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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Bernardinho diz que "pacto com Deus" o levou a deixar a seleção de vôlei


A matéria foi publicada no blog Esporte Fera do Estadão em 14/01/17:

Bernardinho diz que 'pacto com homem lá de cima' o 'forçou' a deixar a seleção

Treinador comandou o time masculino de vôlei do Brasil por 16 anos e foi bicampeão olímpico

Poucos dias após oficializar a sua saída da seleção brasileira masculina de vôlei, a vida seguiu para Bernardinho. O treinador, que dirige o Rio de Janeiro na Superliga Feminina, comentou sobre sua saída da seleção pela primeira vez e revelou que uma promessa que fez antes de ser campeão olímpico pela segunda vez na carreira foi fundamental para ele deixar o cargo.

"Em certo momento da Olimpíada, fiz um pacto. Não sou muito religioso, mas pedi para me ajudar um pouco a sair de uma situação e falei que, se fizesse isso, prometia que iria embora. Então você não pode fazer uma promessa com o homem lá de cima e não cumprir. Estava na hora de cumprir. Eu deveria ter saído logo depois para evitar tudo isso (carinho da torcida). Eu fico constrangido, mas ao mesmo tempo muito grato por tudo isso", disse o treinador, logo após a vitória por 3 sets a 0 de sua equipe para cima do Valinhos.

Visivelmente emocionado, Bernardinho também resolveu virar a página de todas as polêmicas que entrou enquanto estava à frente da seleção e fez um agradecimento especial ao ponteiro Murilo, que foi cortado do grupo que disputou a Olimpíada no Rio de Janeiro e, após o anúncio da saída do treinador, fez diversos elogios no Twitter e mostrou a sua gratidão. "Agradeço a cada pessoa que convivi nesse período, peço desculpas a quem fiz sofrer, aqueles que cortei, mas no fundo todos sabem que tentei fazer o melhor. Recebi mensagens muito gratificantes, como a do Murilo, que foi cortado agora, e para mim isso é o mais importante. Agora tenho a oportunidade de responder a ele em cadeia nacional, e agradeço tudo o que ele fez e a grandeza que teve por ter me agradecido", completou.



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Conclusões olímpicas


Sim, meus queridos amigos, é triste ter que admitir isso mas a Olimpíada brasileira, mais especificamente carioca, acabou...

A grande notícia é que ela transcorreu sem maiores problemas, sobretudo quanto a violência e terrorismo, embora ainda tenhamos que passar pelas Paralimpíadas para podermos comemorar dois eventos pacíficos em seguida.

Quanto aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, foram duas semanas bastante divertidas, em que o brasileiro mostrou ao mundo o seu jeito estabanado de ser, meio confuso, espalhafatoso e contraditório, mas espontâneo e bem-humorado tanto quanto possível.

As cerimônias de abertura e de encerramento agradaram por sua simplicidade e baixo custo, mostrando ao mundo a cultura e a criatividade brasileiras em seu estado de pura arte, sem querer concorrer com festas e sedes antigas, até porque, cá entre nós, ainda que os mais jovens não entendam o que isso significa, nada vai superar o painel humano do ursinho Misha derramando uma lágrima na despedida de Moscou 1980.

Só quem viu esta cena pela televisão 36 anos atrás pode tentar descrever a emoção que sentiu naquele contexto histórico em que a tecnologia ainda perdia de 10 x 0 para a ideologia.

Depois disso, tudo virou mais do mesmo, inclusive a grandiosidade de Pequim 2008, que mostrou ao globo o despropósito de uma China faraônica, logo uma cultura milenar que tem tantas coisas lindas e simples para compartilhar.

Portanto, o Rio de Janeiro acertou em cheio ao fazer cerimônias relativamente simples, muito mais ligadas à emoção do que à ostentação, mostrando o que o Brasil tem de melhor, sua música, sua gente, sua malemolência, seu bom humor.

Claro que este rumo foi ditado, em larga parte, pelas limitações orçamentárias, mas que bom que foi assim, pois serviu de antítese ao negócio bilionário que são os jogos patrocinados pelo Comitê Olímpico Internacional.

Sim, no fim tudo se limita a isso, um negócio. Vivemos num mundo onde a economia impera, e o espírito olímpico é só uma desculpa para que grandes contratos sejam assinados à sombra dos seus arcos.

Tenebrosa é a coincidência a que permitiu que o Brasil encerrasse sua Olimpíada na mesma semana em que vai decidir o impeachment de sua primeira mulher que chegou à Presidência.

De novo, engana-se quem acha que é a lei ou os políticos que vão decidir o destino de Dilma Rousseff. Não, caros amigos, quem parece que já decidiu pela sua defenestração é a economia, mediante aqueles famosos tentáculos invisíveis do mercado, que são afinal quem decide o destino de cidades olímpicas e presidentes.

Era este o cenário em 2009, quando o Rio de Janeiro foi escolhido como sede olímpica para 2016, e o Brasil era muito mais interessante do ponto de vista econômico do que político ou esportivo.

Cabalísticos sete anos depois, tudo mudou.

Parece que o Brasil se despediu não só dos seus Jogos mas também de uma era, e - seja no esporte ou na política - não há boas perspectivas no horizonte.

Tentemos, então, perpetuar (enquanto pudermos) este sentimento gostoso e anestésico de duas semanas em que o mundo nos visitou e interagimos com o diferente.

Foi bom enquanto durou...



sábado, 20 de agosto de 2016

Sociólogo americano vê imperialismo cultural em críticas à torcida brasileira


A matéria é da BBC Brasil:

Impedir barulho e vaias da torcida é imperialismo cultural, diz sociólogo americano

Fernando Duarte

Assim como muitos observadores internacionais acompanhando os Jogos Olímpicos do Rio, o sociólogo americano Peter Kaufman ficou espantado com o episódio das vaias ao atleta francês do salto com vara Renaud Lavillenie. No caso do acadêmico, porém, o que pareceu incomodá-lo mais foi a reação contrária ao comportamento da torcida.

Para o professor da Universidade Estadual de Nova York, que escreve sobre sociologia do esporte e estudou as reações do público ao comportamento de atletas, houve exagero na condenação das manifestações, sobretudo depois do "pito" público dado nos brasileiros pelo presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o alemão Thomas Bach.

Após as vaias a Lavillenie no pódio, Bach usou a conta do COI no Twitter para dizer que o comportamento do público foi "chocante" e "inaceitável nas Olimpíadas".

O COI certamente tem questões bem mais importantes para lidar do que vaias de torcedores", disse Kaufman, em conversa com a BBC Brasil, por telefone.

