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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Sumô luta para sobreviver após 15 séculos de tradição no Japão


A matéria foi publicada na BBC Brasil:

'Chorava todos os dias': o lado obscuro da vida dos lutadores de sumô no Japão

Rebecca Seales

De pé em meio ao frenesi dos flashes disparados em sua direção, o lutador anuncia com os olhos marejados sua aposentadoria imediata. "Desculpem-me do fundo do meu coração", ele diz após se curvar e permanecer nessa posição por um longo tempo.

Harumafuji é um grande campeão do sumô, conhecido em japonês como yokozuna. Em 25 de outubro, ele agrediu um lutador mais jovem em um bar, fraturando seu crânio, um caso que foi alvo de um inquérito policial e permaneceu nas manchetes por semanas.

O atleta, de 33 anos, chegou a pedir desculpas pelo ocorrido e decidiu se aposentar do esporte, mas foi acusado formalmente de agressão na última quinta-feira. Ele deve pagar uma multa, em vez de ser julgado em um tribunal.

De acordo com relatos, Harumafuji teria ficado furioso quando tentou dar conselhos ao rapaz e este continuou olhando o próprio celular.

O incidente reacendeu uma discussão sobre o esporte nacional do Japão, e não é a primeira vez que algo assim acontece. Há uma década, a reputação do sumô entrou em crise quando um rapaz de 17 anos que treinava para ser lutador morreu após levar uma surra com uma garrafa e um taco de baseball.

Os agressores eram seus toshiyoris, ou anciãos, como são chamados os ex-lutadores que assumem posições de autoridade, podendo ser treinadores e gerentes de um ginásio de sumô.

Em 2010, o esporte levou um novo golpe com a descoberta do envolvimento de um atleta e de um treinador em um esquema ilegal de apostas em partidas de baseball que teria ligações com a máfia japonesa, a yakusa.

No mesmo ano, o mentor de Harumafuji, o grande campeão mongol Asashoryu, deixou o sumô após se envolver, embriagado, em uma briga do lado de fora de uma boate na capital do país, Tóquio. Depois, vieram à tona provas da combinação prévia de resultados na segunda divisão do esporte.


Seriam sinais de que o sumô está em declínio e que a disciplina que um dia o definiu está em decadência? Ou será simplesmente que, após 15 séculos, o lado obscuro do esporte está finalmente vindo à tona? 


'Os mongóis estão chegando'


Uma forma de responder essas questões é olhar para a origem do esporte e para o duro regime de treinos ao qual os lutadores são submetidos.

Ainda que o sumô tenha surgido a partir de rituais de templos japoneses entre 1,5 mil e 2 mil anos atrás, o país não domina mais o circuito internacional da luta. Até a aposentadoria de Harumafuji, havia quatro grandes campeões. Três deles, inclusive o do agora aposentado Harumafuji, eram da Mongólia.

Rússia, Havaí, Samoa e países do leste europeu costumam enviar lutadores promissores para os ginásios de sumô do Japão, locais em que mestres treinam adolescentes na arte que um dia foi a grande atração das cortes imperiais da nação asiática.

O sumô não é apenas um esporte no país. É uma cerimônia que abre uma janela para o passado, calcada na tradição e na essência do que é ser japonês. Rituais rígidos estabelecem um código de conduta, e ser nascido no exterior não é desculpa para não receber um tratamento tão duro quanto o conferido aos nativos.

Todos os lutadores devem usar trajes tradicionais em público, inclusive um coque como o de samurais. Nas competições, o triunfo e o fracasso devem gerar a mesma reação impassível. Em conversas, o lutador deve ser um modelo de humildade e falar suavemente, comportando-se com hinkaku, ou dignidade. O status é tal que estranhos se curvam quando cruzam com eles na rua.

Cada um dos 45 centros de sumô no país aceita treinar apenas um estrangeiro, ou gaikokujin, de cada vez, por ordem da conservadora Associação de Sumô do Japão. E, quando conseguem chegar lá, normalmente aos 15 anos e com no máximo 23, devem comer, falar, vestir e respirar como japoneses.

Cozinhando, limpando – sem nada para o café da manhã

"(Os lutadores) São como soldados recebendo treinamento básico", explica Mark Buckton, um ex-comentarista e colunista de sumô do jornal Japan Times. "São eles que cozinham, limpam, descascam batatas... E todos aprendem japonês."

O ginásio de sumô é regido por uma hierarquia rigorosa, com um mestre – um ex-lutador – no comando. "Não é como no futebol, em que você pode se transferir de um time para outro", diz Buckton à BBC.

"Você faz parte de um ginásio para o resto da vida. A única forma de sair dele é abandonando o sumô."

Os lutadores deixam o cabelo crescer, normalmente até o meio das costas, para que o cabeleireiro do ginásio possa fazer um penteado tradicional. Só lavam o cabelo a cada uma ou duas semanas, e passam nele bintsuke, um tipo de cera feita a partir de soja com um cheiro adocicado que acompanha o lutador aonde ele vá.

As refeições, geralmente compostas de um caldo quente rico em proteína com vegetais, são tão controladas quanto o regime de treinos, em que os jovens passam horas tentando empurrar seus enormes colegas em um círculo coberto por areia. "Eles comem muito. Mas o crucial é ir dormir logo após de comer", diz Buckton.

"Eles não tomam café da manhã. Todo o treinamento ocorre pela manhã. Eles almoçam quase o mesmo que uma pessoa normal, talvez um pouco mais. Mas comem isso com uma grande quantidade de arroz. Depois, vão para a cama e só acordam no meio da tarde. Comem de novo à noite e vão dormir cedo, porque se levantam às 5h, 6h da manhã para treinar."

Ginásios mais rigorosos costumam gerar lutadores melhores? "Com certeza, com certeza", afirma o especialista.

Sem salário, namoradas ou telefones

Há seis competições profissionais de sumô por ano, todas no Japão. Um lutador ganha ao forçar seu oponente a sair do círculo ou ao fazê-lo tocar o chão com alguma parte do corpo que não os pés. Conforme acumula vitórias, o lutador sobe no ranking.

Há cerca de 650 lutadores nas seis divisões, mas apenas cerca de 60 disputam a primeira. Eles não recebem salários nas quatro divisões inferiores. Um lutador talentoso pode levar de dois a três anos para começar a receber um salário.

