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sábado, 13 de maio de 2017

Adeus a Antonio Candido, o intelectual que melhor entendeu os caipiras


O Brasil perdeu ontem Antonio Candido, um de seus poucos e valorosos "gênios da raça".

"Perdeu" não é o verbo correto, pois o que ganhamos com sua profícua vida de 98 anos de idade é algo absolutamente imensurável.

"Perdemos" a sua existência corporal, a sua presença entre nós como farol intelectual digno do que esta palavra "intelectual", ultimamente tão banalizada, significa em toda sua abrangência, profundidade e extensão.

Sociólogo, crítico literário e - mais precisamente - um "pensador" do Brasil, do tipo que - lamentavelmente - talvez tenha sido o derradeiro, foi professor da USP e da UNICAMP, agraciado com honrarias as mais variadas ao redor do mundo, sobretudo na América Latina.

Para nós, paulistas do interior, "caipiras" segundo a definição que muito nos honra, deixou de legado sua magnífica obra "Parceiros do Rio Bonito", onde faz um detalhado estudo de como surgiu e se desenvolveu essa subcultura brasileira tão marcante e marcada como o "r" retroflexo que insistimos - orgulhosamente - em falarrrrrr.

Abaixo, transcrevemos alguns trechos de Parceiros do Rio Bonito. Estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. Livraria Duas Cidades e Editora 34, 2001.

Divirta-se desvendando nossos segredos, sabendo de onde viemos e conhecendo-nos melhor:




      “De qualquer modo, há para cada cultura, em cada momento, certos mínimos abaixo dos quais não se pode falar em equilíbrio. Mínimos vitais de alimentação e abrigo, mínimos sociais de organização para obtê-los e garantir a regularidade das relações humanas. Formulado nestes termos, o equilíbrio social depende duma equação entre o mínimo social e o mínimo vital.” (p. 32)

     “Sobretudo quando encaramos a obtenção dos meios de vida, observamos que algumas culturas não conseguem passar de um equilíbrio mínimo, mantido graças à exploração de recursos naturais por meio das técnicas mais rudimentares, a que correspondem formas igualmente rudimentares de organização. O critério para avalia-las, nestes casos, é quase biológico, permitindo reconhecer dietas incompatíveis com as necessidades orgânicas, correlacionadas geralmente a técnica pobre, estrutura social pouco diferenciada além da família, representações míticas e religiosas insuficientemente formuladas. É o que se observa em povos ‘marginais’ da Patagônia e sobretudo Terra do Fogo, em nômades como os sirionós, ou os nambiquaras.” (p. 34)

[...]

     “O ponto de partida para compreender essa situação deve ser buscado na própria natureza do povoamento paulista, desde logo condicionado pela atividade nômade e predatória das bandeiras. Do ponto de vista deste estudo, o bandeirismo pode ser compreendido, de um lado, como vasto processo de invasão ecológica; de outro, como determinado tipo de sociabilidade, com suas formas próprias de ocupação do solo e determinação de relações intergrupais e intragrupais. A linha geral do processo foi determinada pelos tipos de ajustamento do grupo ao meio, com a fusão entre a herança portuguesa e a do primitivo habitante da terra; e só a análise desse processo pode dar elementos para compreender e definir a economia seminômade, que tanto marcou a dieta e o caráter do paulista.” (p. 46)

[...]

   “Mas como se dispunha e vivia no campo o grosso da população? Qual a relação efetiva entre a população do núcleo e a do território, frequentemente vasto, de que era o centro?

    Leiamos um documento eloquente e pitoresco: a informação enviada em 1797 pela Câmara da vila de Atibaia ao ouvidor-geral da comarca de São Paulo, como elemento requerido por este, a fim de opinar sobre o pedido de elevação a vila da freguesia de Jaguari, atual Bragança Paulista:
       Tem a capital de Jaguary vinte e cinco fogos existentes, a saber: o Rdo. Coadjtor, o Alferes Aleixo Correia da Cunha, Manoel Rodrigues Freyre que ambos sam Dizimeyros, o alferes José Paes da Silva oficial de sapateyro e selleiro, cujos officios se desligará por falta de vista, e que vive hoje de lavouras, Capitam José Pedroso Pinto oficial de selleiro, e dizem que também tem loja de fazenda seca, o Alferes Joam de Almeyda, velho e mutio doente, por cuja cauza largou o Sitio, e veyo para aquele ARayal, Francisco Pinto oficial de Ferreyro, Joachim Gomes de Moraes Taverneyro, hum carapina que de fora foy para fazer a obra da Igreja. Vicente Gomes Sapateyro, Ignacio bastardo, sapateyro em cujo fogo mora também o Vintenário Francisco Luis Penna, José Teixeyra das Neves mestre de taypas, Roza Domingues mulher branca solteira e pobríssima, Maria de Nazaareth cazada que vive separada de seu marido, Miguel dias Cortes homem branco, cazado e pobríssimo, Anna Maria de Toledo, viúva e pobre, Genoveba de tal branca e pobre, Anna de tal aleijada, Quiteria escrava com taberna, Joam Leme bastardo sego, Maximiano Nunes e Joachim Nunes, ambos pobres.
      Tem o destricto de Jaguary quatro mil, e quatrocentos e tantas Almas: destas as pessoas que tem possibilidade, e cabedais sam o Capitam Jacyntho Rodrigues Bueno, o Alferes Aleixo Correa da Cunha e Manoel Rodrigues Pereira, os quaes conforme o estado daquela freguesia, nella se tem por ricos, e abaxo destes Lourenço rodrigues, o Capitam Antonio Leme, José Xavier e Francisco de Lima que tem seu modo de viver; e fora destes sam raras as cazas onde se nelas se procurar a quantia de 12$800 se achem. Este Povo é grosseiro, sem cultura nem civilidade, sam raros os que sabem ler, e escrever etc.”
(Documentos interessantes etc., vol. XV, 1904, pp. 105-6. Apesar destas ponderações dos camaristas de Atibaia, Jaguari foi elevada a vila em seguida)
     Cobradores do dízimo e da vintena, oficiais de ofício, comerciantes, o padre, indigentes e pessoas sem qualificação ocupavam as 25 casas do povoado; mas pelo território da freguesia espalhavam-se mais de 4.400 pessoas; quase mil famílias, talvez. Qual a sua unidade de agrupamento? A freguesia, no conjunto, centralizada pelo que se costumava chamar a sua ‘capital’? Não, certamente; mas sim aquelas unidades fundamentais referidas acima: os grupos rurais de vizinhança, que na área paulista se chamaram sempre bairro.

