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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 20


ENCARNAÇÃO: MARIA, MÃE DE DEUS

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Dizemos de cada ser humano que ele come, bebe, digere, dorme, acorda, anda, fica parado, trabalha, etc., embora a alma não participe em nenhuma dessas atividades, mas apenas o corpo. Contudo, afirma-se isso da pessoa toda, que tem corpo e alma. Pois ele é um ser humano não só por causa do corpo, mas por causa do corpo e da alma. Por outro lado, também afirmamos que o ser humano pensa, inventa, aprende. Pois, de acordo com sua razão ou alma, ele pode tornar-se professor ou mestre, juiz, conselheiro ou governante. Nem o corpo nem qualquer um de seus membros lhe dá essa competência. No entanto, afirmamos: “Ele tem uma cabeça boa; é sensato, instruído, sábio, eloquente, artístico”. Dessa maneira, diz-se de uma mulher que ela está grávida, dá à luz e amamenta uma criança, embora não seja a alma, mas tão-só o corpo que faz dela uma mãe. Todavia, atribuímos isso à mulher toda. Igualmente, se alguém golpeia uma pessoa na cabeça, dizemos: “Ele bateu no João ou na Margareta”. Ou, quando um membro do corpo é lesionado ou ferido, pensamos na pessoa toda como estando machucada.

Estou empregando essas ilustrações simples para que se entenda como se devem separar na pessoa de Cristo as duas naturezas distintas e como, no entanto, isso deixa a pessoa inteira e indivisa. Tudo que Cristo diz e faz, tanto Deus quanto o homem dizem e fazem, mas cada palavra e cada ação estão de acordo com uma ou outra natureza. Aquele que observa essa distinção, encontra-se no caminho seguro e certo. Ele não será desencaminhado pelas ideias errôneas dos hereges, as quais provêm unicamente do fato de não reunirem o que pertence junto e constitui uma unidade, ou por não separarem e dividirem, apropriadamente, o que deve ser diferenciado.

Por isso, devemos nos ater ao discurso e às palavras da Escritura e reter e confessar a doutrina de que este Cristo é verdadeiro Deus, através de quem todas as coisas são criadas e existem, e, ao mesmo tempo, que este mesmo Cristo, Filho de Deus, nasce da virgem Maria, morre na cruz, etc. Ademais, Maria, a mãe, não carrega, dá à luz, amamenta e alimenta tão-somente o homem, tão-somente carne e sangue – pois isso seria dividir a pessoa -, mas ele carrega e alimenta um filho que é Filho de Deus. Por isso, ela é corretamente chamada não só a mãe do home, mas, também, a mãe de Deus. Isso, os antigos Pais ensinaram contra os nestorianos, que se opunham a que Maria fosse chamada de mãe de Deus e se recusavam a dizer que ela dera à luz o Filho de Deus.

Aqui, devemos ratificar com o nosso Credo: “Creio em Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus Pai, nosso Senhor, que nasceu da virgem Maria, sofreu, foi crucificado, morreu”. Ele é sempre o mesmo e único Filho de Deus, nosso Senhor. Por isso, é certo que Maria é a mãe do real e verdadeiro Deus. E os judeus não só crucificaram o Filho do Homem, mas, também, o verdadeiro Filho de Deus. Pois não quero um Cristo em que devo crer e a quem devo invocar como meu Salvador que seja apenas um ser humano. Nesse caso, eu estaria indo ao encontro do diabo, pois simples carne e sangue não poderiam extinguir o pecado, reconciliar a Deus e abolir sua ira, superar e destruir a morte e o inferno, e conceder a vida eterna.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 143-144)

(para ler a sequência do comentário de Lutero
sobre João 14:6 a, clique aqui)



terça-feira, 8 de março de 2016

R. R. Soares entra na onda dos megatemplos em SP


A matéria é da BBC Brasil:

Novo megatemplo ilustra disputa de igrejas em SP para 'mostrar poder'

Felipe Souza

Caminhões passam o dia tirando terra de um terreno de 29 mil m² – o equivalente a três campos de futebol – na marginal Tietê, uma das principais artérias do trânsito de São Paulo. As dimensões da obra lembram a construção de um estádio, mas trata-se de mais um templo religioso de grandes dimensões na capital paulista.

O Templo da Graça, da Igreja Internacional da Graça de Deus, no Bom Retiro (na região central), terá capacidade para 10 mil pessoas sentadas, a mesma do Templo de Salomão, inaugurado pela igreja Universalem 2014 no Brás, também no centro. A igreja da Graça é liderada por Romildo Ribeiro Soares, conhecido como Missionário RR Soares, e cunhado do bispo Edir Macedo – líder da Universal.

"Vamos fazer uma coisa bonita, para a glória de Deus", disse RR Soares durante um programa no qual anunciou o início da megaobra. O lançamento da pedra fundamental da construção contou com a presença de figuras importantes da igreja e políticos, como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB).

