terça-feira, 10 de outubro de 2017
Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 10
sábado, 17 de junho de 2017
Sobre canibalismo e previsibilidade do Direito na canoa furada chamada "Brasil"
sábado, 1 de abril de 2017
Você já sabia: repetição de mentiras = "ilusão da verdade". Mas como isso funciona?
Tom Stafford*
*Tom Stafford é psicólogo e cientista da cognição na Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
59% dos brasileiros creem em Adão, Eva e Darwin

Um em cada 4 brasileiros crê em Adão e Eva
Para 59%, ser humano é resultado de uma evolução guiada por Deus; somente 8% não acreditam em interferência divina
As informações obtidas pela pesquisa realizada no Brasil contrastam com as colhidas nos EUA, mas se aproximam dos resultados na Europa
HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS
Um de cada quatro brasileiros acredita em algo parecido com o mito de Adão e Eva. Para eles, o homem foi criado por Deus há menos de 10 mil anos. Esse dado consta da primeira pesquisa Datafolha que investigou as convicções da população sobre a origem e o desenvolvimento da espécie humana.
A maioria das pessoas crê em Deus e Darwin. Para 59%, o ser humano é o resultado de milhões de anos de evolução, mas em processo guiado por um ente supremo. Apenas 8% consideram que a evolução ocorre sem interferência divina.
A crença no mito de Adão e Eva despenca à medida que aumentam renda e escolaridade. Quando se acrescentam dinheiro e instrução, a proporção dos darwinistas puros mais do que dobra do menor para o maior estrato. Entre os que acatam a evolução sob gerência divina, o aumento é mais modesto: fica entre 15% (renda) e 20% (escolaridade).
O Datafolha ouviu 4.158 pessoas com mais de 16 anos. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais
.
Os 25% de criacionistas da Terra jovem (que atribuem menos de 10 mil anos a nosso planeta de 4,6 bilhões de anos) surpreendem porque o fundamentalismo bíblico, em que as Escrituras são interpretadas literalmente, não faz parte das tradições religiosas do Brasil.
A Igreja Católica, ainda a mais influente no país, jamais condenou a evolução. Pelo contrário até, o Vaticano vem já há algumas décadas flertando discretamente com o autor de "Origem das Espécies".
Em 1950, o papa Pio 12, na encíclica "Humani generis", classificou o darwinismo como "hipótese séria" e afirmou que a igreja não deveria rejeitá-la, embora tenha advertido para o mau uso que os comunistas poderiam fazer dessa teoria. Em 1996 foi a vez de João Paulo 2º declarar que a evolução era "mais do que uma hipótese".
Também entre evangélicos, a literalidade do Gênesis, o livro da Bíblia que relata a criação do mundo e do homem, está longe de unânime. Na verdade, só algumas poucas denominações como adventistas e Testemunhas de Jeová pregam abertamente contra a evolução.
Boa parte das demais se limita a apontar "problemas" no neodarwinismo, tentando reservar algum espaço para Deus, que pode ter papel mais ou menos ativo. Ele pode ser desde o demiurgo, que se limitou a criar o mundo com todas as suas leis (incluindo a seleção natural), e retirou-se até o "Deus ex machina" que interfere o tempo todo, projetando bichos, atendendo a preces etc.
Em tese, qualquer uma dessas posições se encaixa na afirmação de que Deus e evolução atuam juntos. Ela funciona como um guarda-sol que abriga desde católicos estritos a deístas, passando por entusiastas do "design inteligente", que nada mais é do que criacionismo com pretensões científicas.
Teologia intuitiva
Como os adeptos de religiões que defendem a literalidade do Gênesis não chegam nem perto de 25% da população, é forçoso reconhecer que a boa parte das pessoas que abraçaram a hipótese de Adão e Eva o fez seguindo suas próprias intuições, sem prestar muita atenção ao que afirmam suas respectivas lideranças espirituais.
Essa impressão é reforçada quando se considera que a adesão ao criacionismo bíblico se distribui de forma generosa entre todos os credos. Umbandistas (33%) e evangélicos pentecostais (30%) ficam um pouco acima da média nacional, mas católicos comparecem com 24% e evangélicos não pentecostais, com 25%.
Outros países
Uma nota curiosa vai para os que se declaram ateus. Entre eles, 7% também se classificam como criacionistas da Terra jovem e 23% como partidários da evolução comandada por Deus.
