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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 27


LIVRE-ARBÍTRIO E PRESCIÊNCIA DE DEUS

Na verdade confesso que a questão é difícil, e até impossível, se queres estabelecer ao mesmo tempo ambas as coisas, a presciência de Deus e a liberdade do ser humano. Pois o que é mais difícil, e até mais impossível, do que sustentares que as coisas contrárias ou contraditórias não se opõem, ou que um número qualquer seja simultaneamente dez e nove? A dificuldade não está em nossa questão, mas é buscada e introduzida do mesmo modo que se busca e se introduz violentamente a ambiguidade e a obscuridade nas Escrituras. Por esta razão ele refreia os ímpios, os quais se ofendiam com essas palavras claríssimas, porque percebiam que a vontade divina se cumpre estando nós sob a necessidade e percebiam que está irrevogavelmente definido que nada lhes resta de liberdade ou de livre-arbítrio, mas que tudo depende apenas da vontade de Deus. Refreia-os, porém, ordenando-lhes que se calem e reverenciem a majestade do poder e da vontade divina em relação à qual não temos nenhum direito, mas que, em relação a nós, tem direito pleno de fazer o que quiser. E a nós não se faz qualquer injustiça, pois Deus não nos deve nada, nada recebeu de nós e nada prometeu além do que quis e lhe agradou.

Por conseguinte, este é o lugar e o tempo de adorar não aquelas grutas de Corício [grutas que ficam perto de onde estava o oráculo de Delfos], mas a verdadeira majestade em suas temíveis maravilhas e incompreensíveis juízos, e de dizer: “Faça-se tua vontade, assim como no céu também na terra” [Mt 6.10]. Nós, porém, em nenhum lugar somos mais irreverentes e temerários do que quando penetramos e acusamos esses mesmos mistérios e juízos ininvestigáveis; entrementes, contudo, simulamos uma incrível reverência ao escrutarmos as Santas Escrituras que Deus nos ordenou escrutar. Aqui não escrutamos; lá, porém, onde proibiu que escrutássemos, não fazemos nada exceto escrutar com contínua temeridade, para não dizer blasfêmia. Porventura não é um escrutar temerário envidar esforços para que a presciência libérrima de Deus concorde com nossa liberdade, dispostos com isso a derrogar a presciência de Deus se não nos conceder a liberdade ou se impuser a necessidade de dizer com os murmuradores e blasfemadores: De que ele se queixa ainda? Quem resiste à sua vontade? Onde está o Deus clementíssimo por natureza? Onde está o que não quer a morte do pecador? Acaso nos criou para deleitar-se com os tormentos dos seres humanos? Estas perguntas e outras semelhantes serão eternamente uivadas nos infernos e entre os condenados.

Mas a própria razão natural é forçada a confessar que o Deus vivo e verdadeiro precisa ser tal que nos imponha a necessidade por meio de sua liberdade, pois certamente seria um Deus ridículo – ou melhor, um ídolo – aquele que previsse de modo incerto o que há de acontecer ou que fosse enganado pelos eventos, já que até os gentios concederam aos seus deuses um “destino inelutável”. Ele seria igualmente ridículo se não pudesse e não fizesse todas as coisas, ou se algo acontecesse sem ele. Porém, admitidas a presciência e a onipotência, segue-se naturalmente, por meio de uma consequência lógica irresistível, que nós não fomos feitos por nós mesmos, e não vivemos nem fazemos coisa alguma que não [ocorra] através de sua onipotência. Mas já que ele pré-soube anteriormente que haveríamos de ser tais como somos, e agora nos faz, move e governa como tais, eu te pergunto: o que se pode imaginar em nós que seja livre, que seja diferente e que aconteça de modo diferente do que ele pré-soube e agora faz? Por isso, a presciência e a onipotência de Deus opõem-se diametralmente ao nosso livre-arbítrio. Pois ou Deus se enganará em sua presciência e errará também ao agir (o que é impossível), ou nós agiremos e seremos conduzidos segundo a sua presciência e ação. Todavia, não chamo de onipotência de Deus aquela onipotência pela qual ele não faz muitas coisas de que é capaz, mas, sim, aquela [onipotência] ativa, pela qual faz poderosamente tudo em tudo, da maneira como a Escritura o chama onipotente. Digo que esta onipotência e presciência de Deus abolem completamente o dogma do livre-arbítrio. E aqui não se pode pretextar a obscuridade da Escritura ou a dificuldade do assunto. As palavras são claríssimas, conhecidas até por meninos. O assunto é evidente e fácil, examinado até mesmo pelo juízo natural do senso comum, de modo que nada importa, por maior que seja a série de séculos, tempos e pessoas que escrevem ou ensinam de outra maneira.