Quando há pagamento, ele é bom: cerca de US$ 12 mil (R$ 39,6 mil) por mês na segunda divisão, um valor que pode chegar a US$ 60 mil (R$ 198 mil) na elite do esporte, incluindo contratos de patrocínio.

Os lutadores mais jovens devem usar um traje de tecido de algodão fino, o yukata, e geta, ou sandálias de madeira, mesmo no auge do inverno. Dirigir não é permitido, mas os melhores lutadores têm motoristas, algo que é tanto um símbolo de status quanto uma necessidade, já que seu tamanho dificulta a vida ao volante.

Celulares e namoradas são tecnicamente proibidos abaixo das duas primeiras divisões, ainda que haja uma tolerância crescente com isso. Mulheres não podem morar nos ginásios, e lutadores não podem se casar ou morar em outro local com sua namorada até atingir ao menos a segunda divisão.

Caso se machuque e caia para a terceira divisão, o lutador deve deixar sua mulher e filhos para trás e voltar a morar no ginásio.

O que acontece se os jovens não atenderem os padrões dos mestres ou criticarem o regime quase monástico do ginásio? "Ah, eles são terríveis", diz Buckton. "Antes do rapaz ser morto em 2007, havia espancamentos frequentes. Você via os caras com marcas nas costas e na parte de trás das pernas por não se esforçarem o suficiente."

No ano passado, segundo relatos, um lutador recebeu quase 32,4 milhões de ienes (R$ 946,3 mil) de indenização após de ter sido maltratado diariamente e ficar cego de um olho.

Depois que Takashi Saito, de 17 anos, foi espancado até a morte por ter ameaçado deixar seu ginásio, o grande campeão mongol Hakuho relatou experiências chocantes de surras que chegam a durar 45 minutos.

"Você pode olhar para mim agora e ver um semblante feliz, mas, na época, eu chorava todos os dias", disse. "Os primeiros 20 minutos são muito dolorosos, mas, depois, fica mais fácil, porque mesmo que você esteja apanhando, começa a sentir menos dor. Claro que chorei e, quando meu ancião disse que isso era para meu próprio bem, chorei de novo."

Quebrando o silêncio

Mas por que - em um esporte que submete seus maiores talentos a anos de punição corporal - Harumafuji foi forçado a se aposentar após agredir um lutador mais jovem? "Bem, ele bateu no rapaz em um bar...", afirma Buckton.

O escritor Chris Gould, que acompanha o universo do sumô há três décadas, diz que o "pacto de silêncio" no esporte é bem poderoso.

"Há uma consistência impressionante em como o treinamento e as punições são aplicados em diferentes ginásios e ao longo do tempo. Isso significa que, quando ocorrem incidentes como o de Harumafuji, não se fala sobre o assunto para preservar o grupo", diz Gould.

No episódio mais recente, o técnico do lutador agredido foi quem fez a denúncia e defendeu mudanças no esporte. "É interessante ver um técnico ser criticado por quebrar o código de silêncio. Na maioria dos esportes, ele seria celebrado como um herói."

Com esse tipo de atitude, é possível esperar que jovens continuem se interessando pelo esporte?

Os dias em que a promessa de duas boas refeições diárias atraía jovens de famílias pobres do Japão rural para o sumô ficaram no passado, e esportes como o futebol e o baseball oferecem salários melhores sem o risco de sofrer violência.

Mas, apesar de tudo isso, a popularidade do sumô vem crescendo. Em janeiro, foi consagrado o primeiro campeão japonês em quase duas décadas, para a alegria dos fãs. A Associação de Sumô do Japão também tem feito campanhas publicitárias para voltar a tornar o esporte atraente.

Na visão de Chris Gould, a previsões sobre a ruína do sumô foram prematuras. "Ainda não é hora de entrar em pânico quanto ao futuro. Mas a associação precisa divulgar o que o sumô defende ou não, seus valores fundamentais. A não ser que isso aconteça, o número de grandes lutadores em potencial que nem chegam a entrar para o esporte só vai continuar a crescer."



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Bastião do moralismo, Colégio Pedro II do RJ libera saias para garotos

A notícia foi publicada no Estadão de 19/09/16:

Colégio Pedro II, no Rio, libera saia para meninos

Colégio tradicional aboliu a distinção entre uniformes e já adota nome social na chamada

Clarissa Thomé

O tradicional Colégio Pedro II, escola federal fundada em 1837, não tem mais uniformes masculino e feminino. Na prática, o uso de saias está liberado para os meninos. Em 2014, estudantes fizeram um “saiato”, depois que uma aluna transexual vestiu a saia de uma colega e teve de trocar o uniforme. Desde maio deste ano, o Pedro II adota na lista de chamada o nome social escolhido por alunos e alunas transexuais.

Portaria publicada em 14 de setembro lista o uniforme, sem distinguir que peças são para uso masculino ou feminino. Anteriormente, as meninas deveriam usar saia e camisa branca com viés azul e os meninos, calça de brim e camisa totalmente branca.

“Não se trata de fazer ou não distinção de gênero. Trata-se de cumprir resolução do Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT (órgão ligado ao Ministério da Justiça). Eu apenas descrevo as opções de uniforme; deixo propositalmente em aberto, para o uso de acordo com a identidade de gênero”, afirmou o reitor Oscar Halac.

Ele reconhece que a decisão pode “causar certo furor” pelo fato de o Pedro II estar entre as escolas mais tradicionais do País. “Tradição não é sinônimo de anacronia. Mas pode e deve significar nossa capacidade de evoluir e de inovar”, disse.

De acordo com o reitor, a medida tem ainda o objetivo de “contribuir para que não haja sofrimento desnecessário” entre estudantes transexuais e levantar a discussão sobre tolerância e o respeito às diferenças. “A escola pública precisa sinalizar que é hora de parar de odiar por odiar.” Nesta segunda, não havia alunos de saia ou meninos e meninas que tenham trocado camisas nas unidades do Centro e zona sul. Halac disse acreditar que serão poucos os que adotarão saias. “Aqui dentro eles estão seguros. Lá fora, ainda não.”

