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terça-feira, 16 de maio de 2017

Universidade Presbiteriana Mackenzie abre centro criacionista


A informação é da revista Exame da Abril:

Mackenzie abre núcleo de estudos que contesta teoria da evolução

O Núcleo Discovery-Mackenzie tem como objetivo promover os estudos de fé, ciência e sociedade

Marina Demartini

São Paulo – A Universidade Presbiteriana Mackenzie abriu um novo espaço para que professores e alunos discutam a origem da vida e questionem uma das principais teorias da biologia: o evolucionismo. O chamado Núcleo Discovery-Mackenzie é uma parceria entre a instituição brasileira e o Discovery Institute, um instituto americano que promove o estudo da Teoria do Design Inteligente (TDI).

Para os estudiosos do TDI, certas características do universo e dos seres vivos são tão complexas que só podem ser explicadas por uma causa inteligente. Assim, células e moléculas precisaram passar pela intervenção de algum tipo de inteligência para existir “e não por um processo não direcionado, como a seleção natural”, como aponta o site oficial do Discovery Institute.

A seleção natural é um dos mecanismos básicos da teoria da evolução proposta por Charles Darwin em seu livro A Origem das Espécies, de 1859. Segundo ela, indivíduos melhores adaptados à determinada condição ecológica têm mais chance de sobreviver e deixar descendentes.

Até hoje, a teoria da evolução é uma das mais aceitas entre os membros da comunidade científica para explicar a origem da vida e a evolução humana. Além disso, ela é amplamente ensinada em escolas de diversas partes do mundo.

O Discovery Institute, aliás, já tentou colocar o TDI dentro da grade de escolas públicas dos EUA. Um dos casos mais conhecidos é o de Kitzmiller contra o Distrito Escolar da área de Dover, na Pensilvânia, em 2005. Na época, o distrito mudou seu currículo de ensino da matéria de biologia para exigir que o TDI fosse apresentado como alternativa ao evolucionismo.

Onze pais de alunos da região processaram o distrito sob a alegação de que o design inteligente não passava de um tipo de criacionismo (crença religiosa de que os seres vivos foram criados por um ser superior).

O juiz John E. Jones III chegou ao veredito de que o ensino do design inteligente viola a Cláusula de Estabelecimento da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Segundo ele, o TDI não é ciência e “não pode desacoplar-se do seu criacionista, portanto religioso, antecedente”.

O teólogo e pastor presbiteriano Davi Charles Gomes, chanceler da universidade, ressalta em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o Núcleo Discovery-Mackenzie não é um espaço de TDI, mas de estudos de fé, ciência e sociedade. “Nossa instituição é confessional, o que significa que ela tem uma visão segundo a qual o mundo tem um significado transcendente. E não existe ciência que, no fundo, não reflita também sobre coisas transcendentes.”

Quem faz afirmação parecida é Marcos Eberlin, presidente executivo da Sociedade Brasileira do Design Inteligente e futuro coordenador do núcleo da Mackenzie. “Tem gente que acha que o design vem dos ETs, outros falam de um Grande Arquiteto do Universo, como os maçons, ou um espírito evoluído, como os espíritas”, disse em entrevista à Folha.

Já Maria Cátira Bortolini, geneticista da UFRGS, disse ao jornal que a teoria descarta evidências, fatos e provas científicas. “O que importa é a narrativa, construída de forma que se coadune com a ideologia ou a crença do sujeito.”



terça-feira, 9 de maio de 2017

Templos compartilhados: uma ideia canadense


Sim, irmãos e amigos, eu sei que existem igrejas bastante grandes que apresentam cultos em distintos horários para comunidades específicas que existem no seu seio, como acontece com hispânicos em algumas igrejas de São Paulo, por exemplo.

O que eu nunca tinha visto até dois anos atrás era um templo dividido por duas denominações.

Em abril de 2015 eu passava pela Rodovia Trans-Canadá, a Highway 1, por uma pequena cidade chamada Salmon Arm, na província da Colúmbia Britânica, quando me deparei com uma cena no mínimo curiosa: um templo com duas denominações: uma presbiteriana e outra batista.


O templo compartilhado por batistas e presbiterianos, visto a partir da Trans-Canadá (Hwy 1)

Como não havia tempo para parar e investigar mais a fundo, apenas registrei mentalmente o fato e o local, e isso ficou me "encucando" por dois anos e agora resolvi localizar no Google Earth onde estava este templo.

Aparentemente, são duas pequenas comunidades religiosas, já que há poucos registros de suas atividades na internet.

Um pequeno mapa com a localização do templo em Salmon Arm, BC

Uma igreja é a St. Andrew's Presbyterian Church e a outra é a Mountain View Baptist Church.

Os batistas são madrugadores, têm seu culto às 9 da manhã no domingo. Já os presbiterianos começam seus serviços às 10:45 h., conforme mostra a foto da placa na entrada lateral do terreno:




Essa mesma foto, que tem baixa resolução, permite ver que há uma indicação de telefone para aluguel do templo, que é o mesmo número de telefone da igreja presbiteriana.

Provavelmente, numa cidade com uma pequena população, como é comum no interior da British Columbia, qualquer fonte de renda é muito bem vinda, não é mesmo?


A parte de trás do templo, com a Trans-Canadá passando lá no fundo da foto.

Perdão, amigos canadenses, demorou dois anos para eu reportar essa curiosidade de um brasileiro que passou rapidamente por Salmon Arm (BC) a caminho de Calgary (Alberta), mas fica registrada a sua criatividade e boa convivência com diferentes denominações.

Salmon Arm, BC em destaque entre Vancouver, BC e Calgary, AB, com destaque também para Kamloops, ali perto.

Algo tipicamente canadense, por sinal. Um lindo país onde as pessoas não têm problemas em conviver com gente das mais variadas procedências.

Será que este exemplo "pegaria" no Brasil?

Você conhece algo parecido por aqui? Se sim, por favor compartilhe conosco nos comentários abaixo.

Um templo simples e funcional acolhe as duas comunidades.



segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O pastor presbiteriano paquistanês que se refugiou no Brasil

A dura vida dos cristãos no Paquistão

Uma história de perseguição que está bem próxima de nós, segundo noticia a BBC Brasil:

'A perseguição destrói tudo dentro de você', diz cristão paquistanês refugiado no Brasil

Cláudio Goldberg Rabin

Três anos atrás, S. Masih vivia em uma cidade no Estado de Punjab, no sudeste do Paquistão, onde era o principal pastor de uma igreja presbiteriana com 3 mil membros. Vestia-se bem, tinha 10 auxiliares e morava com os três filhos pequenos e a mulher.

