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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

100 anos atrás morria Rasputin


Rasputin é um desses personagens da vida real, de carne e osso, cuja história parece ter sido inventada por alguém durante o uso de algum alucinógeno.

Já chegamos a comentar aqui no blog sobre a canção em ritmo discothèque que o grupo Boney M. lhe, digamos, "dedicou" em 1978 (clique aqui para acessar o divertido e musical artigo).

Só que cada detalhe sinistro ou bizarro de sua biografia (sobretudo as tentativas de matá-lo) é verdadeiro.

Santo ou demônio, o fato é que o fim do Império Russo centralizado na figura do czar e a Revolução Comunista de 1917 tiveram nele um dos mais importantes antecedentes.

A matéria abaixo é da Rádio Agência Nacional:

História Hoje: Conheça a história do monge russo Rasputin, morto há 100 anos

Há cem anos morria num vilarejo da Sibéria Grigori Iefimovich Novy, ou Grigori Rasputin, monge russo que se tornou personagem influente na corte de Nicolau Segundo e Alexandra Feodorovna.

Além da fama por seus poderes sobrenaturais, Rasputin tinha reputação de santo entre os camponeses e fama de devasso na corte.

Ainda pequeno chamava a atenção dos moradores do vilarejo em que vivia que acreditavam que ele tinha poderes hipnóticos e de cura.

Na adolescência, foi para o mosteiro de Verkhoture, nos Montes Urais, para se tornar monge, mas não completou os estudos, se casando aos 19 anos de idade. A fama de possuir poderes sobrenaturais se espalhou pelo império russo por volta de 1905, quando, já morando em São Petersburgo, foi procurado pelo czar Nicolau Segundo e sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, que buscavam a cura de seu filho, Alexei, que sofria de hemofilia.

Envolvente e sedutor, Rasputin conseguiu tranquilizar o príncipe, diminuindo seus sangramentos e conquistou a confiança do casal. Por isso, durante anos passou a exercer o papel de conselheiro da czarina. Na corte, interferia na atuação da igreja e nos assuntos de estado, chegando a nomear e demitir ministros.

Rasputin conquistou a antipatia de grande parte da corte. Foi acusado de indecente. Ele afirmava que era capaz de livrar as mulheres de seus pecados e, dormindo com elas, ajudava a encontrar a graça divina. Por sua conduta, em 1914, sofreu seu primeiro atentando a faca e sobreviveu milagrosamente.

Aproveitando da fama de místico, previu que a Rússia cairia em desgraça durante a Primeira Guerra Mundial. Preocupado com a previsão, o czar abandonou a corte em 1915 para comandar pessoalmente o Exército. Rasputin e a czarina então passaram a governar a Rússia e foram responsáveis, em grande parte, pelo fracasso do imperador em contornar a onda de descontentamentos que antecederam à Revolução Russa.

Em 30 de dezembro de 1916, um grupo de nobres organizou uma cilada e Rasputin comeu uma refeição envenenada por cianureto, mas novamente não morreu. Foi então foi fuzilado, sendo atingido por um onze tiros, e escapou. Depois disso, foi castrado e atirado inconsciente no rio Neva.

Após o corpo resgatado, foi encontrada água nos pulmões, confirmando que ele ainda estava vivo ao ser jogado no rio parcialmente congelado.



domingo, 20 de novembro de 2016

A arte de mentir em tempos de pós-verdade

Eleitores de Trump e o próprio em êxtase.
Quanto desta cena é verdade?
Ou pós-verdade...

Sim, é isto mesmo o que você leu no título, a mentira virou uma forma de "arte" nesses tempos em que a verdade não basta mais por si só, ela precisa de um "plus".

Qualquer semelhança com o discurso político único supostamente "ético" que ouvimos diariamente no Brasil não é mera coincidência.

Leia o artigo abaixo, publicado no The Economist, traduzido e reproduzido no Estadão, que você vai entender o porquê:

Arte da mentira

Na política, a verdade já não é mais é falseada ou contestada; tornou-se secundária no debate público

Os políticos sempre mentiram. Faz alguma diferença se resolverem deixar a verdade totalmente de lado?

A essa altura deve estar claro que Donald Trump habita um mundo onde os fatos são, quando muito, imigrantes indesejáveis. Nesse mundo de fantasia, Barack Obama usa uma certidão de nascimento falsa e é o fundador do Estado Islâmico (EI), os Clinton são assassinos e o pai de um dos adversários do magnata nas primárias esteve com Lee Harvey Oswald quando este distribuía panfletos pró-Cuba.

Trump é o principal expoente da política “pós-verdade”, um estilo de atuação na esfera pública que se distingue pelo uso frequente de afirmações aparentemente verdadeiras, mas sem qualquer respaldo na realidade. O descaramento do bilionário não é penalizado, sendo antes tomado como prova de que o eleitor está diante de alguém que não abaixa a cabeça para as elites no poder.

E Trump não é o único. Na Grã-Bretanha, um dos argumentos utilizados pela campanha que venceu o referendo de junho foi o de que, se não aprovassem a saída da União Europeia (UE), os britânicos seriam invadidos por uma horda de imigrantes, já que a Turquia estaria prestes a ingressar no bloco.

Se, como The Economist, o leitor acredita que a política deve se basear em fatos, isso é preocupante. As democracias mais sólidas dispõem de mecanismos de defesa para se proteger da pós-verdade. Países autoritários são vulneráveis.

Mas a pós-verdade é mais que uma simples invenção de elites que ficaram a ver navios. A expressão põe em evidência o cerne do que há de novo na política: a verdade já não é falseada ou contestada; tornou-se secundária. No passado, o objetivo das mentiras políticas era criar uma visão enganosa do mundo. As mentiras de homens como Trump não funcionam assim. Seu intuito não é convencer, e sim reforçar preconceitos.

São os sentimentos, não os fatos, que importam nesse tipo de discurso. A incredulidade dos adversários legitima a mentalidade “nós-contra-eles” que os candidatos anti-establishment exploram com sucesso. E se os oponentes tentam mostrar que as palavras não correspondem à realidade, veem-se obrigados a lutar no campo de batalha escolhido pelos líderes pós-verdade. Quanto mais os defensores da permanência da Grã-Bretanha na UE se esforçavam para mostrar que os partidários do Brexit usavam cálculos superestimados ao determinar os valores gastos pelo país por fazer parte do bloco europeu, por mais tempo mantinham a magnitude desses gastos sob os holofotes.