     Esta é a estrutura fundamental da sociabilidade caipira, consistindo no agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo e pelas atividades lúdico-religiosas. As habitações podem estar próximas umas das outras, sugerindo por vezes um esboço de povoado ralo; e podem estar de tal modo afastadas que o observador muitas vezes não discerne, nas casas isoladas que topa a certos intervalos, a unidade que as congrega.” (pp. 79-81)

[...]

    “Em verdade, esse mecanismo de sobrevivência, pelo apego às formas mínimas de ajustamento, provocou certa anquilosidade de sua cultura. Como já se tinha visto no seu antepassado índio, verificou-se nele certa incapacidade de adaptação rápida às formas mais produtivas e exaustivas de trabalho, no latifúndio da cana e do café. Esse caçador subnutrido, senhor do seu destino graças à independência precária da miséria, refugou o enquadramento do salário e do patrão, como eles lhe foram apresentados, em moldes traçados para o trabalho servil. O escravo e o colono europeu foram chamados, sucessivamente, a desempenhar o papel que ele não pôde, não soube ou não quis encarnar. E, quando não se fez citadino, foi progressivamente marginalizado, sem renunciar aos fundamentos da sua vida econômica e social. Expulso da sua posse, nunca legalizada; despojado da sua propriedade, cujos títulos não existiam, por grileiros e capangas – persistia como agregado, ou buscava sertão novo, onde tudo recomeçaria. Apenas recentemente se tornou apreciável a sua incorporação à vida das cidades, sobretudo como operário.” (p. 107)

     “Mas ao lado destes elementos de fixação, uma característica importante da antiga vida caipira era a presença de terras disponíveis, que desempenhavam papel duplo e de certo modo contraditório. De um lado constituíam fator de reequilíbrio, na medida em que permitiam reajustar, sempre que necessário, situações tornadas difíceis economicamente pela subdivisão da propriedade, devida à herança, ou pela impossibilidade de provar os direitos sobre a terra. Estes fatores, aliás, eram mais poderosos como estímulo à mobilidade do caipira do que a instabilidade pura e simples, que se tem querido explicar, inclusive como decorrência da mestiçagem com o índio; mas cujas principais determinantes são sociais, sobrelevando o caráter precário dos títulos de propriedade. A posse, ou ocupação de fato da terra, pesou na definição da sua vida social e cultural, compelindo-o, freqüentemente, ao status de agregado, ou empurrando-o para as áreas despovoadas do sertão, onde o esperava o risco da destruição física ou da anomia social. A respeito desta, invoca-se quase sempre como causa a preguiça, que seria um traço fundamental do caipira e responsável pelo baixo nível da sua vida.” (p. 109)


"O caipira picando fumo", quadro de Almeida Junior (1893)

"O Violeiro", quadro de Almeida Junior, 1899




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Caderno 2 do Estadão resenha Bíblia de Estudo da Reforma da SBB


É raro, para não dizer "inédito", que a edição de uma Bíblia (ainda mais de tradição protestante) consiga penetrar no catálogo secular de resenhas literárias publicadas na imprensa em geral.

Parece que os 500 anos da Reforma Protestante, a serem comemorados no próximo mês de outubro, já produziram este primeiro milagre em terras tupiniquins.

Quem rompeu este cerco sagrado no sábado passado foi a Bíblia de Estudo da Reforma, com uma interessante e honesta resenha que pode ser lida no Estadão:

'Bíblia de Estudo da Reforma' traz ampla biografia de Martinho Lutero

Obra faz homenagem ao monge alemão

José Maria Mayrink

O mais novo lançamento da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) é uma homenagem a Martinho Lutero, por sua dedicação às Escrituras Sagradas, centro e base de sua espiritualidade e de sua teologia. O luxuoso volume da Bíblia de Estudo da Reforma, de 2.304 páginas, abre com minuciosa biografia do monge agostiniano alemão que rachou a Igreja Católica no século 16 e inaugurou uma nova comunidade cristã, embora não fosse sua intenção se separar de Roma.

Além da vida de Lutero, ilustrada por belas gravuras dele, de sua mulher Catarina von Bora, de seus pais e de vários personagens da época, aliados ou adversários, com fotografias das casas, conventos e igrejas, essa edição da Bíblia reproduz os prefácios que o reformador escreveu para cada livro do Antigo e do Novo Testamento.

É uma edição rica na apresentação, capa em couro sintético, e riquíssima no conteúdo. Mais de 40 mil notas de rodapé, cerca de 120 quadros, mapas e diagramas, 220 artigos e introduções aos textos bíblicos e citações dos pais ou padres da igreja, a começar por São Jerônimo, autor da Vulgata, em latim, são fruto do trabalho de tradutores e revisores da Sociedade Bíblica do Brasil. O original de todo esse material é da The Lutheran Study Bible, publicado em 2009 pela Concordia Publishing House, nos Estados Unidos. A tradução do texto bíblico é de João Ferreira de Almeida, revista e atualizada. O mesmo texto, portanto, usado em todas as edições SBB.