Os resultados obtidos no Brasil contrastam com os colhidos nos EUA, mas se aproximam com os de nações europeias. Entre os norte-americanos, a proporção de criacionistas bíblicos chega a 44%. Os evolucionistas com Deus são 36%, e os neodarwinistas puros, 14%. Esses números foram apurados em 2008 pelo Gallup, numa pesquisa que vem sendo aplicada naquele país desde 1982 e que serviu de modelo para a sondagem do Datafolha.
Em relação à Europa, o Brasil se encontra mais ou menos na média. De acordo com uma pesquisa de 2005 do Eurobarômetro, que aferiu o número de pessoas que rejeita a evolução, os criacionistas por ali variam de 7% (Islândia) a 51% (na islâmica Turquia), com a maioria dos países apresentando algum número na casa dos 20%.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Pequenos delírios racionais

Sempre que alguém quer criticar a idéia de Deus, ou a religião, ou as crenças transcendentais em geral, é muito comum o apelo à racionalidade, como se ela fosse a solução para todos os males e a única forma de vida possível no planeta. Não raras vezes, se alega que podemos ser felizes apenas respeitando o próximo e as leis, que podemos aprender com os nossos próprios erros, que devemos amar e nos deixar ser amados, enfim, todo um discurso muito bonito, mas muito mais emocional do que racional, o que não deixa de ser contraditório. Afinal, evoca-se a emoção para enaltecer a razão.
Entretanto, os racionais que me desculpem, mas irracional é imaginar uma sociedade perfeita como esta que os racionalistas emotivos propõem. É belíssimo imaginar um mundo livre e harmonioso, mas, convenhamos, essa sociedade não existe, nunca existiu e provavelmente jamais existirá neste mundo. Basta verificar o argumento do "respeito à lei". A própria noção de lei depende de um consenso moral, e a criação de uma entidade imaginária (o "Leviatã" de Thomas Hobbes), o Estado, que regule a todos. Ora, a própria noção de Estado é, portanto, em sua origem, irracional, por mais racionais que sejam os desejos de institui-lo. Entretanto, com exceção dos anarquistas mais puristas, parece que a idéia de Estado é aceita por todos como absolutamente natural, sendo que - pasmem! - se trata de uma ficção jurídica do séc. XVIII. Nem por isso, saímos por aí chamando todos os cidadãos de irracionais por aceitarem obedecer as leis de um Estado.
Além disso, quem é que vai definir o que é erro? Erro é apenas a desobediência à lei ou está ligado a valores morais? Quem é que vai definir o que é amor? Não é o amor indefinível, apenas experimentado ou "experimentável"? Quem é que vai obrigar o outro a "se deixar ser amado"? Não tem ele o direito de recolher-se em seu exílio auto-imposto? Não são - tudo isso - valores subjetivos, que dependem das circunstâncias de cada pessoa? Então, ninguém é obrigado a crer em nada, mas deixe que creiam, que não queiram ser amados, que errem à vontade, deixe que sejam apenas humanos, demasiadamente humanos, mesmo naquilo que transcende a humanidade.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Fé e Razão na Revolução Francesa
Dentro desse contexto, os novos governantes da França procederam à remoção e substituição do cristianismo católico. Uma testemunha ocular, Mercier, mais tarde registraria em suas memórias que, se Roberpierre tivesse aparecido com uma velha Bíblia debaixo do braço e ordenado com firmeza aos franceses que se tornassem protestantes, poderia muito bem ter logrado êxito. A revolução, contudo, não era reformista, mas milenarista. Foi, com efeito, a primeira revolta milenarista moderna. Remontava-se à Munster da década de 1520 e à Idade Média, e pressagiava Karl Marx e Mao Tse-tung. Também sofreu influência de seu próprio décor, um reflexo do renascimento clássico: daí apresentar matizes das tentativas patéticas do Imperador Juliano de reviver o paganismo imperial. Cadet de Vaux ergueu o primeiro "altar patriótico" em janeiro de 1790, em sua casa de campo; ostentava machados e fasces, uma lança coroada com um barrete da Liberdade, um escudo com um retrato de Lafayette e versos de Voltaire; o arranjo foi amplamente imitado. Esses altares eram o núcleo de cerimônias ao ar livre, em que se prestavam juramentos de fidelidade, cantava-se o Te Deum e consumiam-se banquetes comunitários. O progenitor e régisseur era J-P. David, que promoveu, em julho de 1791, uma cerimônia gigantesca para o traslado dos restos de Voltaire para o Panthéon. O evento levantou a questão do papel da religião nas cerimônias de Estado, e, em conseqüência, o problema do casamento civil e da educação secular. A Revolução, ao criar uma nova sociedade, não deveria também muni-la de uma nova religião? Muitos dos revolucionários eram deístas. Acreditavam na natureza; ou, como Rousseau, na comunicação direta com Deus, sem intermediários. Outros elementos de seu credo eram o patriotismo e o culto da fraternité – daí o Templo da Amizade de Saint-Just, onde todos os adultos deveriam, uma vez por ano, enunciar os nomes de seus amigos e explicar aos magistrados por que os haviam citado.
