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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 10


O DIREITO

Alguém poderá dizer: Mas como? Não se deve defender o direito? Devemos renunciar à verdade? Não nos foi ordenado morrer por amor do direito e da verdade? Acaso os santos mártires não sofreram por causa do Evangelho? Não quis ter razão o próprio Cristo? Em todos os casos acontece que, às vezes, tais pessoas têm razão perante o público (e, como alardeiam, perante Deus), e agem bem e sabiamente. Respondo: Está na hora e urge abrir os olhos. Aqui está o nó da questão: importa, pois, que se esteja bem instruído sobre o que é estar com a razão. É certo que se deve sofrer qualquer coisa por amor da verdade e do direito e que não se deve negá-los, por mais insignificante que seja o assunto. Pode, inclusive, ser que tenham razão. No entanto, arruínam o direito por não executarem o direito conforme o direito, não agem com temor, não têm a Deus diante dos olhos. Acham que basta que seja direito, devem e querem prosseguir por sua própria autoridade e levar o jogo até o fim. Com isso transformam seu direito em injustiça, embora, em princípio, fosse justo. O perigo, porém, é muito maior quando apenas acham que é direito, mas não têm certeza, como ocorre nos elevados assuntos que dizem respeito a Deus e sua justiça. Em primeiro lugar, todavia, queremos falar do simples direito humano e dar um exemplo singelo e compreensível.

Acaso não é verdade que dinheiro, bens, corpo, honra, mulher, filhos e amigos, etc. também são coisas boas que o próprio Deus criou e deu? Sendo dons de Deus e não tua propriedade, [suponhamos] que ele queira pôr-te à prova para ver se serias capaz de renunciar a eles por amor a ele, aferrando-te mais a ele do que a esses seus bens; que ele te mandaria um inimigo que os tirasse de ti todos ou em parte e te prejudicasse, ou então os perdesses por morte e ruína, ou de outra forma. Crês que, neste caso, terias motivo justo para esbravejar, enfurecer-te e para recuperá-los com violência e à força, ou ficares impaciente até recobrá-los? Alegarias que são coisas boas e criaturas de Deus que ele próprio fez, e que toda a Escritura considera boas essas coisas; por isso estarias disposto a cumprir a palavra de Deus e proteger esses bens com o corpo e a vida e recuperá-los; ou então, ao menos, não estarias disposto a renunciar a eles espontaneamente nem entregá-los resignadamente. Não pareceria bonito? Se quisesses proceder bem neste caso, não deverias tentar passar com a cabeça pela parede. Como então? Deverias temer a Deus e dizer: Bem, querido Deus, são coisas boas e bens teus, como diz tua própria palavra, a Escritura. Não sei, porém, se mos queres conceder. Se porém, soubesse que preferirias vê-los em meu poder do que no poder daquele outro, quereria servir a tua vontade e recuperá-los com o empenho de corpo e bens. Como, porém, não sei nenhuma nem outra e vendo [apenas] o fato de que, no momento, permites que me sejam tirados, entrego a causa a ti. Aguardo o que devo fazer e estou disposto a tê-los ou a prescindir deles.

Eis aí uma alma justa; ela teme a Deus, conta com a misericórdia, como canta a mãe de Deus; a partir daí se pode compreender por que, em tempos passados, Abraão, Davi e o povo de Israel lutaram e mataram muita gente: empreenderam [essas coisas] por vontade de Deus, temiam [a Deus] e não lutavam por causa dos bens, mas porque Deus o esperava deles, como o demonstram os relatos, indicando, em geral, a ordem prévia de Deus. Vê, aqui a verdade não é negada: a verdade afirma que são coisas boas e renunciar a esses bens e estar disposto, a todo momento, a prescindir deles, quando Deus assim o quer, e que deves prender-te somente a Deus. A verdade não te obriga a recuperar os bens ao afirmar que são bons. Tampouco te obriga a dizer que não são bons. Muito antes deves ter uma atitude serena em relação a eles e confessar que são bons, e não maus.

Da mesma forma deve-se proceder também com o direito e toda sorte de bens da razão ou da sabedoria. O direito é uma coisa boa e dádiva de Deus – quem iria duvidar disso? A própria palavra de Deus afirma que o direito é bom e jamais alguém deve admitir que suas causas boas e justas sejam injustas ou más; antes deve morrer por isso e renunciar a tudo que não é de Deus; pois isso significaria negar a Deus e sua palavra que diz que o direito é bom e não mau. Acaso quererias gritar por causa disso, raivejar, esbravejar e destruir o mundo inteiro quando esse direito te é tirado ou suprimido? (Há os que procedem desse modo, os que clamam ao céu, provocam toda sorte de miséria, destroem terras e povos, cobrem o mundo com guerras e derramamento de sangue). Sabes acaso se Deus quer deixar-te essa dádiva e esse direito? Ora, é propriedade dele e ele pode to tirar hoje ou amanhã, dentro ou fora, por meio de inimigos e amigos e como quiser. Ele quer experimentar-te se, por amor dele, também estás disposto a renunciar ao direito, a não ter razão e sofrer injustiça, suportar a ignomínia por sua causa e a te prenderes somente a ele. Se és temente a Deus e pensas: Senhor, tudo é teu, não quero tê-lo a não ser que saiba que mo queres conceder; que se vá, seja o que for, contanto que tu sejas meu Deus – então se aplica este versículo: “E sua misericórdia está com aqueles que o temem”, que nada querem fazer sem sua vontade. Vê, aí está cumprida a palavra de Deus em ambos os casos: em primeiro lugar, confessas que o direito, tua razão, teu conhecimento, tua sabedoria e toda tua intenção são justos e bons, como o diz a própria palavra de Deus. Em segundo lugar, prescindes desses bens voluntariamente por amor de Deus, e aceitas ser destruído e injuriado injustamente pelo mundo, como o ensina igualmente a palavra de Deus. “Duas coisas são boas ou justas: confessar e conquistar”. Para ti basta confessar que tens o bem e o direito; se não o puderes conquistar, entrega isso a Deus. A ti se ordenou confessar; o conquistar está reservado a Deus. Se ele quiser que também o conquistes, ele mesmo o fará ou então to colocará à disposição, sem que te tivesses lembrado, de maneira que o deverás pegar na mão e conquista-lo de uma forma como jamais o terias imaginado ou desejado. Se ele não quiser, que te baste sua misericórdia. Ainda que te tomem a vitória do direito, não te podem tomar o confessar. Vê, assim temos que nos distanciar, não dos bens de Deus, mas do mau e perverso apego a eles, de modo que possamos renunciar a eles ou usá-los com tranquilidade, para que, em todos os casos, nos apeguemos somente a Deus. Isso deveriam saber todos os príncipes e autoridades que não se satisfazem com o confessar do direito, mas também querem, em todos os casos, conquista-lo e vencer, sem temor de Deus. Cobrem o mundo de sangue e miséria, acham que procedem bem e com justiça, porque a causa é justa ou, ao menos, acham que é justa. Isso não é outra coisa do que o orgulhoso e presunçoso Moabe, que declara e se considera digno a si mesmo de possuir o nobre e belo bem e dom de Deus (o direito), quando, na verdade, caso se contemplasse bem na presença de Deus, não é digno sequer de que a terra o suporte e de comer a códea [casca, crosta] do pão, por causa de seus pecados. Oh cegueira! Oh cegueira! Quem é digno ainda que seja da menor criatura de Deus? Contudo, não apenas queremos ter as criaturas mais elevadas, o direito, a sabedoria e a sua honra, mas ainda queremos preservar e conquista-las com furioso derramamento de sangue e toda sorte de desgraça. Depois vamos e fazemos orações, jejuamos, ouvimos a missa, fundamos igrejas com essa mente sanguinária, furiosa e louca, de sorte que não admiraria se as pedras arrebentassem diante de nossos olhos.