Hoje, ele é pastor assistente em uma igreja na Penha, bairro da zona leste de São Paulo. Chegou ao Brasil sem a família, com visto de turismo, mas recebeu o status de refugiado — fugiu da perseguição religiosa em seu país, onde os cristãos representam 2,59% da população.

Nos últimos anos, a comunidade cristã paquistanesa foi alvo de diversos atentados terroristas. O maior deles, na Páscoa de 2015, deixou 17 mortos e dezenas de feridos. Dois anos antes, um atentado a uma igreja matou 80 pessoas.

No momento, o pastor aguarda por uma autorização para sair do país pela primeira vez desde que chegou. Quer voltar ao Paquistão para resgatar sua família e rever a mãe, que está doente. Para toda a operação, calcula que precisará de R$ 35 mil, quantia que ainda não conseguiu arrecadar.

Masih, 41 anos, pediu que não fosse identificado por medo de represálias a sua família. Contudo, revelar seu último nome não é um problema: no Paquistão a maior parte dos cristãos tem o mesmo sobrenome, que é conferido pelo Estado.

"Não escolhi o Brasil. Eu não conhecia nada daqui. Tinha pedido visto para a Tailândia, porque era mais perto e mais fácil, mas minha avó morreu na época e o visto venceu. Mas eu precisava sair", disse o refugiado que já fala português, entrevistado pela BBC Brasil em uma tarde de agosto.

Perseguição

Os problemas do pastor começaram em 2009, quando recebeu em seu escritório na igreja um homem que o convidou a se converter ao islã. Ele negou. "Fui educado, porque no Paquistão você não pode xingar", disse Masih. A necessidade de polidez não era apenas por educação, era medo de ser acusado de blasfêmia, um crime para o qual a punição pode ser a morte.

"Ele voltou duas ou três semanas depois e falou a mesma coisa. Na terceira vez, ele me disse: 'te ofereci o islã três vezes e você o desonrou três vezes. Agora, fique pronto para as consequências."

A pressão veio rápido: duas semanas depois do último encontro, Masih recebeu uma carta do tribunal local no qual o ofendido exigia que o pastor lhe pagasse US$ 70 mil (cerca de R$ 220 mil) pela ofensa cometida. Ele teve dificuldades em conseguir um advogado, pois, segundo conta, ninguém queria defender um cristão.

O caso se arrastou no tribunal por quatro anos até que o juiz decidiu por um valor menor, algo dentro das possibilidades de Masih. O perseguidor, porém, não queria o dinheiro, mas a conversão. No começo de 2013, ele conta ter sido agredido.

"O meu acusador chamou um bando de fanáticos que me atacaram na minha casa. Me bateram na frente dos meus filhos e da minha esposa. Quando cansaram, disseram que iriam me acusar de blasfêmia". O risco se tornara grande demais para ficar no Paquistão.

O relatório 2015/2016 da ONG Anistia Internacional diz que Punjab é o Estado paquistanês onde as leis sobre blasfêmia são empregadas com maior vigor, sendo "desproporcionalmente usadas contra as minorias religiosas". O caso mais famoso é o de uma cristã chamada Asia Bibi, condenada à morte em 2010. O então governador de Punjab, Salman Taseer, a apoiou publicamente e acabou morto por um de seus seguranças, posteriormente condenado e executado. Bibi segue presa.

Brasil

A ideia de sair do país partiu da esposa. A sugestão do lugar, o Brasil, veio um amigo padre. Era a época da Jornada Mundial da Juventude e da visita do papa Francisco, o que tornava mais fácil conseguir um visto de turista. Masih chegou ao Rio de Janeiro sem nem saber que língua os brasileiros falavam.

"Quando eu estava saindo do Paquistão, minha mãe me perguntou: 'onde é o Brasil? Fica na Inglaterra? Na Arábia?'. Respondi que era longe. Ela me perguntou se eu conhecia alguém lá e eu respondi: 'Sim, Jesus.'"

Masih saiu do aeroporto do Galeão com US$ 13 mil (cerca de R$ 41 mil) numa maleta, pegou um táxi e o motorista o levou até um hotel na Lapa. Cobrou R$ 80 pela corrida. Depois o levou a uma igreja presbiteriana no bairro Santíssimo ao custo de R$ 200.

"A igreja era pequena, mas eles me acolheram rapidamente sem me questionar. Me deram uma casa e, depois de seis meses, comecei a dar aulas de inglês. Também fui apresentado como missionário e recebi muitos convites de pregação em outras igrejas".

Um desses convites o levou a Natal, no final de 2014, onde conheceu o pastor Amaury Costa de Oliveira, que há cinco anos acompanha as igrejas perseguidas na Ásia e Oriente Médio e que se interessou pela história de Masih. Ficaram amigos e o pastor brasileiro convidou o paquistanês para trabalhar em seu ministério, na Igreja Presbiteriana da Penha.

"Ele teve uma boa aceitação na igreja. Quando escutam a história dele, as pessoas o acolhem bem. Masih acaba conscientizando os fiéis sobre o que acontece com os cristãos em outros lugares do mundo", disse Oliveira.

Agora, Amauri, em colaboração com a ONG Preparando o Caminho, é um dos responsáveis pela arrecadação de fundos para ajudar o refugiado paquistanês a voltar ao seu país, onde vai buscar sua família. Masih vai passar pelo menos um mês na sua terra natal e reencontrar a mãe. "Ela quer ficar lá, mas pediu para me ver uma última vez".

O pai ele perdeu no ano passado. "O dia que ele faleceu me machucou muito. Você deixa seu pai, ele te dá um abraço e um beijo de despedida, com a promessa de um reencontro em breve. Mas ele não estará mais lá. A perseguição destrói tudo dentro de você."

Quando retornar ao Brasil depois da visita ao Paquistão, Masih vai seguir pregando no templo da Penha e vai morar por um tempo com a família em uma casa de passagem que está sendo construída ao lado da igreja. Dois dos pedreiros são jovens cristãos paquistaneses e também pediram para que o nome não fosse revelado. O sobrenome de um deles pode ser divulgado sem risco — também é Masih.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Pichação racista causa alvoroço no Mackenzie


Não é a primeira vez - só neste ano - que a Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo (SP) investiga manifestações racistas no seu recinto, segundo noticia o Estadão:

Pichação racista é encontrada no banheiro do Mackenzie

LUIZ FERNANDO TOLEDO

Mensagem na unidade em Higienópolis dizia: 'lugar de negro não é no Mackenzie'; universidade vai apurar autoria do texto

A Universidade Presbiteriana Mackenzie instaurou procedimento interno para apurar a autoria de uma frase racista escrita na parede de um banheiro da Faculdade de Direito da instituição, no bairro de Higienópolis, região central de São Paulo. A frase “lugar de negro não é no Mackenzie, é no presídio” circulou nas redes sociais nesta quarta­feira, 7, e causou indignação entre os estudantes, que compartilharam a foto.