Reações. De acordo com o reitor, não chegou à direção qualquer reação negativa de pais de alunos. O manobrista Afonso Marcelo, de 50 anos, pai de uma aluna de 12, no 6.º ano da unidade Centro, não gostou da mudança. “Saia? Pelo amor de Deus. Aí é demais”, comentou. Já a professora Ana Lúcia Pereira, de 49 anos, mãe de estudante também do 6.º ano, elogiou a medida. “Se o aluno se sente à vontade de saia ou de calça, não é isso que vai interferir na qualidade do ensino nem no caráter.”

As estudantes do 3.º ano Fabíola Lopes, de 19 anos, e Georgia Gusmão, de 17, elogiaram a mudança. “A quebra dessa distinção de uniforme para menino e para menina permite a inclusão das pessoas que não se identificam com esse ou aquele gênero”, disse Fabíola.

O Pedro II tem 13 mil alunos. De acordo com Iracema Cruz, integrante de uma das quatro comissões de pais e responsáveis, a edição da portaria foi feita depois de um longo processo. “Essa portaria atende a um anseio dos próprios alunos de poderem usar os uniformes com que se sentem à vontade.”



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Para agradar evangélicos, escola do MS chama festa junina de "festa da colheita"


Infelizmente, o nome "evangélico" no Brasil vem adquirindo cada dia mais uma conotação ideológica do que teológica, e está associada a uma visão conservadora e defensiva do mundo, na base do "nós contra eles" do vale-tudo político, razão pela qual temo o dia em que este país seja governado por quem se traveste de religiosidade para justificar seus preconceitos, frustrações e más práticas.

Ai de quem não se enquadrar nas regrinhas gospel...

Pior do que isso, desde já estão criando uma geração de crianças e adolescentes incapazes de conviver pacificamente com as diferenças religiosas e culturais, e muito menos com a liberdade de expressão, incapazes e desestimulados que são a simplesmente pensar.

A matéria é do UOL Educação:

Escola muda festa junina para "festa da colheita" por alunos evangélicos

Thiago Varella

Ano após ano, o Instituto Educap, de Campo Grande (MS), via o número de alunos que participava da festa junina do colégio diminuir. Isso ocorria, porque esses estudantes eram de famílias evangélicas que não queriam que seus filhos celebrassem uma festa católica.

Para, enfim, integrar esses alunos, a escola decidiu mudar a festa. Em vez de festa junina, o colégio agora celebra a festa da colheita, uma celebração laica.

"Percebemos que nossa festa estava no automático. Só reproduzir a festa não vale a pena se não for algo bem reflexivo. Por isso, fizemos um resgate da colheita, da questão da alimentação na vida das pessoas. A festa da colheita tem o objetivo de celebrar os alimentos", disse Celia Tavares Rino, diretora pedagógica do Instituto Educap.

Antes da festa, os professores promovem discussões sobre almentação com os alunos. Neste ano, segunda vez em que a celebração foi feita, os alunos da educação infantil, por exemplo, estudaram a farinha. Já os estudantes do nono ano, os mais velhos do colégio, discutiram os problemas do meio rural.

"Tudo o que nós vamos fazer ele parte de um currículo vivo. A festa pela festa não tem sentido. Tem sentido sim se você faz um resgate histórico e cultural. Mostrar, por exemplo, que a cultura do campo é diferente da cultura urbana", afirmou Celia.

Além de muita comida, a festa conta com danças e uma decoração rural. Os alunos mais novinhos vão vestidos como caipiras, mas os mais velhos, segundo a diretora, não se importam com isso. No fim das contas, o objetivo de integrar os alunos não-católicos à festa foi alcançado.

"Desconstruímos a festa e agora as crianças evangélicas participam. O foco no alimento fez um leque maior de abrir", completou.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Juventude católica redescobre missas em latim


Matéria publicada no IHU:

Missas em latim e com padre de costas para fiéis atraem jovens católicos conservadores

Manhã de domingo, igreja cheia. Muitos homens vestem trajes formais. Mulheres levam véus sobre os cabelos. O silêncio absoluto é quebrado por um canto gregoriano. O padre passa pelos fiéis a caminho do altar. Sempre de costas para a audiência, dá início à missa em inconfundível latim: In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. A resposta vem em uníssono: Introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat juventutem meam (Subirei ao altar de Deus, o Deus que alegra minha juventude). A cena evoca imediatamente imagens medievais, mas ocorreu no último dia 13 de julho, no Centro do Rio de Janeiro. Lá, a antiga Sé do Brasil, atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo, sítio da coroação de João VI e Pedro I, é palco para uma das muitas missas tridentinas que se espalham pelo Brasil, numa ressurreição de formas litúrgicas antigas que atrai incontáveis jovens fiéis. O termo Juventutem, aliás, designa um movimento de volta às tradições católicas liderado por pessoas de 16 a 34 anos.

A reportagem é de Leonardo Vieira, publicada pelo jornal O Globo, 28-07-2014.

— Descobri a missa há uns anos, é um tesouro. Está claro que tem algo de sagrado aqui. É possível perceber tanto com os ouvidos quanto com os olhos — arrisca o engenheiro Felipe Alves, de 25 anos.

Origens no império romano do ocidente

A missa tridentina, ou rito latino, foi normatizada no Concílio de Trento, em 1570, mas tem bases bem mais antigas, que remontam ao Império Romano do Ocidente, extinto no século V. O conservadorismo, a sobriedade e o extremo recolhimento dos fiéis na cerimônia foram utilizados pela Igreja no século XVI como resposta às reformas protestantes do Norte da Europa que abalaram as estruturas pontifícias.

Nela, o único idioma utilizado é o latim, chamado pelos adeptos de “língua universal da fé”. Enquanto nas missas comuns nos nossos tempos os católicos se ajoelham apenas uma vez, na antiga esse número salta para quase dez, incluindo o momento de receber a hóstia. Há intervalos para a meditação, quando o silêncio chega ao extremo de permitir que se ouça tudo o que se passa do lado de fora da igreja. Durante quase toda a cerimônia o padre permanece de frente para a cruz do altar.

Foram séculos assim, até que o Concílio Vaticano II, na década de 1960, introduziu inúmeras mudanças, o uso da língua local e o padre de frente para os fiéis entre elas. Mas o século XXI vive uma intrigante retomada de tradições conservadoras na Igreja. Em 2007, o agora papa emérito Bento XVI promulgou a carta “Summorum Pontificum”, em que exaltava a volta às tradições e o caráter “excepcional” da missa tridentina. Até então, párocos que quisessem rezar no estilo antigo deveriam pedir permissão direta à Cúria, no Vaticano. Desde então, a escolha passou a caber a cada paróquia.

