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domingo, 10 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 14

Parte 14 - Justiça, compaixão e paz

por Richard Foster

Numa passagem especialmente comovente, a Escritura reúne os três conceitos hebraicos que estudamos: justiça, compaixão e paz. O salmista aponta para o dia em que a “graça e a verdade” se encontrarão, em que “a justiça e a paz” se beijarão (Salmo 85:10).

Qual é a palavra que Deus usa para o mundo no qual vivemos? Será que Ele vê a justiça e a retidão aumentando entre nós? Será que está triste com nossa falta de compaixão? Há quem abrace de Deus como modo de vida?

Não estou propondo estas perguntas apenas para o mundo em geral. Questiono aqueles de nós que professamos a Cristo como sendo a nossa vida. Será que Deus pode se agradar das vastas e crescentes iniquidades entre nós? Ele não se entristece com nosso acúmulo arrogante, enquanto irmãos e irmãs cristãs em outras regiões definham e morrem? Não temos a obrigação de olhar além do nariz do nosso próprio interesse nacional para que a justiça possa rolar como águas e a retidão como um ribeiro perene? Não é uma obrigação que se nos impõe fazer justiça e amar a misericórdia e caminhar com humilde diante de Deus, se quisermos viver em sua maravilhosa paz?

Estas são perguntas difíceis, eu sei. Mas são perguntas que precisamos fazer se é para levarmos a sério a palavra de Deus para nós através da Antiga Aliança.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 46-47)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 13

Parte 13 - A teologia do suficiente

por Richard Foster

Econômica e socialmente, a visão de shalom é captada no que o Bispo John Taylor chama de “A Teologia do Suficiente”. A ganância do rico é temperada pela necessidade do pobre. Justiça, harmonia e equilíbrio prevalecem. “Ela significava um tipo dançante de inter-relacionamento, uma busca de algo mais livre do que a igualdade, mais generosa do que a equidade, o sempre-mutante equilíbrio de um sistema de vida”. Extravagância excessiva, ambição arrogante, ganância arrasadora – tudo isto é alheio à fraternidade completa e satisfeita de shalom. Sob o reinado do shalom de Deus, os pobres já não são oprimidos porque a cobiça já não domina.

Numa cena particularmente terna, Jeremias lamenta a fraude e ganância dos profetas e sacerdotes, dizendo: “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jeremias 6:14). Em suma, Jeremias havia movido uma ação por mau procedimento profissional contra os charlatões religiosos auto-produzidos. Estes haviam colocado um curativo simples sobre uma ferida social enorme e dito: “Shalom, shalom – tudo vai ficar bem”. Mas Jeremias trovejou, com efeito: “En shalom – não está tudo bem. A justiça é rejeitada, os pobres oprimidos, o órfão ignorado. Não há inteireza nem cura aqui!”.

Mas a paz terapêutica de Deus não será rejeitada para sempre. Isaías viu um dia no qual a reconciliação entre as pessoas será uma realidade, um dia quando a justiça e a retidão reinarão, um tempo em que a inteireza da paz de Deus reinará e o povo andará “na luz do Senhor” (Is 2:4-5).

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, p. 45-46)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 12

Parte 12 - O mundo em paz e harmonia

por Richard Foster

A visão de inteireza e paz, que brilha como um farol para toda a Antiga Aliança, nos dá importantes percepções sobre a simplicidade cristã. Este tema é maravilhosamente reunido na palavra hebraica shalom, um conceito rico em significado que ressoa com inteireza, unidade, equilíbrio. Trazendo em si (mas muito mais amplo do que) o conceito de paz, ele significa uma comunidade harmoniosa, interessada, com Deus em seu centro como o principal sustentador e mais glorioso habitante. Essa visão grandiosa de shalom começa e termina nossa Bíblia. Na narrativa da criação, Deus trouxe ordem e harmonia a partir do caos; e no Apocalipse de João, temos a inteireza gloriosa de um novo céu e uma nova terra. A criança messiânica que nascerá é o Príncipe da Paz (Isaías 9:6). Justiça, retidão e paz deverão caracterizar seu reinado eterno (Isaías 9:7). No centro do sonho de shalom encontra-se a maravilhosa visão de todas as nações chegando ao monte do templo de Deus para aprenderem seus caminhos e andarem nas suas veredas; para converterem suas espadas em relhas de arados e suas lanças em podadeiras (Isaías 2:2-5; Miqueias 4:1-4). Shalom traz até a ideia de uma unidade harmoniosa na ordem natural; a vaca e o urso tornam-se amigos, o leão e a ovelha deitam-se juntos, e um pequenino os guiará (Isaías 11:1-9). Estamos em harmonia com Deus – fidelidade e lealdade prevalecem. Estamos em harmonia com o nosso próximo – justiça e misericórdia sobejam. Estamos em harmonia com a natureza – paz e unidade reinam.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, p. 45)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 11