A história de Lutero narra cronologicamente em detalhes os primeiros passos de sua vocação religiosa, a rotina no convento de Erfurt, a viagem a Roma, o combate à venda de indulgências, o casamento com a ex-monja Catarina von Bora e a propagação pela Europa da doutrina evangélica que ficou conhecida como protestantismo. Por tabela, o texto divulga o perfil de papas, príncipes e teólogos no cenário político da Alemanha. É uma biografia densa, suficiente para dar aos leitores uma visão clara e, enquanto possível, imparcial de Martinho Luder, sobrenome que ele mudou para Lutero, ou Elêuteros, em grego, cujo significado se traduz por livre ou independente.

“Essa edição é uma contribuição grande para as igrejas evangélicas na comemoração dos 500 anos da Reforma pelas abundantes citações de Lutero e pela transcrição de textos dele”, disse o reverendo Erni Walter Seibert, secretário de Comunicação, Ação Social e Arrecadação, da Sociedade Bíblica do Brasil. Lançada em fevereiro com 11 mil exemplares, a Bíblia de Estudo da Reforma deverá dobrar a tiragem até o fim do ano. Conforme observa Seibert, o reformador Martinho Lutero provocou uma revolução na teologia, com repercussão na política e na educação. Sua tradução da Bíblia para o vernáculo, contribuiu para a unificação da língua alemã e deu ao povo a possibilidade de ler os textos sagrados, antes só disponíveis em latim.

Algumas observações na narração da vida de Lutero são particularmente interessantes. Por exemplo, a suspeita de que não foi do próprio reformador, mas de seguidores seus, a iniciativa de afixar as 95 teses contra as indulgências na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, onde ele costumava pregar. Outra informação, curiosa e honesta para um texto quase hagiográfico, é o registro da aversão de Lutero aos judeus. Depois de ter aconselhado uma mudança de atitude em relação ao povo judaico nos anos 1520, ele escreveu a obra A Respeito dos Judeus e de Suas Mentiras, publicada em 1543, na qual afirma que os judeus não passam de filhos de Satanás e que a presença deles entre os cristãos representaria um grande perigo para todos os crentes.

“Hoje, essas ofensas que Lutero, ao final de sua vida, proferiu contra os judeus são vistas como a principal mácula na biografia do Reformador”, observa o texto da Bíblia de Estudo da Reforma, acrescentando que “por ter sido tão rigoroso em seus juízos e pronunciamentos, Lutero não foi seguido em tudo, nem mesmo por seus contemporâneos e enquanto ele ainda vivia”.

O professor luterano Lauri Wirth contou ao Estado que, ao ler na sala de aula trechos do que Lutero escreveu sobre os judeus, seus alunos da Universidade Metodista de São Bernardo do Campo disseram que não sabiam quem era o autor, mas que só podia ser um nazista.

A Bíblia de Estudo da Reforma soma-se à Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero, lançada em 2012 pela SBB, que também apresenta uma breve biografia, comentários sobre alguns trechos dos dois Testamentos, o Catecismo Menor para pastores e pregadores indoutos e, uma preciosidade, uma seleção de hinos compostos por Martinho Lutero, com a transcrição de letra e partitura.

BÍBLIA DE ESTUDO DA REFORMA
Tradução: Almeida Revista e Atualizada
Editora: Sociedade Bíblica do Brasil (2.304 págs.,R$ 159,90)



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Adeus, Ricardo Piglia!

Se existe um terreno em que a Argentina é extremamente fértil, é no campo da literatura.

Talvez os escritores mais conhecidos entre "los hermanos del Sur" sejam Jorge Luis Borges, Ernesto Sábato, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, entre tantos outros de igual qualidade e importância.

Na sexta-feira passada, dia 6 de janeiro de 2017, nos despedimos de Ricardo Piglia, outro grande entre os grandes autores argentinos, um adeus sentido que deixou a literatura mundial, particularmente a sul-americana, muito menos rica.

Celebrando sua vida e obra, reproduzimos abaixo o obituário publicado no Estadão:

Morre o escritor argentino Ricardo Piglia

Autor transitava com maestria no universo do crime

UBIRATAN BRASIL

Um romance do escritor argentino Ricardo Piglia é como um novelo que, ao se desenrolar, surpreende o leitor com suas inúmeras e diferentes camadas. Com isso, consolidou-se como herdeiro de grandes nomes da literatura de seu país, como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Inquieto, radical, Piglia era um gigante literário. Na tarde de sexta-feira, 6, foi anunciada sua morte, aos 75 anos, vítima de uma parada cardíaca, segundo noticiou o jornal Clarín. A morte já o cercava, pois, em 2014, foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença que ataca os neurônios controladores dos movimentos musculares.

Piglia era considerado um incansável pensador da literatura, posição que dividia com seu grande amigo Juan José Saer, também já falecido. Eclético, escreveu não apenas romances, mas também críticas, ensaios e roteiros, além de apresentar programas de TV e de atuar como professor de literatura da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, durante 15 anos.

Nascido em Adrogué, província de Buenos Aires, em 24 de novembro de 1941, Piglia teve como primeira atividade literária dirigir a coleção Série Negra, especializada em ficções policiais, e lançou na Argentina escritores como Raymond Chandler e Dashiel Hammett. A partir daí, tornou-se um produtivo pesquisador da literatura argentina, com ensaios importantes sobre Roberto Arlt, Jorge Luis Borges e Macedônio Fernández. Inquieto, sempre se preocupou em recuperar escritores que estavam esquecidos e, principalmente, redefinir imagens cristalizadas.