(LUTERO, Martinho. O Magnificat. 1521. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegra: Concórdia. Tradução Ilson Kayser. 1996. Vol. 6, págs. 56-58)



sábado, 17 de junho de 2017

Sobre canibalismo e previsibilidade do Direito na canoa furada chamada "Brasil"


Acredite: dá mais ou menos nisso o resumo do excelente artigo de Lenio Luiz Streck publicado no Consultor Jurídico em 08/06/17:

No naufrágio jurídico, quem os tubarões comerão primeiro? Há critérios?

Subtema ou dizendo-de-outro modo: Tubarões estudam realismo jurídico e devoram os jurista.

Escrevi há dias sobre o perigo de os professores de direito agirem como torcedores. Não só os professores. Parcela considerável da comunidade jurídica age assim. Alertei para o fato de que esquecemos de nosso objeto de estudo e trabalho: o Direito. Transformamos as Faculdades em cursos para apreender truques de teoria política do poder (aliás, uma péssima teoria política do poder). Sem querer e/ou sem saber, fazem o jogo de um realismo retrô, em que o relativismo é a cereja do bolo.

Hoje em dia precisamos pedir desculpas para falar de Direito. O professor chega na sala de aula e fala sobre tudo (e sobretudo) ...a partir de sua opinião pessoal. Como se os alunos pagassem para ouvir o que professor (ou o juiz, o membro do MP) pensam pessoalmente sobre o Direito (ou sobre a sociedade). Qual é a diferença de um juiz que decide conforme “seu posicionamento pessoal” e o que o professor faz em sala de aula? Ao que consta, não se vai ao judiciário pedir a opinião pessoal do magistrado. E nem do professor na sala de aula. Antes de tudo, há uma coisa chamada “Direito” (peço desculpas, de novo, por falar nessa coisa démodé, a Constituição).

Por exemplo: de que adianta falar mal da reforma trabalhista se não se discute o modo como são feitas as OJs e as Súmulas pelo TST? Ou o protagonismo judicial ínsito à Justiça laboral? Em vez de malhar (ou elogiar) a reforma previdenciária, não seria bom fazer um aprofundado estudo jurídico-constitucional a respeito? Ou essa discussão é meramente política? Em vez de elogiar (ou criticar) o STF acerca do “caso Bruno”, por que o professor não explica (ou pede ampla pesquisa) acerca do HC 126292, sua origem (comarca de Itapecerica da Serra), já aproveita para explicar o que é distinguishing, fala do artigo 926 do CPC que não foi obedecido? Ah: e quando for criticar o tal “princípio” (sic) da verdade real, o professor pode fazer duas coisas: primeiro, não somente fazer um “carnaval” em cima disso; precisa explicar tim-tim por tim-tim, uma vez que 90% dos críticos da verdade real sequer sabem do que estão falando; segundo, pegar um caso concreto baseado na “busca da verdade real” e mostrar como no lugar da VR poderia ter usado qualquer coisa...que chegaria na mesma conclusão, porque a VR é uma katchanga real. E assim por diante. Lembrando sempre que o professor está lecionando...Direito. Ou não está lecionando direito o Direito.

Por isso, precisamos de critérios. Não dá para um mesmo Tribunal livrar um sujeito acusado de corrupção de milhões e manter preso uma pessoa que furtou pedaços de queijo e peito de frango; não dá para depender, em Habeas Corpus, do poder discricionário do Judiciário (que é um não-critério); ora, temos já critérios que definem o resultado do carnaval em 0,01 e ainda não temos critérios para conhecer um HC – aliás, se um HC pode ser impetrado pela própria pessoa e sua origem é “traga-me o corpo”, como se pode não conhecer do remédio (chamado antigamente de “heroico”)? Qual é o critério para definir o conhecimento e deferimento de embargos de declaração? Por que quem impetra uma ação nunca sabe o que vai acontecer? Critérios. Critérios. Onde estão?

Talvez com a historinha que contarei a seguir seja possível passar de forma mais simples o que tento dizer de há muito. É de Luis Fernando Veríssimo. Divido-a com vocês (com pequenas adaptações). A crônica é “Critérios”. Vamos a ela. Eu gostaria de tê-la escrito.

Os náufragos de um transatlântico, dentro de um barco salva-vidas perdido em alto-mar, tinham comido as últimas bolachas dos pacotinhos e contemplavam a antropofagia como único meio de sobrevivência.

— Mulheres primeiro — propôs um cavalheiro.

A proposta foi rebatida com veemência pelas mulheres. Onde se viu, as mulheres? Machista. Safado.

De todo modo, estava posta a questão fulcral: qual critério usar para decidir quem seria comido primeiro para que os outros não morressem de fome?

— Primeiro os mais velhos — sugeriu um jovem.

Os mais velhos imediatamente se reuniram num protesto. Falta de respeito!

— É mesmo — disse um — somos difíceis de mastigar.

— Por que não os mais jovens, sempre tão dispostos aos gestos nobres?

