito:

“Era uma vez uma família colorida. A mãe era a vermelha, o pai era o azul e os filhinhos eram o rosa. Havia um homem mau que era o preto. Um dia, o preto decidiu ir lá na casa colorida.Quando chegou lá, ele tentou roubar os rosinhas, mas aí apareceu o poderoso azul e chamou a família inteira para ajudar a bater no preto. O preto disse: - Não me batam, eu juro que nunca mais vou me atrever a colocar os pés aqui. Eu juro. E assim o azul soltou o preto e a família viveu feliz para sempre”.

A indenização, que terá de sair dos cofres públicos, havia sido estabelecida na primeira instância em R$ 10,2 mil para os pais do garoto e de R$ 5,1 mil para a criança, foi reformada. Por entender que o fato era “absolutamente grave”, o Tribunal paulista aumentou o valor do dano moral para R$ 54 mil – sendo R$ 27 mil para os pais e o mesmo montante para a criança.

De acordo com a 7ª Câmara de Direito Público, no caso levado ao Judiciário, o Estado paulista afrontou o princípio constitucional de repúdio ao racismo, de eliminação da discriminação racial, além de malferir os princípios constitucionais da igualdade e da dignidade da pessoa humana.

“Sem qualquer juízo sobre a existência de dolo ou má-fé, custa a crer que educadores do Estado de São Paulo, a quem se encarrega da formação espiritual e ética de milhares de crianças e futuros cidadãos, tenham permitido que se fizesse circular no ambiente pedagógico, que deve ser de promoção da igualdade e da dignidade humana, material de clara natureza preconceituosa, de modo a induzir, como induziu, basta ver o texto da pequena Bianca o medo e a discriminação em relação aos negros, reforçando, ainda mais, o sentimento de exclusão em relação aos diferentes”, afirmou o relator do recurso, desembargador Magalhães Coelho.

Segundo o relator, a discriminação racial está latente, “invisível muitas vezes aos olhares menos críticos e sensíveis”. De acordo com o desembargador Magalhães Coelho, o racismo está, sobretudo, na imagem estereotipada do negro na literatura escolar, onde não é cidadão, não tem história, nem heróis. Para o relator, ao contrário, é mau, violento, criminoso e está sempre em situações subalternas.

“Não é por outra razão que o texto referido nos autos induz as crianças, inocentes que são, à reprodução do discurso e das práticas discriminatórias”, afirmou Magalhães Coelho. “Não é a toa que o céu tem o sol, a lua, as estrelas e o buraco negro, que é o vilão da narrativa, nem que há “azuis poderosos”, “rosas delicados” e “pretos” agressores e ladrões”, completou.

O desembargador destacou que existe um passado no país que não é valorizado, que não está nos livros e, muito menos, se aprende nas escolas.

“Antes ao contrário, a pretexto de uma certa “democracia racial”, esconde-se a realidade cruel da discriminação, tão velada quanto violenta”, disse. Segundo Magalhães Coelho, na abstração dos conceitos, o negro, o preto, o judeu, o árabe, o nordestino são apenas adjetivos qualificativos da raça, cor ou região, sem qualquer conotação pejorativa.

“Há na ideologia dominante, falada pelo direito e seus agentes, uma enorme dificuldade em se admitir que há no Brasil, sim, resquícios de uma sociedade escravocrata e racista, cuja raiz se encontra nos processos históricos de exploração econômica, cujas estratégias de dominação incluem a supressão da história das classes oprimidas, na qual estão a maioria esmagadora dos negros brasileiros”, reconheceu e concluiu o desembargador.