Publicou contos na década de 1960, quando desenvolveu uma curiosa linha de raciocínio - para ele, uma narrativa curta sempre conta duas histórias: uma visível que esconde outra, invisível. “O conto reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permite ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta”, afirmava Piglia.

A consagração, no entanto, veio com Respiração Artificial, em 1980. Romance polifônico, é ambientado durante a ditadura argentina, iniciada em 1976, e apresenta como narrador Emilio Renzi, revelador da verdadeira história do país e personagem que voltaria em outras obras.

A investigação permitiu que Piglia exercesse seu talento ao revelar os meandros de uma sociedade construída a partir de uma violência camuflada, que torna inertes seus habitantes. Com isso, conseguiu expor o arbítrio e a violência em todo o seu horror. Em enquete realizada com 50 escritores argentinos, Respiração Artificial figurou na lista dos dez melhores romances da história literária do país.

A realidade inspirava a escrita de Piglia que, a partir de fatos verdadeiros, conseguia construir histórias tão eletrizantes que nem pareciam baseadas em acontecimentos reais. É o caso de Dinheiro Queimado, título brasileiro para Plata Quemada, lançado originalmente em 1997 e editado aqui pela Companhia das Letras. O ponto de partida foi um assalto a um carro-forte, acontecido em Buenos Aires, em 1965. Para oferecer aos leitores uma escrita vibrante, Piglia pesquisou documentos confidenciais, cercando-se de detalhes que incriminavam policiais e políticos corruptos.

Outro crime, agora no pampa argentino, tornou-se o mote para Piglia retornar ao romance noir em Alvo Noturno, lançado em 2010. Na verdade, trata-se de uma trama policial sociológica - como já fizera em Respiração Artificial e Plata Quemada, Piglia revelou-se aqui inquieto, radical, insatisfeito ao delinear uma história que, além de transcorrer em ritmo ágil e direto, é complexa graças à sobreposição de impressões sobre o assassinato.

Já em Formas Breves, de 1999, Piglia reuniu textos que lhe permitem transitar na fronteira entre a ficção narrativa e o exercício crítico. São relatos em que trata tanto da relação entre psicanálise e literatura como da importância social embutida nos romances policiais. Em ambos, apresenta conclusões surpreendentes - se, no primeiro, afirma que James Joyce conhecia profundamente o trabalho de Freud, no segundo, acredita que o mundo do crime é o universo com que os homens devem dialogar nos tempos atuais.

Desde que foi diagnosticado com ELA, Piglia apressou-se em escrever sua autobiografia, Diários de Emilio Renzi, dividida em três volumes. O primeiro, Anos de Formação, foi publicado em 2015, enquanto o segundo, Anos Felizes, saiu em setembro passado - nenhum foi traduzido ainda no Brasil. A ideia de utilizar Renzi como protagonista veio durante a filmagem do documentário 327 Cadernos, no qual o diretor Andrés Di Tella acompanhou Piglia na leitura de seus diários escritos desde a adolescência.

FRASES

"Minha relação com a escrita continua a mesma. São horas de grande plenitude que estão no centro da minha vida. O difícil é, como sempre, passar para o outro lado, entrar na escrita e deixar o real em suspenso"

"A experiência da doença é a da injustiça em estado puro: ‘Por que eu?’, você se pergunta, e qualquer explicação é ridícula e sem sentido. O sentimento de injustiça convida à rebelião e à luta, então você não se queixa e isso é um alívio"

"Às vezes, escreve-se melhor quando se está em plena ação e se vive melhor quando se está sozinho"



quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bob Dylan ganha o Prêmio Nobel de Literatura de 2016


Ainda há esperança para um planeta em que a Academia Sueca concede o Prêmio Nobel de Literatura a um poeta e músico do nível de Bob Dylan.

Abaixo uma rara filmagem (legendada) do brilhante artista (e ativista político) cantando "Blowing in the Wind" em 1963, ano em que nasci:




domingo, 14 de agosto de 2016

Albert Camus, estrangeiro, estranhamento e fanatismo, por Leandro Karnal

Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:

Cordeiros de Deus

"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.

Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.

A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Autora de "Harry Potter" inventa escola de bruxos na Amazônia



Parece que o Brasil está crescendo de importância no universo harrypotteriano, essa máquina interminável de ganhar dinheiro mesmo depois do fim da série de livros e filmes. 

Alguns dias atrás, ficamos sabendo da versão turística de Hogwarts em Campos do Jordão (SP); agora é a vez de J. K. Rowling, escritora da saga infanto-juvenil, inventar uma escola de bruxos na Amazônia, segundo informa a revista Galileu:

J.K. Rowling revela escola de magia no Brasil

De acordo com o site Pottermore, o colégio Castelobruxo está localizado na Amazônia

Jovens brasileiros que sempre sonharam em ser bruxos, renovem suas esperanças! Em um evento da saga Harry Potter, um mapa com nomes e localizações de quatro escolas de magia e bruxaria foi exibido e, sim, há uma escola para bruxos no Brasil!

De acordo com o mapa, a escola Castelobruxo fica na Amazônia, protegida por caiporas, e recebe estudantes de todos os países da América do Sul. O conteúdo revelado faz parte do Pottermore, um site idealizado pela escritora J.K. Rowling, que publica novidades e conteúdo exclusivo sobre o universo que ela criou.

As outras escolas anunciadas foram a Ilvermorny (Estados Unidos), Uagadou (África do Sul) e Mahoutokoro (Japão). Estas se somam às já conhecidas Hogwarts (Reino Unido), Beauxbatons (França) e Durmstrang (leste europeu, localização precisa desconhecida).