Naturalmente, ofende no mais alto grau aquele senso comum ou razão natural de que Deus, por sua mera vontade, abandone, endureça e condene os seres humanos, como se encontrasse deleite nos pecados e nos tão grandes e eternos tormentos dos míseros, [logo] ele, de quem ser prega que possui tamanha misericórdia e bondade, etc. Ter tal opinião acerca de Deus pareceu iníquo, cruel e intolerável; por isso também se ofenderam tantos e tão grandes homens por tantos séculos. E quem não se ofenderia? Eu mesmo me ofendi mais que uma vez até a profundeza e o abismo do desespero, de sorte que desejei jamais ter sido criado como ser humano antes que soubesse quão salutar aquele desespero seria, e quão próximo da graça. Foi por isso que se suou e trabalhou tanto a fim de escusar a bondade de Deus e acusar a vontade do ser humano; aí foram inventadas as distinções entre vontade ordenada e vontade absoluta de Deus, entre necessidade da consequência e necessidade do consequente, e muitas outras semelhantes. Contudo, com essas coisas nada se obteve exceto lograr os incultos com a inânia [vazio de conteúdo] das palavras e a oposição daquilo que é falsamente chamado de ciência. Entretanto, quer para os incultos quer para os eruditos, permaneceu sempre cravado no fundo do coração – quando porventura se chegava a tratar seriamente do assunto – aquele acúleo [espinho, desgosto] quando percebiam nossa necessidade ao se crer na presciência e na onipotência de Deus.

E a própria razão natural, que se sente chocada por essa necessidade e tanto se esforça por suprimi-la, é forçada a admiti-la, convencida por seu próprio juízo, ainda que não houvesse Escritura alguma. Pois todos os seres humanos encontram este pensamento escrito em seus corações, e o reconhecem e aprovam (mesmo que contra sua vontade) quando ouvem falar dele: primeiro, que Deus é onipotente não só segundo o poder, mas também segundo a ação (como eu já disse); de outra maneira seria um Deus ridículo. Segundo, que ele conhece e tem presciência de todas as coisas, e que não pode errar nem enganar-se. Uma vez admitidos estes dois pontos no coração e no entendimento de todos, são forçados a admitir imediatamente, mediante uma conclusão inevitável, que nós não fomos feitos por nossa vontade, mas por necessidade; e assim, conforme a presciência de Deus e conforme conduz de acordo com [seu] conselho e poder infalível e imutável. Por isso, acha-se simultaneamente escrito nos corações de todos que o livre-arbítrio nada é, ainda que isso seja obscurecido por tantos debates contrários e pela tão grande autoridade de tantos homens que por tantos séculos ensinaram de maneira diferente. O mesmo também ocorre (conforme o testemunho de Paulo) com toda a outra lei em nossos corações: é reconhecida quando tratada de modo correto, e obscurecida quando maltratada por mestres ímpios ou tomada por outras opiniões.