Parte 11 - O cuidado com a criação

por Richard Foster

Essa qualidade de compaixão e preocupação se estendiam até os animais e à terra. Em geral nos esquecemos de que o princípio de descansar no sábado incluía as necessidades dos animais de carga: “Seis dias farás a tua obra, mas ao sétimo dia descansarás: para que descanse o teu boi e o teu jumento” (Êxodo 23:12). A própria terra precisava de um “ano de descanso solene” (Levítico 25:5). A cada sete anos não haveria nenhum plantio nem colheita, pois “a terra guardará um sábado ao Senhor” (Lv 25:2). Mesmo o solo das vinhas não devia ser sobrecarregado plantando-se outras lavouras entre as fileiras (Dt 22:9). Os bois que faziam a debulha não deviam ter as bocas atadas a fim de poderem comer enquanto trabalhavam (Dt 25:4). Filhotes de passarinhos podiam ser tomados, mas a mãe precisava ser deixada para cuidar dos outros ovos e produzir futuros filhotes (Dt 22:6-7).

O que toda essa instrução está querendo mostrar é que nosso domínio sobre a terra e as pequenas criaturas que rastejam sobre ela deve ser um domínio compassivo. Não devemos saquear a terra mas cuidar dela – bondosa, amorosa e ternamente.

Essas leis, regulamentos e julgamentos morais antigos temperam e suavizam a nossa agressividade. Como o maná misterioso do céu, há sempre o suficiente para as necessidades de cada um, mas nunca nenhuma sobra para ser guardada. Há um limite para o que é bom, e sempre que esse limite é transgredido, o que é bom se torna mau. Nossa tarefa é a de fazer as coisas entrarem na perspectiva que Deus ordenou para elas, e essas leis do Antigo Testamento nos dão pistas fascinantes de qual essa perspectiva deveria ser.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 44-45)

domingo, 3 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 10

Parte 10 - A prática da compaixão

por Richard Foster

Salpicadas por toda a Antiga Aliança encontram-se o que chamo de suas leis de compaixão e preocupação. Talvez uma das mais fáceis de reconhecer seja a lei da respigadura (Levítico 19:9-20; 23:22; Deuteronômio 24:19-20). Na colheita, o lavrador devia deixar uma parte da produção ao longo das beiras e o cereal que caiu enquanto ele trabalhava, de forma que os pobres pudessem ajuntá-lo. “Quanto segardes a messe da vossa terra, não rebuscareis os cantos do vosso campo, nem colhereis as espigas caídas da vossa sega; para o pobre e o estrangeiro as deixareis: eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 23:22). Da mesma forma, as vinhas e os olivais não deveriam ser totalmente colhidos de modo que pudesse haver provisão para os necessitados. O livro de Rute dá um quadro vívido da ternura dessa lei. Noemi e sua nora, Rute, haviam voltado a Israel viúvas e sem terra e, portanto, indefesas, mas puderam colher as espigas deixadas no campo de Boaz (Rute 2:1 e seguintes).

No coração de Deus há uma preocupação compassiva pelos alquebrados e desesperados. Por meio da lei da respigadura, ele colocou na economia de Israel provisão para aqueles que, por qualquer motivo que fosse, tivessem ficado em posição desvantajosa. Parecia existir uma indiferença quase santa a respeito de se a pessoa merecia ou não ser pobre. O simples fato da carência da pessoa era motivo suficiente para prover para suas necessidades.