Veja abaixo, trechos da entrevista:

BBC Brasil - O senhor acompanhou a polêmica das vaias no Brasil?

Peter Kaufman - Sim, porque houve um repercussão considerável de alguns incidentes envolvendo o público na Olimpíada do Rio. O comportamento de torcedores é algo interessante, porque estão em jogo fatores culturais.

Cada cultura tem seus próprios valores: em algumas, é apropriado beijar em vez de apertar a mão quando se é apresentado a alguém, por exemplo. Em outras, é muito aceitável vaiar, assim como em certos países aplausos efusivos podem ser vistos como algo rude.

BBC Brasil - Por que as pessoas vaiam?

Kaufman - É uma questão de expressão, uma forma de interação social e participação. E isso varia de lugar para lugar. Se um alienígena chegasse aqui hoje e fosse assistir a uma competição esportiva, possivelmente teria outra maneira de se comportar de acordo com sua realidade. E, óbvio, sabemos que não é apenas esporte. As Olimpíadas têm um significado muito maior. O público brasileiro pode estar vaiando em desafio às autoridades, ao governo brasileiro e até mesmo ao dinheiro gasto na Olimpíada.

BBC Brasil - É injusto com os atletas?

Kaufman - Alvos de vaias podem se sentir ofendidos, tristes e até ameaçados por uma torcida mais ruidosas. Não os culpo por pensarem apenas na qualidade de seu desempenho em vez de analisar aspectos culturais ou políticos. É perfeitamente compreensível que o atleta francês tenha ficado bastante chateado com as vaias que recebeu até no pódio. Mas ele estava competindo contra um atleta brasileiro e em casa. Pelo que tenho lido sobre a torcida brasileira, era inevitável que ele fosse alvo dessas manifestações.

BBC Brasil - Renaud Lavillenie não foi a primeira "vítima" e não deverá ser a última, mas o comportamento da torcida no Estádio Olímpico, em especial durante provas em que normalmente o silêncio do público é uma questão de etiqueta, como o tênis e a esgrima, irritou até o presidente do COI, Thomas Bach. Como achar um meio termo?

Kaufman - Olha, é irônico que sentimentos de nacionalismo e tribalismo surjam na Olimpíada, uma competição concebida em sua forma moderna para promover a paz e a união ente os povos. Mas o esporte é passional e excitante. As pessoas querem vaiar seu adversário para tentar afetar o resultado de uma partida. E, como costuma ser o caso por causa das rivalidades locais, os brasileiros "pegaram no pé dos argentinos". Também vimos o público vaiando atletas russos por causa da controvérsia envolvendo o doping. As vaias, por sinal, são o menor dos problemas que o COI tem para resolver.

BBC Brasil - Mas Lavillenie não teria razão ao reclamar do barulho durante o momento de seus saltos? Não seria preciso criar uma cultura de torcida mais apropriada para o esporte olímpico?

Kaufman - Isso seria uma atitude de imperialismo cultural. Por que a maneira do brasileiro torcer é errada? A realidade que conhecemos é criada pelo ambiente em que crescemos. Você mencionou o tênis anteriormente: será que não vale a pena discutirmos a razão para o silêncio durante o saque no tênis enquanto no futebol a torcida pode urrar nos ouvidos de um atacante que vai bater um pênalti? A diferença é que o tênis é um esporte muito mais elitizado.

BBC Brasil: O senhor defende o comportamento da torcida, então?

Kaufman: De certa maneira, sim, apesar de que os esportes têm regras para lidar com isso. Acho fascinante o fato de que as normas de comportamento podem ser diferentes. Fica a impressão de que o COI foi pego de surpresa pela passionalidade do torcedor brasileiro. Mas lembremos da Copa do Mundo de 2010, em que as vuvuzelas do torcedor sul-africano criaram um problema até para quem viu os jogos pela TV. Mas ter proibido seu uso teria amputado um componente cultural.

Vaiar é uma expressão de crenças e valores. É tão "errado" quanto torcer.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

TJSC pede laudo psicológico para atiradora desportista de 10 anos de idade

(foto meramente ilustrativa)

Promessa olímpica deve passar por laudo psicológico antes de treinar tiro esportivo

Em Santa Catarina o sonho olímpico também começa cedo. A 1ª Câmara de Direito Civil do TJ determinou que, antes de receber autorização para participar de campeonatos de tiro esportivo no Vale do Itajaí, uma menina de dez anos deve passar por laudo psicológico e estudo social como forma de avaliação de sua maturidade para manusear a carabina - arma de fogo usada nos jogos Rio 2016.

Representada pelos genitores, a garota afirmou que é necessário começar cedo a prática desportiva para chegar às Olimpíadas. O pai, instrutor de tiro credenciado pela Polícia Federal e pelo Exército, já a acompanha em competições de tiro prático e diz que ela permanecerá sob supervisão. O Ministério Público, por sua vez, alegou que a capacidade física e mental da infante para o esporte deve ser analisada antes que se expeça o alvará judicial. O procurador de justiça, ainda, trouxe à memória o caso da morte acidental de instrutor nos EUA em 2014, quando menina de nove anos atirou nele sem querer ao manusear submetralhadora.

Para o desembargador Saul Steil, relator da matéria, a análise do caso merece cautela pela tenra idade da menina, com necessidade de orientação de profissionais da área da psicologia para o prosseguimento da ação em 1º grau. "Assiste razão ao Ministério Público sobre a necessidade de dilação probatória, com a realização de estudo social e laudo psicológico, já que se trata de criança, frise-se, de apenas dez anos de idade, que está lidando com armas e munição, mesmo que seja como esporte", consignou o magistrado. A decisão foi unânime.

Responsável: Ângelo Medeiros - Reg. Prof.: SC00445(JP)
Textos: Américo Wisbeck, Ângelo Medeiros, Daniela Pacheco Costa e Sandra de Araujo



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

As religiosas ilhas Fiji valem ouro no rugby olímpico


Após 92 anos de ausência, o rugby voltou a fazer parte do programa olímpico no Rio de Janeiro 2016.

Até então, a última vez em que o esporte havia sido incluído numa Olimpíada foi em Antuérpia 1924, e isto na versão tradicional do rugby, com 15 jogadores de cada lado.

A reintrodução da modalidade nos Jogos Olímpicos se deu na versão Sevens, em que 7 jogadores de cada time disputam a partida em tempo bem menor do que o da versão de 15, o que permite dois ou três jogos no mesmo dia, facilitando o encaixe do rugby no apertado calendário de duas semanas de disputa.