Volto a Paulo. Se ele não explica a questão em Rm 9 e nem define a necessidade a que estamos ligados a partir da presciência e da vontade de Deus, por que lhe seria necessário introduzir a analogia do oleiro, que de um e o mesmo barro faz um vaso para a honra e o outro para a desonra? E não obstante, a obra não diz ao que a faz: por que me fazes assim? Isso porque ele fala sobre os seres humanos, comparando-os ao barro e Deus ao oleiro. A analogia é sem dúvida tímida, e até absurda e aduzida em vão, se ele não compartilha a opinião de que nossa liberdade é nula. E o que é mais: todo o debate de Paulo, com o qual defende a graça, é inútil. Pois toda a epístola tem por alvo mostrar que não somos capazes de nada, nem mesmo quando parecemos obrar bem; é como ela diz, na mesma passagem, a respeito de Israel, que, ao perseguir a justiça, não a alcançou, ao passo que os gentios a alcançaram sem a perseguir. Tratarei disso mais extensamente quando fizer avançar nossas tropas.

Mas a Diatribe [“Diatribe sobre o livre arbítrio”, de Erasmo de Roterdã] finge não ver todo o corpo do debate paulino e a direção para a qual Paulo tende, consolando-se entrementes com palavras tiradas [do contexto] e distorcidas. Tampouco em nada auxilia a Diatribe o fato de que posteriormente, em Rm 11.20, Paulo de novo exorte dizendo: “Estás de pé pela fé, vê que não te ensoberbeças”; e, semelhantemente: “Também aqueles, se tiverem crido, serão enxertados” [11.23], etc. Pois ali ele nada diz acerca das forças dos seres humanos, e, sim, pronuncia palavras imperativas e subjuntivas; e o que é feito por estas foi suficientemente dito acima. E o próprio Paulo se adianta, nesta mesma passagem, aos que gabam o livre-arbítrio: não diz que aqueles podem crer, mas diz que Deus é poderoso para enxertá-los. Resumindo: ao tratar estas passagens de Paulo, a Diatribe procede de forma tão tímida e hesitante que em sua consciência parece divergir de suas próprias palavras. Pois quando ela deveria ter prosseguido acima de tudo e aduzido provas, quase sempre interrompe o discurso dizendo: “Aqueles diriam assim”. E diz muitas outras coisas similares, deixando a questão em dúvida, de modo que não sabes se ela quis dar a impressão de falar em favor do livre-arbítrio ou apenas de eludir Paulo com palavras inanes, seguindo nisso sua lei e costume pelo fato de que para ela inexiste um problema sério neste pleito. A nós, porém, não nos convém ser frios desta maneira, andar sobre ovos ou ser agitados pelos ventos como uma cana, mas, sim, fazer asserções com certeza, constância e ardor, e então demonstrar de maneira sólida, destra e copiosa aquilo que ensinamos.

Mas quão belamente ela conserva agora a liberdade ao mesmo tempo que a necessidade quando diz: “Nem toda necessidade exclui a vontade livre, assim como Deus Pai gera o Filho necessariamente e, não obstante, o gera porque quer e livremente, pois não foi coagido”. Peço-te: porventura debatemos agora acerca da coação e da força? Acaso não testemunhamos em tantos livros que estamos a falar sobre a necessidade da imutabilidade? Sabemos que o Pai gera o Filho porque quer, que Judas entregou a Cristo porque quis; mas dizemos que, se Deus teve presciência, este querer teve de existir no próprio Judas de maneira certa e infalível. Ou, se ainda não se compreende o que digo, queremos referir uma necessidade obrigatória à obra e uma outra necessidade infalível ao tempo. Que aquele que nos ouve compreenda que estamos falando acerca da última, e não da primeira; ou seja: não debatemos se Judas tornou-se traidor contra a própria vontade ou por querer, mas se, após Deus ter predefinido o tempo, foi necessário acontecer infalivelmente que Judas entregasse a Cristo por querer. Vê, porém, o que a Diatribe diz a respeito: “se olhas para a presciência infalível de Deus, Judas havia necessariamente de ser traidor; e, não obstante, Judas podia ter mudado sua vontade”. Compreendes também o que falas, cara Diatribe? Deixando de lado o fato de que a vontade não pode senão querer o mal, como se provou acima: como pôde Judas mudar sua vontade ficando de pé a infalível presciência de Deus? Acaso pôde mudar a presciência de Deus e torná-la falível? Aqui a Diatribe sucumbe; e, depois de ter abandonado os estandartes e deposto as armas, retira-se do campo de batalha remetendo o debate para as sutilezas escolásticas concernentes à necessidade da consequência e do consequente, como quem não quer seguir essas argúcias até o fim. Certamente ages com prudência quando, após teres levado a causa para um debate tumultuado e no momento em que mais é necessário um debatedor, volta as costas e deixas a outros a tarefa de responder e definir.

