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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

30 anos depois de sua morte, Samora Machel é celebrado por cristãos moçambicanos


Exatos trinta anos atrás, no dia 19 de outubro de 1986, Samora Machel morreu quando o avião soviético Tupolev Tu-134, que o levava, caiu nos montes Libombos, no nordeste da África do Sul, perto da fronteira moçambicana.

Até hoje há suspeitas bastante consistentes, mas nunca cabalmente comprovadas, de que o acidente aéreo foi, na verdade, um atentado maquinado por agentes soviéticos e sul-africanos, lembrando que à época ainda existiam - em plena força - tanto a União Soviética como o regime do apartheid na África do Sul.

A viúva do líder da independência moçambicana, Graça Machel, viria a se casar em 1998 com Nelson Mandela, o que a tornou - atualmente - viúva de dois grandes heróis africanos.

A matéria abaixo é da Rádio Vaticano:

Moçambique: igrejas cristãs reconhecem os feitos de Samora Machel

Celebram-se, quarta-feira 19 de Outubro, 30 anos da morte de primeiro Presidente de Moçambique num trágico acidente aéreo ocorrido em Mbuzine, na África do Sul.

E é ali nessa localidade sul-africana que decorrem as cerimónias centrais das celebrações do homem que proclamou a independência de Moçambique a 25 de Junho de 1975. Nessa localidade, onde desapareceu para sempre o líder moçambicano, foi erguido um monumento em sua homenagem. Mas Samora Machel permanece vivo na memória dos moçambicanos. E as própria igrejas cristãs do país reconhecem os seus feitos pela nação moçambicana.

Numa ronda feita pela capital pelo nosso correspondente no Maputo, Hermínio José, sacerdotes, pastores e fiéis disseram que se deve recordar Samora Machel não deve ser um mero acto solene, mas sim como uma forma de perenizar a sua memória, valorizando o seu legado. O Padre Pinto Cuna, da arquidiocese do Maputo afirmou que Samora Machel é uma lenda por excelência. Ele foi morto pelos inimigos da paz e da justiça.

"Samora era pela paz e justiça social, e esse seu carisma fê-lo ser assassinado barbaramente. Mas, nós os moçambicanos devemos fazer valer os valores de Samora, pondo-os em prática. Isto é, devemos evitar as desigualdades abismais a que assistimos aqui no nosso país. Devemos evitar o derramamento de sangue devido aos ataques armados, só assim caros irmãos estaremos a eternizar a pessoa de Samora Machel", rematou o sacerdote.

Também o pastor, Marcos Mubango, da Igreja Metodista Unida de Moçambique considera que "Samora era um homem de Paz. Ele não queria viver num país, num continente, num mundo com ausência de paz, eis a razão pela qual, ele não só lutou para a independência de Moçambique, como também contribuiu significativamente para a independência de muitos países africanos”.

Já para, o pastor João Timba, da Igreja Universal do Reino de Deus, Samora "Samora Machel não queria ver o seu povo a sofrer, ele queria o bem colectivo. Ele era um homem que encontrava na paz o alicerce para o bem-estar dos povos", disse , acrescentando que os moçambicanos devem se inspirar em Samora, pois só assim, teremos o Moçambique que ele sempre desejou, uno, indivisível e democrático”.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Começa hoje na Inglaterra a Copa do Mundo de Rugby 2015


O mundo do rugby está hoje em festa, pela volta do esporte ao seu lar, a Inglaterra, só que desta vez para a realização da Copa do Mundo 2015.

Treze estádios serão utilizados para o evento, sendo doze na Inglaterra (três em Londres) e um em Cardiff, capital do País de Gales, um dos integrantes do Reino Unido (juntamente com Escócia e Irlanda do Norte).

A Irlanda tem uma particularidade interessante no que diz respeito ao rugby. Sua seleção é representada por jogadores da República da Irlanda (capital Dublin) e da Irlanda do Norte (capital Belfast), numa união que não é vista em nenhum outro esporte de massas e muito menos na política.

Tal fato se explica, talvez, pela importância que se dá à confraternização com o time adversário no rugby.

Apesar das partidas serem disputadas, aos olhos do leigo, com algo que ele chamaria de "truculência", o respeito e a lealdade entre os jogadores são fatores sempre incentivados e vividos na prática. Rivalidade só dentro de campo.

Assim como do futebol, a Inglaterra é o berço do esporte que nasceu na cidade de Rugby, de onde tomou seu nome.

Naquela época, se praticava um esporte parecido com o futebol moderno, onde não havia, por exemplo, limite no número de jogadores por equipe.

Por sinal, essa estranha forma de futebol primitivo havia sido proibida pelo rei Eduardo III (1312-1377), por considerá-lo um esporte "não cristão".

No começo do século XIX, o futebol estava de volta à Inglaterra, sendo disputado principalmente nos colégios.

Diz a lenda que, em 1823, um jovem estudante do colégio de Rugby, chamado William Webb Ellis, revoltado com o excessivo número de jogadores em campo e a dificuldade de praticar o jogo com os pés, pegou a bola com as mãos e saiu correndo até a linha de fundo adversária.

Teria surgido aí o esporte que hoje conhecemos como rugby, cujas regras, a exemplo do que ocorreu com o futebol, foram sendo atualizadas e fixadas com o passar do tempo. No rugby, a bola terminou oval.

Embora haja controvérsias sobre a "lenda" contada acima, não há dúvidas de que o esporte realmente nasceu em Rugby, e o troféu que é dado à seleção campeã da Copa do Mundo, não por acaso, tem o nome de William Webb Ellis.