— Somos, teoricamente, os que têm mais tempo para viver — disse um jovem. E vocês precisarão da nossa força nos remos e dos nossos olhos para avistar a terra.

— Então os mais gordos e apetitosos, sugeriu o jovem.

— Injustiça! — gritou um gordo. — Temos mais calorias acumuladas e, portanto, mais probabilidade de sobreviver de forma natural do que os outros.

— Então comamos os mais magros.

— Nem pensem nisso — disse um magro, em nome dos demais. Afinal, somos pouco nutritivos.

— Por que não comemos os religiosos, gritou outro.

— Negativo. Não esqueçam que só nós temos um canal aberto para lá — disse um pastor, apontando para o alto — e que pode se tornar vital, se nada mais der certo.

Era um dilema.

É preciso dizer que esta discussão se dava num canto do barco salva-vidas, ocupado pelo pequeno grupo de passageiros de primeira classe do transatlântico, sob os olhares dos passageiros da patuleia, apertada na segunda e terceira classes, isto é, o resto da embarcação e não diziam nada. Até que um deles perdeu a paciência e, já que a fome era grande, inquiriu:

— Cumé é que? Cadê a boia (na verdade, queria dizer “comida”).

Recebeu olhares de censura da primeira classe. Poxa, o patuleu não sabe nem falar o português. Mas como estavam todos, literalmente, no mesmo barco, também recebeu uma explicação.

— Estamos indecisos sobre que critério utilizar.

— Pois eu tenho um critério — disse o patuleu.

— Qual é?

— Vamos comer primeiro os indecisos.

Esta proposta causou um rebuliço na primeira classe acuada. Um dos seus teóricos levantou-se e pediu:

— Não vamos ideologizar a questão, pessoal!

Em seguida levantou-se um ajudante de maquinista e pediu calma. Queria falar.

— Náufragas e náufragos — começou — Neste barco só existe uma divisão real, e é a única que conta quando a situação chega a este ponto. Não é entre velhos e jovens, gordos e magros, poetas e atletas, crentes e ateus... É entre minoria e maioria.

E, apontando para a primeira classe, gritou:

— Vamos comer a minoria!

Novo rebuliço. Protestos. Revanchismo, não, gritavam os membros da primeira classe!

Mas a maioria avançou sobre a minoria. A primeira classe não era primeira em tudo?

Pois seria a primeira a ser devorada.

Entretanto, restava um problema. Não podiam comer toda a primeira classe, indiscriminadamente. Ainda precisava haver critérios. Foi quando se lembraram de chamar o Natalino. O chefe da cozinha do transatlântico. E o Natalino pôs-se a examinar as provisões, apertando uma perna aqui, uma costela ali, com a empáfia de quem sabia que era o único indispensável a bordo.

O fim desta pequena história admonitória é que, com toda agitação, o barco salva-vidas virou e todos, sem distinção de classes, foram devorados pelos tubarões. Que como se sabe, não têm nenhum critério.

Conclusão:

Por isso, a aplicação do Direito precisa de critérios. Aplicados sempre de forma equânime (por e com fairness). Não pode ser feita na base do “o clamor público exige”, “entre a lei e minha consciência, fico com a última”, “em nome da verdade real”, “julgar é um ato de fé”, “prova é o nome dado a uma crença” (sobre isso farei uma Coluna!), “a sociedade está pedindo mais punição”, “em nome dos fins, posso usar qualquer meio”, “é melhor condenar alguém do que ninguém” e assim por diante.

A democracia precisa de critérios. Antes que sejamos todos devorados pelos tubarões. Se é que já não estão às nossas portas. Na verdade, já estão.

MORAL DA HISTÓRIA: Tubarões não tem critérios. Tubarões não sabem nada de Direito. Tubarões cuidam apenas de seu apetite. Atendem apenas aos seus desejos. Quem cuida do Direito não deve e não pode se comportar como os tubarões. O Direito só funciona mediante critérios.

METAFORICAMENTE: Preocupado com o apetite dos tubarões e com sua irracionalidade, todas as semanas venho aqui para importuná-los e avisar que precisamos de critérios. Que o Direito é que serve para filtrar a moral e a política, e não o contrário.

Sei que é uma chatice. Mas é que conheço tubarões.... Estudo-os há anos. Especializei-me em “epistemologia do Negaprion brevirostris”. Descobri que os tubarões (principalmente os grandões, negaprions), se fossem juristas, seriam adeptos do realismo retrô. Realistas-retrô também não têm critérios. Ah: para os tubarões, tudo é relativo. Por isso eles não têm critérios.



sábado, 1 de abril de 2017

Você já sabia: repetição de mentiras = "ilusão da verdade". Mas como isso funciona?

A matéria é da BBC Brasil:

'Ilusão da verdade': A importância da repetição para o sucesso das mentiras

Tom Stafford*

A máxima de que "basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade" é uma das regras básicas da propaganda política, constantemente atribuída ao nazista Joseph Goebbels.

Entre psicólogos, é conhecida como efeito da "ilusão da verdade". Um experimento típico mostra como isso funciona:

Voluntários avaliam o quanto de verdade há em algumas afirmações triviais. Algumas delas são reais e outras são mentiras muito parecidas com a verdade. Após um intervalo de alguns minutos ou de algumas semanas, os participantes fazem o teste novamente, mas desta vez algumas das afirmações são novas.

Os resultados mostram que as pessoas tendem a avaliar como sendo verdade afirmações que elas já ouviram antes, mesmo que sejam falsas. Isso porque simplesmente soam mais familiares.

E assim, em um laboratório de alguma universidade ou instituto de pesquisa, parece estar a explicação para essa ideia de que basta repetir uma mentira para ela ser percebida como verdade.

A importância do conhecimento

Se você olhar à sua volta, vai perceber que todo o mundo - de publicitários a políticos - parece estar tirando partido dessa característica da psicologia humana.

Mas se pudéssemos fabricar uma verdade apenas repetindo uma mentira, não haveria necessidade de tantas outras técnicas de persuasão que conhecemos.

Um obstáculo é aquilo que já sabemos. Mesmo quando uma mentira parece plausível, por que deixaríamos de lado aquilo que sabemos só porque a ouvimos repetidamente?

Recentemente, uma equipe da Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, começou a testar como a "ilusão da verdade" interage com nossos conhecimentos anteriores.