A política pós-verdade tem muitos pais. Alguns são dignos de louvor. Submeter as instituições e as autoridades a questionamentos é uma virtude democrática. Assumir uma atitude cética e desafiadora diante dos líderes é o primeiro passo para reformar uma sociedade. O colapso do comunismo foi acelerado graças a pessoas corajosas para contestar a propaganda oficial.

Acontece que há também forças corrosivas em ação. Muitos eleitores sentem que foram enganados e deixados para trás, ao passo que as elites continuam a viver no bem-bom. Detestam os tecnocratas que diziam que o euro contribuiria para melhorar suas vidas . Nas democracias ocidentais, as pessoas já não confiam como antes nos especialistas e nas instituições.

Mídia. A evolução da mídia também ofereceu terreno fértil para que a pós-verdade florescesse. A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas online, em redes cujos membros confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade. Confrontadas com evidências que contradizem crenças que lhes são particularmente caras, as pessoas preferem fechar os olhos para a realidade. Práticas jornalísticas bem-intencionadas também têm culpa no cartório. A busca da “imparcialidade” na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, às custas da verdade. Os cientistas da Nasa dizem que Marte provavelmente é desabitado; o professor Zureta diz que pululam alienígenas no planeta. Opinião por opinião, cada qual que escolha a sua.

Quando a política começa a ficar parecida com um ringue de luta-livre, a sociedade arca com os custos. Ao insistir em dizer - para perplexidade de alguns dos conservadores mais empedernidos - que Obama fundou o EI, Trump impede a realização de um debate sério sobre como lidar com extremistas violentos. Governar é complicado; aos olhos da política pós-verdade, porém, a complexidade é só um truque ilusionista que os especialistas usam para levar todo mundo no bico.É tentador pensar que, quando ideias vendidas sem amparo na realidade começarem a soçobrar, os eleitores abrirão os olhos e perceberão que se deixaram levar por líderes que não se dão o trabalho nem de disfarçar as mentiras. A pior parte da pós-verdade, porém, é que não se deve contar com esse movimento de autocorreção. Quando as mentiras tornam o sistema político disfuncional, é possível que os resultados negativos acabem por realimentar a mesma alienação e o mesmo descrédito nas instituições que estão na própria origem da política pós-verdade.

Políticos “pró-verdade”, às armas. Para enfrentar essa situação, os políticos comprometidos com os fatos e com a democracia precisam partir para o contra-ataque e incorporar uma linguagem mais aguerrida . Assumir uma posição de humildade e reconhecer os equívocos a que foram levados pela arrogância e pelo excesso de confiança também ajudaria. A verdade conta com forças poderosas a seu lado.

As democracias também têm instituições que podem ajudar. Sistemas judiciários independentes dispõem de mecanismos para estabelecer a verdade. O mesmo se aplica a órgãos criados para orientar a implementação de políticas públicas - em especial os que têm laços com a comunidade científica.

Se Trump for derrotado em novembro, a política pós-verdade parecerá menos ameaçadora, muito embora o bilionário tenha feito sucesso demais nos últimos meses para que ela suma do mapa de uma hora para a outra. Bem mais preocupante é a situação de países como Rússia e Turquia, onde autocratas recorrem à pós-verdade para silenciar os adversários. Deixadas à deriva num oceano de mentiras, as pessoas não terão em que se agarrar. Embaladas pela novidade da política pós-verdade, correm o risco de se ver nas mãos da opressão à moda antiga. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER



Erasmo Carlos cantando "Pega na Mentira" em 1981. Premonitório?




sábado, 19 de novembro de 2016

"Strange Fruit", de Billie Holiday, a 1ª canção de protesto

Tempos bicudos esses em que estamos vivendo, não é mesmo?

Parece que esse tal "progresso" da civilização humana é só uma balela que nos vendem para entorpecer nossos sentidos a fim de que não percebamos como a depravação é inerente à nossa espécie inacreditavelmente chamada de "sapiens".

Rumos estranhos esses que o nosso planeta está tomando. Protestar resolve?

É tão difícil responder essa questão com o mínimo de isenção como estabelecer qual foi a primeira "canção de protesto".

Afinal, se você considerar por um certo ângulo, a Marselhesa (o hino nacional da França) é um canto de guerra (composto em 1792 pelo oficial Claude Joseph Rouget de Lisle) que não deixa de ser uma canção de protesto contra os "feróces soldats" que vêm "égorger ("degolar") vos fils, vos compagnes", com o inconveniente hoje politicamente incorreto de "que um sangue impuro banhe o nosso solo" (qu'un sang impur abreuve nos sillons!).

Só que a marcial e revolucionária "La Marsellaise" dá um pique e tanto, você há de concordar. Basta ouvi-la antes dos jogos de futebol da seleção francesa que até o time adversário se sente intimidado.

Já "Strange Fruit" tem uma história mais singela, mas igualmente carregada de dor e pavor.

Originalmente composta em 1937 na forma de poema por um militante comunista norteamericano (sim, eles existiram um dia), Abel Meeropol, sob o pseudônimo de Lewis Allan, ele depois a musicou e a cantou junto com sua esposa e a cantora Laura Duncan em vários comícios em Nova York, inclusive no mítico Madison Square Gordon.

Meeropol compôs o poema depois que viu a foto de dois homens negros, Thomas Shipp e Abram Smith, pendurados (enforcados) em 1930 numa árvore num dos muitos linchamentos por motivação racista que eram comuns no Sul dos Estados Unidos até a década de 1960.

Evitando ferir susceptibilidades, não publicamos a foto aqui, mas ela pode ser vista na página da Wikipedia que trata do acontecimento. 

Em 1939, a canção chegou à lenda chamada Billie Holiday, que após muita resistência dela própria, de sua gravadora e de seu empresário, terminou gravando aquela que ficou conhecida como a primeira canção de protesto da história, pelo menos no que diz respeito à era da popularização da música e da massificação da informação.

Billie dizia que "Strange Fruit" lhe trazia à memória a morte de seu pai, que - devido ao racismo - não pode ser tratado do problema de pulmão que o incomodava.