Confira abaixo uma tradução livre do texto descritivo sobre Castelobruxo, publicado no Pottermore:

“A escola brasileira de magia, que recebe estudantes de todos os países da América do Sul, pode ser encontrada nas profundezas das florestas tropicais amazônicas. Para os poucos trouxas que já colocaram os olhos no fabuloso castelo, ele aparenta ser apenas uma ruína (o mesmo truque usado por Hogwarts; opiniões sobre quem inventou o truque são divididas). Castelobruxo é um imponente edifício quadrado de pedras douradas, muitas vezes comparado a um templo. O perímetro da escola é protegido por caiporas, seres espirituais pequenos e peludos, extremamente travessos, que saem de seus esconderijos à noite para proteger os estudantes e as criaturas que vivem nas florestas. Numa visita a Hogwarts, a ex-diretora da escola, Benedita Dourado, ouviu o diretor da escola inglesa, Armando Dippet, reclamar do Pirraça, o poltergeist. Morrendo de rir, ela ofereceu o envio de algumas caiporas à Floresta Proibida para “mostrar o que era problema de verdade”. Dippet recusou.

Os estudantes de Castelobruxo usam vestes verdes e são muito habilidosos com Herbologia e Magizoologia. A escola também tem programas de intercâmbio muito populares entre os estudantes europeus interessados em estudar a magia na fauna e flora da América do Sul. Em Castelobruxo se formaram muitos bruxos conhecidos, como um dos mais famosos boticários do mundo, Libatius Borage (autor, entre outros trabalhos, de “Estudos Avançados de Poções”, e “Soros Asiáticos”), e João Coelho, capitão do time de quadribol mundialmente conhecido Tarapoto Tree-Skimmer (Rasa-árvores de Tarapoto), sediado no Peru.”



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Bruxinhos brasileiros terão sua própria Hogwarts


Não é piada nem mágica não, gente. Uma legião de crianças brasileiras aprenderá a ser um "bruxo coxinha" desde a mais tenra idade, segundo noticia o HuffPost Brasil:

Hogwarts brasileira existe e está com matrículas abertas para sua 1ª turma

Luiza Belloni

Qual amante da franquia Harry Potter nunca teve vontade de, ao menos por alguns instantes, estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts? Foi com este sonho que Vanessa Candida dos Santos Godoy, de 26 anos, decidiu criar a própria escola de magia e assim nasceu a EMB -- Escola de Magia e Bruxaria do Brasil.

A escola ficará em um castelo na cidade de Campos de Jordão, no estado de São Paulo. Em outubro do ano passado, foi realizado um evento teste de apenas um dia que reuniu mais de 300 fãs da saga. Agora, Vanessa abriu inscrições para um curso de quatro dias, entre 24 e 27 de junho de 2016, em um castelo de verdade.

Como em Hogwarts, os alunos vão viver e ter aulas no castelo (um hotel com mais de 6 mil metros de área construída e a 1700 metros de altitude). Ao chegarem no castelo, os alunos serão divididos pelo "chapéu seletor" online entre a Casa das Águias, Casa dos Esquilos, Casa das Serpentes e Casa dos Tigres.

"Por quatro dias, uniformizados com as típicas capas da EMB, os alunos se matricularão e frequentarão as aulas que mais forem de seu interesse. Há temas apropriados para todos os tipos de bruxos!", diz o site.

Os alunos deverão escolher oito dos 10 cursos oferecidos pela escola: Poções e Elixires, Cuidado dos Animais Mágicos, Adivinhação, Astromagia, Cultura Trouxa, Herbologia, História Mágica, Defesa Antitrevas, Feitiçaria, Voo (sim, tem uma disciplina que ensina a habilidade de voar). Eles receberão todo o material escolar para as aulas, que vão durar em torno de 40 minutos cada.

As aulas incluem recitar feitiços, jogar Quadribola (adaptação do jogo Quadribol), cuidar de "animais mágicos" e vivenciar "a rotina de uma escola de magia em um castelo de verdade."

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a idealizadora do projeto, Vanessa, explica que toda a programação é inspirada na história de J.K. Rowling, mas com um toque brasileiro. "Fizemos algumas adaptações para o público, como a cerveja amanteigada. Aqui ela é gelada e é menos doce que a tradicional [vendida nos estúdios da Warner, em Londres]", conta.

Outra novidade é a carteirinha de estudantes bruxos. "Já temos clube de vantagens e fechei parcerias com lojas que darão descontos aos alunos que apresentarem a carteirinha na hora da compra."

Ela explica que a ideia surgiu depois de perceber que todas as feiras sobre a saga eram iguais. "Decidi criar um mundo paralelo, onde os fãs poderiam ter uma imersão completa e real do mundo da magia. O conteúdo dado em sala de aula é totalmente lúdico e voltado ao universo de Harry Potter", acrescenta.

Vanessa disse que a escola não pretende ser apenas uma cópia de Hogwarts. "Lá, as pessoas encarnam mesmo os personagens, igual a um RPG [jogo em que consiste interpretar papéis em um determinado universo fictício]. O objetivo é criar a nossa própria fanfic [narrativa fictícia escrita e divulgada por fãs]."

Estudar na Hogwarts brasileira custa, ao todo, R$ 1.850. O valor inclui a programação completa (que pode ser conferida aqui) de 24 a 27 de junho, alimentação, Copo Mágico Refil (refrigerante e chá gelado à vontade), cobertura de seguro saúde no período, transporte e o Kit Aluno -- apostilas, capa do uniforme, mapa do castelo da escola, carteirinha de estudante bruxo, medalha do torneio Taças das Casas e o diploma de conclusão do curso.