As potências estiveram presentes no Rio de Janeiro. Estavam lá a Grã-Bretanha, berço do rugby, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Argentina, entre outros, mas quem levou o título pra casa foi a delegação das Ilhas Fiji, ex-colônia britânica que fica no meio do Pacífico.

As Ilhas Fiji têm pouco menos de 1 milhão de habitantes, com uma distribuição religiosa bastante democrática.

Convivem lá 57 % de cristãos (a maioria protestantes), 34 % de hindus e 7 % de muçulmanos, todos muito zelosos de sua fé, como se viu ontem no final do jogo em que as Ilhas Fiji massacraram a Grã-Bretanha por 43 a 7, na disputa pela medalha de ouro, a primeira medalha (de qualquer metal) conquistada numa Olimpíada pela nação insular.

Quem viu a premiação pela TV se surpreendeu ao perceber que o hino nacional de Fiji é uma versão do hino cristão "Olhando para Cristo" (nº 579 do hinário Cantor Cristão, por exemplo), originalmente composto por Charles Austin Miles com o título Dwelling in Beulah Land.

Confira o hino de Fiji:


E veja abaixo a reportagem da Al-Jazeera sobre a repercussão do título olímpico nas ilhas da Oceania:




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ex-padre irlandês magoado com homenagem a Vanderlei Cordeiro de Lima na Rio 2016


A informação é do The New York Times, e repercutiu na Folha de S. Paulo:

Padre que atacou Vanderlei de Lima diz ter sentido raiva ao vê-lo acender pira

Neil 'Cornelius' Horan atacou Vanderlei Cordeiro de Lima durante a prova de maratona da Olimpíada de Atenas-2004. Doze anos depois, surpreendeu-se ao ver o corredor acender a pira olímpica na abertura da Rio-2016 –e mais do que surpreender-se, ficou com raiva. A informação é do "The New York Times", que conversou com Horan, um padre irlandês que foi afastado do sacerdócio.

"Eu olhei para Vanderlei e pensei: 'você não seria a estrela que é hoje se não fosse por mim'", disse ele ao "The New York Times".

De acordo com o jornal, a raiva vem de uma tentativa fracassada de reconciliação.

Horan diz ter enviado duas cartas, escritas em português, para Vanderlei, que nunca as respondeu. "Eu realmente gostaria de conhecer ele e sua família. Ele falhou miseravelmente no básico da decência humana e da cortesia", afirmou.

O padre afastado também disse que sentiu-se atacado por declarações de Vanderlei, que teria o chamado de religioso fanático. "Vejo isso como um ataque pessoal a mim, a minha missão cristã e ao próprio Cristo".

A agressão de Horan na maratona de Atenas-2004 não foi sua primeira intervenção em um evento esportivo. Ele acredita que o fim do mundo e o retorno de Jesus Cristo vão acontecer em breve e, para promover suas crenças, costuma interromper competições.

Em 2003, Horan já havia invadido a pista no GP de Fórmula 1 de Silverstone, na Inglaterra, em prova que foi vencida pelo brasileiro Rubens Barrichelo. O padre segurava um cartaz com os dizeres "leia a Bíblia".

Ele afirmou que o ataque à Vanderlei foi uma obra do destino. "Não sei dizer porque ataquei aquele jovem", disse. "Acredito que existe destino e que algumas coisas são predestinadas."

Vanderlei Cordeiro de Lima vencendo a dura subida ao sucesso e ao reconhecimento
de Atenas 2004 ao Rio 2016




domingo, 7 de agosto de 2016

Conflitos judiciais nas Olimpíadas poderão ser resolvidos via internet


A informação é da Agência Brasil:

Mediação de conflitos durante Jogos Olímpicos poderá ser feita via internet

Michèlle Canes

O sistema de mediação via internet do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) poderá ser usado para solucionar problemas que envolvam tanto os Jogos Olímpicos como os Paralímpicos. Nesta sexta-feira (5), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou que questões relacionadas aos Jogos poderão ser tratadas usando o Sistema de Mediação Digital.

“A ferramenta permitirá acordos, celebrados de forma virtual, entre partes de um conflito que ocorrer entre espectadores, participantes da Rio 2016 e o próprio Comitê Olímpico. A medida faz parte do termo de cooperação técnica assinado pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 e o Conselho Nacional de Justiça [CNJ] e terá validade até maio de 2017”, diz nota no site do Conselho.

Segundo o CNJ, com o uso do sistema os julgamentos das ações serão mais rápidos. As empresas que fizerem a adesão ao acordo ficam obrigadas a manter o sigilo das informações das negociações que forem feitas. Nos casos em que as partes não chegarem a um acordo, será feita a mediação presencial.

Para acessar o sistema, o usuário deve acessar o site do CNJ.



sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Cerimônia de abertura das Olimpíadas pedirá paz entre religiões


A ideia é boa, mas se espera que não seja implementada da maneira como declarou ao Estadão o cineasta Fernando Meirelles (um dos responsáveis pela cerimônia):
“Vamos mostrar que o Brasil é um país onde um católico, um judeu e um muçulmano, depois de se conhecerem, já tomam uma cerveja juntos. Buscamos as semelhanças e celebramos as diferenças.”
No mínimo (muito provavelmente), os países islâmicos não iriam gostar de se verem retratados tomando álcool, não é mesmo?

Possíveis e temíveis gafes à parte, o que esperar da cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio 2016 esta noite?

Confira na matéria abaixo:

Cerimônia de abertura organizada com orçamento reduzido

Festa desta sexta terá shows de música e efeitos visuais de LED

Marcio Dolzan e Ubiratan Brasil

A cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio, prevista para começar às 20h desta sexta-feira, no Maracanã, vai celebrar a cultura da gambiarra artística. Com um orçamento reduzido drasticamente nos últimos dois anos, o evento – que terá shows unindo Caetano, Gil e Anitta, além de efeitos visuais em telas de LED – precisou se adaptar às novas condições econômicas do País, o que implicou na busca de alternativas mais baratas.

“A cerimônia é uma imensa gambiarra”, comentou Mario Andrada, diretor de comunicação do Rio-2016, em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira. Mas ressalvou: “Há uma grande diferença entre gambiarra e jeitinho”. Melhor explicando: ao invés de improviso, a equipe criativa – formada pelos cineastas Fernando Meirelles e Andrucha Waddington, a diretora e cenógrafa Daniela Thomas e a coreógrafa Deborah Colker – precisou encontrar soluções que compensassem o enxugamento do orçamento.