Esta será a oitava edição da Copa do Mundo de Rugby. Nova Zelândia (os "All Blacks"), Austrália (os "Wallabies") e África do Sul (os "Springboks"), com 2 títulos cada, e Inglaterra, com 1, integram a restrita galeria de quem já levou o troféu para casa. São também as grandes favoritas para o título de 2015.

Ao seu lado, com chances de vitória, poderíamos escalar França, País de Gales e Irlanda, que correm por fora como azarões.

Ainda incipiente no Brasil, os fãs sul-americanos do esporte vão ter que torcer para a Argentina (os "Pumas"), que tem uma seleção tradicional nas competições mundiais, com alguma chance de pelo menos surpreender algum dos favoritos na edição de 2015.

A imperdível final será disputada no mítico estádio de Twickenham, em Londres, no dia 31 de outubro de 2015.

Os jogos poderão ser acompanhados, no Brasil, pela transmissão dos canais por assinatura da ESPN. A abertura do campeonato ocorre hoje às 15:45h de Brasília, com a partida Inglaterra x Fiji.

Apesar de todo o carinho que sente pela Argentina, este que vos escreve, como sempre, vestirá sua camiseta dos All Blacks e torcerá pela Nova Zelândia, a atual campeã e, a exemplo do Brasil no futebol, a seleção "queridinha" do rugby no mundo.

Se você ainda não conhece o rugby, aproveite a Copa do Mundo que começa hoje para começar a entendê-lo e apreciá-lo. 

Há grandes chances de você, no mínimo, se divertir bastante.

Hoje o troféu William Webb Ellis começa a ser assediado pelas principais seleções do mundo.




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O primeiro milagre de São Nelson Mandela


Já "canonizado" em vida, Nelson Mandela realizou seu primeiro "milagre" durante o seu funeral na manhã de hoje, 10 de dezembro de 2013, quando autoridades e dignitários de todo o mundo se reuniram no estádio Soccer City de Johannesburg para homenageá-lo.

Entre os muitos oradores do evento, fizeram uso da palavra Barack Obama, Raúl Castro e Dilma Roussef, e os presidentes americano e cubano protagonizaram o primeiro gesto cordial entre os mandatários de ambos os países em mais de 5 décadas: um histórico aperto de mãos e algumas palavras trocadas não se sabe em que língua.

A foto acima é a prova concreta de que Nelson Mandela faz "milagres", mesmo na sua morte. Que esse pequeno gesto contribua para a paz no mundo!



sábado, 7 de dezembro de 2013

Como Fidel ajudou Mandela a acabar com o apartheid

Conforme comentamos ontem, 06/12/13, em nosso adeus a Nelson Mandela, existe toda uma tendência (que não vem de hoje) em adocicar a figura de Mandela, que já beirava a canonização em vida, tornando-o mais palatável aos interesses políticos e midiáticos em transformá-lo num herói manso e domável, portanto manipulável.

Entretanto, a história verdadeira da vida de Mandela não foi exatamente assim, personagem que ele foi de uma luta renhida contra o apartheid, o sistema racista opressor da minoria branca afrikâner da África do Sul.

"Madiba" esteve por longo tempo associado às lutas comunistas em plena Guerra Fria, aquela triste época em que o mundo se dividia entre os satélites de Estados Unidos e União Soviética, algo que as novas gerações não viveram e os mais velhos já veem pelo espelho retrovisor da História.



Por isso mesmo, Mandela foi visto por longo tempo como um terrorista, alguém que desafiava o status quo do racismo como política de Estado na África do Sul, e que, portanto, devia ser combatido e - se possível - eliminado.

"Enforquem Mandela e todos os terroristas
do Congresso Nacional Africano. Eles são
açougueiros", pedia a juventude conservadora
britânica no início dos anos 1980, com o
apoio entusiasmado de sua primeira-ministra.
O jornalista e escritor Mário Magalhães lembrava em junho deste ano, em seu blog, que a juventude conservadora do Reino Unido, no início dos anos 1980, pedia a cabeça de Madiba, querendo enforcá-lo, e a própria primeira-ministra britânica da época, Margaret Thatcher, ícone do neoliberalismo mundial, o chamava de "terrorista".

Sim, é isto mesmo o que você leu. No começo dos anos 1980, havia muitos políticos importantes no comando do globo que, a depender deles, manteriam Mandela na cadeia até o fim de seus dias, da mesma maneira que - contraditória e ridiculamente - há muita gente hoje em dia que diz celebrar Mandela mas é contra as cotas raciais e ações afirmativas pelas quais ele tanto lutou.

É provável que alguns daqueles jovens conservadores britânicos, já no fim da década de 1980, mais precisamente no dia 11 de junho de 1988, tenham ido ao estádio de Wembley, em Londres, para tomar parte do gigantesco show que homenageou o 70º aniversário de Mandela, ainda encarcerado no Sul do planeta. 

Curiosamente, também num mês de junho, agora em 2013, quando a saúde de Mandela parecia estar por um microfio, a colunista do The Huffington Post, Hirania Luzardo, chamava a atenção para a relação especial que sempre houve entre Madiba e Fidel Castro, e como Cuba foi importante para abalar as estruturas militares do apartheid, conforme você pode ver no vídeo abaixo, introduzido pelo ator norteamericano Harry Belafonte, que também foi o orador inicial do histórico concerto de Wembley de 1988:


Com o passar do tempo, houve uma tentativa do conservadorismo mundial em se apropriar e domesticar o mito Mandela, ao qual ele reagiu, diga-se de passagem, com o seu habitual pacifismo.

