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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

1/3 dos brasileiros acredita que mulher atraente provoca estupro

Confira o surpreendente resultado da pesquisa publicada no HuffPost Brasil:

Um em cada três brasileiros acredita que 'a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada'

A pesquisa Datafolha encomendada pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e divulgada nesta quarta-feira (21) revelou que um em cada três brasileiros concorda com a afirmação de que "a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada".

O levantamento mostrou também que a porcentagem de concordância com a frase é a mesma entre homens e mulheres: 30%. Foram ouvidas 3.625 de pessoas com 16 anos ou mais, e a margem de erro é de dois pontos percentuais.

A percepção de que a mulher que usa "roupas provocativas" é culpada caso sofra um estupro é maior entre pessoas que têm apenas o ensino fundamental (41%), moradores de cidades de até 50 mil habitantes (37%) e pessoas acima dos 60 anos (44%).

Essa convicção tem menos apelo entre os que possuem ensino superior (16%) e têm até 34 anos (23%).

Outra frase apresentada aos entrevistados foi “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, com a qual 37% dos entrevistados concordaram. Nesse caso, o índice foi maior entre os homens (42%) do que entre as mulheres (32%).

A cada 11 minutos uma mulher é violentada no Brasil, apontam dados recolhidos pelo FBSP com as secretarias de segurança pública de todo o país. Elas correspondem a 94% das vítimas de estupro no Brasil, segundo dados do Ipea.

Não é à toa que a pesquisa também revelou que 85% das mulheres têm medo de serem estupradas. O índice sobe a 90% no Nordeste.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

Europa não quer ver mulheres vestindo burcas

A notícia é da Agência Brasil:

Burca é obstáculo à integração, diz Angela Merkel

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, colocou mais lenha na fogueira do debate sobre restrições a trajes islâmicos na Europa e disse nessa quinta-feira (18) que a burca, roupa que cobre todo o rosto da mulher, inclusive os olhos, é um "obstáculo à integração".

Além disso, ela deu pleno apoio para o ministro do Interior, Thomas de Maizière, estabelecer possíveis "proibições parciais" da peça. "No meu ponto de vista, uma mulher totalmente coberta tem poucas possibilidades de se integrar", declarou Merkel.

O partido da chanceler deve apresentar ainda nesta semana um documento pedindo o veto à burca e ao niqab, que deixa apenas os olhos à mostra, em edifícios públicos, em manifestações e ao volante de automóveis.

Recentemente, a cidade de Cannes, na França, proibiu o uso de "burkini" (junção das palavras burca e biquíni) em suas praias e recebeu o apoio do primeiro-ministro Manuel Valls, que disse ser a favor de uma lei nacional contra o traje de banho islâmico.

Setores conservadores também têm pressionado o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, para vetar o uso da burca no país.



sábado, 9 de janeiro de 2016

Estilistas ocidentais investem na moda islâmica


Mulheres muçulmanas gastam mais de R$ 1 trilhão em roupas todo ano, segundo a informação do El País:

Dolce e Gabbana lança sua primeira coleção para mulheres muçulmanas

Empresa dá ao lançamento o nome de 'Abaya', em referência às túnicas que cobrem o corpo

A companhia italiana de luxo Dolce e; Gabbana lançou a sua primeira coleção dedicada às mulheres muçulmanas. Os estilistas lhe deram o nome de Abaya, que faz referência às túnicas escuras usadas por algumas mulheres muçulmanas e que cobrem o corpo inteiro, com exceção da cabeça, pés e mãos.

Trata-se de uma coleção de túnicas (abaya) e véus (hijab) para ocasiões especiais em que predominam o preto e os tons neutros, embora sempre com os matizes sicilianos típicos da ilha onde nasceu Domenico Dolce. São conjuntos de túnica e véu adornados com pedras, encaixes, rendados e bordados, embora também haja peças mais ousadas, como túnicas com transparências e saias mais curtas que o habitual, sempre acompanhadas de saltos altos e acessórios elegantes, como carteiras, bolsas, óculos escuros e joias.

Além de ser o seu primeiro lançamento exclusivo para mulheres muçulmanas, Dolce e Gabbana conseguiu fazer algo especial, que é desenhar a coleção em sintonia com sua aposta para a primavera europeia deste ano. As duas coleções compartilham detalhes como as margaridas, limões e as exuberantes rosas vermelhas que adornam as peças e os acessórios.