A instituição informou que não prestou queixa à polícia e que apura o caso internamente desde que foi comunicada. O autor da frase não havia sido identificado até a noite desta quarta. O Mackenzie disse ainda que “repudia todo e qualquer ato, ação ou manifestação de cunho racista”.

“Nossa história de ampliação de liberdades e construções de oportunidades nos impõe a reafirmação permanente do nosso compromisso com a defesa dos direitos e garantias individuais e coletivos, com o bem­estar do nosso povo e o repúdio a atos discriminatórios de quaisquer naturezas”, declarou o diretor da unidade, José Francisco Siqueira Neto.

De acordo com a estudante do 9.º semestre de Direito Tamires Gomes Sampaio, de 21 anos, o ato não foi isolado. “Em agosto, picharam um banheiro de uma praça de alimentação próxima da faculdade. Somos historicamente excluídos e segregados da universidade. Agora Que começamos a ultrapassar algumas barreiras, percebemos que alguns não toleram isso”, disse ela. A instituição negou que tenha havido outros episódios.

Membro do coletivo Afromack, de estudantes negros do Mackenzie, Tamires afirmou que o ato foi “violento” e disse que o coletivo organizará uma ação para cobrar um posicionamento da instituição.



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Apoio de igrejas à ditadura continua sendo discutido em Comissões da Verdade

Matéria da Agência Brasil:

Depoimentos nas comissões da Verdade apontam apoio de setores das igrejas à ditadura militar

Cristina Indio do Brasil

Rio de Janeiro - O golpe de 1964 no Brasil teve apoio de parcelas importantes das igrejas. Essa foi uma das conclusões da segunda série de depoimentos, hoje (17), durante audiência pública da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e da Comissão Estadual da Verdade, na sede Caixa de Assistência dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro (Caarj), no prédio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Seccional Rio de Janeiro, no centro da capital fluminense. A educadora Letícia Cotrim, o pastor emérito presbiteriano Zwinglio Motta e o pastor luterano Mozzart Noronha relatam experiências que vivenciaram durante a ditadura militar.

Letícia ficou presa por 14 dias no Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), uma semana no quartel da Polícia Militar no centro do Rio e um mês e três dias em um quartel do Exército em Petrópolis, na região serrana fluminense. Apesar de ter recebido apoio de integrantes de destaque da Igreja Católica, como dom Aloísio Lorscheider, ela disse que parte da igreja ficou omissa.

“Foram pessoas que nos ajudaram em uma hora de sofrimento. Eu tive isso, mas não quer dizer que a igreja era homogênea. Houve quem deu e quem não deu apoio. Foi pedido por mim a dom Eugênio Sales, e dom Eugênio não deu apoio para falar com quem tinha me prendido, que eu tinha uma história na igreja. Eu fui dada como uma pessoa subversiva e que não estava acontecendo nada comigo, quando na verdade estava”, disse Letícia, que participou desde a adolescência do Movimento Ação Católica.

Zwinglio Motta chegou a ser expulso da Igreja Presbiteriana do Brasil por defender questões contrárias às posições conservadoras da instituição. O pastor disse que foi preso por ser irmão de Ivan Motta Dias, militante desaparecido político, e, de acordo com informações levantadas pela família, foi morto em um dos locais de tortura em Petrópolis. "A repressão queria saber onde estava ele. Tentava por todos os meios e não conseguia. Descobriu-me, alguém me delatou, e fui preso por isso”, declarou.

Para Zwinglio, o trabalho da comissão em apurar a atuação da igreja no período da ditadura e no golpe de 1964 é importante para a história política do país. “Recuperar a memória é muito importante para que as gerações futuras tenham acesso ao que aconteceu para que isso não volte a se repetir”, disse o pastor emérito que depois, junto com 80 religiosos, fundou a Igreja Presbiteriana Unida.

O pastor luterano Mozzart Noronha, que fez parte de um movimento de resistência dentro das igrejas protestantes, também falou sobre a falta de apoio da instituição. Ele disse que recebeu suporte apenas de pessoas envolvidas com o movimento ao qual pertencia. “A igreja oficial não me deu nenhum apoio, mas aquela comprometida, que nós chamamos a do Cristo fora dos muros. Pessoas e indivíduos, embora membros da igreja, mas não respondiam institucionalmente por ela, essas pessoas nos deram apoio, não somente no tempo da nossa atuação clandestina contra a ditadura, mas também fora do país”, declarou o pastor que precisou se mudar para a Europa.

O coordenador do Grupo de Trabalho Papel das Igrejas durante a Ditadura, na Comissão Nacional da Verdade, Anivaldo Padilha, disse que os depoimentos confirmam que as igrejas tiveram postura contraditória, algo surpreendente porque era de se esperar que tivessem uma posição clara contra a violação dos direitos humanos, a tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados. E isso, segundo ele, não ocorreu. “Alguns setores importantes das igrejas apoiaram a ditadura e setores minoritários se opuseram à ditadura", destacou.

Para o professor de direitos humanos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e membro da Comissão Estadual da Verdade, João Dornelles, a participação das igrejas se modificou com o trabalho de integrantes que se opunham aos militares e desenvolveram trabalhos com movimentos sociais de atuação mais política. "Surgiu, a partir da Igreja Católica, uma série de instituições que passou a cumprir um papel de denúncia de violação de direitos humanos, e a própria CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] se posicionando contra a ditadura, principalmente no decorrer dos anos 1970, na luta pela anistia e libertação dos presos políticos, junto com igrejas presbiterianas e metodistas”, analisou.

Edição: Aécio Amado



domingo, 5 de maio de 2013

Francisco, o papa protestante?

Artigo interessante publicado no IHU:

O ''protestantismo'' do Papa Francisco

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre a questão dos ateus, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

A opinião é de Bill Tammeus, elder presbiteriano e ex-colunista religioso do jornal The Kansas City Star, pelo qual recebeu diversos prêmios. É autor do blog Faith Matters e colunista mensal da revista The Presbyterian Outlook. Seu livro mais recente, em coautoria com o rabino Jacques Cukierkorn, é They Were Just People: Stories of Rescue in Poland During the Holocaust.

O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu costumo dizer às pessoas que, se você se perder na teologia da Tradição Reformada (leia-se presbiteriana), você sempre pode voltar à estaca zero, que diz, em essência, isto: Deus é soberano.