Infelizmente, os novos cultos não podiam ser separados da descristianização e da guilhotina, que servia, por assim dizer, para eliminar argumentos inconvenientes de forma perfeitamente racionalista. Em 7 de outubro de 1793, celebrou-se uma cerimônia em Rheims em que um ferreiro local esmagou o frasco miraculoso de óleo sagrado utilizado na coroação. Muitos dos descristianizadores eram renegados, como nos primeiros movimentos milenaristas – Fouché fora oratoriano, Laplanche, beneditino, e Charles, cônego em Chartres. Alguns eram comunistas, como outro ex-oratoriano, Joseph Lebon: "se, quando a Revolução chegar ao fim, ainda houver pobres entre nós, nossos esforços revolucionários terão sido em vão", Ele declarou, em seu julgamento, que derivava todas as suas máximas revolucionárias dos evangelhos, "que, do princípio ao fim, pregam contra os ricos e sacerdotes". Algumas igrejas foram depredadas. Em Paris, as fileiras dos descristianizados eram compostas pelos muito pobres; nas províncias, estes geralmente eram a linha de frente. Arrasaram tumbas aristocráticas e demoliram o mausoléu funerário em St. Denis. (Descobriram o coração encolhido e preservado de Luís XIV, que acabou sendo comido por engano). Cerca de vinte a quarenta mil dos sacerdotes que não juraram foram exilados; algo entre dois e cinco mil foram executados. A Igreja "constitucional" foi arruinada quando cerca de vinte mil dos padres juradores – a maioria sob pressão – concordaram em ser descristianizados; quarenta e dois bispos abdicaram de sua posição, conquanto somente vinte e três tenham incorrido em apostasia de fato. Alguns padres casaram-se para salvar suas vidas, outros fizeram-no voluntariamente; porém, havia casamentos clericais, celebrados por bispos, antes do início do processo de descristianização. (Mais tarde, quando a Igreja retomou o celibato, sob Napoleão, milhares solicitaram a absolvição). A separação formal entre igreja e o Estado foi decretada em 1795, o país tornou-se uma República em 1798 e o Papa Pio VI foi declarado prisioneiro francês, morrendo em Valência em agosto de 1799; a municipalidade registrou o falecimento de "Jean-Ange Braschi, exercendo a profissão de pontífice".
Entrementes, os cultos alternativos mostraram ser tão instáveis e efêmeros quanto o gnosticismo, com que guardavam curiosa semelhança. Ademais, tinham um ar de paródia. David arquitetou os funerais organizados de mártires da república, como Marat; algumas mulheres juraram educar seus filhos no culto de Marat, sem lhes oferecer qualquer outra escritura além de suas obras (em sua maioria, de natureza jornalística). Promoveu-se um festim para o "traslado" de seu coração para um clube revolucionário, onde ficou guardado em uma urna que pendia do teto. David também criou a cerimônia para a aceitação da Constituição, realizada em agosto de 1793, no antigo local da Bastilha, e baseada em uma imensa estátua da Natureza, vertendo água dos seios. Um membro do Comitê de Segurança Pública entoou: "soberana das nações, selvagem ou domada – Oh, Natureza! – este grande povo é digno de você. Após reverter tantos séculos de erros e servidões, tinha de retornar à simplicidade dos seus caminhos para redescobrir a igualdade e a liberdade". Em seguida, bebeu da fonte. Para o Festival da Razão na Catedral de Notre-Dame, em 10 de novembro, a própria igreja foi declarada Templo da Razão, tendo-se construído em seu interior uma montanha cenográfica, encimada por um Templo da Filosofia. No entanto, não havia acordo quanto às formas de culto, nem mesmo a seu tema ou objeto. Em Poitiers, os padres foram forçados a efetuar abjurações humilhantes, e pessoas vestidas de papas e monges foram açoitadas pelas ruas. (Tal