segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Igrejas americanas promovem o "Domingo Pornô"

Cerca de 300 igrejas norteamericanas aproveitarão o próximo domingo, 6 de fevereiro, para discutir a questão da pornografia e fornecer meios de vencer o vício para aqueles que querem se livrar do problema. O nome da campanha é "Porn Sunday" ("Domingo Pornô"), e a data foi escolhida em função de ser o dia reservado à final do futebol americano - o SuperBowl -, que provoca naquele país uma repercussão parecida com a da final de uma Copa do Mundo por aqui. O lema da campanha é "It's time to confront the elephant in the pew" ("É hora de confrontar o elefante no banco da igreja"). Veja a matéria da CNN abaixo:


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Após flagra de romance proibido, ex-padre americano conta seus dilemas

O ex-padre católico norte americano Alberto Cutiè (nascido em Porto Rico de pais cubanos) acaba de lançar um livro com o título "Dilemma: A Priest's Struggle with Faith and Love" ("Dilema: A Luta de um Sacerdote com a Fé e o Amor", segundo noticia o blog Belief da CNN. O então padre Alberto era muito conhecido no meio católico dos EUA, especialmente na comunidade hispânica da Flórida, apresentando programas de rádio e TV que tinham enorme audiência para os padrões religiosos, sendo figura constante no "Olimpo" da TV americana - o programa da Oprah Winfrey -, o que lhe rendeu o apelido de "Padre Oprah". Chegou a ser recebido pelo então papa João Paulo II, e tudo veio a desmoronar em maio de 2009, quando foi pego no flagra aos beijos com uma mulher - Ruhama Buni Canellis - na praia.




Cerca de um mês após o escândalo, Alberto Cutiè abandonou a batina e se integrou à Igreja Anglicana como sacerdote, vindo a se casar com Ruhama algum tempo depois, sendo que ambos já têm uma filha, nascida em novembro de 2010, a quem deram o nome de Camila Victoria. Agora o ex-padre lança o livro "Dilemma", em que alega que já vivia, à época do escândalo de 2009, um dilema que durava dois anos entre o celibato e o casamento e, de certa forma, "culpa" a Igreja Católica por fazer os padres terem que escolher apenas uma das duas situações, que ele considera igualmente boas. Critica, ainda, o fato da Igreja considerar o casamento para o padre um "pecado", enquanto o expõe a outros pecados como pornografia e excessos na bebida e no cigarro.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Papa condena perfil fake

Notícia do site Terra:

Bento XVI pede para jovens não criarem perfis falsos na rede

O papa Bento XVI disse nesta segunda-feira que os jovens não devem criar perfis falsos nas redes sociais. A declaração foi dada em mensagem do Pontífice no 45ª Dia Mundial das Comunicações Sociais.

De acordo com a agência de notícias Ansa, o religioso afirmou que as redes sociais oferecem novas oportunidades de "compartilhamento", de "diálogo, troca, solidariedade e criação de relações positivas". No entanto, é preciso "evitar os perigos" da internet, como os de "se refugiar em uma espécie de mundo paralelo, ou de ter uma excessiva exposição no mundo virtual".

Bento XVI ressaltou ainda a necessidade de ser "fiel a si mesmo" e de nunca acreditar em "ilusões, como a criação de falsas identidades e "perfis". Ainda segundo a agência italiana, o Pontífice falou de outros perigos aos quais os usuários estão expostos, como "a tendência de se comunicar somente com algumas partes do próprio mundo interior e o risco de cair em uma espécie de construção da imagem de si mesmo".

Segundo Bento XVI, "o envolvimento sempre maior no mundo digital estabelece novas formas de relações interpessoais, influencia na percepção de si e impõe, inevitavelmente, a questão não somente do modo correto de agir, mas também da autenticidade do próprio ser".

domingo, 23 de janeiro de 2011

O advogado e o menino malabarista

No último mês de dezembro eu passei pela Av. Antonio Joaquim Moura de Andrade, em São Paulo, que se conecta à Avenida Juscelino Kubitschek através do túnel Tribunal de Justiça, local em que o trânsito se afunila e flui devagar, e, numa dessas cenas inusitadas que a cidade grande (e injusta) nos proporciona, vi - com um sol escaldante contrário querendo me cegar - uma menina pequena, de uns 5, 6 anos de idade, agachada escovando os dentes sobre um balde com água. Cena tocante, deveras, já que seu vulto eu mal divisava. Na outra oportunidade, ela continuava ali com alguns adultos, não sei se parentes dela ou exploradores. Aparentemente, a menina estava bem, apesar da situação de altíssimo risco. É muito duro ver quantas crianças têm sua infância roubada neste país, expostas a todo tipo de violência e perigos inomináveis. Hoje leio na Folha de S. Paulo a notícia abaixo, em que um incidente grotesco ocorrido ali mesmo, na JK, mostra o quanto a nossa sociedade está sujeita a todo tipo de fraturas psicológicas e sociais. Metástase de miséria, enfim:


Advogado agride menino malabarista com garrafa em SP


Garoto de 14 anos fazia acrobacias na carreta do carro do agressor, que diz ter revidado ataque

Um garoto de 14 anos que fazia malabarismo na avenida Juscelino Kubitschek, na Vila Olímpia (sul de SP), foi agredido por um motorista que lhe atirou uma garrafa de vidro no pescoço.

Era por volta das 19h de anteontem, quando um advogado em um Jetta parou no semáforo no cruzamento com a rua Professor Atílio Innocenti e o jovem subiu na carreta que estava engatada na parte traseira de seu carro.

Irritado, o advogado desceu do veículo iniciou uma discussão e atirou uma garrafa de vidro no rapaz. O nome do agressor, que está preso, não foi divulgado pela Secretaria da Segurança Pública.

O garoto teve um corte no pescoço e foi levado por socorristas do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) para o Hospital das Clínicas. Ele recebeu alta médica ainda na noite de anteontem e levou seis pontos no ferimento.

De acordo com policiais militares que atuaram na ocorrência, os dois discutiram por cerca de cinco minutos antes da agressão física.

A versão do jovem foi confirmada por duas testemunhas que o acompanharam ao 15º DP, onde o caso foi registrado. O advogado, que foi indiciado sob a suspeita de lesão corporal, relatou à polícia que o jovem atirou uma bolinha na direção dele e que, por disso, ele revidou.

Morador do bairro Capão Redondo (zona sul), o jovem afirmou aos policiais que ele estava aproveitando suas férias para tentar ganhar dinheiro fazendo malabarismo com bolas de tênis nos cruzamentos da Vila Olímpia, onde há uma concentração de bares e restaurantes.


sábado, 22 de janeiro de 2011

Catedral de Ribeirão Preto sorteia Fusca lotado de cerveja

Parece que tem padre bebendo demais, segundo noticia a Folha de S. Paulo de hoje:

Igreja do interior de SP anuncia rifa de Fusca lotado de cerveja

VENCESLAU BORLINA FILHO
DE RIBEIRÃO PRETO

O anúncio seria comum se não estivesse exposto na entrada da catedral de Ribeirão: "concorra a um charmoso Fusca branco, 1980, a álcool, carregado de cervejas".

É o que diz o banner, iniciativa do padre Francisco Moussa, 33, que visa arrecadar fundos para construção do centro social da catedral.

Para os fiéis, no entanto, a inclusão da cerveja ao prêmio da rifa vendida a R$ 2 vai contra o que a igreja sempre pregou: o combate ao uso excessivo do álcool.

"Estou sem palavras. A igreja prega que a gente não pode abusar do álcool, que não pode apelar a jogos de azar, mas está fazendo tudo isso", disse a funcionária pública Alzira Gonçalves, 50.

Outras duas fiéis ouvidas pela Folha concordaram com Alzira. O sorteio está marcado para hoje, às 20h, em frente à catedral.

Para o padre Jerônimo Gasques, existem outras formas "éticas" para a igreja captar recursos. "Isso [sorteio de carro carregado de cervejas] denigre a igreja, além de não ser sadio evangelicamente".

Ele é autor de diversos livros que abordam a atuação da igreja -como "Dízimo e Captação de Recursos"- e aboliu as festas na paróquia de Presidente Prudente (SP).

Procurado pela reportagem da Folha, o padre não quis explicar os motivos que o levaram a rifar um Fusca carregado de cervejas. O arcebispo de Ribeirão Preto, Joviano de Lima Júnior, não comentou o assunto.


Comentário: melhor não dizer nada, basta a marca abaixo, criada pelo Henrique Zanetti.

Jesus odeia Obama?

Seria tudo apenas (mais) uma piada de mau gosto que só o estranho extremismo político norteamericano é capaz de proporcionar, mas a repercussão da rejeição da Fox Sports de um anúncio televisivo patrocinado pelo site "Jesus Hates Obama" ("Jesus odeia Obama") deu ainda mais publicidade a outra loucura religiosa dos EUA, no mesmo (baixo) nível do "God Hates Fags" ("Deus Odeia os Bichas") do Fred Phelps. Se já não bastasse a tentativa de assassinato da deputada Gabrielle Giffords em Tucson (Arizona) alguns dias atrás (com vários mortos de "efeito colateral"), agora o site Jesus Hates Obama queria veicular um anúncio de 30 segundos (veja abaixo) no próximo dia 6 de fevereiro, durante o famoso SuperBowl, a decisão do futebol americano, o evento de maior audiência na TV do país, e com os intervalos comerciais mais caros . A cadeia de TV Fox - que detém os direitos de transmissão - se negou a retransmitir o anúncio e aí está formada a pequena confusão, segundo informa o blog Belief da CNN. Como a Fox é a ponta-de-lança do império de comunicação erigido pelo magnata (de origem australiana) Rupert Murdoch, que tem entre suas subsidiárias, além da Fox Sports, a Fox News, porta-voz do neoconservadorismo religioso nos EUA, parece tudo assim meio combinado, digamos. Afinal, pouca gente sabia que este site (que tem o ódio como mote) existia, já que vive de vender quinquilharias como camisetas, copos e bonés. Agora o mundo inteiro sabe.