Considere a ternura nas antigas leis de dar e receber penhor. Se um vizinho tomasse emprestado seu carro de boi e deixasse a veste em penhor, você tinha de certificar-se de devolver o agasalho antes do por do sol, mesmo que ele não tivesse terminado de usar o carro. Por quê? Porque o ar noturno era frio e ele precisava da veste para se agasalhar. Se você se recusasse e seu vizinho clamasse a Deus na noite gelada, Deus advertia: “Eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Êxodo 22:26-27). Deuteronômio tornou essa lei especialmente obrigatória se o penhor tivesse sido dado por um pobre, visto que havia forte possibilidade de ele não ter outra veste com a qual se agasalhar (Dt 24:12). A veste da viúva não podia ser recebida como penhor – ela já era indefesa o suficiente na situação normal (Dt 24:17). A mó do moinho não podia ser recebida como penhor – era o meio de vida do homem. Era proibido invadir a casa do vizinho para tomar um penhor. A pessoa devia esperar do lado de fora da porta até que ele o trouxesse (Dt 24:10-11). A amabilidade e cortesia comum deviam permear todos os relacionamentos humanos, até as transações de negócios.

Note o enfoque sobre a concessão de empréstimos. Visto ser presumido que os devedores estariam entre os pobres e vulneráveis, era proibido cobrar juros sobre os empréstimos. Essa prática era vista como uma exploração pouco fraterna da infelicidade de outrem e apenas servia para aprofundar a dependência dessa pessoa (Dt 23:19).

O salário deveria ser pago ao pobre no dia em que o trabalho fosse feito, sem falta, porque o dinheiro seria necessário para comprar alimento (Dt 24:14-15). Se você estivesse faminto, podia comer da vinha ou campo de cereais do seu vizinho, mas não tinha permissão para guardar nada num cesto (Dt 23:24). E assim por diante. Ordens ternas. Instruções sábias e comoventes sobre relacionamentos interpessoais.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 43-44)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 9


Parte 9 - Justiça e compaixão

por Richard Foster

Mas mais surpreendente que tudo é a maneira como os escritores bíblicos unem a justiça de mishpat e a compaixão de hesed. Dar às pessoas o que lhes é devido é uma coisa; a qualidade de espírito através da qual nos relacionamos com elas é bem outra. Zacarias recebeu esta poderosa palavra do Senhor: “Assim fala o Senhor dos Exércitos: Executai juízo verdadeiro [mishpat], mostrai bondade e misericórdia [hesed] cada um a seu irmão; não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um em seu coração o mal contra o seu próximo” (Zacarias 7:9-10). Em seu chamado ao arrependimento, Oséias implora ternamente ao povo: “converte-te a teu Deus, guarda o amor [hesed] e o juízo [mishpat], e no teu Deus espera sempre” (Os 12:6). E no que deve ser considerado um dos resumos mais perceptivos da nossa tarefa em todo o Antigo Testamento, temos de novo a exigência exterior de justiça combinada com o espírito interior de compaixão:

Ele te declarou, ó homem, o que é bom;
E que é o que o Senhor pede de ti,
Senão que pratiques a justiça [mishpat] e ames a misericórdia [hesed], e
Andes humildemente com o teu Deus?
(Miqueias 6:8)

Compaixão e justiça combinada nos chamam à simplicidade de vida.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 42-43)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 8

Parte 8 - O lugar da compaixão

por Richard Foster

O tema da compaixão está entremeado por todo o Antigo Testamento e pode ser visto de maneira vívida na palavra teologicamente rica hesed (חסד). Hesed é tão carregada de significado que todos os tradutores se debatem para encontrar o equivalente em outras línguas, muitas vezes traduzida por “benignidade” ou “misericórdia”. Mas hesed traz também em si a ideia de capacidade de suportar ou fidelidade. Ela é mais frequentemente usada em referência à compaixão inabalável de Deus por seu povo. Sua maravilhosa hesed é de eternidade a eternidade (Salmo 103:17). Ela dura para sempre (Salmo 106:1). Foi esta qualidade de misericórdia sem limites que Deus revelou a Moisés quando este havia pedido para ver a glória de Deus: “E, passando o Senhor por diante dele, clamou: Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo, e grande em misericórdia [hesed] e fidelidade; que guarda a misericórdia [hesed] em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado” (Êxodo 34:6-7).