Ou – em estilo, eu prefiro esta outra, porque a maioria de nós não tem nenhuma experiência de vida sob um soberano – Deus é gloriosamente livre.

Eu pensei sobre isso outro dia, quando eu li algo que o Papa Francisco disse em um livro do qual ele foi coautor em 2010, como cardeal Jorge Mario Bergoglio. Falando sobre como ele conversaria com um ateu, Bergoglio escreveu: "Eu não lhe diria que a sua vida está condenada, porque estou convencido de que não tenho o direito de fazer um juízo sobre a honestidade dessa pessoa".

Essa, amigos, é a teologia da Tradição Reformada. Cabe a Deus determinar quem terá a vida eterna. Não cabe a nós. Mesmo que você recorra aos conceitos difíceis de seguir do fundador da Tradição Reformada, João Calvino, sobre predestinação (sem falar da dupla predestinação), você descobrirá que nenhum ser humano pode saber ao certo quem está salvo e quem está condenado.

Esse ponto, uma vez, levou minha amiga Kathleen Norris a escrever isto no seu livro Amazing Grace: A Vocabulary of Faith: "Surpreende-me que só um advogado francês poderia chegar a uma justificação tão complexa, senão bizarra, para tratar todas as pessoas como se elas pudessem estar entre os eleitos, os escolhidos de Deus".

Ela está certa. Mesmo que você compre a ideia do esquema calvinista "alguns se salvam, alguns são condenados e não há a nada que você possa fazer a respeito", você não sabe quem é quem, por isso você precisa ser bom para com todos, na teoria de que você pode passar a eternidade com essa pessoa.

E isso é quase a mesma coisa que Bergoglio está dizendo em Sobre o Céu e a Terra, coescrito com o rabino Abraham Skorka.

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre esse assunto, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

Mas, no dia seguinte que eu li as palavras do papa, eu descobri que alguém tinha sido mais rápido do que eu nessa conclusão. O escritor Jonathan Merritt fez essa pergunta sobre o Papa Francisco no seu artigo do site Religion News Service: "A crescente popularidade (de Francisco) entre os não católicos pode torná-lo o primeiro papa protestante?".

Merritt acrescentou: "A combinação da preocupação do novo papa com as questões de justiça e a sua teologia conservadora parecem ser atraentes para muitos daqueles protestantes socialmente conscientes" (eu gosto do que Merritt disse, embora eu não fique feliz que ele tenha posto por escrito antes de mim a ideia de que Francisco pode ser o primeiro papa protestante. Mas deixe estar).

Aqueles de nós que fazem parte das principais Igrejas protestantes (presbiterianos, metodistas, luteranos etc.) têm sido exaustivos no que se refere às preocupações de justiça social e superficiais no que se refere ao respeito pelas estruturas de governo hierárquicas e rituais extravagantes.

Nós pagamos um preço por causa dessa ênfase, mas é um preço que nós temos estado dispostos a pagar. E agora muitos de nós acham que o novo papa tem a intenção de aproximar a Igreja Católica um pouco mais dessa abordagem protestante.

Talvez pudéssemos nos encontrar no meio do caminho. Nós, protestantes, acrescentaremos mais ritual, e vocês, católicos, podem descentralizar a sua estrutura de governo, enquanto nós, juntos, lavamos os pés dos pobres.

Eu sei que soa um pouco jocoso, mas eu estou falando sério. Há muita coisa que podemos aprender uns com os outros, e o aprendizado disso pode nos aproximar mais de algum tipo de reunificação (ao menos de espírito), quase 500 anos depois que Martinho Lutero pregou as suas 95 teses na porta da catedral, dando início assim (inadvertidamente) a Reforma Protestante.

Nós, protestantes, não temos o nosso próprio papa para negociar um grande acordo com Francisco, mas, se ele realmente é o primeiro papa protestante, o problema está resolvido. Tudo o que nós, protestantes, e vocês, católicos, precisamos fazer, para início de conversa, é prestar atenção às vezes em que ele se posiciona no nosso campo comum e nos unirmos a ele lá.



sábado, 10 de dezembro de 2011

Religiosidade de passagem: o crescimento evangélico no Brasil



Fazia tempo que não se produzia uma análise tão abrangente e brilhante do fenômeno religioso no Brasil, como é o caso do artigo abaixo, publicado pelo conceituadíssimo Le Monde Diplomatique no dia 01/11/11 em sua versão eletrônica para o país. O responsável pelo artigo é Ronaldo de Almeida, professor de Antropologia da Unicamp, pesquisador do Cebrap e autor do livro "A igreja Universal e Seus Demônios" (Ed. Terceiro Nome, 2009). O artigo é longo, não pretende ser definitivo nem exaustivo, e merece ser lido na íntegra, mas se você não tiver paciência ou tempo para tanto, a síntese dele, nas suas próprias palavras, é que "cada vez menos 'virar crente' significa ruptura ampla e profunda com seu modo de vida. Cada vez mais a diversidade aumenta a oferta de estilos de vida evangélicos". Ronaldo de Almeida cunha a interessante expressão "religiosidade de passagem" para definir a prática (e a ideologia) evangélica no Brasil, dado o grande número de igrejas que abrem suas portas nas redondezas dos lugares públicos de grande concentração (e passagem) de pessoas, como estações de ônibus, trem e metrô, centros comerciais, etc., entram e saem por uma e outra porta como se - de fato - a elas não pertencessem. Aponta ainda que os evangélicos no Brasil vivem "uma religiosidade muito direcionada para as demandas cotidianas materiais, afetivas e subjetivas, e menos voltada para a vida eterna, o pós-morte ou a especulação teológica, por exemplo", ou seja, têm uma expectativa materialista e consumista apenas para esta vida aqui e agora, flexível e adaptável a toda e qualquer demanda que se lhes apresentar. Acrescenta:
Em boa medida, essa flexibilização decorre da circulação de uma parcela dos evangélicos entre as diversas igrejas. Assim, o crescimento evangélico, sobretudo da vertente pentecostal, é bem peculiar: multiplicam-se os nomes das igrejas, mas as pessoas são menos fiéis a uma delas especificamente. Uma parte significativa dos fiéis circula entre as igrejas “calibrando” sua religiosidade: com mais ou menos reflexão teológica, mais ou menos exigências comportamentais, mais ou menos emocionalismo, mais ou menos milagres, e por aí vai. Esse trânsito religioso proporcionou aos indivíduos maior autonomia, que se reflete na desinstitucionalização da prática religiosa. A vida religiosa parece cada vez mais privatizada ao mesmo tempo que de massa, logo, menos sujeita aos ditames morais de uma comunidade de “irmãos de fé”.
Todas essas questões esmiuçadas no artigo levam o autor à conclusão de que o crescimento evangélico no Brasil, concentrado nas vertentes pentecostais e neopentecostais, tem, por assim dizer, um "teto", do qual dificilmente passará. O descompromisso e a imensa rotatividade da membresia evangélica entre as igrejas o leva a crer que o crescimento vegetativo desse grupo será estável, entre os que entram, os que saem, os que voltam e os que circulam ("passam") pelas inúmeras denominações, como - aliás - já havíamos comentados aqui no blog, no artigo "O inchaço da igreja evangélica brasileira". Por fim, todo o artigo caminha em direção a uma conclusão óbvia e inescapável: "quanto mais o Brasil se torna evangélico, mais os evangélicos, principalmente os pentecostais, tornam-se como o Brasil". Confira a íntegra do artigo:

O que significa o crescimento evangélico no Brasil?