Esse conselho deveria ter sido seguido desde o início, abstendo-se totalmente de escrever, conforme o dito: “Quem não sabe lutar, abstenha-se dos jogos marciais”. Pois não se esperava que Erasmo fosse provocar essa dificuldade relativa ao modo com que Deus poderia ter presciência com certeza, e, não obstante, nossas ações poderiam produzir-se de maneira contingente. Esta dificuldade estava no mundo muito antes da Diatribe. Contudo, esperava-se que a respondesse e definisse. Mas ele, tendo usado uma transição retórica, arrasta consigo a nós que somos ignorantes na retórica como se aqui não estivesse em jogo coisa alguma sobre a questão, e como se meramente houvesse certas argúcias; retira-se corajosamente do meio do tumulto da luta, coroado de hera e louro.

Assim não dá, irmão! Nenhuma retórica basta para enganar uma consciência verdadeira; o acúleo da consciência é mais forte que todas as forças e figuras da eloquência. Não toleraremos aqui que o retórico passe de largo [por essa questão] e dissimule; neste momento não há lugar para tal atitude. Aqui se ataca o ponto principal dos assuntos e o essencial da questão. E aqui ou se extingue o livre-arbítrio ou ele triunfará de todo. Tu, porém, percebendo o perigo e até a vitória certa contra o livre-arbítrio, simulas não perceber nada exceto argúcias. Acaso isso significa agir como teólogo confiável? A questão não te afeta seriamente? A ti, que desta maneira deixas os ouvintes em suspenso e o debate confuso e inflamado, querendo, entretanto, causar a impressão de que deste satisfação honestamente e levaste a palma? Em questões profanas, esta manha e astúcia pode ser tolerada; em um assunto teológico, porém, onde se busca a simples e aberta verdade em favor da salvação das almas, ela é extremamente odiosa e intolerável.

Também os sofistas perceberam a força invencível e irresistível deste argumento; por isso inventaram a necessidade da consequência e do consequente. Contudo, ensinamos acima como esta invenção nada efetua. Pois tampouco eles observam o que dizem e o quanto admitem contra si próprios. Pois se admitires a necessidade da consequência, está vencido e prostrado o livre-arbítrio, e de nada ajuda a necessidade nem a contingência do consequente. Que me importa se o livre-arbítrio não é coagido, mas faz o que faz de acordo com a vontade? Para mim é suficiente que admitas isto: há de acontecer necessariamente que ele faça o que faz de acordo com a vontade, e não pode ser diferente se Deus teve presciência disso. Se Deus tem presciência de que Judas cometerá traição ou que mudará sua vontade de trair, acontecerá necessariamente aquilo de que ele teve presciência; ou Deus se enganará em sua presciência e predizer, o que é impossível. Pois é isso que realiza a necessidade da consequência; arbítrio nada é. Esta necessidade da consequência não é obscura nem ambígua, de modo que, ainda que os doutores de todos os séculos sejam cegos, são todavia forçados a admiti-la, pois ela é de tal modo evidente e certa que se pode apalpá-la. Mas a necessidade do consequente, com a qual se consolam, é um mero fantasma, e opõe-se diametralmente à necessidade da consequência. Haverá por exemplo uma necessidade da consequência se eu tiver dito: Deus teve presciência de que Judas cometeria traição, portanto acontecerá segura e infalivelmente que Judas será traidor. Diante desta necessidade e consequência, tu te consolas assim: visto que Judas pode mudar sua vontade de trair, não há necessidade do consequente. Como, eu te pergunto, se coadunam essas duas afirmações: Judas pode não querer trair e: é necessário que Judas queira trair? Dizes que ele não será coagido a trair contra sua vontade. Que tem a ver isso com o problema? Tu falaste acerca da necessidade do consequente, a saber, que aquela não é introduzida pela necessidade da consequência; não disseste nada sobre a coação do consequente. A resposta relacionava-se com a necessidade do consequente e tu apresentas um exemplo sobre a coação do consequente. Pergunto uma coisa e tu respondes outra. O motivo disso é aquela oscilação por causa da qual deixa-se de observar como essa ficção da necessidade do consequente nada efetua.