Entretanto, agora na hora de sua morte, não se deve esquecer que mesmo uma figura controversa como Fidel Castro, pense-se o que quiser dele (mas não seja hipócrita), foi sempre vista e reconhecida por Mandela como decisiva para o seu sucesso.

Como você percebe, o jogo político-ideológico mundial é muito mais intrincado do que parece à primeira vista. Isto quando você tem acesso à informação.



Mandela já passou à história como "santo". Quando chegar a sua vez, Fidel será vendido pelo grosso da imprensa mundial como o "diabo". Depende das tintas que alguém escolher para pintá-los. E elas nem sempre são tão definitivas assim.

Um dos episódios mais abafados da história da imprensa mundial foi a batalha de Cuito Cuanavale, quando a guerra civil de Angola ameaçou se alastrar pela Namíbia, então ocupada pelo regime racista sul-africano.

A Namíbia é hoje um país independente muito em função dessa operação cubana, que foi extremamente hábil em estratégia militar e técnicas de negociação diplomática.

Mandela viu no desgaste militar dos afrikâners nesse episódio o empurrão final para que o castelo de cartas do apartheid viesse abaixo.

Por isso mesmo, para que essa história real nunca seja esquecida, reproduzimos abaixo o relato do portal Pátria Latina, publicado em 27/03/13:



CUITO CUANAVALE: A batalha que deu cabo do apartheid

Neste ano, comemora-se o 25º aniversário (*) do início da batalha de Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, onde as forças armadas da África do Sul do apartheid se enfrentaram com o exército cubano e com as forças angolanas. O ataque sul-africano "foi parado abrupta e definitivamente" pelas forças revolucionárias.

O general Magnus Malan escreveu em suas memórias que a campanha foi uma grande vitória para as forças de defesa sul-africanas (SADF), mas Nelson Mandela não podia discrepar mais: "Cuito Cuanavale — afirmou — foi a viragem para a luta de libertação do meu continente e de meu povo do flagelo do apartheid".

O debate sobre o que significou Cuito Cuanavale tem sido intenso, numa parte porque os documentos sul-africanos relevantes continuam sem serem revelados. Contudo, eu tenho estudado os documentos nos arquivos fechados cubanos e também muitos documentos norte-americanos. Apesar da fenda ideológica que separa Havana de Washington, estes documentos relatam uma história que impacta pelo parecido que têm.

Eis os fatos. Em julho de 1987, o exército angolano (Fapla) iniciou uma ofensiva de maior envergadura no sudeste de Angola, contra as forças de Jonás Savimbi. Mas ao ver que a ofensiva estava tendo sucesso, as SADF, que controlavam os territórios mais meridionais do sudeste de Angola, intervieram. No início de novembro, as SADF tinham cercado as melhores unidades angolanas no povoado de Cuito Cuanavale e estavam preparando-se para eliminá-las.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas exigiu que as SADF se retirassem incondicionalmente de Angola, mas a administração Reagan se assegurou de que esta exigência fosse mais uma resolução, sem maior transcendência.

O secretário adjunto dos Estados Unidos para a África, Chester Crocker, disse ao embaixador da África do Sul nos Estados Unidos: "A Resolução não exige sanções e não estabelece nenhuma ajuda para Angola. Isto não é por acaso, mas sim o resultado dos nossos esforços para manter a resolução dentro de determinados limites". (1) Entretanto, as SADF aniquilariam as unidades elites das Fapla.

No início de 1988, fontes militares sul-africanas e diplomatas ocidentais asseguravam que a derrota de Cuito era iminente. Isto significaria um golpe devastador para o governo angolano.

Em 15 de novembro de 1987, o presidente cubano Fidel Castro decidiu enviar mais tropas e armas a Angola: seus melhores aviões com seus melhores pilotos, suas armas antiaéreas mais sofisticadas e seus tanques mais modernos. A intenção de Castro não só era defender Cuito, mas sim tirar definitivamente as SADF de Angola. Posteriormente, ele descreveu sua estratégia ao líder do Partido Comunista Sul-Africano Joe Slovo: Cuba ia parar o ataque sul-africano e depois atacaria noutra direção, "como o boxeador que com a mão esquerda mantém o contrário afastado e com a direita o golpeia". (2) Aviões cubanos e 1.500 soldados cubanos reforçaram os angolanos e Cuito Cuanavale venceu. Em 23 de março de 1988, os sul-africanos lançaram o último ataque de maior envergadura contra Cuito. Tal como descreveu o coronel Jan Breytenbach, o ataque sul-africano "foi parado abrupta e definitivamente" pelas forças conjuntas cubano-angolanas".

A mão direita de Havana se preparou para golpear. Poderosas colunas cubanas avançaram no sudoeste de Angola, para a fronteira da Namíbia. Os documentos que nos poderiam dizer aquilo que os líderes sul-africanos pensaram acerca desta ameaça continuam sem serem revelados. Mas sabemos o que as SADF fizeram: ceder terreno. Os serviços de inteligência dos EUA explicaram que os sul-africanos se retiravam porque estavam impressionados pela rapidez e a força do avanço cubano e porque consideravam que um combate de maior envergadura "teria acarretado grandes riscos". (3)

Quando criança, escutei meu pai, na Itália, falar da esperança que ele e seus amigos sentiram, em dezembro de 1941, quando escutaram pela rádio que as tropas alemãs tinham abandonado a cidade de Rostov do Don. Era a primeira vez, em dois anos de guerra, que o "superhomem" alemão era obrigado a retirar-se. Lembrei aquelas palavras quando li a imprensa sul-africana e da Namíbia, em meados de 1988.