A Abaya foi apresentada na edição digital da Vogue Arábia Saudita, em que se anuncia que a série, repleta de superposições, adaptará ao mundo árabe o estilo da dolce vita italiana. A coleção também foi apresentada, em seu perfil do Instagram, pelo estilista Stefano Gabbana, e a polêmica não se fez esperar. Dezenas de comentários surgiram criticando os estilistas italianos por desenharem peças que simbolizam a opressão das mulheres, enquanto outros afirmavam que a ostentação vai de encontro aos ideais do Islã. Muitos comemoraram o fato de que uma das empresas de luxo mais famosas do mundo faça uma aposta dirigida para as mulheres muçulmanas.

Dolce e Gabbana foi a última empresa de moda a se voltar para o mercado muçulmano, um negócio de grandes proporções que se encontra em plena redefinição. Segundo a revista Fortune, as mulheres muçulmanas gastaram 266 bilhões de euros (cerca 1,1 trilhão de reais) em moda em 2013 (mais do que o Japão e a Itália reunidos). A expectativa é que esse valor seja duplicado até 2019.

As marcas de luxo, que captaram nesse mercado uma grande oportunidade, já começaram, há anos, a adaptar suas coleções às necessidades do público islâmico. Algumas, como Armani, Calvin Klein e Prada, produzem linhas de lenços especialmente concebidos para cobrir a cabeça. A Valentino também procurou conquistar uma parte do mercado muçulmano e dispõe de um serviço especializado que permite criar novas túnicas.

O boom do mercado islâmico também foi detectado pela DKNY (Donna Karan New York), que lançou em julho de 2014 a sua coleção Ramadan, com peças que cumprem as normas islâmicas de discrição das roupas femininas. Antes da Dolce e Gabbana, a última empresa a voltar os olhos para as muçulmanas foi a firma têxtil sueca H e M, que contratou Mariah Idrissi, primeira modelo com véu islâmico a estrelar uma campanha de moda ocidental.



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Teria Gisele Bündchen usado uma burca na França?


Tantos problemas e tragédias acontecendo no mundo, mas nos últimos dias os americanos e franceses estão obcecados com uma dúvida cruel: seria Gisele Bündchen a mulher que está vestindo uma burca na foto acima?

Dois detalhes chamaram a atenção na foto: a sandália rasteirinha com unhas pintadas que uma mulher muçulmana não exibiria, pois não pode mostrar os pés em público, e a mochila que - mais tarde - foi carregada pela irmã da top model quando ambas já estavam no aeroporto de Paris prontas para voltar aos Estados Unidos.

Há um terceiro detalhe que La Bündchen não se informou bem antes de tentar despistar os fotógrafos: o fato de que as burcas e os véus são vestimentas oficialmente proibidas na França, por uma lei polêmica de 2010 (vigente a partir de 2011) que atropelou a resistência dos milhões de muçulmanos do país.

A irmã de Gisele com uma mochila muito parecida...

Isto fez com que os franceses se revoltassem com a modelo brasileira, pois a proibição da burca é, no fundo, um manifesto contra aquilo que eles chamam de "opressão" das mulheres islâmicas.

O fato é que dificilmente um paparazzi estaria de plantão em frente a uma clínica de cirurgia plástica em Paris esperando uma mulher muçulmana quando - surpresa! - se deparou com Gisele de burca.

Dizem as más línguas que Bündchen teria se submetido a entrar na faca francesa para dar uma turbinada nos seios e uma levantada nos olhos.

Como você percebe, é muito barulho por nada, mas fica o registro.

Falem bem ou falem mal, falem de Gisele. A já milionária conta bancária dela agradece.

A informação é do  jornal sensacionalista New York Post, que - maldosamente - diz que a top model teria feito uma plástica para reparar os "seios murchos" ("deflated boobs").

Trata-se, verdade, de uma piada interna dos americanos, já que Tom Brady, o marido de Gisele e quarterback (o lançador da bola oval) do New England Patriots, último campeão da NFL, a liga de futebol americano, foi envolvido e punido num escândalo pra lá de curioso.