Há cerca de três décadas essa pergunta domina o debate público sobre as mudanças religiosas recentes no país, e se desdobra em outras. Quais são as causas da expansão evangélica e suas implicações? Trata-se de um segmento conservador de matriz fundamentalista? Como lidar com a presença crescente desses religiosos na mídia, ora sendo notícia, ora na posição de proprietários do veículo de comunicação, ou ambos ao mesmo tempo? Como conviver com a moralidade pessoal e os valores públicos dos evangélicos? E a lista de questões não termina...

Não é simples definir a partir de quando os evangélicos começaram a ocupar o debate público, mas a eleição de 1986, que elegeu o Congresso Nacional Constituinte, pode ser considerada um marco. Nela, os pentecostais saltaram de dois deputados federais para dezoito, enquanto os protestantes históricos elegeram dezesseis, dando origem ao termo Bancada Evangélica, embora nem todos participassem dela, como atualmente nem todos participam. Já em 2010, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), foram eleitos 63 deputados federais e três senadores que se declararam evangélicos.

A compra da decadente Rede Record pela Igreja Universal, em 1989, também foi outro acontecimento que coroou décadas de investimento dos evangélicos nos meios de comunicação. Atualmente, ela é a segunda maior rede de televisão do país, rivalizando por vezes com a Rede Globo. Em resumo, os evangélicos não só crescem numericamente como também ampliam seu alcance para o mercado, a política e a mídia, que se retroalimentam.

Como consequência dessas investidas, existe uma preocupação disseminada na opinião pública, que se expressa na desconfiança sobre os interesses e o sentido dessa expansão religiosa. Seriam esses interesses comerciais? Ao que parece, essa é a crítica mais frequente.

A imagem dos evangélicos, sobretudo a dos pentecostais, bastante difundida na sociedade brasileira, é a de um segmento formado por pessoas na maioria das vezes honestas e confiáveis nas relações pessoais, mas pouco tolerantes com religiões e morais alheias. Suas lideranças costumam ser percebidas com desconfiança, sendo algumas consideradas ambiciosas e arrivistas. Em que medida tal avaliação procede?

Diversidade e flexibilidade

Os dados do Censo 2010 sobre filiação religiosa, assim como outros, ainda não foram divulgados. Entretanto, pelo que vêm demonstrando várias pesquisas de menor alcance demográfico, algumas tendências apontadas nos dois últimos Censos (1991 e 2000) devem permanecer: o declínio de pessoas que se identificam como católicas e o aumento daquelas que se declaram evangélicas ou sem religião. A dúvida é quais foram as taxas dessas tendências na última década.

A primeira consideração a ser feita é sobre a diversidade daquilo que genericamente se chama protestante histórico, pentecostal tradicional e neo-pentecostal. Mesmo ciente de que alguns desses religiosos não aceitariam ser classificados como evangélicos, adoto esse termo por ser de uso mais corrente e abranger todos os outros, que, por vezes, podem ser nomeados também como “crentes”. Entretanto, é prudente precaver que boa parte das minhas considerações refere-se mais propriamente ao pentecostalismo (o tradicional e o neo).

O campo evangélico é variado, e a onda do crescimento tem quebrado em várias direções e com intensidades diferentes. A diversidade engloba da posição moral mais conservadora à crescente flexibilização dos costumes e comportamentos. Em relação a esse segundo caso, cada vez menos “virar crente” significa ruptura ampla e profunda com seu modo de vida. Cada vez mais a diversidade aumenta a oferta de estilos de vida evangélicos. A onda gospel, não só como gênero musical, mas também como estética, prática cultural e comportamento juvenil, é um bom exemplo de uma vida menos “careta” e em sintonia com os tempos atuais.

Em boa medida, essa flexibilização decorre da circulação de uma parcela dos evangélicos entre as diversas igrejas. Assim, o crescimento evangélico, sobretudo da vertente pentecostal, é bem peculiar: multiplicam-se os nomes das igrejas, mas as pessoas são menos fiéis a uma delas especificamente. Uma parte significativa dos fiéis circula entre as igrejas “calibrando” sua religiosidade: com mais ou menos reflexão teológica, mais ou menos exigências comportamentais, mais ou menos emocionalismo, mais ou menos milagres, e por aí vai. Esse trânsito religioso proporcionou aos indivíduos maior autonomia, que se reflete na desinstitucionalização da prática religiosa. A vida religiosa parece cada vez mais privatizada ao mesmo tempo que de massa, logo, menos sujeita aos ditames morais de uma comunidade de “irmãos de fé”.

Isso é visível na paisagem urbana brasileira, na qual vemos igrejas neopentecostais com as portas abertas permanentemente e com cultos em vários horários do dia, os quais se frequenta sem estabelecer vínculos comunitários e pessoais densos. Vários desses templos estão próximos aos principais terminais de transporte público das grandes cidades brasileiras, configurando uma religiosidade de passagem, bem adequada à lógica e aos fluxos urbanos. Trata-se de uma religiosidade muito mais centrada na pregação do pastor (também vista individualmente em casa, pela televisão) do que no fortalecimento das relações horizontais entre os frequentadores dos cultos.

Muitos evangélicos falam da experiência religiosa como uma espécie de autoconhecimento, um voltar-se para si. Não por acaso, a pregação aproxima-se dos discursos de autoajuda e de empreendedorismo, tão recorrentes no mundo atual. Em suma, uma religiosidade muito direcionada para as demandas cotidianas materiais, afetivas e subjetivas, e menos voltada para a vida eterna, o pós-morte ou a especulação teológica, por exemplo.