domingo, 29 de janeiro de 2012

Dawkins não quer templo ateu mas topa ser papa



Explodiu como uma bomba criacionista no meio ateu a notícia divulgada aqui no blog de que o filósofo suíço Alain de Botton está gastando os tubos no projeto de construção de um templo ateu em Londres, capital do Reino Unido, que seria o primeiro de várias catedrais ateias espalhadas pelas cidades mais importantes do planeta. O jornal australiano The Sidney Morning Herald informa que que o militante ateu britânico Richard Dawkins não ficou nem um pouco contente com o plano do seu colega suíço, principalmente porque Alain de Botton criticou aquilo que ele chama de "abordagem agressiva e destrutiva" de Dawkins. Veja, amigo ateu, não são só os religiosos que consideram Dawkins "agressivo" e "destrutivo". O militante britânico, que parece gostar do papel de "papa ateu" nas horas vagas, decidindo o que é certo e errado na sua seara (e na dos outros também), replicou que considera a ideia de um templo ateísta como uma contradição em termos, além de criticar o dinheiro - a seu ver - "desperdiçado" no projeto: "Ateus não precisam de templos [...] eu acho que há coisas melhores onde se gastar essa soma de dinheiro. Se você quiser gastar dinheiro com o ateísmo, você poderia melhorar a educação secular e construir escolas não-confessionais nas quais se ensine o pensamento crítico, cético e racional". Pelo menos a controvérsia serviu para o sumidão Dawkins voltar a aparecer na mídia de outra maneira que não mediante os epítetos de "fujão" e "covarde" por se recusar terminantemente a debater com o apologeta cristão William L. Craig (conheça mais essa polêmica clicando aqui).




Causos bancários



"Causos" antigos que circulam entre ex-funcionários do Banco do Brasil, cujas frases são de vários autores anônimos, e também não se conhece quem fez a compilação original. De qualquer maneira, merecem ser divulgados para que mais pessoas saibam como era o jargão bancário de algumas décadas atrás, numa época em que ainda se datilografava ou preenchia extratos de conta-corrente a mão. Aliás, também como ex-funcionário do BB, eu preciso localizar as anotações em que foram compiladas as frases "antalógicas" de uma ex-chefe, a precursora da Magda do "Sai de Baixo", e também registrá-las para a posteridade. Garantia de boas risadas:



Há muito tempo, quando o Banco do Brasil era considerado o maior banco rural do mundo, mantinha em sua Carteira Agrícola um quadro de avaliadores (também conhecidos por "fiscais") que eram pessoas com conhecimentos na área, contratadas para verificar "in loco" se os pedidos de financiamento estavam em ordem, etc, etc.

Ocorre que nem sempre eram pessoas com bom nível de escolaridade. O que valia era o conhecimento prático. Daí nos relatórios constarem algumas "batatadas" que alguns gaiatos, como não poderia deixar de ser, anotaram para gáudio de todos nós:

- "O sol castigou o mandiocal. Se não fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram".

- "Mutuário triste e solitário pelo abandono da mulher não pode produzir".

- "Acho bom o Banco suspender o negócio do cliente para não ter aborrecimentos futuros".

- "Vistoria perigosa. As chuvas pluviais da região inundaram o percurso, que foi todo feito a muito custo".

- "Mutuário faleceu. Viúva continua com o negócio aberto".

- "O contrato permanece na mesma, isto é, faltando fazer as cercas que ainda não ficaram prontas".

- "Foi a vistoria feita a lombo de burro com quase 8 km".

- "A máquina elétrica financiada era toda manual e velha".

- "Financiado executou trabalho braçalmente e animalmente".

- "O curral todo feito a capricho, bem parecendo um salão de baile a fantasia".

- "Visitamos o açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos que o mesmo estava vazio".

- "Os anexos seguem em separado".

- "A lavoura nada produziu. Mutuário fugiu montado na garantia subsidiária".

- "Era uma ribanceira tão ribanceada que se estivesse chovendo e eu andasse a cavalo e o cavalo escorregasse, adeus fiscal!".

- "Tendo em vista que o mutuário adquiriu aparelhagem para inseminação artificial e que um dos touros holandeses morreu, sugerimos que se fizesse o treinamento de uma pessoa para tal função".