Para o padre Luís Correa Lima, professor de Teologia da PUC-Rio, o mistério por trás da missa tridentina é o que fascina.

— Tudo nela é meio misterioso. O padre fica de costas, falando em uma língua desconhecida e seguindo uma liturgia extremamente codificada. Mas esse rito encanta por ser algo ancestral e imutável, por evocar a transcendência de Deus. São elementos que fascinam o jovem — opina.

Curiosamente, a introdução da missa moderna e a ressurreição da antiga têm a mesma preocupação: tentar estancar a perda de fiéis da maior designação cristã. Não há números que revelem se a volta ao passado teve algum efeito nesse sentido. Mas é fato que, amparadas pelos jovens católicos conservadores, as missas tridentinas crescem país afora. Em 2007, uma organização independente contabilizou 20 dessas celebrações no território nacional. Agora, cerca de cem ocorrem com regularidade.

— Vivemos numa sociedade muito centrada no indivíduo, na qual se valoriza a autodeterminação e tudo é incerto. Então surgem grupos que evocam o passado, em que tudo estava respondido pelo religioso — analisa o historiador Sérgio Coutinho, presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA).

Ligado à ala progressista da Igreja, Coutinho entende que os fiéis da missa tridentina são conservadores em tudo, inclusive politicamente:

— Eles creem que o Concílio Vaticano II não deveria ter acontecido, pois teria aberto demais a Igreja. Querem uma fuga do mundo, encontrar formas tradicionais de se viver. É como se quisessem que o passado voltasse.

Responsável por rezar a missa tridentina aos domingo na igreja do Centro do Rio, o padre Bruce Judice discorda. Segundo ele, dois dos princípios pregados em sua celebração são o respeito às diferenças e a orientação para que os fiéis não se fechem em círculos católicos isolados.

— Sempre dizemos que este não é o único modo de rezar. Não somos contra o Concílio Vaticano II — esclarece o padre, de 35 anos.

— O que há, sim, é uma sede de espiritualidade entre os jovens. Há quem procure ioga, meditação, natureza... E há quem busque a missa tridentina.

Foi esta última a escolha do adolescente Eduardo Salomão, de 15 anos. Ele aprendeu latim sozinho e quer ser padre. Aos domingos, vai a uma missa tridentina e a outra contemporânea:

— Claramente prefiro a tridentina. Já cheguei a ser tachado de maluco. O rito contemporâneo não é para mim. No antigo, a meditação, o silêncio e a beleza encantam.

Bárbara Soares descobriu o rito pela internet. Foi no quase extinto Orkut que a estudante de Letras conheceu outros jovens adeptos da tradição. Ela ficou tão encantada com as primeiras celebrações que não parou mais de frequentar as missas. Numa delas, conheceu seu marido. Hoje, já casada aos 20 anos, Bárbara vai à igreja com o véu sobre os cabelos e defende a vestimenta:

— Ele mostra a dignidade da mulher, exalta seu caráter sagrado.

Ela segue a linha de centenas de integrantes oficiais do Juventutem no Brasil. Fundado em 2004, na Suíça, o movimento teve um primeiro encontro internacional em 2005, na Alemanha, e, desde então, tem crescido e sido cada vez mais representado nas Jornadas Mundiais da Juventude. Ano passado, milhares deles vieram ao Rio de Janeiro. E, pela internet, muitos se já se articulam para a próxima edição do evento católico, em 2016, na Polônia. Em fóruns internacionais do movimento pela internet são comuns discussões relacionadas à liturgia católica e também a assuntos ligados a direitos civis, com muitos dos seus membros condenando uniões entre pessoas do mesmo sexo e o direito ao aborto, por exemplo.

Ortodoxos mantêm uso de grego e árabe

Engana-se quem pensa que o ritual tridentino é o único dentro do catolicismo que busca a retomada de tradições ancestrais. A poucas quadras da antiga Sé carioca, na paróquia greco-melquita de São Basílio e de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em plena Saara, histórico lar dos primeiros imigrantes sírios e libaneses católicos ortodoxos, os idiomas usados em ritos conservadores são o grego e o árabe. A igreja melquista, espremida entre prédios na rua República do Líbano, é o primeiro templo católico oriental do Brasil, fundado em 1941. Apesar de ainda ter forte conexão com a comunidade sírio-libanesa, a missa tem um público crescente de jovens e de pessoas curiosas.

Lá se celebra a missa bizantina, tradição que começou ainda no século V numa região onde onde se estendem parte dos territórios da Turquia, de Israel e da Palestina. Assim como no rito latino, o sacerdote reza de costas para o público. A música, a liturgia e as vestimentas remetem à cultura medieval dos católicos orientais.

— O rito chama a atenção dos jovens, eles se sentem bem pela beleza das orações. Hoje em dia os fieis estão a procurar as tradições em resposta aos tempos tão conturbados em que vivemos. Devemos voltar sempre às origens — diz o monsenhor George Khoury, da paróquia de São Basílio.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Maria e o jejum na tradição ortodoxa


Amanhã, dia 28 de agosto, é o dia da "Dormição da Deípara" na tradição ortodoxa oriental. "Deípara" é uma palavra de origem latina que significa "aquela que deu à luz a Deus", atribuída como epíteto a Maria no sentido de "Mãe de Deus", ou "Theotokos", como já tivemos oportunidade de comentar nesse artigo de novembro de 2008.

Para os ortodoxos, Maria passou pela morte natural, à qual eles chamam de "dormição" porque, segundo a sua tradição ensina, a sua alma teria sido imediatamente recebida por Cristo no paraíso, enquanto o seu corpo teria sido ressuscitado ao terceiro dia e imediatamente elevado aos céus para se juntar ao seu espírito.

Os católicos romanos também têm essa crença, transformada no dogma da Assunção de Maria pelo papa Pio XII em 1950, declarando que ela teria subido de corpo e alma ao céu, mas não fica claro (propositalmente, ao que tudo indica) se a mãe de Jesus teria ou não passado pela morte natural.