Para não dizer que não falei dos católicos

Até onde vai esse crescimento evangélico, sobretudo dos pentecostais? Estes serão maioria no Brasil? Permitindo-me um exercício de futurologia, minha resposta é não, pelo menos não na velocidade que parece preocupar boa parte da opinião pública atual. Especulo que a tendência de crescimento das pessoas declaradas pentecostais, em particular, “baterá no teto”; não sei qual, mas o suficiente para não se constituírem como maioria demográfica no país.

Em boa medida, embaso meu argumento citando a expansão-reação do catolicismo carismático. Padre Marcelo, Renovação Carismática, Canção Nova são alguns dos polos da revitalização católica, principalmente entre jovens e nas áreas urbanas. Assim, se uma das tendências demográficas no país é a do declínio das pessoas que se declaram católicas, é fato também que a expansão do carismatismo entre os católicos os tem tornado mais convictos de sua identidade religiosa, à semelhança dos evangélicos.

Como consequência, a autodeclaração “católico não praticante”, tão popular no Brasil, tem cedido espaço à declaração “sem religião”. Isso pode ser considerado um feito do pluralismo religioso no Brasil: com a disputa por adeptos, a religião hegemônica (no caso, o catolicismo) é forçada à competição, colocando-se como uma alternativa, e não como a religião dos brasileiros. Resultado: se o número de católicos declina, ao mesmo tempo o catolicismo se robustece.

Entretanto, parte desse sucesso católico deve-se exatamente à semelhança dos carismáticos com os evangélicos na doutrina da conversão, na dinâmica dos ritos, na experiência emocional, nos valores morais, nas práticas sociais, nas relações comunitárias e nas estratégias de crescimento. Assim, a expansão da religiosidade evangélica não se dá somente na atração de católicos, mas também por dentro do catolicismo. A religiosidade de muitos brasileiros tem adquirido cada vez mais tonalidades evangélicas.

Política, moral e interesses

Se o crescimento dos evangélicos dá-se em várias direções, o mesmo pode ser dito da participação na política institucional. Ela varia de práticas orientadas por interesses de grupos específicos a ações pautadas por temas mais estruturais da sociedade brasileira. Ressalta-se, contudo, que as primeiras são em maior número, espelhando a própria representação política do país.

Entre as várias Comissões Permanentes do Congresso Nacional, é comum encontrarmos evangélicos naquelas que tratam dos meios de comunicação, dos programas sociais, da formação de Conselhos Públicos. Por um lado, visam à propaganda religiosa, por outro, atuam como mediadores dos serviços oferecidos pelo Estado.

Além desses interesses, os temas de ordem moral e de fé religiosa são mobilizados com a finalidade de gerar identidade política entre os fiéis. A recente eleição para a Presidência da República, em 2010, forneceu um bom cenário para pensarmos a movimentação política dos evangélicos.

De forma geral, a então candidata Marina Silva, do Partido Verde (PV), atraiu parte do eleitorado evangélico sem se valer excessivamente dessa identidade, pois já fazia parte de sua imagem pública. Seu problema foi o mesmo de Anthony Garotinho na campanha presidencial de 2002: não deixar a imagem evangélica provocar resistências no restante do eleitorado. No caso de Marina, uma declaração de que acreditava que o deus judaico-cristão havia criado o mundo lhe rendeu inúmeros questionamentos, sendo classificada por muitos como criacionista. Marina respondeu que a grande maioria da população brasileira acredita em Deus e que ele havia criado o mundo; além disso, ela não defendeu, pelo menos não publicamente, que o criacionismo fizesse parte do currículo escolar público.

Em relação à sempre polêmica questão do aborto, a candidata Dilma Rousseff (PT) foi a que mais perdeu pontos com esse debate. Graças ao marketing político de seu principal adversário, José Serra (PSDB), a posição pró-aborto foi mais associada a Dilma, o que gerou resistência de muitos religiosos, principalmente dos evangélicos. Marina respondia a essa questão propondo um plebiscito, pois estava ciente de que as sondagens estatísticas indicavam que a maior parte da população votaria contra a legalização do aborto.

Por fim, Serra assumiu a bandeira contra o aborto, assustando, e mesmo constrangendo, setores mais escolarizados e moralmente liberais nos quais tem forte base eleitoral. Mas Serra não é visto como alguém com perfil religioso, no sentido de reivindicar uma identidade, fosse ela católica, evangélica, espírita, entre outras possíveis. Seu programa eleitoral deixou o discurso contra-aborto para o pastor da Assembleia de Deus, Silas Malafaia, que tem se configurado como contraponto ao bispo Macedo e à Igreja Universal do Reino de Deus, apoiadores dos governos Lula e Dilma.

O início desse apoio aos candidatos do PT deu-se somente na campanha presidencial de 2002, graças à aliança com o então nanico Partido Republicano (PR), que além de fornecer o vice de Lula, José Alencar, tinha metade de seus deputados federais pertencentes à Igreja Universal. Cabe relembrar, contudo, que durante as eleições presidenciais de 1989 as pregações e os jornais da Igreja Universal declaravam que Lula era o candidato do diabo.

Plasticidade e enraizamento

A Igreja Universal não apenas refez seu discurso anti-Lula e anti-PT, em 2002, como assumiu uma posição pouco fundamentalista em relação à reprodução humana, em 2009. Quando se intensificou no país o debate público (na verdade, mais restrito às camadas escolarizadas) em torno das pesquisas com células-tronco embrionárias e, a reboque naquele momento, a legalização do aborto em casos específicos, a Igreja Universal declarou-se a favor dos dois pleitos. Além dela, manifestaram-se a favor setores mais liberais do protestantismo histórico, como a Igreja Metodista e a Igreja Presbiteriana do Brasil.

Como bem sabemos, a posição religiosa mais contundente e eficaz em termos políticos contra os dois temas é a da Igreja Católica, mas – convém sempre dizer – bem menos dos fiéis católicos. Ser a favor dos dois pleitos foi uma forma de a Igreja Universal se colocar na discussão em contraposição à Igreja Católica, com quem costuma rivalizar e de quem deseja o lugar na sociedade brasileira. Porém, tais posicionamentos permitiram a repercussão da pregação de Silas Malafaia como portador do discurso evangélico conservador, logo, contrário ao aborto.

O mesmo conservadorismo tem sido direcionado contra a criminalização da homofobia. Por considerarem a homossexualidade curável moral e espiritualmente, os evangélicos veem a criminalização como limitadora de sua pregação religiosa. Nesse assunto, bispo Macedo e Silas Malafaia estão do mesmo lado.