- "Assunto: Cobra. Comunico que faltei ao expediente do dia 14 em virtude de ter sido mordido pela epigrafada".



sábado, 28 de janeiro de 2012

TCU multa em R$ 100 mil e condena Sonia Hernandes a devolver R$ 785 mil aos cofres públicos

Parece que a batata está assando na igreja renascer com a condenação que o Tribunal de Contas da União aplicou à bispa Sonia Hernandes, esposa do "apóstolo" Estevam Hernandes, negando provimento - em julgamento realizado no último dia 24 de janeiro de 2012 - ao recurso que ela havia impetrado contra decisão anterior (de abril de 2011) que já a havia sentenciado a devolver R$ 785.000,00 (setecentos e oitenta e cinco mil reais), além de pagar multa de R$ 100.000,00 (cem mil reais) por não ter comprovado a efetiva aplicação de recursos federais obtidos através do FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, que foram repassados pelo Ministério da Educação à Fundação Renascer entre 2003 e 2004, então dirigida pela bispa em questão. Pelo contrato, a verba pública deveria ter sido aplicada na alfabetização de 8.000 jovens e adultos. Segundo o TCU, não há qualquer prova concreta de que o valor destinado à Fundação Renascer tenha sido efetivamente aplicado para esse fim, e o valor teria sido (estranha e) integralmente sacado à vista na boca do caixa, o que levou o Tribunal a instaurar o competente procedimento administrativo visando a recuperação do dinheiro supostamente desviado. Além disso, o Ministério Público Federal vem buscando, desde 2010, a responsabilização criminal tanto da bispa Sonia como dos demais diretores da Fundação Renascer. A pendenga teria sido, provavelmente, uma das razões que levaram o bispo Zé Bruno a se afastar da igreja renascer e fundar a sua própria denominação, já que consta a assinatura dele nos convênios firmados em 2003 e 2004, época em que tanto Estevam como Sonia estavam ausentes e ele assinou como vice-presidente e, lógico, representante substituto dos manda-chuvas da instituição. Como o julgamento do processo (que tem o nº 007.494/2010-6 no TCU) é muito recente, o Acórdão (de nº 209/2012) que confirmou a sentença anterior ainda não foi publicado, mas no acórdão anterior, de nº 2573/2011 (disponível na íntegra no site do TCU), se pode obter mais detalhes de tudo o que está envolvido nessa polêmica. Abaixo, transcrevemos apenas o voto do Relator do caso, Dr. Aroldo Cedraz, que finaliza o Acórdão:



A presente tomada de contas especial foi instaurada pelo FNDE em decorrência da inépcia da prestação de contas de convênio firmado com a Fundação Renascer/SP para comprovar a correta aplicação de R$ 785.663,95 transferidos para ações de alfabetização de jovens e adultos em São Paulo/SP, uma vez que:

a) foram realizados saques em espécie na conta corrente do convênio, sem identificação do destinatário dos recursos;

b) a documentação apresentada era insuficiente para comprovar o nexo entre o desembolso de valores e as despesas realizadas, haja vista que somente foi apresentada relação de nomes dos alfabetizadores e coordenadores e respectivos pagamentos supostamente realizados, sem nenhum documento comprobatório, além de não terem sido encaminhadas notas fiscais dos materiais adquiridos, recibos dos alfabetizadores referentes às bolsas e aos vales-transportes recebidos e folhas de frequência dos alunos alfabetizados.

2. Inicialmente, foram citados a Fundação Renascer/SP e seu ex-vice-presidente José Antônio Bruno, cujas alegações de defesa, conforme demonstrou a Secex/SP (fls. 638/644 do volume 3), comprovaram sua ausência de responsabilidade pelas irregularidades e pelos débitos apurados.

3. Acompanho, nesse particular, as conclusões da unidade técnica, que insiro entre minhas razões de decidir, e considero que aqueles responsáveis devem ser excluídos desta relação processual. No caso da pessoa física, porque ficou configurado que o ex-vice-presidente não teve qualquer participação na execução do convênio, não praticou qualquer ato de gestão de recursos e somente assinou o termo de convênio em representação da ex-presidente, que se encontrava em viagem. No caso da pessoa jurídica, hoje sob intervenção judicial e em processo de liquidação, porque não ficou comprovado qualquer benefício por ela auferido com o uso dos recursos repassados.

4. Foi feita, assim, a citação da ex-presidente Sônia Haddad Moraes Hernandes, que alegou, em síntese, que:

a) não participou da celebração e da gestão do convênio e não foi cadastrada como responsável junto ao FNDE;

b) o objeto do ajuste foi executado, os objetivos foram atingidos e a respectiva prestação de contas demonstra a correta utilização dos recursos, tanto assim que foi aprovada pelo FNDE.