“Em dois anos de trabalho, chegamos a ter quatro projetos para a cerimônia e fizemos muita visita ao Saara”, brincou Waddington, referindo-se à conhecida zona de comércio popular no Rio, onde foram comprados quilos e quilos de tecidos. “Mas, no final, percebemos que muito do que foi originalmente criado acabou permanecendo”, acrescentou Daniela.

A equipe baseou seu trabalho em três pilares. O primeiro, representado por um jardim, traduz o valioso ecossistema nacional. “Queremos aqui mostrar que somos um povo que pensa que a grama do jardim do vizinho é mais verde”, afirmou Abel Gomes, diretor artístico executivo da Cerimônias Cariocas, união entre a agência SRCOM e a holding italiana de eventos Filmmaster Group, responsável pelas cerimônias de abertura e encerramento. “Passaremos um recado para o mundo sobre o futuro.”

O segundo pilar trata da diversidade racial. “Vamos mostrar que o Brasil é um país onde um católico, um judeu e um muçulmano, depois de se conhecerem, já tomam uma cerveja juntos”, comparou Meirelles. “Buscamos as semelhanças e celebramos as diferenças.” Finalmente, o terceiro pilar pretende traduzir o jeito de viver do brasileiro pelo sorriso cravado nos rostos, indestrutível mesmo diante de adversidades.

Todo o trabalho foi obrigatoriamente adaptado às condições e restrições do Maracanã. “É um estádio para o futebol, ou seja, os portões não são altos, o que impediu que criássemos um espetáculo como o carnaval e seus carros alegóricos”, contou Daniela Thomas, exímia criadora de cenários para peças e filmes. “Daí surgiu o espetáculo da gambiarra, pois não tínhamos como fazer, mas tínhamos de fazer.” Daniela crê no poder criativo da gambiarra ao longo dos tempos. “Desde o tempo dos gregos e romanos, quando os recursos eram mínimos, os jogos são puro entretenimento.”

Por conta disso, os cenários vão ser mais verticais que horizontais e servirão como anteparos que ajudarão no ritmo da festa, ou seja, vão auxiliar a “esconder” os voluntários (cerca de 5 mil no total) que atuarão no número seguinte. A tecnologia também será uma poderosa aliada, especialmente com o uso do video mapping, técnica que, de forma simplificada, é a capacidade de se adaptar um material de vídeo a estruturas volumétricas. Essa tecnologia permitirá um jogo entre o corpo de baile e sua coreografia com a dinâmica de imagens e luzes que um video mapping pode proporcionar.

A equipe criativa resistiu a revelar segredos, pretendendo manter intacta a surpresa do público, que se dividirá entre as cerca de 50 mil pessoas no estádio e aproximadamente de 3 bilhões de espectadores ao redor do mundo. Mesmo assim, um dos principais acabou divulgado: a criação de uma nova área verde no Rio, a Floresta dos Atletas, no Parque Radical, em Deodoro. Ela será criada com mais de 10 mil mudas de 207 espécies nativas do País, cada espécie representando uma delegação. Ao entrar no estádio, cada atleta receberá a semente de uma árvore de a plantará em um tubete com terra. “Creio que esse será um dos gestos que vai marcar essa cerimônia”, observa Daniela.

Haverá ainda uma releitura dos clássicos da MPB, como Construção, de Chico Buarque. Outras novidades acabaram reveladas nos últimos dias, como a presença da atriz inglesa Judi Dench que, ao lado de Fernanda Montenegro, vão ler versos de Carlos Drummond de Andrade. “Ela adorou o poema e aceitou vir como voluntária”, contou Meirelles, que foi veemente ao negar a existência de um quadro que simule um rapaz assaltando a modelo Gisele Bündchen. “Jamais pensamos nisso. É uma tremenda bobagem.”



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Capa de revista traz Eduardo Cunha algemado nas Olimpíadas


A revista Piauí faz chacota com o deputado evangélico em decadência.

A matéria é do Brasil Post:

Cunha 'olímpico' pratica ginástica ALGEMADO na capa da revista piauí de agosto

Ana Beatriz Rosa

A revista piauí é reconhecida por suas capas muito bem trabalhadas e quase sempre recheadas de ironia.

Este mês a publicação volta a problematizar o contexto do País com o desenho de Eduardo Cunha com vestes de atleta olímpico, algemado e praticando ginástica. O desenho foi feito pela ilustradora Nadia Khuzine, artista russa colaboradora da revista. Claro que as interpretações ficam sob a responsabilidade dos leitores.

É de Khuzine também a capa da edição de janeiro que mostra Cunha e Michel Temer se beijando. A ilustração faz referência ao "beijo fraterno", como ficou conhecida a cena em que o líder soviético Leonid Brejnev e o presidente da extinta Alemanha Oriental (RDA), Erich Honecker, se cumprimentam com o gesto adotado pelos regimes comunistas. A imagem se popularizou por meio de um grafite no muro de Berlim, cujo título é “Meu Deus, me ajude a sobreviver a esse amor fatal”.

Também mais uma obra de Khuzine, a capa da edição de junho deste ano é um clássico. A revista fez uma releitura "às avessas" do disco símbolo do movimento do tropicalismo, o Tropicália ou Panis et Circencis, lançado em 1968. O movimento cultural dos anos 60 questionou o regime militar e serviu como desabafo e ferramenta de crítica para os artistas em meio à censura e violência do período. No desenho da artista russa, os personagens são os políticos aliados do presidente em exercício Michel Temer - todos sob os dizeres "Ordem e Progresso".



segunda-feira, 25 de julho de 2016

Xeque da maior mesquita brasileira é corinthiano


Bom, o "Curíntia" é só um detalhe na biografia do xeque Dr. Abdul Hamid Metwally, e a pergunta que ele faz sobre a qualidade da faca revela a sua sabedoria.

A matéria foi publicada no Estadão de 23/07/16:

Xeque da maior mesquita da América Latina diz que EI 'não é Estado e nem islâmico'

'Não tem nada a ver com a nossa religião', diz Xeque dr. Abdul Hamid Metwally

Xeque dr. Abdul Hamid Metwally, 45 anos, tira o celular do bolso e entra em sua página do Facebook. Nela, clica em um vídeo em que discursa sobre o Estado Islâmico. “Não é Estado, não é islâmico e não tem nada a ver com a nossa religião”, diz. Pensando em aproveitar a “deixa”, o repórter pergunta se as redes sociais não têm feito mais mal do que bem à comunidade muçulmana ou a difusão do islã ao redor do mundo. O xeque sorri e devolve a pergunta com outra questão. “Você diria que uma faca é um objeto bom ou ruim?”