A imprensa dos EUA chamou o escândalo de "Deflategate", pois nos jogos em casa, funcionários do New England Patriots teriam - propositalmente - "murchado" em ínfimas libras as bolas ovais, o que as teriam tornado mais fáceis de serem lançadas por Brady e agarradas pelos "wide receivers" do time, os jogadores de ponta que recebem seus passes e fazem o "touch down" (o "gol" do futebol americano, quando cruzam a última linha do campo).

O "Deflategate" fez a alegria da iimprensa sensacionalista dos EUA.

Embora nada tenha sido cabalmente provado contra ele, por conta do "Deflategate" Tom Brady foi suspenso por 4 jogos e sua equipe foi  multada em um milhão de dólares, além de perder alguns privilégios na próxima temporada da National Football League (a NFL).  Tudo em nome do "fair play" tão prezado pelos americanos.

Nada, entretanto, que vá minimamente incomodar os milhões de dólares de sua conta bancária.

Este é mesmo um casal que dá o que falar, né não?

E dos chargistas também...





sexta-feira, 3 de julho de 2015

Ana Paula Valadão lança o pijamão gospel


A onda de ídolos gospel faturando em cima da fama não é nova. Aqui mesmo já falamos da moda gospel para os pés de André Valadão e repercutimos matéria da Folha de S. Paulo sobre a "indústria" que os evangélicos movimentam no Brasil.

Daí não ser surpresa alguma ver Ana Paula Valadão pinçando um versículo bíblico, mais exatamente Deuteronômio 8:8, para justificar os 7 frutos estampados no seu involuntário pijamão: "Trigo, Cevada, Figos, Romãs, Uvas, Azeitonas e Tâmaras".

É sempre assim com certas personalidades evangélicas, e não só na vestimenta: basta citar um versículo bíblico qualquer e extrair dele o maior lucro possível.

Para esses ícones gospel, a referência bíblica tem o condão de "ungir" qualquer coisa vendável, e eles nem ficam vermelhos com tanto utilitarismo.

Parece, entretanto, que Ana Paula Valadão não esperava a reação sarcástica da plateia quando postou a foto acima no seu perfil do facebook.

Os internautas não perderam a chance de ironizar a musa gospel nos comentários: "pijama" foi o campeão das impressões da galera, mas sobrou também "toalha de mesa", "livro de colorir", "cortina", "pão integral gourmet ungido" e "pelo menos tem cevada pra gente tomar vendo o Fluzão".

Seria cômico, não fosse trágico...



quarta-feira, 6 de maio de 2015

Irã proíbe cortes de cabelo "satânicos"

Matéria publicada no Brasil Post:

Irã proíbe cortes de cabelo 'satânicos' e depilação de sobrancelhas

Cortes de cabelo considerados não ortodoxos, depilação de sobrancelhas, tatuagens e bronzeamento artificial estão proibidos para homens iranianos, segundo informação divulgada nesta segunda-feira (4) pela imprensa do país persa. Cortes e penteados no estilo 'espetado', apreciados pelos mais jovens, são considerados "ocidentais", "não islâmicos" e com simbologias ligadas ao "culto ao demônio".

"Penteados de adoradores satânicos estão vetados a partir de agora", disse Mostafa Govahi, chefe do sindicato dos barbeiros iranianos, à agência local Isna. Segundo ele, quem desrespeitar a determinação terá a licença revogada.

Ele acusou barbeiros que trabalham sem autorização de oferecerem cortes do estilo agora banido. "Eles foram identificados e terão de arcar com as consequências". As transgressões são tidas como "violações às regulamentações islâmicas".



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pastor americano "batiza" o livro "50 tons de cinza"

Ed Young Junior é o pastor da Fellowship Church de Grapevine, subúrbio de Fort Worth, no Texas, igreja formalmente ligada à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, embora hoje eles façam questão de não divulgar este liame.

Chegadaço numa controvérsia, é difícil defini-lo com pastor evangélico, mas ele se enquadra nessa nova geração de líderes americanos que dão muito valor ao glamour, à aparência e à popularidade, como Joel Osteen e Steven Furtick, que apresentam, com o perdão da palavra, uma espécie de versão metrossexual do evangelho.

Ternos caros, roupas de grife, sorrisos brilhantes, um jeitão de boneco Ken da Barbie e uma tez de popstar os ajuda a pregar suas ideias a milhares de pessoas dentro de seus templos e milhões que atingem pela televisão.