5. Como demonstrou a Secex/SP, cujas análises e conclusões novamente incluo entre os fundamentos de meu entendimento, tais argumentos não merecem ser aceitos, eis que:

a) a ex-presidente assinou o plano de trabalho, a prestação de contas e as justificativas a questionamentos formulados por auditoria do FNDE (fl. 313 do volume 1), o que significa que participou da celebração e da execução do convênio, e somente não assinou o respectivo termo porque estava em viagem;

b) as irregularidades na prestação de contas acima descritas (item 1 deste voto, alíneas a e b), impedem o estabelecimento de vínculo entre os valores transferidos e as despesas realizadas e a efetiva execução do objeto com recursos do convênio;

c) embora tenha sido inicialmente aceita pelo FNDE, como afirmou a responsável, a prestação de contas foi posteriormente reavaliada por aquela autarquia e rejeitada.

6. Deve ser registrado, ainda, que a ex-presidente da Fundação Renascer/SP deixou, em duas oportunidades, de apresentar a documentação complementar que permitiria comprovar a boa e regular utilização das quantias por ela recebidas: por ocasião da fiscalização realizada no local pela Controladoria-Geral da União, que anotou não haver sido “possível realizar a fiscalização pretendida devido à dificuldade encontrada pela equipe em ser atendida pelos responsáveis pela Fundação Renascer, que não disponibilizaram a documentação do convênio” (fls. 350/352 do volume principal), e por ocasião da apresentação de sua defesa perante esta Corte, à qual não foi juntado nenhum dos elementos comprobatórios mencionados no ofício citatório.

7. Assim, diante da persistência da ausência de comprovação do correto uso dos recursos, acato os pareceres da Secex/SP e do MPTCU e voto pela adoção da minuta de acórdão que trago à consideração deste colegiado.

[...]

VISTOS, relatados e discutidos estes autos de tomada de contas especial em decorrência do não encaminhamento de documentação exigida para correta prestação de contas dos recursos do convênio 828.035/2004, por meio do qual foram repassados R$ 785.663,95 (setecentos e oitenta e cinco mil seiscentos e sessenta e três reais e noventa e cinco centavos) à Fundação Renascer/SP, em 2004 e 2005, no âmbito do Programa Brasil Alfabetizado, para alfabetização de 8.000 (oito mil) jovens e adultos, com idade superior a 15 (quinze) anos, da zona urbana de São Paulo/SP.

ACORDAM os Ministros do Tribunal de Contas da União, reunidos em sessão da 2ª Câmara, com fundamento nos arts. 1º, inciso I, 16, inciso III, alíneas c e d, 19, caput, 23, inciso III, 28, inciso II, e 57 da Lei 8.443/1992, c/c o art. 214, inciso III, alínea a, do Regimento Interno:

9.1. excluir a Fundação Renascer/SP e José Antônio Bruno deste processo;

9.2. julgar irregulares estas contas especiais;

9.3. condenar Sônia Haddad Moraes Hernandes a recolher ao FNDE as importâncias a seguir discriminadas, atualizadas monetariamente e acrescidas de juros de mora das datas abaixo apontadas até a data do pagamento:

Data                     Valor (R$)            Natureza

18/11/2004        471.398,37             Débito

03/01/2005       314.265,58             Débito

07/10/2005                80,69             Crédito

9.4. aplicar à responsável multa de R$ 100.000,00 (cem mil reais), a ser recolhida ao Tesouro Nacional atualizada monetariamente do dia seguinte ao do término do prazo abaixo estipulado até a data do pagamento;

9.5. fixar prazo de 15 (quinze) dias a contar da notificação para comprovação do recolhimento das dívidas acima imputadas perante o Tribunal;

9.6. autorizar a cobrança judicial das dívidas, caso não atendida a notificação;

9.7. encaminhar cópia desta deliberação e do relatório e do voto que a fundamentaram ao procurador-chefe da Procuradoria da República no Estado de São Paulo.