Eles usaram afirmações aos pares - uma verdadeira e outra falsa -, mas também as dividiram de acordo com a probabilidade de os participantes saberem a resposta.

O grupo concluiu que a "ilusão da verdade" funcionou da mesma maneira para as afirmações verdadeiras e para as falsas, o que sugere que o conhecimento anterior não evita erros de julgamento.

Para ter certeza de que estavam cobrindo todas as áreas, os pesquisadores então realizaram um estudo em que os participantes precisavam avaliar o grau de verdade de uma afirmação, de 1 a 6, e outro em que deviam apenas dizer "falso" ou "verdadeiro".

A repetição levou algumas afirmações ao topo da escala e aumentou as chances de classificá-las como verdadeiras - mesmo as frases falsas ganharam mais credibilidade.

Checar os fatos

A princípio, tudo isso parece ser uma enorme tragédia para a racionalidade humana. Mas precisamos olhar para os números quando interpretamos a ciência psicológica.

O que os especialistas americanos de fato descobriram foi que a maior influência na decisão de um julgamento sobre uma afirmação ser verdadeira era justamente o fato de ela ser verdadeira.

A repetição não conseguiu mascarar a verdade - com ou sem ela, as pessoas ainda tinham mais propensão a acreditar nos fatos do que nas mentiras.

Isso mostra algo fundamental sobre a maneira como atualizamos nossas crenças: a repetição tem o poder de fazer algo parecer mais verdadeiro, mas não se sobrepõe ao conhecimento.

Sendo assim, nos perguntamos: por quê? A resposta está relacionada com o esforço necessário para sermos rigidamente lógicos sobre qualquer informação que nos chega aos ouvidos.

Como precisamos fazer julgamentos rápidos, usamos atalhos - heurísticas que estão mais certas do que erradas.

Confiar na frequência com que ouvimos algo é apenas uma estratégia. Qualquer universo onde a verdade é repetida mais vezes do que a mentira terá isso como pressuposto para se julgar uma afirmação.

Nossas mentes são presa fácil para a "ilusão da verdade" porque nosso instinto é usar atalhos para fazermos esse julgamento - isso funciona na maioria das vezes.

Agora que já conhecemos esse efeito, podemos ficar mais atentos. Uma boa maneira é se perguntar por que acreditamos no que acreditamos: será que se trata de algo plausível porque é verdade ou apenas porque foi repetido várias vezes?

Mas outra maneira é reconhecer nossa obrigação de parar de repetir mentiras. Vivemos em um mundo onde os fatos são importantes e precisam ser importantes. Se repetirmos coisas sem nos preocuparmos com sua veracidade, estamos apenas ajudando a fazer deste um mundo onde mentiras e verdades se confundem com facilidade. Portanto, por favor, pense bem antes de repetir o que ouviu.

*Tom Stafford é psicólogo e cientista da cognição na Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

59% dos brasileiros creem em Adão, Eva e Darwin


É o que diz uma pesquisa publicada na Folha de S. Paulo de hoje, 02/04/10:

Um em cada 4 brasileiros crê em Adão e Eva

Para 59%, ser humano é resultado de uma evolução guiada por Deus; somente 8% não acreditam em interferência divina

As informações obtidas pela pesquisa realizada no Brasil contrastam com as colhidas nos EUA, mas se aproximam dos resultados na Europa

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Um de cada quatro brasileiros acredita em algo parecido com o mito de Adão e Eva. Para eles, o homem foi criado por Deus há menos de 10 mil anos. Esse dado consta da primeira pesquisa Datafolha que investigou as convicções da população sobre a origem e o desenvolvimento da espécie humana.

A maioria das pessoas crê em Deus e Darwin. Para 59%, o ser humano é o resultado de milhões de anos de evolução, mas em processo guiado por um ente supremo. Apenas 8% consideram que a evolução ocorre sem interferência divina.

A crença no mito de Adão e Eva despenca à medida que aumentam renda e escolaridade. Quando se acrescentam dinheiro e instrução, a proporção dos darwinistas puros mais do que dobra do menor para o maior estrato. Entre os que acatam a evolução sob gerência divina, o aumento é mais modesto: fica entre 15% (renda) e 20% (escolaridade).

O Datafolha ouviu 4.158 pessoas com mais de 16 anos. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais
.
Os 25% de criacionistas da Terra jovem (que atribuem menos de 10 mil anos a nosso planeta de 4,6 bilhões de anos) surpreendem porque o fundamentalismo bíblico, em que as Escrituras são interpretadas literalmente, não faz parte das tradições religiosas do Brasil.

A Igreja Católica, ainda a mais influente no país, jamais condenou a evolução. Pelo contrário até, o Vaticano vem já há algumas décadas flertando discretamente com o autor de "Origem das Espécies".

Em 1950, o papa Pio 12, na encíclica "Humani generis", classificou o darwinismo como "hipótese séria" e afirmou que a igreja não deveria rejeitá-la, embora tenha advertido para o mau uso que os comunistas poderiam fazer dessa teoria. Em 1996 foi a vez de João Paulo 2º declarar que a evolução era "mais do que uma hipótese".

Também entre evangélicos, a literalidade do Gênesis, o livro da Bíblia que relata a criação do mundo e do homem, está longe de unânime. Na verdade, só algumas poucas denominações como adventistas e Testemunhas de Jeová pregam abertamente contra a evolução.

Boa parte das demais se limita a apontar "problemas" no neodarwinismo, tentando reservar algum espaço para Deus, que pode ter papel mais ou menos ativo. Ele pode ser desde o demiurgo, que se limitou a criar o mundo com todas as suas leis (incluindo a seleção natural), e retirou-se até o "Deus ex machina" que interfere o tempo todo, projetando bichos, atendendo a preces etc.

Em tese, qualquer uma dessas posições se encaixa na afirmação de que Deus e evolução atuam juntos. Ela funciona como um guarda-sol que abriga desde católicos estritos a deístas, passando por entusiastas do "design inteligente", que nada mais é do que criacionismo com pretensões científicas.

Teologia intuitiva

Como os adeptos de religiões que defendem a literalidade do Gênesis não chegam nem perto de 25% da população, é forçoso reconhecer que a boa parte das pessoas que abraçaram a hipótese de Adão e Eva o fez seguindo suas próprias intuições, sem prestar muita atenção ao que afirmam suas respectivas lideranças espirituais.