O projeto para a construção demorou oito anos para ser aprovado e pegou de surpresa até mesmo membros da alta cúpula da atual gestão da prefeitura, que desconheciam o início da obra, aprovada por técnicos.

O Estado de São Paulo já tem ao menos outras cinco megaconstruções religiosas (veja lista abaixo), como o santuário católico Theotokos – Mãe de Deus, idealizado pelo padre Marcelo Rossi e projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, com capacidade para até 100 mil pessoas em Interlagos (zona sul), e a Cidade da Glória de Deus, em Guarulhos (Grande SP), que comporta até 150 mil fiéis.

Disputa

O professor titular de ciências da religião da PUC-SP Jorge Claudio Ribeiro disse que as igrejas constroem megatemplos para ganhar mais credibilidade.

"Um vai imitando o outro dentro desse campo religioso para não ser visto como uma liderança de segunda classe. Se uma religião tem um templo, a outra quer um também. O mesmo acontece se uma delas tem espaço na televisão, filme, novela, etc.", afirmou.

Ribeiro aponta que São Paulo tem muitos megatemplos porque há público para enchê-los. Para ele, isso demonstra uma disputa entre as igrejas para provar ao seu público quem tem mais poder – e tem o efeito de transformar a capital paulista em um ponto de turismo religioso.

A inspiração para o gigantismo dos templos vem, segundo Ribeiro, da própria Igreja Católica.

"O catolicismo fez isso durante milênios, com a basílica de São Pedro, o barroco. Os evangélicos do século 21 estão aprendendo com os católicos porque viram que aquela foi uma experiência mais bem-sucedida. Outros exemplos disso são a Marcha para Cristo, imitando as procissões", disse.

Para o professor de pós-graduação em ciências da religião no Mackenzie, Rodrigo Franklin, essas obras demonstram uma mercantilização da fé.

"Vemos algo bem diferente do antigo cristianismo tradicional, que pregava como prioridade o sacrifício, o amor ao próximo. Hoje, os fiéis buscam autoajuda, quer ser rico agora, então ele não quer mais a pequena comunidade. Se o cara está falando que você vai ficar rico, é incoerente ele ter uma igrejinha. Se o pastor quer mostrar que o poder dele é real, ele vai continuar construindo coisas extravagantes", afirmou Franklin.

Segundo Franklin, construir templos cada vez maiores é uma tendência mundial, na qual se destacam o Brasil e os Estados Unidos. "Na Antiguidade, grandes templos eram sinal de poder e autoridade. Hoje, é uma competição. No contexto de São Paulo, é uma questão de mercado porque é uma cidade rica e tem de tudo", disse.

Para ele, essa "disputa" é uma forma de ostentar e mostrar o poder de cada líder religioso, já que "eles estão competindo pelo mesmo público".

Estrutura

O projeto aprovado pela Prefeitura de São Paulo prevê uma área construída total do Templo da Graça de 68 mil m². Serão dois prédios: um de quatro andares com dois subsolos e outro de nove andares com dois subsolos, onde está prevista a construção de um templo e um edifício-garagem.

O novo centro religioso ainda terá um anfiteatro, heliponto, sala para crianças e locais destinados para casamentos e batismos. A BBC Brasil apurou, porém, que a Igreja Internacional da Graça de Deus enviou um pedido à prefeitura para fazer uma alteração no projeto do prédio onde está previsto um estacionamento.

A reportagem não teve acesso às alterações que a igreja pretende fazer no local. O pedido ainda está em análise pela área técnica da administração municipal.

Assim como os últimos grandes estádios construídos na capital paulista, o Allianz Parque e a Arena Corinthians, o Templo da Graça tem uma câmera ligada na frente do terreno para que os fiéis possam acompanhar a evolução da obra.

Tudo pode ser acompanhado, durante o período em que a luz do dia ilumina o terreno, pelo site do Templo da Graça. Não há a informação de quanto a obra vai custar nem qual a previsão para ser inaugurada.

Procurado, RR Soares negou os pedidos de entrevista da BBC Brasil e disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que "ainda não é tempo de falar sobre o templo". Representantes da Rogui Engenharia, responsável pela construção, também se negaram a falar com a reportagem.

Megatemplos do Estado de São Paulo:

Cidade Mundial dos Sonhos de Deus

Inaugurado em 2011 em Guarulhos, na Grande São Paulo, o megatemplo da Igreja Mundial do Poder de Deus está entre os maiores do mundo, com capacidade para 150 mil pessoas em um espaço de 240 mil m².

Uma programação de 24 horas de transmissão de cada uma das principais reuniões, além de programas, notícias e entretenimento diferenciado, propagam a mensagem do Evangelho não apenas dentro do território nacional, mas também em outros países, onde o trabalho ministerial se encontra presente.