Por outro lado, em decorrência da crescente flexibilização dos costumes e comportamentos, foram criadas recentemente as “igrejas inclusivas” de perfil evangélico, que não condenam a homossexualidade. O número das igrejas inclusivas é insignificante perante a posição conservadora, mas o importante é perceber como a onda evangélica tem quebrado para vários lados, diferenciando-se conforme outras mudanças sociais no país.

Em que medida, então, procedem a preocupação e a desconfiança da opinião pública em relação ao crescimento evangélico, como indagado inicialmente? A avaliação continua cabendo ao leitor. Os argumentos aqui apresentados, contudo, visaram demonstrar como as questões de fé imbricam-se em outras dinâmicas e mudanças políticas e sociais mais amplas do contexto brasileiro, que podem ser resumidas em uma tautologia sociológica: quanto mais o Brasil se torna evangélico, mais os evangélicos, principalmente os pentecostais, tornam-se como o Brasil.



domingo, 20 de novembro de 2011

As missionárias evangélicas brasileiras em Moçambique

Artigo muito interessante (e bem escrito por Marli Lima) publicado no Valor Econômico de sexta-feira, 18/11/11:

O evangelho segundo elas

Por Marli Lima | De Dondo, Moçambique

Durante três dias, 120 mães e seus filhos participaram de um encontro de mulheres cristãs em Nampula, norte de Moçambique, em convivência com um grupo de 14 mulheres brasileiras. Haveria depois reunião semelhante em Dondo, na região central do país. As brasileiras eram missionárias, de diversas profissões, que em sua viagem de propagação do cristianismo, um percurso de duas semanas, dormiram e comeram nos lugares visitados, contaram histórias bíblicas, ensinaram trabalhos manuais e culinária, deram assistência odontológica, fizeram palestras sobre saúde, entre outras atividades. Muitas das moçambicanas tinham vindo de aldeias distantes até 200 quilômetros.

Naqueles mesmos dias, outros brasileiros, agentes de uma corrente missionária que tem crescido substancialmente nos últimos tempos, faziam trabalho semelhante em diversos países.

O Brasil já foi um grande receptor de estrangeiros que desembarcavam aqui para evangelizar e criar igrejas. Agora o movimento é inverso: o país é um dos que mais enviam missionários ao exterior, o que se explica pelo crescimento da população de evangélicos e pelo estímulo de igrejas e agências missionárias à formação desses agentes religiosos e internacionalização de seu trabalho. Hoje, o número de missionários brasileiros que levam o cristianismo a outros países só é superado pelo de americanos. No ano passado, os Estados Unidos tinham 127 mil pessoas pregando foram de suas fronteiras. Do Brasil haviam partido 34 mil. Nos dois casos, incluem-se evangélicos e católicos. São dados do "Atlas do Cristianismo Global", editado pela Edinburgh University Press.

De acordo com Todd M. Johnson, um dos autores da publicação, o número de missionários brasileiros que foram trabalhar em outros países em 2010 corresponde a 188 por milhão de cristãos. A proporção da América Latina é de 107 e a global, de 184 por milhão de cristãos. Ou seja, o Brasil está acima da média mundial.

Em 2010, o Brasil tinha em seu território 20 mil missionários estrangeiros, ou 101 por milhão de brasileiros. Nesse caso, o número é menor que na América Latina, de 172 por milhão de moradores. Mas ainda é bem maior que a média global, de 58 por milhão de pessoas.

O casal Antonio e Sirley Silva é ligado à Junta de Missões Mundiais (JMM) da Convenção Batista Brasileira, instituição com 600 missionários em 58 países. Os dois são professores de teologia e lideram em Nampula um programa de educação pré-escolar, também aplicado em outros países, que atende perto de duas mil crianças, de quatro e cinco anos, e usa conteúdo baseado na "Bíblia".

Se, em alguns países, há a necessidade de aprendizado de idiomas, em outros, como Moçambique, o português é um aliado. A brasileira Noêmia Cessito foi enviada pela JMM para o país africano há 27 anos, quando ainda se vivia uma guerra civil, encerrada em 1992. Casou-se com um pastor moçambicano, teve dois filhos e hoje mora em Dondo, onde realiza trabalhos de ação social, educação e evangelismo.

Com a creche Pequenas Sementes, que funciona no terreno da igreja, e a escola El Shaddai, ela atende 850 crianças, que, além de ensino, recebem uma refeição por dia (para muitas, o único alimento). Por meio de voluntários, os batistas de Dondo também apoiam diariamente 150 mulheres com aids (o país é um dos mais afetados pela doença). E, de segunda a sexta-feira, servem sopa a adultos e crianças internados no hospital que fica a duas quadras do templo.

Para Karina Bellotti, professora do departamento de história da Universidade Federal do Paraná, doutora em história cultural e com publicações na área de história das religiões, um dos lados positivos do trabalho missionário é justamente o estabelecimento de sistemas educacionais e de assistência à saúde, como ocorreu no Brasil, que possui escolas e hospitais ligados a instituições religiosas. Um dos lados negativos, segundo ela, "é que algumas dessas missões viam os colonos ou os brasileiros como sem religião, desconsiderando sua cultura ao querer catequizá-los".

Não só a África ou países pobres têm sido alvo de missões de brasileiros. E nem só com sermões. Em julho, integrantes do grupo de teatro Oxigênio, da Igreja Presbiteriana Central de Curitiba, embarcaram para Madri, na Espanha, e fizeram apresentações de rua e em igrejas para 4 mil pessoas em 21 dias. Até uma penitenciária de Madri entrou no roteiro.

O trabalho foi realizado em parceria com a agência Jovens com Uma Missão (Jocum), que é internacional (está em 180 países) e reúne representantes de várias igrejas. O ramo brasileiro da Jocum conta com 250 missionários em outros países.

No caso das mulheres enviadas a Moçambique, a preparação para a viagem começou meses antes, com busca de informações sobre o país e levantamento de doações. Todas levaram para uso próprio apenas cinco quilos de bagagem, na mala de mão. Nas outras duas malas de 32 quilos a que cada uma tinha direito foram levadas doações. Cada mulher teve de levantar dinheiro para pagar seus custos de passagem e hospedagem - algumas receberam doações de milhas aéreas.

Em Dondo, o grupo ficou hospedado em uma casa que é usada por missionários americanos. A van 1990, usada nos deslocamentos para diferentes projetos desenvolvidos na cidade de 55 mil habitantes, foi conduzida por Ercílio Greva, moçambicano de 24 anos que se converteu ao cristianismo aos 17 e hoje estuda engenharia, é treinador de handebol e trabalha para uma ONG americana.

