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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Traficante se converte e denuncia grupo que planejava matar promotor em SP


Curioso é que deram à operação o nome de "Judas Iscariotes"...

De qualquer maneira, isso sim é um claríssimo sinal de arrependimento (Lucas 3:8). Quisera outras pessoas que "viram evangélicos" tivessem o mesmo comportamento...

A informação foi publicada no Estadão de 23/09/17:

Operação prende 25 de organização que ameaçava matar promotor em Rosana

De acordo com a investigação, o grupo é suspeito de planejar a morte do promotor público Renato Queiroz de Lima, que atua no município.

José Maria Tomazela

SOROCABA - Uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual (MPE), na manhã deste sábado (23), prendeu 25 integrantes de uma organização de traficantes de drogas que atuava em Rosana, no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do Estado de São Paulo. De acordo com a investigação, o grupo é suspeito de planejar a morte do promotor público Renato Queiroz de Lima, que atua no município. Foram cumpridos também 30 mandados de busca. A Polícia Civil ainda apura a ligação dos suspeitos com outras organizações criminosas.

De acordo com o delegado Ramon Euclides Guarnieri Pedrão, as investigações foram iniciadas a partir de denúncias anônimas e ganharam corpo depois que um dos envolvidos se tornou evangélico e decidiu “entregar” o grupo – a operação foi batizada de “Judas Iscariotes”, numa referência ao traidor de Jesus Cristo. “Observamos que pequenos grupos de traficantes formavam uma rede em que os líderes se comunicavam e faziam referência a uma liderança maior. Eles se ajudavam e trocavam informações”, disse. A cidade fica na divisa com o Mato Grosso do Sul e está na rota dos carregamentos de drogas procedentes do Paraguai.

O plano de atentar contra a vida do promotor foi revelado por uma testemunha que prestou depoimento sob sigilo. “Foi uma menção clara de dar um tiro no promotor de Justiça que atua no enfrentamento do tráfico de drogas no município. Com as prisões, vamos prosseguir as investigações, em parceria com o Ministério Público”, disse. A Polícia Militar e a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) colaboraram com a operação, com cães farejadores para a busca de drogas. A PM participou com um helicóptero.

Com os suspeitos, foram apreendidos entorpecentes, celulares e rádios comunicadores. Conforme o delegado, os grupos trabalhavam com pequenas quantidades de drogas, uma espécie de varejo do crime. A investigação vai prosseguir para identificar o esquema de fornecimento da droga. Os detidos tiveram as prisões temporárias decretadas pela Justiça por 30 dias. Todos foram levados para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Caiuá, na mesma região.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O deputado evangélico que foi parar na cadeia

Ah Zaqueu, Zaqueu... você que é tão cantado em igrejas e shows pelo país inteiro, e que deu aquele exemplo tão pungente de conversão verdadeira quando Jesus mandou que você descesse da árvore e o recebesse em sua casa...

Você, Zaqueu, que não titubeou diante da visita divina e lhE disse: "Eis aqui, Senhor, dou aos pobres metade dos meus bens; e se em alguma coisa tenho defraudado alguém, eu lho restituo quadruplicado" (Lucas 19:8)...

Ah, Zaqueu, se você soubesse o que alguns "evangélicos" condenados (com trânsito em julgado) andam fazendo no Brasil...

Pois é, Zaqueu, ao se converter você imediatamente abandonou a vida corrupta e se prontificou a doar metade dos seus bens aos pobres bem como em devolver quatro vezes mais do que havia defraudado a alguém, mas certos "evangélicos" no Brasil preferem ler livros de auto-ajuda gospel no recôndito de seu xilindró.

Ah, Zaqueu, o que fizeram com o exemplo que você deu? Aqui no Brasil, Zaqueu, virou o "mó" quiproquó. O povo te conhece apenas no gogó...

E ainda se acham "bodes expiatórios" e cantam "Restitui", mas só se for pra restituir o irrestituível pra eles mesmos...

Restitui, Donadon, restitui!!!

A notícia foi publicada na Folha de S. Paulo de 04/08/13:

Deputado Natan Donadon se apega a livros religiosos em penitenciária

RANIER BRAGON
MÁRCIO FALCÃO

Já sem o terno, a gravata e o broche de metal dourado banhado a ouro que identifica os deputados --seu traje quando se entregou--, ele vestia camisa e bermudas brancas, padrão da penitenciária.

A exatos 17 km do gabinete de 36 m² com computadores, poltronas e TVs que ocupava na Câmara, Donadon ouviu as explicações da notificação por meio de uma pequena abertura que, na sala a que foi conduzido, permitia que se comunicasse com a visita.

Pouco depois, voltou à cela individual de 6 m² com cama, sanitário e chuveiro, na ala apelidada "Cascavel".

O setor abriga internos considerados perigosos, daí o apelido, ou que por algum motivo não podem se misturar. Um congressista preso seria certamente alvo de achaques e agressões, dizem familiares e advogados dele.

"O que aparentemente é uma regalia acaba sendo um castigo maior ainda. Como diz a música do Alceu Valença, 'a solidão é fera/a solidão devora'", diz Cleber Lopes, um dos advogados do empresário Carlos Cachoeira, que passou 266 dias numa cela individual da penitenciária.

A Papuda diz que a cela individual decorre do status de deputado. Status esse que está prestes a ser removido.



BODE EXPIATÓRIO

O paranaense Natan Donadon, 46, está em seu terceiro mandato como deputado federal, mas sempre pertenceu ao chamado "baixo clero".

A modesta carreira contrasta com o fato de, desde 28 de junho, ser o primeiro congressista-presidiário pós-ditadura militar. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal a mais de 13 anos, ele deve ficar em regime fechado pelo menos até setembro de 2015.

Sua condenação se deu sob a acusação de ter desviado R$ 8,4 milhões da Assembleia de Rondônia por meio de contratos de publicidade fraudulentos. Seus advogados tentarão diminuir a pena em um processo de revisão criminal.

"Houve violação ao princípio da isonomia. Acusados pelos mesmos crimes foram condenados a penas muito menores", afirma um dos advogados, Nabor Bulhões.

A mulher de Donadon, Rosângela, pede que a justiça seja feita. "Como estavam ouvindo as vozes das ruas, como tinham que dar uma resposta à sociedade, pegaram ele como bode expiatório. O processo do mensalão não teve nenhum condenado com uma pena dessa [na verdade,cinco réus do mensalão tiveram pena superior], daí já se vê o disparate", diz ela, que o visita todas as quartas.

Rosângela nega que ele tenha se abatido e diz que o deputado, que é evangélico, passa o tempo lendo a Bíblia e o livro "Deus Trabalha no Turno da Noite", do pastor da Igreja Quadrangular Ron Mehl (1944-2003), que traz mensagens de conforto.

Congressistas afirmaram ter ouvido relatos de que presos de celas vizinhas têm submetido Donadon a terrorismo psicológico, gritando ameaças, o que a mulher e a defesa dizem não ter ouvido dele.

O congressista não tem recebido visitas de políticos, foi expulso do PMDB, teve cortados o salário de R$ 26,7 mil, as verbas e os funcionários.

As portas do gabinete 239, onde ainda está a placa com seu nome e a bandeira de Rondônia, ficam trancadas.

Até os ex-aliados dizem que ele será cassado ainda neste mês. Diante desse clima, seu suplente, o ex-ministro Amir Lando (PMDB-RO), foi à Câmara há algumas semanas tentar assumir de uma vez a vaga. Foi convencido a esperar a cassação do colega.

FALTAS

Para Natan Donadon ser cassado, será preciso o voto de ao menos 257 de seus 512 colegas deputados.

Caso a cassação não ocorra nessa fase, a Câmara irá tirar seu mandato por faltas --a Constituição prevê essa medida quando as ausências superam um terço das sessões do ano. Ele já faltou em 15,8%.

Com isso, Donadon deve ser o 18º deputado a ter o mandato retirado pelo plenário da Câmara desde a Constituição de 88 --na lista está, por exemplo, o ex-ministro José Dirceu (PT), condenado no mensalão.

- Desce daí, Zaqueu!




sábado, 4 de agosto de 2012

Cristão, um marginal

Artigo instigante publicado no IHU:

A marginalidade como paradigma da vida do cristão

Para o monge italiano Matteo Ferrari, do Mosteiro de Camáldoli, os discípulos de Jesus de hoje, assim como o seu mestre, devem ser homens e mulheres da aldeia e do deserto, habitando nas margens.

"Se percorrermos novamente os textos dos Evangelhos, podemos descobrir que o próprio Jesus viveu essa condição de "marginalidade" e escolheu no seu ministério aqueles que estavam às margens da sociedade da sua época".

O artigo foi publicado na revista Ricerca, 3/4 de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Sempre me chamou a atenção um texto de Dietrich Bonhoeffer no início de Sequela [Seguimento], em que ele fala da vida monástica. Ele afirma que o monaquismo consiste "pôr-sè às margens" para guardar "a graça cara", tornando-se "um protesto vivo contra a mundanização do cristianismo, contra a redução da graça a mercadorias baratas" [1]. Falando dos monges, Bonhoeffer afirma: "Às margens da Igreja se encontrava o lugar onde foi mantida desperta a cognição da graça cara e do fato de que a graça implica o seguimento" [2].

A partir do Novo Testamento, se poderia perguntar se o estar "às margens" não é precisamente uma condição do cristão que vive a sua fé de modo autêntico. De fato, se percorrermos novamente os textos dos Evangelhos, podemos descobrir que o próprio Jesus viveu essa condição de "marginalidade" e escolheu no seu ministério aqueles que estavam às margens da sociedade da sua época.