(LUTERO, Martinho. Da Vontade Cativa. 1525. Tradução de Luís Marcos Sander, Luís Henrique Dreher e Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 1993. Vol. 4, págs. 136-142)



domingo, 5 de maio de 2013

Francisco, o papa protestante?

Artigo interessante publicado no IHU:

O ''protestantismo'' do Papa Francisco

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre a questão dos ateus, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

A opinião é de Bill Tammeus, elder presbiteriano e ex-colunista religioso do jornal The Kansas City Star, pelo qual recebeu diversos prêmios. É autor do blog Faith Matters e colunista mensal da revista The Presbyterian Outlook. Seu livro mais recente, em coautoria com o rabino Jacques Cukierkorn, é They Were Just People: Stories of Rescue in Poland During the Holocaust.

O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu costumo dizer às pessoas que, se você se perder na teologia da Tradição Reformada (leia-se presbiteriana), você sempre pode voltar à estaca zero, que diz, em essência, isto: Deus é soberano.

Ou – em estilo, eu prefiro esta outra, porque a maioria de nós não tem nenhuma experiência de vida sob um soberano – Deus é gloriosamente livre.

Eu pensei sobre isso outro dia, quando eu li algo que o Papa Francisco disse em um livro do qual ele foi coautor em 2010, como cardeal Jorge Mario Bergoglio. Falando sobre como ele conversaria com um ateu, Bergoglio escreveu: "Eu não lhe diria que a sua vida está condenada, porque estou convencido de que não tenho o direito de fazer um juízo sobre a honestidade dessa pessoa".

Essa, amigos, é a teologia da Tradição Reformada. Cabe a Deus determinar quem terá a vida eterna. Não cabe a nós. Mesmo que você recorra aos conceitos difíceis de seguir do fundador da Tradição Reformada, João Calvino, sobre predestinação (sem falar da dupla predestinação), você descobrirá que nenhum ser humano pode saber ao certo quem está salvo e quem está condenado.

Esse ponto, uma vez, levou minha amiga Kathleen Norris a escrever isto no seu livro Amazing Grace: A Vocabulary of Faith: "Surpreende-me que só um advogado francês poderia chegar a uma justificação tão complexa, senão bizarra, para tratar todas as pessoas como se elas pudessem estar entre os eleitos, os escolhidos de Deus".

Ela está certa. Mesmo que você compre a ideia do esquema calvinista "alguns se salvam, alguns são condenados e não há a nada que você possa fazer a respeito", você não sabe quem é quem, por isso você precisa ser bom para com todos, na teoria de que você pode passar a eternidade com essa pessoa.

E isso é quase a mesma coisa que Bergoglio está dizendo em Sobre o Céu e a Terra, coescrito com o rabino Abraham Skorka.

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre esse assunto, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

Mas, no dia seguinte que eu li as palavras do papa, eu descobri que alguém tinha sido mais rápido do que eu nessa conclusão. O escritor Jonathan Merritt fez essa pergunta sobre o Papa Francisco no seu artigo do site Religion News Service: "A crescente popularidade (de Francisco) entre os não católicos pode torná-lo o primeiro papa protestante?".

Merritt acrescentou: "A combinação da preocupação do novo papa com as questões de justiça e a sua teologia conservadora parecem ser atraentes para muitos daqueles protestantes socialmente conscientes" (eu gosto do que Merritt disse, embora eu não fique feliz que ele tenha posto por escrito antes de mim a ideia de que Francisco pode ser o primeiro papa protestante. Mas deixe estar).