Em 26 de maio de 1988, o chefe das SADF anunciava que "forças cubanas e das Swapo, fortemente armadas, integradas por primeira vez, avançam rumo ao sul, a uns 60 quilômetros da fronteira com a Namíbia". Em 26 de junho, o administrador-geral sul-africano da Namíbia reconhecia que caças Mig-23 cubanos voavam sobre a Namíbia, uma mudança dramática daqueles tempos em que o céu era propriedade das SADF. Acrescentava que "a presença dos cubanos provocara uma onda de ansiedade na África do Sul".

Contudo, estes sentimentos de ansiedade não eram compartilhados pelos negros sul-africanos: eles viam a retirada das forças sul-africanas como uma luz de esperança.

Enquanto as tropas de Castro avançavam rumo à Namíbia, cubanos, angolanos, sul-africanos e estadunidenses se enfrentavam na mesa de negociações. Existiam dois pontos chaves: se a África do Sul aceitava a implementação da Resolução nº 435, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que exigia a independência da Namíbia e se as partes concordavam sobre um cronograma da retirada das tropas cubanas de Angola.

Os sul-africanos pareciam ter muita esperança: o chanceler Pik Botha esperava que a Resolução 435 fosse modificada. O ministro de Defesa Malan e o presidente P.W. Botha afirmavam que a África do Sul se retiraria de Angola, caso "Rússia e seus fantoches fizessem o mesmo". Eles nem sequer mencionavam retirar-se da Namíbia . Em 16 de março de 1988, o Business Day informava que a Pretória estava "oferecendo retirar-se para a Namíbia — não da Namíbia — em troca da retirada das forças cubanas de Angola". Quer dizer, a África do Sul não tem nenhuma intenção de retirar-se do território, em nenhum futuro próximo.

Mas os cubanos reverteram a situação no campo. E quando Pik Botha apresentou as exigências sul-africanas, Jorge Risquet, chefe da delegação cubana, lhe esclareceu: "a época das aventuras militares, das agressões impunes, de seus massacres de refugiados acabou". A África do Sul — disse — estava agindo como se fosse "um exército vencedor, em lugar do que realmente é: um exército agressor golpeado e em discreta retirada. A África do Sul deve entender que não vai obter nesta mesa de negociações o que não pôde conseguir no campo de batalha". (4)

Quando terminaram as conversações no Cairo, Crocker enviou um telex ao secretário de Estado, George Shultz, dizendo que as conversações tinham tido, como "pano de fundo, a tensão militar crescente, por causa do avanço para a fronteira da Namíbia de tropas cubanas fortemente armadas, no sudoeste de Angola. O avanço cubano criou uma dinâmica militar imprevisível" (5).

A pergunta era: será que os cubanos iam parar na fronteira? Para responder esta pergunta, Crocker foi buscar Risquet: "Cuba tem a intenção de deter seu avanço na fronteira entre a Namíbia e Angola?".

Risquet respondeu: "seu eu lhe dissesse que não vão deter-se, estaria proferindo uma ameaça. Se eu lhe dissesse que vão deter-se, lhe estaria dando um calmante, e eu não quero nem ameaçar nem dar calmante, somente os acordos sobre a independência da Namíbia podem dar as garantias" (6)

No dia a seguir, em 27 de junho de 1988, caças Mig cubanos atacaram posições das SADF, perto da barragem de Calueque, 11 quilômetros ao norte da fronteira da Namíbia. A CIA informou que "o sucesso com que Cuba vem utilizando sua força aérea e a aparente fraqueza das defesas antiaéreas da Pretória" sublinhavam o fato de que Havana já tinha conseguido superioridade aérea no sul de Angola e no norte da Namíbia. Horas depois do ataque dos cubanos, as SADF destruíram uma ponte próxima de Calueque sobre o rio Cunene. Fizeram isto — segundo a CIA — "para dificultar às tropas cubanas e angolanas o cruzamento da fronteira com a Namíbia e para reduzir o numero de posições que deviam defender". (7)

O perigo dum avanço cubano sobre a Namíbia nunca antes tinha parecido tão real.

Os últimos soldados sul-africanos saíram de Angola, em 30 de agosto, quando nas negociações nem sequer se tinha começado a discutir o cronograma da retirada cubana de Angola.

Apesar de todos os esforços de Washington para impedi-lo, Cuba mudou o curso da história da África Austral. Até Crocker reconheceu o papel de Cuba, quando disse a Shultz, em 25 de agosto de 1988: "Descobrir o que pensam os cubanos é uma forma de arte. Estão prontos, tanto para a guerra como para a paz. Fomos testemunha dum grande refinamento tático e duma verdadeira criatividade na mesa de negociações. Isto tem como pano de fundo as fulminações de Castro e o desdobramento sem precedentes de seus soldados no terreno" (8).

A façanha dos cubanos no campo de batalha e sua virtuosidade na mesa de negociações foram decisivas para obrigar África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Seu sucesso em Cuito Cuanavale foi o prelúdio duma campanha que obrigou as SADF a saírem de Angola. Esta vitória repercutiu mais para lá da Namíbia.