Um homem da aldeia e do deserto

Acima de tudo, tentemos considerar o espaço habitado por Jesus. Nos Evangelhos, Jesus é um homem sempre a caminho, que passa de vilarejo em vilarejo. Ele privilegia no seu contínuo caminho uma região marginal de Israel, a Galileia. Além disso, ele não entra em grandes cidades, mas sim em pequenas aldeias. Se levarmos em consideração unicamente os relatos evangélicos, podemos até mesmo pensar que, na época de Jesus, não havia, com exceção de Jerusalém, grandes centros habitados [3]. Mas, ao contrário, nós sabemos bem que, na realidade, não é assim. Trata-se, portanto, de uma escolha de Jesus o fato de privilegiar os vilarejos no seu ministério.

A esse tema M. Pesce e A. Destro dedicaram algumas páginas sugestivas no seu livro L'uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri [4]. Referindo-se ao Evangelho de Marcos, eles afirmam que Jesus é "um homem de aldeia que olha para as grandes cidades e para todo o resto da Terra de Israel a partir de um ponto de vista periférico e marginal" [5].

O que pode significar essa preferência de Jesus pela aldeia? As tentativas de dar uma resposta a essa pergunta certamente poderiam ser múltiplas; a nós basta unicamente fazer um sublinhado. O vilarejo é um lugar marginal, mas nem por isso menos importante, da vida social. As cidades são o lugar onde se tomam as decisões, onde se governa a vida social e econômica. A aldeia, com a sua marginalidade, o seu apego às tradições, a sua natural resistência ao anonimato que a vida citadina pode trazer consigo, pode ser, de certo modo, uma "contestação" da cidade, um modo para se pôr às margens e chamar a atenção para uma outra possibilidade de vida.

Jesus, além disso, é não somente um homem da aldeia, mas é também um habitante do deserto. A missão de Jesus inicia no deserto, onde o Espírito o leva para lhe fazer viver a prova (Mc 1, 12). O deserto é lugar marginal por excelência. Os primeiros monges no antigo Egito também se retirariam no deserto para viver a prova e se tornar uma advertência para toda a Igreja para a radicalidade do seguimento do evangelho.

No deserto, Jesus é "posto à prova" por Satanás e ali ele se revela como o homem segundo o sonho de Deus, capaz de recuperar a harmonia com a criação (cf. Mc 1, 13). Ao deserto, Jesus também se retiraria no término da "jornada de Cafarnaum", que abre o segundo Evangelho (cf. Mc 1, 21-39). Marcos narra que, "de madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto" (Mc 1, 35). Estamos no término de uma jornada típica de Jesus, na qual ele realizou obras grandes: ensinou na sinagoga com autoridade, libertou um endemoninhado, curou a sogra de Pedro e muitos outros doentes da cidade. Mas, de manha cedo, Jesus se afasta da multidão e do sucesso para se retirar para um lugar deserto para rezar. Quando Simão, juntamente com os outros discípulos, o encontram e o convidar para retornar para o vilarejo para continuar a obra que lhe trouxera tanto sucesso e notoriedade, Jesus lhes diz: "Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim" (Mc 1, 38).

Dirigindo-se para um lugar deserto, às margens da aldeia, na oração, Jesus retorna ao sentido mais profundo e verdadeiro da sua missão – "Foi para isso que eu vim" – e reafirma a soberania de Deus sobre a sua própria vida. O deserto é para o próprio Jesus, para a sua vida, "o lugar marginal" para reencontrar o sentido das coisas.

Mais adiante no relato de Marcos, Jesus também vai convidar os seus discípulos, retornando da missão à qual ele os havia convidado, a se dirigirem para um lugar deserto para repousar (Mc 6, 31-32). É como se Jesus quisesse indicar aos seus discípulos a necessidade de viver a missão como ele, encontrando no deserto, isto é, nas margens, o sentido autêntico das suas atividades. No deserto, alcançados pela multidão faminta de palavra e de pão, eles terão que descobrir que o sucesso da sua missão não dependerá de grandes ações e meios poderosos, mas sim da disponibilidade de pôr à disposição a própria pobreza – cinco pães e dois peixes (Mc 6, 38; também cf. 8, 5) – para que, a partir dela, o Senhor possa saciar uma multidão imensa de modo superabundante.

Amigo de publicanos e pecadores

Do ponto de vista das relações, Jesus também se apresenta como alguém que "vive às margens". De fato, ele "se afasta da própria família e da própria aldeia, expondo-se a instabilidades, incertezas e críticas. Ele é contra a estabilidade e contra a certeza. Escolhe uma vida que não tende a se enraizar em um tecido seguro e confortável" [6].

No Evangelho de Lucas, Jesus é chamado de "amigo de publicanos e pecadores" (Lucas 7, 34). O fato de que quem vê Jesus em ação possa dizer algo semelhante nos diz algo de muito significativo sobre as relações de Jesus. Se percorrermos o início do Evangelho de Marcos – o mais antigo dos evangelhos –, essa impressão é confirmada. Basta pensar que o primeiro gesto público que Jesus realiza não é nem um milagre, nem um grande discurso inaugural, mas sim o de entrar na fila com aqueles que iam ao encontro de João para serem batizados (Mc 1, 9-11). João no deserto, e portanto ele também às margens da vida social, "proclamava um batismo de conversão para o perdão dos pecados" (Mc 1, 4). Aqueles que iam até ele, portanto, se sentiam necessitados de ser perdoados e de mudar de vida.

Em Lucas, sabemos que iam até João diversas categorias de pessoas, dentre as quais os publicanos, considerados pecadores públicos. Não é por acaso que Jesus inaugura a sua missão com esse gesto e que, justamente nesse momento, uma voz do céu o chama de "meu filho" e proclama a complacência divina para com ele (cf. Mc 1, 11).

Continuando a percorrer o Evangelho de Marcos, encontramos a jornada de Cafarnaum. Como já dissemos, nesse dia, Jesus encontra um endemoninhado, uma mulher com febre e muitos outros doentes. Pessoas, portanto, que vivem uma situação limite e, muitas vezes, se pensarmos na sociedade da época, marginalizadas. Posteriormente, Jesus cura uma pessoa afetada pela lepra (Mc 1, 40-45), a pessoa marginalizada por excelência (cf. Lv 13, 45-46), à qual era proibido entrar nos centros habitados. Um homem que vivia às margens por constrição, e não por escolha.

Por fim – mas os episódios poderiam ser outros –, lembremos o chamado de Levi e o posterior banquete com os pecadores (Mc 2, 14-17). Nesse episódio, emerge, na comunhão à mesa, a solidariedade de Jesus com as pessoas mais marginalizadas da sua época. Notemos que não se trata de justificar "de forma barata" a conduta equivocada de algumas categorias de pessoas, mas sim de assumir a atitude do médico que veio para curar (Mc 2, 17).

Fora da porta da cidade

A Carta aos Hebreus lembra que Jesus foi crucificado "fora da cidade" (Hb 13, 12), ou seja, às margens do lugar santo. O próprio Jesus, portanto, além de ser "solidário" na sua vida, principalmente com aqueles que estão às margens, na sua Páscoa, sofre o destino dos malfeitores, como um marginalizado. Na paixão e morte de Jesus, emerge do modo mais forte e provocante a sua escolha de habitar às margens e de ser o amigo dos marginalizados.

Nos eventos pascais, se revela o que caracterizou toda a sua existência, isto é, a escolha dos últimos e dos marginalizados. No fundo, a sua própria morte é o fruto de tal escolha. De fato, a decisão de matar Jesus em Marcos 3, 6 por parte dos fariseus e dos herodianos se coloca precisamente no término de uma série de episódios que evidenciam o comportamento provocativo de Jesus com o qual ele revela o rosto do Pai.

Homens e mulheres da aldeia e do deserto

Qual pode ser o sentido dessa escolha de marginalidade vivida por Jesus para os seus discípulos hoje? Estes, como o seu mestre, devem ser homens e mulheres da aldeia e do deserto, habitando nas margens. Esse seu chamado deve se traduzir em escolhas concretas não para se tornar uma "seita de puros", mas sim para lembrar com o seu testemunho o alegre anúncio sobre Deus que Jesus trouxe e foi. Viver a marginalidade não significa se separar da sociedade ou se erguer como juízes dos outros, mas sim permitir que todos possam olhar com olhos diferentes, se distanciar de uma vida que flui sem se interrogar mais sobre a bondade e a beleza das escolhas que são feitas.

Das margens, de fato, pode-se chamar a atenção para as coisas que verdadeiramente importam e que muitas vezes se corre o risco de perder de vista.

Notas:

1 – D. Bonhoeffer. Sequela (= Obras de Dietrich Bonhoeffer 4). Bréscia: Queriniana, 20012,31.
2 – Bonhoeffer, Sequela, pp.30-31.
3 – Cf. A. Destro; M. Pesce. L’uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri di una vita. Milão: Mondadori, 2008, p.19.
4 – Cf. Destro; Pesce. L’uomo Gesù, pp.19-25.
5 – Destro; Pesce. L’uomo Gesù, p.22.
6 – Destro; Pesce, L’uomo Gesù, p.45.



domingo, 19 de fevereiro de 2012

O filho pródigo e a teologia da prosperidade

por Edson Henrique, do Filhos da Graça:



Conversando com um amigo sobre a passagem do filho pródigo, percebi uma semelhança grande da parábola com a teologia da prosperidade. Antes de entrar na semelhança propriamente dito, precisamos entender o contexto histórico e cultura da época. A chave principal para compreensão do contexto da parábola, está nos dois primeiros versículos do capítulo, onde nos é informado a platéia de Jesus, publicanos, pecadores, escribas e fariseus. Os dois primeiros contente por ouvir a Jesus, os dois últimos prontos para julgar e criticar prontos. Jesus apresenta para sua platéia duas parábolas em sequência, a primeira é a parábola da ovelha perdida e logo em seguida vem a parábola do filho pródigo.