Contudo (e aqui está o grande desafio), esse amor da aliança, essa misericórdia duradoura, tão fundamental ao caráter de Deus, deve ser também refletida em nossas vidas. Deus declara através de Oséias, o profeta: “Pois misericórdia [hesed] quero, e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Os 6:6). E a sabedoria de Provérbios aconselha: “O que segue a justiça e a bondade [hesed] achará a vida, a justiça e a honra” (Pv 21:21).

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 41-42)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 7

Parte 7 - O choro de Jeremias

por Richard Foster

Entre os profetas não havia um clamor mais consternado ou sincero do que a voz de Jeremias. Ele foi chamado de o profeta chorão, e com boa razão. Como ele amava a grandiosa cidade de Jerusalém! Ele se afligia com o pecado do seu povo; implorava-lhe que se arrependesse. Quanto sofreu quando suas próprias profecias de destruição se cumpriram. Ele é um vulto triste mas fiel em tempos aflitivos.

Como outros antes dele, Jeremias conclamou o povo a voltar à antiga aliança com sua exigência: “Executai o direito e a justiça, e livrai o oprimido da mão do opressor” (Jr 22:3). Repetidamente ele os chamou a defender “a causa dos órfãos” e a exercer “o juízo e a justiça” (Jr 5:28; 22:15). Mas, com tristeza, teve de admitir: “Mas os teus olhos e o teu coração não atentam senão para a tua ganância, e para derramar o sangue inocente, e para levar a efeito a violência e a extorsão” (Jr 22:17).

A tragédia foi que o Exílio podia ter sido evitado, se o povo tivesse se voltado para Deus em arrependimento: “Se deveras praticardes a justiça, cada um com o seu próximo... eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais, desde os tempos antigos e para sempre” (Jr 7:5-7). Mas o Exílio ocorreu e a tragédia dele ecoa através dos séculos. A injustiça, entrelaçada com a idolatria, forçaram Deus a enviar Israel ao cativeiro.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 35-37)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 6

Parte 6 - A denúncia profética

por Richard Foster

Os profetas não pouparam ninguém ao denunciar o fracasso patente do povo em fazer justiça. As denúncias mordazes de Amós são uma legião. Ecoando por todo o livro está a acusação: “Vendem o justo por dinheiro, e condenam o necessitado por um par de sandálias” (Am 2:6). Ele acusa as mulheres de oprimirem os pobres e esmagarem os necessitados em sua concupiscência por um padrão de vida mais alto (Am 4:1). O povo estava tão cheio de ganância que mal podia esperar pelo fim do sábado para poder negociar “diminuindo o efa, e aumentando o siclo, e procedendo dolosamente com balanças enganadoras” (Am 8:4-6). O suborno era a ordem do dia, e juízes justos que falavam a verdade eram desprezados (Am 5:10,12). É de admirar que Amós tenha clamado: “Antes corra o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene” (Am 5:24) ?

Enquanto Amós vociferava contra Israel ao norte, Isaías, no reino do sul, lamentava: “Cada um deles ama o suborno e corre atrás de recompensas” (Is 1:23). Isaías retrata uma cena de juízo na qual Deus é o promotor que expõe as práticas injustas dos governantes: “Que há convosco que esmagais o meu povo e moeis a face dos pobres?” (Is 3:13-15).

A opressão de Judá se havia estendido até os decretos oficiais e livros da lei. Da mesma forma que Deus havia institucionalizado um sistema de justiça compassiva, os governantes haviam institucionalizado um sistema de injustiça rígida: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão” (Is 10:1-2). Lemos que Deus aborrecia todos os rituais piedosos de Judá porque faltava-lhes relevância social. A vida que agrada a Deus não é encontrada numa série de deveres religiosos mas na obediência. O jejum que Deus desejava era “que soltes as ligaduras da impiedade” e “deixes livres os oprimidos”. As palavras de Deus para eles foram: “Que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados” (Is 58:5-7).

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 40-41)

domingo, 26 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 5

Parte 5 - O clamor por justiça

por Richard Foster

O chamado à justiça é um dos grandes temas que ecoam por toda a Antiga Aliança. É a palavra hebraica mishpat (משׁפּט) que nos oferece uma percepção desse clamor por justiça. Ela era uma palavra frequentemente usada, rica de significado; um termo legal que também trazia em si conotações éticas e religiosas. Mishpat envolvia uma moralidade acima e além da justiça legal limitada. Ela incluía a observância dos bons costumes ou práticas estabelecidas, especialmente a prática de uma distribuição equitativa da terra. Era usada tão constantemente em conjunção com a palavra hebraica para justiça que o estudioso bíblico Volkmar Herntrich acredita que os dois conceitos deveriam ser vistos como virtualmente sinônimos. Isto é visto vividamente no apelo apaixonado de Amós: “Antes corra o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene” (Am 5:24).