Basílica de Nossa Senhora Aparecida

Localizada na cidade de Aparecida, a 180 km da capital paulista, a Basílica de Nossa Senhora Aparecida recebe mais de 12 milhões de pessoas por ano. O principal ponto brasileiro de peregrinação católica tem uma área de 1,3 milhão de m², sendo 143 mil m² de área construída.

A área interna da basílica abriga 30 mil pessoas. A capacidade para as celebrações na área externa é de 300 mil.

O local ainda possui um estacionamento com mais de 6.000 vagas, sendo 2.000 delas apenas para ônibus e 3.000 para carros. Há ainda um centro de compras com 380 lojas.

Templo de Salomão

A mais nova grande construção religiosa de São Paulo, o Templo de Salomão, foi erguida pela Igreja Universal do Reino de Deus por R$ 680 milhões.

O edifício tem 74 mil m² de área construída e altura equivalente a um prédio de 18 andares.

O templo é uma réplica do que foi destruído em Jerusalém há mais de 2.000 anos. Sua inauguração teve a presença da presidente Dilma Rousseff (PT).

Templo da Glória de Deus

Inaugurado no primeiro dia de 2004, o templo localizado na avenida do Estado, no centro de São Paulo, tem capacidade para 60 mil pessoas. O prédio, comprado por R$ 200 milhões à época pela Igreja Pentecostal Deus é Amor, passou por uma reforma nos últimos anos.

A igreja Deus é Amor foi fundada em 1962 e tem, atualmente, 22 mil templos no Brasil, além de unidades em outros 136 países.

Santuário Theotokos - Mãe de Deus

Projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, o santuário idealizado pelo padre Marcelo Rossi tem capacidade para 100 mil fiéis em um terreno de 20 mil m² em Interlagos, na zona sul de São Paulo.

O santuário tem 500 banheiros e 2.000 vagas de estacionamento.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Maria e o jejum na tradição ortodoxa


Amanhã, dia 28 de agosto, é o dia da "Dormição da Deípara" na tradição ortodoxa oriental. "Deípara" é uma palavra de origem latina que significa "aquela que deu à luz a Deus", atribuída como epíteto a Maria no sentido de "Mãe de Deus", ou "Theotokos", como já tivemos oportunidade de comentar nesse artigo de novembro de 2008.

Para os ortodoxos, Maria passou pela morte natural, à qual eles chamam de "dormição" porque, segundo a sua tradição ensina, a sua alma teria sido imediatamente recebida por Cristo no paraíso, enquanto o seu corpo teria sido ressuscitado ao terceiro dia e imediatamente elevado aos céus para se juntar ao seu espírito.

Os católicos romanos também têm essa crença, transformada no dogma da Assunção de Maria pelo papa Pio XII em 1950, declarando que ela teria subido de corpo e alma ao céu, mas não fica claro (propositalmente, ao que tudo indica) se a mãe de Jesus teria ou não passado pela morte natural.

Repare também na sutil diferença terminológica. Como relatam brevemente os evangelhos (Marcos 16:19; Lucas 24:50-53) e o livro de Atos dos Apóstolos (1:9-11), Jesus "ascendeu" ao céu ("Ascensão", portanto) enquanto Maria foi "assumida" no céu ("Assunção").

A festa católica da Assunção de Maria também se dá em agosto, no dia 15, enquanto os ortodoxos a celebram no dia 28. A diferença entre as datas se dá porque os primeiros seguem o calendário gregoriano para suas festas religiosas, enquanto os últimos adotam o calendário juliano.

Feitos esses breves comentários sobre como as duas tradições abordam a morte e o, digamos, "traslado" de Maria, é interessante ver como os ortodoxos celebram a data festiva com jejum, e o que eles pensam a respeito da abstenção de alimentos.

O artigo abaixo é de autoria do Diácono Marcelo Paiva, do excelente blog ortodoxo "O Cetro Real", ao qual agradecemos a especial gentileza de ter-nos autorizado sua reprodução aqui:



Esforço Ascético : O Jejum da Dormição da Deípara.

Queridos irmãos, prezados amigos,

Nesta Quarta Feira (14 de Agosto), os filhos das jurisdições da Santa Igreja Ortodoxa que guardam o calendário juliano durante todo o ano, dão inicio ao período de jejuns e abstinências, em razão da preparação espiritual para a Festa da Dormição da Deípara, que se dará no dia 28 de Agosto.

O "Jejum da Dormição", mantido por duas semanas, tem as mesmas características do Jejum da Grande Quaresma : Abstenção de alimentos de origem animal, bebidas alcoólicas, e para os casados, das relações maritais.

Vinho e Azeite são permitidos aos Sábados e Domingos.

Em meio ao Jejum, será celebrada a Grande Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo (dia 19 de Agosto). Neste dia, em razão da Grande Festa, se permite consumir peixe.