É importante percebermos os principais elementos da parábola e os seus significado na cultura judaica, vamos analisar algumas partes do texto.
“Jesus disse ainda: — Um homem tinha dois filhos; Certo dia o mais moço disse ao pai: “Pai, quero que o senhor me dê agora a minha parte da herança.” — E o pai repartiu os bens entre os dois. ” Lc 15 1-2
A palavra “ainda” significa continuidade, ou seja, Jesus continuava falando para a mesma platéia do início do capítulo. O foco principal da parábola acontece em torno do Pai amoroso e do filho pródigo. De acordo com a tradição judaica, o primogênito tinha direito a toda riqueza do Pai, a supremacia entre os irmãos e a chefia da família (Dt 21:17). Ao filho mais moço não havia opção senão servir ao irmão mais velho, foi o que aconteceu com Esaú (Gn 17:26-40). Na cultura hebraica-judaica a rebeldia era punido com a morte, conforme diz a escritura diz:
“Se alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedeça à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e que, embora o castiguem, não lhes dê ouvidos, seu pai e sua mãe, pegando nele, o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar; e dirão aos anciãos da cidade: Este nosso filho é contumaz e rebelde; não dá ouvidos à nossa voz; é comilão e beberrão. Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; assim exterminarás o mal do meio de ti; e todo o Israel, ouvindo isso, temerá.” Dt 21:18-2
Quando os fariseus e escribas ouviram aquela parábola, devem ter se irado com Jesus, pois Jesus contava uma história impensável para os Judeus, pois jamais um filho mais moço teria o direito de solicitar ao pai, a sua parte da herança, primeiro porque ele não era o primogênito e segundo porque o pai ainda vivia. Essa postura para a época era algo incomum, sob risco do filho mais novo se tornar um rebelde e ser apedrejado até a morte. Quando o pai concede ao filho mais novo a sua parte da herança, ele vai contra a Lei, que protegia os interesses do primôgenito (Dt 21:15-17), o direito de herança era propriedade do filho mais velho. Jesus coloca mais dois elementos que chamam a atenção na parábola, um cidadão de um pais distante, era o mesmo que gentio, sabemos que os gentios eram uma abominação para os judeus, quanto mais para os fariseus e escribas. Não bastasse o filho pródigo ir trabalhar para um gentio (abominação era), a história fica mais impressionante quando Jesus acrescenta mais uma elemento interessante à parábola, o porco. O relato do filho pródigo indo trabalhar com os porcos, que era um animal impuro, proibido para comer ou mesmo tocar. Um judeu trabalhando com um gentio, se misturando aos porcos, se rebelando com o Pai e com o primogênito era digno de morte. Entretanto Jesus não está preocupado com os valores culturais da época, mas sim em demonstrar quanto vale um sacríficio para salvar a vida humana, não importa o que o pecador faça.

Podemos comparar a teologia da prosperidade com a parábola do filho pródigo quando o movimento utiliza frases como, “sou filho do Rei”, “meu pai é dono do mundo”, “sou herdeiro da promessa”, “eu determino”, entre outras pérolas. Será que estas pessoas não se lembram de Rm 11:15-17, quando diz que foi através da rejeição dos judeus que fomos alcançados pela graça de Deus, não por méritos, não tinhamos direito a herança alguma, muito menos alcançar a vida eterna, mas pelo infinita misericórida, Deus nos enxertou na oliveira verdadeira. Somos filhos adotivos, e devemos ser gratos por isso, não agir com presunção ou rebeldia como fez o fiho pródigo no início da parábola, que exigiu a herança que não era dele, pois ela pertencia ao primogênito. O movimento da prosperidade ao exigir ou determinar algo, não reconhece o grande amor de Deus, pois todos somos filhos adotivos, ramo da oliveira brava, enxertado na oliveira verdadeira por meio de Cristo Jesus (o primogênito).

Todos que foram enxertados na oliveira verdadeira, deve se comportar como o filho pródigo do final da parábola, quando arrependido e com uma atitude humilde deseja ser tratado como um dos seus conservos (servo do servo), não se achando digno de ser chamado filho, mas entendendo que sendo apenas um dos conservos do pai, seria muito mais feliz e tratado com muito mais dignidade do que gozar de todas as riquezas do mundo como fez o filho pródigo.

Graça e Paz!



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 40



Encerrando o estudo sobre o evangelho de Lucas, com o capítulo 24:

Quando se lê o último capítulo do evangelho de Lucas, se nota uma diferença significativa em relação ao epílogo dos outros três evangelhos. Enquanto os outros se preocupam em dar mais detalhes sobre o evento da ressurreição propriamente dito (no caso de João, no penúltimo capítulo, o 20), Lucas se concentra em poucos discípulos, suprimindo alguns fatos e narrando outros acontecimentos de maneira muito rápida, talvez já preparando o leitor para a continuação de seu relato que se daria no livro de Atos dos Apóstolos, cujos 11 primeiros versículos se referem um pouco mais sobre os passos de Jesus desde a sua ressurreição até a ascensão ao céu.

Por sinal, cada evangelista tem uma maneira própria de encerrar seu evangelho. Mateus (cap. 28) dá mais atenção aos eventos da manhã da ressurreição, tanto da reação dos discípulos como das autoridades judaicas e romanas. Marcos (cap. 16) se assemelha mais a Lucas e concentra o relato pós-ressurreição nos encontros com os discípulos, inclusive aquele do caminho de Emaús (vv. 12-13) que Lucas ampliará bastante no seu evangelho, o que mostra que Marcos (que já circulava à época) e a misteriosa “fonte Q”, comum a ambos, talvez tenham sido a sua maior influência.

João, por sua vez, é o mais detalhado de todos a respeito da reação dos discípulos imediatamente após a ressurreição, isto no capítulo 20, mas depois fala do encontro de Jesus com seus discípulos no mar de Tiberíades (cap. 21), e sobre como ele os confirmou e os enviou, especialmente a Pedro e o próprio João. O traço comum a todos os evangelhos é, portanto, a resposta de Jesus à pergunta que podemos supor que os discípulos estavam se fazendo, mesmo depois de ver o Salvador ressurreto e já na expectativa de Sua ascensão ao céu: “E agora, o que vamos fazer?”

Dos 53 versículos do último capítulo de Lucas, 24 deles são utilizados para contar a história dos dois discípulos desde sua ida para Emaús até a volta repentina para Jerusalém a fim de contar aos outros que Jesus havia ressuscitado, ou seja, praticamente metade do capítulo é dedicado a contar essa história.

Os primeiros versículos, entretanto, se concentram nas mulheres que foram as primeiras testemunhas da ressurreição de Lucas, seguindo o estilo do evangelista de dar vez e voz ao olhar feminino sobre a missão de Cristo na Terra. Logo cedo, “Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago” (identificadas no v. 10) vão ao sepulcro de Jesus, mas a pedra que selava a entrada havia sido movida e não havia mais nenhum corpo por lá (vv. 1-3).

Joana devia ser uma discípula muito importante, já que Lucas havia se referido a ela (cap. 8:3), dizendo que era “mulher de Cuza, procurador de Herodes”. Alguém que gozava de uma boa reputação em Jerusalém, portanto. Aparecem-lhes, então, “dois varões com vestes resplandecentes” (v. 4), que elas reconhecem como anjos e baixam os olhos em sinal de temor e reverência (v. 5), enquanto eles lhes perguntam “Por que buscais entre os mortos ao que vive?” e lhes mostram como elas já deveriam saber disso se houvessem prestado mais atenção nas palavras de Jesus (vv. 6-8).

Aliás, essa é outra tônica do capítulo 24: relembrar como a vida, morte e ressurreição do Messias já estavam previstas nas Escrituras judaicas e nos ensinamentos do próprio Cristo. As mulheres voltaram rapidamente para o encontro dos demais discípulos, relatando-lhes os estranhos fatos daquela manhã, mas ninguém lhes deu crédito (vv. 9-11), salvo Pedro, que, por via das dúvidas, tratou de correr ele mesmo até o sepulcro e constatou que ele estava vazio (v. 12). João, com a humildade que lhe é característica, depois dirá no seu evangelho que ele correu atrás de Pedro e chegou lá primeiro, mas não entrou no túmulo (João 20:4).

A partir de então, Lucas volta seus olhos para o caminho de Emaús, ampliando enormemente uma história que já havia sido mencionada rapidamente por Marcos (16:12). Emaús era um pequeno vilarejo localizado a “60 estádios” (equivalente a cerca de 11 km) de Jerusalém, que tinha uma certa importância para o povo judeu por ter sido lá que houve a batalha de Emaús, em que Judas Macabeu venceu os selêucidas no ano 166 a. C. (deuterocanônico 1ª Macabeus cap. 4), mas que perdeu importância com o passar do tempo e foi destruída após a morte de Herodes, o Grande por ordem do então governador romano Varus (ano 4 a. C.).