cerimônia, de objetivo ateu, era quase idêntica às mascaradas anticatólicas promovidas pelos protestantes, em meados do século XVI). A maioria das cerimônias era deísta. Ocasionalmente, como alternativa à razão, adoravam-se abstrações como o direito, a verdade, a liberdade ou a natureza. No entanto, Deus encontrava meios de emergir por trás desses conceitos; em Beauvais, a razão, a liberdade e a natureza surgiram como três deusas, e, em Auch, o celebrante indagava: "o que é o culto à razão, senão a homenagem que prestamos à ordem estabelecida pela sabedoria eterna?". Robespierre deu fim à descristianização e substituiu a razão pelo Ser Supremo; como o credo que estabeleceu incluía a imortalidade da alma, ia além do anglicanismo mínimo de Locke. Contudo, sem a selvagem excitação da descristianização, as cerimônias eram tediosas para a turba, e só atraíam os sólidos cidadãos burgueses que tinham nelas algum interesse particular (como o paganismo, nos últimos tempos de Roma). Os elementos acessórios foram repintados e ganharam um novo nome. Durante algum tempo, entusiastas deram a seus filhos nomes como Marat, Brutus e assim por diante. Poupinel, autor de hinos republicanos ,instou: "usemos a pompa cívica para fazer com que o povo esqueça as antigas demonstrações de superstição; em uma palavra, vamos oferecer alternativas mais impressionantes e atraentes às cerimônias que, por tanto tempo, iludiram o povo, e o esqueleto do sacerdotalismo se desintegrará por conta própria".
Falar era fácil. O cristianismo, com seus muitos insights e matrizes, não encontrara dificuldade alguma em absorver elementos do cerimonial pagão e transformá-los. Os republicanos, divididos e orgulhosos, atrapalhavam-se, e suas cerimônias oscilavam entre a paródia e o linguajar bombástico e vazio, como as apresentações do comunismo soviético na Praça Vermelha ou a nova ginástica na China de Mao. Parece que se partia da premissa de que a moral pública dependia de exibições religiosas ou gnósticas de algum tipo; a ênfase erasmiana na crença e piedade privadas era repudiada como insuficiente. O Institut, por dois anos, instituiu um concurso de ensaios intitulado "Quelles sont les institutions les plus propres à fonder la morale d'un peuple?" ("Quais são as instituições mais apropriadas para fundamentar a moral de um povo?"). Inventou-se um grande número de cultos. Havia o "Culto dos Adoradores", composto de idéias e imagens de Rousseau, templos indianos, Pompéia e pinturas de Greuze; seus sacerdotes, eleitos a cada ano, eram encarregados de cuidar de um fogo eterno, queimar incenso nos funerais e realizar libações de leite, mel e vinho. Uma variação tinha médicos e cientistas substituindo os sacerdotes, com experimentos de laboratório no lugar da missa. Um terceira possibilidade era um amálgama das doutrinas de Moisés, Cristo, Confúcio e Maomé. Havia cultos seculares comunistas ou sociais. O mais bem-sucedido de todos parece ter sido a Teofilantropia, forma de deísmo próxima do cristianismo (alguns de seus membros autodenominavam-se cristãos) que dispunha de um manual, dezesseis locais de culto em Paris, além de outros nas províncias, e cujas "cerimônias" eram conduzidas por "diretores" – em sua maioria, funcionários públicos, mestres-escolas, e assim por diante. Ex-sacerdotes faziam os sermões. No entanto, um pedido formal por sua oficialização foi indeferido pelo diretório. Barras sarcasticamente advertiu seu defensor, La Revellière, de que deveria primeiro ser martirizado, a fim de lançar a religião de modo adequado, e Carnot encerrou a discussão dizendo que uma religião bem-sucedida precisava de absurdo e ininteligibilidade – e, sob esses aspectos, nada conseguiria vencer o cristianismo.
