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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 24


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 2


(este texto continua o anterior, que pode ser lido clicando aqui)


A autoridade secular também deve empenhar-se, pois, visto que esses intrusos são mensageiros do diabo, pregam mero veneno e mentiras; e visto que o diabo não é apenas mentiroso, mas também assassino, não pode dar outra: com esses seus mensageiros quer provocar tumulto e matança (ainda que se abstenha disso por algum tempo e se mostre pacífico), para, desse modo, derrubar ambos os regimes, o espiritual e o secular, em oposição a Deus. Ele não pode proceder de outro modo, pois sua natureza é mentir e assassinar. Por isso os seus, possessos dele, não têm domínio sobre si; eles têm que agir como ele os impele.

Por essa razão, magistrados, juízes e as demais autoridades governamentais deveriam saber e ter a certeza de que esses intrusos não apenas são suspeitos de falsa doutrina, mas também, de assassinato e tumulto, porque sabem que essas pessoas são cavalgadas pelo diabo. Através de seus funcionários deveriam reunir os súditos, esclarecer-lhes essas coisas, adverti-los contra esses patifes e ordenar solenemente, sob pena de severo castigo, que cada súdito denuncie esses intrusos, como aliás, é dever dos súditos, se não quiserem tornar-se cúmplices de toda a matança e tumulto que o diabo tem em mente, etc. Da mesma forma, também a autoridade espiritual deve insistir na vocação e perguntar ao intruso ou seu hospedeiro: De onde vens? Quem te enviou?, etc., como acima. E perguntar ao hospedeiro: Quem te ordenou hospedar esse intruso, ouvir sua pregação clandestina? De onde sabes que ele tem a ordem de instruir-te e que tens que aprender dele? Por que não informaste o pastor ou a nós? Por que abandonas tua Igreja, na qual foste batizado, instruído e recebeste a comunhão, e onde é teu lugar pela ordem de Deus e mergulhas na clandestinidade? Por que instituis algo novo, clandestinamente e sem teres recebido a ordem para isso? Quem te deu poder para dividir esta paróquia e provocar tumultos entre nós? Quem te ordenou desprezar teu pastor, a julgar e condená-lo à revelia, antes mesmo de ter sido ouvido ou acusado? De onde tens a autoridade para te arvorares em juiz de teu pastor, sim, inclusive em teu próprio juiz?

Pois são esses os vícios e outros mais que comete todo aquele que adere aos intrusos, e é justo que se o chame à responsabilidade. Tenho grande esperança de que, se a autoridade se empenhasse nesse sentido, isso resultaria em grande proveito, e muitas pessoas cristãs se acautelariam e ajudariam a expulsar esses patifes, caso soubessem que os intrusos constituem um perigo tão grande e que a vocação e a ordem é algo importante. Pois, caso não se insistir na vocação ou ordem, por fim, não sobrará mais Igreja em parte alguma. Pois da mesma maneira como os intrusos se infiltram cá entre nós, querem causar separação em nossa Igreja e destruí-la, depois apareceriam outros intrusos nas igrejas deles, causando separação e destruindo-as. E daí uma infiltração e cisão sucederia à outra, sem fim, ou então, nada mais sobraria de qualquer Igreja na terra. É justamente isso que o diabo gostaria de conseguir e tenta por meio desses espíritos tumultuadores e intrusos.

Por isso, o procedimento é o seguinte: ou provai que fostes chamados e que tendes a ordem para pregar, ou silenciai imediatamente. Estais proibidos de pregar, porque aqui se trata de um ministério, sim, de um ministério da pregação. Ora, ninguém pode ser detentor de um ministério fora ou sem ordem e vocação. Por isso Cristo diz na parábola de Mateus 25 que o patrão não confiou os talentos a seus empregados, para negociarem com eles, antes de os ter chamado e dado a ordem de negociar. Vocatis servis, diz o texto, et negotiemini, etc. – “Convocou seus empregados”, diz ele, “e lhes ordenou que negociassem com seu dinheiro”. Que o intruso também apresente uma vocação e ordem nesse sentido, ou então, deixe o dinheiro do SENHOR em paz; do contrário será considerado ladrão e charlatão. Da mesma forma, os trabalhadores não entraram na vinha do patrão, Mateus 20[1-16], antes de os ter contratado e lhes ter ordenado ir. Antes de receberem a ordem e a vocação, andaram ociosos o dia inteiro.