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Livro sobre romance entre judia e palestino é censurado em Israel


Matéria publicada no G1 em 03/01/16:

Livro sobre romance entre judia e palestino causa polêmica em Israel

'Uma barreira viva', de Dorit Rabinyan, foi censurado em Israel.
Liat, israelense, e Jilmi, palestino, são os dois heróis de uma história fictícia.

A apaixonada relação de amor de uma mulher judia com um homem palestino, epicentro do romance "Uma barreira viva", da escritora Dorit Rabinyan, provocou polêmica em Israel após o Ministério da Educação do país tê-lo proibido por considerar que encoraja a "assimilação".

Liat, israelense, e Jilmi, palestino, são os dois heróis de uma história fictícia que abala os alicerces da identidade israelense, e que gerou uma onda de protesto pelas redes sociais contra o ministro da Educação, Naftali Bennett, líder do partido nacionalista religioso Lar Judaico.

"Comprei hoje vários livros. Acredito que é o livro que atualmente deve ser entregue aos alunos e alunas", escreveu em sua página do Facebook o chefe da oposição e líder trabalhista, Isaac Herzog, estimulando a população a comprá-lo.

Para Herzog, "o ato agressivo e desnecessário de censurar um livro baseando-se em uma interpretação linear de seu conteúdo é outro tijolo do muro do medo, da segregação e da cerração que está sendo erguido pelo governo (do primeiro-ministro israelense, Benjamín) Netanyahu".

Centenas de atores, publicitários, escritores e intelectuais em geral, assim como políticos e educadores, alçaram energicamente sua voz contra o boicote que o Ministério impôs ao romance de Dorit Rabinyan, escritora e roteirista de conhecida trajetória local.

"Gader Jayá" (em hebraico), traduzido ao inglês como "Borderline" e publicado há um ano e meio, é a história de uma tradutora israelense e um artista palestino que se apaixonam em Nova York e que veem como seu amor resiste a apagar-se quando ambos devem retornar a Tel Aviv e Ramala, e enfrentar a crua realidade política da região.

Ganhadora de vários prêmios locais e muito mais produtiva em sua juventude que na idade adulta, Rabinyan tinha passado quase despercebida com seu último livro até que vários professores de literatura hebraica pediram ao ministério para inclui-lo na lista de recomendados para os níveis avançados do ensino médio.

Os membros da comissão acadêmica pertinente lhe deram o selo de apto, mas dois altos funcionários do ministério consideraram que era inadequado e ordenaram que o título fosse apagado da lista, para o que contaram com o apoio de Bennett.

Um dos argumentos deste organismo é que é preciso preservar "a identidade e a herança dos estudantes em cada coletivo social", ao mesmo tempo em que reforçava que as "relações íntimas entre judeus e não judeus ameaçam a separação de identidades", de acordo com o jornal "Haaretz".

Desde então as queixas e denúncias inundaram as redes sociais, com famosos comprando o livro e tirando fotos com ele.

"Minhas felicitações ao Ministério da Educação que conseguiu fazer de 'Uma barreira viva' um livro de leitura obrigatória", disse o prefeito da liberal Tel Aviv, Ron Huldai, que classificou o romance como "fascinante".

A principal biblioteca desta cidade pendurou um cartaz no qual anuncia a disponibilidade do livro sem pagamento algum, enquanto as principais livrarias faziam pedidos públicos à editora Am Oved para que lhes forneça mais exemplares, dada a demanda gerada pela polêmica.

Rabinyan, que entre 1995 e 1999 publicou com notável sucesso seus dois primeiros romances - traduzidos cada um a oito idiomas -, tem outro título entre os recomendados do Ministério da Educação, mas estava há 15 anos sem publicar e tudo o que tinha lançado desde então era um livro infantil.

À campanha de protesto se somaram escritores de renome internacional como A.B. Yehoshua ("Me sinto ultrajado"), Hayim Beer ("Daria a Bennett o título de membro honorário da Lehavá", uma organização de extrema-direita) e Natan Zach ("O ministro da Educação é tolo e com os tolos não há nada o que fazer").

No entanto, todos concordam com a autora em que Bennett deu definitivamente um impulso comercial ao romance, agraciado este ano com um conhecido prêmio local de literatura.

"De repente me transformei em um assunto noticioso, (...) agora sou uma personalidade pública", disse a escritora, com ironia, ao serviço de notícias "Ynet".

Rabinyan comentou que seu romance não atenta contra a identidade judaica, mas unicamente "reflete a complexidade da sociedade israelense" e seus medos frente à assimilação.

"Acham que proibir o livro fará o problema desaparecer, mas o livro é só um espelho da sociedade. Sua grande força está precisamente na sensibilidade que demonstra", afirmou a escritora israelense de origem iraniana.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Papa publica seu primeiro livro


A informação é da Gaudium Press:

Papa Francisco publica seu primeiro livro

Doze de janeiro é a data a partir da qual nas livrarias de 84 países pode ser encontrado o primeiro livro de autoria de Francisco.

Trata-se de uma, como que, compilação de uma longa conversa do Papa com o vaticanista Andrea Tornielli onde procura-se explicar com detalhes algumas questões centrais do atual pontificado e descreve, sobretudo, o conceito de Francisco sobre a misericórdia. E é daí que vem o título: "O nome de Deus é Misericórdia".

Não é o primeiro livro-entrevista de um Papa: Em 2010 foi publicado o "Luz do Mundo", de Bento XVI. O livro surgiu de uma série de longas conversas do Papa Emérito com o jornalista alemão Peter Seewald.