Ouça, portanto, este clássico, cuja letra e tradução segue mais abaixo:





STRANGE FRUIT

Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop




FRUTA ESTRANHA

Árvores do sul produzem uma fruta estranha
Sangue nas folhas e sangue nas raízes
Corpos negros balançando na brisa do sul
Fruta estranha penduradas nos álamos

Pastoril cena do valente sul
Os olhos inchados e a boca torcida
Perfume de magnólias, doce e fresca
Depois o repentino cheiro de carne queimada

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem
Para a chuva recolher, para o vento sugar
Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair
Aqui está a estranha e amarga colheita



terça-feira, 12 de maio de 2015

Líder cubano visita o papa

Matéria publicada no IHU:

O papa e Raúl Castro: um face a face ''familiar'' de 55 minutos

Um face a face "familiar". Um diálogo coloquial e descontraído. Assim foi a audiência concedida pelo Papa Francisco ao presidente de Cuba, Raúl Castro Ruz, na manhã desse domingo, no Vaticano. Os dois, em estrita solidão, conversaram por 55 minutos. Falaram da viagem apostólica à ilha em setembro próximo, e o mandatário cubano agradeceu pela intervenção pontifícia no "degelo" com os Estados Unidos.

A reportagem é de Andrés Beltramo Alvarez, publicada por Vatican Insider, 10-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Pouco depois das 9h20min locais, o líder católico chegou à Plaza del Hongo, na entrada posterior da Sala Paulo VI. Ele se transferiu caminhando da sua residência, a pouco distante Casa Santa Marta, acompanhado apenas pelo seu mordomo, que segurava uma pasta de couro preto para ele.

Imediatamente depois, deslocaram-se até ali o responsável pelas Relações com os Estados da Santa Sé, Paul Richard Gallagher, e o sostituto da Secretaria de Estado, Giovanni Angelo Becciu. Com eles, também esteve Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia, que recebeu Castro na porta. Os diplomatas saudaram apenas no início e depois se retiraram.

"Bem-vindo!" foi a palavra com a qual o papa recebeu o seu convidado. De lá, ambos se deslocaram até o escritório privado, onde permaneceram até depois das 10h25min.

"O clima da conversa foi extremamente cordial, familiar, foi uma premissa para a próxima viagem. O presidente falou da acolhida e da expectativa do povo cubano para a ida do papa. O presidente Castro, antes de sair, dirigiu-se à delegação cubana, composta por cerca de 10 pessoas. Dirigindo-se aos jornalistas, ele disse que também tinha vindo para agradecer ao Santo Padre pela sua contribuição para a melhoria das relações com os Estados. Na conversa privada, falaram longamente e sem intérpretes. Isso fala do clima de familiaridade estabelecido", explicou aos repórteres o diretor da Sala de Imprensa vaticana, Federico Lombardi.

Depois do face a face, ocorreu uma breve troca de presentes. O presidente deu ao bispo de Roma uma medalha comemorativa dos 200 anos da Catedral de Havana, da qual só 25 foram fabricadas. Além disso, também lhe entregou um quadro, obra do pintor cubano Kcho, representando uma grande cruz realizada com barcaças e a cujos pés pode-se ver um homem rezando.

O artista, especialmente interessado em questões sociais, em 2014, apresentou uma mostra no Palácio da Chancelaria de Roma e, nessa ocasião, enviou uma carta a Francisco, à qual o pontífice respondeu.

"Ele teve a inspiração a partir da viagem do papa à (ilha italiana de) Lampedusa, da sua preocupação com os problemas dos migrantes e dos refugiados. Também se baseou no fato de o papa ter chamado a atenção mundial para o problema dos migrantes", acrescentou Lombardi.

Por sua parte, Jorge Mario Bergoglio entregou um medalhão com a imagem de São Martinho de Tours e, ao fazer isso, explicou ao presidente que ele costuma presenteá-lo com muito prazer aos chefes de Estado que o visitam, porque a imagem mostra o santo cobrindo um pobre com o seu manto. "É preciso cobrir os pobres, mas também se ocupar com a sua promoção", afirmou.

Ele também deu uma cópia da sua exortação apostólica Evangelii gaudium (A alegria do Evangelho) e explicou que o texto "tem uma parte religiosa e uma parte social", acrescentando outra frase: "Aqui está uma das declarações que o senhor tanto gosta".

O líder católico, depois, cumprimentou a delegação cubana, composta por cerca de 10 pessoas, incluindo o vice-presidente do Conselho de Ministros, Ricardo Cabrizas Ruíz; o chanceler, Bruno Rodríguez, e o embaixador junto à Santa Sé, Rodney Alejandro López Clemente. Ele acompanhou o seu hóspede até a porta, onde ambos se despediram.

Mais tarde, ao sair da Sala Paulo VI, Francisco dirigiu algumas palavras aos jornalistas, que ainda estavam no lugar. Abençoou-lhes, pediu-lhes para que rezassem por ele e concluiu, brincando: "Certamente, eu estraguei o domingo de vocês!".



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Papa Francisco teve papel essencial no reatamento entre EUA e Cuba

peace

Ontem, 17 de dezembro de 2014, não por acaso dia em que o papa Francisco completou 78 anos de idade, o mundo não poderia ter recebido presente melhor: o descongelamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, após 53 anos de mutismo, espionagem e incompreensão de lado a lado.

Ainda é cedo para que se normalizem as relações entre ambos os países, mas o passo dado ontem foi gigantesco. Significa, na prática, o fim de uma era onde a "guerra fria" imperou, fazendo com que as partes capitalista e comunista do globo se enfrentassem localizada e sistematicamente em qualquer região onde houvesse a possibilidade da troca de um regime pelo outro.

A queda do muro de Berlim em 1989 e o esfacelamento da União Soviética em 1991 foram os dois outros acontecimentos, nesse processo histórico, que podem se comparar em magnitude ao que ocorreu ontem, com o anúncio simultâneo da retomada dos laços diplomáticos pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro.

O PAPEL DO VATICANO E DO CANADÁ


Ainda não se conhece com exatidão qual foi o papel que o papa Francisco desempenhou nas conversações entre ambos os presidentes, mas o simples fato dele ter sido referido nos discursos dos dois mandatários revela o quanto sua participação foi importante, além, obviamente, do fato do anúncio do acordo ter sido feito no dia do aniversário do pontífice.

Segundo as primeiras informações, o papa Francisco teria escrito carta aos líderes dos dois países incentivando o diálogo. Não se pode esquecer ainda a importância  das visitas anteriores a Cuba dos  papas Bento XVI e João Paulo II, que deram sua contribuição para pavimentar o longo e difícil processo de paz.

Outro grande facilitador do diálogo entre EUA e Cuba foi o Canadá, segundo anunciou também ontem o primeiro-ministro canadense Stephen Harper, embora sem especificar em que extensão se deu essa colaboração. Apenas se sabe que diplomatas cubanos e estadunidenses se reuniram várias vezes sob os auspícios das representações diplomáticas do Canadá.