A mesma coisa diz Deus a respeito desses intrusos: “Eles correm, sem que eu os tivesse enviado; pregam, sem que eu lho tivesse ordenado” [Jr 23.21]. Ainda há que se empenhar muito esforço e trabalho para conseguir que preguem retamente e se atenham à reta doutrina os que têm o chamado e receberam a ordem legítima do próprio Deus, ou foram chamados e receberam a ordem por homens em nome de Deus. Se esse é o caso, como será quando se prega sem ordem de Deus, sim, contra a ordem e a proibição de Deus, somente por estímulo e iniciativa do diabo? Aí nenhuma pregação será bem-vinda a não ser a inspirada pelo espírito do mal, e só pode haver doutrina do diabo, por mais brilhante que seja.

Quem teve um chamado mais claro e legítimo do que Arão, o primeiro sumo sacerdote? Não obstante, caiu na idolatria e ordenou aos judeus que fizessem o bezerro de ouro. Posteriormente, a maioria do sacerdócio levítico se entregou à idolatria e, além disso, perseguiram a Palavra de Deus e todos os verdadeiros profetas. Também o rei Salomão fora chamado e confirmado de modo maravilhoso. Mesmo assim, entregou-se à idolatria na velhice. Acaso os bispos e papas não têm um chamado e ordem maravilhosos? Não estão eles sentados nas cátedras dos apóstolos e no lugar de Cristo? Não obstante, todos eles são os piores inimigos do Evangelho, muito menos se pode esperar deles que ensinem corretamente e realizem verdadeiro culto a Deus.

Ora, se o diabo é capaz de enganar os mestres que o próprio Deus chamou, instituiu e ordenou, a ponto de ensinarem falsamente e perseguirem a verdade, como ensinaria algo de bom por meio dos mestres que ele impulsiona e ordenou sem e até contra a ordem de Deus, e não muito antes, a pura mentira diabólica? Já disse muitas vezes e torno a dizer: Não aceitaria os bens do mundo inteiro em troca de meu título de doutor. Pois, sem dúvida, por fim eu teria que desanimar e desesperar em face da grande e pesada obra que pesa sobre mim, se eu a tivesse iniciado como intruso, sem chamado e ordem. No entanto, Deus, e o mundo são minhas testemunhas de que a empreendi publicamente em meu ministério de doutor e da pregação, e assim a conduzi até agora com a graça e ajuda de Deus.


(este texto tem continuação que pode ser lida clicando aqui)

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 117-119)



domingo, 2 de agosto de 2009

Feridos pelo caminho

Não vou revelar nomes nem local – afinal, o que vou relatar acontece todo dia no Brasil - mas, há muitos anos atrás, acompanhei o processo de divisão de uma igreja tradicional, em que um dos seus líderes, incentivado por um conhecido líder evangélico, e descontente com a frieza que ele nela apontava, levou um grupo de irmãos a formar outra igreja, e, ainda que não fôssemos membros de nenhuma delas, eu e um irmão – alguns dias depois - fomos visitar a nova congregação, onde, após o culto, o líder em questão comentou conosco:

- Sabe o que é, irmãos, as igrejas que estão crescendo hoje são pentecostais, e por isso eu decidi fundar uma igreja pentecostal. É isso que funciona!

Apenas ouvimos a afirmação do recém-empossado pastor da recém-fundada igreja e ao sair de lá, o irmão que me acompanhava comentou, um tanto quanto assustado:

- Se o critério que o levou a abrir de uma igreja é o crescimento nos dias atuais, ele podia usar a mesma razão para montar um centro de umbanda ou espírita, já que eles também estão crescendo bastante.