O proprietário do site, Richard Belfry, se defende dizendo que realmente não acredita que Jesus odeie Obama, mas acredita na liberdade de expressão e de poder ironizar o governo do presidente norteamericano quando não concorda com suas políticas. Omite o fato de que está ganhando muito dinheiro com isso (diz que já vendeu 70.000 camisetas, como a que ilustra este texto, que diz "Jesus Loves You But Hates Obama" - "Jesus te ama mas odeia Obama"), e a partir de toda essa publicidade gratuita, certamente ganhará mais. Ele acredita no lucro também. A Fox não deu explicações sobre as razões da rejeição do anúncio, mas provavelmente não ficou nem um pouco triste com a repercussão do "incidente". Como costuma acontecer nessas ocasiões, a religião apenas desempenha um papel auxiliar na perseguição de objetivos políticos às vezes não tão claros. O mandamento de "não levar o nome de Deus em vão" é o primeiro a ser esquecido. É muito perigoso misturar duas instâncias explosivas da sociedade como política e religião, e infelizmente o Brasil parece que está seguindo pelo mesmo caminho. Ainda dá tempo de pensar melhor...


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Igreja ortodoxa russa quer impor "roupas decentes" à população

Parece que as coisas andam meio agitadas na Rússia por causa do posicionamento de um alto oficial da Igreja Ortodoxa, segundo informa The Christian Science Monitor em notícia do dia 20/01/11. O arcipreste Vsevolod Chaplin (sim, você leu direito, é Chaplin o sobrenome dele!) quer que homens e mulheres do país se vistam "modestamente" e que aqueles que não sigam o "dress code" sejam expulsos dos locais públicos. Na última terça-feira o "arcipreste" (uma espécie de "bispo" ou "arcebispo" na tradição católica) disse que "é errado pensar que as mulheres podem decidir por si mesmas o que elas devem usar em locais públicos ou no trabalho. Se uma mulher se veste como uma prostituta, seus colegas de trabalho devem ter o direito de dizer-lhe o que pensam a respeito. Além disso, se uma mulher se veste e age indecentemente, este é um caminho direto para a infelicidade, sexo livre, casamentos breves seguidos por divórcios problemáticos, vidas arruinadas de crianças e loucura". Apesar do foco feminino, a iniciativa religiosa também quer proibir os homens de usarem T-shirts e roupas justas de corrida em público.

Muitos veem nesta atitude apenas mais um capítulo da escalada de poder da Igreja Ortodoxa Russa, perseguida durante o regime comunista, e que recuperou não só seus templos e propriedades, mas também artefatos religiosos que estavam em poder dos museus do país, além de ter retomado a frente na defesa da moral e bons costumes da grande Rússia. A Igreja Ortodoxa tem se posicionado firmemente também quanto a mostras de arte em que enxerga algum tipo de blasfêmia, e tem conseguido apoio dos seguidos governos que se sucederam à derrocada do comunismo. No ano passado, dois antigos curadores de arte foram processados pela Igreja e condenados por incitar "ódio aos cristãos" mediante a exibição - em suas galerias - de obras com imagens "não convencionais" de Jesus.

No caso da nova iniciativa de "padronização de roupas", apesar da forte reação de vários setores da sociedade russa, os ortodoxos conseguiram apoio de um setor inesperado: os muçulmanos. É bom lembrar que mais de 15% da população do país se declara muçulmana (ainda que muitos apenas por etnia) e 8 das 21 repúblicas autônomas que compõem a Federação Russa tem o islamismo como religião oficial. O jornal Pravda já anunciava em 2008 que existe a possibilidade da Rússia ter maioria muçulmana em sua população por volta de 2050. Não é surpresa, portanto, que o maior apoio recebido pelo arcipreste Chaplin tenha vindo justamente da Associação Russa de Legado Islâmico. E durma-se (bem vestido) com um barulho desses...

Atualização de 05/03/11: A agência russa de notícias religiosas Interfax informa que o arcebispo Feofan, de Stavropol, deu seu apoio ao arcipreste Chaplin, criticando ainda as garotas que fazem tatuagem e colocam piercing no umbigo.

P.S.: O blog pelo menos aproveita a notícia para colocar abaixo uma foto da Catedral de São Basílio, esta maravilhosa obra de arte cristã, verdadeiro patrimônio cultural da humanidade. Destaque também para a belíssima Catedral Cristo Salvador, destruída pelos comunistas em 1933 e reconstruída após o fim do regime, sendo reinaugurada em 2000.



The Human Planet

A BBC estreiou ontem na Inglaterra uma nova série de documentários, chamada Human Planet. Pelo trailer abaixo, disponível em várias resoluções - inclusive HD -, você pode ter uma ideia da beleza das imagens que, cá entre nós, ninguém faz melhor que a BBC.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Quando a aflição é boa

O Salmo 119 é conhecido por ser o salmo (e capítulo) mais longo da Bíblia (176 versículos) e é constantemente lembrado por se referir quase que exclusivamente à importância da Palavra de Deus para aqueles que dizem segui-lO. São muitas as lições e referências, daí a importância de se concentrar num tema específico para extrair dele o máximo possível. Um desses temas é a aflição. O salmista diz no v. 71 que “foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos”. Soa estranho ver algo bom na aflição, na tribulação, ainda mais numa época em que o discurso triunfalista de muitos líderes evangélicos no Brasil ensina que a aflição é coisa do diabo e que o sinal distintivo do cristão é exatamente a ausência dela. Por sinal, nada mais estranho ao salmista do que o discurso da assim chamada "teologia da prosperidade", conforme fica claro no v. 14: "Folgo mais com o caminho dos teus testemunhos do que com todas as riquezas". Infelizmente, muitos líderes evangélicos brasileiros reescreveriam este versículo assim: "Folgo mais com meia dúzia de riquezas do que com o caminho dos teus testemunhos". Entretanto, o salmista enaltece a aflição como uma espécie de “terapia”, por assim dizer, ainda que dolorosa, para se aprender e fixar os ensinamentos da Palavra de Deus. O mesmo raciocínio ele usa pouco depois, no v.75, clamando: "Bem sei eu, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que em tua fidelidade me afligiste". Esta é certamente a experiência de muitos cristãos, que através da dor e do sofrimento se achegam mais a Deus e à Sua Palavra. No v. 67 o salmista já dizia que “antes de ser afligido, eu me extraviava; mas agora guardo a tua palavra”, o que lhe dá a firmeza a que se refere no v. 133 (“Firma os meus passos na tua palavra; e não se apodere de mim iniquidade alguma”).

Esta ideia da aflição como uma etapa necessária do crescimento espiritual do cristão é recorrente nas Escrituras. No Novo Testamento, Paulo retoma este tema:

Romanos 5:
3 E não somente isso, mas também gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança,
4 e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança;
5 e a esperança não desaponta, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.

2ª Coríntios 1:
3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação,
4 que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.
5 Porque, como as aflições de Cristo transbordam para conosco, assim também por meio de Cristo transborda a nossa consolação.

Logo, o cristão não deve fugir das aflições e tribulações a todo custo, ou ver nelas uma negativa peremptória do socorro divino. O próprio salmista apela a Deus dizendo: “olha para a minha aflição, e livra-me, pois não me esqueço da tua lei” (Salmo 119:153). Neste caso ele não estava sendo afligido por haver-se desviado (v. 67) ou para que aprendesse a lei como havia dito no v. 71, mas mesmo não se esquecendo dela, estava passando por aflição e clamava a Deus por livramento. Este sentimento fica mais explícito no v. 143, quando confessa que “tribulação e angústia se apoderaram de mim; mas os teus mandamentos são o meu prazer”. Nada mais contundente, portanto. Mesmo com tribulação e angústia “tomando posse” do salmista, a Palavra de Deus continuava sendo o seu grande prazer, algo completamente diferente do que se ensina nas igrejas hoje como “tomar posse”. Na tribulação e na angústia, o salmista encontrava prazer nos mandamentos de Deus, não porque os havia transgredido antes, mas por aceitar que o sofrimento e a dor faziam parte do seu crescimento espiritual. Guardadas as devidas proporções, sua atitude se assemelha àquela que Paulo atribui a Abraão, que “à vista da promessa de Deus, não vacilou por incredulidade, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que Deus tinha prometido, também era poderoso para o fazer” (Romanos 4:20-21). Palavra de Deus também é promessa, e bem-aventurado aqueles que a guardam, respeitam e esperam, mesmo na aflição, como diz o salmista no Salmo 91: “Quando ele me invocar, eu lhe responderei; estarei com ele na angústia, livrá-lo-ei, e o honrarei”. Poucos percebem que Deus promete estar com o crente durante seu período de angústia. Dure o que durar, haverá livramento, mas principalmente incessante companhia divina antes, durante e depois. O Salmo 119 (vv. 49-50) também proclama esta verdade: "Lembra-te da promessa que fizeste ao teu servo, na qual me tens feito esperar. O que me consola na minha angústia é isto: que a tua palavra me vivifica". Basta crer na Palavra-Promessa de Deus. Ele não te desampara e não te deixa atravessar sozinho a aflição. E se for difícil crer, siga o conselho de Abraão para fortalecer a sua fé: louve!





