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sábado, 14 de novembro de 2009

Como Deus nos vê

por Philip Yancey:

No final da vida, Henri Nouwen disse que a oração se tornou para ele principalmente um momento de "ouvir a bênção". "A verdadeira "obra" da oração", disse, "é ficar em silêncio e ouvir a voz que fala coisas boas a meu respeito". Isso pode parecer auto-satisfação, admitiu, mas não é quando significa se ver como o Amado, alguém em quem Deus escolheu habitar. Quanto mais ele ouvia essa voz, menos inclinado ficava a julgar seu valor pela forma como os outros o tratavam ou pelo que já havia conquistado. Ele orava para que a presença interior de Deus se expressasse em sua vida diária, enquanto comia e bebia, falava e amava, brincava e trabalhava. Buscava a liberdade radical de uma identidade ancorada em um lugar "acima de todos os elogios e acusações humanas".

Também descobri que a oração significa muito mais que dizer a Deus o que quero que faça. Significa, principalmente, colocar-me num lugar em que Deus possa "renovar minha mente", em que eu possa absorver minha nova identidade como o Amado de Deus, a qual Deus insiste ser minha porque creio.

Numa analogia audaciosa, Kathleen Norris inverte o ponto de vista que normalmente atribuímos a Deus:

"Certa manhã de primavera, vi um jovem casal com uma criança no portão de embarque do aeroporto. O bebê olhava intensamente para as outras pessoas e tão logo reconhecia um rosto humano, não importava de quem fosse, se jovem ou velho, bonito ou feio, aborrecido, alegre ou preocupado, ele reagia em total deleite.

Era lindo de se ver. Nosso monótono portão de embarque tinha se transformado no portão do céu. Enquanto observava essa criancinha brincando com qualquer adulto que assim permitisse, senti-me como Jacó tomado de assombro, porque percebi que é assim que Deus olha para nós, fixamente em nosso rosto para se deleitar, para ver as criaturas que ele criou e chamou de boas, junto com o resto da criação. E, como diz o salmo 139, as trevas não são nada para Deus, que consegue olhar através de qualquer mal que tenhamos feito em nossa vida e enxergar a criatura feita à imagem divina.

Desconfio que apenas Deus e as crianças amadas conseguem enxergar dessa maneira."

(Philip Yancey, em “O Deus (In)Visível”, Ed. Vida, pág. 158)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Proteja a sua inocência

por Henri Nouwen

Ser um filho de Deus não o isenta de tentações. Você pode ter momentos em que se sentirá tão abençoado, tão em Deus, tão amado, que esquecerá que está ainda vivendo num mundo de principados e potestades. Mas a sua inocência como um filho de Deus precisa ser protegida. De outra forma, facilmente será arrebatado do seu verdadeiro ser e enfrentará a força devastadora da escuridão à sua volta.

Esse afastamento pode vir como uma grande surpresa. Antes que tome consciência disso ou antes que tenha tido oportunidade de permitir que isso aconteça, pode sentir-se dominado por luxúria, irritação, ressentimento ou avareza. Um quadro, uma pessoa, ou um gesto podem desencadear emoções fortes e destrutivas e seduzir o seu ser inocente.

Como um filho de Deus, você deve ser prudente. Não pode simplesmente andar pelo mundo como se nada ou pessoa alguma pudesse causar-lhe dano. Você continua extremamente vulnerável. As mesmas paixões que fazem com que ame a Deus podem ser usadas pelas forças do mal.

Os filhos de Deus precisam apoiar-se, proteger-se e manter-se unidos junto ao coração de Deus. Você pertence a uma minoria num mundo vasto e hostil. À medida que se tornar mais consciente da sua identidade como filho de Deus, verá igualmente com mais clareza as muitas forças que desejam convencê-lo de que todas as coisas espirituais são falsos substitutos para as coisas boas da vida.

Quando se está temporariamente afastado do seu verdadeiro eu, pode ter-se a súbita sensação de que Deus é somente uma palavra; a oração, uma fantasia; a santidade, um sonho; e a vida eterna, uma fuga do verdadeiro viver. Jesus foi tentado dessa forma, e nós também o somos.

Não confie nos seus pensamentos e sentimentos quando está fora de si. Volte logo ao seu verdadeiro lugar e não preste atenção ao que o iludiu. Aos poucos, ficará mais preparado para enfrentar essas tentações, e elas terão menor e menor poder sobre você. Proteja a sua inocência agarrando-se à verdade: você é um filho de Deus e profundamente amado.