Em 1994, João Paulo II já havia publicado o livro " Cruzando o Umbral da Esperança", também ele, fruto de conversas com o jornalista italiano Vittorio Messori.

Parece que esse vai tornando-se um modo muito particular e efetivo de os Papas de nossos dias falarem de questões da atualidade e das respostas que eles têm para elas.

O livro será apresentado em Roma pelo Secretário de Estado Pietro Parolin e o diretor Roberto Benigni. (JSG)



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Livro analisa religiosidade brasileira


Matéria publicada no IHU:

Livro coloca em perspectiva religião no Brasil


"O livro traça um rico panorama dos movimentos que marcaram um Brasil de religiosidade tradicional, buscando as origens conceituais do tema no judaísmo antigo e avançando na direção de movimentos brasileiros de raízes católicas, evangélicas e indígenas", comentam Reginaldo Prandi, professor de sociologia da USP, e Renan William dos Santos, mestrando em sociologia da USP/FAPESP, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 19-09-2015. 

Eis o artigo.


Coletânea de textos sobre milenarismo e messianismo traça rico panorama dos movimentos que marcaram o país.

O medo do fim do mundo nasce com a religião, que na ausência da ciência tratou de explicar como tudo começou e terminará. Esse medo persiste, mas os desígnios divinos foram substituídos pelas estripulias humanas como causas do fim do mundo. Mesmo a religião hoje aponta a ação do homem contra o planeta como razão do apocalipse.

A crença sobre o fim do mundo de cada religião forma sua escatologia. Na escatologia bíblica, que envolve a luta do bem contra o mal, nos últimos tempos o diabo ficará preso por mil anos, período em que os merecedores viverão de novo o paraíso na Terra. Após esse milênio de paz e prosperidade, o diabo será solto e derrotado, acontecendo então o Juízo Final. Isso é milenarismo.

Em certos casos, pode-se esperar a intervenção nesse episódio de um enviado divino, o messias, que deve guiar o povo para que o bem vença de uma vez o mal, promovendo o advento do paraíso terrestre. Isso é messianismo.

Interpretações dessas crenças têm sido fonte de movimentos milenaristas e messiânicos. Tanto no milenarismo como no messianismo, a religião orienta completamente a vida dos fiéis e suas coletividades. Mas essa é uma modalidade de religião extra cotidiana, excepcional. Não é para durar, não pode durar. Daí, costumeiramente, ser chamada de surto.

No livro "Messianismo e milenarismo no Brasil", organizado por João Baptista Borges Pereira e Renato da Silva Queiroz, os surtos mais famosos são tratados em ensaios de diferentes autores, de diversas áreas, muitos publicados anteriormente em veículos hoje de difícil acesso.

Do antigo sebastianismo português, passando por Canudos, até casos mais recentes, como os do Contestado e de Catulé, entre outros, o livro traça um rico panorama dos movimentos que marcaram um Brasil de religiosidade tradicional, buscando as origens conceituais do tema no judaísmo antigo e avançando na direção de movimentos brasileiros de raízes católicas, evangélicas e indígenas.

Todos esses casos têm em comum um estilo de religião hoje esvaziada em nossa sociedade, mas os milenarismos e messianismos continuam a se reproduzir, em geral, independentemente da religião. A ideia do apocalipse sobrevive ao fim das profecias religiosas. Veja-se o midiático caso do fim do mundo anunciado para 2012.

A força da religiosidade brasileira de hoje, pintada com cores generosas por analistas que se rejubilam com um improvável retorno do antigo poder da religião, não chega aos pés da intensidade dos movimentos messiânicos e milenaristas brasileiros nessa coletânea. Até por isso, uma das contribuições do livro é ajudar a pôr em perspectiva o cenário religioso atual.

*MILENARISMO E MESSIANISMO NO BRASIL
ORGANIZADORES João Baptista Borges Pereira e Renato da Silva Queiroz
EDITORA Edusp
QUANTO R$ 52,00 (280 págs.)
CLASSIFICAÇÃO muito bom



domingo, 13 de setembro de 2015

Ler um livro pode turbinar os seus relacionamentos


A matéria é do Brasil Post:

Por que ler um livro faz bem para seus relacionamentos

Leigh Weingus

Boa notícia para todos vocês aí fora que gostam de ler: praticar a leitura por prazer traz muitos benefícios sociais, revela um estudo novo.

Uma sondagem realizada com 4.000 adultos no Reino Unido constatou que as pessoas que leem por prazer têm habilidades sociais melhores, comunicação melhor entre pais e filhos, índices mais baixos de depressão e demência e nível mais alto de bem-estar geral.

Por que será que passar um bom tempo a sós com um livro faz tanto bem a nossos relacionamentos?

“A prática da leitura nos leva a entender melhor nossa própria identidade e também pode nos ajudar em muito a nos relacionar com outras pessoas, entender a visão de mundo das outras pessoas e assim por diante”, diz a pesquisa do grupo britânico The Reading Agency, que promove a leitura. A informação é da BBC.

É claro que os benefícios de se perder em um livro vão muito além do que revelou a pesquisa mais recente. Um estudo de 2009 constatou que a leitura ajuda as pessoas a superar o estresse; outro estudo menor descobriu que as pessoas que leem na idade adulta mais avançada apresentam índice 32% mais baixo de declínio mental. E, se tudo isso não bastasse, ler livros também pode ajudar você a dormir melhor.

Ou seja, é hora de mergulhar fundo em um bom livro do tipo que você lê por prazer.



domingo, 16 de agosto de 2015

Todas as vidas de Cora Coralina chegam ao cinema

O busto de Cora Coralina na janela da casa da ponte sobre o Rio Vermelho,
em Goiás Velho, que hoje sedia um pequeno museu sobre sua vida e obra.
Foto tirada em dezembro de 2013.