Aqueles de nós que fazem parte das principais Igrejas protestantes (presbiterianos, metodistas, luteranos etc.) têm sido exaustivos no que se refere às preocupações de justiça social e superficiais no que se refere ao respeito pelas estruturas de governo hierárquicas e rituais extravagantes.

Nós pagamos um preço por causa dessa ênfase, mas é um preço que nós temos estado dispostos a pagar. E agora muitos de nós acham que o novo papa tem a intenção de aproximar a Igreja Católica um pouco mais dessa abordagem protestante.

Talvez pudéssemos nos encontrar no meio do caminho. Nós, protestantes, acrescentaremos mais ritual, e vocês, católicos, podem descentralizar a sua estrutura de governo, enquanto nós, juntos, lavamos os pés dos pobres.

Eu sei que soa um pouco jocoso, mas eu estou falando sério. Há muita coisa que podemos aprender uns com os outros, e o aprendizado disso pode nos aproximar mais de algum tipo de reunificação (ao menos de espírito), quase 500 anos depois que Martinho Lutero pregou as suas 95 teses na porta da catedral, dando início assim (inadvertidamente) a Reforma Protestante.

Nós, protestantes, não temos o nosso próprio papa para negociar um grande acordo com Francisco, mas, se ele realmente é o primeiro papa protestante, o problema está resolvido. Tudo o que nós, protestantes, e vocês, católicos, precisamos fazer, para início de conversa, é prestar atenção às vezes em que ele se posiciona no nosso campo comum e nos unirmos a ele lá.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Milhões de muçulmanos aguardam o seu messias

O apocalipse é só uma questão de ponto de vista, segundo matéria publicada no IHU:

Mulçumanos aguardam a chegada de Mahdi, o último profeta do Islã

De acordo com uma nova pesquisa pela Pew Resarch, 672 milhões de mulçumanos aguardam a chegada do último profeta do Islã. Para a maioria deles, ele será o último profeta, que governará o mundo e derrotará os inimigos que não servem Alá.

A reportagem é publicada pelo sítio Religión Digital, 17-08-2012. A tradução é do Cepat.

Os resultados confirmam as predições do autor cristão Joel Richardson, que escreveu, em 2009, o livro intitulado “The Middle East Beast” (A Besta do Oriente Médio), o Anticristo islâmico.

Richardson tem alertado aos cristãos sobre isto, porque muitos mulçumanos esperam a vinda de Mahdi, ao que a Bíblia chama de “falso profeta”, que deve acompanhar o Anticristo em seu reinado de sete anos.

Uma pesquisa publicada pelo Istituto Pew Research mostra que no Oriente Médio, África do Norte, Ásia Meridional e Sudeste Asiático, “a metade ou mais dos mulçumanos acreditam que irão viver para ver a chegada de Mahdi”.

Esta expectativa é mais expandida no Afeganistão (83%), Iraque (72%), Tunísia (67%), Turquia (68%) e Malásia (62%). “Em alguns países, com grandes populações sunitas e xiitas, os pontos de vista sobre o retorno de Mahdi são diferentes. No Iraque, por exemplo, os xiitas são mais propensos a esperar a chegada de Mahdi, num futuro próximo, do que os sunitas. No Azerbaijão, a diferença entre os dois grupos também é grande (25 pontos percentuais)”, aponta o relatório.

“Sobre este assunto, as diferenças entre xiitas e sunitas reflete o papel mais importante que o retorno de Mahdi possui para o islã xiita”.

Em resumo, estima-se que 672 milhões de mulçumanos esperam presenciar rápido o retorno de Mahdi. “Agora, pela primeira vez um estudo completo, incluindo dezenas de milhares de mulçumanos, em mais de 23 países, que foram questionados se acreditavam que a vinda de Mahdi era iminente ou ia acontecer em breve. Os resultados demonstram, de maneira concludente, que a advertência chegou há muito tempo”, disse Joel Richardson.

O projeto Pew também demonstra que os mulçumanos acreditam nos anjos, na predestinação, na vida depois da morte, no céu e no inferno. Por outro lado, acreditam que Mahdi virá acompanhado por Jesus, que negará o cristianismo e para mostrar que o Islã é a promessa da lealdade a Deus.