Para um comentário mais aprofundado do Salmo 119, recomendo a leitura do texto de minha autoria que está no site e-cristianismo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Vaticano teria ordenado "abafamento" de casos de pedofilia na Irlanda

A se confirmarem as notícias que chegam da Irlanda, cairiam por terra as alegações do Vaticano de que nunca determinou ou patrocinou o acobertamento dos casos de pedofilia cometidos por sacerdotes católicos ao redor do mundo. Segundo informa o site norteamericano The Huffington Post, existe uma carta enviada em 1997 do Vaticano aos bispos irlandeses determinando que NÃO se colaborasse com a polícia daquele país na investigação de casos que envolvessem padres pedófilos. Esta carta teria sido entregue por um bispo irlandês à rede de televisão RTE da Irlanda, que por sua vez a forneceu também à Associated Press (em cujo site existe uma cópia minúscula e ilegível da carta), e seria a primeira comprovação documental de que - de fato - houve uma política sistemática de acobertamento de sacerdotes pedófilos da Igreja Católica, oficialmente protegidos pelo Vaticano, o que pode, eventualmente, ter grave repercussão em processos que tramitam nos tribunais de todo o mundo, em especial nos Estados Unidos, onde as indenizações costumam ser arbitradas em valores astronômicos. Outro detalhe que chama a atenção é que o papa, à época dos fatos, era João Paulo II, recentemente beatificado por Bento XVI. A carta está assinada pelo arcebispo Luciano Storero, que era o núncio apostólico nomeado pelo próprio papa João Paulo II para a Irlanda, e determinava que os casos que chegassem ao conhecimento do clero irlandês deveriam ser tratados sigilosa e exclusivamente de acordo com o Código Canônico, e qualquer descumprimento dessa norma submeteria o bispo a um "altamente constrangedor" julgamento em Roma. Se bem que "constrangedor" é o mais leve dos adjetivos que se pode atribuir a essa iniciativa papal, se vier a ser confirmada.


Desvendando a experiência de quase-morte

Você provavelmente já ouviu (ou leu) relatos de pessoas que tiveram uma experiência de quase-morte e que contam que viram um túnel de luz, sentiram o corpo levitando ou ainda tiveram certas "visões" espirituais. Numa entrevista publicada na Folha de S. Paulo de 17/01/11, o neurologista americano Kevin Nelson fala sobre suas impressões sobre o fenômeno, acreditando que ele tenha razões muito mais cerebrais do que esotéricas:

Sonhos lúcidos explicam experiência de quase morte

NEUROLOGISTA AMERICANO CONTA EM LIVRO O QUE FAZ O CÉREBRO CRIAR AS IMAGENS DE TÚNEIS DE LUZ E A VISÃO EXTRACORPÓREA

GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

Túneis iluminados, espíritos e a sensação de que o corpo está levitando. As experiências de quem ficou entre a vida e a morte são o material de trabalho do neurologista Kevin Nelson. Para entender melhor o fenômeno, Nelson fez um estudo com 55 pessoas que relataram essas experiências e descobriu que, nelas, os limites entre os estágios da consciência são mais tênues. É o que ele relata em "The Spiritual Doorway in the Brain", livro lançado em dezembro nos EUA. O médico concedeu entrevista à Folha, por telefone.

Folha - Qual a explicação para o fenômeno da quase morte?

Kevin Nelson - Há no cérebro uma espécie de "interruptor" que alterna entre os estágios da consciência. Ao dormir, passamos pelos estágios de vigília, sono não REM e sono REM. Em algumas pessoas, a fronteira entre esses estágios não é tão marcada e, em momentos de crise, o estágio REM invade a vigília e causa os efeitos descritos nas experiências de quase morte.

Quais são esses momentos de crise?

Uma parada cardíaca, por exemplo. O "interruptor" que modula entre a vigília e o REM é uma parte essencial do sistema de reflexos do sistema nervoso. Quando o fluxo sanguíneo diminui no cérebro, acionamos esses reflexos, localizados numa área bastante primitiva do cérebro. É quando ocorrem as experiências de quase morte e nos movemos em direção às fronteiras entre a vigília e o REM. Em algumas pessoas, isso pode ficar misturado.

Essas experiência só ocorrem em situações extremas?

Sabemos que desmaios também podem desencadear a experiência de quase morte, pelos mesmos mecanismos: as pessoas se sentem em perigo e ocorre alteração da pressão sanguínea na cabeça. O fato fascinante é que um terço das pessoas desmaia em algum momento da vida, o que pode fazer dessas experiências algo mais comum do que se pensa.

Há algo diferente no cérebro das pessoas que têm essas sensações?

Em 2005, comecei a estudar pessoas com um histórico de quase morte. Depois de comparar 55 pacientes nessa situação com 55 outras pessoas que nunca passaram por isso, descobrimos que o primeiro grupo era mais suscetível a ter essa intromissão do sono REM na vigília.

Pessoas relatam luzes e a sensação de levitar. Por quê?

Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao "desligar" a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é "desligada" durante o REM.

E as alucinações?

Quando entramos no estágio REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos. Mas as alucinações da quase morte não são sonhos propriamente ditos, parecem mais sonhos lúcidos, porque ocorrem enquanto estamos conscientes.

Você já recebeu críticas por estudar cientificamente o que alguns julgam ser uma experiência espiritual?

Não estou interessado em saber por que o cérebro age de alguma forma ou por que esse "momento espiritual" ocorre, mas em como o cérebro trabalha. Se separamos o "por que" do "como", muito do conflito entre ciência e religião desaparece.

THE SPIRITUAL DOORWAY IN THE BRAIN
Kevin Nelson
EDITORA Dutton
QUANTO US$ 16,77 (R$ 28,31), na Amazon (336 págs.)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Chamados para julgar

Toda vez que se levanta uma crítica a alguém em posição de destaque ou liderança na Igreja, genericamente considerada, é muito comum que se rebata e/ou reprove a crítica com base nas palavras de Jesus em Mateus 7:1 ("não julgueis para que não sejais julgados"), com o fim de encerrar a discussão e sem que se aprofunde o significado (e por que não dizer - o dever) do cristão fazer julgamentos quanto aos outros na sua vida. 

Esquece-se facilmente de que o próprio Jesus também ordenou em João 7:24 -"Não julgueis pela aparência mas JULGAI segundo o RETO JUÍZO". 

Aparentemente, haveria uma contradição nas palavras do Mestre nos versículos aqui contrastados, mas o v. 2 de Mateus mostra que o que realmente importa é que não se pode julgar os outros por outro critério que não sirva para a própria pessoa que está julgando ("Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós"), sentido ampliado pelos versículos seguintes:
3 E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?4 Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?5 Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão.
Logo, exemplificando, um adúltero ou mentiroso que julga outra pessoa por seu adultério ou mentira está sendo hipócrita por atribuir pecado ao outro sem olhar para o que lhe é próprio, e por isso será julgado pelo mesmo critério com que julgou o próximo.

Isto não significa, obviamente, que devemos nos abster de todo e qualquer julgamento. 

É muito interessante que a palavra grega traduzida por "julgar" ou "juízo" nos versículos acima é κρίνω - krinō - que quer dizer, basicamente, "discernir", mas também "decidir", "condenar", "decretar" e "punir". 

As palavras de Jesus em João 7:24 ("julgai segundo o reto juízo") deixam mais claro ainda que este julgamento, este discernimento, deve ser feito com base no "reto" juízo. 

A palavra grega traduzida por "reto" aqui é dikaios (δίκαιος), que quer dizer "equitativo". 

Nada mais humano do que julgar por equidade, sopesando na balança da Justiça (diké - δίκη - a deusa grega da Justiça) os prós e os contras de uma determinada situação ou condição. 

Por sinal, a própria palavra grega diké para justiça já era uma evolução do pensamento grego, que nos primórdios de sua civilização conhecia "justiça" apenas por themis - Θέμις - que tinha, esta sim, um significado muito mais ligado à justiça divina de Zeus no seu Olimpo de decretos e decisões inquestionáveis (para aprofundar a discussão desses conceitos, acesse o texto "Justiça no pensamento aristotélico - 2").

Desta forma, já estava disseminado na civilização greco-romana - da qual Jesus e seus discípulos fizeram parte - o uso (e o entendimento do seu significado) da palavra dikaios referida pelo Mestre em João 7:24, pela qual podemos inferir que Ele estava se referindo a um julgamento humano, imperfeito portanto, mas que é capaz de formular juízos de valor a respeito de fatos e de pessoas segundo um razoável padrão de equidade comum a todos os membros de uma determinada comunidade. 

Equidade esta que, por sua vez, não é limitada a círculos altamente intelectualizados, mas é extensiva a pessoas simples que podem julgar segundo o velho e bom senso comum. 

É inescapável, portanto, que o crente tenha que fazer julgamentos no decorrer de sua vida cristã, sob pena de ser presa fácil da verborragia de hereges e falsos profetas que, infelizmente, contaminam a Igreja desde épocas remotas.