Essa impressão é reforçada quando se considera que a adesão ao criacionismo bíblico se distribui de forma generosa entre todos os credos. Umbandistas (33%) e evangélicos pentecostais (30%) ficam um pouco acima da média nacional, mas católicos comparecem com 24% e evangélicos não pentecostais, com 25%.

Outros países

Uma nota curiosa vai para os que se declaram ateus. Entre eles, 7% também se classificam como criacionistas da Terra jovem e 23% como partidários da evolução comandada por Deus.

Os resultados obtidos no Brasil contrastam com os colhidos nos EUA, mas se aproximam com os de nações europeias. Entre os norte-americanos, a proporção de criacionistas bíblicos chega a 44%. Os evolucionistas com Deus são 36%, e os neodarwinistas puros, 14%. Esses números foram apurados em 2008 pelo Gallup, numa pesquisa que vem sendo aplicada naquele país desde 1982 e que serviu de modelo para a sondagem do Datafolha.

Em relação à Europa, o Brasil se encontra mais ou menos na média. De acordo com uma pesquisa de 2005 do Eurobarômetro, que aferiu o número de pessoas que rejeita a evolução, os criacionistas por ali variam de 7% (Islândia) a 51% (na islâmica Turquia), com a maioria dos países apresentando algum número na casa dos 20%.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Pequenos delírios racionais



Sempre que alguém quer criticar a idéia de Deus, ou a religião, ou as crenças transcendentais em geral, é muito comum o apelo à racionalidade, como se ela fosse a solução para todos os males e a única forma de vida possível no planeta. Não raras vezes, se alega que podemos ser felizes apenas respeitando o próximo e as leis, que podemos aprender com os nossos próprios erros, que devemos amar e nos deixar ser amados, enfim, todo um discurso muito bonito, mas muito mais emocional do que racional, o que não deixa de ser contraditório. Afinal, evoca-se a emoção para enaltecer a razão.

Entretanto, os racionais que me desculpem, mas irracional é imaginar uma sociedade perfeita como esta que os racionalistas emotivos propõem. É belíssimo imaginar um mundo livre e harmonioso, mas, convenhamos, essa sociedade não existe, nunca existiu e provavelmente jamais existirá neste mundo. Basta verificar o argumento do "respeito à lei". A própria noção de lei depende de um consenso moral, e a criação de uma entidade imaginária (o "Leviatã" de Thomas Hobbes), o Estado, que regule a todos. Ora, a própria noção de Estado é, portanto, em sua origem, irracional, por mais racionais que sejam os desejos de institui-lo. Entretanto, com exceção dos anarquistas mais puristas, parece que a idéia de Estado é aceita por todos como absolutamente natural, sendo que - pasmem! - se trata de uma ficção jurídica do séc. XVIII. Nem por isso, saímos por aí chamando todos os cidadãos de irracionais por aceitarem obedecer as leis de um Estado.

Além disso, quem é que vai definir o que é erro? Erro é apenas a desobediência à lei ou está ligado a valores morais? Quem é que vai definir o que é amor? Não é o amor indefinível, apenas experimentado ou "experimentável"? Quem é que vai obrigar o outro a "se deixar ser amado"? Não tem ele o direito de recolher-se em seu exílio auto-imposto? Não são - tudo isso - valores subjetivos, que dependem das circunstâncias de cada pessoa? Então, ninguém é obrigado a crer em nada, mas deixe que creiam, que não queiram ser amados, que errem à vontade, deixe que sejam apenas humanos, demasiadamente humanos, mesmo naquilo que transcende a humanidade.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Fé e Razão na Revolução Francesa


Dando sequência à investigação de alguns antecedentes históricos do confronto entre cristianismo e ateísmo, ou entre religião e não-religião, o texto abaixo é do historiador Paul Johnson, no seu livro "História do Cristanismo" (Ed. Imago, 2001, pp. 436-441). 

Mostra o que a Revolução Francesa tentou criar, em termos de religião, para substituir o cristianismo (ou catolicismo, já que a imensa maioria da população francesa da época era católica). 

O texto é profundamente interessante. Acho que ateus e religiosos têm muito a aprender com a sua leitura. 

De um lado, a tentativa de se substituir a religião por outro sistema de crenças, ainda que pretensamente ateu, pode tanto não dar certo, que a religião é vista como um retorno à normalidade, à racionalidade, num desses paradoxos que só a História, cíclica como é, pode nos proporcionar. 

Por outro lado, os religiosos poderão ver que muitas de suas práticas podem ser equiparadas a tentativas gnósticas de reproduzir no mundo real uma imaginação espiritualizada das relações humanas, e tudo isso gera uma confusão muito perigosa. 

Bem, desfrutem o texto. É muito bom, eu recomendo.






Dentro desse contexto, os novos governantes da França procederam à remoção e substituição do cristianismo católico. Uma testemunha ocular, Mercier, mais tarde registraria em suas memórias que, se Roberpierre tivesse aparecido com uma velha Bíblia debaixo do braço e ordenado com firmeza aos franceses que se tornassem protestantes, poderia muito bem ter logrado êxito. A revolução, contudo, não era reformista, mas milenarista. Foi, com efeito, a primeira revolta milenarista moderna. Remontava-se à Munster da década de 1520 e à Idade Média, e pressagiava Karl Marx e Mao Tse-tung. Também sofreu influência de seu próprio décor, um reflexo do renascimento clássico: daí apresentar matizes das tentativas patéticas do Imperador Juliano de reviver o paganismo imperial. Cadet de Vaux ergueu o primeiro "altar patriótico" em janeiro de 1790, em sua casa de campo; ostentava machados e fasces, uma lança coroada com um barrete da Liberdade, um escudo com um retrato de Lafayette e versos de Voltaire; o arranjo foi amplamente imitado. Esses altares eram o núcleo de cerimônias ao ar livre, em que se prestavam juramentos de fidelidade, cantava-se o Te Deum e consumiam-se banquetes comunitários. O progenitor e régisseur era J-P. David, que promoveu, em julho de 1791, uma cerimônia gigantesca para o traslado dos restos de Voltaire para o Panthéon. O evento levantou a questão do papel da religião nas cerimônias de Estado, e, em conseqüência, o problema do casamento civil e da educação secular. A Revolução, ao criar uma nova sociedade, não deveria também muni-la de uma nova religião? Muitos dos revolucionários eram deístas. Acreditavam na natureza; ou, como Rousseau, na comunicação direta com Deus, sem intermediários. Outros elementos de seu credo eram o patriotismo e o culto da fraternité – daí o Templo da Amizade de Saint-Just, onde todos os adultos deveriam, uma vez por ano, enunciar os nomes de seus amigos e explicar aos magistrados por que os haviam citado.