Sob a superfície pública, o padrão de crença variava imensamente, costumando girar em torno de figuras individuais ao estilo montanista, que compreendiam desde santos até puros charlatães. Havia um acordo geral de que era necessário algum tipo de mecanismo religioso para manter as pessoas em boas condições. Alguns, como madame de Staël, filha de Necker, levavam o raciocínio ainda mais longe. Em "De la Littérature" ("Da Literatura", 1800), ela cunhou o que mais tarde se tornaria um truísmo: "o progresso científico torna necessário o progresso moral". Seu próprio círculo, em Coppet, estava apinhado de excêntricos religiosos, muitos de origem pietista germânica. Entre eles estava madame de Prudener, "convertida" em Riga em 1804, quando um conhecido tirou o chapéu para ela na rua e caiu morto de imediato. Fora catequizada pelo conselheiro Jung-Stilling, de Baden, que havia calculado que o mundo acabaria em 1819, e pelo pastor Friedrich Fontaines, que lhe descreveu o Reino dos Céus em detalhes; ela, por sua vez, mais tarde convenceria o czar Alexandre I a fundar a célebre Santa Aliança. Outro profeta de Staël era o poeta Zacharias Werner, que se convertera ao que se poderia denominar de Sexualidade Católica. Sua mãe havia imaginado ser a Virgem Maria e ele, Cristo; e ele mesmo acreditava em "Cristo e no amor copulador" – a alma do homem, em sua ascensão, tem de atravessar, durante a vida terrena, o purgatório de "corpos femininos". Daí ser ele o grande agarrador de servas em estalagens e casas particulares que, em Weimar, chocou Goethe e acabou com o chá oferecido por frau Schopenhauer ao tentar, ruidosamente, estuprar uma criada na cozinha. Seus bolsos viviam cheios de sonetos místico-eróticos amarrotados, endereçados de forma variada a suas atuais amantes ou a Deus, "o grande hermafrodita". Para ele, "tudo que o amor os leva a fazer com uma amante, é feito por amor a Deus".
Tais caricaturas tendiam a fazer o cristianismo parecer, em comparação, "normal" e familiar – e racional. No extremo oposto do espectro não-cristão, os racionalistas foram ou prejudicados pela associação com o terrorismo ou, na melhor das hipóteses, expostos como emocionalmente anêmicos. Rivarol, em seu "Discours sur l'homme intellectuel et moral" ("Discurso sobre o homem intelectual e moral", 1797), alegou que "a lacuna radical da filosofia é que ela não consegue falar ao coração (...). Mesmo que não consideremos as religiões como nada além de superstições organizadas, elas ainda seriam benéficas para a raça humana; pois, no cerne do homem, há uma fibra religiosa que nada é capaz de extirpar". Esse, é claro, era o ponto em que Voltaire tendia a concordar mesmo com o detestado Pascal. E eis mais um argumento voltairiano: o Estado precisava de uma religião – que funcionasse, fizesse realmente o povo comum conformar-se ás regras diárias da sociedade. Essa percepção voltairiana foi o princípio básico por trás da reconciliação napoleônica com o pontificado e a Igreja católica, marcada pela nova concordata de 1801. Napoleão declarava que ele mesmo havia perdido a fé aos onze anos, quando descobriu que César e Cato, os "mais virtuosos homens da Antiguidade, queimariam nas chamas eternas por não terem praticado uma religião sobre a qual nada sabiam". Aos dezessete, escreveu um ensaio aprovando a alegação de Rousseau de que o cristianismo puro constituía uma ameaça ao Estado. Para ele, o cristianismo foi substituído pelo culto da honra e da ética militar. Como outros do período do diretório, baseou-se no patriotismo, mas acabou chegando à conclusão de que este funcionava melhor quando reforçado pela religião, e, na França, esta tinha de ser o catolicismo – ele não via outro meio de por fim à guerra de guerrilha no oeste. Assim, agiu como Henrique IV: se Paris valia uma missa, a Vendéia valia uma concordata", reconhecendo oficialmente que o catolicismo era "a religião da grande maioria do povo francês". A afirmação era verdadeira no sentido de que, ao longo de todo esse período, a maioria das crianças francesas havia continuado a ser educada pelo clero; e a decisão de Napoleão de reabrir as igrejas, em 1802, foi a medida mais popular que tomou na França. Seus motivos eram inteiramente seculares. "O povo precisa ter uma religião, a qual tem que estar sob o controle do governo". A igualdade era inatingível, e a crença em uma vida futura ajudava os pobres a aceitar seu fardo. Sem uma religião "respeitável", o povo se voltaria para qualquer coisa. "A religião é uma espécie de inoculação (...) que, ao satisfazer nosso amor pelas maravilhas, imuniza-nos contra fraudes e feiticeiros". Não estava certo daquilo em que ele mesmo acreditava: achava que a alma era um tipo qualquer de força magnética ou elétrica. Mas achava, em termos práticos, que os estadistas estrangeiros não negociariam com ele a menos que pensassem que ele acreditava em Deus. Assim, estabeleceu-se como um Carlos Magno cético, e se submeteu a uma desconfortável recriação da coroação papal de 800, insistindo (dessa vez) em colocar, ele mesmo, a coroa na própria cabeça, com o Papa Pio VII praticamente como espectador.