Muitos autores — Malan é só um exemplo — têm tentado reescrever esta história, mas documentos norte-americanos e cubanos relatam o que verdadeiramente aconteceu. Esta verdade foi expressa, com eloquência, por Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, em dezembro de 2005: "Hoje, a África do Sul tem novos amigos. Ontem, estes amigos se referiam a nossos líderes e a nossos combatentes como terroristas e nos acossavam a partir de seus países, e ao mesmo tempo apoiavam a África do Sul do apartheid. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade em nossa Pátria".

NOTAS

(*) Este artigo foi escrito há cinco anos, por ocasião do 20º aniversário desta batalha.

1) Secretário de Estado, à embaixada dos EUA na Pretória, 5 de dezembro de 1987, Freedom of Information Act (daqui em diante FOIA).

2) Transcrição sobre a reunião do comandante-em-chefe com a delegação de políticos da África do Sul (Comp Slovo), Centro de Informação das Forças Armadas Revolucionárias.

3) Abramowitz (Escritório de Inteligência do Departamento de Estado) ao secretário de Estado. 13 de maio de 1988, FOIA

4) Transcrição não oficial. Conversações RPA-CUBA-EUA-RSA (Reunião Quadripartite) sessão da tarde de 24-

5) Crocker ao secretário de Estado, 26 de junho de 1988. FOIA.

6) Entrevista de Risquet com Chester Crocker, 26-6-88, ACC.

7) CIA, South Africa-Angola-Cuba, 29 de junho de 1988. FOIA; CIA, South Africa-Angola-Cuba, 1 de julho de 1988, FOIA.

8) Crocker ao secretário de Estado, 25 de agosto de 1988, FOIA.

(*) Politicólogo e historiador italiano, professor de política exterior dos Estados Unidos na Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Adeus, Mandela!


Ontem, 5 de dezembro de 2013, faleceu um dos homens mais extraordinários que o mundo conheceu, e que a nossa geração teve a felicidade de acompanhar boa parte da sua luta e história de vida: Nelson Mandela.

Nascido em 18 de julho de 1918, Mandela (também conhecido pelo seu nome tribal "Madiba") enfrentou o apartheid da minoria branca que comandava a África do Sul desde os tempos coloniais britânicos e holandeses, o que lhe valeu uma condenação à prisão perpétua a partir de 1962.

Entretanto, os conflitos internos, os seguidos massacres de negros e a reação internacional à discriminação, com massivos boicotes políticos, esportivos e econômicos mundiais, foram paulatinamente minando o regime racista sul-africano, até que a situação se tornou insustentável.

Depois de intensas negociações e 27 anos detrás das grades, Mandela foi liberado em 1990, o que lhe permitiu conduzir seu povo em relativa paz no caminho da união nacional, dividindo o prêmio Nobel da Paz de 1993 com Frederik de Klerk, até que foi eleito presidente em 1994, obtendo 62% dos votos nas primeiras eleições livres e diretas do país.

Faltava ainda unificar - tanto quanto possível à época - a África do Sul, o que Mandela conseguiu ao pregar o perdão, a reconciliação e a não retaliação contra a minoria branca por todo o mal que ela havia feito à maioria negra por décadas a fio.

Boa parte deste objetivo foi conseguido durante a Copa do Mundo de Rugby de 1995, disputada na África do Sul e vencida pelos locais.

O rugby era tido como um esporte exclusivamente de brancos e um símbolo do apartheid, e o apoio de Mandela à seleção nacional na sua campanha vitoriosa fez com que o país se irmanasse em torno da equipe dos springboks, apelido dos sul-africanos naquele esporte.

O episódio foi retratado no excelente filme "Invictus" (2009), dirigido por Clint Eastwood e estrelado por Matt Damon e Morgan Freeman, este no papel de Nelson Mandela.

Foi esta simplicidade de vida, aliada a uma rara genialidade política, que fizeram de Mandela uma das figuras mais admiradas e respeitadas da história contemporânea.

Obviamente, como você percebe pelo nosso relato aqui, desde sua vitória sobre o cárcere já havia a tendência de canonizá-lo em vida, mas Mandela teve a sabedoria e a ombridade de combater a hagiografia que se desenvolveu em torno do seu nome.

Depois da autobiografia "Longa Caminhada Até a Liberdade" (1994), Mandela foi - aos poucos - se incomodando com a auréola que crescia em torno de sua imagem, até que em 2011 lançou o livro "Conversas Que Tive Comigo", em que procura mostrar o seu lado humano e falível.

É deste livro a frase "Nunca se esqueça de que os santos são pecadores que continuam tentando", com a qual finalizou a carta à sua então esposa Winnie Mandela em 1975.

Dada a grandeza hercúlea de sua obra, entretanto, talvez seja tarde demais para separar o homem do mito.



Entre as suas muitas frases célebres, destacamos uma que dá uma dimensão resumida do seu credo de perdão e reconciliação:
"A paz não é simplesmente a ausência de conflito, a paz é criação de um entorno em que todos possamos prosperar, independentemente de raça, cor, credo, religião, sexo, classe, casta ou qualquer outra característica social que nos distinga. A religião, as características étnicas, o idioma e as práticas sociais e culturais são elementos que enriquecem a civilização humana, que se somam à riqueza de nossa diversidade. Por que deixar que se convertam em causa de divisão e violência? Estaríamos degradando nossa humanidade comum se permitirmos que isso ocorra".
Com a sua morte, fecha-se um ciclo na África do Sul, que, mesmo com as feridas tão recentes do apartheid, parece ter aprendido a conviver em paz com todas as suas minorias e diferenças.