Em Deuteronômio lemos que Jeová “faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes” (Dt 10:18). E mais uma vez o salmista declara: “O Senhor faz justiça, e julga todos os oprimidos” (Sl 103:6).

Esta justiça envolvia a sabedoria de produzir relacionamentos equilibrados, harmoniosos entre as pessoas. Salomão orou para receber sabedoria para governar o povo e Deus respondeu: “Pediste entendimento, para discernires o que é justo [mishpat]” (1 Reis 3:11).

Líderes políticos deveriam exercer esta qualidade de compaixão ética em favor de todo o povo. Miquéias acusa os governantes de Israel de canibalismo econômico por sua injustiça brutal. “Comeis a carne do meu povo” e “os repartis como para a panela e como carne no meio do caldeirão”, lamenta Miquéias (Mq 3:1-3). Jeremias ficou desconsolado por não poder encontrar a justiça em parte alguma de Jerusalém, embora ela fosse procurada em todas as ruas (Jr 5:1).

Havia advertências repetidas contra a falha de prover justiça: “Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva” (Dt 27:19). Grande era a bênção prometida àqueles que de fato exercessem a justiça: “Bem-aventurado aquele... que faz justiça aos oprimidos e dá pão aos que têm fome” (Sl 146:5-7).

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 39-40)

sábado, 25 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 4

Parte 4 - O dízimo e os excluídos


por Richard Foster

Nos regulamentos relacionados ao dízimo podemos ver a preocupação especial de Deus com os indefesos e os necessitados, que é sempre um ingrediente importante na simplicidade. A cada três anos, o dinheiro do dízimo devia ser juntado e usado especificamente para aqueles que eram incapazes de cuidar de si mesmos. “Ao fim de cada terceiro ano levarás todos os dízimos da tua colheita do mesmo ano, e os depositarás dentro das tuas portas. Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), o peregrino, o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda obra que as tuas mãos fizerem” (Deuteronômio 14:28-29). Em uma sociedade agrária, a terra era o meio principal de sustento, e assim o levita e o estrangeiro ficavam de fora do meio normal de ganhar a vida. Na cultura patriarcal, os órfãos e as viúvas também ficavam de fora dos meios normais de sustento. Dada a estrutura da cultura judaica naquele período, estes quatro grupos de pessoas eram os menos capazes de cuidar de si mesmos. E devido ao interesse compassivo de Deus para com eles, esta provisão foi escrita no dízimo.

Faríamos bem em considerar, dado o estado da sociedade moderna, se há pessoas hoje que equivalem aos levitas, aos estrangeiros, aos órfãos e às viúvas. Pela própria natureza da nossa cultura, há grupos que ficam de fora dos meios normais de renda para sustento próprio? Se há, será que o restante de nós não tem obrigação de responder à sua necessidade?

Deveria ser notado que o Novo Testamento não usa o dízimo nem as primícias. Jesus tinha uma porção de coisas a dizer sobre a nossa atitude para com os bens materiais, mas menciona o dízimo apenas duas vezes, em ambos os casos negativamente (Lc 18:21, Mt 23:22). O apóstolo Paulo teve uma porção de coisas a dizer sobre dar, mas qualquer referência à lei do dízimo está notoriamente ausente. Nem Jesus nem Paulo jamais fez do dízimo a base para a administração cristã dos bens materiais.

Talvez o patriarca Abraão devesse ser o paradigma para a nossa compreensão do princípio de generosidade. Ali estava um homem a quem foi dada grande riqueza. Contudo, nunca foi uma riqueza a ser acumulada; antes, foi livremente repartida com o clã. De fato, Abraão demonstrou uma postura incomum de tranquila indiferença para com os bens materiais. Quando o espírito cobiçoso de Ló os colocou em conflito, Abraão literalmente deu-lhe o direito de escolher a terra que quisesse (Gn 13:5-12). De graça ele recebeu, de graça deu.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 38-39)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 3


Parte 3 - As primícias e o dízimo

por Richard Foster

A lei das primícias também ilustra como nossa generosidade flui da generosidade de Deus. Esta lei estipulava que os primeiros frutos da safra a amadurecer fossem dados a Deus. Era, na realidade, um ato de confiança na generosidade de Deus. Eles davam na confiança de que conseguiriam colher o restante da safra. Era um confissão palpável de Deus como o Doador gracioso de todas as coisas boas.