Dito isso, me parece fundamental que o vídeo abaixo, do Pr. Josemar Bessa, seja revisto de tempos e tempos para que os cristãos se convençam do dever que têm de julgar segundo o reto juízo, segundo a equidade humanamente considerada, para evitar cair nas ciladas dos muitos inimigos que se vestem de ovelhas para devorá-los.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O espiritismo segundo Machado de Assis

Crônicas de Machado de Assis publicadas na Gazeta de Notícias nos seguintes dias (acesse a fonte clicando em cada data):

1) 5 de outubro de 1885:

Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.

Confesso a minha verdade. Desde que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto médico, a lista das pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da minha dúvida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa é acreditado. Será obcecação, preconceito, mania, mas é assim mesmo, e já agora não mudo, nem que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim.

Estava à porta do espiritismo; a conferência de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.

Achava-me em casa, e disse comigo, dentro d’alma, que, se me fosse dado ir em espírito à sala da Federação, assistir à conferência, jurava converter-me à doutrina nova.

De repente, senti uma coisa subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo; dei um estalo e achei-me em espírito, no ar. No chão jazia o meu triste corpo, feito cadáver. Olhei para um espelho, a ver se me via, e não vi nada; estava totalmente espiritual. Corri à janela, saí, atravessei a cidade, por cima das casas, até entrara na sala da Federação.

Lá não vi ninguém, mas é certo que a sala estava cheia de espíritos, repimpados em cadeiras abstratas. O presidente, por meio de uma campainha teórica, chamou a atenção de todos e declarou abertos os trabalhos. O conferente subiu à tribuna, traste puramente racional, levantaram-lhe um copo d’água hipotético, e começou o discurso.

Não ponho aqui o discurso, mas um só argumento. O orador combateu as religiões do passado, que têm de ser substituídas todas pelo espiritismo, e mostrou que as concepções delas não podem mais ser admitidas, por não permiti-lo a instrução do homem; tal é, por exemplo, a existência do diabo. Quando ouvi isto, acreditei deveras. Mandei o diabo ao diabo, e aceitei a doutrina nova, como a última e definitiva.

Depois, para que não dessem por mim (porque desejo uma iniciação em regra), esgueirei-me por uma fechadura, atravessei o espaço e cheguei a casa, onde… Ah! que não sei de nojo como o conte! Juro por Allan-Kardec, que tudo o que vou dizer é verdade pura, e ao mesmo tempo a prova de que as conversações recentes não limpam logo o espírito, de certas ilusões antigas.

Vi o meu corpo sentado e rindo. Parei, recuei, avancei e disse-lhe que era meu, que, se estava ocupado por alguém, esse alguém que saísse e mo restituísse. E vi que a minha cara ria, que as minhas pernas cruzavam-se, ora a esquerda sobre a direita, ora esta sobre aquela, e que as minhas mãos abriam uma caixa de rapé, que os meus dedos tiravam uma pitada, que a inseriam nas minhas ventas. Feitas todas essas coisas, disse a minha voz.

— Já lhe restituo o corpo. Nem entrei nele senão para descansar um bocadinho, coisa rara, agora que ando a sós…

— Mas quem é você?

— Sou o diabo, para o servir.

— Impossível! Você é uma concepção do passado, que o homem…

— Do passado, é certo. Concepção vá ele! Lá porque estão outros no poder, e tiram-me o emprego, que não era de confiança, não é motivo para dizer-me nomes.

— Mas Allan-Kardec…

Aqui, o diabo sorriu tristemente com a minha boca, levantou-se e foi à mesa, onde estavam as folhas do dia. Tirou uma e mostrou-me o anúncio de um medicamento novo, o rábano iodado, com esta declaração no alto, em letras grandes: “Não mais óleo de fígado de bacalhau”. E leu-me que o rábano curava todas as doenças que o óleo de fígado já não podia curar — pretensão de todo medicamento novo. Talvez quisesse fazer nisto alguma alusão ao espiritismo. O que sei é que, antes de restituir-me o corpo, estendeu-me cordialmente a mão, e despedimo-nos como amigos velhos:

— Adeus, rábano!

— Adeus, fígado!


2) 7 de junho de 1889:

Bons dias!

Não gosto que me chamem profeta de fatos consumados; pelo que, apresso-me em publicar o que vai suceder, enquanto o Conselho de Estado se acha reunido no paço da cidade.

Verdade seja, que o meu mérito é escasso e duvidoso; devo o principal dos prognósticos ao espírito de Nostradamus, enviado pelo meu amigo José Basílio Moreira Lapa, cambista, proprietário, pai de um dos melhores filhos deste mundo, vítima do Monte Pio e de um reumatismo periódico.

Lapa está naquele período do espiritismo em que o homem, já inclinado ao obscuro, dispõe de razão ainda clara e penetrante, e pode entreter conversações com os espíritos. Há, entretanto, uma lacuna nessa primeira fase: é que os espíritos acodem menos prontamente, e a prova é que desejando eu consultar Vasconcelos, Vergueiro ou o Padre Feijó, como pessoas de casa, não foi possível ao meu amigo Lapa fazê-las chegar à fala; só consegui Nostradamus. Não é pouco; há mestres que não o alcançariam nunca.

A segunda fase do espiritismo é muito melhor. Depois de quatro ou cinco anos (prazo da primeira), começa a pura demência. Não é vagarosa nem súbita, um meio-termo, com este característico: o espírita, à medida que a demência vai crescendo, atira-se-lhe mais rápido. O último salto nas trevas dura minuto e meio a dois minutos. Há casos excepcionais de cinco e dez minutos, mas só em climas frios e muito frios, ou então nas estações invernosas. Nos climas quentes e durante o verão, o mais que se terá visto, é cair em três minutos.

Não se entenda, porém, que esta queda é apreciável por qualquer pessoa; só o pode ser por alienistas e de grande observação. Com efeito, para o vulgo não há diferença; desde o princípio da alienação mental (isto é, começado o segundo prazo do espiritismo, que é depois de quatro ou cinco anos, como ficou dito), o espírita está perdido a olhos vistos; os atos e palavras indicam o desequilíbrio mental; não há ilusão a tal respeito. Conversa-se com eles; raros compreendem logo em princípio o sol e a lua; mostram-se todos afetuosos leais e atentos. Mas o transtorno cerebral é claro. Toda a gente vê que fala a doentes.

Entretanto, (mistério dos mistérios!) é justamente assim e principalmente depois do último salto nas trevas, que os espíritos vagabundos ou penantes acodem ao menor aceno, não menos que os de pessoas célebres, batizadas ou não.

Tem-se calculado que, dos espíritos evocados durante um ano, 28 por cento o foram por espíritas ainda meio sãos (primeira fase); 72 por cento pertencem aos mentecaptos. Alguns estatísticos chegam a conceder aos últimos 79 por cento; mas parece excessivo.

Não importa ao nosso caso a porcentagem exata; basta saber que, para a melhor evocação e mais fácil troca de idéias, é preferível o maníaco ao são, e o doido varrido ao maníaco. Nem pareça isto maravilha; maravilha será, mas de legítima estirpe. Montaigne, muito apreciado por um dos nossos primeiros senadores e por este seu criado, dizia com aquela agudeza que Deus lhe deu: C'est un grand ouvrier de miracles que l'esprit humain! Os milagres do espiritismo são tais; a rigor, é o espírito humano que faz o seu ofício.

Eu chegaria a propor, se tivesse autoridade científica, um meio de desenvolver esta planta essencialmente espiritual. Estabeleceria por lei os casamentos espíritas, isto é, em que ambos os cônjuges fossem examinados e reconhecidos como inteiramente entrados na segunda fase. Os filhos desses casais trariam do berço o dom especial, em virtude da transmissão. Quando algum, escapando pela malhas dessa lei natural (todos as têm) chegasse a simples mediocridade, paciência; os restantes, confinando na idiotia e no cretinismo (com perdão de quem me ouve), preparariam as bases de um excelente século futuro.

Venhamos ao nosso Lapa. Evocado Nostradamus, vi claramente o que ele referiu ao evocador. Em primeiro lugar, a maioria do Conselho de Estado é contrária à dissolução da Câmara dos Deputados, que alguns dizem incorretamente (explicou ele) "dissolução das Câmaras". Sairá o gabinete de 10 de março. É convidado o Sr. Correia, depois o Sr. Visconde do Cruzeiro, depois novamente o Sr. Correia, e o Sr. Visconde de Vieira da Silva. Este, apesar de enfermo, tentará organizar um gabinete que concilie as duas partes do Partido Conservador; não o conseguirá; será chamado o Sr. Saraiva, que não aceita; sobe o Sr. Visconde de Ouro Preto e estão os liberais de cima.

Boas noites.

3) 29 de agosto de 1889:

Bons dias!

Hão de fazer-me esta justiça, ainda os meus mais ferrenhos inimigos: é que não sou curandeiro, eu não tenho parente curandeiro, não conheço curandeiro, e nunca vi cara, fotografia ou relíquia, sequer, de curandeiro. Quando adoeço não é de espinhela caída, — coisa que podia aconselhar-me a curandeira; é sempre de moléstias latinas ou gregas. Estou na regra; pago impostos, sou jurado, não me podem argüir a menor quebra de dever público.

Sou obrigado a dizer tudo isso, como uma profissão de fé, porque acabo de ler o relatório médico acerca das drogas achadas em casa do curandeiro Tobias. Saiu hoje; é um bom documento. Falo também porque outras muitas coisas me estimulam a falar, como dizia o curandeiro-mor, Mal das Vinhas, chamado, que já lá está no outro mundo. Falo ainda, porque nunca vi tanto curandeiro apanhado, — o que prova que a indústria é lucrativa.