Sem deixar que o repórter responda, ele pede cinco minutos de paciência. O relógio marca 18h e, com outros nove homens (e seis mulheres que ficam no fundo do salão), ele se vira a Meca e inicia sua quarta oração do dia. O ritual é simples, mas realizado com seriedade e devoção. No fim, ele volta acompanhado de um intérprete. Embora o português dele seja bom, o religioso prefere não deixar nenhuma dúvida no ar.

Como responsável pela Mesquita Brasil, a maior da América Latina, e presidente do Conselho Superior dos Teólogos dos Assuntos Islâmicos no Brasil, Metwally será um dos líderes religiosos a participar das Olimpíada do Rio. Na cidade dos Jogos, ele terá o papel de aconselhar e até advertir os atletas muçulmanos e outros praticantes da religião envolvidos com o evento. “A segurança do Brasil também é a nossa segurança”, diz o xeque.

Assim, Metwally apoia a atitude do governo brasileiro e a detenção dos 11 suspeitos de supostamente tramarem ações violentas durante os jogos. “O que precisa ficar claro é que eles não são muçulmanos, não conhecem o islã, não podem se confundir com nosso povo”, diz. O xeque exemplifica sua posição com a própria história. “Fiz universidade no Egito, sou mestrado e doutorado em religião. Estudei 27 anos para estar aqui. Uma pessoa que passa seis meses no Egito (um dos suspeitos presos passou alguns meses no Egito) não pode voltar dizendo que conhece o Alcorão e pregar isso ou aquilo. Essa pessoa não tem conhecimento. Ou foi buscá-lo na fonte errada”, comenta. Bom de comparações, o xeque alerta: “É como se você estivesse doente e fosse ao barbeiro ao invés de procurar um médico. Esses meninos brasileiros estão doentes e foram procurar um barbeiro”, diz. “Eles acham que ser muçulmano é deixar a barba crescer e usar roupas diferentes”, completa.

O próprio xeque diz que eventualmente já recebeu em sua mesquita jovens com uma ideia distorcida do islã. Nesses casos, procura passar o verdadeiro sentido do que é seguir Alá. “Se não entendem, se preferem continuar na ignorância, nós os colocamos para fora. Não são aceitos em nossa comunidade. Ou mudam ou são expulsos.” Metwally recorda que o principal mal-entendido desses jovens radicalizados é em relação ao significado da palavra “Jihad”. “Jihad não é ataque, não é guerra. Significa defesa. Não tem nada a ver com o que prega o Estado Islâmico”.

O religioso lembra que o Estado Islâmico tem em sua bandeira a frase “Deus é maior” e que isso é uma farsa. “Eles têm uma frase na bandeira e nada no coração. O coração não tem bandeira. Eles, os terroristas, são apenas aparência. Não têm essência nenhuma”.

Nesse ponto da conversa, um homem que acompanhava a conversa no interior da mesquita, tira o celular do bolso e começa a mostrar um vídeo de um ataque do EI contra crianças na Síria. “Mais de 200 crianças mortas. Você acha que isso é Deus? Acha que nós defendemos isso?”, diz.

A reação do homem, um sírio, é fácil de entender. Infelizmente, as ações do EI e de outros grupos terroristas fez com que o preconceito religioso atingisse em cheio os muçulmanos no País. Não raro, frequentadores da mesquita, homens como aquele que mostrou o vídeo dos ataques contra as crianças, ouvem comentários do tipo “chegou o homem-bomba” ou percebem outras pessoas evitando permanecerem no mesmo espaço do que eles - provavelmente por medo de atentados. “Ignorância. Muita ignorância e falta de conhecimento básico sobre religião. As pessoas temem o que não conhecem”, afirma.

Para o religioso, os ataques têm um alvo claro: os próprios muçulmanos - e que eles seriam produzidos ou fomentados por americanos e europeus. “Hoje o nome é Estado Islâmico, mas já teve o nome de Osama Bin Laden, já foi Taleban e Al-Quaeda.São apenas nomes que criam com intenções veladas de atingir a verdadeira religião”. Metwally diz acreditar que os Jogos acontecerão sem incidente mais grave. “Estou disposto, assim como outros religiosos, a colaborar: a segurança do Brasil é a nossa segurança também. Estamos aqui para defender esse País de qualquer coisa”, avisa.

Egípcio de nascimento e há 10 anos aqui, com uma filha brasileira, se diz corintiano: “Sou brasileiro também. Minha mesquita é aberta para a comunidade, para pessoas de todas as raças e credos. Estamos aqui para fazer parte da sociedade, para dividir experiências com todos que estiverem dispostos a também nos conhecer melhor”.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Quando o filho de um oficial nazista se converte ao judaísmo


No próximo domingo se comemora o Dia dos Pais no Brasil, e a história contada abaixo - lamentavelmente - não é festiva, pois fala da relação conturbada entre pai e filho, marcada pelas trevas do nazismo e do holocausto.

Entretanto, vale a pena ler o artigo até o final, quando Bernd Wollschlaeger fala sobre as sombras da história projetadas na morte. Um relato pesado, pungente, humano, demasiadamente humano...

A matéria - brilhante - foi publicada na Folha de S. Paulo:

Filho de oficial nazista rompe com família e se converte ao judaísmo

DEPOIMENTO A
LEDA BALBINO

O médico Bernd Wollschlaeger, 57, rompeu com a família após descobrir o papel que seu pai Arthur Wollschlaeger, um comandante de tanque condecorado pelo ditador nazista Adolf Hitler, teve na Segunda Guerra (1939-1945).

Após converter-se ao judaísmo, Wollschlaeger mudou-se em 1987 para Israel, onde adquiriu a cidadania israelense e serviu por dois anos no Exército como oficial médico. Um dos protagonistas do documentário "Fantasmas do Terceiro Reich", da brasileira Claudia Sobral, Wollschlaeger vive desde 1991 na Flórida, nos EUA.

Nasci em 1958 em Bamberg, no sul da Alemanha, onde aprendi muito cedo a importância da história por estar cercado por ela. Perguntava aos meus pais sobre seu passado, sobre meus avós, mas só se limitavam a dizer que houve uma guerra.

Mas gradualmente comecei a colher duas versões diferentes. Da minha mãe, uma tcheca de etnia alemã, ouvia sobre o horror de ter sido desalojada de casa, de ter perdido tudo que lhe era caro.

Do meu pai, ouvi as histórias de glória. Comandante de tanque, ele participou dos ataques à Polônia em 1939, à França em 1940 e à União Soviética em 1941.