(Henri J. Nouwen, em “A Voz Íntima do Amor”, Paulinas, 2001, p. 80)

sábado, 10 de janeiro de 2009

Crença e descrença em Dostoievsky

Atribui-se a Dostoievsky a frase "se Deus não existe, tudo é permitido". 

Primeiramente, há que se desfazer o equívoco já "institucionalizado": esta é uma frase que Sartre (Jean-Paul) atribuiu a Dotoievsky em "Os Irmãos Karamazov", mas Dostoievsky- a bem da verdade - nunca escreveu isso. 

O que existe, no livro, é um trecho em que o personagem Mitia, um dos irmãos do título, se pergunta:
- Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem ! Mas como ele seria virtuoso sem Deus?
Assim, a frase de onde Sartre extraiu a conclusão expressa no postulado acima, é outra, e deve ser lida dentro do contexto do livro. 

O que Mitia pergunta ali é como é que o homem pode ser virtuoso sem Deus, o que não deixa de ser uma crítica aos ateus, no sentido de que ateus não poderiam ser morais. 

Ora, isso é claramente uma hipótese do absurdo a que Dostoievski se refere e coloca na boca de um de seus personagens, já que ele era deísta e não lhe ocorria a possibilidade de existir um mundo sem Deus.

Aqui está, portanto, a nossa primeira dificuldade em admitir essa hipótese, pois é praticamente impossível encontrar alguém que, empiricamente, viva num mundo sem considerar a existência de uma força divina. 

Talvez ainda exista uma tribo perdida em algum rincão do planeta em que isso seja possível, mas o próprio fato de estarmos discutindo este tema aqui mostra que Deus é, no mínimo, um objeto de análise. 

Da minha parte, eu creio na sua existência. 

Outros, entretanto, não creem, mas o grande problema para muitos ateus é exatamente o fato de que tanta gente creia em Deus, e isto também os afeta no sentido de que, vez ou outra, tem que argumentar no sentido de que não existe nenhum deus. 

Seria como se Deus estivesse dizendo: "falem bem ou falem mal, mas falem de mim". 

Dentro dos pressupostos metodológicos da ciência, portanto, a negação de Deus teria que ser empírica, demonstrável, insofismável, verificável, mas isso gera um problema para os ateus: como demonstrar o que não existe? 

Estamos de novo diante da hipótese do absurdo, e me parece que é isso o que Dostoievski quer mostrar colocando a frase na boca do seu personagem. 

¿Como falar em imortalidade da alma, se nem em alma se crê?

A dificuldade é, me parece, recíproca. 

Um ateu não consegue imaginar um mundo sem algum deus, porque não lhe dão esta oportunidade. 

A não ser que ele se isole numa ilha perdida qualquer, ele sempre estará sendo bombardeado pela (pelo menos) noção do divino, que terá que rebater de alguma forma. 

A questão do que é moral, imoral ou amoral é, também, prejudicada pelo alto grau de subjetividade e, digamos, "divinização" do tema, já que a moral sempre esteve intimamente ligada à religião. 

É claro que os princípios morais estão presentes nos ateus, mas o difícil é determinar a sua origem. 

Daí ser impossível, a meu ver, imaginar um universo em que Deus não exista, pois mesmo que cheguemos próximos dessa imagem, ela é absurda no sentido de que não há registro de que este universo efetivamente seja uma realidade. 

Logo, o ateu não pode rebater com o absurdo a ideia que lhe parece absurda. Seria uma bela discussão para saraus filosóficos inócuos, mas sem qualquer efeito prático.

Retornamos, assim, à questão do iluminismo do século XVIII, fruto - em grande parte - do terremoto de Lisboa em 1755 que abalou não só a cidade como toda a razão e - igualmente - a religião naquela época. 

Tudo o que se seguiu ao estupor causado pelo sismo português e pela Revolução Francesa foi no sentido de tornar o conhecimento do homem mais objetivo e menos subjetivo. 

Um tsunami de destruição e transformações.

Uma fuga incansável de tudo o que fosse imprevisível.

O positivismo da segunda metade do século XIX é a maior expressão dessa era, em que se imaginou que tudo o que fosse moral poderia ser sistematizado em termos objetivos, positivos. 

Afinal, foi aí que começou a era das grandes descobertas científicas, da separação da Igreja do Estado, enfim, de uma série de fatores que apontava para um novo tempo para o ser humano. 

Entretanto, vieram as duas Grandes Guerras do século XX e todo esse positivismo foi por água abaixo. 

Um exemplo que vale a pena ler, se houver oportunidade, é Gustav Radbruch, que escreveu o livro "Filosofia do Direito", que são vários ensaios divididos em capítulos que mesmo quem não seja profissional da área vai gostar de ler. 