PASTOR FASHION


Young Jr. chegou ao ponto de lançar um portal específico para vender produtos fashion para que os pastores possam se vestir com o que há de mais "cool" nas tendências da moda, o PastorFashion.com.

Você, amigo pastor evangélico descolado, já tem onde fazer a transformação do seu visual, portanto.

Neste fim de semana que passou, conforme previamente anunciado, Ed Young organizou uma cerimônia em sua mega-igreja para "batizar" o livro "50 Tons de Cinza", best seller erótico que vem fazendo a cabeça de milhões de leitoras mundo afora.

Segundo alegou o pastor americano, a iniciativa foi para "trazer à vida a realidade do plano de Deus" para ajudar as pessoas a distinguirem o que é fantasioso do que é real.

EPIDEMIA CULTURAL


Acrescentou que "há uma epidemia cultural lá fora que vem embrulhada em completa fantasia. O livro "50 Tons de Cinza" é uma tentativa pervertida de aprisionar leitores e levá-los ao engano do que significam intimidade e conexão. É uma distorção patética de uma realidade mais poderosa sobre relacionamentos. Deus não é anti-sexo, e Ele não é cinza no que se refere a relacionamentos".

Ninguém entendeu direito o que ele quis dizer com "Deus não ser cinza no que se refere a relacionamentos". Haveria um arco-íris na jogada?

Bom, de qualquer maneira, suspeita-se que o pastor não deva estar nada contente por não ter faturado muita grana vendendo o livro "50 Tons de Cinza" no seu site, ainda mais com o filme inspirado nele que estreia nas telonas no próximo dia 12 de fevereiro, e promete ser um arraso nas bilheterias dos cinemas.

Talvez o melhor nome para isso tudo seja "fetiche".




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Moda gospel para os seus pés

Momento meigo de André Valadão e Lucinho no instagram do primeiro:






domingo, 9 de dezembro de 2012

Frida Kahlo: arte, moda e religião

Artigo de Claudio Carvalhaes publicado na Lupa Protestante em junho de 2011:

O vestido revolucionário de Frida Kahlo

Modismos quiseram tornar palatável a obra da artista mexicana, impregnada de política e religião


O quadro de Frida Kahlo “Meu vestido pendurado ali” não tem despertado o mesmo interesse nem a atenção como outras de suas pinturas. Talvez porque, aparentemente, a artista _cujos centenário de nascimento se comemora neste ano_ não esteja lá, no quadro, pelo menos não tão visceralmente presente como em muitas de suas pinturas.

Nos anos 90, revistas femininas nos Estados Unidos (“Elle”, “Vogue”) “traduziam” Frida Kahlo (1907-1954) em suas páginas em estilo mexicano, transformando seus vestidos em roupas atraentes nos corpos de belas modelos, posando em casas ensolaradas e supostamente também mexicanas. Queriam transformar a difícil obra dessa mulher em imagem palatável, pronta para ser consumida. Retocavam suas veias, o sangue, as cicatrizes, os pelos de sua face e a morte.

Em vez de sua imagem real, manequins esguias a retratavam com exagerada maquiagem, vestidos provocantes e pernas nuas. Ela era representada nesses novos vestidos e nos cabelos soltos das modelos. Parecia que a única maneira de introduzir Frida Kahlo nos Estados Unidos era fazê-la passar por essa lavagem cultural, como se fosse pintora da moda, bela e aceitável ao gosto dominante. Atualmente, alguns de seus quadros estão cotados em até um US$ 1 milhão.

Entretanto, nem todos gostam do que ela pintava e nem todos a reconheceram pelos olhares de “Elle” ou “Vogue”. Ao comentar com uma amiga sobre Frida, a reação não demorou: “Não é aquela pintora com bigodes, que trata de temas melancólicos? Ela é demasiadamente estropiada!”.

Nessa asserção, o que fica de Frida parece ser somente as marcas fortes de seu rosto e seus símbolos de morte. Talvez por isso, aquilo que parece ser uma enorme crueza e intensa feiúra na obra de Frida é rechaçado ou necessariamente revisado e embelezado, para torná-la aceitável aos padrões da classe média norte-americana. A própria definição que André Breton fez de Frida e de sua arte -“uma fita ao redor de uma bomba”- acaba por fazer quase o mesmo das revistas norte-americanas. Ao enlaçar a bomba com uma fita, a fita distrai a bomba e a bomba acaba por ser um mero elemento para mostrar a fita.