Logo, no tempo da caminhada de Jesus com os discípulos até lá, Emaús começava a ser reabitada depois de ter sido queimada pelos romanos quase 40 anos antes. Continuará pouco povoada até que no ano 221 d. C. o imperador romano Heliogábalo refunda a cidade dando-lhe o nome de Nicópolis. Curiosamente, alguns séculos depois estava reservada a Emaús fazer parte da história da fundação de outra religião, a islâmica.

O profeta Maomé havia morrido no ano 632 e sete anos depois, em 639 d. C., Emaús havia acabado de ser conquistada pelas tropas muçulmanas do Califado Rashidun, que estabeleceu ali um acampamento militar, quando uma praga - provavelmente de peste bubônica - se propagou pela cidade levando à morte de 25.000 pessoas. Apesar da distância concêntrica de 11 km a partir de Jerusalém diminuir as possibilidades de se localizar o local exato da antiga Emaús, há vários vilarejos que se candidatam ao honroso posto, embora a versão mais aceita atualmente é a de que o povoado palestino de Imwas mereça o título de herdeiro de Emaús.

No começo do relato de Lucas 24, dois discípulos se dirigem desconsolados para Emaús (v. 13). Um deles se chama Cleopas (v. 18), que a tradição oral identifica também como Alfeu, que teria sido irmão de José, marido de Maria mãe de Jesus, logo, uma espécie de “tio postiço” do Mestre, além de pai dos apóstolos Tiago e Judas Tadeu, embora não haja qualquer evidência conclusiva neste sentido.

Mais tarde, por volta do ano 404 d. C., São Jerônimo escreverá em sua carta 108 (a Eustáquio), que uma igreja cristã foi posteriormente instituída na casa de Cleopas em homenagem à ceia que Jesus participaria logo depois de encontrar os discípulos no caminho, conversando sobre as coisas que haviam acontecido naqueles dias terríveis em Jerusalém (v. 14). O v. 15 diz ainda que eles “discutiam” sobre isso, provavelmente comparando o medonho sacrifício da cruz com todos os ensinamentos que eles tinham ouvido do próprio Mestre quando conviviam com ele.

Neste momento, Jesus se aproxima deles, mas os discípulos não o reconhecem (v. 16), talvez por estarem tão concentrados na sua dor e nem cogitarem que Jesus pudesse ter ressuscitado. Cristo então lhes pergunta por que estavam tão preocupados e tristes (v. 17) e eles lhe dão uma resposta atravessada, irônica, perguntando se o recém-chegado companheiro de viagem era o único peregrino que havia estado em Jerusalém naqueles dias e não sabia do que tinha ocorrido (v. 18).

Utilizam para tanto a palavra grega παροικέω - paroikeō - que significa “estrangeiro”, “peregrino”, alguém que era de fora do contexto social e nacional em que ele viviam. Afinal, a crucificação de Cristo havia sido um acontecimento público que movimentou de tal maneira a comunidade local que era inconcebível que alguém estivesse por lá, ainda que de passagem, e não soubesse o que estava acontecendo.

Jesus não se dá por vencido, e lhes pergunta que coisas eram essas, incitando-os a “dissecar” a sua dor, o que eles fazem em seguida, relatando a injustiça cometida contra o Salvador desde o julgamento até a crucificação (vv. 19-20). Jesus estava lhes dando a oportunidade de desabafar e compartilhar a sua tristeza e incredulidade, e eles a aproveitam ao máximo, contando como esperavam que Ele fosse redimir Israel (de maneira política, armada talvez) e como as mulheres lhes haviam dito que o Cristo ressuscitara, mas ninguém o havia visto (vv. 21-24).

O Mestre, então, os chama de “néscios e tardos de coração para crer” em tudo o que já havia sido predito pelos profetas sobre o seu sofrimento (vv. 25-26), expondo-lhes detalhadamente todas as profecias que davam conta das coisas que aconteceram e eles tinham visto e ouvido (v. 27). É interessante o contraste que Lucas promove entre essa saída desconsolada de Jerusalém e o período anterior à subida animada a Jerusalém (Lucas 18:31-34), em que Jesus já alertava aos seus discípulos que ali se cumpriria tudo o que já havia sido predito sobre Ele pelos profetas.

Quando chegaram a Emaús, Jesus prosseguiu no seu caminho, como se fosse mais adiante (v. 28), mas os discípulos, talvez temerosos de perder uma companhia tão agradável e reconfortante, o convidaram para passar a noite com eles (v. 29), aproveitando o adiantado da hora.

Prepararam uma pequena ceia, e quando Jesus pegou o pão, o abençoou, partiu-o e repartiu-o com eles (v. 30), os seus olhos finalmente foram abertos e o reconheceram, mas o Mestre desapareceu diante dos mesmos olhos que até então não o haviam enxergado (v. 31). Só aí se deram conta de que o coração deles ardia enquanto ouviam a exposição das Escrituras pela boca do próprio Senhor (v. 32).

Não deixa de ser um relato que tem lições profundas para o nosso dia-a-dia, sobre a maneira como os olhos espirituais precisam estar abertos para atenderem e aprenderem sobre as verdades espirituais, e como o nosso coração se aquece quanto mais nos aproximamos de Deus. Maravilhados, os discípulos nem se preocuparam pelo fato de que já era tarde da noite e o caminho de volta era perigoso.

A mesma Providência Divina que os havia brindado com a companhia do Mestre até Emaús, haveria de protegê-los no caminho inverso. Trataram de voltar imediatamente para Jerusalém, onde estavam os onze apóstolos e outros discípulos (v. 33), que lhes contam que Jesus havia ressuscitado e já tinha aparecido a Pedro (v. 34).

Essa primeira aparição a Pedro é um fato que só Lucas registra entre os evangelistas, mas que será confirmado mais tarde por Paulo em sua 1ª Carta aos Coríntios (15:5). Os discípulos de Emaús contam então o que lhes havia acontecido (v. 35), e ainda estavam no meio do seu relato quando o próprio Cristo se materializa diante deles (v. 36), deixando-lhes assustados porque imaginavam que estavam vendo uma assombração (v. 37).

Não deixa de ser importante notar que, apesar de ser composto de carne e osso, o corpo ressurreto de Jesus tem propriedades que transcendem a compreensão humana. A incredulidade coletiva dos discípulos é, de certa forma, ironizada por Ele, que lhes pede que o toquem, mostrando-lhes as mãos e os pés com as chagas (vv. 38-40). Agora, era a alegria que os impedia de crer (v. 41), e Jesus lhes pede algo para comer, e lhe preparam um pedaço de peixe assado e um favo de mel (vv. 42-43).

De novo, Ele faz referência à importância das profecias e das Escrituras (v. 44), abrindo-lhes o entendimento para – finalmente – entendê-las (v. 45), explicando-lhes sobre a necessidade de seu padecimento e de sua ressurreição (v. 46) para que a salvação fosse pregada a todo o mundo, a começar por Jerusalém (v. 47), já que os discípulos eram testemunhas de todas essas coisas (v. 48), mas deviam ficar na cidade até serem revestidos do poder do Espírito Santo (v. 49).

Esse é um dado importante, pois ao lermos essa narrativa temos a tendência de criticar a ignorância espiritual dos discípulos, mas nos esquecemos facilmente de que eles não tinham ainda a sabedoria e o discernimento espiritual que hoje nos é dado pelo Espírito Santo quando nos convertemos (ou mesmo quando toca o pecador perdido com a graça regeneradora para que ele creia).

Isto não nos exime, entretanto, da simbologia à qual Lucas dá tanta atenção: a importância de se abrirem os olhos espirituais para ter um encontro verdadeiro com Deus através de Seu Filho Jesus Cristo. J. C. Ryle disse certa vez: “Agradeçamos a Deus pelo fato de poder haver graça verdadeira escondida debaixo de muita ignorância intelectual. Um conhecimento claro e acurado é algo muito útil, mas não é absolutamente necessário para a salvação, e pode até mesmo ser alcançado sem a graça”.

Nos versículos finais, que contam muito rapidamente a ascensão de Jesus (que será mais detalhada no primeiro capítulo de Atos, também escrito por Lucas), Jesus leva seus discípulos até Betânia (vv. 50-53).

Não está claro aqui a que lugar eles foram, exatamente, mas é de se supor que, antes de ascender aos céus, Jesus quis voltar ao lugar que lhe era mais familiar, onde se sentia melhor na sua jornada humana por este mundo: a casa de Maria, Marta e de Lázaro, seu amigo e companheiro de ressurreição, pessoas a quem Ele amava profundamente, a ponto de João (11:5) fazer questão de registrar.

Não havia outro lugar onde o Mestre se sentisse mais à vontade e onde pudesse, talvez, ressaltar a seus discípulos a importância do companheirismo e da amizade diante das enormes dificuldades que eles não sabiam ainda que teriam que enfrentar. Em Atos 1:3, Lucas escreverá que Jesus ficou com seus discípulos ainda por 40 dias, ensinando-os e preparando-os para a missão evangelística que os esperava, e como deviam esperar em Jerusalém até que fossem revestidos do poder do Espírito Santo (Atos 1:4).