Um dia me mostrou a condecoração que recebeu de Hitler: a Cruz de Ferro. Assim, quando tinha 6, 7, 8 anos, meu pai era um herói de guerra e eu devia ter orgulho dele.

As dúvidas surgiram entre meus 8 e 9 anos, porque havia algo curioso na nossa residência em Bamberg.

Vivíamos de aluguel no primeiro andar de uma construção antiga. A proprietária, uma condessa com quem minha mãe me proibia de falar, morava no andar de cima.

Na parede ao lado da escada que levava ao seu apartamento, ficava o retrato de um militar também usando o quepe, a Cruz de Ferro. Meu pai referia-se a ele como "o traidor", e eu não entendia por que alguém que parecia com ele poderia ser ruim.

Até que descobri que o retratado era Claus von Stauffenberg, o coronel alemão que liderou a tentativa de assassinato contra Hitler em 20 de julho de 1944.

E foi com sua viúva, Nina Stauffenberg, que aprendi mais tarde que houve uma Alemanha de ditadura e que houve pessoas que lutaram contra o sistema.

Quando tinha 14 anos, nos ensinaram na escola que a Olimpíada de Munique, em 1972, demonstraria ao mundo uma nova Alemanha, e não a de 1936, quando Hitler usou os Jogos como propaganda nazista.

Meus pais convidaram amigos para assistir à abertura. E, quando a equipe que trazia a estrela de davi na bandeira entrou no estádio, toda o clima mudou. Meus pais pararam de falar, como se tivesse aparecido um fantasma.

Dez dias depois, essa equipe foi feita refém por terroristas palestinos. E então o curso da minha vida mudou no dia seguinte ao fracasso do resgate, quando li nos jornais a manchete "Judeus mortos novamente na Alemanha".

Na escola, tiveram de nos explicar sobre Auschwitz, a solução final, a morte de judeus como política de Estado.

Apesar de meu pai ser um cara muito durão, com quem era difícil falar por controlar a situação, confrontei-o: "Pai, o que sabe sobre o Holocausto?" Ele respondeu que isso era uma mentira, que tudo era propaganda comunista.

No curso de vários anos, o abordei para tentar extrair a verdade. E, aos poucos, me disse. Aos poucos, ela apareceu.

Em janeiro deste ano, um especialista militar me entregou uma mala do mecânico do tanque de meu pai. Ela estava cheia de rolos rasgados da Torá.

Os parentes dele relataram que, na invasão da Polônia e da Rússia, os membros do regimento do meu pai destruíram vilas judaicas, mataram todos e saquearam. E usaram os rolos da Torá para envolver os motores dos veículos e evitar que perdessem calor no inverno. Então, meu pai não apenas soube do Holocausto: ele participou dele.

Quando eu tinha 17, 18 anos, ele defendeu o Holocausto dizendo: "Foi necessário, porque alguém tinha de se livrar da sujeira".

Durante todo esse processo, quanto menos meu pai estava interessado em falar sobre o assunto, mas me interessei em aprender sobre o judaísmo. E, quanto mais me aproximei dessa família de escolha, mais me distanciei da minha de origem.

MUDANÇA ESPIRITUAL

Entre os 19 até os 26, 27 anos, passei por uma mudança espiritual. Converti-me e me tornei judeu ainda na Alemanha, e isso foi um total rompimento com minha família. Tive de partir e imigrei para Israel em 1987.

Deixei minha nacionalidade alemã para trás, me tornei israelense, deixei minha fé cristã para me tornar judeu, servi no Exército israelense. Me desconectei totalmente do meu antigo eu para manter a sanidade.

Minha jornada foi resolver meu próprio conflito, me reconciliar comigo mesmo, entender como posso ser alemão, ser filho de um pai que fez isso? E como ser eu mesmo, normal? Foi uma redenção pessoal.

Comecei essa jornada me sentindo culpado. No fim, me tornei um judeu por convicção. Não posso limpar o passado de meu pai ou desfazer o que aconteceu. Hoje não me sinto mais culpado, mas sinto que, como filho dele, sou responsável. Que tenho de carregar essa vergonha. Mas na minha vida fiz e faço tudo o que posso para contribuir para essa redenção.

Meu pai nunca foi capaz de sentir remorso. Antes de morrer, incluiu no seu último testamento que eu nunca deveria visitar sua sepultura, não deveria comparecer a seu funeral, me deserdou.

Obviamente, não fui ao seu enterro. Estava em Israel quando morreu. Mas visitei seu túmulo 20 anos depois, com meu filho.

A parte irônica é que o túmulo conjunto dos meus pais fica exatamente do lado do muro que separa o cemitério cristão, de Bamberg, do cemitério judaico. Quando você olha a partir do túmulo dos meus pais em direção a esse muro, vê do outro lado as lápides judaicas.

Olhando para aquilo, disse ao meu filho: "Essa é lição que posso te ensinar: a história sempre projetará sua sombra, mesmo na morte. Por isso é melhor lidar com ela estando vivo, saindo da sombra e aprendendo suas lições".

Meu pai nunca fez isso. Literalmente, ele repousa sob a sombra da história por toda a eternidade.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Universal é boa de bola

esporte futebol politica
Matéria publicada na Carta Capital:

A evangelização do esporte


O PRB arrebanha cargos da pasta de olho na exposição das Olimpíadas e no desenvolvimento de projetos com a Universal

Miguel Martins

Braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, o Partido Republicano Brasileiro busca arrebanhar o esporte nativo. O novo ministro do Esporte, o inexperiente George Hilton, mais conhecido por ter sido detido em um aeroporto com malas de dinheiro do que por sua atuação política, está na cúspide de uma hierarquia de pastores designados a controlar a pasta no País. O interesse do partido pelo Esporte começou a ganhar forma em 2012. Originalmente de São Bernardo do Campo, o pastor Júlio Cesar Ribeiro foi escolhido pelo PRB naquele ano para ocupar a Secretaria de Esporte do Distrito Federal. Nas eleições de 2014, Ribeiro liderou a votação para a Câmara Legislativa, apesar de residir há pouco mais de dois anos na capital federal. “Não tive votos somente do esporte”, garante. “Mas com certeza a minha gestão à frente da Secretaria ajudou muito.”