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quão calvinista foi Lutero?


Um artigo muito interessante de James R. Swan sobre em que pontos básicos da teologia reformada, em especial a doutrina da predestinação, concordam ou discordam os grandes reformadores João Calvino e Martinho Lutero, traduzido pelo Gustavo (co-editor deste blog) e publicado no portal e-cristianismo. Abaixo, a introdução, e depois o link para quem quiser ler o artigo na íntegra:

I - INTRODUÇÃO


Parece não haver nada mais enfurecedor para um luterano que sugerir que Lutero era fundamentalmente um calvinista em sua visão da soberania e predestinação. O diretor executivo da Concordia Publishing House, Reverendo Paul McCain declara, “Sempre que a questão do porquê alguns são salvos e não outros surge, é normal que calvinistas que defendem que Deus predestinou alguns para o inferno, e outros para o céu, puxem Martinho Lutero em seus argumentos e clamem que eles estão na verdade sendo fiéis ao que Martinho Lutero ensinou. Que isto fique claro: Martinho Lutero não ensinou a predestinação dupla”.

McCain poderia ter vários autores reformados em mente. Em seu livro Escolhidos por Deus, R.C. Sproul conta sua antiga resistência intelectual à doutrina da predestinação. “Minha luta com a predestinação começou cedo em minha vida cristã. Eu conhecia um professor de filosofia no colégio que era um calvinista convicto. Ele declarou a tal visão 'reformada' da predestinação. Eu não gostei. Não gostei tanto. Eu lutei contra ela com unhas e dentes através do colegial”. Parte do argumento de Sproul para eventualmente abraçar a visão reformada inclui uma lista comparando aqueles que mantiveram um tipo parecido de predestinação reformada contra aqueles que não mantiveram. Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino e Edwards são colocados contra Pelágio, Armínio, Melanchthon, Wesley e Finney. Sproul aponta que tal comparação não prova a veracidade de uma visão sobre a outra, mas “nós devemos levar a sério o fato de que tais homens letrados concordaram sobre este tema difícil”. Sproul declara,
É importante para nós vermos que a doutrina reformada da predestinação não foi inventada por João Calvino. Não há nada na visão da predestinação de Calvino que não havia sido antes pronunciada por Lutero e Agostinho. Depois, o luteranismo não seguiu Lutero nesta questão mas Melanchthon, que alterou suas visões depois da morte de Lutero. É também digno de nota que em seu famoso tratado sobre teologia, As Institutas da Religião Cristã, João Calvino escreveu pouco sobre o tema. Lutero escreveu mais sobre predestinação que Calvino.
Lutero escreveu mais sobre predestinação que Calvino? Melanchthon alterou a visão luterana da predestinação para os luteranos subsequentes? Tais declarações poderiam facilmente levar a equívocos sobre os pontos de vista de Lutero e Calvino da predestinação, assim como os pontos de vista de Lutero e os chamados cinco pontos do calvinismo. Alguns no campo reformado têm feito precisamente isto. Lorraine no seu A Doutrina Reformada da Predestinação declara que Lutero “entrou na doutrina de coração tão quanto o próprio Calvino” e “Ele até mesmo a declarou mais entusiasmadamente e procedeu a níveis mais duros em defendê-la do que Calvino jamais fez”. O popular livro de introdução ao calvinismo de Duane Edward Spencer coloca Lutero entre aqueles “teólogos partidários” que mantiveram “as preciosas doutrinas da graça conhecidas como calvinismo”. A introdução ao calvinismo de Edwin Palmer se refere a Lutero como um “bom calvinista”. O resumo clássico do calvinismo de Steele e Thomas inclui Lutero como um campeão listado no “modelo exemplar de calvinistas”8.