Pelo relatório se vê que Tobias é um tanto Monsieur Jourdain, que falava em prosa sem o saber; Tobias curava em línguas clássicas. Aplicava, por exemplo, solanum argentum, certa erva, que não vem com outro nome; possuía umas cinqüenta gramas de aristolochia appendiculata, que dava aos clientes; é a raiz de mil-homens. Tinha, porém, umas bugigangas curiosas, esporões de galo, pés de galinha secos, medalhas, pólvora e até um chicote feito de rabo de raia, que eu li rabo de saia, coisa que me espantou, porque estava, estou e morrerei na crença de que rabo de saia é simples metáfora. Vi depois o que era rabo de raia. Chicote para quê?

Tudo isto, e ainda mais, foi apanhado ao Tobias, no que fizeram muito bem, e oxalá se apanhem as bugigangas e drogas aos demais curandeiros, e se punam estes, como manda a lei.

A minha questão é outra, e tem duas faces.

A primeira face é toda de veneração; punamos o curandeiro, mas não esqueçamos que a curandeira foi a célula da medicina. Os primeiros doentes que houve no mundo, ou morreram ou ficaram bons. Interveio depois o curandeiro, com algumas observações rudimentárias, aplicou ervas, que é o que havia à mão, e ajudou a sarar ou a morrer o doente. Daí vieram andando, até que apareceu o médico. Darwin explica por modo análogo a presença do homem na terra. Eu tenho um sobrinho, estudante de medicina, a quem digo sempre que o curandeiro é pai de Hipócrates, e, sendo o meu sobrinho filho de Hipócrates, o curandeiro é avô do meu sobrinho; e descubro agora que vem a ser meu tio, — fato que eu neguei a princípio. Também não borro o que lá está. Vamos à segunda face.

A segunda é que o espiritismo não é menos curanderia que a outra, e é mais grave, porque se o curandeiro deixa os seus clientes estropiados e dispépticos, o espírita deixa-os simplesmente doidos. O espiritismo é uma fábrica de idiotas e alienados, que não pode subsistir. Não há muitos dias deram notícia as nossas folhas de um brasileiro que, fora daqui, em Lisboa, foi recolhido em Rilhafoles, levado pela mão do espiritismo.

Mas não é preciso que dêem entrada solene nos hospícios. O simples fato de engolir aqueles rabos de raia, pés de galinha, raiz de mil-homens e outras drogas vira o juízo, embora a pessoa continue a andar na rua, a cumprimentar os conhecidos, a pagar as contas, e até a não pagá-las, que é meio de parecer ajuizado. Substancialmente é homem perdido. Quando eles me vêm contar uns ditos de Samuel e de Jesus Cristo, sublinhados de filosofia de armarinho, para dar na perfeição sucessiva das almas, segundo estas mesmas relatam a quem as quer ouvir, palavra que me dá vontade de chamar a polícia e um carro.

Os espíritas que me lerem hão de rir-se de mim, porque é balda certa de todo maníaco lastimar a ignorância dos outros. Eu, legislador, mandava fechar todas as igrejas dessa religião, pegava dos religionários e fazia-os purgar espiritualmente de todas as suas doutrinas; depois, dava-lhes uma aposentadoria razoável.

Boas noites!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Seu nariz revela quanto tempo você tem de vida

Depois de ler a notícia abaixo, você nunca mais vai reclamar dos odores próprios e alheios...


Seu nariz revela quando você irá morrer


Não necessariamente seu nariz, mas seu olfato pode indicar se sua morte está próxima. Pelo menos é isso o que concluiu um grupo de cientistas, que analisou cerca de mil pessoas.

Se você parou de sentir aromas familiares, como o perfume de sua namorada ou o cheirinho de café do escritório, então deve se preocupar. Nos testes, os cientistas disseram para os voluntários (nenhuma das pessoas estava doente ou sabia que estava) 12 odores familiares para identificar.

Depois uma nova análise mostrou que aqueles com mais dificuldade para identificar os cheiros eram aqueles com uma maior probabilidade de morrer nos próximos anos.

A taxa de mortalidade daqueles que se deram mal no teste era 36% maior – essas pessoas, em testes posteriores, também apresentavam capacidade reduzida de se lembrar de nomes,doenças cerebrovasculares, sintomas depressivos, entre outros sintomas preocupantes. Segundo os cientistas, a dificuldade de sentir cheiros, especialmente em idosos, é um sinal de que há um problema de saúde a ser investigado.


Dica do HypeScience, com fonte no io9.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Papa pede que pais deem "nomes católicos" aos filhos

Segundo a notícia abaixo, publicada na Folha de S. Paulo de hoje, os pais católicos vão ter que pensar duas vezes antes de chamar a filha de Daiane ou o filho de Maicon:

Bento 16 pede que pais deem nomes católicos a seus filhos

Após batizar 21 crianças no último domingo, Bento 16 afirmou que os católicos deveriam dar nomes cristãos a seus filhos em vez de opções "da moda", muitas de origem anglo-saxônica.

De acordo com o jornal italiano "Corriere della Sera", o papa disse que tal prática beneficiaria o "renascimento" religioso das crianças.

"Cada batizado recebe o caráter de filho a partir do nome cristão, signo inconfundível que o Espírito Santo faz nascer de novo o homem a partir do útero da igreja."

Na lista dos nomes sugeridos figuram exemplos como Francisco, Mateus, João, Pedro, Davi, André, Tiago, Maria, Ruth, Madalena e Sara.

Ao menos na Itália, no entanto, o papa não tem com o que se preocupar.

Segundo o "La Stampa", os dois nomes mais usados ainda hoje entre os italianos são Francisco e Julia.

Ainda nos "top 10" estão Alessandro, Sofia e Martina, todos "catolicamente corretos", afirma o jornal.

"Anticatólicos" como Noemi, Nicole e Giada aparecem somente na lista dos 30 mais populares no país.

O papa encorajou "todos os fiéis a redescobrirem a beleza de serem batizados" e defendeu o batismo como algo "secreto" porém "poderosíssimo" e "sobrenatural", colocando a criança "em comunicação com Deus".

Pastor americano diz que Deus ordenou assassinatos em Tucson

Que Fred Phelps tem muitos parafusos a menos na cabeça, todo mundo já sabia. O pastor da Igreja Batista de Westboro é mais (tristemente) conhecido por sua campanha "God Hates Fags" (algo como "Deus odeia os bichas"), mas que também faz incursões pela xenofobia como no caso da subcampanha "God Hates Brazil" ("Deus odeia o Brasil"), entre outras nações do mundo, tudo sob o pretexto de anunciar o ódio de Deus ao mundo, que o teria escolhido como porta-voz. Prática rotineira do seu grupo é participar dos velórios de desafetos para comemorar a sua "entrada no inferno". Pois é nesta condição que o exótico e pernicioso "pastor" publica agora um vídeo em que dá a entender que Jared Lee Loughner - o atirador que atacou várias pessoas uma reunião política em Tucson, Arizona, entre elas a deputada norteamericana Gabrielle Giffords, que está seriamente ferida -, agiu em nome de Deus. Desta forma, as 6 pessoas mortas (entre elas uma menina de 9 anos de idade) e os 14 feridos nas estatísticas do massacre até o momento, seriam vítimas de um desígnio de Deus executado pelo desequilibrado. Pois é este tipo de raciocínio desequilibrado, reproduzido inclusive no boletim da igreja em questão (veja a imagem abaixo), que - temo eu - leva muita gente a se afastar sequer da possibilidade de ouvir o bom e puro evangelho da graça de Deus. No boletim, o "pastor" inclusive diz aos americanos que "your soldiers & fellow citizens are dying for your sins" ("os seus soldados e companheiros cidadãos estão morrendo por seus pecados"). Portanto, passa a léguas de distância da cruz de Cristo. Triste assim...





dica do blog Scotteriology

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A carta suicida de uma vítima de pedofilia

ALERTA: NÃO RECOMENDAMOS que pessoas mais sensíveis, ou que estejam atravessando um período de forte depressão, leiam o texto abaixo sem o devido cuidado.

Caso sua curiosidade ou necessidade (perfeitamente justificável, diga-se de passagem) o(a) leve a ler o texto, faça-o, preferencialmente, com o auxílio (se possível) de outra pessoa que possa lhe ajudar a extrair ânimo e força de uma situação tão extrema.

Este é um dos artigos mais lidos do nosso blog e chegamos a pensar em retirá-lo do ar, dada a gravidade do assunto e a nossa incapacidade de avaliar quem o lê, mas a repercussão positiva que ele atingiu, os comentários (que estão abaixo do texto) e conversas com profissionais da área nos mostraram que este artigo tem um potencial enorme de ajudar pessoas que passam ou passaram por situações parecidas, razão pela qual preferimos mantê-lo no blog.

Recomendamos também que o(a) amigo(a) que nos dá o prazer de sua visita também leia os comentários que seguem mais abaixo. Eles foram de grande utilidade para pessoas que sofrem ou sofreram abusos e encontraram saídas para superar a dor emocional.

Feitas essas ressalvas, desejamos que você faça uma boa leitura se se sentir apto a tanto no momento, ou volte outro dia, se sentir que precisa se estruturar um pouco melhor, ou pedir a ajuda de alguém, para ler o texto com mais calma (e de maneira mais proveitosa) quando decidir que é o momento adequado de lê-lo.