Infelizmente, os novos cultos não podiam ser separados da descristianização e da guilhotina, que servia, por assim dizer, para eliminar argumentos inconvenientes de forma perfeitamente racionalista. Em 7 de outubro de 1793, celebrou-se uma cerimônia em Rheims em que um ferreiro local esmagou o frasco miraculoso de óleo sagrado utilizado na coroação. Muitos dos descristianizadores eram renegados, como nos primeiros movimentos milenaristas – Fouché fora oratoriano, Laplanche, beneditino, e Charles, cônego em Chartres. Alguns eram comunistas, como outro ex-oratoriano, Joseph Lebon: "se, quando a Revolução chegar ao fim, ainda houver pobres entre nós, nossos esforços revolucionários terão sido em vão", Ele declarou, em seu julgamento, que derivava todas as suas máximas revolucionárias dos evangelhos, "que, do princípio ao fim, pregam contra os ricos e sacerdotes". Algumas igrejas foram depredadas. Em Paris, as fileiras dos descristianizados eram compostas pelos muito pobres; nas províncias, estes geralmente eram a linha de frente. Arrasaram tumbas aristocráticas e demoliram o mausoléu funerário em St. Denis. (Descobriram o coração encolhido e preservado de Luís XIV, que acabou sendo comido por engano). Cerca de vinte a quarenta mil dos sacerdotes que não juraram foram exilados; algo entre dois e cinco mil foram executados. A Igreja "constitucional" foi arruinada quando cerca de vinte mil dos padres juradores – a maioria sob pressão – concordaram em ser descristianizados; quarenta e dois bispos abdicaram de sua posição, conquanto somente vinte e três tenham incorrido em apostasia de fato. Alguns padres casaram-se para salvar suas vidas, outros fizeram-no voluntariamente; porém, havia casamentos clericais, celebrados por bispos, antes do início do processo de descristianização. (Mais tarde, quando a Igreja retomou o celibato, sob Napoleão, milhares solicitaram a absolvição). A separação formal entre igreja e o Estado foi decretada em 1795, o país tornou-se uma República em 1798 e o Papa Pio VI foi declarado prisioneiro francês, morrendo em Valência em agosto de 1799; a municipalidade registrou o falecimento de "Jean-Ange Braschi, exercendo a profissão de pontífice".

Entrementes, os cultos alternativos mostraram ser tão instáveis e efêmeros quanto o gnosticismo, com que guardavam curiosa semelhança. Ademais, tinham um ar de paródia. David arquitetou os funerais organizados de mártires da república, como Marat; algumas mulheres juraram educar seus filhos no culto de Marat, sem lhes oferecer qualquer outra escritura além de suas obras (em sua maioria, de natureza jornalística). Promoveu-se um festim para o "traslado" de seu coração para um clube revolucionário, onde ficou guardado em uma urna que pendia do teto. David também criou a cerimônia para a aceitação da Constituição, realizada em agosto de 1793, no antigo local da Bastilha, e baseada em uma imensa estátua da Natureza, vertendo água dos seios. Um membro do Comitê de Segurança Pública entoou: "soberana das nações, selvagem ou domada – Oh, Natureza! – este grande povo é digno de você. Após reverter tantos séculos de erros e servidões, tinha de retornar à simplicidade dos seus caminhos para redescobrir a igualdade e a liberdade". Em seguida, bebeu da fonte. Para o Festival da Razão na Catedral de Notre-Dame, em 10 de novembro, a própria igreja foi declarada Templo da Razão, tendo-se construído em seu interior uma montanha cenográfica, encimada por um Templo da Filosofia. No entanto, não havia acordo quanto às formas de culto, nem mesmo a seu tema ou objeto. Em Poitiers, os padres foram forçados a efetuar abjurações humilhantes, e pessoas vestidas de papas e monges foram açoitadas pelas ruas. (Tal cerimônia, de objetivo ateu, era quase idêntica às mascaradas anticatólicas promovidas pelos protestantes, em meados do século XVI). A maioria das cerimônias era deísta. Ocasionalmente, como alternativa à razão, adoravam-se abstrações como o direito, a verdade, a liberdade ou a natureza. No entanto, Deus encontrava meios de emergir por trás desses conceitos; em Beauvais, a razão, a liberdade e a natureza surgiram como três deusas, e, em Auch, o celebrante indagava: "o que é o culto à razão, senão a homenagem que prestamos à ordem estabelecida pela sabedoria eterna?". Robespierre deu fim à descristianização e substituiu a razão pelo Ser Supremo; como o credo que estabeleceu incluía a imortalidade da alma, ia além do anglicanismo mínimo de Locke. Contudo, sem a selvagem excitação da descristianização, as cerimônias eram tediosas para a turba, e só atraíam os sólidos cidadãos burgueses que tinham nelas algum interesse particular (como o paganismo, nos últimos tempos de Roma). Os elementos acessórios foram repintados e ganharam um novo nome. Durante algum tempo, entusiastas deram a seus filhos nomes como Marat, Brutus e assim por diante. Poupinel, autor de hinos republicanos ,instou: "usemos a pompa cívica para fazer com que o povo esqueça as antigas demonstrações de superstição; em uma palavra, vamos oferecer alternativas mais impressionantes e atraentes às cerimônias que, por tanto tempo, iludiram o povo, e o esqueleto do sacerdotalismo se desintegrará por conta própria".