O gigante ser humano Nelson Mandela morreu ontem, aos 95 anos de idade, personagem de uma vida à qual não faltou intensidade, tenacidade e dignidade, mas seus ideais durarão enquanto o sol nascer e se por sobre a imensa savana africana.




Obrigado, Mandela! Por você e com você, desejamos uma longa vida de paz à África do Sul!

Como nossa singela homenagem, reproduzimos abaixo um vídeo de sua visita ao Rio de Janeiro em 2 de agosto de 1991, e outro vídeo com o maravilhoso hino nacional da África do Sul, que une melodia e letras das várias etnias do país com base em Nkosi Sikelel' iAfrika ("Deus Abençoe a África"), hino composto pelo pastor metodista Enoch Sontonga, então professor de uma escola missionária em Johannesburg, em 1897:







Por fim, como sinal de esperança pela paz perene na África do Sul, celebramos Madiba com a tradicional canção "Shosholoza" (algo que pode ser traduzido como "siga em frente!"), executada pelos jovens negros e brancos do multirracial coral The Drakensberg Boys:








quinta-feira, 13 de junho de 2013

Ser albino na África é como estar dentro de um filme de terror

Matéria apavorante publicada no Opera Mundi:

Violência e preconceito: a perseguição aos albinos na África do Sul

Em especial nas áreas rurais, famílias abandonam ou escondem crianças; fato também ocorre em outros países do continente

Sindiswa Ntshinga é empregada doméstica e mãe solteira. Moradora da favela de Gugulethu, na África do Sul, a africana de 36 anos cria quatro meninos, dois de pele escura como ela e dois de feições claras e com cabelos loiros. O nascimento do primeiro filho albino aconteceu no ano de 2004.

“Eu não sabia o que albinismo significava, mas lembro que fiquei assustada”, relembra. Com a ajuda de médicos locais, Sindiswa aprendeu tudo sobre a condição de natureza genética em que há um defeito na produção de melanina pelo organismo. Mas apesar de ter saciado o anseio pelo desconhecido e ter aprendido a atender as necessidades da criança, o medo ainda a persegue. “Eu posso lidar com os problemas de pele, de visão e até de preconceito, apesar de machucar. Mas me apavoro em pensar que meus filhos são alvos de caçadores”, lamenta.

Em muitos países africanos, pessoas com albinismo são vistas como seres mágicos que possuem poderes de cura, tornando-se, por isso, vítimas de “muti” (mutilamentos realizados para poções usadas em rituais de bruxaria). “Partes do corpo de albinos são comercializadas em um `mercado’ ilegal ao redor do continente para fins religiosos”, explica Nomasonto Mazibuko, presidente da ASSA (Associação de Albinos da África do Sul, na sigla em inglês).

Devido a esse fato, milhares de pessoas passaram a se esconder com medo de perder suas vidas para “caçadores”, que chegam a ganhar 75 mil dólares vendendo um “conjunto de membros”. As partes mais valorizadas (dedos, língua, braços, pernas e genitais) podem ser comercializadas por 3 mil dólares. Entre 2006 e 2012, 71 albinos foram sequestrados, mutilados ou assassinados ao redor da África-subsariana.

O último crime registrado no país sul-africano ocorreu em 2011, quando Sibisuso Nhatave desapareceu enquanto caminhava para a escola na província de KwaZulu-Natal. O menino albino de 14 anos nunca mais foi encontrado. Concluídas no ano passado, as investigações apontaram para sacrifício tribal.

A presidente da ASSA ressalta, porém, que a África do Sul não é a nação que mais sofre com o fenômeno de caça aos albinos. “A Tanzânia é a região com maiores índices de assassinatos para fins religiosos. Mas o crime acontece no continente inteiro”, explica, destacando que ainda não existe nenhuma legislação específica para combater esse tipo de crime. “Nós, como país e continente, precisamos de leis somente para punir essas atrocidades ”, completa.



Preconceito e abandono

Moradora de Gugulethu, a 15 km da capital Cidade do Cabo, Khutaza Ntshota Nono perdeu as contas de quantas vezes foi ofendida ou reverenciada na rua. “Muitos me xingam ou não param de me olhar, como se eu fosse uma aberração. Também há aqueles que encostam em mim e começam a rezar, acreditando que vou trazer sorte para suas vidas”, conta a estudante de 17 anos. O preconceito contra albinismo ainda é fortemente enraizado na sociedade sul-africana, onde muitos ainda enxergam a condição como algo “de outro mundo”.

Para Nomasonto, essa realidade só pode ser mudada com a ajuda do governo. “Precisamos de campanhas de conscientização que informem e eduquem as pessoas. Além disso, em nenhuma parte da nossa Constituição se fala sobre albinismo. A sociedade precisa entender que isso é uma questão genética e não algo divino ou demoníaco”, declara. Segundo ela, as regiões rurais são as mais afetadas pelo fenômeno.

O abandono de crianças com albinismo é outro grande problema do país, que registra mais de dez casos todos os anos. De acordo com o professor Trevor Jenkins, do Instituto Sul-Africano de Pesquisa Médica, um em 35 negros do país são portadores do gene que transmite de forma hereditária a condição. “Quando ambos os pais são portadores, a criança nasce com albinismo. Muitas famílias escondem seus filhos por vergonha”, explica.

Julia Skasi, de 43 anos, presenciou quando a vizinha jogou a filha recém-nascida na lata de um lixo nos arredores de Khayelitsha, segunda maior favela da África do Sul. “Saí correndo para ajudar e, quando cheguei lá, vi que o bebê era branco. Tentei conversar com a mãe, mas ela afirmou que não queria uma filha ‘com defeito’“, relembra.