Repare também na sutil diferença terminológica. Como relatam brevemente os evangelhos (Marcos 16:19; Lucas 24:50-53) e o livro de Atos dos Apóstolos (1:9-11), Jesus "ascendeu" ao céu ("Ascensão", portanto) enquanto Maria foi "assumida" no céu ("Assunção").

A festa católica da Assunção de Maria também se dá em agosto, no dia 15, enquanto os ortodoxos a celebram no dia 28. A diferença entre as datas se dá porque os primeiros seguem o calendário gregoriano para suas festas religiosas, enquanto os últimos adotam o calendário juliano.

Feitos esses breves comentários sobre como as duas tradições abordam a morte e o, digamos, "traslado" de Maria, é interessante ver como os ortodoxos celebram a data festiva com jejum, e o que eles pensam a respeito da abstenção de alimentos.

O artigo abaixo é de autoria do Diácono Marcelo Paiva, do excelente blog ortodoxo "O Cetro Real", ao qual agradecemos a especial gentileza de ter-nos autorizado sua reprodução aqui:



Esforço Ascético : O Jejum da Dormição da Deípara.

Queridos irmãos, prezados amigos,

Nesta Quarta Feira (14 de Agosto), os filhos das jurisdições da Santa Igreja Ortodoxa que guardam o calendário juliano durante todo o ano, dão inicio ao período de jejuns e abstinências, em razão da preparação espiritual para a Festa da Dormição da Deípara, que se dará no dia 28 de Agosto.

O "Jejum da Dormição", mantido por duas semanas, tem as mesmas características do Jejum da Grande Quaresma : Abstenção de alimentos de origem animal, bebidas alcoólicas, e para os casados, das relações maritais.

Vinho e Azeite são permitidos aos Sábados e Domingos.

Em meio ao Jejum, será celebrada a Grande Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo (dia 19 de Agosto). Neste dia, em razão da Grande Festa, se permite consumir peixe.

Vamos ver o que os Santos dizem a respeito do jejum :

São Serafim de Sarvov - "O jejum não consiste apenas em reduzir o número de refeições, mas também de comer pouco quando realizar estas. E se você faz apenas uma refeição, que se coma pouco nesta também. Insensato é o jejum em que o fiel conta as horas para poder comer a sua refeição, e quando a realiza a consome com voracidade, consumindo assim o corpo e a mente , de forma insaciável. Na medida em que a forma do corpo, em razão do jejum, vai se tornando mais fina e leve, assim também a vida espiritual vai alcançando a perfeição, se revelando de maneira maravilhosa. Então a alma age como se livre do corpo, pois os sentimentos carnais vão sendo desligados, e o espírito assim se libera do mundo, sobre ao céu e mergulha na contemplação da realidade espiritual. Então, durante todos os dias devemos recorrer apenas a quantidade de alimento necessário para manter o corpo são, para que ele seja um amigo e auxiliar da sua alma, na realização das virtudes. Caso contrário, com o corpo fraco, a alma também pode fraquejar."

São Hierarca Basílio, o Grande : "Há tanto um jejum físico quanto um jejum espiritual.

No jejum físico, o corpo se abstém de comida e bebida. No jejum espiritual, o jejuador se abstém das más intenções, palavras e ações.

Aquele que verdadeiramente jejua se abstém da raiva, ódio, malícia e vingança.

Aquele que verdadeiramente jejua se abstém da conversa fiada e inútil, da retórica vazia, da maledicência, da condenação, da bajulação, da mentira e de todo o tipo de conversa rancorosa. Em uma palavra, um verdadeiro jejuador é aquele que se afasta de todo o mal.

Tanto quanto você subtrai do corpo será o quanto você vai contribuir para o fortalecimento da alma. Pelo jejum é possível tanto nos precaver sobre os males futuros quanto desfrutar das coisas boas que virão. Sofremos doenças por causa do pecado; e receberemos a cura através do arrependimento, que não será frutífero sem a prática do jejum.

O verdadeiro jejum consiste em rejeitar o mal, no controle da língua, na supressão do ódio , no banimento da própria luxúria e das palavras más, da mentira e da traição dos votos afirmados."

Santo Hierarca João Crisóstomo : "Você jejua? Agora também alimente os famintos, de de beber aos sedentos, visite os doentes, não se esqueça dos presidiários, tenha piedade dos torturados, console os que sofrem e choram, seja misericordioso, bondoso, humilde, calmo, paciente, simpático, tolerante, reverente, verdadeiro e piedoso para que Deus possa então aceitar o seu jejum e possa conceder-lhe abundantemente os frutos do arrependimento.

O jejum do corpo é o alimento para a alma.

É necessário, acima de tudo para aquele que está em jejum conter a raiva, para assim acostumar-se com a mansidão e a condescendência, para ter um coração contrito, para repelir os pensamentos e desejos impuros, para examinar sua consciência, para colocar sua mente à prova e ao verificar o que afinal tem sido feito de bom por nós nesta semana e na semana que passou, e para que aquelas deficiências que tenhamos verificado em nós mesmos, possa ser corrigida na semana atual. Este é o verdadeiro jejum.

O ponto aqui não é apenas que devemos ir à igreja todos os dias possíveis, e que devemos sempre ler e ouvir sobre os ensinamentos espirituais ou que devemos nos abster destes ou aqueles alimentos durante toda a quaresma.Não!

Se nós, continuamente vamos a Igreja e ouvimos e lemos as palavras de ensino e espiritual, mas não adquirimos nada de positivo e nada de bom frutifica deste tempo de jejum, ao contrário de nos beneficiar, tudo isso nos conduz a própria condenação, pois apesar de toda a preocupação dos padres e da Igreja em nosso favor, nós insistimos em continuar a viver a mesma vida que antes vivíamos.

Não diga então para mim que você jejuou por muitos dias, que não comeu isso ou aquilo, que não bebeu vinho... Mas ao contrário, me diga se tu tens deixado de ser um homem irritadiço para ser um homem suave, se tens deixado de ser um homem cruel para se tornar benevolente, se tens deixado de ser um homem dominado de raiva, tudo isso em razão do jejum.

Pois se o ódio e a avareza estão dentro de ti, qual é o benefício que você retira do jejum ?

O jejum por si só não o levará para o céu, se ele não der fruto.

O jejum é maravilhoso porque atropela os nossos pecados como se estes fossem uma erva daninha, ao mesmo tempo que cultiva e eleva a verdade como uma flor."