Mesmo aqueles que não tiveram, como este que vos escreve, o imenso prazer de visitar a casa de Cora Coralina na linda cidade velha de Goiás, sob o esplendor da Serra Dourada, vão se deliciar com as vidas e a obra de Cora Coralina, agora nas telonas.

A matéria é do Estadão:

Cora Coralina ganha filme sobre sua vida

MARIA FERNANDA RODRIGUES

'Cora Coralina - Todas as Vidas', com direção de Renato Barbieri, é o primeiro longa sobre a poeta doceira da cidade de Goiás

Cora Coralina para além da imagem da senhorinha que escrevia poemas e preparava doces na casa às margens do Rio Vermelho, na cidade de Goiás. É isso o que pretende mostrar o filme Cora Coralina – Todas as Vidas, que terá sua primeira exibição neste sábado, 15, na terra natal da poeta, durante o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). Claro que cena, no imaginário de todo brasileiro que conhece sua obra, estará retratada no longa. Afinal, este é um documentário poético, que mistura realidade e ficção, sobre a autora de Vintém de Cobre, nascida Anna Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, e que resgata os principais períodos de sua vida. Este, especificamente, é interpretado por Walderez de Barros.

O filme dirigido por Renato Barbieri conta, ainda, com outras três atrizes que se revezam no papel de Cora. Camila Salles, a Camilinha, faz o papel de sua trisavó aos 5 anos. Maju de Souza é Cora aos 14 e Camila Márdila (premiada em Sundance), aos 21. Há ainda uma personagem mais etérea, nas palavras do diretor, que é protagonizada por Teresa Seiblitz.

Essa narrativa tecida pelas palavras de Cora se alterna com depoimentos de pessoas que a conheceram ou estudaram seu legado. Entre elas, Clóvis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda, que publicaram pela Ideias & Letras, em 2009, Cora Coralina – Raízes de Aninha. O filme é inspirado livremente nesta biografia que já está em sua 4.ª reimpressão.

Em uma terceira parte do filme, todas as atrizes que encarnaram Cora, exceto a criança, vão ao estúdio e leem trechos dos textos da autora. Neste caso, elas – e ainda Bete Goulart e Zezé Mota – não são mais personagens, mas elas próprias.

E, por fim, Cora aparece aqui e ali em imagens de arquivos videográficos projetadas sobre paredes, para trabalhar a imagem poética, explica Barbieri, que já tinha feito cinco cinebiografias – de Monteiro Lobato e Mauricio de Sousa, inclusive – antes de aceitar o convite do produtor Marcio Curi.



Tudo começou em 2009, quando Curi recebeu a visita de Paulo Sérgio Bretas Salles, seu amigo e neto de Cora. “Ele me procurou porque sentia a necessidade de que alguém realizasse um filme mais completo, que retratasse sua vida e obra. Já haviam sido produzidos alguns bons curtas, mas ele sentia a necessidade de um filme que levantasse o véu que sempre encobriu a trajetória de Cora, antes de ser revelada ao Brasil pela famosa crônica de Carlos Drummond de Andrade.”

Foi com esse texto publicado pelo poeta mineiro no Jornal do Brasil, em 1980, que ela ficou conhecida do grande público. Cora já estava com 91 anos e pôde aproveitar por pouco tempo sua fama meteórica. Morreu quase cinco anos depois sem imaginar, por exemplo, que teria um fã clube de 217 mil pessoas – entre os escritores brasileiros mais populares do Facebook, ela perde para Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu e ganha de Drummond e Leminski.

E foi na época do texto de Drummond que Renato Barbieri ouviu sobre ela. “Comprei todos os seus três livros, visitei sua casa quando ela já tinha morrido. Encarei o convite para dirigir o filme como um presente”, conta. E ao aceitá-lo ampliou o conhecimento que tinha sobre a trajetória dela – é esse caminho que ele segue neste primeiro longa sobre a poeta.

“Poucos sabem que dos seus 95 anos, ela passou 45 em São Paulo”, comenta. Ou que ela começou a escrever muito cedo, que era engajada em causas sociais e ambientais, que vinha de uma família letrada, que vendeu livros para a José Olympio.

Regina Pessoa o ajudou no roteiro, que segue uma linha cronológica dos fatos, mas não dos poemas. As filmagens foram feitas na cidade de Goiás, Jaboticabal, Penápolis e Andradina, onde ela viveu. São Paulo ficou de fora porque já está muito diferente do período em que Cora passou por aqui.

A Tucumã fará a distribuição do filme, que não tem previsão exata de chegada aos cinemas – talvez em algum momento entre o fim deste ano e o primeiro semestre de 2016. A opção foi por apresentar o filme em festivais, antes. Há planos de exibi-lo na tevê mais para a frente.

Barbieri diz que vê em Cora uma figura acima do normal. “Ela é uma gigante. Rompeu barreiras, do machismo até. Ela é uma expressão da mulher moderna que saiu de casa e foi ao encontro do seu destino. Isso é muito atual.” Ele diz ainda que ela foi uma “bandeirante’ que deixou sua marca. “Entrevistei pessoas que a conheceram em locais de onde ela saiu há 70 anos e que falam dela como se tudo tivesse ocorrido anteontem. Cora foi uma mulher que esteve à frente do seu tempo e deixou sua marca por onde passou. Isso não é um clichê; é um fato. E o filme busca expressar isso com toda a poesia da Cora”, explica. Ele insiste em seu legado: “Ela fazia realmente a diferença. Foi profunda, ativista, não tinha preconceitos. Cora transitava com desenvoltura dos becos aos salões. Essas figuras são diferentes”.

Veja o trailer





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