A moda é ser crente

A dupla sertaneja gospel goiana (com o perdão da tripla redundância) até que canta bem, e pelo menos reconhece que ser crente hoje é fashion, ainda que a gente fique sem saber se a moda é de viola ou se tem muita gente dizendo que é crente porque "tá na moda". Isso me lembra um pastor humilde (coisa rara hoje em dia, não é mesmo?) de uma igreja que não revelarei o nome (porque pastor, mesmo de denominações pouco conhecidas naquela época, era pastor por vocação e não por cobiça), que participou de um concurso de músicas natalinas muito tempo atrás numa cidade do interior de São Paulo. A melodia era boa, mas o refrão simples causou risos contidos, troca de olhares espantados e constrangimento geral na plateia, além de ter deixado o júri em pânico. No final, ele ainda se zangou por ter ficado em último lugar e - na falta de alguém para desabafar - veio reclamar comigo:

Ele - Irmão, não entendo por quê fiquei em último lugar. A música era tão boa...
Eu - De fato, irmão, a música era boa, mas havia um "probleminha" com o refrão...
Ele [surpreso] - Havia? ... Qual?
Eu [um dia ele teria que saber!] - É que Jesus nasceu em Belém, e não em Jerusalém, irmão...

[constrangimento geral]

O pastor deu aquela famosa pausa do "caiu a ficha", engoliu em seco com o olhar perdido no infinito, depois balbuciou alguma coisa como "então tá..." e, muito humilde, enfiou a viola no saco e saiu rapidinho sem nem se despedir... eu fiquei com a consciência tranquila, afinal alguém tinha que fazer o "serviço sujo" de alertá-lo do "descuido bíblico" antes que a reputação dele fosse Jerusalém abaixo se ele insistisse em continuar cantando daquela maneira...





sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Radar humano

Se algum cara resolvesse fazer essa brincadeira no Brasil, ser preso pela polícia seria o menor dos males que ele teria que enfrentar. Muito provavelmente ele seria atropelado ou levaria uma bala na testa, mas quando se trata de países mais calmos, o resultado até que é engraçado:



P.S.: como eu sempre falo para os meus amigos goianos, deviam inventar um radar que identificasse duplas sertanejas à distância e impedisse que eles saíssem de Goiás... #prontofalei


A religiosidade dos não-religiosos

Excelente artigo de Bernardo Cho publicado no seu blog, sobre o vídeo Jesus>Religião que já foi comentado aqui no texto "A religião do ódio à religião", que merece ser divulgado para que as pessoas pensem melhor e contem até 10 antes de aceitar ideias simplistas fáceis de deglutir, mas que não têm nenhum poder nutritivo:

A Religiosidade dos “Não-Religiosos.”

Estamos em meados de Janeiro, o ano acadêmico já está a todo vapor (pelo menos aqui na terra do frio), e eu realmente deveria estar fazendo outra coisa neste exato momento. Mas, resolvi aproveitar minha pausa de hoje para fazer um breve comentário sobre o video religioso (isso mesmo, religioso) intitulado “Jesus>Religion”, que está muito em voga ultimamente nas redes sociais.

Eis o porque que eu acho essa ideia de um “Jesus sem religião” profundamente insatisfatória:

1- Para começar, esses movimentos anti-religião usam péssima terminologia. Religião, nas palavras de Tony Jones (ecoando Friedrich Schleiermacher) por exemplo, é a expressão da experiência humana com o transcendente; não é algo necessariamente bom, nem ruim, é simplesmente inevitável. Só que, para a turma do Jesus não-religioso, “religião” é um termo que encapsula todas as suas experiências negativas em relação a fé. Em outras palavras, os não-religiosos chamam de religião tudo aquilo que os marcou negativamente ao longo da vida, incluindo aquilo que não correspondeu ao apetite de seu consumismo religioso. Tudo bem, há pessoas que sofreram formas genuínas de abuso em instituições religiosas e, portanto, é até compreensível que alguns achem interessante demonstrar aversão ao termo. Mas, isso não justifica a má terminologia. Transferir ao termo “religião” todo tipo de conotação pejorativa é tão simplista e ilegítimo quanto dizer que a instituição da “família” é ruim pelo fato de existirem pais que abusam de seus filhos – uma sugestão que beira a burrice.