São João de Kronstadt :

"Todo aquele que rejeita os jejuns, priva a si mesmo de se armar contra a sua própria carne, e de tal descuido favorece a ação do diabo, que assim passa a ter poder sobre nós, especialmente em razão da nossa intemperança.

Então nos dizem : Não importa se você come isso e deixa de comer aquilo durante as Quaresmas, e também não há nada de errado se você durante o Jejum usa roupas caras, vai ao teatro, a festas, compre móveis refinados, aposte em corridas de cavalo, e continue a desejar acumular e acumular coisas..." É o que nos dizem.

Contudo, o que é afinal que se transforma o nosso coração quando estamos longe de Deus, quando estamos longe da Fonte da Vida?

Afinal como é que perdemos a vida eterna ? Não é justamente por causa da gula, das roupas caras (como aquelas que o homem rico da Parábola do Evangelho), dos teatros e de todas as outras diversões que colocamos acima de Deus?

O que torna endurecidos os nossos corações para com os pobres, até mesmo para com os nossos parentes ? Não é justamente essa nossa paixão por satisfazer os nossos luxos?

É possível servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo ? É possível ser amigo do mundo e um amigo de Deus ao mesmo tempo ? É possível servir conjuntamente a Cristo e Belial?

Não, isso não é possível.

Por que Adão e Eva perderam paraíso ? Por que eles caíram em pecado e obtiveram a morte? Qual foi o mal que eles escolheram ? Vamos considerar atentamente tal questão, e veremos o que o não se preocupar com a salvação de nossa alma custa, quanto custou ao Filho de Deus.

Por que nós insistimos em viver uma vida composta de pecado sobre pecado, em uma queda sem fim, sempre em oposição a Deus, em uma vida de puro cultivo da vaidade?Não é justamente em razão de nossa paixão pelas coisas terrenas e, especialmente, para os prazeres terrenos? O que faz nossos corações se tornarem tão embrutecidos?

Não por que justamente nos tornamos carne e não espírito, pervertendo a nossa natureza moral?Não é por causa de uma paixão desenfreada por comida, bebida e outros confortos terrenos? Como depois disso se pode dizer que não importa o que se come ou que não se come durante a Quaresma? O fato de pensarmos assim é apenas por orgulho , por um pensamento ocioso, por desobediência, em uma recusa consciente em se submeter a Deus, por buscarmos nos separar Dele."

Santo Hierarca Inácio Brianchaninov :

"A maior das virtudes é a oração, mas a sua base é o jejum. A razão disso é que o jejum tem um efeito sobre os espíritos malignos, que buscam exercer uma poderosa influencia sobre o nosso próprio espírito, através das fraquezas do nosso corpo. Um corpo subjugado pelo jejum traz a liberdade ao espírito humano, lhe concedendo força, sobriedade, pureza e um agudo discernimento."

Santo e Venerável Efreim, o Sírio:

"Se tu, ó homem, não desejar perdoar a todos que pecaram contra ti, então não te incomodes em fazer jejum. Se tu não deseja perdoar a dívida de teu irmão, com quem você se zangou por algum motivo, então você jejuará em vão, pois Deus não vai aceitar o seu jejum.O jejum não te ajudar até que tu se esforce no amor e na esperança da fé. Quem jejua e se torna irritado, abrigando qualquer tipo de inimizade em seu coração, tal pessoa odeia a Deus e a salvação está longe dela."

São Tikhon de Zadonsk:

"Um jejum excelente é aquele que nos ajuda a nos moderarmos de toda impureza, que impõe a abstinência de nossa língua e que impede a conversa fiada, linguagem chula, a calúnia, a condenação, bajulação e toda sorte de palavra malévola, que nos ajuda a evitar a raiva, o ódio, a maldade e a vingança, que nos afasta de todo o mal.

Que a tua mente então faça jejum, se abstendo de pensamentos vãos; que a tua memória jejue, de modo que você se lembre do mal que você mesmo fez. Que a sua vontade jejue, coibindo os desejos perversos. Que teus olhos jejuem para que você não possa fitar a vaidade. Que os teus ouvidos jejuem para que você não ouça canções vis ou sussurros de calúnia contra o seu próximo. Que a tua língua jejue, evitando toda a calúnia, condenação, blasfêmia, falsidade, engano, linguagem chula e toda a palavra ociosa e podre rápida de lembrar o mal. Que as tuas mãos jejuem , deixando de matar, de roubar. Que as tuas pernas jejuem, o desviando do mal caminho, se mantendo firmes na trilha da salvação.

Santo Atanásio, o Grande :

"Vês o que o jejum faz: ele cura doenças, expulsa demônios, remove maus pensamentos, faz com que o coração se torne puro. Caso alguém tenha sido tomado por um espírito impuro, que ele tal mal não se combate sem que faça oração e jejum, e isso sabemos de acordo com a palavra do Senhor (Mateus 17:21)".

Que Deus nos permita viver com piedade e verdadeiro fervor espiritual esses dias de esforço ascético.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Teria a tradição católica definido a doutrina da Trindade?

A doutrina da Trindade é comumente atacada por modalistas e unitaristas com base em uma suposta imposição do dogma pelo imperador Constantino ao Concílio de Niceia, em 325 d.C., o que revela um profundo desconhecimento da história, conforme já demonstramos aqui nos artigos:




É de se estranhar, portanto, que uma ala ultraconservadora da Igreja Católica, para defender a sua doutrina da autoridade da tradição oral contra a "Sola Scriptura", venha dizer que foi a tradição que definiu a doutrina da Trindade, e não as Escrituras.

Ao fazer isso, eles contrariam o que ensina a própria Igreja Católica, tema que o Gustavo, co-editor deste blog, aborda no seu artigo:

Foi a Tradição católica que definiu a doutrina da Trindade?

A doutrina da Trindade é uma doutrina fundamental da fé cristã e desde os primórdios do cristianismo, vem sendo atacada por vários grupos distintos. Por um lado, arianos, unitarianos, muçulmanos, espíritas, judeus, etc., questionam a divindade de Cristo e do Espírito Santo. Por outro lado, modalistas questionam o próprio conceito de hipóstase, fazendo Pai, Filho e Espírito Santo serem totalmente idênticos. O mais surpreendente, no entanto, é encontrar pessoas que deveriam defender a doutrina se alinhando aos críticos dela.