Vamos ver o que os Santos dizem a respeito do jejum :

São Serafim de Sarvov - "O jejum não consiste apenas em reduzir o número de refeições, mas também de comer pouco quando realizar estas. E se você faz apenas uma refeição, que se coma pouco nesta também. Insensato é o jejum em que o fiel conta as horas para poder comer a sua refeição, e quando a realiza a consome com voracidade, consumindo assim o corpo e a mente , de forma insaciável. Na medida em que a forma do corpo, em razão do jejum, vai se tornando mais fina e leve, assim também a vida espiritual vai alcançando a perfeição, se revelando de maneira maravilhosa. Então a alma age como se livre do corpo, pois os sentimentos carnais vão sendo desligados, e o espírito assim se libera do mundo, sobre ao céu e mergulha na contemplação da realidade espiritual. Então, durante todos os dias devemos recorrer apenas a quantidade de alimento necessário para manter o corpo são, para que ele seja um amigo e auxiliar da sua alma, na realização das virtudes. Caso contrário, com o corpo fraco, a alma também pode fraquejar."

São Hierarca Basílio, o Grande : "Há tanto um jejum físico quanto um jejum espiritual.

No jejum físico, o corpo se abstém de comida e bebida. No jejum espiritual, o jejuador se abstém das más intenções, palavras e ações.

Aquele que verdadeiramente jejua se abstém da raiva, ódio, malícia e vingança.

Aquele que verdadeiramente jejua se abstém da conversa fiada e inútil, da retórica vazia, da maledicência, da condenação, da bajulação, da mentira e de todo o tipo de conversa rancorosa. Em uma palavra, um verdadeiro jejuador é aquele que se afasta de todo o mal.

Tanto quanto você subtrai do corpo será o quanto você vai contribuir para o fortalecimento da alma. Pelo jejum é possível tanto nos precaver sobre os males futuros quanto desfrutar das coisas boas que virão. Sofremos doenças por causa do pecado; e receberemos a cura através do arrependimento, que não será frutífero sem a prática do jejum.

O verdadeiro jejum consiste em rejeitar o mal, no controle da língua, na supressão do ódio , no banimento da própria luxúria e das palavras más, da mentira e da traição dos votos afirmados."

Santo Hierarca João Crisóstomo : "Você jejua? Agora também alimente os famintos, de de beber aos sedentos, visite os doentes, não se esqueça dos presidiários, tenha piedade dos torturados, console os que sofrem e choram, seja misericordioso, bondoso, humilde, calmo, paciente, simpático, tolerante, reverente, verdadeiro e piedoso para que Deus possa então aceitar o seu jejum e possa conceder-lhe abundantemente os frutos do arrependimento.

O jejum do corpo é o alimento para a alma.

É necessário, acima de tudo para aquele que está em jejum conter a raiva, para assim acostumar-se com a mansidão e a condescendência, para ter um coração contrito, para repelir os pensamentos e desejos impuros, para examinar sua consciência, para colocar sua mente à prova e ao verificar o que afinal tem sido feito de bom por nós nesta semana e na semana que passou, e para que aquelas deficiências que tenhamos verificado em nós mesmos, possa ser corrigida na semana atual. Este é o verdadeiro jejum.

O ponto aqui não é apenas que devemos ir à igreja todos os dias possíveis, e que devemos sempre ler e ouvir sobre os ensinamentos espirituais ou que devemos nos abster destes ou aqueles alimentos durante toda a quaresma.Não!

Se nós, continuamente vamos a Igreja e ouvimos e lemos as palavras de ensino e espiritual, mas não adquirimos nada de positivo e nada de bom frutifica deste tempo de jejum, ao contrário de nos beneficiar, tudo isso nos conduz a própria condenação, pois apesar de toda a preocupação dos padres e da Igreja em nosso favor, nós insistimos em continuar a viver a mesma vida que antes vivíamos.

Não diga então para mim que você jejuou por muitos dias, que não comeu isso ou aquilo, que não bebeu vinho... Mas ao contrário, me diga se tu tens deixado de ser um homem irritadiço para ser um homem suave, se tens deixado de ser um homem cruel para se tornar benevolente, se tens deixado de ser um homem dominado de raiva, tudo isso em razão do jejum.

Pois se o ódio e a avareza estão dentro de ti, qual é o benefício que você retira do jejum ?

O jejum por si só não o levará para o céu, se ele não der fruto.

O jejum é maravilhoso porque atropela os nossos pecados como se estes fossem uma erva daninha, ao mesmo tempo que cultiva e eleva a verdade como uma flor."

São João de Kronstadt :

"Todo aquele que rejeita os jejuns, priva a si mesmo de se armar contra a sua própria carne, e de tal descuido favorece a ação do diabo, que assim passa a ter poder sobre nós, especialmente em razão da nossa intemperança.