Se estar à frente da organização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo em Brasília serviu de vitrine eleitoral para o pastor, os eleitores ligados à Universal, afeitos a votar em seus líderes religiosos, devem ter aprovado sua atuação. Em Brasília, Ribeiro abraçou publicamente eventos da Força Jovem Universal, grupo da igreja que promove atividades esportivas e organiza palestras contra o uso de drogas. Em 2014, a Secretaria de Esporte do DF promoveu o “Saiba Dizer Não”, que atraiu milhares de fiéis ao ginásio Nilson Nelson. Neste ano, o apoio do governo do Distrito Federal ao evento foi acertado entre o deputado e sua correligionária Leila Barros, ex-jogadora de vôlei da seleção brasileira e nova secretária de Esporte. Está marcado para dia 28 de janeiro, no Mané Garrincha, estádio de Copa do Mundo.

A promoção de eventos em parceria com a Universal e a visibilidade política proporcionada pelos Jogos Olímpicos de 2016, cuja emissora oficial será a Record, somam-se no súbito interesse do PRB por ocupar postos relevantes do esporte nacional. A bancada de 24 parlamentares eleita em 2014 chancelou o interesse do partido pelo Ministério do Esporte, oferecido por Dilma Rousseff ao pastor Hilton. O foco na área não ficou restrito ao plano federal. O sucesso da experiência de Ribeiro em Brasília levou o presidente do partido, Marcos Pereira, a costurar acordos com o PSDB em São Paulo, o PSB no Distrito Federal e o PT em Minas Gerais e no Ceará para ocupar as respectivas secretarias de Esporte. Um time de quatro pastores e uma solitária ex-atleta.

A biografia política de Hilton é rasa. Pastor da Universal, teólogo e apresentador de televisão, o novo ministro foi deputado estadual em Minas Gerais entre 1999 e 2006. Em 2000, esteve à frente do programa Minas na TV, da Record. Eleito deputado federal nos últimos três mandatos, Hilton chegou a disputar em 2012 a prefeitura de Contagem, mas ficou em quarto lugar. Fora a assumida paixão pelo Cruzeiro, não acumulou experiência alguma com esportes em sua carreira política. Em 2005, foi flagrado no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, com 11 malas e caixas recheadas de dinheiro. Ao seu lado estava Carlos Henrique Silva, escolhido pelo governador mineiro Fernando Pimentel para ocupar a Secretaria de Esporte estadual. Ambos foram liberados pela Polícia Federal, mas Hilton foi expulso do PFL, seu partido à época. Questionado sobre o episódio, o ministro argumenta que transferia de forma voluntária doações de fiéis da Universal a pedido da igreja. Resta saber por que o partido apressou-se em expulsá-lo.

Hilton e Silva são neófitos na matéria entregue a seus cuidados. O novo ministro, não sem candura, reconhece nada entender de esporte em geral. Compensa a falha, diz ele, pelo conhecimento da alma humana. O mesmo não pode ser dito dos outros secretários do PRB. Medalhista olímpica, Leila Barros é naturalmente afinada com a área. À frente da pasta em São Paulo, o pastor e vereador paulistano Jean Madeira foi um dos primeiros coordenadores da Força Jovem Universal e articulou nos últimos anos parcerias com as prefeituras paulistas para realizar eventos esportivos e religiosos no estado. O radialista e pastor David Durand, secretário no Ceará, colaborou na criação de uma liga de futebol no estado formada por jovens participantes de grupos de reabilitação para dependentes químicos.

O governo estadual do Rio de Janeiro, cuja capital será sede das Olimpíadas, também priorizou os acordos políticos em sua escolha. Embora não tenha responsabilidade direta sobre as Olímpiadas, sob alçada do prefeito Eduardo Paes, Luiz Fernando Pezão, do PMDB, escolheu para a secretaria alguém não apenas com parca experiência na área, mas na própria vida. Filho do ex-governador Sérgio Cabral, Marco Antônio Cabral tem 23 anos e ainda sequer concluiu seu curso universitário. A ausência do PRB no esporte fluminense explica-se pela disputa política de 2014: o adversário de Pezão nas eleições do ano passado foi o senador Marcelo Crivella, pastor da Universal e principal liderança do partido.

Apesar das desconfianças quanto às motivações do PRB em dominar a pasta, Hilton garante que vai articular os atores envolvidos e massificar a prática esportiva no País. “Responderei com muito diálogo e muito trabalho”, afirma a Cartacapital. “Espero mudar essa impressão inicial.” As primeiras críticas partiram da ONG Atletas pelo Brasil, formada por mais de 50 desportistas de diversas modalidades, entre eles o ex-nadador Gustavo Borges, a ex-jogadora de basquete Hortência e a ex-atacante de vôlei Ana Moser, que preside o grupo. Após Hilton ser anunciado em dezembro passado, o grupo chiou. “Infelizmente, há anos, o Ministério do Esporte é usado na barganha política”, afirmou a ONG por meio de nota. Apesar da oposição inicial, Daniela Castro, diretora-executiva da Atletas pelo Brasil, garante que o momento de críticas passou. “O nosso interesse agora é falar de agenda. Precisamos de uma política e de um Sistema Nacional de Esporte. O País está longe das potências olímpicas.”

Após assumir, Hilton sinalizou manter parte da equipe que integrou a gestão de Aldo Rebelo, do PCdoB, mas começou a realizar mudanças importantes. Para a Secretaria de Alto Rendimento do ministério, que coordena investimentos no esporte profissional, foi escolhido Ricardo Trade, diretor-executivo da Copa do Mundo da Fifa no Brasil. Substituirá Ricardo Leyser, do PCdoB.

Principal demanda dos atletas, a formulação de um Sistema Nacional de Esporte está entre as prioridades do ministério, diz Hilton. O objetivo é criar um fundo que conjugue ações integradas entre União, estados, municípios, escolas e federações esportivas para pinçar e formar talentos. O projeto foi alvo de debates de três conferências organizadas pelo PCdoB enquanto esteve à frente da pasta, mas não houve avanços relevantes.

Com a iminência das Olimpíadas do Rio de Janeiro, o Brasil perde tempo para debater sua gestão esportiva. Dez anos antes de sediar as Olimpíadas de Londres, o Reino Unido iniciou um programa para incentivar a prática de esportes pelos britânicos e desenvolver um laço com as escolas para fortalecer as modalidades olímpicas. Hilton explica de forma curiosa as limitações do projeto olímpico nacional em relação ao britânico. “Somos um País com pouco mais de 500 anos. Estamos ainda construindo uma nação.” Esquece o ministro que o Brasil tem cerca de 200 milhões de habitantes enquanto o Reino Unido não chega a 70 milhões e que o número de praticantes influi no resultado. Esquece também que o atletismo e a natação, esportes de base em uma Olimpíada, são acessíveis à população mais pobre. De fato, o ministro claudica no assento.