OS INCENDIÁRIOS BRASILEIROS


De qualquer maneira, é impossível não notar o contraste entre a posição do líder católico com a de muitos pastores evangélicos brasileiros, que fizeram de tudo durante a última campanha eleitoral para demonizar Cuba, e não foram capazes de levantar uma oração em favor da paz entre os povos.

Essas figuras, entre as quais o candidato derrotado à Presidência da República, pastor Everaldo, não perderam nenhuma oportunidade para estigmatizar o governo cubano a fim de obter ganhos políticos, e não devem estar nada satisfeitos ao ver que o próprio Barack Obama já negociava secretamente o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba.

OS PRÓXIMOS DESAFIOS


Há muitos desafios à frente, mas dois se destacam. O primeiro é o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, que depende da aprovação do Congresso Americano, hoje sob comando dos republicanos, que não só são adversários ferrenhos de Obama como sofrem influência do eleitorado cubanodescendente, majoritariamente concentrado no Estado da Flórida, do qual o senador Marco Rubio é o principal porta-voz.

O segundo desafio é saber qual a extensão das reformas democráticas que serão feitas em Cuba para que o país finalmente chegue ao século XXI no campo das liberdades e da cidadania. A tão desejada "solução biológica", que implicava em esperar a morte de Raúl Castro e seu irmão Fidel, ficou para trás, mas algo deverá ser feito para garantir ao país uma transição segura para a plena democracia e a economia de mercado, o que não será nada fácil.

De qualquer maneira, o mundo está hoje um pouco melhor, ou, como diriam os pessimistas, um pouco menos ruim.



segunda-feira, 30 de junho de 2014

Papa diz que comunismo roubou bandeira do cristianismo

Queridos leitores, a gente até tenta não falar tanto do papa para não ficar monocórdio, mas todo dia aparece uma declaração bombástica dele que não dá para ignorar. Ninguém segura Francisco! 

A pérola de hoje, que mistura opiniões dele sobre feminismo e comunismo, está reproduzida no Brasil Post:

Em entrevista histórica, papa acusa comunismo de roubar bandeira cristã e faz piada sobre as mulheres

Gabriela Loureiro

Na primeira entrevista exclusiva concedida pelo papa a uma mulher, Francisco falou sobre comunismo e misoginia na Igreja Católica. Franca Giansoldati, do jornal italiano Il Mesaggero, bem que tentou, mas o papa Francisco não quis se comprometer a apontar uma mulher como chefe de um departamento do Vaticano.

Giansoldati perguntou se poderia fazer uma crítica e, diante da afirmativa, disse que o papa fala pouco sobre as mulheres e, quando fala, é apenas de um ponto de vista da maternidade e do casamento, enquanto as mulheres lideram estados, multinacionais e exércitos. "Na Igreja, para o senhor, que lugar as mulheres ocupam?", questionou a jornalista.

"As mulheres são a coisa mais bonita que Deus fez. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade. Mas sim, você tem razão, não se fala o suficiente. Concordo que devemos trabalhar mais a teologia das mulheres e sim, estamos trabalhando nesse sentido", respondeu o papa.

A jornalista então perguntou se não existe uma misoginia como pano de fundo nessa situação. "O fato é que a mulher veio de uma costela", disse Francisco, aos risos, para depois se desculpar explicando que era uma piada diante da perplexidade de Giansoldati. "Concordo que devemos nos aprofundar na questão feminina", limitou-se a comentar o papa.

Quando questionado se podemos esperar uma decisão histórica de Francisco, como uma mulher chefe de departamento do Vaticano, o papa apenas disse que os padres "acabam agindo sob a autoridade das donas de casa".


Comunismo

Na mesma entrevista, a jornalista comentou que as críticas de Francisco ao capitalismo desenfreado levaram alguns a rotulá-lo como marxista, no que ele respondeu que os comunistas roubaram a bandeira do cristianismo.

Ele foi questionado sobre um post no blog da revista Economist que dizia que ele soava como um leninista quando criticou o capitalismo e pediu uma reforma econômica radical.

"Eu só posso dizer que os comunistas têm roubado a nossa bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro de o Evangelho", disse ele, citando passagens bíblicas sobre a necessidade de ajudar os pobres, os doentes e os necessitados.

"Os comunistas dizem que tudo isso é comunismo. Claro, vinte séculos mais tarde. Então, quando eles falam, pode-se dizer: 'mas então você é cristão'", disse ele, rindo.

Desde sua eleição, em março de 2013, Francisco tem frequentemente atacado o sistema econômico global como sendo insensível aos pobres e não fazer o suficiente para compartilhar a riqueza com aqueles que mais precisam.

No início deste mês, ele criticou a riqueza feita a partir de especulação financeira como intolerável e disse que a especulação com commodities era um escândalo que comprometeu o acesso dos pobres aos alimentos.



quinta-feira, 13 de março de 2014

60 anos atrás começava o "calvário" francês no Vietnã


No dia 13 de março de 1954, começava a Batalha de Diên Biên Phu no Vietnã, então sob controle francês, um prelúdio da carnificina que viria a acontecer nas décadas seguintes, com a intervenção americana naquele mesmo solo.

Abaixo, a descrição da Wikipedia sobre o que representou Diên Biên Phu:
A Batalha de Dien Bien Phu (em francês Bataille de Diên Biên Phu, em vietnamita Trận Điện Biên Phủ), travada entre o Việt Minh e o corpo expedicionário francês no Extremo Oriente, de 13 de Março a 7 de Maio de 1954, foi a última batalha da Guerra da Indochina.

Após 8 semanas de duros combates as tropas do Vietname do Norte, que numa força de cerca de 80 mil homens sofreram 7900 mortos e 15 000 feridos, venceram as tropas da União Francesa. Dos franceses, que registaram 2293 mortos e 5193 feridos na batalha, 11 721 soldados ficaram prisioneiros e a maioria não sobreviveu ao cativeiro, tendo sido repatriados apenas 3290.

Dien Bien Phu é um pequeno planalto no nordeste do Vietname, na província de Lai Chau, no alto Tonkin, na qual se encontra a localidade de Dien Bien Phu. Encontra-se na proximidade das fronteiras da China e do Laos, em plena região tai. Ðiện significa uma administração, Biên um espaço fronteiriço e Phủ un distrito, ou seja, em termos afrancesados, “chef lieu d'administration préfectorale frontalière” (ou aportuguesados, “sede da circunscrição administrativa fronteiriça”). Em língua tai, a povoação chama-se Muong Tanh. O local apresenta-se como uma grande planície coberta de arrozais e de campos, com a aldeia propriamente dita, e uma ribeira (a Nam Youn) que atravessa a planície. É o único sítio plano em centenas de quilómetros ao redor, inclui um antigo aeródromo construído pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.