Algumas mulheres deram aulas de música, pintaram e redecoraram as salas da creche. Outras fizeram atendimento odontológico com um consultório portátil levado do Brasil e prepararam uma festa para os pequenos. As aulas de culinária das brasileiras encheram a cozinha construída no fundo do terreno da igreja.

Uma das alunas era Ana Paula, de 36 anos e mãe de oito filhos, sendo os dois últimos gêmeos de três meses de idade. Ela contou que queria "dar os bebês", porque ficou viúva e não tem condições de criá-los. Em outras salas ou no quintal, as moçambicanas aprenderam a fazer fuxico (flores de tecido) e também bijuterias.

O pastor Jerônimo Cessito, marido de Noêmia, que está cursando mestrado em educação, fez questão de mostrar a escola El Shaddai, aberta em 2006. Há mais espaço para a construção de salas, para hortas, um poço e uma capela, que ainda depende de recursos. "Uma coisa que aperta meu coração é a criança", contou. "Se não fizermos nada, ela vai crescer do mesmo jeito. Se fizermos, poderá fazer diferença no país."

As salas da escola eram de madeira, mas atraíam cobras e foram substituídas por tijolos. De madeira ficou apenas o lugar onde a cozinheira Francisca Fernandes prepara as refeições dos alunos. Ela mostrou um pacote com arroz enriquecido com soja, vegetais e temperos. "É da América", disse. Uma igreja de Minnesota (EUA) doou 1 milhão de pacotes de 390 gramas cada um para os projetos desenvolvidos em Dondo.

Nas salas, as crianças usam camisetas de cor laranja enviadas por brasileiros. No pátio, brincam com parquinho construído por meio de doações. Mas a realidade continua sendo dura. Malária é algo comum lá. As pessoas dormem cobertas por véus, usam repelentes contra insetos e, mesmo assim, correm riscos.

Noêmia nunca passou um ano sem a doença. Ela mostrou o posto de saúde que atende duas mil pessoas e tem médico e enfermeiro cedidos pelo governo. Uma maca, quando encaixada em uma bicicleta, serve de ambulância.

Ali é um dos locais em que Juliana Mota, de 27 anos, nutricionista de São Paulo, vai fazer o acompanhamento do desenvolvimento das crianças. Ela chegou em julho e vai embora em dezembro. Marisa Ferreira, paulistana de 47 anos, é pedagoga e desembarcou no país para ficar um ano, já ficou cinco e não tem data para voltar. Na mesma vizinhança, a igreja está construindo uma padaria, onde um padeiro vindo do Rio de Janeiro vai passar três meses ensinando os moçambicanos a fazer pão.

Dondo é cortada pela ferrovia por onde começaram recentemente a transitar trens da Vale carregados de carvão. Com investimentos estrangeiros e melhoras na economia, ofertas de emprego estão aparecendo. "Há oportunidades, mas é preciso estar preparado", disse a professora moçambicana Helena Reich. Ela é casada com Edmundo, também professor. Segundo ele, na região cada pessoa vive com o equivalente a US$ 1 por dia, ou cerca de 30 meticais, que é a moeda local.

Com a malária e a aids, há na região muitas viúvas, algumas infectadas com o vírus. Júlia Bola, de 40, perdeu o marido há dez anos para a malária e, atualmente, faz parte da equipe que realiza visitas a soropositivas. Tem quatro filhos, mas só ficou com dois, porque os outros foram morar na capital, Maputo, com a família do marido. Agustinho, 12, um dos filhos, abraçou as missionárias vestido com a camiseta do Brasil que ganhou na igreja. Ele dorme em uma esteira ao lado da mesa e sofre de tuberculose.

À noite, os adolescentes prepararam um culto típico de aldeia. Como faltou luz, usaram lamparinas com querosene. Depois de músicas e danças típicas, foi oferecido um jantar que é considerado banquete. As brasileiras comeram com as mãos, como é comum no país. No prato havia "shima," (receita tradicional, feita com farinha de milho branco e água), além de arroz, molho de tomate, peixe e matapa (caldo de couve, mandioca e amendoim).

No domingo, foi programada visita a uma aldeia. O trajeto foi feito em três horas em asfalto com buracos e estrada de chão. No caminho, o motorista parou em uma vila para arrumar o freio da van. Um rapaz, que disse chamar-se Gaspar, chegou até a janela e perguntou o que as mulheres estavam fazendo. Uma disse que estava em uma missão e perguntou se ele conhecia Jesus. "Dizem que ele veio só para os brancos", respondeu o rapaz. Enquanto a missionária mostrava trechos da "Bíblia" que dizem que ele "veio para todos", apareceu outro jovem, para dizer que havia aceitado Jesus "como salvador pessoal". Gaspar tomou a mesma decisão e ficou com a "Bíblia".

Na aldeia, o grupo foi recepcionado com festa. Após culto e estudos em grupos, os participantes receberam doações dos pacotes de arroz enviados dos Estados Unidos. Em seguida, foi oferecido um almoço às visitantes. Sobre a mesa havia um roedor caçado no mato, em molho, arroz e pato assado.

Na aldeia não se fala português, mas o dialeto sena. Foi preciso usar tradutor na comunicação. No encontro de mulheres, em Nampula, muitas só sabiam o dialeto macua. Em sena, Deus é chamado de Mulungo. Em macua, é Muluko. A "Bíblia" foi traduzida para os dois dialetos.

"Na África, sem a igreja, o sofrimento seria maior", afirma o padre Camilo Pauletti, diretor das Pontifícias Obras Missionárias (POM), que tem 52 anos e morou 6 em Moçambique. De acordo com ele, a atividade exercida lá "não era apenas de evangelização, mas de promoção humana". O padre foi para ficar três anos e pediu para permanecer mais três. Teve 20 malárias. "Corri risco de morte duas vezes, mas quem vai para uma missão como essa sabe que corre riscos." Sobre os dialetos e limitações, ele tem uma opinião: "Às vezes, não é preciso fazer muito, basta estar junto". Pauletti foi mantido pela Igreja Católica do Rio Grande do Sul e por amigos. Ajudou a fazer 70 poços de água comunitários e batizou 7,2 mil pessoas, grande parte adultos. O padre planeja visitar o país em 2012.

Segundo levantamento do Conselho Missionário Nacional (Conima), da Igreja Católica, há 1.829 brasileiros da denominação que estudam ou trabalham no exterior e exercem atividades missionárias, a maioria mulheres (80%). Do total, 29,8% estão na África, 27,6% na América do Sul e 26,5% na Europa.

Na volta ao Brasil, as mulheres foram recebidas pela família e até uma pequena orquestra tocou no aeroporto de Curitiba no desembarque. Muitas já planejam o retorno à África.



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