Semelhante à lei das primícias, o dízimo era um conceito de celebração jubilosa. Nos dias de Jesus esta regra encantadora tinha se tornado tão distorcida e abusada quando tem sido em nossos próprios dias. É triste pensar que o dízimo, projetado para expressar liberação e liberdade, tem sido tantas vezes transformado em outra forma de escravizar as pessoas.

O costume de dar o dízimo é mencionado na Bíblia pela primeira vez em conexão com Abraão. Quando voltou de um ataque-surpresa de retaliação, Abraão deu alegremente a Melquisedeque um décimo dos despojos e deu 100 por cento do restante ao rei de Sodoma. Embora o rei protestasse, Abraão insistiu: “para que não digas: Eu enriqueci a Abraão” (Gn 14:17-24). Abraão deu generosamente em celebração do poder de Deus sobre seus inimigos. Ele não estava contando cada siclo para assegurar sua parte justa – queria se livrar de tudo aquilo. Havia um espírito de alegria e liberdade ligado à doação.

A lei mosaica mantém este senso de alegre festividade. O total de dez por cento da renda dos israelitas, além das primícias, era para ser dado em celebração da provisão graciosa de Deus. O dinheiro era usado para cuidar dos levitas, do forasteiro e dos pobres e necessitados. Era usado também para financiar as despesas das festividades envolvidas na celebração da generosidade de Deus.

Deuteronômio 14:22 Certamente darás os dízimos de todo o produto da tua semente que cada ano se recolher do campo.
23 E, perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus por todos os dias.
24 Mas se o caminho te for tão comprido que não possas levar os dízimos, por estar longe de ti o lugar que Senhor teu Deus escolher para ali por o seu nome, quando o Senhor teu Deus te tiver abençoado;
25 então vende-os, ata o dinheiro na tua mão e vai ao lugar que o Senhor teu Deus escolher.
26 E aquele dinheiro darás por tudo o que desejares, por bois, por ovelhas, por vinho, por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; comerás ali perante o Senhor teu Deus, e te regozijarás, tu e a tua casa.
27 Mas não desampararás o levita que está dentro das tuas portas, pois não tem parte nem herança contigo.

Com efeito, isso equivalia a um feriado religioso com todas as despesas pagas. O dinheiro do dízimo usado para uma gloriosa festa santa! No cerne do dízimo estava um espírito alegre de generosidade, adoração, celebração.


(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 36-37)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 2

Parte 2 - A terra

por Richard Foster

Outra coisa interessante a respeito do Jubileu era a perspectiva que ele dava à terra, uma perspectiva que era característica do pensamento do Antigo Testamento. A terra não tinha valor em si e de si própria em termos do número de colheitas que produziria até o Jubileu (Lv 26:16). Ela não era usada como um investimento, coisa comum nos nossos dias. A questão central era que o povo de Israel não possuía a terra; apenas tinha permissão para usá-la. Deus era o soberano da terra: “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha” (Lv 25:23). Como o tesoureiro de uma companhia ou a governanta de uma mansão, a autoridade humana sobre a terra era de supervisão. Deus havia distribuído a terra de tal forma que todo o povo podia se beneficiar com sua produção.

Este princípio de distribuição equitativa em vez de acúmulo, e administração em vez de posse, era tão revolucionário naquela época como é agora. O que aconteceria se esta ideia – de que o propósito da terra é servir às necessidades da humanidade em vez de prover os meios para auto-engrandecimento – fossem aceitos hoje? O que isto diria aos nossos investimentos em bens imóveis? Talvez este enfoque não recebesse a aprovação geral, mas e se os cristãos cressem que a terra era para o bem de todas as pessoas igualmente? É possível que apenas este grupo pudesse liberar recursos que amputariam a fome da face da terra?