Interessante como Lucas ressalta no v. 52 que os discípulos “o adoraram”. A palavra grega aqui é προσκυνέω - proskuneō - e significa literalmente “prostrar-se em adoração”. Agora eles reconheciam plenamente a divindade de Jesus, o que é uma dificuldade enorme para as seitas que a negam e têm que forçar uma tradução para “adorar” como sendo “prestar homenagem”, o que é algo que destoa completamente do contexto de todo o evangelho, como se os discípulos se sentissem agora na obrigação de “homenagear” alguém mediante um gesto (prostrar-se) típico (tanto à época como atualmente) de quem adora.

Só não explicam porque – em Apocalipse 5 - traduzem a mesma palavra por “prostrar-se” (v. 8) e “adorar” (v. 14). Só os hereges modernos têm essa dificuldade em reconhecer a divindade absoluta de Jesus, algo que os discípulos não tinham mais, como o evangelista faz questão de dizer. Deus havia aberto os seus olhos afinal. E é nesse espírito de verdadeira adoração que Lucas os coloca no templo no final de seu evangelho, felizes e esperando pelo cumprimento da promessa de Seu Senhor.



"A Ceia de Emaús", por Rembrandt
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"A Ceia de Emaús", por Caravaggio
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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 39

Lucas 23:27-56

Depois que Simão Cireneu é forçado a carregar a cruz destinada a Cristo no seu trajeto até o Calvário (v. 26), Lucas relata um episódio que só ele, entre os evangelistas, registra: uma conversa altamente emotiva entre Jesus e as mulheres de Jerusalém.

Lucas é o evangelista, digamos, mais “feminista”, no sentido de que dá vez e voz às mulheres de uma maneira muito mais perceptível do que se vê nos outros evangelhos. Aqui, ele fala do pranto das mulheres (v. 27) e da mensagem de Jesus a elas, num discurso relativamente longo (vv. 28-31), em que lhes recomenda – cifrada e profeticamente – que chorassem pela destruição de Jerusalém, com a subsequente dispersão do povo judeu, que se daria no ano 70, ou seja, menos de 40 anos depois.

 Claro que as mulheres não tinham noção de que isto iria acontecer, embora não seja de duvidar que a intuição feminina as fizesse pressentir que algo muito fora da ordem estabelecida estivesse para acontecer. Muito provavelmente, a expressão “lenho verde” do v. 31 equivalia a um provérbio popular da época, e Jesus compara a sua passagem por Israel com um lenho verde, em que tudo florescia e havia esperança de vida verdadeira, e mesmo assim o estavam crucificando.

Há um eco aqui do lamento “mas não quereis vir a mim para terdes vida!” de João 5:40. Logo, certamente não haveria mais “lenho verde” quando ele fosse rejeitado (pelo povo que o próprio Deus havia escolhido para Si) e os seus discípulos perseguidos, mas somente “lenho seco”, vida estéril que se consumiria completamente quando chegassem os dias da desolação de Israel com a ruína final de Jerusalém e seu templo.

Junto com Jesus, dois “malfeitores” são encaminhados à execução (vv. 32-33) no local chamado “Caveira” (ou “Calvário”, do grego κρανίον kranion). Mateus (27:38) e Marcos (15:27) os chamam de “salteadores”. Curioso o contraste que Lucas faz entre a rejeição do povo judeu e a companhia (forçada, no caso) de dois malfeitores que teriam o mesmo destino da execução, a que o evangelista passa rapidamente no v. 33, chamando a atenção para o fato de que Jesus ocupava o lugar central das três cruzes.

Cumprindo a profecia de Isaías 53:12, Jesus era “contado com os transgressores”. A partir daí, Lucas não se diferencia muito dos outros evangelistas, mostrando como Jesus pede ao Pai que perdoe seus executores porque “eles não sabem o que fazem” (v.34), enquanto os soldados repartiam as suas vestes, sorteando-as e cumprindo a profecia do Salmo 22:18.

O v. 35 muda um pouco o foco para a plateia que ali estava para acompanhar a crucificação e certificar-se de que o veredito de Pilatos seria cabalmente cumprido, enquanto as autoridades farisaicas zombavam dele, desafiando-o a salvar-se a si mesmo se era verdade que Ele era o Messias tão ansiado por Israel, o “escolhido de Deus”.

A humilhação pública devia ser tão contagiosa que os próprios soldados romanos se animaram a escarnecer do Mestre, oferecendo-lhe vinagre (v. 36) e repetindo o desafio dos fariseus (v. 37). Lucas registra no v. 38 que acima da cabeça de Jesus estava a inscrição “Este é o Rei dos Judeus” nos 3 alfabetos que eram de uso comum do povo que habitava e transitava pela região, o grego, o hebraico e o latim. Sobre as diferentes versões registradas pelos 4 evangelistas, na sua Bíblia de Estudo, John MacArthur dá a seguinte explicação:
“Os quatro autores dos Evangelhos mencionaram a inscrição, mas cada um registrou uma versão um pouco diferente. Tanto Lucas como João (19:20) relatam que a inscrição estava em grego, latim e hebraico, de modo que os diferentes relatos nos Evangelhos podem simplesmente refletir maneiras alternativas de se traduzir o que estava escrito na placa. É ainda mais provável que cada um dos evangelistas tenha simplesmente relatado a essência da inscrição de maneira elíptica, sendo que cada um omitiu diferentes partes da inscrição como um todo. Todos os quatro Evangelhos concordam com Marcos de que a inscrição dizia O REI DOS JUDEUS (Mt 27:37; Mc 15:26; Jo 19:19). Lucas acrescentou “ESTE É” no início e Mateus começou com “ESTE É JESUS”. A versão de João diz “JESUS NAZARENO”. Ao reunir todas as versões, a inscrição como um todo é “ESTE É JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS”.”
A partir do v. 39 até o v. 43, há um inusitado diálogo, se é que pode ser chamado assim, entre Jesus e os dois malfeitores que foram crucificados com Ele, um de cada lado. Há quem diga – embora não exista qualquer evidência conclusiva a esse respeito - que os dois outros não foram crucificados com pregos, mas amarrados cada um à sua cruz, de maneira que estariam em melhores condições físicas do que Jesus, até porque, muito provavelmente, não teriam sido tão torturados como o Mestre havia sido.

Isto lhes daria, então, melhores condições para tentar entravar um diálogo com Jesus. No v. 39, talvez inspirado pela zombaria dos fariseus e dos soldados, ou ainda na esperança de que Jesus tivesse mesmo algum poder sobrenatural que o livrasse da morte, um dos malfeitores provoca Jesus a mostrar que era de fato o Cristo e se salvasse a Si mesmo e – óbvia e convenientemente – aos seus dois companheiros de cruz.

Seu amigo, entretanto, não concorda com este tipo de provocação a um companheiro de crucificação (v. 40), com uma declaração que revela que ele teve uma visão muito mais completa do que realmente estava acontecendo naquele dia e lugar: “Nem ao menos temes a Deus, estando na mesma condenação?”.

É muito interessante que ele estivesse percebendo como a plateia estava se comportando de maneira ímpia ao zombar de alguém naquela condição, que ele reconhecia como diferente, talvez divina, o que fica claro no versículo seguinte (v. 41), quando admite que ambos mereciam a condenação, mas Jesus era um homem inocente, o que o leva a fazer ao Mestre, chamando-O pelo nome, um pedido inesperado: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (v. 42).

Aqui é necessário adiantar um aspecto que será indicado mais adiante, no v. 44. A melhor tradução para esse verbo “lembrar” (no grego, μνησθητι - mnaomai) não é o imperativo “lembra-te”, mas “comece a lembrar-se de mim” no sentido de “fazer desse pedido a Sua prioridade nº 1”, dada a urgência que a ocasião requeria. Esta circunstância vai influenciar o advérbio “hoje” do v. 44, como veremos mais à frente.

Este é um dos mais belos mistérios humanos do cenário da crucificação. Tudo indica que este homem foi o único, naquele momento decisivo da história da humanidade, a compreender com surpreendentes olhos espirituais o que – realmente – estava acontecendo com Jesus.

A reação dos apóstolos, de Maria e dos discípulos, indica que eles estavam, de alguma forma, desanimados e temerosos do que estava por vir. Seus olhos miravam apenas as evidências materiais do que lhes parecia uma tragédia que eram obrigados a assistir. A própria estupefação de todos eles, três dias depois, ao constatarem que Jesus ressuscitara, mostra o quão incrédulos eles estavam naquele momento terrível de suas vidas e como os seus olhos espirituais estavam fechados até então.

Um dos malfeitores, entretanto, não tinha esta visão, tanto que lhe faz um pedido que deve ter soado louco a quem o ouviu. Como assim seu companheiro de cruz ia entrar num reino e, ainda por cima, se lembraria dele?

Esta é uma das maiores provas de fé registradas na Bíblia, vindas de um homem sobre o qual pouco se sabe e menos ainda se esperaria que tivesse uma atitude como essa. É possível que ele já tivesse ouvido a pregação de Jesus, ou mesmo O seguido à distância.

O Mestre, então, honra essa maravilhosa prova de fé, e o presenteia com uma das mais belas frases proferidas por Sua abençoada (e abençoadora) boca: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Tanto o pedido do ladrão como a resposta de Jesus mostram que, de alguma forma, era firme em ambos a crença de que a vida não terminava ali, mesmo para os ímpios (já que o ladrão se via nessa condição e Jesus concordava – ainda que tacitamente - com a sua opinião) e que ainda naquele dia, o ladrão estaria com Jesus no paraíso.