A todos que nos visitam, o nosso agradecimento e àqueles que sofreram abusos de qualquer ordem, dedicamos o nosso desejo de que possam superá-los serenamente, o que é perfeitamente possível. 

Não tenha vergonha alguma de procurar ajuda profissional, se for o caso. Você só tem a ganhar.

Há esperança e há saída dessa situação extrema, como assegura a experiência de milhares (talvez milhões) de pessoas que tiveram forças para NÃO optar pela "não-solução" de Bill Zeller.

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Bill Zeller era o nome deste rapaz simpático na foto aí acima. Só que ele se matou no último dia 2 de janeiro, infelizmente. 

Na verdade Bill tentou o suicídio nesse dia, por enforcamento, e chegou a ser resgatado, mas não resistiu e faleceu na noite do dia 5/1, quarta-feira. 

Ele tinha 27 anos de idade, era programador e havia começado a fazer doutorado na área, na prestigiosa Universidade de Princeton (New Jersey), onde morava. 

Seria mais um dos lamentáveis suicídios que acontecem no mundo inteiro todo dia, se não fossem alguns detalhes sórdidos e - até então - secretos. 

É que Zeller publicou a sua carta de suicídio (que traduzi e publico abaixo) no Facebook, e também por e-mail aos amigos, e revelou ao mundo uma triste história que ninguém próximo conhecia: a de ter sido vítima de pedofilia. 

Pelo teor da carta, parece que os abusos começaram quando ele tinha 4 anos de idade, e lhe deixaram marcas profundas demais, realmente insuportáveis (dado o desfecho fatal). 

Soma-se a isso o fato de ter sido criado por uma família muito religiosa, que frequenta a Middletown Bible Church no Connecticut, onde seu pai é pastor-assistente há mais de 30 anos. 

Os pais o haviam expulsado de casa, segundo diz na carta, porque ele não queria frequentar esta igreja 7 horas por semana. 

Na carta em questão (a versão original pode ser lida clicando-se aqui), Zeller relata um pouco da dificuldade de relacionamento (especialmente pelo toque físico) e da confusão de sua persona sexual, como sequelas incontornáveis da pedofilia de que foi vítima. 

Não revela o nome do agressor, talvez por não conseguir sequer dizer o seu nome, por mais paradoxal que pareça esta atitude diante de uma medida tão extrema como a que ele tomou. 

Também conta que procurou profissionais para tratar dos seus problemas, mas nunca teve a coragem de contar sobre os abusos que sofrera, porque - basicamente - era incapaz de confiar o seu segredo mais íntimo e devastador a quem quer que fosse. 

Termina a carta dizendo que odeia seus pais e critica a maneira como a religião influenciou no seu relacionamento familiar. 

Enfim, é uma leitura difícil e dolorosa de um drama humano que não encontrou maneiras de se expressar e - inclusive - se ver pelos olhos dos outros, com algumas palavras chulas e blasfêmias que podem eventualmente ofender as pessoas mais sensíveis, mas é um testemunho que merece ser divulgado justamente para que as vítimas de pedofilia não tenham medo algum de procurar ajuda, contar o seu problema e inclusive nomear quem lhes perpetrou essa maldade. 

Também é um alerta para pessoas que têm amigos, relacionamentos e familiares que eventualmente possam ter um comportamento fora dos padrões "normais" da sociedade, para que tenham a compaixão e a sabedoria de identificar a oportunidade e poder ajudá-los a enfrentar as terríveis consequências do crime de que foram vítimas.



"Eu tenho o desejo de declarar a minha sanidade mental e justificar minhas ações, mas presumo que eu nunca vou ser capaz de convencer ninguém de que esta foi a decisão certa. Talvez seja verdade que quem faz isso é insano, por definição, mas posso pelo menos tentar explicar o meu raciocínio. Eu não considerei escrever nada disso por causa do quanto isto é pessoal, mas eu gosto de amarrar as pontas soltas e não quero que as pessoas fiquem se perguntando por quê eu fiz isso. Já que eu nunca falei com ninguém sobre o que aconteceu comigo, as pessoas provavelmente poderiam tirar conclusões erradas.

"Minhas primeiras memórias de infância são as de uma criança repetidamente violentada. Isto afetou todos os aspectos da minha vida. A escuridão, que é a única maneira que posso descrevê-la, seguiu-me como uma névoa, mas às vezes ficava densa demais e me esmagava completamente, geralmente desencadeada por uma situação aleatória qualquer. No jardim de infância eu não conseguia usar o banheiro e ficava petrificado sempre que eu precisava, o que iniciou em mim uma tendência de comportamento social bizarro e inexplicável. Os danos que foram feitos ao meu corpo ainda me impedem de usar o banheiro normalmente, mas agora é menos um impedimento físico do que propriamente um lembrete diário de que foi feito para mim.

"Essa escuridão me seguiu como eu cresci. Lembro-me de passar horas brincando com legos, sendo o meu mundo composto por mim e uma caixa de gelados blocos de plástico. Só esperando para que tudo terminasse. É a mesma coisa que eu faço agora, mas em vez de legos prefiro navegar na web, ler ou ver um jogo de beisebol. A maior parte da minha vida tem sido um sentimento de estar morto por dentro, esperando que o meu corpo chegue a este mesmo estado.

"Às vezes durante meu crescimento, eu sentia uma raiva inconsolável, mas eu nunca liguei isso ao que tinha acontecido até que atingi a puberdade. Eu era capaz de manter a escuridão de lado cada vez que isso acontecia, fazendo coisas que exigiam concentração intensa, mas as trevas sempre voltavam. Atraí-me por programação justamente por esta razão. Nunca fui particularmente apaixonado por computadores ou fã de matemática, e a paz temporária que isso me proporcionava era como uma droga. Mas a escuridão sempre voltava e fui construindo uma espécie de resistência, porque a programação foi se tornando cada vez menos um refúgio.

"As trevas me acompanham desde o momento em que eu acordo. Sinto-me como se uma sujeira estivesse me cobrindo. Sinto-me como se estivesse preço num corpo enlameado que nenhum ciclo de lavagem pudesse limpar. Sempre que eu penso sobre o que aconteceu eu começo a me coçar compulsivamente, e não consigo me concentrar em outra coisa. Isto se manifesta também na hora de comer, ficar acordado por dias seguidos, ou dormir direto durante dezesseis horas, bebedeiras, uma semana inteira de programação ou malhar constantemente na academia. Estou exausto de me sentir assim a cada hora de cada dia.

"Três ou quatro noites por semana eu tenho pesadelos com o que aconteceu. |Isto me faz evitar o sono e por isso estou constantemente cansado, porque tentar dormir com o que se prenuncia como horas de pesadelos não é nada repousante. Eu acordo suado e furioso. Lembro-me todas as manhãs do que foi feito contra mim e do controle que isso tem sobre a minha vida.

"Eu nunca fui capaz de parar de pensar sobre o que aconteceu comigo e isso dificulta minhas interações sociais. Ficava irritado e perdido em pensamentos para em seguida ser interrompido por alguém dizendo" Oi "ou puxando conversa, incapaz de entender por que eu parecia frio e distante. Eu andava por aí, vendo o mundo exterior a partir de um portal distante atrás dos meus olhos, incapaz de me conduzir segundo as normais delicadezas humanas. Ficava imaginando como seria ter relações normais para com as outras pessoas sem ter lembranças amargas sempre na minha mente, e eu queria saber se outras pessoas tiveram experiências similares, mas eram mais habilidosas em mascará-las.

"O álcool também foi algo que me deixava escapar das trevas, mas elas sempre me encontravam depois, sempre irritadas por que eu havia tentado escapar e me faziam pagar por isso. Muitas das coisas irresponsáveis que eu fiz foram o resultado das trevas . Obviamente, eu sou responsável por cada decisão e ação, incluindo esta, mas há razões para que as coisas aconteçam da maneira que elas acontecem.

"O álcool e outras drogas me deram uma maneira de ignorar a realidade da minha situação. Era fácil passar a noite bebendo e tentando esquecer que eu não tinha nenhum futuro para ficar esperando. Eu nunca gostei do que o álcool fazia comigo, mas era melhor do que encarar de frente a minha existência com honestidade. Eu não tenho provado álcool ou qualquer outra droga já faz mais de sete meses (e nem drogas ou álcool estão envolvidos neste meu ato) e isso me forçou a avaliar a minha vida de forma honesta e clara. Não há nenhum futuro aqui. As trevas estarão sempre comigo.

"Eu costumava pensar que se eu resolvesse algum problema ou alcançasse algum objetivo, talvez elas sairiam. Era reconfortante identificar os problemas concretos e solucionáveis como a origem dos meus problemas ao invés de algo que eu nunca seria capaz de mudar. Pensei que, se entrasse numa boa faculdade, ou uma boa escola de pós-graduação, ou perdesse peso, ou fosse para a academia quase todos os dias durante um ano, ou criasse programas que milhões de pessoas usariam, ou passasse um verão na Califórnia ou Nova York, ou publicados trabalhos que me dessem orgulhoso, então talvez eu sentiria um pouco de paz e não fosse constantemente perseguido e assombrado. Mas nada que eu fiz mudou um grão na forma como eu me sentia deprimido diariamente e não havia nada que eu fizesse que fosse recompensador. Eu nem sei porque eu pensei que algo fosse capaz de mudar.