Então nos dizem : Não importa se você come isso e deixa de comer aquilo durante as Quaresmas, e também não há nada de errado se você durante o Jejum usa roupas caras, vai ao teatro, a festas, compre móveis refinados, aposte em corridas de cavalo, e continue a desejar acumular e acumular coisas..." É o que nos dizem.

Contudo, o que é afinal que se transforma o nosso coração quando estamos longe de Deus, quando estamos longe da Fonte da Vida?

Afinal como é que perdemos a vida eterna ? Não é justamente por causa da gula, das roupas caras (como aquelas que o homem rico da Parábola do Evangelho), dos teatros e de todas as outras diversões que colocamos acima de Deus?

O que torna endurecidos os nossos corações para com os pobres, até mesmo para com os nossos parentes ? Não é justamente essa nossa paixão por satisfazer os nossos luxos?

É possível servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo ? É possível ser amigo do mundo e um amigo de Deus ao mesmo tempo ? É possível servir conjuntamente a Cristo e Belial?

Não, isso não é possível.

Por que Adão e Eva perderam paraíso ? Por que eles caíram em pecado e obtiveram a morte? Qual foi o mal que eles escolheram ? Vamos considerar atentamente tal questão, e veremos o que o não se preocupar com a salvação de nossa alma custa, quanto custou ao Filho de Deus.

Por que nós insistimos em viver uma vida composta de pecado sobre pecado, em uma queda sem fim, sempre em oposição a Deus, em uma vida de puro cultivo da vaidade?Não é justamente em razão de nossa paixão pelas coisas terrenas e, especialmente, para os prazeres terrenos? O que faz nossos corações se tornarem tão embrutecidos?

Não por que justamente nos tornamos carne e não espírito, pervertendo a nossa natureza moral?Não é por causa de uma paixão desenfreada por comida, bebida e outros confortos terrenos? Como depois disso se pode dizer que não importa o que se come ou que não se come durante a Quaresma? O fato de pensarmos assim é apenas por orgulho , por um pensamento ocioso, por desobediência, em uma recusa consciente em se submeter a Deus, por buscarmos nos separar Dele."

Santo Hierarca Inácio Brianchaninov :

"A maior das virtudes é a oração, mas a sua base é o jejum. A razão disso é que o jejum tem um efeito sobre os espíritos malignos, que buscam exercer uma poderosa influencia sobre o nosso próprio espírito, através das fraquezas do nosso corpo. Um corpo subjugado pelo jejum traz a liberdade ao espírito humano, lhe concedendo força, sobriedade, pureza e um agudo discernimento."

Santo e Venerável Efreim, o Sírio:

"Se tu, ó homem, não desejar perdoar a todos que pecaram contra ti, então não te incomodes em fazer jejum. Se tu não deseja perdoar a dívida de teu irmão, com quem você se zangou por algum motivo, então você jejuará em vão, pois Deus não vai aceitar o seu jejum.O jejum não te ajudar até que tu se esforce no amor e na esperança da fé. Quem jejua e se torna irritado, abrigando qualquer tipo de inimizade em seu coração, tal pessoa odeia a Deus e a salvação está longe dela."

São Tikhon de Zadonsk:

"Um jejum excelente é aquele que nos ajuda a nos moderarmos de toda impureza, que impõe a abstinência de nossa língua e que impede a conversa fiada, linguagem chula, a calúnia, a condenação, bajulação e toda sorte de palavra malévola, que nos ajuda a evitar a raiva, o ódio, a maldade e a vingança, que nos afasta de todo o mal.

Que a tua mente então faça jejum, se abstendo de pensamentos vãos; que a tua memória jejue, de modo que você se lembre do mal que você mesmo fez. Que a sua vontade jejue, coibindo os desejos perversos. Que teus olhos jejuem para que você não possa fitar a vaidade. Que os teus ouvidos jejuem para que você não ouça canções vis ou sussurros de calúnia contra o seu próximo. Que a tua língua jejue, evitando toda a calúnia, condenação, blasfêmia, falsidade, engano, linguagem chula e toda a palavra ociosa e podre rápida de lembrar o mal. Que as tuas mãos jejuem , deixando de matar, de roubar. Que as tuas pernas jejuem, o desviando do mal caminho, se mantendo firmes na trilha da salvação.

Santo Atanásio, o Grande :

"Vês o que o jejum faz: ele cura doenças, expulsa demônios, remove maus pensamentos, faz com que o coração se torne puro. Caso alguém tenha sido tomado por um espírito impuro, que ele tal mal não se combate sem que faça oração e jejum, e isso sabemos de acordo com a palavra do Senhor (Mateus 17:21)".