À discussão sobre o legado social e esportivo das Olimpíadas soma-se o debate sobre a gestão e a transparência dos clubes brasileiros e das federações. Debatido no Congresso, o refinanciamento da dívida dos principais clubes brasileiros, próxima de 6 bilhões de reais, foi alvo de diversas interferências recentes da CBF. No fim do ano passado, o deputado petista Vicente Cândido, sócio em um escritório de advocacia do futuro presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, apresentou emendas para retirar do texto final da Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte as contrapartidas a ser apresentadas pelos clubes para renegociar seus débitos, entre elas o pagamento em dia de funcionários e jogadores.

O Bom Senso F.C., grupo de jogadores que busca racionalizar a gestão do futebol no País, queria incluir no texto a exigência de a CBF manter balanços financeiros públicos e limitar a reeleição de seu presidente a apenas um mandato. Em meio às discussões, outro integrante da bancada da bola, o deputado Jovair Arantes, do PTB, incluiu o refinanciamento das dívidas dos clubes em uma Medida Provisória relativa a temas tributários gerais, sem estabelecer contrapartidas para os clubes e a CBF. A presidenta Dilma Rousseff vetou o artigo de Arantes na terça 20.

Por mais incrível que possa parecer, Hilton teve boa impressão de Del Nero e do atual presidente, José Maria Marin, dois fiéis seguidores do ex-mandatário Ricardo Teixeira. “Os dirigentes da CBF estão atentos à nova realidade que se impõe sobre os clubes e as entidades esportivas”, comenta. “A própria CBF assumiu publicamente o compromisso de incluir nos regulamentos de suas competições obrigações aos clubes quanto ao fair play financeiro e trabalhista.” Sobre a necessidade de as federações esportivas garantirem transparência de seus gastos, Hilton concorda com a exigência, especialmente se forem beneficiárias de recursos públicos. “Mesmo as entidades privadas buscam se abrir. A transparência é um valor importante no mundo hoje.”

Em meio à investigação de desvios de 30 milhões de reais do patrocínio do Banco do Brasil à Confederação Brasileira de Vôlei para favorecer dirigentes e ao desconhecimento sobre o destino dos lucros vultosos da CBF, uma reforma do esporte brasileiro tem de começar pelas federações. A confiança do ministro em Del Nero e Marin é um mau presságio.



terça-feira, 14 de agosto de 2012

O gari brasileiro e os caboclos ingleses

Cerimônias de abertura e encerramento de grandes eventos esportivos como as Olimpíadas e a Copa do Mundo de futebol são inevitavelmente festivais de clichês e obviedades. Não há como fugir deles.

Ao contrário de muita gente que não gostou da referência a garis, índios, mulatas, capoeiristas, maracatu e samba, a participação brasileira na festa de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, me pareceu simpática e adequada, sem abusar dos clichês e aproveitando bem os 8 minutos que lhe foram reservados.

Curiosa foi a junção de Iemanjá com as Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. Cá entre nós, esse negócio de pular 7 ondas no reveillon é coisa mais pra turista inglês ver, enquanto a preciosíssima obra de Villa-Lobos é apreciada mundo afora apenas por quem realmente gosta da boa música clássica e faz questão de conhecer os compositores oriundos dos países periféricos no setor.

Melhor análise, entretanto, fez Wagner Iglecias no blog da Maria Frô:

Um gari brasileiro em Londres

Por: Wagner Iglecias*

Cerimônias de encerramento de Olimpíadas sempre reservam um espacinho para que a cidade que sediará a próxima edição dos Jogos se anuncie. Se em 2008, em Pequim, Londres se apresentou ao público presente e aos bilhões de telespectadores mundo afora com a entrada triunfal, no estádio, de um daqueles tradicionais ônibus vermelhos de dois andares, ao som de rock and roll, no caso do Rio na cerimônia de encerramento dos Jogos de Londres quem abriu nossa participação foi um gari da Comlurb, a empresa de limpeza urbana da cidade do Rio de Janeiro.

Gari que, diante do “keep away” do segurança britânico, lhe estendeu a mão e lhe puxou para o samba. E que logo depois, do alto de sua vassoura, como diria Boris Casoy, lhe mostrou a complexidade cultural do país que será a sede da próxima Olimpíada: índios, Yemanjá, capoeiristas, samba, maracatu, o malandro da Lapa, o calçadão de Copacabana, Villa Lobos…

Lembro do tempo em que nosso projeto de país era ingressar no “Primeiro Mundo”. Era esta a nossa ilusão, envergonhada ou nem tanto, há duas décadas. Mal saíamos da ditadura, consagrávamos uma Constituição prenhe de direitos sociais e já dávamos de cara com o jogo duro, duríssimo, do neoliberalismo anglo-saxônico, que inclusive chegava até tardiamente nestas terras, se comparado ao que já se passava em outras partes da América Latina.

Pois bem, os tempos mudaram, e o Brasil se mostrou ao mundo, nesta cerimônia de Londres, pela figura de um homem negro, pobre e trabalhador, que abre os braços e um sorriso largo àquele que lhe é diferente. Países e sociedades, obviamente, criam e recriam imagens de si mesmos, inventam e reinventam o modo como se vêem e como querem ser vistos pelo mundo. Assim como os USA se idealizam para si e para o mundo como a pátria da liberdade, nós nos idealizamos como o país da convivência pacífica entre os diferentes. O que, pelo menos no nosso caso, a realidade todos os dias se encarrega de questionar e tantas vezes desmentir.

Há quem torceu o nariz para aquilo que entendeu como uma representação clichê da cultura brasileira e da complexidade de nossa sociedade nesta cerimônia. Como se a Rainha Elizabeth II, o agente 007 e Pink Floyd não fossem também, neste sentido, meros clichês nos Jogos de Londres, posto que ícones reconhecidos mundialmente como pertencentes à cultura britânica. A discussão de como nos mostraremos ao mundo na cerimônia dos Jogos do Rio 2016 deverá se estender pelos próximos anos, e deverá ser acalorada. Eu, do meu lado, quero mais é ver o povo brasileiro sendo mostrado para o mundo. E, mesmo sabendo de nossas tantas mazelas e dos tantos obstáculos que fazem as relações entre os brasileiros, das mais variadas cores e classes, não ser lá tão pacíficas, quero poder continuar acreditando, como disse Darcy Ribeiro, que a boa convivência talvez venha a ser a grande herança que o Brasil legará ao mundo. Já em relação àqueles que se incomodaram com o gari brasileiro em Londres, tudo o que posso dizer é a frase de Cazuza que me veio à cabeça: “são caboclos querendo ser ingleses”. Viva o Brasil !!!

*Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.



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