Se em Breton a bomba precisa da fita para traduzir beleza, nas revistas de moda o caminho é mais fundo, tentando redimir Frida de si mesma, de seus tormentos e pensamentos de morte. Uma vez redimida, sua obra torna-se sexy, colorida, bela, e ao final de tudo, mais consumível. Nas revistas, os tons revolucionários, nacionalistas e marxistas presentes em suas pinturas parecem nunca terem existidos.

Vestidos com compromissos

Os vestidos de Frida não eram escolhidos por causa apenas da beleza, mas expressavam compromissos culturais com os povos indígenas, principalmente astecas, com os quais se identificava. Sua arte envolvia e revolvia recursos intelectuais e experiências dos contextos que ela gostaria de verem refletidos em seu país.

No quadro citado (“Meu vestido pendurado ali”), ela usa um vestido tehuana. Janice Helland comenta: “É provável que a imagem dos vestidos das mulheres zapotecas que representam ideais de liberdade e de independência econômica tenham, por isso, chamado a atenção de Kahlo”1.

Seus vestidos e colares fazem relembrar os vínculos de Frida com seu povo. Ao usar vestidos tehuanos de mulheres zapotecas, além de colares que traziam o imaginário azteca, Frida parece querer lembrar que são essas mulheres, esses povos colocados à margem da universalização cultural (não fora da estrutura, mas nas margens) que estão ali pendurados, colocados entre as fronteiras da assimilação, do extermínio, mas da resistência.

No quadro citado, uma enormidade de referências culturais, políticas, sociais, religiosas e econômicas são postas em relação e tensão, e entre essas referências mundos cheios de história e materialidade são construídos, coabitados, transformados e destruídos. Helland descreve o quadro: “Um vestido, um telefone, um troféu esportivo, a figura de um dólar ao redor da cruz entrando num edifício federal, como símbolo financeiro, e Mae West, no papel da fantasia de Hollywood. Essas fotografias destacam o destino dos desempregados da era da grande Depressão na parte inferior do quadro e mostram o contraste entre a riqueza e a pobreza na sociedade americana”2.

O vestido tehuano de Frida pendurado num cabide, num varal de fita de laço, entre os Estados Unidos e o México, reflete a vida de povos inteiros, ao mesmo tempo presentes e ausentes, em meio a diálogos surdos e medidas culturais e econômicas excludentes que essas mesmas fronteiras constroem e destroem.

Os vestidos das mulheres zapotecas vão parar nas revistas de moda sem que nunca se saiba da significação que se dá “no chão mesmo da América Latina de uma tradição-tradução de memória libertadora de mulheres” a respeito das “variações e as rupturas com as linguagens de conhecer o corpo no mundo e o nosso, devorá-los como aprendizagem sexuada e cultivar alternativas de produção e reprodução da vida: economia, erótica, ecológica, epistêmica, ética e estética”3.

As roupas e as fronteiras

A obra de Frida se situa entre fronteiras. Muitas vezes desenvolve uma estrutura dualista, mas sempre desafia os lados, os espaços de dentro e de fora, o que é de lá e o de cá. Mulheres têm seus órgãos internos colocados para fora, o sangue corre tanto por fora quanto por dentro das veias, duas e várias partes de nós mesmos são colocadas lado a lado, como uma coisa só e, ao mesmo tempo, quase distintas. O amor, a traição, a natureza (viva ou morta?), o suicídio, a dor, a morte -tudo acontece em meio à vida sempre pulsante de seus quadros.

Sua arte demonstra clara consciência da presença fulcral da fronteira, especialmente das conseqüências desse espaço tênue em que se situa a luta do povo mexicano por identidade. No final dos anos 20, o México esforçava-se para criar um sentimento de nacionalismo e de orgulho em seu povo. Os Estados Unidos pareciam já mostrar que a cultura “norte-americana” era dona de uma geografia excludente, invasiva (partes do México foram roubados pelos Estados Unidos) e parâmetro da cultura civilizada, universal e hegemônica4.

Como tentativa de resistir a esse sistema solapador e mesmo tentar subvertê-lo e desfazer os aportes universais da cultura americana, o México foi buscar em seus elementos culturais pré-hispânicos e indígenas formas de se conscientizar, preservar, amparar e desenvolver uma cultura que fosse verdadeiramente nacional. Estas tentativas, entretanto, acabaram por abusar de elementos indígenas, e os mexicanos acabaram por criar caricaturas de si mesmos5.