Que Deus nos permita viver com piedade e verdadeiro fervor espiritual esses dias de esforço ascético.



domingo, 27 de janeiro de 2013

Jornal diz que igrejas arrecadaram R$ 20 bilhões em 2011


Três artigos muito interessantes, essenciais para se entender o atual fenômeno econômico e religioso brasileiro, publicados na Folha de S. Paulo de hoje, 27/01/13:


FLÁVIA FOREQUE

Em um país onde só 8% da população declaram não seguir uma religião, os templos dos mais variados cultos registraram uma arrecadação bilionária nos últimos anos.

Apenas em 2011, arrecadaram R$ 20,6 bilhões, valor superior ao orçamento de 15 dos 24 ministérios da Esplanada --ou 90% do disponível neste ano para o Bolsa Família.

A soma (que inclui igrejas católicas, evangélicas e demais) foi obtida pela Folha junto à Receita Federal por meio da Lei de Acesso à Informação. Ela equivale a metade do Orçamento da cidade de São Paulo e fica próxima da receita líquida de uma empresa como a TIM.

A maior parte da arrecadação tem como origem a fé dos brasileiros: R$ 39,1 milhões foram entregues diariamente às igrejas, totalizando R$ 14,2 bilhões no ano.

Além do dinheiro recebido diretamente dos fiéis (dos quais R$ 3,47 bilhões por dízimo e R$ 10,8 bilhões por doações aleatórias), também estão entre as fontes de receita, por exemplo, a venda de bens e serviços (R$ 3 bilhões) e os rendimentos com ações e aplicações (R$ 460 milhões).

"A igreja não é uma empresa, que vende produtos para adquirir recursos. Vive sobretudo da doação espontânea, que decorre da consciência de cristão", diz dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Entre 2006 e 2011 (último dado disponível), a arrecadação anual dos templos apresentou um crescimento real de 11,9%, segundo informações declaradas à Receita e corrigidas pela inflação.

A tendência de alta foi interrompida apenas em 2009, quando, na esteira da crise financeira internacional, a economia brasileira encolheu 0,3% e a entrega de doações pesou no bolso dos fiéis. Mas, desde então, a trajetória de crescimento foi retomada.



IMPOSTOS

Assim como partidos políticos e sindicatos, os templos têm imunidade tributária garantida pela Constituição.

"O temor é de que por meio de impostos você impeça o livre exercício das religiões", explica Luís Eduardo Schoueri, professor de direito tributário na USP. "Mas essa imunidade não afasta o poder de fiscalização do Estado."

As igrejas precisam declarar anualmente a quantidade e a origem dos recursos à Receita (que mantém sob sigilo os dados de cada declarante; por isso não é possível saber números por religião).

Diferentemente de uma empresa, uma organização religiosa não precisa pagar impostos sobre os ganhos ligados à sua atividade. Isso vale não só para o espaço do templo, mas para bens da igreja (como carros) e imóveis associados a suas atividades.

Os recursos arrecadados são apresentados ao governo pelas igrejas identificadas como matrizes. Cada uma delas tem um CNPJ próprio e pode reunir diversas filiais. Em 2010, a Receita Federal recebeu a declaração de 41.753 matrizes ou pessoas jurídicas.

PENTECOSTAIS

Pelo Censo de 2010, 64,6% da população brasileira são católicos, enquanto 22,2% pertencem a religiões evangélicas. Esse segmento conquistou 16,1 milhões de fiéis em uma década. As que tiveram maior expansão foram as de origem pentecostal, como a Assembleia de Deus.

"Nunca deixei de ajudar a igreja, e Deus foi só abrindo as portas para mim", diz Lucilda da Veiga, 56, resumindo os mais de 30 anos de dízimo (10% de seu salário bruto) à Assembleia de Deus que frequenta, em Brasília.

"Esse dinheiro não me pertence. Eu pratico o que a Bíblia manda", justifica.






RICARDO MARIANO

Desde a separação republicana entre Estado e igreja no Brasil, toda organização religiosa depende da contribuição financeira de seus adeptos para se sustentar.

A Igreja Católica obtém recursos com empresários, festas e quermesses, cobra pela realização dos rituais encomendados e, cada vez mais, exorta os fiéis a contribuir.

No kardecismo, espera-se que a clientela dos médiuns, após receber gratuitamente mensagens, passes e curas, doe alimentos, roupas e dinheiro para obras assistenciais.

As religiões afro-brasileiras são geridas por microempreendedores que, em troca de remuneração, ofertam bens e serviços mágico-religiosos: despachos, descarregos, amarrações, patuás, consultas aos búzios e ritos iniciáticos.

O inciso VI do artigo 150 da Constituição Federal veda ao Estado instituir impostos sobre "templos de qualquer culto", veto que, conforme o parágrafo 4º, compreende "o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais" das entidades religiosas.

Fins que se referem normalmente a templos, cultos, assistência religiosa, atividades filantrópicas e de formação teológica.