Este artigo irá examinar os pontos de vista de Lutero comparados às doutrinas reformadas da predestinação, dando atenção aos slogans calvinistas da depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, vocação eficaz e perseverança. Enquanto a teologia de Lutero pode ser teologia da Reforma, ela não é teologia reformada. Se alguém falha em levar em conta as pressuposições de Lutero assim como suas declarações explícitas sobre a predestinação, expiação, perseverança, etc., erros grosseiros contra sua teologia ocorrerão. Enquanto há similaridades entre as visões de Lutero e a visão reformada, diferenças importantes ainda separam os dois lados. Quando o reformado acidentalmente apela para Lutero como um de seus próprios, ele faz assim às custas da precisão histórica.

Continue lendo o artigo no e-cristianismo


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A segurança final

Salmo 56

1 Tem misericórdia de mim, ó Deus, pois estou sendo atacado por inimigos que estão sempre me perseguindo!
2 O dia inteiro eles me atacam, e são muitos os que lutam contra mim.
3 Quando estou com medo, eu confio em ti, ó Deus Todo-Poderoso.
4 Confio em Deus e o louvo pelo que ele tem prometido; confio nele e não terei medo de nada. O que podem me fazer simples seres humanos?
5 O dia inteiro os meus inimigos me atrapalham nos meus negócios e só pensam em me prejudicar.
6 Eles se reúnem em lugares escondidos, olham o que estou fazendo e ficam esperando uma oportunidade para me matar.
7 Ó Deus, castiga-os por causa da sua maldade! Mostra a tua ira e derrota essa gente.
8 Tu sabes como estou aflito, pois tens tomado nota de todas as minhas lágrimas. Será que elas não estão escritas no teu livro?
9 Quando eu pedir a tua ajuda, os meus inimigos fugirão. Uma coisa eu sei: Deus está comigo.
10 Eu louvo a promessa de Deus, a promessa de Deus, o SENHOR.
11 Confio nele e não terei medo de nada. O que podem me fazer simples seres humanos?
12 Ó Deus, eu te darei o que prometi, eu te darei a minha oferta de louvor
13 porque me salvaste da morte e não deixaste que eu fosse derrotado. Assim, ó Deus, eu ando na tua presença, eu ando na luz da vida.

Versículo-Chave:

8 Tu sabes como estou aflito, pois tens tomado nota de todas as minhas lágrimas. Será que elas não estão escritas no teu livro?

Meditação:

“Com todos os bilhões de pessoas, como é que Deus me conhece e se interessa por mim?” A pergunta denotava incerteza, um pouco de solidão e tristeza pela imensidão do Universo. Todos nós, porém, às vezes já pensamos da mesma forma... numa rua movimentada, ou quando lemos as estatísticas da explosão populacional. Devemos ousar pensar em Deus de maneira magnificente. Se ele pôde criar, a partir do nada, o Universo e a humanidade, se ele pôde revelar sua luz e seu amor para que os víssemos e os experimentássemos em Jesus Cristo, o Mediador, podemos atrever-nos a assumir que ele nos conhece individualmente e se importa conosco. O evangelho, porém, vai muito além. Diz-nos que Deus não somente nos conhece e se importa conosco, mas também nos escolheu para ser os seus amados. É essa a certeza final!

Jesus nos diz hoje o que disse a seus discípulos outrora: “Não foram vocês quem me escolheram, mas eu escolhi vocês”. Mediante o mistério da eleição, somos chamados, nomeados e escolhidos pelo Senhor. A origem clara de uma conversão autêntica encontra-se nessa eleição. Ela não se fundamenta em nossa realização, capacidade, excelência ou exemplo. O Senhor, com freqüência, chama gente impossível para realizar o impossível.

Um sinal seguro de nossa eleição é o deslumbramento por ter ele nos escolhido. Se achamos que fomos escolhidos por causa de nosso caráter e realizações, deixamos de perceber a origem divina da eleição. Paulo constantemente se espantava de que o Senhor o houvesse eleito. Depois de tudo o que ele havia sido e feito, o chamado divino era um fonte de prazer que o tornava humilde. Conhecemos o seu sentimento.

Pensamento do dia:

“Tenha o céu como alvo, e receberá também a terra. Tenha como alvo a terra, e não conseguirá nenhum deles” (C. S. Lewis)

(Lloyd John Ogilvie, “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 10 de dezembro)

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