Falar era fácil. O cristianismo, com seus muitos insights e matrizes, não encontrara dificuldade alguma em absorver elementos do cerimonial pagão e transformá-los. Os republicanos, divididos e orgulhosos, atrapalhavam-se, e suas cerimônias oscilavam entre a paródia e o linguajar bombástico e vazio, como as apresentações do comunismo soviético na Praça Vermelha ou a nova ginástica na China de Mao. Parece que se partia da premissa de que a moral pública dependia de exibições religiosas ou gnósticas de algum tipo; a ênfase erasmiana na crença e piedade privadas era repudiada como insuficiente. O Institut, por dois anos, instituiu um concurso de ensaios intitulado "Quelles sont les institutions les plus propres à fonder la morale d'un peuple?" ("Quais são as instituições mais apropriadas para fundamentar a moral de um povo?"). Inventou-se um grande número de cultos. Havia o "Culto dos Adoradores", composto de idéias e imagens de Rousseau, templos indianos, Pompéia e pinturas de Greuze; seus sacerdotes, eleitos a cada ano, eram encarregados de cuidar de um fogo eterno, queimar incenso nos funerais e realizar libações de leite, mel e vinho. Uma variação tinha médicos e cientistas substituindo os sacerdotes, com experimentos de laboratório no lugar da missa. Um terceira possibilidade era um amálgama das doutrinas de Moisés, Cristo, Confúcio e Maomé. Havia cultos seculares comunistas ou sociais. O mais bem-sucedido de todos parece ter sido a Teofilantropia, forma de deísmo próxima do cristianismo (alguns de seus membros autodenominavam-se cristãos) que dispunha de um manual, dezesseis locais de culto em Paris, além de outros nas províncias, e cujas "cerimônias" eram conduzidas por "diretores" – em sua maioria, funcionários públicos, mestres-escolas, e assim por diante. Ex-sacerdotes faziam os sermões. No entanto, um pedido formal por sua oficialização foi indeferido pelo diretório. Barras sarcasticamente advertiu seu defensor, La Revellière, de que deveria primeiro ser martirizado, a fim de lançar a religião de modo adequado, e Carnot encerrou a discussão dizendo que uma religião bem-sucedida precisava de absurdo e ininteligibilidade – e, sob esses aspectos, nada conseguiria vencer o cristianismo.

Sob a superfície pública, o padrão de crença variava imensamente, costumando girar em torno de figuras individuais ao estilo montanista, que compreendiam desde santos até puros charlatães. Havia um acordo geral de que era necessário algum tipo de mecanismo religioso para manter as pessoas em boas condições. Alguns, como madame de Staël, filha de Necker, levavam o raciocínio ainda mais longe. Em "De la Littérature" ("Da Literatura", 1800), ela cunhou o que mais tarde se tornaria um truísmo: "o progresso científico torna necessário o progresso moral". Seu próprio círculo, em Coppet, estava apinhado de excêntricos religiosos, muitos de origem pietista germânica. Entre eles estava madame de Prudener, "convertida" em Riga em 1804, quando um conhecido tirou o chapéu para ela na rua e caiu morto de imediato. Fora catequizada pelo conselheiro Jung-Stilling, de Baden, que havia calculado que o mundo acabaria em 1819, e pelo pastor Friedrich Fontaines, que lhe descreveu o Reino dos Céus em detalhes; ela, por sua vez, mais tarde convenceria o czar Alexandre I a fundar a célebre Santa Aliança. Outro profeta de Staël era o poeta Zacharias Werner, que se convertera ao que se poderia denominar de Sexualidade Católica. Sua mãe havia imaginado ser a Virgem Maria e ele, Cristo; e ele mesmo acreditava em "Cristo e no amor copulador" – a alma do homem, em sua ascensão, tem de atravessar, durante a vida terrena, o purgatório de "corpos femininos". Daí ser ele o grande agarrador de servas em estalagens e casas particulares que, em Weimar, chocou Goethe e acabou com o chá oferecido por frau Schopenhauer ao tentar, ruidosamente, estuprar uma criada na cozinha. Seus bolsos viviam cheios de sonetos místico-eróticos amarrotados, endereçados de forma variada a suas atuais amantes ou a Deus, "o grande hermafrodita". Para ele, "tudo que o amor os leva a fazer com uma amante, é feito por amor a Deus".

Tais caricaturas tendiam a fazer o cristianismo parecer, em comparação, "normal" e familiar – e racional. No extremo oposto do espectro não-cristão, os racionalistas foram ou prejudicados pela associação com o terrorismo ou, na melhor das hipóteses, expostos como emocionalmente anêmicos. Rivarol, em seu "Discours sur l'homme intellectuel et moral" ("Discurso sobre o homem intelectual e moral", 1797), alegou que "a lacuna radical da filosofia é que ela não consegue falar ao coração (...). Mesmo que não consideremos as religiões como nada além de superstições organizadas, elas ainda seriam benéficas para a raça humana; pois, no cerne do homem, há uma fibra religiosa que nada é capaz de extirpar". Esse, é claro, era o ponto em que Voltaire tendia a concordar mesmo com o detestado Pascal. E eis mais um argumento voltairiano: o Estado precisava de uma religião – que funcionasse, fizesse realmente o povo comum conformar-se ás regras diárias da sociedade. Essa percepção voltairiana foi o princípio básico por trás da reconciliação napoleônica com o pontificado e a Igreja católica, marcada pela nova concordata de 1801. Napoleão declarava que ele mesmo havia perdido a fé aos onze anos, quando descobriu que César e Cato, os "mais virtuosos homens da Antiguidade, queimariam nas chamas eternas por não terem praticado uma religião sobre a qual nada sabiam". Aos dezessete, escreveu um ensaio aprovando a alegação de Rousseau de que o cristianismo puro constituía uma ameaça ao Estado. Para ele, o cristianismo foi substituído pelo culto da honra e da ética militar. Como outros do período do diretório, baseou-se no patriotismo, mas acabou chegando à conclusão de que este funcionava melhor quando reforçado pela religião, e, na França, esta tinha de ser o catolicismo – ele não via outro meio de por fim à guerra de guerrilha no oeste. Assim, agiu como Henrique IV: se Paris valia uma missa, a Vendéia valia uma concordata", reconhecendo oficialmente que o catolicismo era "a religião da grande maioria do povo francês". A afirmação era verdadeira no sentido de que, ao longo de todo esse período, a maioria das crianças francesas havia continuado a ser educada pelo clero; e a decisão de Napoleão de reabrir as igrejas, em 1802, foi a medida mais popular que tomou na França. Seus motivos eram inteiramente seculares. "O povo precisa ter uma religião, a qual tem que estar sob o controle do governo". A igualdade era inatingível, e a crença em uma vida futura ajudava os pobres a aceitar seu fardo. Sem uma religião "respeitável", o povo se voltaria para qualquer coisa. "A religião é uma espécie de inoculação (...) que, ao satisfazer nosso amor pelas maravilhas, imuniza-nos contra fraudes e feiticeiros". Não estava certo daquilo em que ele mesmo acreditava: achava que a alma era um tipo qualquer de força magnética ou elétrica. Mas achava, em termos práticos, que os estadistas estrangeiros não negociariam com ele a menos que pensassem que ele acreditava em Deus. Assim, estabeleceu-se como um Carlos Magno cético, e se submeteu a uma desconfortável recriação da coroação papal de 800, insistindo (dessa vez) em colocar, ele mesmo, a coroa na própria cabeça, com o Papa Pio VII praticamente como espectador.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Fé e razão, por Paul Tillich





Uma das grandes fraquezas de grande parte dos escritores teológicos e do discurso religioso é que a palavra "razão" é usada de forma inconsistente e vaga. Às vezes é apreciativa, mas, em geral, é depreciativa. Enquanto que a conversa popular pode ser desculpada por esta imprecisão (embora ela contenha perigos religiosos), é indesculpável se um teólogo usa termos sem tê-los definido ou circunscrito. Portanto, é necessário definir já desde o início o sentido no qual o termo "razão" vai ser usado.