Tal é a posição de alguns católicos romanos, que resolveram concordar com todos estes grupos, declarando que a doutrina da Trindade não é claramente ensinada nas Escrituras, e que seu estabelecimento se deu unicamente por causa da tradição católica romana.

continue lendo no e-cristianismo



quinta-feira, 3 de março de 2011

Nova Bíblia católica americana elimina a palavra "holocausto"

Notícia do site G1:

Nova Bíblia norte-americana muda palavras como 'holocausto'

Por Andrew Stern

CHICAGO (Reuters Life!) - A nova edição de uma das mais populares Bíblias em inglês vai substituir termos como 'espólio' e 'holocausto' a fim de melhor refletir a compreensão moderna, disse um grupo católico na quarta-feira.

Cerca de 50 acadêmicos de todos os credos e uma comissão de bispos católicos trabalharam desde 1994 na atualização da Nova Bíblia Americana, a primeira revisão desde 1970, segundo a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA.

A nova edição será lançada a partir da Quarta-Feira de Cinzas por 12 editoras. 'É uma bela tradução, uma nova maneira de olhar para um velho amor', disse Mary Sperry, que supervisiona o licenciamento da Bíblia para os bispos.

As mudanças vão além das alterações de algumas palavras, e incluem novas notas para auxiliar o leitor a compreender a interpretação católica dos conceitos bíblicos, disse Sperry. O Livro dos Salmos, por exemplo, ficou com mais de 70 mil palavras, entre textos e notas.

As revisões refletem com mais precisão as traduções do hebraico antigo e as versões grega do Antigo Testamento, além da constante evolução da linguagem moderna, disse Sperry.

Por exemplo, a palavra 'holocausto', que para a maioria das pessoas refere-se ao genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial, foi alterada para 'queima de oferendas', que esclarece a ideia original e positiva de fazer oferendas a Deus.

'Booty' -- que em inglês coloquial passou a ter conotação sexual, como nádegas -- foi alterado para 'espólios de guerra'; 'cereal' -- que muita gente associa a cereais matinais -- virou 'grãos', para falar de trigo.

Numa passagem de Isaías 7:14 que prevê a vinda de Jesus, a expressão 'a virgem' passará a ser 'a jovem', tradução mais fiel do hebraico 'almah.'

Mas Sperry alertou que 'os bispos e a Bíblia não estão sinalizando qualquer tipo de mudança na doutrina do nascimento virginal de Jesus, absolutamente nenhuma.'

A nova edição retoma versões mais poéticas do Salmo 23, ao dizer: 'Ando pelo vale das sombras da morte', em vez de 'vale escuro.' E 'viverei na casa do Senhor pelos próximos anos' virou 'por dias intermináveis', o que segundo Sperry carregava um significado mais profundo e esperançoso.

A atual edição da Nova Bíblia Americana vendeu mais de 1 milhão de exemplares no ano passado, principalmente nos Estados Unidos, Filipinas, Índia e África. A nova versão pode gerar uma alta nas vendas, previu Sperry.

A edição estará disponível em vários formatos: como um livro familiar de capa dura, uma brochura básica, como livro eletrônico, como aplicativo para celulares e numa versão em braile.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Novos e velhos fariseus - 2ª parte

Os fariseus dos tempos de Jesus erraram tentando acertar, e, de certa forma, a sua visão reformista e- até certo ponto - liberal da religiosidade judaica da época, contribuiu para o nascimento do cristianismo. Pelo menos é isto o que se pode depreender da opinião de Justo L. González, em seu livro "Uma História do Pensamento Cristão", Ed. Cultura Cristã, 2004, págs. 33/35:



Devemos parar para fazer justiça aos fariseus, tão mal interpretados nos tempos posteriores. O fato é que o Novo Testamento os ataca, não porque eles eram piores do que os outros judeus, mas porque eles eram os melhores - a mais alta expressão da potencialidade humana diante e Deus. Ao vê-los atacados no Novo Testamento, inclinamo-nos a considerá-los simplesmente um grupo do pior tipo de hipócritas, mas aqui erramos em nossa interpretação, não apenas do farisaísmo, mas também do próprio Novo Testamento.

Ao contrário do que freqüentemente imaginamos, os fariseus enfatizavam a importância de uma religião pessoal. Por esta razão, os judeus mais conservadores os acusavam de serem inovadores que atenuavam o jugo da Lei. Numa época em que a vitalidade da adoração no Templo estava em declínio, os fariseus esforçaram-se para interpretar a Lei de tal modo que ela pudesse servir como um guia cotidiano para a religião do povo. Naturalmente, isto os levou ao legalismo que fez deles objeto de tanta crítica e também foi a causa básica de sua oposição aos saduceus. Mas é necessário salientar que os fariseus não eram "legalistas" no sentido de que eles exigiam obediência cega e de má vontade à lei moral e aos preceitos rituais - halakah - pois uma grande parte daquilo que nos restou de sua literatura é devocional, homilética e denota um esforço humano de trazer à tona obediência voluntária à vontade de Deus - haggada.

Os saduceus eram os judeus conservadores do século 1º. Eles aceitavam apenas a Lei escrita como sua autoridade religiosa, não a lei oral que tinha sido desenvolvida da tradição judaica. Deste modo, eles negavam a ressurreição, a vida futura, a complicada angelologia e demonologia do Judaísmo mais recente, e a doutrina da predestinação. Nisso eles se opunham aos fariseus, que aceitavam todas essas coisas; e por essa razão o Talmude lhes chama - ainda que de forma um tanto inexata - "epicuristas". A religião dos saduceus se centrava no Templo e em seus ritos, e não na sinagoga e em seus ensinos. Assim, não é surpreendente o fato dos saduceus desaparecerem logo depois da destruição do Templo, enquanto que os fariseus quase não foram afetados por este evento.