Educação

Sensibilizada com a situação da criança, a dona de casa adotou a menina que hoje se encontra saudável e com quatro anos de idade. “Ela é ótima na escola, apesar de sofrer preconceito de muitos coleguinhas. Para ajudar eu conversei com os professores e expliquei sobre a saúde da minha filha. Aos poucos o assunto passou a ser introduzido na sala de aula”, conta.

Mesmo com todas as dificuldades de adaptação em ambiente de ensino, a africana de cultura xhosa comemora o fato de a filha frequentar uma instituição regular da região. “Foi difícil encontrar uma escola que a aceitasse, as pessoas não sabem como lidar com o albinismo”, diz. A presidente da ASSA confirma o fato explicando que grande parte dos albinos acaba estudando em escolas especiais para cegos. “Muitos albinos têm problema de visão, mas isso não significa que eles não enxergam”, diz.

É o caso de Khutaza, que está prestes a se formar no terceiro ano do Ensino Médio em uma instituição para cegos em Gugulethu. A adolescente de 17 anos explica que, apesar de ter dificuldades para enxergar à distância, ela não é portadora de cegueira. “Foi o único colégio que soube me ajudar e entender as minhas limitações”, fala.

Moses Simelane, do Departamento de Educação Básica da África do Sul, garante que o governo já esta tentando reverter essa realidade. “Começamos um treinamento nacional para profissionais da educação ao redor do país, que aborda a diversidade dentro da sala de aula, entre elas o albinismo”, afirma, explicando que o projeto teve início em dezembro de 2012. “Até o final do ano nós pretendemos atingir todas as províncias”, diz.

Nomasonto Mazibuko comemora a iniciativa e afirma que esta é uma das principais conquistas da ASSA este ano. “Estamos acompanhando todos os workshops com professores, oferecendo palestras e treinamento de graça”, diz. A presidente ainda destaca a luta da instituição para que o albinismo seja considerado um tipo de deficiência física junto à Constituição Nacional. “Desta forma uma pessoa albina passará a ganhar privilégios governamentais, principalmente na área da saúde, como protetor solar e consultas médicas providenciadas pelo estado”, conclui.

Opera Mundi publica textos do blog "Por dentro dos Brics", em que quatro jornalistas brasileiros escrevem diretamente de Rússia, Índia, China e África do Sul. Confira mais em www.osbrics.com e @osbrics no Twitter



terça-feira, 29 de maio de 2012

Quadro do presidente sul-africano com bilau de fora provoca polêmica no país

Ah, se a moda pega! Parece que a tradicional poligamia zulu de Jacob Zuma, presidente da África do Sul, não agradou muito ao extrapolar o campo da política e invadir o da "arte", segundo noticia o Yahoo:

Quadro com genitais do presidente da África do Sul gera polêmica

Um quadro do artista sul-africano Brett Murray que retrata o presidente do país, Jacob Zuma, com seus genitais expostos, levou o partido governamental a exigir a retirada da obra, enquanto a galeria que a exibe insiste na liberdade de expressão e o direito à criação artística.

O quadro, intitulado "The Spear" ("A lança"), faz parte da exposição "Deus salve ao Ladrão II" e está exibido na galeria Goodman de Johanesburgo desde 10 de maio, informaram nesta sexta-feira os meios de comunicação sul-africanos.

A obra mostra ao presidente Zuma em uma simulação de um popular quadro do líder comunista soviético Vladimir Lênin, mas com a diferença que no retrato do chefe de Estado sul-africano seu órgão sexual pode ser visto.

A Presidência da África do Sul se mostrou revoltada com a pintura "grotesca" de Murray, e desaprovou o artista. "O presidente da África do Sul defenderá sempre os direitos de nossa Constituição, inclusive a liberdade artística e de expressão, mas no exercício destes direitos, os cidadãos devem entender que eles não são absolutos", ressaltou nesta sexta o gabinete do presidente Zuma em comunicado.

"Além de chefe de Estado, o presidente Zuma é um cidadão e tem direito a conservar sua dignidade. Nenhum ser humano merece ser denegrido desta maneira", disse a Presidência.

Da mesma forma, o partido governante, o Congresso Nacional Africano (CNA), anunciou em comunicado que deu início às ações legais para impedir a exibição da obra e exigir a destruição de todo o material gráfico que a reproduza. "O CNA está extremamente descontente com a maneira indecente e de mau gosto que Brett Murray e a galeria Goodman estão mostrando o presidente Zuma", afirmou o partido em nota oficial.

A exposição utiliza referências da arte comunista para mostrar a corrupção política e ideológica do CNA, um movimento de libertação de inspirado no socialismo que teve um papel fundamental na luta contra o regime racista do "apartheid", imposto pela minoria branca sul-africana.

"O retrato grosseiro e a utilização do logotipo do CNA é um abuso da liberdade artística e de expressão e uma violação de nossa Constituição, além de ser difamatório", acrescentou o partido governamental, liderado anteriormente pelo ex-presidente Nelson Mandela.

O retrato pode ser visto no site do jornal sul-africano "Citypress", apesar dos advogados do CNA reivindicarem a sua retirada ao meio de comunicação. "A reivindicação carece de base jurídica", indicou o jornal em comunicado divulgado em seu site.

A galeria Gooodman, onde está exibida a obra de Murray, também afirmou que não retirará o quadro e qualificou as intenções do CNA de "censura". Lara Koseff, porta-voz da galeria, disse nesta sexta que sempre defendeu seus artistas, inclusive durante o "apartheid".