Isto foi perfeitamente compreendido por toda a cristandade, seja ela católica, ortodoxa ou protestante, durante quase dois milênios, até que – no século XIX, dois grupos dissidentes em especial, os adventistas e as testemunhas de Jeová, passaram a ter uma interpretação diferente, para adaptá-la ao seu sistema de crenças.

O que eles basicamente questionam é a tradução do v. 43, em que haveria uma pontuação inexistente tanto no texto original como nas traduções mais aceitas, uma vírgula (ou dois pontos) que modificaria completamente o entendimento do seu significado: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso”.

Perceba que o advérbio de tempo “hoje”, nessa versão extemporânea, modificaria o verbo “dizer” e não o “estarás”, o que deixaria essa entrada no paraíso para um futuro indeterminado, um “quem sabe um dia...talvez”. Esta tradução alternativa se justifica, para esses grupos, por uma razão muito mais ideológica do que teológica.

Na sua visão de mundo, o tempo cronológico é essencial para justificar as suas marcações de datas para a volta de Jesus, ou o início do juízo investigativo, ou o fim do mundo propriamente dito. Necessitam, portanto, contar o tempo para Deus da mesma maneira como o contam para o ser humano, com início, meio e fim, ainda que a eternidade e a perfeição sejam valores inalcançáveis para o nosso entendimento presente.

O tempo de Deus tem que caber no nosso calendário gregoriano, o que até favoreceria a interpretação mais aceita, se a isso não se somasse a sua pregação do aniquilacionismo, ou seja, que as almas dos ímpios são extintas, aniquiladas (em contraposição à doutrina da imortalidade da alma), que não há nenhum estado intermediário após a morte e que o inferno não existe.

Esperam uma espécie de paraíso físico, real, no qual o corpo material, de alguma forma, será aproveitado, daí também as suas restrições alimentares. Essa polêmica só faz sentido para quem tem que defender outras doutrinas que julga muito mais importantes para a sua própria constituição e sobrevivência como grupo dissidente da ortodoxia cristã.

A objeção costumeira que fazem à interpretação ortodoxa do v. 43 é que, em João 20:17, depois da ressurreição, Jesus diz que não havia subido ainda ao Pai. É difícil ver algum problema aí, a não ser para criar polêmicas desnecessárias que sirvam à afirmação de alguma doutrina extravagante, porque a ênfase em João 20:17 é no corpo humano de Jesus (“não me detenhas, Maria!”) e na sua ascensão física aos céus, o que ocorreria 40 dias depois.

Tudo isso, ainda que resumido de maneira insuficiente aqui (reconhecemos), os leva a não aceitar a tradução tradicional de Lucas 23:43, que nos parece que não só é a mais correta, como a única compatível não só com o contexto imediato de Lucas 23, mas também com toda a pregação neotestamentária.

Como este não é o espaço e o momento para nos estendermos sobre esse assunto, que realmente demanda uma análise interessante e bastante detalhada, quem quiser se aprofundar em todos os detalhes técnicos da tradução do grego e da discussão acadêmica que a envolve, recomendamos enfaticamente que visite o artigo abaixo:


Especificamente sobre a imortalidade da alma, recomendamos os seguintes artigos:




Apenas para registrar, as testemunhas de Jeová também levantam uma polêmica tola quanto à forma de execução de Jesus, que - segundo eles - teria sido consumada numa estaca e não numa cruz, cuja "justificativa" talvez seja a sua necessidade mórbida, típica de seitas, de se sentirem diferentes e portadores de uma informação única e exclusiva (nada mais gnóstico!), cuja refutação também pode ser lida no link abaixo:

Com quantos paus se faz uma stauros?

A partir do v. 44 começa a ser pintado, com grandes trevas (cumprindo a profecia de Amós 8:9), o quadro dos últimos suspiros de Jesus. O véu do santuário, o Santo dos Santos, que até então era visitado única e exclusivamente pelo Sumo Sacerdote uma vez por ano para fazer expiação pelo povo de Israel (Hebreus 9:3-8), passaria a ter o caminho aberto por Jesus (Hebreus 10:19-22), franqueado a todos os que cressem no seu sacrifício pelo seu próprio sangue derramado na cruz.

Este véu, naquele momento, é rasgado (v. 45), enquanto Jesus entrega o Seu espírito e morre como homem (v. 46). A cena deve ter sido de tal forma tocante e simbólica que o centurião que estava aos pés da cruz reconhece que havia algo de especial naquele homem que acabara se expirar (v. 47).

O contraste gritante apontado por Lucas é que ele não era judeu, mas romano, e mesmo assim glorificava a Deus porque, muito provavelmente, agora entendia o que de fato acontecera naquele local, um “espetáculo”, nas próprias palavras do evangelista, o que fez a multidão sair dali “batendo no peito” (v. 48), o que mostrava um sinal de arrependimento tardio (provavelmente, mais remorso do que arrependimento) pelo que haviam consentido que se fizesse contra um inocente.

 Os discípulos de Jesus estavam vendo tudo isso de longe (v. 49) e coube a José de Arimateia, membro do Sinédrio que não concordara com a execução de Jesus, ir até Pilatos para pedir o corpo de Jesus (vv. 50-52) a fim de lhe providenciar o devido sepultamento (vv. 53-56), dando destaque ao sepulcro escavado na rocha, pertencente ao rico José e cumprindo a profecia de Isaías 53:9, o qual ninguém havia utilizado ainda (v. 53), o que afastaria a suspeita, quando da ressurreição, de que era outro cadáver que estava na tumba.

Apesar das mulheres terem visto onde o corpo de Jesus fora depositado, e terem se preocupado em preparar os perfumes e especiarias para tratá-lo devidamente, já escurecia a sexta-feira da Paixão, e o sábado sagrado começava, não havendo mais tempo para os seus cuidados. Elas voltariam apenas no domingo, quando teriam uma grata surpresa. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 38

Até agosto de 2008, publicamos aqui no blog uma série de estudos sobre o evangelho de Lucas, e por uma série de razões que não vêm ao caso agora delinear, paramos no capítulo 22, e deixamos os dois últimos capítulos, 23 e 24, para depois. Só que este "depois" se prolongou demais no tempo e, alertados e gentilmente intimados pelo irmão Robson, do blog Doutores de Almas, voltamos a compartilhar as nossas impressões sobre o final do evangelho de Lucas, que, para que a leitura não fique muito extensa, dividiremos em quantas partes forem necessárias para tratar essa riqueza de detalhes com a profundidade que lhe for pertinente.

CAPÍTULO 23:1-26

O capítulo 23 do evangelho de Lucas começa com as intrigas políticas da Jerusalém da época. Hoje é difícil imaginar isso, mas a Judeia era um território ocupado que tinha pouca importância ao Império Romano. Era visto muito mais como um fardo a ser suportado no complicado jogo geopolítico e militar do primeiro século. Para os fariseus, entretanto, Jerusalém era todo o seu mundo, o seu microcosmos, sobretudo diante da impossibilidade de voltarem ao esplendor dos reis do passado, em especial Davi e Salomão. Havia um rei do povo judeu, Herodes, um fantoche tolerado pelo Império, que servia de joguete aos interesses superiores, além de um governador designado pelo imperador, Pilatos, que tinha a palavra final sobre o povo judeu, a não ser que se tratasse de um cidadão romano, como no caso de Paulo, que apelou a esta condição (que ele detinha) para se defender das muitas perseguições e – afinal - ser julgado em Roma (Atos 16:37; 22:25; 25:11 e 26:32).

O temor do Sinédrio era, portanto, que Jesus colocasse em risco o seu pequeno mundinho de vãs honrarias e lautos banquetes, e eles sabiam que não conseguiriam que Pilatos o condenasse à morte com base apenas naquilo que entendiam como blasfêmia contra sua religião. Por isso reúnem um número grande de fariseus (v. 1) para ir à presença do governador romano, com o objetivo claro de impressioná-lo quantitativamente. Afinal, ali estava a nata da elite religiosa e social do território ocupado. Ainda que o v. 1 se refira a “toda a multidão” (ARC) ou “toda a assembleia” (ARA), é muito provável que dela não participasse José de Arimateia, ou ainda – improvável, mas não descartável - que ele tivesse ido à presença de Pilatos na esperança de contra-argumentar a favor de Jesus, tanto que posteriormente (vv. 50 a 52) vai pessoalmente à presença do governador para pedir o corpo de Jesus. Como, no plano do Sinédrio, eles sabiam que era quase impossível que Jesus fosse condenado à morte por blasfêmia - uma tecnicalidade religiosa que eles próprios sabiam que Jesus não havia cometido -, formularam a acusação a Jesus com base em 3 crimes que ele teria cometido (v. 2), o que era uma gritante mentira, já que o Mestre havia tomado atitude contrária àquela de que era acusado:

1) “perverter a nação contra César” – Jesus não buscou a confrontação direta com o poder político (Mateus 12:19)
2) “proibir dar o tributo a César” – Jesus ensinou a “dar a César o que é de César” (Lucas 20:25)
3) “dizendo-se o Cristo, e o rei” no lugar de César – Jesus não negou que havia nascido para ser o rei dos judeus, mas deixou claro que seu reino não era deste mundo (João 18:36) e que ainda não havia chegado a hora de implantá-lo na Terra (João 6:15; Lucas 19:11-27; Atos 1:6,7)