Depois da sua conquista em Novembro de 1953 durante a operação Castor, foi, no ano seguinte, o teatro de uma violenta batalha entre o corpo expedicionário francês, composto de tropas da Legião Estrangeira, de tropas coloniais pára-quedistas, de artilheiros, de cavaleiros, de tropas aerotransportadas pára-quedistas metropolitanas, regimento de engenharia, saúde, grupos de caça da força aérea. Sem esquecer as tropas de África, bem como o batalhão pára-quedista vietnamita, que compõem os países membros da União Francesa, sob o comando do coronel Castries (nomeado general durante a batalha) e o essencial das tropas Việt Minh sob as ordens do general Giáp.

Esta batalha saldou-se com a vitória do general Giap a 7 de Maio de 1954 e foi a última da Guerra da Indochina, exceptuando a embuscada do Grupo Móvel 100 em An Khé alguns dias antes dos Acordos de Genebra. França abandonou a parte norte do Vietname (o Tonkin), depois dos acordos de Genebra, assinados em Julho de 1954, que instauraram uma divisão do país ao longo do paralelo 17.




terça-feira, 15 de outubro de 2013

União Soviética e o ateísmo de Estado

"Os felizes nascem sob a estrela soviética",
diz o cartaz da propaganda.
Promessa (não cumprida) do paraíso na Terra.

Gostaríamos de recomendar enfaticamente o excelente artigo do Gustavo, co-editor deste blog, no portal E-cristianismo, em que ele refuta a argumentação ateísta de que a extinta União Soviética não era exatamente um Estado ateu.

Trata-se de leitura obrigatória para todos os que se interessam pelo tema. Abaixo, a introdução do artigo que poderá ser lido na íntegra no link que indicaremos a seguir:



Tradução: "Lenin viveu, Lenin vive, Lenin viverá"


O ateísmo soviético e a perseguição religiosa

Houve há alguns dias um debate sobre o Estado Laico promovido no programa Na moral, da Rede Globo. O programa contou com a participação do representante católico, padre Jorjão, representante das religiões afro-brasileiras, Ivanir dos Santos, o pastor Silas Malafaia e o representante ateu Daniel Sottomaior, da ATEA.

O primeiro ponto tratado no programa são riscos dos argumentos religiosos no sistema jurídico1. E é aqui que Daniel Sottomaior tenta demonstrar o impacto negativo das religiões na sociedade com o argumento muitas vezes utilizado por ateus:
Agora que entra o estado laico, né? Na história da humanidade, os governos, na imensa parte dos nossos últimos milhares de anos, no ocidente, os governos se pautaram pela religião, e nos banharam de sangue com isso, sempre oprimindo os diferentes. Até que um belo dia chegou a revolução francesa e disse “vamos separar o Estado da religião”, o Estado não tem mais poder para interferir na religião e vice-versa.
A isto o pastor Silas Malafaia responde, dizendo:
Deixa eu (sic) discordar do colega sobre o banho de sangue... porque quem deu banho de sangue na humanidade foram aqueles que tinham o ateísmo como base. A Revolução que aconteceu na Rússia e que matou mais de 70 milhões de pessoas, a Revolução da China que matou mais de 50 milhões de pessoas, o Pol Pot lá, agora, no Camboja, naquela região... Estes camaradas tinham como doutrina a exclusão total da religião... Tanto a União Soviética como também a China, a exclusão total, o Estado laicista, ninguém derramou mais sangue do que aqueles que eram a favor da anulação de ideal da sociedade... Ninguém, isto é histórico, sociológico e antropológico, então, se quiser mudar isso...
Muitos ateus conhecem esta resposta. E muitos ateus a rejeitam, alegando que a perseguição no regime soviético se dava por causa de seu comunismo, não do ateísmo. Alguns chegam a declarar que este comunismo teria adquirido um status de religião para seus membros, podendo assim ser catalogado como exemplo de “religião” promovendo “banhos de sangue”.

O objetivo deste texto, portanto, é esclarecer esta questão. Afinal de contas, por que o governo soviético perseguia religiosos? Seria o ateísmo ali uma questão periférica? Teria o socialismo adquirido um status de religião?




Continue lendo o artigo no E-Cristianismo

Múmia: o cadáver de Lenin permanece insepulto na Praça Vermelha de Moscou




quarta-feira, 24 de julho de 2013

Vladimir Putin diz que foi batizado às escondidas do pai comunista

A notícia é do Terra:

Vladimir Putin revela que foi batizado às escondidas do pai comunista

O chefe do Kremlin fez estas afirmações em um documentário transmitido pela televisão pública russa nesta segunda-feira

O presidente russo, Vladimir Putin, revelou nesta segunda-feira que foi batizado às escondidas de seu pai, um membro do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

"Minha mãe me batizou às escondidas do meu pai, que era membro do Partido Comunista. Ele não era nenhum funcionário, trabalhava na fábrica, mas era um ativista de base do partido na organização da fábrica", disse Putin, citado pelas agências locais.

Putin, um crente confesso, acrescentou: "portanto, isso (o batismo) me comoveu, pessoalmente, e a nossa família".

Segundo a imprensa local, o líder russo foi batizado na catedral da Santa Transfiguração de São Petersburgo, onde nasceu em 1952, um ano antes da morte do dirigente soviético, Josef Stalin.

O chefe do Kremlin fez estas afirmações no documentário "O segundo batismo da Rússia", que foi transmitido pela televisão pública russa e mostrou a perseguição dos crentes durante a era soviética. "A Igreja é parceiro natural do Estado" na Rússia, afirmou o presidente.

Putin ordenou a devolução à Igreja Ortodoxa de muitas das propriedades confiscadas pelas autoridades soviéticas, o que foi criticado pela oposição, que a acusa de conivência com o poder comunista.