As fronteiras regulam, contêm e excluem. São aparatos de controle, concretos e simbólicos, paradoxais e determinados, misturando espaço, poder, conhecimento, economia e identidade. Têm a ver com espaços limítrofes e imaginários: margens, territórios, articulações geopolíticas, linhas e limiares em constante relação, separando, demarcando e costurando lugares e posições.

São espaços nervosos, cheios de ansiedade6, e permeáveis ao que ainda não conhecem. Sua proteção está sempre ameaçada pela chegada do inesperado, e suas bordas vulneráveis. Nas palavras de Roxanne L. Doty, “as fronteiras já são ameaçadas desde seu aparecimento. A possibilidade sempre presente de serem atravessadas é inerente à sua instituição, coisa que as torna indecidíveis, indistintas e ameaçadas”7.

Os vestidos de Frida vestem e despem as partes porosas das fronteiras religiosas, culturais, políticas e sexuais, não só do México e dos Estados Unidos, mas de todo o continente americano. Nada é categórico; tudo se desenvolve no vento de referências e bases culturais escolhidas.

Suas roupas tornam as fronteiras “categóricas” em passagens permeáveis e em possibilidades de práticas transgressoras, produtoras de conexões fronteiriças que tornam as linhas divisórias e invisíveis em visíveis e ideológicas.

Da mesma forma que os vestidos, Frida vestia também os “rebozos”, que eram chales feitos de vários tipos de material (algodão, seda ou lã), bordados com longas franjas e usado por mulheres de todas as classes sociais. Em diferentes fotos, Frida usa vários destes “rebozos”, por vezes de seda, próprio das classes mais altas e também de algodão, como as “revolucionarias soldaderas”8.

Novamente, a roupa con-fundia as noções de revolucionária, de “soldadera”, de classe, de cultura, de colônia e de nação. Da mesma forma ela confunde noções quando em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, de 1932, e pintado em Detroit, ela usa um vestido colonial, com colar de estilo coatlicue da deusa da terra azteca, ao mesmo tempo que veste luvas de laço e sem dedos.

Para Rebecca Block e Lunda Hoffman-Jeep, “Kahlo se coloca na encruzilhada, elaborando e concretizando posições pessoais e políticas… Existe uma considerável ironia na maneira satírica que Kahlo faz da manipulação da cultura”9.

Novamente, há uma enormidade de justaposições entre sua roupa, seus adereços, a bandeira de parada cívica do México, o bico dos seus seios visíveis e os enormes símbolos da cultura moderna presente ao lado dos Estados Unidos, como a Ford, os maquinários, a poluição e a pré-modernidade vivenciada no lado do Mexico, com seus templos e símbolos religiosos pré-colombianos ligados à terra.

Assim, os vestidos e as formas de vestir de Frida se misturam com a vida inteira. Eles anunciam fraquezas e forças, carregam referências culturais, econômicas, sociais, econômicas, sexuais e nacionais. São mais do que a fita na bomba que é o corpo. Permeiam, interagem, e relacionam peles, lugares, povos, toques, visões e cheiros de mundo. Como disseram Block e Hoffman-Jeep, “Kahlo era particularmente consciente da habilidade que as roupas tinham em comunicar informação acerca de gostos, princípios, carácter e sentimentos de uma nação”10.

Seus vestidos marcam as condições das possibilidades da construção de cada país e do relacionamento entre eles, como a maneira de cada um estabelecer suas estruturas culturais e escolher seus valores simbólicos. Os vestidos apontam para corpos que o vestem ou que estão nus, de roupas que mobilizam a indústria da moda e como esta estabelece noções, que vão desde as medidas ideais do corpo até os critérios de alimentação, de ênfases econômicas e consequentemente de classes sociais.

Assim, os vestidos também indicam a fragilidade do corpo feito forte e desmesuradamente belo, o desequilíbrio, o inóspito, os lugares inabitáveis. O vestido de Frida veste uma realidade ao mesmo tempo oculta, perturbadoramente clara, e demasiada densa e complicada. Os vestidos pedem a atenção do nosso olhar entre as tantas referências. Os quadros de Frida fazem nossos olhos tornarem-se performáticos, ritualizando os contornos entre o imaginário e o real. Como diz Ronald Grimes, “Ritualizamos para tornar real o evento”11.