Em contraste com os saduceus, os fariseus se propuseram a tornar a religião uma parte da vida íntima diária. Como os saduceus, sua religião centrava-se na Lei, ainda que para os fariseus "Lei" não fosse apenas a Lei escrita, mas também a oral. Esse legado oral, transmitido ao longo dos séculos de tradição e interpretação, servia para aplicar a Lei escrita às situações concretas da vida diária, mas também serviu para introduzir inovações dentro da religião de Israel. É por isso que os saduceus, conservadores por natureza, rejeitavam todo possível uso da Lei oral, enquanto que os fariseus - conjugando esforço com os escribas - apressavam-se em defendê-la.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A tradição viva da Igreja

por Paul Tillich

A autoridade e a razão constituíam o problema básico do escolasticismo. Qual era a autoridade medieval? Era a tradição substantiva sobre a qual se edificava toda a vida medieval. A autoridade residia, primeiramente, na tradição da igreja, expressa no reconhecimento dos pais da igreja, nos credos e concílios, e na Bíblia. Quando ouvimos hoje o termo “autoridade” pensamos logo num tirano, seja um pai, um rei, um ditador, ou mesmo um professor. Mas nos documentos medievais, a palavra auctoritas (autoridade) tinha outro sentido. Não era nem mesmo o papa, pois o seu autoritarismo só veio a aparecer mais tarde, pelo fim desse período. No início e no período áureo da Idade Média, a autoridade era a tradição viva. Perguntava-se: qual é a relação da razão com a tradição viva da igreja na qual se vivia? Não havia outra tradição. Essa tradição viva era-lhes tão natural como o ar que respiramos. Esta analogia pode nos ajudar a entender o sentido da tradição viva na Idade Média.

A tradição, no entanto, se compunha de diversos elementos, nem todos dizendo a mesma coisa. Examinando-os, era necessário fazer escolhas. A Idade Média enfrentou essa situação, primeiramente, no domínio das decisões práticas, representado na lei canônica. Essa lei era a base da vida medieval; o dogma era uma das leis canônicas e vinha daí a sua autoridade legal dentro da igreja. Necessidades práticas, então, criaram uma classe de pessoas devotadas a harmonizar o significado das leis canônicas existentes. O método empregado era dialético, conhecido como o método “do sim e do não”. A razão era o instrumento desse trabalho. Ela combinava e harmonizava as sentenças dos pais e dos concílios, primeiramente na prática e logo em seguida no que se refere às declarações teológicas. A razão coletava, harmonizava e comentava as sentenças dos pais. Era a sua função principal. Quem desempenhou essa tarefa com reconhecido êxito foi Pedro Lombardo, cuja obra, Quatro Livros de Sentenças, tornou-se o manual do escolasticismo medieval. Essas Sentenças eram, por sua vez, comentadas por outros teólogos quando escreviam seus sistemas.

A razão também devia interpretar o sentido da tradição dada, expressa nas sentenças. Muito embora a fé sempre fosse pressuposta, seus conteúdos tinham que ser interpretados. Veio daí o moto: credo ut intelligam, creio para entender. Queria se dizer que a substância da fé era dada; podia-se participar nela. Não havia na Idade Média a “vontade de crer”. O credo era dado como era dada a natureza. Da mesma forma, a razão apenas interpretava a tradição dada; não criava a tradição. Essa analogia pode nos ajudar a entender melhor a Idade Média.

O próximo passo foi dado, menos especulativamente e com mais cautela, por pensadores que levavam a sério Aristóteles, na sua elaboração teológica, como demonstra especialmente, Tomás de Aquino. Achavam que a razão era adequada para interpretar a autoridade. Na verdade, a razão jamais se opõe à autoridade; a tradição viva pode ser interpretada em termos racionais. A razão não precisa ser destruída para interpretar o significado da tradição viva. Esta ainda é até hoje a posição tomista.

O último passo foi a separação entre razão e autoridade. Duns Escoto e Guilherme de Ockham, o nominalista, entendiam que a razão não se prestava para interpretar a autoridade nem a tradição viva, nem mesmo para expressá-las. O nominalismo posterior diria isto, claramente. Entretanto, se a razão não pode interpretar a tradição, a tradição se transforma em autoridade de modo bem diferente; passa a ser a autoridade mandatória a exigir submissão, mesmo se não for entendida. É o que chamamos de “positivismo”. A tradição é dada positivamente: está aí e a vemos; aceitamo-la e nos submetemos a ela do modo como nos é dada pela igreja. A razão não tem capacidade de mostrar o sentido da tradição; só pode mostrar as diferentes possibilidades derivadas das decisões da igreja e da tradição viva. A razão pode chegar a probabilidades e a improbabilidades, mas nunca a realidades. Não pode dizer como as coisas deveriam ser. Isso depende da vontade de Deus. A vontade de Deus é irracional e dada. É dada na natureza. Precisamos, pois, de certo empirismo para descobrir como são as leis naturais. Não estamos no centro da natureza. Relacionamo-nos com as ordens da igreja, com a lei canônica, de modo que é a essas decisões que nos submetemos positivamente; devemos aceitá-las como leis positivas, pois não as podemos entender em termos racionais.

A autoridade da igreja e, até certo ponto, a razão terminaram com o advento do protestantismo. A razão voltou a ser completamente elaborada e se tornou criativa na Renascença. Na Reforma, a tradição se transformou em fé pessoal. Mas a Contra-Reforma tentou manter a razão prisioneira da tradição. Só que essa tradição já não era a tradição viva, mas formulada e identificada com a autoridade do papa. São fatos extremamente importantes para nós ainda hoje. Enfrentamos o problema da tradição viva e de sua confusão com autoridade. Trata-se de um erro. A autoridade pode ser natural e factual, sem nos partir internamente, destruindo a nossa autonomia e sem nos sujeitar à lei externa da heteronomia. No primeiro momento da Idade Média, a autoridade era natural, por assim dizer, como é natural a nossa relação com a natureza. Já no final da Idade Média, a situação mudara. Surgiu, então, certo conceito de autoridade contra o qual devemos lutar, porque exige a sujeição das diversas tradições a uma única tradição. Hoje em dia, os ditadores chegam ao extremo de excluir todas as outras tradições. As assim chamadas “cortinas de ferro”, que muitas vezes construímos ao não admitir livros do Oriente etc., são tentativas de manter as pessoas dentro de uma só tradição impedindo-as de entrar em contato com outras tradições. Todos os sistemas autoritários sabem que nada é mais perigoso para uma dada tradição do que o contato com outras tradições. Os indivíduos, assim, ficariam livres para decidir em face dessas outras tradições. O método da “cortina de ferro” não era necessário na Idade Média porque não havia outra tradição; vivia-se na tradição medieval como se vive naturalmente na natureza.

(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2000, p. 148-150)

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