A única acusação que Pilatos dá algum tipo de importância era se, de fato, Jesus dissera ser o rei dos judeus (v. 3), mas diante da resposta enviesada do Mestre (“Tu o dizes”), trata-se de desvencilhar rapidamente do problema, dizendo que não via nenhuma culpa naquele homem (v.4), atitude que não serviu para acalmar os ânimos dos fariseus presentes, que seguiram acusando-o de insuflar uma rebelião do povo desde a Galileia e por toda a Judeia (v. 5). A palavra Galileia soou como música aos ouvidos do acomodado Pilatos, que, certificando-se de que Jesus era, de fato, galileu (v. 6), vê nesta condição uma chance de ouro de não entrar em encrenca alheia e se livrar do problema, já que Herodes Antipas, o responsável por aquela região, se encontrava em Jerusalém naquele exato dia para as festividades da Páscoa (v. 7), e a lei romana preceituava que o criminoso fosse julgado no local onde havia cometido a suposta infração. É interessante observar como a narrativa de Lucas passa a ter um ritmo frenético, com tudo acontecendo muito rapidamente, e no versículo seguinte (v. 8), Jesus já está na presença de Herodes, que se alegra muito ao vê-lo, provavelmente movido pela curiosidade sobre aquela pessoa de quem certamente havia ouvido falar, já que a fama do Mestre se espalhara por todo o seu território. Herodes, aparentemente, queria checar se Jesus era realmente uma ameaça ao seu poder político, pelo que O interrogou com muitas perguntas, não obtendo resposta alguma (v. 9), mesmo diante da incitação explícita dos seus acusadores (v. 10). Aliás, Herodes foi a única pessoa a quem Jesus se recusou a dizer qualquer palavra, o que deve ter incomodado muito o rei, que não só o desprezou como escarneceu dele, vestindo-o com uma “roupa resplandecente” (v. 11), provavelmente uma roupa velha sua que estava destinada a ser descartada. O silêncio de Deus é uma arma poderosíssima e deve tê-lo desconcertado por completo. Foi com esta vestimenta que Herodes devolveu Jesus a Pilatos, e naquele dia ambos reataram não exatamente a “amizade”, mas uma relação minimamente amistosa que superou os problemas pessoais que haviam tido a princípio (v. 12). O processo contra Jesus serviu de quebra-gelo entre os dois governantes políticos da Judeia, um pelo Império invasor, e outro representando a nação judaica, tudo isso motivado pelo poder religioso, o Sinédrio.

Os eventos daquele dia continuaram se atropelando e não restou a Pilatos outra alternativa senão reunir os sacerdotes e o povo (v. 13) que, àquela altura, certamente havia sido acrescido de muitas pessoas que passavam por Jerusalém e, por mera curiosidade talvez, queriam saber aonde ia terminar aquele processo. Mal sabiam eles que, naquele canto perdido do Império Romano, testemunhariam o maior acontecimento da história da humanidade. Pilatos já antecipa o seu veredito (v. 14), dizendo que não havia encontrado nenhuma culpa em Jesus (o que é um testemunho jurídico de sua impecabilidade). Como reforço à sua opinião, cita ainda o próprio Herodes, que também não havia encontrado nada contra o acusado (v. 15), pelo que decide castigá-lo (o que é estranho, já que não o havia considerado culpado de nada, talvez só para agradar a multidão com gotas de sangue do Cordeiro) e soltá-lo (v. 16), aproveitando-se ainda do costume de soltar um preso na Páscoa (v. 17) para agradar os judeus. Claramente, Pilatos estava se cercando de todas as garantias (para si mesmo) de que não condenaria um inocente, mas foi pego de surpresa pela reação da plateia que, muito provavelmente já preparada de antemão, pediu-lhe que soltasse Barrabás (v. 18). Seu plano foi por água abaixo. O relato de Mateus é mais completo a respeito deste episódio (Mateus 27:16-26). Tudo indica que seja de Marcos, o primeiro evangelho a ser escrito, que vem a Lucas (23:19) a informação de que Barrabás estava preso porque havia participado de um motim (algum tipo de rebelião civil), no qual cometeu um homicídio (Marcos 15:7). João é mais econômico ao descrever Barrabás, dizendo que ele era um “salteador” (João 18:40), mas é provável que ele já fosse uma pessoa conhecida por sua militância política no pequeno contingente populacional de Jerusalém, daí não se poder descartar a possibilidade de que muitos dos que agora clamavam por ele de fato o conheciam e viram naquele imbróglio uma oportunidade de salvá-lo em detrimento de um inocente que se apresentava como profeta e não havia feito mal a ninguém. Pilatos se mantém reticente quanto à escolha do povo, e ainda tenta argumentar reiteradamente (vv. 20-23) visando salvar alguém que – a seus olhos – era inocente, mas diante do tumulto e – provavelmente – da ameaça de rebelião num momento em que a cidade estava cheia de peregrinos, se inclina pelo caminho mais fácil e rápido e “decidiu atender-lhes o pedido” (v. 24) levando-o, visivelmente a contragosto, a soltar Barrabás e entregar Jesus ao sacrifício (v. 25). As traduções protestantes perdem um detalhe interessante do v. 24 ao traduzi-lo como "DECIDIR atender-lhes o pedido". Na verdade, existe aqui um termo jurídico grego, ἐπικρίνω (epikrinō), utilizado somente uma vez em todo o Novo Testamento, e que significa a sentença definitiva do processo (ou da "farsa judicial") que condenou Jesus à morte. As traduções católicas são mais felizes nesse particular, ao frisarem esse verbo: a Bíblia do Peregrino diz que "Pilatos DECRETOU que se fizesse o que pediam" e a Bíblia de Jerusalém conta que "Pilatos SENTENCIOU que se atendesse ao pedido deles". Termina ali o grotesco espetáculo de Pilatos na sentença condenatória de Jesus, mas ele voltaria mais tarde ao liberar o corpo de Cristo para que José de Arimateia o sepultasse (v. 52).

Começa então o cortejo da crucificação de Jesus, e Lucas segue narrando tudo de forma muito rápida e concisa, pelo que já coloca a cruz nas costas de Simão, o cireneu, no versículo seguinte (26). Jesus havia sido tão surrado e os acontecimentos haviam sido tão extenuantes que não mais lhe restavam forças físicas para prosseguir. Isto devia ser óbvio para os seus executores e revela, por outro lado, a sua mais completa humanidade. Tudo indica que este homem de nome Simão era proveniente de Cirene, cidade próspera de origem grega que ficava no Norte da África, e que hoje está em ruínas no território da Líbia. A exemplo de tantos outros peregrinos de lugares tão distantes, ele provavelmente estava em Jerusalém para as festividades da Páscoa judaica. Devia ser também um homem de compleição física forte, já que foi forçado a carregar a cruz para Jesus, o que talvez revele também que os soldados reconheceram nele –pela vestimenta ou pela cor da pele, por exemplo - um estrangeiro, com quem se sentiam mais à vontade para submeter a essa tarefa obrigatória. Simão terminou participando “por acaso” do maior drama da humanidade. A tradição cristã supõe que, posteriormente, ele tenha se tornado cristão, a partir da inferência do texto de Marcos 15:21, em que o outro evangelista o identifica como “pai de Alexandre e de Rufo”. Não há nenhuma certeza de que esse Alexandre seja o mesmo de Atos 19:33 ou Rufo seja aquele a quem Paulo manda uma saudação especial no final de Romanos (16:13). Existe também uma suspeita remotíssima de que o “Simeão de sobrenome Níger” (“Simeão, o Negro”) a que se refere Lucas em Atos 13:1 seja o mesmo Simão Cireneu, mas se ambos fossem a mesma pessoa o fato teria sido obviamente registrado pelo detalhista Lucas que escreveu tanto o evangelho como o livro de Atos.



sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O evangelho de Lucas - parte 37

Lucas começa o capítulo 22 situando no tempo os momentos finais da missão de Jesus neste mundo. Era a festa da Páscoa (v. 1), e os principais sacerdotes e os escribas conspiravam para matar Jesus (v. 2). Aqui Lucas propõe um contraste imediato e marcante entre a Páscoa judaica, tal como recebida da tradição veterotestamentária (Êxodo 12), em que a primeira Páscoa havia acontecido na noite da morte dos primogênitos do Egito, a décima e última praga do Senhor sobre os opressores de Israel, em que um cordeiro puro era sacrificado para proteger os judeus. Agora, eram os seus principais sacerdotes que preparariam outro cordeiro, o Cordeiro de Deus, para o sacrifício, como bem lembra Paulo em 1ª Coríntios 5:7 ("Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós"). Para tanto, contam com a influência de Satanás em um dos discípulos mais próximos de Jesus, Judas (v. 3), que foi em busca dos conspiradores (v. 4), vender a sua lealdade a Cristo (v. 5). É certo que Judas tinha entendido mal as palavras de Jesus. Talvez realmente visse nEle alguém enviado da parte de Deus, afinal havia sido testemunha de muitos de seus sinais e prodígios. Talvez, imbuído de alguma espécie de messianismo político, quisesse apressar uma revolução libertadora do jugo romano mediante a entrega de Jesus aos religiosos (v. 6). Imaginava, muito provavelmente, que Jesus usaria todo aquele seu poder magnífico para vencer os opressores tanto romanos como judeus. Entretanto, destoa o fato de ter aceito dinheiro para "vender" o Mestre. Que isto cumpre a profecia de Zacarias 11:12, não há dúvida, e reforça também o que diz Jesus em João 17:12, "Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse". É triste o destino de Judas, portanto. Ele se enganou sobre o tipo de liberdade que Jesus pregava e representava.