A imunidade tributária, avalia-se, protege a liberdade religiosa ao impedir o Estado de obstruir economicamente o funcionamento dos cultos.

Já o artigo 19 prevê que, em caso de "colaboração de interesse público", cultos podem auferir subsídios do Estado.

Nossa legislação, porém, parece despreparada para lidar com a proliferação de igrejas-empresas, conglomerados cujos líderes fazem fortuna, adquirindo jatinhos, helicópteros, mansões, fazendas, gravadoras, editoras, emissoras e redes de TV. Sempre à custa de rebanhos esmagadoramente pobres e socialmente vulneráveis.

Tanto que igrejas neopentecostais e suas controversas técnicas de arrecadação baseadas na teologia da prosperidade ensejaram a popularização dos trocadilhos "templo é dinheiro" e "templo de vendilhões".

Nelas, a adesão religiosa, embora opcional e voluntária, implica o compromisso de fazer doações financeiras polpudas e sistemáticas para garantir a propagandeada retribuição divina aqui e agora.

A religião tocada como negócio ou atividade econômica está a demandar uma nova regulação pública do religioso, seja para privá-la de privilégios fiscais ou para obstar sua mercantilização, prática em tudo avessa aos fins visados e resguardados pela dispendiosa concessão estatal de isenção tributária.






A arrecadação das igrejas em Estados do Nordeste cresceu quase o triplo da média nacional nos últimos anos.

No período de 2006 a 2011, o volume declarado pelos templos religiosos de todas as denominações religiosas nessa região aumentou 35,3% --um salto de R$ 1,45 bilhão para quase R$ 2 bilhões.

Ao mesmo tempo, o crescimento da arrecadação em todos os Estados da Federação se limitou a 11,9%.

O ritmo mais acelerado foi impulsionado, principalmente, pelos Estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba --que registraram evolução de receita de 130% e 60,3% nesse período, respectivamente.

De acordo com o Censo de 2010, a região Nordeste é a mais católica do país: 72,2% da população diz seguir a religião. No Brasil, esse percentual é de 64,6%. Ao mesmo tempo, porém, a região segue o movimento de queda de católicos de outras áreas --e de crescimento evangélico.

Em 2000, 10,3% da população do Nordeste declararam ser evangélicos. Em 2010, o índice subiu para 16,4%.



O total arrecadado pelos nove Estados do Nordeste, no entanto, é modesto se comparado ao volume de recursos declarados à Receita Federal pelas organizações religiosas do Sudeste.

Os quatro Estados da região concentraram quase R$ 14 bilhões do montante de R$ 20,6 bilhões informado à Receita Federal em 2011.

Somente São Paulo responde por praticamente metade de toda a arrecadação do segmento religioso no Brasil --R$ 10,2 bilhões.

É no Estado, aliás, que estão alguns dos maiores templos religiosos e onde se concentram as principais obras de expansão das igrejas.

No final do ano passado, por exemplo, o padre Marcelo Rossi inaugurou o Santuário Theotokos - Mãe de Deus na região de Interlagos, na zona sul da capital paulista.

Ele poderá abrigar 100 mil fiéis quando estiver totalmente pronto --sendo considerado o maior espaço católico no país. Na abertura, ainda incompleto, reuniu em uma missa 50 mil pessoas, de acordo com estimativa da Guarda Civil Metropolitana.

Também é na capital paulista que a Igreja Universal do Reino de Deus planeja construir uma réplica do Templo de Salomão, na zona leste.

A previsão é que a igreja ocupe 70 mil metros quadrados de área construída. O espaço poderá abrigar 10 mil pessoas sentadas.

Depois do Estado de São Paulo, as maiores arrecadações das igrejas no país estão no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná.

O Centro-Oeste também registrou crescimento expressivo de arrecadação religiosa --o volume subiu de R$ 1 bilhão para R$ 1,3 bilhão (variação de 32,89%).

Entre 2006 e 2011, apenas as organizações religiosas da região Sul tiveram queda no valor arrecadado --de pouco menos de 19%.

CENSO

Os números do último Censo do IBGE mostraram que o catolicismo perdeu 1,7 milhão de adeptos no Brasil entre os anos de 2000 e 2010.

O movimento foi seguido pela expansão das religiões evangélicas --que conquistaram 16,1 milhões de fiéis no período e passaram a representar 22,2% da população.

Os grupos de sem religião e espíritas também tiveram crescimento no Brasil ao longo da última década.

O peso deles no cenário nacional, no entanto, é bem menor --de 8% e 2%, respectivamente. (FLÁVIA FOREQUE)



quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mãe de Deus, Encarnação e Trindade




A expressão Mãe de Deus - associada a Maria - desde o quarto século é uma expressão polêmica no meio cristão, e poucas pessoas compreendem seu real significado. Não é à toa que ela foi a principal causa de dois Concílios Ecumênicos e gerou uma das maiores controvérsias do cristianismo.