Não temos nenhuma evidência histórica de que os filhos da aliança jamais implementaram o Jubileu. Contudo, isto nos diz apenas que eles eram frequentemente um povo de dura cerviz e desobediente. Não joga nenhuma luz sobre a correção ou viabilidade ou mesmo conveniência desse tipo de providência. O que o princípio do Jubileu de fato nos mostra é a preocupação profunda e permanente de Deus com a justiça e a equidade.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 36-37)

domingo, 19 de setembro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 1

Parte 1 - O Jubileu

por Richard Foster

A maior generosidade de Deus para conosco nos liberta para servir de exemplo desta generosidade para com os outros. Porque ele deu, somos capacitados a dar.

Esta celebração da generosidade de Deus e liberdade de dar em retorno é vista claramente no ano do Jubileu (Levítico 25). O Jubileu era um chamado a uma libertação divinamente capacitada dos bens materiais e uma reestruturação equilibrada das classificações sociais.

Uma vez a cada cinquenta anos, no Dia da Expiação, a trombeta vibrante devia tocar proclamando “liberdade na terra a todos os seus moradores” (Lv 25:10). Todos os escravos deviam ser libertos. Todas as dívidas deviam ser canceladas. Todas as terras deviam ser devolvidas ao proprietário original.

Inerente ao conceito do Jubileu estava um espírito descuidado de alegre confiança. Podia-se contar com Deus para prover o que fosse necessário. Ele prometera: “E vos darei a minha bênção” (Lv 25:21). Era este espírito interior de confiança que capacitava as pessoas a cumprirem as estipulações do Jubileu.

Havia um princípio social importante no Jubileu. Se executado fielmente (o que não era), ele teria eliminado completamente o antigo problema de os ricos ficarem mais ricos e os pobres ficarem mais pobres. Era, com efeito, justiça legislativa a favor dos pobres; um mecanismo legal institucionalizado para resolver um problema social e espiritual. O ciclo vicioso de pobreza podia ser quebrado. Pais que tinham perdido tudo e eram forçados a vender-se como escravos para sobreviver sabiam que seus filhos não precisavam ser esmagados por sua herança econômica. Podiam ter um novo começo. Inversamente, os ricos não podiam oprimir para sempre os menos afortunados. Sua posição vantajosa não era perpétua.

Faríamos bem hoje em olhar com atenção esta abordagem singular de contenção da injustiça social. Vivemos num mundo no qual o abismo que separa os que têm dos que não têm está se alargando a uma velocidade fenomenal. Naturalmente, é o cúmulo do pensamento simplista presumir que se pode tomar uma lei antiga e local e tentar universalizá-la e aplicá-la à cena internacional complexa. Mas tampouco é o princípio do jubileu totalmente irrelevante aos nossos dias. De fato, ele poderia nos dar algumas pistas importantes das maneiras como poderíamos ter um mundo mais equilibrado, mais justo.


(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 35-36)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O truque da prosperidade

Por Richard Foster

A fé cristã enxerga as coisas materiais como bens criados que Deus nos deu para desfrutar. Ela não descarta as coisas materiais como inconsequentes, ou, pior ainda, como más. O mundo material é bom e projetado para tornar feliz a vida. De fato, a provisão adequada é um ingrediente essencial da boa vida. Na sociedade humana de hoje a desgraça frequentemente advém de uma simples falta de provisão.

A desgraça advém igualmente quando as pessoas tentam construir uma vida sobre a provisão. Conquanto seja um ingrediente essencial para a boa vida, não é de forma alguma o único ingrediente, nem mesmo o mais importante. Muitas vezes o ensinamento bíblico sobre a provisão foi tomado e distorcido numa doutrina de prosperidade insaciável. Toda a persuasão sutil, e às vezes não muito sutil, de “amar a Jesus e enriquecer” reflete nosso fracasso em ver a limitação que a Bíblia coloca sobre coisas. Encarnados em nossa teologia encontram-se objetivos cobiçosos sob o disfarce das promessas de Deus. E o interessante a respeito de todos esses truquezinhos para alcançar a bem-aventurança é que eles funcionam, realmente funcionam. Isto é, funcionam se o que desejamos é um pouco de dinheiro; mas, se desejamos a abundância que Deus dá, eles falham.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, p. 22)

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