Chega, então, o dia da Festa dos Pães Asmos, a Páscoa (v. 7). Jesus incumbe João e Pedro de prepará-la para o seu grupo de discípulos (v. 8). Eles lhe perguntam onde se reuniriam (v. 9), ao que Jesus responde que encontrariam um homem com um cântaro de água na entrada da cidade, e deviam segui-lo até a casa onde ele entrasse (v. 10), e então diriam ao dono da casa uma espécie de senha (v. 11), e ele lhes mostraria um cenáculo espaçoso e mobiliado, onde deviam fazer os preparativos (v. 12). Os dois discípulos se puseram a caminho, e tudo aconteceu conforme o Mestre lhes havia predito (v. 13). Aqui percebemos que, a exemplo do que ocorreu na entrada triunfal em Jerusalém (Lucas 19:28-34), Jesus se precavera com uma rede de discípulos que utilizava sinais e códigos secretos naqueles momentos difíceis de perseguição. A igreja nascente voltaria a usar esses códigos secretos pouco tempo depois, como o símbolo do peixe para identificar os cristãos, mas é interessante ter uma idéia de como a situação de Jesus e seus discípulos se complicava à medida em que os eventos finais se aproximavam. Eles se reúnem, então, para festejar a Páscoa (v. 14), e Jesus se diz ansioso por compartilhar aquele momento e lhes prediz, de novo, o seu sofrimento (v. 15). É surpreendente que o próprio Deus-Homem reconheça a sua ansiedade para que aquele dia chegasse, mas isto também nos revela a sua plena humanidade. Era a última vez que dividiria uma refeição com seus amigos neste mundo (v. 16), e tomou um cálice, repartiu o vinho entre seus discípulos (v. 17), pois só beberia vinho novamente na sua segunda vinda (v. 18). Em seguida, parte e reparte o pão, simbolizando o seu corpo que seria oferecido por nós, e pede que eles repetissem isto posteriormente, em memória dEle (v. 19). Da mesma maneira, relaciona o vinho ao sangue que derramaria em favor de nós (v. 20), mas ainda diz que o traidor estava à mesa com Ele (v. 21), alertando sobre o seu triste destino (v. 22), o que provoca uma dúvida cruel nos seus discípulos, que se indagavam a qual deles o Mestre se referia (v. 23).

Parece totalmente fora de propósito o que vem a seguir, mas da afirmação feita pelo próprio Jesus, de que havia um traidor naquele recinto, isto numa época de enorme perigo, eles passam a discutir qual deles parecia ser o maior (v. 24). Jesus chama a atenção deles para a futilidade do debate (v. 25), dizendo-lhes que agora a lógica era outra: o maior devia ser como o menor, e aquele que dirige como o que serve (v. 26). Mostra-lhes, ainda, que Ele próprio estava servindo-lhes (v. 27) e reconhece que eles tinham permanecido com Ele durante suas tentações (v. 28). Por isso, o Reino que o Pai lhe confiara Ele agora confia aos discípulos (v. 29), que, juntamente com Jesus, julgarão as dozes tribos de Israel no dia final (v. 30). A conversa toma outro rumo, ainda, quando Jesus adverte Pedro de que Satanás havia pedido para cirandá-lo como trigo, ou seja, peneirá-lo (v. 32), mas o Mestre havia rogado por ele para que a sua fé não desfalecesse (v. 33). Esta situação lembra a do primeiro capítulo de Jó, em que Satanás requer a Deus que possa afligir a seu servo, tirando-lhe absolutamente tudo o que tinha, inclusive os filhos, mas com exceção da vida, para ver se sua fé era preservada. Pedro estava diante daquele que era o Todo, o Deus absoluto, cuja presença física lhe seria tirada dentro em breve. Mesmo assim, Pedro se arvora com condições de enfrentar o desafio (v. 33), no que é advertido mais uma vez por Jesus, de que 3 vezes o negaria antes que o galo cantasse na manhã seguinte (v. 34). Em, seguida, Jesus lhes diz que o tempo em que saíam pelos campos, totalmente desprovidos de qualquer conforto ou segurança, haviam terminado (v. 35). Agora, precisavam de alforjes, sandálias e espadas (v. 36), já que a profecia de que seria contado entre os malfeitores (Isaías 53:12) também seria cumprida (v. 37). Os discípulos arranjaram rapidamente duas espadas (v. 38).

Vem, então, o momento da prisão de Jesus. Diz Lucas que, "como de costume", ele foi para o Monte das Oliveiras (v. 39). Chegando lá, pediu aos seus discípulos que orassem para evitar entrar em tentação (v. 40). Recolheu-se um pouco mais adiante para ajoelhar-se e orar (v. 41), dizendo a frase que ficou célebre: "Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua" (v. 42). O cálice lembra o sofrimento, a desolação, a ira de Deus contra o pecado do homem (Isaías 51:17, Ezequiel 23:33). Jesus o conhece, e sabe o que lhe está reservado, mas se submete à vontade de Deus Pai. Aqui a natureza humana de Jesus se revela. Como homem, sem pecado, sentiria na própria carne, a ira de Deus contra o pecador. Alguns dizem que os vv. 43 e 44 não constavam do texto original e foram interpolados posteriormente. Neles, um anjo aparece para confortar Jesus, e este entra numa agonia tão profunda que chega a suar sangue. Este fenômeno raríssimo, chamado tecnicamente de hematidrose, pode acontecer em situações de extremo stress. A literatura médica registra muito poucos casos, geralmente associados aos estigmas, que sempre têm um fundo religioso. Há um artigo recente no The American Journal of Dermatopathology, cujo abstrato pode ser acessado aqui.

O fato de Lucas tê-lo registrado advoga em favor da canonicidade desses dois versículos. Afinal, ele era médico e sempre teve um, digamos, olho clínico para situações como essa. O abatimento era geral, tanto de Jesus como de seus discípulos, que provavelmente estavam muito assustados. Ao retornar da oração, o Mestre achou-os "dormindo de tristeza" (v. 45), e chamou-lhes a atenção, dizendo que não era hora de dormir, mas de levantar e orar para não cair em tentação (v. 46). Mal acabou de falar, uma multidão (composta de sacerdotes, capitães do templo e anciãos, cfe. v. 52) se aproximou com Judas à frente, que o beijou (v. 47). Jesus ainda acentua a traição com um beijo (v. 48), enquanto os discípulos se preocupam com a espada (v. 49), tendo um deles (Pedro, segundo João 18:10) cortado a orelha do servo do sumo sacerdote (v. 50). Jesus intervém, acalmando os ânimos e curando a orelha do ferido (v. 51), mas aproveita para censurar seus perseguidores, por trazerem um aparato daqueles para prendê-lo (v. 52), quando poderiam tê-lo feito no templo. Prender alguém de noite, culturalmente falando, revela covardia, tocaia, alguém que age na base da traição. Os artigos 245 e 293 do Código de Processo Penal brasileiro, por exemplo, limitam as prisões noturnas. A noite é o domínio das trevas, "a vossa hora", como Jesus disse aos seus acusadores (v. 53).

Jesus é levado, então, para a casa do sumo sacerdote, com Pedro seguindo-o de longe (v. 54). Começa, então, a sucessão de negações que este vai enfrentar. Primeiro, uma criada o reconhece (v. 56), depois outro (v. 58) e mais outro (v. 60). Não só as feições, mas o sotaque carregado de "caipira" galileu o denunciava (v. 59). Três vezes Pedro nega a Jesus, e finalmente o galo canta (v. 60). Foi nesta hora que Jesus, o Senhor (como Lucas faz questão de afirmar, usando a palavra grega κύριος - kurios ) se vira para mirar nos olhos de Pedro. Até então, Lucas fizera um uso cuidadoso desta palavra, κύριος - kurios , mas desde o capítulo 20, verso 42, quando Jesus cita o Salmo 110:1 ("Disse o Senhor ao meu Senhor"), ele faz questão de associar este termo Senhor, divinamente revelado e confirmado, ao próprio Jesus. Dentro de todo o contexto do capítulo 22, onde as naturezas humana e divina de Cristo aparentam estar em conflito, o evangelista vai pouco a pouco realçando uma e outra, para mostrar tanto a complexidade como a maravilha da Trindade e da Encarnação. Pedro se lembra, então, do aviso que recebera do próprio Mestre no cenáculo, e se retira chorando amargamente (v. 62).

Os guardas passam a zombar de Jesus, espancando-o (v. 63), e escarnecendo dos seus poderes divinos (v. 64), blasfemando (v. 65). Como Isaías profetizara 700 anos antes (53:7), "ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca". Só de manhã bem cedo é que Jesus é levado ao Sinédrio (v. 66), onde procuram fazê-lo dizer que era o Cristo (v. 67), mas Jesus se esquiva (v. 68), mas, reforçando esta idéia que Lucas vem dando no contexto, sobre a profundidade da Trindade e da Encarnação, diz em seguida que a partir daquele momento o Filho do Homem estaria sentado à direito de Deus Todo-Poderoso (v. 69). Todos os sacerdotes, que obviamente já haviam ouvido a sua pregação antes, perguntam se Jesus era o Filho de Deus, ao que ele responde: "Vós dizeis que eu sou" (v. 70). Eles não perceberam isso na hora, mas não estavam dizendo apenas com a boca, mas com o triste papel que desempenhavam no martírio e no sacrifício de Cristo. Entendem que esta declaração é suficiente para incriminá-lo, eles preparam a entrega do Mestre a Pilatos, o que se dá no início do capítulo 23.

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