Esse mapeamento dos encontros humanos e vivos anuncia, denuncia, acumula e precipita uma situação que é nossa, no mundo, encarnada nas vísceras, veias e peles de nosso próprio corpo. Nossas roupas e nossos vestidos se desgastam, perdem o lugar na moda, se modificam, são re-usados, assim como nossas referências todas. O corpo também se esvai, assim como se escoam a fama e os corpos das modelos. O que fica, ou parece ficar, é o poder econômico “que ergue e desfaz coisas belas”, que faz viscejar e renovar o eternamente novo, re-usável, banalizado, a cada nova temporada do fashion week.



Costurando mitos e religião

A referência religiosa nas obras de Frida vinha de povos abandonados e marcados pela probreza. Em seus quadros e fotos, seus vestidos e colares eram rodeados e mesmo marcados por aspectos religiosos presentes na cultura mexicana. Em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, seu vestido está ao lado de elementos como o sol, lua, templo, caveira, sangue, o ciclo vida-morte azteca, e outros elementos da terra que servem para compor referências culturais, religiosas e teológicas do México.

Além das expressões religiosos pré-colombianas, a obra de Frida faz fortes referências ao catolicismo popular, como as coleções de milagres, os “retablos”, que Frida guardava. A Virgem Maria e os santos, Jesus Cristo, seu sofrimento e todo o imaginário católico são símbolos recorrentes na sua obra.

Andrea Kettenmann diz que Frida “via os quadros religiosos que utilizava como expressões de crenças essencialmente populares, que não dependiam, pelo seu significado, da Igreja Católica. Assim, podia utilizar livremente o imaginário cristão para seus próprios fins e apresentar-se a ela própria no papel de mártir”12.

Cláudio Carvalhaes

________

1 – Janice Helland, Aztec Imagery in Frida Kalho’s Paintings, in “Woman’s Art Journal”, vol. 19. nº 2. (fall , 1990 – winter, 1991), p. 10.

2 – Ibid., p. 9.

3 – Nancy Cardoso Pereira, Para Comer com os Olhos e Contemplar com a Boca – Uma leitura anti-escatológica de “Os Frutos da Terra” de Frida Kahlo, texto não publicado.

4 – Até hoje os americanos dos Estados Unidos cantam um de seus hinos prediletos chamado “America” em jogos esportivos e datas cívicas, definindo todo o continente como país, esquecendo que há, ou talvez exista, outras partes dessa América que não são somente àquela da bandeira de estrelas num céu azul e faixas vermelhas e brancas.

5 – Veja Rebecca Block and Lynda Hoffman-Jeep, Fashioning National Identity – Frida Kahlo in Gringolândia, in “Woman’s Art Journal”, (autumn, 1998 – winter, 1999), p. 8.

6 – Glória Anzaldúa, Borderlands/La frontera – The New Mestiza (San Francisco: Aunt Lute Books, 1987), p. 21. Anzaldúa desenvolve a ansiedade e o nervosismo da fronteira em uma perspective feminina.

7 – Roxanne Lynn Doty, Challenging Boundaries-Global Flows, Territorial Identities, eds. Michael J. Shjapiro and Hayward Alker (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996), em “Book Reviews: The American Political Science Review”, vol. 91, nº 2, junho de 1997, pp. 510-511.

8 – Rebecca Block and Lynda Hoffman-Jeep, Fashioning National Identity, Frida Kahlo in Gringolândia, op. cit., p. 10.

9 – Ibid.

10 – Ibid., p. 11.

11 – Ronald Grimes, Rite Out of Place (Oxford University Press, 2006), p. 74.

12 – Andréa Kettenmann, Frida Kahlo (1907-1954) – Dor e Paixão. Koln Taschen, 2006, p. 56. In Faustino Teixeira, “Moisés: o Núcleo da Criação”, texto não publicado.






quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Diário gospel de Sinop



Este que vos escreve está passando alguns dias aqui em Sinop, no Nortão do Mato Grosso, a 500 km da capital Cuiabá, visitando amigos e parentes, e aproveitando para rever essa bela e progressista cidade que tem hoje cerca de 120 mil habitantes.