Podemos distinguir entre um conceito ontológico e um conceito técnico de razão. O primeiro é predominante na tradição clássica desde Parmênides até Hegel. O segundo, embora sempre presente no pensamento pré-filosófico e filosófico, se tornou predominante desde o colapso do idealismo alemão clássico, e no surgimento do empirismo inglês. Conforme a tradição filosófica clássica, a razão é a estrutura da mente que a capacita a abarcar e transformar a realidade. Ela é efetiva nas funções cognitiva, estética, prática e técnica da mente humana. Até a própria vida emocional, em si mesma não é irracional. O Eros impulsiona a mente rumo ao verdadeiro (Platão). O amor pela forma perfeita move todas as coisas (Aristóteles). Na "apatia" da alma o logos manifesta sua presença (estoicos). O anelo por sua origem eleva a alma e a mente rumo à fonte inefável de todo sentido (Plotino). O "appetitus" de tudo que é finito o conduz ao bem-em-si. (Tomás de Aquino). "Amor intelectual" une intelecto e emoção no estado mais racional da mente (Spinoza) Filosofia é "serviço de Deus"; é um pensar que é ao mesmo tempo vida e alegria na "verdade absoluta" (Hegel), etc. A razão clássica é Logos, seja ela entendida de forma mais intuitiva ou mais crítica. Sua natureza cognitiva é um elemento entre outros. Ela é cognitiva e estética, teórica e prática, distanciada e aproximada, subjetiva e objetiva. A negação da razão em sentido clássico é anti-humana, por que é antidivina.

Mas este conceito ontológico de razão sempre é acompanhado e às vezes substituído pelo conceito técnico de razão. A razão é reduzida à capacidade de "raciocinar". Só o lado cognitivo do conceito clássico de razão permanece, e dentro do reino cognitivo só aqueles atos cognitivos que tratam de meios para fins. Enquanto que a razão em sentido de Logos determina os fins e só em segundo lugar os meios, razão em sentido técnico determina os meios ao mesmo tempo em que aceita os fins a partir de "outros lugares". Não há perigo nesta situação enquanto a razão técnica estiver acompanhando a razão ontológica e o "raciocinar" for usado para satisfazer as exigências da razão. Esta situação predominou na maior parte dos períodos pré-filosóficos, bem como filosóficos da história humana, embora sempre houvesse a ameaça de que o "raciocinar" se pudesse separar da razão. Desde a metade do século dezenove esta ameaça se tornou uma realidade dominante. A consequência é que os meios são supridos de forças não-racionais, seja por tradições positivas ou por decisões arbitrárias servindo à vontade de poder. A razão crítica cessou de exercer sua função controladora sobre normas e fins. Ao mesmo tempo os aspectos não-cognitivos da razão foram relegados à irrelevância da pura subjetividade. Em algumas formas de positivismo lógico o filósofo rejeita até mesmo "compreender" qualquer coisa que transcenda a razão técnica, tornando assim sua filosofia completamente irrelevante para questões de preocupação existencial. A razão técnica, não obstante ser competente em aspectos lógicos e metodológicos, desumaniza o homem quando está separada da razão ontológica. E, além disso, a própria razão técnica se empobrece e corrompe quando não se nutre continuamente da razão ontológica. Mesmo na estrutura meios/fins do "raciocinar" pressupõem-se afirmativas sobre a natureza das coisas que em si mesmas não se baseiam na razão técnica. Nem estruturas, processos, Gestalt, valores, nem sentidos podem ser compreendidos sem a razão ontológica. A razão técnica pode reduzi-los a este status, ela se prova a si mesma dos "insights" que são decisivos para a relação meios/fins. Sem dúvida conhecemos muitos aspectos da natureza humana mediante a análise dos processos psicológicos e fisiológicos, e mediante o uso de elementos fornecidos por essa análise para fins fisicotécnicos e psicotécnicos. Mas se reivindicarmos conhecer o homem desta maneira, perdemos não só a natureza humana, mas até mesmo verdades decisivas sobre o homem dentro da relação meios/fins. Isto vale para todo reino da realidade. A razão técnica sempre teve uma função importante, mesmo na teologia sistemática. Mas a razão técnica é adequada e significativa só como expressão da razão ontológica e como sua companheira. A teologia não necessita tomar uma decisão a favor ou contra um destes dois conceitos de razão. Ela usa os métodos da razão técnica, a relação meios/fins, ao estabelecer um organismo de pensamento consistente, lógico e corretamente derivado. Ela aceita os refinamentos dos métodos cognitivos aplicados pela razão técnica. Mas rejeita a confusão entre razão técnica e ontológica.

Por exemplo, a teologia não pode aceitar o auxílio da razão no "raciocinar" a existência de Deus. Tal Deus pertenceria à relação meios/fins. Ele seria menos do que um Deus. Por outro lado, a teologia não fica perturbada pelos ataques à mensagem cristã feitos pela razão técnica. Esses ataques não atingem o nível no qual se firma a religião. Eles podem destruir superstições, mas nem mesmo atingem a fé. A teologia é (ou deveria ser) grata pela função crítica do tipo da razão técnica que mostra que não existe "algo" como um Deus dentro do contexto das relações meios/fins. Objetos religiosos, vistos em termos do universo do discurso constituído pela razão técnica, são objetos de superstição, sujeitos à crítica destrutiva. Onde quer que domine a razão técnica, a religião é superstição e é ou mantida estupidamente pela razão, ou rejeitada corretamente por ela. -

(TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. Ed. Sinodal, 2005, pp. 68/69)

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