Em janeiro de 2012 Putin recebeu a bênção do ícone de Nossa Senhora de Tíjvin, na região de Leningrado, da mesma forma que todos os czares desde Ivan o Terrível (1530-84), com exceção do último, Nicolau II, que foi fuzilado pelos bolcheviques em 1918.





sábado, 10 de novembro de 2012

O bispo vermelho

Entrevista de D. Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT), sobre quem já comentamos aqui, publicada pelo IHU:

Dom Pedro Casaldáliga: ‘O problema é ter medo do medo’

O bispo emérito de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, conta nesta entrevista ao sítio Quem tem medo da democracia? - QTMD? -um pouco das suas vivências, falando sobre o contexto do Estado do Mato Grosso e do Brasil na atualidade. Fala também da importância das ações sociais que são desenvolvidas e do descaso com a Causa Indígena.

A entrevista é de Ana Helena Tavares e publicada por Quem tem medo da democracia?, 21-10-2012.

A voz é baixa, o corpo já não permite lutar no front, mas a lucidez do catalão D. Pedro Maria Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, é capaz de constranger. Por várias vezes quase assassinado, devido à sua opção pela defesa dos pequenos e o conflito com os grandes, D. Pedro ainda recebe ameaças.

O QTMD? viajou ao Araguaia para ver e ouvir de perto um pouco da história deste homem que optou por viver "descalço sobre a terra vermelha”. "’Descalço’ quer dizer sem consumismo. ‘Sobre a terra vermelha’. Uma terra ensopada de suor,… Mas também ensopada de sangue”, definiu Casaldáliga.

Para ele, todos os partidos e governos têm três dividas com o povo: A da Reforma Agrária – reforma que "não há, não há, não há…”, a da Causa Indígena – "os índios sobram frente ao agronegócio” – e a dos Pequenos Projetos – "a obsessão pelos grandes projetos é marca do governo atual”.

O bispo, que enfrentou a repressão do regime militar, lembrou que "Jesus enfrentou as forças do Império Romano”, e falou sobre Comissão da Verdade, lamentando a falta de punição aos torturadores: "A memória histórica tem que servir de lição”, sublinhou.

Recebido por tochas

"Eu cheguei em 1968 ao Rio de Janeiro (onde ficou cerca de 4 meses). Saímos de Madrid a 11 graus abaixo de zero e chegamos ao Rio de Janeiro a 38. Tinha aquelas tochas do aeroporto para a cidade. Umas tochas acesas… Eu ainda estou vendo… Aquele calor, com aquelas tochas… Passamos uma noite sem dormir.”

"Há muitos Brasis”

"E depois, em Petrópolis, eu fiz um curso que tem a Igreja Católica no Brasil para missionários que vêm de fora. Para estudar a língua e ter uma noção de história do país. Da Igreja no país. E foi providencial. Porque, na época da ditadura militar, se tivéssemos chegado diretamente, da maneira como nós chegamos (foto), para São Félix do Araguaia… Nós estaríamos perdidos. Completamente despistados, sem saber da situação verdadeira… As causas da situação. As migrações: por que motivo? A história do país. Que há muitos Brasis…”.

Sete dias de caminhão

"Foram quase sete dias de caminhão de São Paulo até aqui (São Félix do Araguaia). Porque a estrada estava se abrindo, não tinha estrada. As pontes eram pequenas. Tinha muitos córregos… Agora, quando se faz o caminho de Barra do Garças para cá, não se tem nem ideia de como era a região.”

"Cadê a mata do posto?”

"Está tudo desmatado. Os córregos todos profanados, alguns deles secos já perderam toda a vitalidade. Tinha mata… Se fala do Posto da Mata… Cadê a mata do posto?”

"Terra de ninguém”

D. Pedro Casaldáliga chegou ao Brasil em janeiro de 68, portanto antes do AI-5 (que foi em dezembro do mesmo ano), mas garante: "já era clima de ditadura tensa”. E São Félix do Araguaia era, segundo ele, "um lugar onde o Estado não estava presente. Terra de ninguém.”

"Conflito com a política oficial”

D. Pedro lembra que, em 68, "começavam a vir as grandes fazendas com os incentivos fiscais da SUDAM.” E prossegue: "Automaticamente, para nós, a convivência com os pobres, pelo povo e pelos pequenos, significava entrar em conflito com o latifúndio. Entrar em conflito com a política oficial.”

"Estavam de um lado os índios, os posseiros, os peões… Do outro, os fazendeiros, a polícia, o Exército, o governo, o Estado… Logo, quase bem do início, já percebemos que a luta seria essa. Se nos posicionávamos do lado do povo, entrávamos em conflito com a política oficial.”

A guerrilha

"Aqui não teve guerrilha. A guerrilha foi no sul do Pará e no norte de Goiás. Só que para a repressão nós éramos guerrilha. Porque não conseguiam entender que uns estrangeiros se enfronhassem nesse mundo onde não tinha comunicação de jeito nenhum. Infraestrutura nenhuma… E rapazes novos que deixassem os estudos, o emprego e viessem para cá para não ganhar nada praticamente, só podiam ser guerrilheiros ou respaldo da guerrilha. Por isso, tivemos a repressão em cima… Sempre.”

"Diálogo de surdos”

"Foram presos muitos agentes de pastoral. Torturados. As presidências da CNBB foram muito solidárias conosco. E tivemos possibilidade de discutir com as autoridades por esse respaldo da CNBB. Só que era um diálogo de surdos.”

"Veio, em 1972, o ministro da Justiça da época. (Alfredo) Buzaid, ministro da Justiça (governo Médici). Estive com ele. Discutimos… Ele prometia o que não queria dar. Se impressionou no máximo pelo início da Reforma Agrária. Pelos sucessos de Santa Terezinha dentro da região.”

"Um grito!”

"E no dia da minha sagração (foto), lançamos uma carta pastoral. "Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social.” E foi um grito! Porque escrevíamos dando nomes aos bois… Isso provocou mais presença da repressão.”

"Ação Cívica e Social do Exército”

"Nós tivemos aqui na região quatro operações da ACISO - Ação Cívica e Social do Exército. Que vinha para esses interiores arrancar dentes e consultar… Vinham de fato inspecionar. Porque abrangia a área estrita da Prelazia.”

"Vasculhavam as nossas casas… Exigiam a prisão… Levavam os agentes de pastoral presos e torturados para o Quartel do Exército de Campo Grande. Porque tudo era suspeito… Havia um clima de terror nessas regiões todas.”

"O povo foi torturado como cúmplice”

"Muitos anos depois, o povo se sentia livre para agir, para conversar. Em certas celebrações que tivemos, ainda havia uma reticência. Porque, além dos guerrilheiros que foram mortos, o povo foi torturado, maltratado como cúmplice… Os guerrilheiros tinham criado amizades, alguns eram médicos, professores.”