"Quando inauguramos a exposição me lembrei do artista chinês Ai Weiwei, que foi perseguido por retratar negativamente seu Governo", explicou Koseff para o jornal sul-africano "Times".

"Pensei que nós éramos afortunados por estar em uma situação diferente, por poder ter estes diálogos artísticos. No entanto, parece que alguém quer mudar estas coisas", acrescentou Lara.



terça-feira, 11 de outubro de 2011

Veado ataca ciclista

Fazer mountain bike em qualquer lugar já não é coisa fácil. Fica pior ainda se a competição for na savana africana. Você pode ter uma surpresa pra lá de desagradável como foi o caso do ciclista Evan van der Spuy, do time Jeep South Africa, que foi atacado não exatamente por um veado, mas por um primo bem maior - um antílope - numa corrida ao redor da represa de Albert Falls, na África do Sul. O filme foi feito pelo seu companheiro de equipe Travis Walker e, apesar do susto, algumas escoriações e muitas dores musculares, van der Spuy passa bem, obrigado. Mas repara só no estado em que ficou o capacete dele. E ainda tem gente que prefere não usá-lo. Confira o vídeo abaixo:




quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Copa do Mundo de rugby começa amanhã

A partir de amanhã, 9 de setembro, começa a Copa do Mundo de Rugby na Nova Zelândia, o terceiro evento esportivo de maior audiência televisiva no mundo, atrás apenas da Copa do Mundo de futebol e das Olimpíadas. 

Milhões de pessoas estarão torcendo pelos seus países ou apenas apreciando o que o esporte tem de melhor a oferecer. 

No caso dos (não muitos) fãs brasileiros, eles terão que acordar cedo para ver as partidas que começam às 5 da manhã, e o primeiro jogo será entre a anfitriã Nova Zelândia e Tonga.

Os neozelandeses são mais conhecidos como All Blacks e correspondem, no rugby, ao que representa a seleção brasileira no futebol, ou seja, a seleção que tem o estilo de jogo mais admirado, ainda que nem sempre vença as competições. 

Eles também são conhecidos por fazer o "haka", ritual de guerra dos maoris (os aborígenes locais), antes de cada partida, como no primeiro vídeo abaixo, que mostra a dança tribal antes do jogo com a África do Sul (os springboks) no último dia 30 de julho. 

Os sul-africanos também têm no rugby uma paixão nacional, principalmente depois da Copa do Mundo de 1995, em que venceram os All Blacks na final, competição que ficou eternizada no filme Invictus, com Morgan Freeman e Matt Damon (trailer no segundo vídeo abaixo), num evento que conseguiu unir uma nação dividida depois do terror do apartheid. 

As partidas da Rugby World Cup 2011 serão mostradas pelos canais ESPN e ESPN Brasil, inclusive em HD. A final está marcada para o dia 23 de outubro. 

Mesmo que você não conheça o rugby, não entenda nada das regras do esporte e acorde muito cedo nas próximas semanas, dê uma conferida. O único perigo é você gostar e, quem sabe, ajudar a desenvolver o rugby no Brasil.





Abaixo uma propaganda da cerveja Guiness, aproveitando o evento:



E a linda canção "World in Union", que é a música-tema de todas as Copas do Mundo de rugby:



segunda-feira, 12 de abril de 2010

Assassinato de líder racista sulafricano teria motivação homossexual


A notícia do Estadão abaixo pode mostrar apenas uma cortina de fumaça para acobertar o crime de ódio, mas a gente nunca pode perder a capacidade de ser surpreendido pelas notícias (e pelas verdades que se escondem atrás das versões) que nos atropelam a cada minuto. Entretanto, a se confirmar a história, será mais uma a confirmar a teoria de que por trás dos preconceitos mais arraigados se escondem os fetiches e as taras mais sublimadas. Infelizmente. 

Morte de líder pró-apartheid teria motivação sexual 

  A polícia sul-africana admitiu ontem, pela primeira vez, que investiga a possibilidade de haver uma motivação sexual para o assassinato do líder supremacista branco Eugene Terreblanche, morto a pauladas na semana passada. 

A defesa dos acusados alega que eles estavam se protegendo das "investidas homossexuais de Terreblanche". "Há um forte componente de sodomia que levou ao homicídio", disse Puna Moroko, um dos advogados dos dois negros, um de 27 e outro de 15 anos, que trabalhavam para o fundador do Movimento de Resistência Africâner (AWB). 

Terreblanche foi morto no dia 3, na casa dele, no vilarejo de Ventersdorp, norte do país. Ele foi encontrado na cama com as calças abaixadas até os joelhos. No chão do quarto foi encontrado um preservativo usado. No início, a polícia negou que houvesse um preservativo na cena do crime. Ontem, porém, o tenente Jan Mabula, um dos responsáveis pela investigação, disse que "nenhuma hipótese está descartada". 

Os rumores ganharam ainda mais força depois que a polícia formalizou contra os dois negros a acusação de injúria, que no direito sul-africano envolve algum tipo de abuso sexual da vítima.

O AWB divulgou nota ontem refutando as especulações sobre a morte de seu líder e voltou a acusar Julius Malema, presidente da Liga Jovem do Congresso Nacional Africano (CNA), partido governista. 

Segundo os extremistas, Malema é responsável pelo crime porque sempre canta em seus comícios a música Shoot the boer ("Atire no bôer"), que prega a violência contra os fazendeiros brancos. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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