Teologias e sarcasmos à parte, o motivo invocado pelo pastor para fundar uma nova igreja (“funciona!”) ainda era pretexto, no começo dos anos 80, para um movimento que estava no seu estágio inicial no meio evangélico brasileiro. 

Por mais que seus objetivos fossem nobres (“pregar o evangelho”), as suas palavras já revelavam a influência do utilitarismo nas igrejas, esta corrente filosófica que diz que “os fins justificam os meios” e que é hegemônica no mundo atual. 

Sem querer querendo, ele estava se tornando mais um refém do discurso utilitário do que propriamente um discípulo do evangelho. 

Afinal, as suas razões não estavam calcadas num exame mais aprofundado das Escrituras nem num espírito cristão de amor e compreensão. 

Queria, como qualquer utilitário, resultados rápidos e visíveis com o mínimo custo possível, ainda que não perdurassem no longo prazo. Afinal, muito mais valor se dá ao “pelos frutos os conhecereis” do Sermão do Monte (Mateus 7:16-20) do que ao “eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” do discurso em que Jesus aprofunda o tema (João 15:16). 

Bem, se eles não se preocupavam com as pessoas que ficaram machucadas pelo processo de divisão, a questão da permanência dos frutos passava – inconscientemente, creio eu – a ser secundária. 

Aliás, eu tenho a impressão de que Deus se preocupa muito mais com os irmãos que ficam feridos pelo caminho do que aqueles que vêm à igreja, ficam por um tempo e depois somem no mundo. 

Como diz o próprio Jesus, “qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18:6).

Pois bem, passaram-se os anos, as décadas, e daquele grupo inicial, muita gente se afastou e nunca mais quis saber de igreja, e vários outros líderes, formados na nova igreja, também invocaram as mesmas razões utilitárias para dividirem os irmãos e fundarem as suas próprias igrejas. 

Isto sem contar que o pastor-mor, que havia sido mentor do primeiro líder-divisor, muitos anos depois se envolveu num adultério, que terminou confessando apenas para o seu filho (também pastor), que, incapaz de lidar com a história sozinho, terminou me contando o fato, que também era conhecido (ou suspeitado) por outros irmãos. 

O pastor-mor não quis se retratar e confessar o pecado à sua congregação, talvez por achar que uma confissãozinha a seu filho podia quebrar o seu galho e aliviar a sua consciência. Até protestantes tornam-se católicos quando convém.

Por fim, deixo uma mensagem aos que ficaram feridos pelo caminho. Infelizmente, vocês viram, da pior maneira possível, como uma visão do evangelho distorcida e contaminada pelo utilitarismo, pode afastá-los do verdadeiro prazer de ser cristão, compartilhar suas dores e bênçãos, orar e estudar a Bíblia, e ajudar a construir um mundo melhor. 

Não existe igreja perfeita, isto é fato, mas há muitos crentes imperfeitos que NÃO são hipócritas nem querem se locupletar às custas do sofrimento alheio. 

 Aqueles que promovem divisões darão conta de si mesmo a Deus, que os acusa de serem sensuais e não terem o Espírito (Judas 1:19). 

A palavra aí traduzida por “sensuais” é, no original grego, ψυχικός – psuchikos – que quer dizer, literalmente, “governados pelas próprias paixões, pelo próprio apetite”. 

Entreguem-nos, portanto, ao justo juízo de Deus, mas não fiquem lambendo indefinidamente as suas feridas. 

Vocês aprenderam como NÃO fazer a obra de Deus, agora estão preparados para fazê-la da maneira correta, com toda a humildade, mansidão e perdão. 

Não permitam que farsantes e falsificadores do evangelho retenham o seu perdão, nem bloqueiem o seu caminho até Deus. Voltem! A Igreja e os seus irmãos precisam de vocês.

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