"Os índios sobram frente ao agronegócio”

Quanto aos índios, "já era uma atitude que continuava a política toda da colonização… Os índios sobravam. E estamos no mesmo problema… Sobram frente ao agronegócio. Porque a política indígena, a cosmovisão indígena, a cultura indígena, a economia indígena… É contrária à política e à economia do agronegócio. Por isso, eu dizia que tivemos problema na defesa desses três grupos de pessoas Os povos indígenas, os posseiros e os peões.”

"O problema é ter medo do medo”

"Detectamos o trabalho escravo. E o denunciamos… Foi aqui onde primeiro se denunciou o trabalho escravo.” Perguntado se em algum momento teve medo de morrer, o bispo do Araguaia não hesitou:

"Vários! Ainda agora, por exemplo… Essa situação dos intrusos, os que comandam a intrusão. Acham que a culpa principal é minha por eu ter defendido esses índios.”

"Mas (na ditadura) éramos todos ameaçados… Eu tenho uma significação por ser bispo. Lógico… Eu digo sempre que o problema não é ter medo… O problema é ter medo do medo, (porque o medo) é uma reação defensiva.”

A morte do padre Burnier

Casaldáliga e o padre João Bosco Burnier, assassinado por um policial, estavam numa delegacia para defender mulheres torturadas. Uma delas é a que aparece na foto ao lado, observada por Casaldáliga, de óculos. Aquela foi uma das quatro ocasiões em que o bispo foi quase expulso do Brasil.

"O povo de Ribeirão Cascalheira derrubou a cadeia e a delegacia. Disseram que eu estava comandando esta derrubada da cadeia… Cadeia funcionando… E que podiam pedir a minha expulsão. Eu precisamente tinha saído rapidamente a Goiânia levando a denúncia da morte do Padre João Bosco (Burnier) e eu já não estava (em São Félix).”

As três dívidas dos governos com o povo

"Não há… Não há… Não há Reforma Agrária.”, enfatiza Dom Pedro Casaldáliga. "A Reforma Agrária supõe Reforma Agrícola também. Uma política a favor da Agricultura Familiar. Um acompanhamento dos assentamentos. Se tem feito alguns acordos… Mas não entram no que eu digo…”

"Eu digo que esses partidos, esses governos todos têm três dívidas: a da Reforma Agrária; a da Causa Indígena; e a dos Pequenos Projetos. De Agricultura Familiar, de Mini-Empresas… Têm essa dívida.”

"E com o capitalismo neoliberal… Com a política da exportação… Se confirma que esses países da América Latina e o Brasil, particularmente… Estão destinados a serem exportadores de matéria prima. É uma política contrária completamente às necessidades do povo.”

"O povo tenta fazer (a Reforma Agrária)… O MST e outras forças populares tentam gestos da Reforma Agrária. Mas a política oficial não é da Reforma Agrária. Insistindo: o que se pede é uma Reforma Agrária que seja uma Reforma Agrícola também. Porque terra é mais do que terra! Para o índio, sobretudo, é o habitat.”

"O bispo Pedro é comunista”

"Nós éramos comunistas, aqui na região, na Prelazia. E se deram casos pitorescos. Numa ocasião (na ditadura militar), a polícia lá em Santa Terezinha dizendo que: "O bispo Pedro é comunista”! Um dos camponeses falou: ‘Eu não sei o que é comunista. Agora, se comunista é ser da comunidade, trabalhar para a comunidade, o bispo Pedro é comunista’”.

"Os primeiros socialistas se inspiraram no Evangelho”

"No problema da justiça e da igualdade, estamos na mesma. Por motivos filosóficos, históricos e de fé… Também se diz: "Estamos no mesmo barco.” E, em certa medida, é verdade. Estamos no mesmo barco, mesmo que nós acrescentemos o motivo da fé. A procura da justiça social, da fraternidade universal… Os primeiros socialistas se inspiraram no Evangelho.”

"Dialético, marxista, humano”

"Por outra parte, se critica a Teologia da Libertação de ser marxista. Não é marxista. Porque existem categorias que são comuns… Dizer que os ricos cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres… Isso é dialético! É marxista! É humano! Uma consideração humana da realidade dá esse resultado: que os ricos são cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres.”

Socialização: a prerrogativa para a paz

"Quando fomos investigados aqui (na ditadura militar)… A Polícia Federal me parou e perguntava sobre socialismo. Eu dizia: se querem falar de socialismo, vamos falar de socialização. Se não se socializa a terra… A terra do campo e a terra urbana. A saúde, a educação, a comunicação… Se não se socializa esses bens maiores, essenciais… Não haverá paz.”

"Como Jesus optou…”

"Há um passado, um presente e um futuro (para a Teologia da Libertação). E, em todo caso, toda verdadeira teologia tem de ser Teologia da Libertação. A teologia cristã tem que optar pela igualdade fraterna da humanidade. Tem que optar pelos pobres, pelos pequenos, pelos marginalizados. Como Jesus optou.”

"Enfrentando, se preciso, as forças do poder. Como Jesus enfrentou as forças do Império Romano. As forças de uma religião utilizada… As forças do latifúndio na Palestina. Então… Um cristão que queira ser cristão de verdade tem que fazer essas opções. Isso chamamos de Teologia da Libertação.”

"A memória histórica tem que servir de lição.”

Dom Pedro Casaldáliga concorda que se investiguem as violações dos direitos humanos que tenham ocorrido entre 1946 e 1988, como está fazendo a Comissão da Verdade. "Eu acho que é bom que se abranja também essa outra área.”

"Porque o perigo de torturar fisicamente e psicologicamente está nas mãos de todos os governos que sejam mais ou menos ditatoriais. A ditadura foi o momento alto dessa repressão… Desse abuso de poder. Mas devemos prevenir para qualquer outro momento.”

O bispo, porém, discorda da falta de punição aos torturadores: "Deveriam ser punidos. A memória histórica tem que servir de lição. Não pode ser apenas evocar estaticamente uns heróis e uns torturadores. Vários países da América Latina têm dado o exemplo disso”.

América Latina: "Pátria Grande”

Casaldáliga considera que a América Latina "está melhor hoje do que ontem. Porque temos governos mais ou menos de esquerda. Porque há uma maior consciência de que somos um continente.”

"Uma "Pátria Grande”, como diziam os libertadores. "A nossa América”, diziam eles também. Eu digo sempre que a América Latina e o Caribe ou se salvam continentalmente todos ou não se salvam. Tem que ser uma comunidade de nações, porque temos uma característica especial.”