Até 1945, Radbruch era firmemente positivista. 

Depois disso, se transformou num dos mais veementes defensores do Direito Natural, aquele que se baseia numa espécie de moral universal imune a épocas, culturas e civilizações, o mesmo Direito Natural que serviu para legitimar a monarquia absoluta pré-Revolução Francesa, e que havia sido rechaçado pelo Positivismo. 

Isto apenas demonstra como estamos longe de determinar o que seja esta moral universal, que nos afeta e implica a todos, sejamos ateus ou religiosos, crentes ou descrentes.

De certa forma, o "absurdo" mais nos une do que nos separa.

O que me remete, se nos permitem finalizar com esta citação, a um texto de Henri Nouwen (“Mosaicos do Presente”, Paulinas, 2000, p. 14):
    Orar é dar ouvidos a esta voz de amor. É nisso que consiste a obediência. A palavra “obediência” vem do latim “ob-audire”, que significa ouvir com muita atenção. Sem ouvir, tornamo-nos surdos à voz do amor. A palavra latina para surdo é “surdus”. Assim, ser completamente surdo é ser “absurdus”; sim, absurdo. Quando deixamos de orar, quando deixamos de escutar a voz do amor que nos fala neste momento, a nossa vida torna-se uma vida absurda e somos lançados para trás e para a frente entre o passado e o futuro.

   Se pudéssemos estar, nem que fosse só alguns minutos por dia, completamente onde estamos, descobriríamos com certeza que não estamos sós e que aquele que está conosco quer apenas uma coisa: dar-nos amor.
 



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Henri Nouwen e a dor




INTEGRE A SUA DOR



Você se pergunta se é bom partilhar sua luta com outros, especialmente com aqueles de quem deve ser o pastor. Acha difícil não falar das suas dores e tristezas com aqueles que você está tentando ajudar. Sente que o que pertence à essência da sua pessoa humana não deve ser mantido em segredo. Deseja ser um companheiro de viagem, não um guia distante.

A principal questão é: “Você integrou a sua dor?” Enquanto não tiver feito isso – isto é, integrado a sua dor no seu modo de viver -, há o perigo de usar o outro com a finalidade de obter a sua própria cura. Quando conversa com os outros sobre o seu sofrimento, sem que o tenha aceito integralmente, espera deles algo que não são capazes de dar-lhe. Como conseqüência, sente-se frustrado, e aqueles a quem queria ajudar irão sentir-se confusos, desapontados e até mais sobrecarregados.

Mas quando integra o seu sofrimento por completo e não espera que os fiéis do seu rebanho o aliviem, pode abordar o assunto com verdadeira liberdade. Então, pode tornar-se proveitoso partilhar a sua luta; a sua franqueza sobre o que lhe diz respeito pode dar coragem e esperança a outros.

Para que seja capaz de, ao partilhar a sua luta, fazer um bem, é também essencial que haja pessoas a quem possa recorrer nas suas próprias necessidades. Você sempre precisará de pessoas confiáveis com as quais possa desabafar, sempre vai precisar de pessoas que não precisam de você, que possam acolhê-lo e ajudá-lo a reencontrar-se, sempre precisará daqueles que o ajudem a integrar a sua dor e a persistir na luta.

Assim, a questão central no seu ministério é: “Partilhar a minha luta é proveitoso para aqueles que buscam a minha ajuda?” A resposta a essa pergunta só pode ser positiva quando realmente integrar a sua dor e nada esperar daqueles que procuram o seu ministério.

(Henri J. Nouwen, em “A Voz Íntima do Amor”, Paulinas, 2001, p. 76)

Integrar a dor

As pessoas tendem a fugir da dor. Afinal, analgésicos existem para isso. Não é à dor física que me refiro, entretanto, mas à emocional, resultante de uma perda, de um rompimento, de algo que nos põe pra baixo por algum tempo. A tendência, como disse antes, é fugir da dor, escondê-la, relevá-la, pelo menos enquanto for possível, mas ela sempre volta cobrando a fatura com multa e juros de mora. Por isso, eu prefiro vivenciar a dor. Para mim, é a melhor maneira de superá-la, experimentando-a, tomando cuidado de não ser masoquista nem se fazer de vítima. Entrar em contato com a sua dor em essência é um dos maiores desafios de um ser humano, mas também é uma das experiências mais ricas que se pode ter nessa existência. Henri Nouwen chama isso de "integrar a dor" (leia o texto clicando aqui). Ela tem que ser vivenciada, absorvida, integrada no nosso ser, para ser apreendida e aprendida, e a gente possa seguir em frente depois de superá-la, sem ter que ficar voltando atrás para remoê-la.

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