Hoje ela está automaticamente ligada ao catolicismo, e se tornou uma expressão mariológica, a exemplo de Theotokos (do grego Θεοτόκος), na ortodoxia oriental. Por isto mesmo, no meio evangélico, há uma espécie de aversão instantânea a esta expressão, o que faz com que as pessoas a rejeitem sem ao menos refletir sobre o seu real significado.


Desta maneira, poucos conhecem sua natureza cristológica, pois a expressão, quando foi criada, estava muito mais relacionada à divindade de Cristo do que a uma pretensa superioridade de Maria. Por isto lemos no Credo de Calcedônia:
Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da virgem Maria, mãe de Deus; Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis; a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos pais nos transmitiu.


Este credo é aceito por todas as denominações protestantes, com exceção das extremamente puritanas e de algumas seitas que renegam todo o passado da Igreja. É comum encontrar pessoas que a chamam de herética, talvez por associá-la - como que por reflexo condicionado - apenas ao catolicismo. Eu não sou dogmático, e não condeno ninguém por achar errado valer-se da expressão, como católicos a utilizam, e o fazem de forma forçada, a meu ver... só que o título Mãe de Deus não é heresia, como muitos alegam. Talvez haja discordância sobre o seu uso correto, mas não se trata de uma expressão herética. Isto se explica porque as duas naturezas de Cristo estão tão unidas, que a expressão é possível. Vejamos:


Sabemos que Cristo é um ser que possui duas naturezas, a saber, a humana e a divina. Estas naturezas estão intimamente ligadas no ser Jesus Cristo. Assim, o que acontece com uma natureza, acontece com todo o ser Jesus Cristo, e não com parte dele.


É como chorar. Quem desempenha a tarefa de chorar é o olho, mas quando choramos, ninguém diz que é o olho que está chorando, mas nós por completo. A pessoa chora, não apenas o olho.


O mesmo acontece com Cristo. Deus não pode chorar, não é propriedade de sua natureza. Mas na Encarnação, Deus pode chorar através de sua natureza humana. Então quando Cristo chora, Deus chora, pois suas naturezas são uma só em seu ser. Da mesma forma, um homem não pode ser adorado, mas por causa da união entre as duas naturezas, a natureza humana de Cristo recebe adoração como Deus.


Isto precisa ser assim, pois era necessário que Cristo experimentasse a morte, como o autor de Hebreus diz:
(Hb 9:15) E por isso é mediador de um novo pacto, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto, os chamados recebam a promessa da herança eterna.
(Hb 9:16) Pois onde há testamento, necessário é que intervenha a morte do testador.
(Hb 9:17) Porque um testamento não tem força senão pela morte, visto que nunca tem valor enquanto o testador vive.


Ora, se Deus não experimenta a morte, então nós não podemos receber nossa herança eterna!!! Imagine quão perigoso é isto para nossa salvação!!!


E aqui nós podemos perceber quão herético é o aniquilacionismo. Pois se a morte é aniquilação, Deus ao experimentar a morte teria sido aniquilado!!! Nós ao contrário cremos que a morte é uma separação do mundo material, não uma aniquilação do ser completo.


Então, o título "mãe de Deus" é válido sim, pois as propriedades de uma natureza são compartilhadas com a outra, pois Jesus é um ser (mais que) completo, íntegro e co-substancial em suas essências humana e divina. Assim, Deus não tem uma mãe humana, mas através de sua natureza humana ele tem uma mãe. Estas são as palavras mencionadas na confissão de Calcedônia e é como se deve entender esta expressão.


Complementando a idéia acima, sempre me chamou a atenção para o fato que a Bíblia chama muitas vezes Deus de "o Deus Vivo". Isto ela faz em contraste com os deuses mortos dos pagãos.


Bem, nós protestantes entendemos a morte como uma separação do mundo material. O morto não se comunica com este mundo mais, ele não se relaciona com ele. Talvez por isto o contraste bíblico... Os deuses pagãos são incapazes de se relacionar com este mundo, de salvar seus fiéis, de lhes dar esperança.


Já mencionei algumas vezes o fato de Deus ter que morrer como condição apresentada no livro de Hebreus, e muitos acharam a idéia absurda, talvez por que nesta hora pensem na morte como aniquilação... Mas o que acontece é que este não se relaciona mais com o mundo, pelos três dias, e por isto também a solução modalista de que somente Jesus é Deus, que o Pai e o Espírito Santo são modos de Jesus se revelar ao mundo, é herética da mesma forma. Como poderia o mundo ficar sem se relacionar com Aquele que o sustém? Deus deixaria de manter o mundo pelos 3 dias? Assim, a Trindade se impõe como doutrina não por uma manobra político-ideológica, mas como uma necessidade teológica absoluta para explicar a nossa salvação.

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