"Paixão latino-americana”

"Já, em parte, se está conseguindo que a América Latina não seja tão abertamente o quintal dos Estados Unidos. Se está dando passos importantes. Quando se fala da Venezuela, eu digo que, com os erros de Hugo Chávez, tem umas contribuições significativas. Uma delas é essa paixão latino-americana.”

"O Brasil é outra coisa”

"Custou o Brasil tomar consciência de que somos América Latina. Pelo idioma… Por uma certa atitude hegemônica… Que, às vezes, não é suficientemente controlada… O Brasil é outra coisa.”

Não acredito, mas…

O bispo não acredita em novo golpe. Ao menos, não nos moldes do que ocorreu em 64. "Nem aqui nem em outros lugares da América Latina. Mas há outros tipos de golpes… Por isso, é bom prevenir… Para que as ditaduras não sejam camufladas… Podem ser ditaduras militares, podem ser ditaduras civis também…”

Os "outros tipos de golpes”…

"O governo do Paraguai não é legítimo, o governo de Honduras não é legítimo. Evidente. São golpes de Estado, são ditaduras camufladas a serviço dos interesses do Império. (o grande capital) Que agora é menos expressivamente dos países… A globalização os tem metido a todos no mesmo saco.”

"O nosso DNA é ser raça humana”

"Por outra parte, há um cenário, uma nova consciência de sermos uma unidade. Somos a família humana. Agora não se pode prescindir do resto do mundo. Sempre temos dito que o pecado dos EUA é se considerar como ele só no mundo. E o resto é resto.”

"Agora com a globalização e suas malezas, e seus abusos… Tem se aberto um espaço… Uma unidade. A característica primeira é de ser humanos…”

"Eu digo que o nosso DNA é ser raça humana. Família humana. Existem ("raças”) como identidade. Mas, dentro dessa identidade, primeiro é o fato de ser humanos. E toda a verdadeira política se devia dedicar a humanizar a humanidade.”

"Capitalismo com rosto humano é impossível”

Perguntado se há possibilidade de haver uma verdadeira democracia dentro do capitalismo, o bispo do Araguaia foi enfático: "Não! O capitalismo é nefasto. E não tem solução… O capitalismo é o egoísmo coletivo. É a segregação da imensa maioria. É o lucro pelo lucro. É a utilização das pessoas e dos povos a serviço de um grupo de privilegiados. Quando se trata de um "capitalismo com rosto humano” se está pedindo o impossível. É impossível.”

"A democracia é uma palavra profanada.”

Para D. Pedro Casaldáliga, não há democracia verdadeira em lugar nenhum do mundo. "Porque se tem uma democracia formal… Uma democracia, entre aspas, política. Mas não se tem democracia econômica… Não se tem democracia hênica (étnica). Os povos indígenas, dentro destes Estados democráticos… São coibidos. São marginalizados. Se veem obrigados a reivindicar os direitos que são elementares para eles. A democracia é uma palavra profanada.”

Quem tem medo da democracia?

"Da verdadeira democracia… Têm medo todos àqueles que continuam defendendo privilégios para umas pessoas… Privilégios para uns poucos.”

"Todos aqueles que fazem da propriedade privada um direito absoluto.”

"Todos aqueles que não entendem que a propriedade tem uma hipoteca social.”

"Todos aqueles que considerem que podem existir pessoas, governos e Estados que vivam de privilégio à custa da dominação e da exploração…”

"Não há liberdade de imprensa”

"A grande mídia é a mídia dos grandes. Com isso está dito tudo… Não há liberdade de imprensa. Eu tenho visto jornalistas chorando de raiva porque fizeram matéria e o editor tergiversou (distorceu) tudo praticamente… Colocando o título tal e tergiversa (distorce) tudo o que foi dito no texto. Sim. Sim. Tem tido casos assim.”

Governo Dilma: "obsessão pelos grandes projetos”

"A crítica que eu faço é dessas três dívidas: A dívida da Reforma Agrária. A dívida da Causa Indígena. E a dívida dos pequenos projetos. Se faz os grandes projetos… Belo Monte. São Francisco. Hidrelétricas… Grandes projetos… O Brasil é destinado a ser uma grande fábrica a serviço deles.”

"Um índio Carajá dizia uns anos atrás… Numa coletiva de imprensa na Europa: "Eu acho que o nosso governo está mais interessado em engordar os porcos de obra…” "Do que em cuidar do seu povo…” Engordar os porcos… Sem recolher a soja… Fazer da soja a grande exportação. Há uns atrás ele falava… Mas ainda devemos dizer que essa obsessão pelos grandes projetos… Define em grande parte o governo atual.”

A política internacional vai bem

"Eu reconheço a história da Dilma. Reconheço as ações de solidariedade que ela está fazendo… A atitude que se tem adotado com respeito ao Paraguai… A atitude que se tem adotado com respeito à Venezuela… A atitude que se tem adotado quando se trata de defender o direito dos povos. Se Equador toma uma decisão, ela é acolhida ou respaldamos. Sim (a política internacional vai bem). Pela primeira vez se fez uma política, que buscava a independência com respeito aos EUA.”

"Descalço sobre a terra vermelha”

Quando o QTMD? esteve em São Félix do Araguaia, estava sendo rodado um filme sobre D. Pedro Casaldáliga, baseado em livro homônimo. O homenageado se opunha, mas depois acabou permitindo.

"Eu me opunha de todo jeito. Porque eu tinha medo de duas coisas: que se partisse para o pedantismo… O culto da personalidade. E também que não se destacassem bastante… As nossas causas. Por que estamos aqui? O que defendemos aqui? Por que temos assumido essas atitudes?”

"Isso de um modo comunitário. Porque não tem sido eu… Tem sido essas equipes de pastoral… Tem sido o movimento popular. O povo da região… Que tem lutado, que luta, para vingar seus direitos. Eu fiz questão de não interferir. Deixar liberdade absoluta. Sem censura. Criticamos a censura, eu não vou fazer censura agora…”

"Tem uma vantagem, acho, o filme… Ajudará a evocar uma memória que não estava viva, sobretudo, na juventude… Do governo daquela época. Poderão agora descobrir um passado, que afeta o presente e o futuro.”

"’Descalço’ quer dizer sem consumismo. Despojado, sem consumo. ‘Sobre a terra vermelha’. Uma terra ensopada de suor,… Mas também ensopada de sangue. Sangue mártir.”, finalizou o bispo.



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