Apesar de "progressista" ser um termo que se encaixa melhor em discursos de políticos como Odorico Paraguaçu, Sinop não é nenhuma Sucupira. O adjetivo "progressista" lhe cai bem.

Estive aqui pela última vez há 4 anos, e neste pouco tempo houve um crescimento gigantesco, facilmente constatável quando se percebe que bairros novos surgiram do nada, antigos carreadores são hoje avenidas asfaltadas e iluminadas, assim como nasceram novas crianças e aquelas de alguns anos atrás já são adolescentes e jovens universitários.

Claro que o crescimento desordenado deixa cicatrizes visíveis, seja na falta de planejamento dos bairros populares, com esgoto a céu aberto, seja na exclusão dessa mesma população para regiões mais afastadas do centro da cidade.

Existe no ar, entretanto, um sentimento de que esta é uma cidade viável, de que há trabalho para todo mundo, e as pessoas em geral estão otimistas com relação ao seu futuro.

Sinop cresceu muito rápido.

O desbravamento das terras virgens começou em 1972, e o povoado foi crescendo até ser elevado à condição de município em 17 de dezembro de 1979.

O então general-ditador de plantão, João Figueiredo, gostava muito do local e, segundo dizem, sempre desembarcava de avião no aeroporto local, que hoje leva seu nome, numa dessas tolas e injustas homenagens que se prestam a militares sem voto que pisaram na democracia.

Claro que todo esse progresso se deu às custas do desmatamento desenfreado da floresta amazônica, que cobria o território onde hoje está a cidade e as muitas plantações de soja, a grande riqueza local.

A década de 70 era outra época, de grave crise econômica causada pela alta do preço do petróleo em 1973, e o governo militar vivia a paranoia da ameaça de ocupação da Amazônia pelos gringos, da construção da rodovia Transamazônica (que terminou engolida de volta pela floresta), do slogan "integrar para não entregar", e famílias inteiras - sobretudo do Sul do Brasil - foram incentivadas a "civilizar", sem qualquer planejamento ambiental, o enorme deserto populacional que era o Norte do Estado do Mato Grosso (que então fazia jus ao nome).

Havia milhares de bocas para sustentar e não se pode culpá-los gratuitamente, portanto, pela tragédia florestal que se seguiu.

Esquizofrenicamente, entretanto, a cidade hoje relembra suas árvores tombadas, dando o nome de cada espécie delas às suas belas ruas e avenidas, como se quisesse pedir perdão por tê-las dizimado.

Como era de se esperar, a presença evangélica em Sinop é significativa. Apesar do cartão postal da cidade ser a bela Catedral do Sagrado Coração de Jesus, facilmente se percebem muitos templos de igrejas evangélicas.



Pra não ficar atrás no gigantismo que caracteriza Sinop (e envergonha Itu), a Assembleia de Deus também inaugura nesta semana um novo templo seu que mais parece um ginásio de esportes (daqueles bem grandes):



Há vários outdoors evangélicos em Sinop, a maioria é da igreja de Valdemiro Santiago, que apresenta o seu "apóstolo", com a bispa-esposa, numa montagem tosca, em que o casal que manda na organização está à frente de uma mansão, ao lado do versículo "eu e a minha casa serviremos ao Senhor".

Parece-se mais com "eu e o meu castelo serviremos ao Senhor", o que deve atrair pessoas mais preocupadas com a prosperidade que eles pregam, dando a devida contribuição, obviamente.

Deve ser por isso que os criadores do painel, deliberadamente, trocaram a referência do versículo, originalmente em Josué 24:15, para Efésios 3:14-15. Como ler a Bíblia não é o forte deles, alguém deve ter copiado errado:



Agora, não basta querer ter um castelo igual ao do Valdemiro Santiago, ainda mais se tudo o que você tem é um terreno baldio, mesmo que o "apóstolo" patrocine o "domingo do Haja Luz".

É preciso ir chique à igreja dele. Nos trinques. Para que o irmão e a irmã não passem vergonha na frente dos outros irmãos, Sinop está bem servida.

Na avenida principal, os varões e as varoas poderão contar com uma loja só de moda evangélica. Aquilo que em outros lugares é apenas sonho, aqui em Sinop já é realidade:



Crente não passa sufoco em Sinop, a não ser pelo calor que faz nessa terra abençoada por Deus...



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Lagoinha Burca Fashion Week

"tá parecendo o reguinho...?"

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