"Eu não percebi o quão profundo isto tinha uma influência decisiva sobre mim e minha vida até o meu primeiro relacionamento. Estupidamente eu supus que, não importando o quanto a escuridão me afetava pessoalmente, os meus relacionamentos amorosos, de alguma maneira, seriam separados e protegidos. Enquanto eu crescia, eu via a possibilidade de relacionamentos futuros como uma possível fuga dessa coisa que me assombrava todos os dias, mas comecei a perceber o quanto isso estava emaranhado em todos os aspectos da minha vida e como isso nunca iria me libertar. Ao invés de ser uma fuga, os relacionamentos e contatos românticos com outras pessoas apenas intensificavam o meu problema de forma que eu não podia suportar. Eu nunca vou ser capaz de ter uma relação em que ele não é o foco, afetando cada aspecto das minhas interações românticas.

"Os relacionamentos sempre começavam bem e eu seria capaz de ignorá-lo por algumas semanas. Mas conforme nós íamos nos tornando íntimos emocionalmente, as trevas voltavam e a cada noite lá estariam eu, ela e as trevas num negro e horrível ménage-à-trois. Elas me cercavam e penetravam e quanto mais nós nos aproximávamos, mais intensas elas se tornavam. Fez-me odiar ser tocado, porque enquanto estávamos separados eu poderia vê-la como uma visão de fora, boa, gentil e imaculada. Uma vez que nos tocávamos, a escuridão também a envelopava e a levava, de maneira que o mal que estava dentro de mim também terminava envolvendo-a. Eu sempre me sentia como se estivesse infectando alguém com quem eu estava.


"Os relacionamentos não davam certo. Ninguém que eu namorava era a pessoa certa, e penso que se eu tivesse encontrado a pessoa certa eu a teria esmagado. Parte de mim sabia que o fato de encontrar a pessoa certa não ajudaria, então eu me interessei por garotas que obviamente não tinham interesse em mim. Por um momento eu pensei que eu era gay. Eu me convenci de que não eram as trevas, mas talvez a minha orientação sexual, porque isso me daria o controle sobre o porquê das coisas que eu não considerava “corretas”. O fato de que as trevas afetam questões sexuais de maneira mais intensa fez com que essa ideia tivesse algum sentido e eu me convenci disso por alguns anos, começando na faculdade depois do meu primeiro relacionamento ter terminado. Eu disse às pessoas que eu era gay (em Trinity, não em Princeton), ainda que eu não me sentisse atraído por homens e me mantivesse interessado por garotas. Então, se ser gay não era a resposta para os meus problemas, então qual era? As pessoas pensavam que eu estava evitando a minha orientação, mas o que eu estava realmente evitando era a verdade, a qual é que, mesmo eu sendo hetero, nunca estarei satisfeito com quem quer que seja. Agora eu sei que as trevas nunca irão embora.

"Na última primavera eu encontrei alguém que era diferente de qualquer outra pessoa que eu havia conhecido. Alguém que me mostrou o quanto duas pessoas podem conviver bem e quanto eu poderia se preocupar em cuidar de outro ser humano. Alguém com quem eu sei que poderia estar e amar para o resto da minha vida, se eu não fosse tão fudido. Surpreendentemente, ela gostava de mim. Ela gostava da casca de homem que as trevas haviam deixado para trás. Mas isso não importava, porque eu não conseguia ficar sozinha com ela. Nunca era só nós dois, tudo foi sempre a três: ela, eu e as trevas Quanto mais íntimos ficávamos, mais intensamente eu sentia a escuridão, como se fosse um espelho maligno das minhas emoções. Toda a intimidade que nós tínhamos e eu amava era complementado por uma agonia que eu não conseguia suportar e daí eu percebi que eu nunca seria capaz de dar a ela, ou a quem quer que fosse, tudo de mim ou somente o meu eu. Ela nunca poderia me ter sem a escuridão e o mal dentro de mim. Eu nunca poderia ter apenas ela, sem a escuridão como uma parte de todas as nossas interações. Eu nunca vou ser capaz de estar em paz e contente em um relacionamento saudável. Percebi a futilidade da parte romântica da minha a vida. Se eu nunca a tivesse conhecido, eu teria percebido isso tão logo encontrasse alguém com quem eu combinasse igualmente bem. É provável que as coisas não teriam funcionado com ela e que teríamos rompido (com o nosso relacionamento chegando a um fim, como a maioria dos relacionamentos chegam), mesmo se eu não tivesse esse problema, já que namoramos por pouco tempo. Mas vou ter que encarar exatamente os mesmos problemas com as trevas com qualquer outra pessoa com que me relacione. Apesar de minhas esperanças, amor e compatibilidade não são suficientes. Nada é suficiente. Não há nenhuma maneira de eu poder resolver isso ou até mesmo derrotar as trevas o suficiente para ter um relacionamento ou qualquer tipo de intimidade que seja viável.

"Então, eu observava como as coisas desmoronavam entre nós. Eu tinha colocado um limite de tempo explícito no nosso relacionamento, pois eu sabia que não poderia durar muito por causa das trevas e não queria segurá-la, e isso causou uma grande variedade de problemas. Ela foi colocada em uma situação anormal que ela nunca deveria ter tomado parte. Deve ter sido muito difícil para ela não saber o que realmente estava acontecendo comigo, mas isso não é algo que eu nunca fui capaz de conversar com mais ninguém. Perdê-la foi muito difícil para mim também. Não é por causa dela (eu superei o nosso relacionamento de forma relativamente rápida), mas por causa da constatação de que eu nunca teria um outro relacionamento e porque aquele significou a última ligação pessoal, exclusiva e verdadeira que eu podia ter tido. Isso não era evidente para outras pessoas, porque eu nunca poderia falar sobre as verdadeiras razões da minha tristeza. Fiquei muito triste no verão e no outono, mas não foi por causa dela, mas porque eu nunca vou escapar das trevas com quem quer que seja. Ela era tão amável e gentil comigo e me deu tudo que eu poderia ter pedido considerando as circunstâncias. Eu nunca vou esquecer o quanto ela me trouxe felicidade nesses poucos momentos em que eu poderia ignorar a escuridão. Eu havia planejado originalmente me matar no inverno passado, mas nunca parei para fazer isso (partes dessa carta foram escrita cerca de um ano atrás, outras partes dias antes de fazer isso.) Foi errado da minha parte me envolver em sua vida se esta fosse uma possibilidade e que eu deveria tê-la deixado sozinha, mesmo que a gente só tenha namorado por alguns meses e as coisas terminaram há muito tempo atrás. Ela é apenas mais um nome em uma longa lista de pessoas que eu magoei.


"Eu poderia gastar páginas falando sobre os outros relacionamentos que tive que foram arruinados por causa dos meus problemas e minha confusão em relação às trevas. Eu feri a tanta gente legal por causa de quem eu sou e minha incapacidade de experimentar o que precisa ser experimentado. Tudo o que posso dizer é que eu tentei ser honesto com as pessoas sobre o que eu pensava que era verdade.

"Eu passei minha vida magoando as pessoas. Hoje será a última vez.

"Eu disse a pessoas diferentes um monte de coisas, mas eu nunca contei a ninguém o que aconteceu comigo, nunca, por razões óbvias. Levei um tempo para perceber que não importa o quão próximo você está com alguém ou o quanto eles dizem te amar, as pessoas simplesmente não conseguem guardar segredos. Aprendi isso há alguns anos atrás, quando eu achava que era gay e contei às pessoas. Quanto mais prejudicial for o segredo, mais suculenta será a fofoca e o mais provável é que você seja traído. As pessoas não se preocupam com a sua palavra ou o com o que elas prometeram, eles apenas fazem o pior que elas querem e tentam justificá-lo mais tarde. A gente se sente extremamente solitária quando percebe que você nunca poderá compartilhar algo com alguém e que isto fique apenas entre vocês dois . Eu não culpo a ninguém em particular, eu acho que é apenas o jeito como as pessoas são. Mesmo que eu sinta assim é algo que eu poderia ter compartilhado, já que não tenho interesse em fazer parte de uma amizade ou relacionamento onde a outra pessoa me vê como a pessoa contaminada e danificada que eu sou. Assim, mesmo se eu fosse capaz de confiar em alguém, eu provavelmente não teria dito a eles sobre o que aconteceu comigo. Nesse ponto, eu simplesmente não me importo com quem sabe.

"Eu me sinto um mal dentro de mim. Um mal que me faz querer acabar com a vida. Preciso parar com isso. Eu preciso me certificar de que não matar alguém, o que não é algo que pode ser facilmente desfeita. Eu não sei se isso está relacionado com o que aconteceu comigo ou algo diferente. reconheço a ironia de me matar para me impedir de matar alguém, mas essa decisão deve indicar o que eu sou capaz.

"Então eu percebi que eu nunca vou escapar da escuridão ou a miséria associada a ele e eu temos a responsabilidade de parar de me agredir fisicamente os outros.

"Eu sou apenas uma casca quebrada e miserável de um ser humano. O fato de ter sido molestado sexualmente me definiu como pessoa e me moldou como ser humano e isso fez de mim o monstro que eu sou e não há nada que eu possa fazer para escapar disso. I Não conheço nenhuma outra existência possível. Eu não sei o que a vida poderia ser além disso. Eu ativamente desprezar a pessoa que sou. Eu me sinto profundamente quebrado, quase não-humano. Sinto-me como um animal que acordou um dia em um corpo humano, tentando dar sentido a um mundo estranho, vivendo entre as criaturas que não compreende e às quais não consegue se conectar.