2- Colocar Jesus contra religião é uma dicotomia falsa. Aquela frase “religião é o homem em busca de Deus, e cristianismo é Deus em busca do homem” pode até soar bonito, mas é superficial. O cristianismo é a religião que tem como matriz o evangelho de Jesus, a mensagem do Deus que veio ao mundo na pessoa de Seu Messias. Não obstante, o cristianismo, tendo emergido da religião veterotestamentária através da proclamação escatológica dos apóstolos, é religião sim. Aliás, Jesus mesmo tinha uma religião – a do Sinai. E ele não veio “abolir a religião,” nem se colocar “no outro extremo do espectro.” Jesus veio, nas palavras de N. T. Wright, redefinir o povo de Deus ao redor de si mesmo. Isso significa que Jesus não está necessariamente em oposição à religião; significa que ele veio mostrar a sua finalidade. O próprio irmão de Jesus, Tiago, sugere isso: “A religião que Deus, o Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas necessidades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tg 1:27). Além disso, se Jesus tivesse abolido a religião e suas expressões ou, como muitos gostam de dizer hoje em dia, toda forma de fé institucionalizada, como é que ele pôde estabelecer sacramentos, como o batismo e a ceia? Não nos esqueçamos também de que não existe cristianismo individual, sem comunidade. Como T. F. Torrance acertadamente definiu, “conversão é o retornar do ‘eu-individualista’ para o ‘nós-coletivo.’” Congregar é estar com outros em nome de Jesus. E uma reunião onde dois ou mais estão em nome de Jesus já é em si um ato religioso e institucional, mesmo que tal grupo não tenha um CNPJ.

3- O anti-religiosismo de hoje é raso do ponto de vista exegético e pobre no que diz respeito à sua consciência histórica. Sobre isso, não há muito o que dizer, pois a realidade do segmento mais pop do evangelicalismo contemporâneo diz por si só. Só um adendo: É extremamente necessário que cada geração reformule a maneira de pensar e expressar sua fé, de acordo com os desafios de sua época. Mas, precisamos fazer isso com o mínimo de perspicácia, não é verdade? O rapzinho meia-boca do “Jesus>Religion” em momento algum reflete um pensamento crítico sério em relação aos problemas reais dos nossos dias. Como diria Carlos Nascimento, “nós já fomos mais inteligentes.”

4- E, finalmente, dizer que “sou de Jesus, mas não sou de nenhuma religião” é, no fundo, uma afirmação arrogante; afinal, a ideia de que “Jesus>Religion” pressupõe que aqueles que “são de Jesus” estão num patamar mais elevado do que os demais indivíduos da raça humana, que (cruz credo, pobrezinho deles) confessam uma religião. Já que os “de Jesus” não têm uma religião, mas vivem o “cristianismo puro e simples” (como se existisse cristianismo sem dialética com as correntes culturais de sua época), são eles os verdadeiros iluminados. E o critério para se discernir se você é de fato um cristão verdadeiro é simples: basta você não ter compromisso nenhum com a religião ou com alguma instituição. A ironia é que, enquanto os anti-religiosos se dizem livres da maldição de serem julgados por sua aparência exterior (como costumes, vestimenta, etc.), eles mesmos julgam como “religiosos” todos aqueles que seguem qualquer tipo de tradição. Se esquecem, porém, de que Deus vê além das aparências, independente se você expressa abertamente sua religião ou não. O anti-religiosismo, portanto, tão preocupado em ser cool e diferente, não passa de mais uma expressão religiosa, igualzinha as demais.

Ser de Jesus, meus caros, é viver a religião em sua finalidade mais plena.

Bom, agora deixa eu voltar ao tabalho. Afinal, a Luiza já voltou do Canadá, mas eu não.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Guerra dos sexos

A velha batalha entre machistas e feministas é o pretexto escolhido pela Quilmes para vender cerveja. A propaganda foi gravada - obviamente - em castelhano com sotaque argentino, mas é perfeitamente compreensível porque essa linguagem é universal:





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