"Eu aceito que as trevas nunca vão me permitir entrar num relacionamento. Eu nunca vou dormir com alguém em meus braços, sentindo o conforto de suas mãos ao meu redor. Eu nunca vou saber o que é uma intimidade incontaminada. Nunca terei um vínculo de exclusividade com alguém, alguém que possa ser o destinatário de todo o amor que eu tenho para dar. Eu nunca vou ter filhos, e eu adoraria ser pai. Eu acho que eu seria um bom pai. E mesmo se eu tivesse lutado contra a escuridão e me casado e tido filhos, mesmo sendo incapaz de sentir a intimidade, eu nunca poderia ter feito isso se o suicídio fosse uma possibilidade. Eu realmente tentei minimizar a dor, embora eu saiba que esta decisão vá ferir muitos de vocês. Se isso te machuca, eu espero que você pelo menos pode se esquecer de mim rapidamente.

"Não há nenhum benefício em identificar quem me molestou sexualmente, então eu só vou deixar por isso mesmo. Duvido que a palavra de um cara morto, sem provas de algo que aconteceu há mais de 20 anos atrás teria muita influência.

"Você pode se perguntar por que não falar com um profissional sobre o assunto. Eu fui a vários médicos desde que eu era um adolescente pra falar sobre outras questões e tenho certeza de que qualquer outro médico não teria ajudado. Nunca ninguém me deu um conselho prático, nunca. A maioria deles passava a maior parte da sessão lendo suas anotações para lembrar quem eu era. E eu não tenho nenhum interesse em falar sobre ter sido violentado quando era criança, tanto porque eu sei que não iria ajudar e porque não tenho confiança de que iria permanecer em segredo. Conheço os limites jurídicos e práticos do sigilo entre médico e paciente, pois fui criado numa casa onde nós sempre ouvimos histórias sobre as mais variadas enfermidades mentais de pessoas famosas, histórias que foram transmitidas através de gerações. Tudo que fica é um médico que acha que a minha história é interessante o suficiente para compartilhar ou um médico que acha que é seu direito ou a responsabilidade de contactar as autoridades para me fazer identificar o molestador (justificando a sua decisão dizendo que alguém poderia estar em perigo). Só é preciso um único médico que viole a minha confiança, assim como os "amigos" a quem eu disse que eu era gay fizeram, e tudo seria tornado público e eu seria forçado a viver em um mundo onde as pessoas soubessem como eu tenho uma vida fudida. E sim, eu sei que isso indica que eu tenho sérios problemas de confiar nos outros, mas eles são baseados em um grande número de experiências com pessoas que têm demonstrado um profundo desrespeito para com a sua palavra e a vida privada dos outros .

"As pessoas dizem que o suicídio é egoísta. Eu acho que é egoísta pedir às pessoas que continuem vivendo uma vida dolorosa e miserável, já que assim você possivelmente não vai se sentir triste por uma semana ou duas. Suicídio pode ser uma solução permanente para um problema temporário, mas é também uma solução permanente para um problema de 23 anos que se torna mais intenso e avassalador a cada dia que passa.

"Algumas pessoas são tratadas horrivelmente nesta vida. Eu sei que muitas pessoas sofrem coisas piores do que eu, e talvez eu não sou mesmo uma pessoa forte, mas eu realmente tentei lidar com isso. Tentei lidar com isso todos os dias dos meus últimos 23 anos mas não posso mais aguentar essa porra.

"Muitas vezes me pergunto como é que a vida deve ser para outras pessoas. Pessoas que conseguem sentir o amor dos outros e devolvê-lo puro, pessoas que podem experimentar o sexo como uma experiência íntima e alegre, pessoas que podem experimentar as cores e os acontecimentos deste mundo sem uma miséria constante. Pergunto-me quem eu seria se as coisas tivessem sido diferentes, ou se eu fosse uma pessoa mais forte. Seria muito bom.

"Estou preparado para a morte. Estou preparado para a dor e eu estou pronto para já não existem. Graças ao rigor de leis de armas de Nova Jersey, isto será provavelmente muito mais doloroso do que precisaria ser, mas o que se pode fazer? Meu único receio neste momento é algo dar errado e eu sobreviver.
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"Eu também gostaria de me dirigir à minha família, se é que você pode chamá-los assim. Eu desprezo tudo o que eles defendem e que eu realmente os odeio, de forma não-emocional, não passional e - eu acredito – de uma maneira saudável. O mundo será um lugar melhor quando eles morrerem - um mundo com menos ódio e intolerância.
Se você não estiver familiarizado com a situação, meus pais são cristãos fundamentalistas que me expulsaram de sua casa e cortaram as minhas finanças quando eu tinha 19 anos porque me recusei a frequentar a igreja sete horas por semana.

"Eles vivem em uma realidade em preto e branco que eles construíram para si mesmos. A separação do mundo em bons e maus e a sobrevivência através do ódio a tudo o que eles temem ou não compreendem, e chamam isso de amor. Eles não entendem que pessoas boas e decentes existem e estão ao nosso redor, "salvos" ou não, e que pessoas más e cruéis representam uma grande porcentagem de sua igreja. Eles se aproveitam das pessoas que procuram uma esperança, ensinando-lhes a praticar o mesmo ódio que praticam.

"Um exemplo aleatório:
"Estou pessoalmente convencido de que se um muçulmano realmente crê e obedece o Alcorão, ele vai ser um terrorista." - George Zeller, 24 de agosto de 2010.

"Se você optar por seguir uma religião onde, por exemplo, católicos devotos que estão tentando ser boas pessoas estão indo para o inferno, mas molestadores de crianças vão para o céu (contanto que eles estejam "salvos" em algum ponto), a escolha é sua, mas é foda. Talvez um deus que se paute por essas regras exista. Se assim for, ele que se foda.


"A igreja sempre foi mais importante que os membros da sua família e eles alegremente sacrificavam o que fosse necessário para satisfazer suas crenças inventadas sobre quem eles deveriam ser.

"Eu cresci numa casa onde o amor foi representado por um deus em quem eu nunca poderia acreditar. Uma casa onde o amor pela música com todo tipo de ritmo foi literalmente batido pra fora de mim. Uma casa cheia de ódio e intolerância, dirigida por duas pessoas que eram especialistas em parecer amáveis e calorosas quando os outros estavam por perto. Pais que dizem a uma criança de oito anos que sua avó está indo para o inferno só porque ela é católica. Os pais que alegam não serem racistas, mas em seguida falam sobre os horrores da miscigenação. Eu poderia listar centenas de outros exemplos, mas é cansativo.

"Desde que foi expulso de casa, já interagi com eles de forma relativamente normal. Eu converso com eles ao telefone como se nada tivesse acontecido. Eu não sei ao certo o porquê. Talvez porque eu goste de fingir que tenho uma família. Talvez eu goste de ter pessoas com quem eu possa falar sobre o que está acontecendo na minha vida. Seja qual for o motivo, ele não é real e soa como uma farsa. Eu nunca deveria ter permitido que este reatamento acontecesse.

"Eu escrevi o que acabei de escrever um tempo atrás, e eu me sinto assim a maior parte do tempo. Em outras ocasiões, porém, sinto-me menos odioso. Sei que meus pais honestamente acreditam na porcaria que eles acreditam e eu sei que a minha mãe, pelo menos, me amava muito e tentava fazer o seu melhor. Uma razão para guardar isso por tanto tempo é porque sei quanta dor que vai causar. Ela ficou triste desde que ela descobriu que eu não era "salvo", desde que ela acredita que eu vou para o Inferno, o que não é uma tristeza pela qual me sinto responsável. Isso nunca iria mudar e provavelmente ela acredite que o estado do meu corpo físico é muito menos importante do que o estado da minha alma. Ainda assim, eu intelectualmente não posso justificar esta decisão, sabendo o quanto isso vai machucá-la. Talvez a minha capacidade de tirar minha própria vida, sabendo quanta dor isso vai causar, mostre que eu sou um monstro que não merece viver. Tudo o que sei é que eu não posso lidar com essa dor por mais tempo e eu realmente sinto muito por não poder esperar até que a minha família e todos que eu conhecia morram, assim isto poderia ser feito sem ferir ninguém. Por anos eu desejava que fosse atropelado por um ônibus ou morresse ao salvar um bebê de um afogamento, o que poderia fazer a minha morte ser mais aceitável, mas nunca tive essa sorte.
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"Para aqueles de vocês que me mostraram amor, obrigado por aturar toda a minha merda, e mau humor e arbitrariedade. Eu nunca fui a pessoa que eu queria ser. Talvez sem as trevas, eu teria sido uma pessoa melhor, talvez não. Eu tentei ser uma pessoa boa, mas eu percebo que eu nunca cheguei muito longe fazendo isso.

"Eu sinto muito pela dor que isso causa. Eu realmente queria que eu tivesse outra opção. Espero que esta carta explique por que eu precisava fazer isso. Se você não consegue entender esta decisão, espero que você pode pelo menos possa me perdoar. "

Bill Zeller
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"Por favor, salve esta carta e a poste de novo se for deletada. Eu não quero que as pessoas fiquem se perguntando por que eu fiz isso. Eu divulguei esta carta o mais amplamente do que eu pude, porque eu estou preocupado que a minha família venha a tentar restringir o acesso a ela. Eu não me importo se esta carta seja tornada pública. Na verdade, eu preferiria que fosse tornada pública a pessoas são incapazes de lê-la e que elas tirassem suas próprias conclusões.

"Sinta-se livre para publicar esta carta, mas somente se ela for reproduzida em sua totalidade."

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