“Entre o pensamento e a realidade, entre o impulso e a ação, cai a sombra. (T. S. Eliot)"
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sábado, 18 de agosto de 2012

Patriarca da Igreja Ortodoxa Etíope morre aos 76 anos de idade

Faleceu no último dia 16 de agosto, quinta-feira, Abune Paulos, que era o patriarca da Igreja Ortodoxa da Etiópia, e o fato ocorreu na capital do país, Addis Abeba.

A Igreja Ortodoxa Etíope tem também o nome "Tewahido", que significa "feito um" ou "unificado" no idioma (exclusivamente litúrgico) Ge'ez, e faz referência à crença de algumas igrejas orientais no monofisismo, ou seja, a posição cristológica de que Jesus tem apenas uma natureza, a da humanidade absorvida pela divindade, e não duas naturezas, conforme decidido no Concílio da Calcedônia no ano 451.

A tese das duas naturezas, aceita pelas igrejas ocidentais (católica e protestante) e pela maioria das igrejas orientais (ortodoxas) se expressa na doutrina da Encarnação que foi assim definida em Calcedônia:
"Na linha dos santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, "semelhante a nós em tudo com exceção do pecado"(Hb 4,15); gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase."(DS 301-302)."
A Igreja Ortodoxa da Etiópia é autônoma desde 1959, quando foi declarada independente pela Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, no Egito, da qual era patriarca até pouco tempo atrás Shenouda III, que morreu em março deste ano e aparece acima na foto ao lado de Abune Paulos.

Este, por sua vez, foi o quinto patriarca da Igreja Ortodoxa na Etiópia, comandando cerca de 45 milhões de fiéis no país e em boa parte do mundo onde a diáspora etíope está presente.



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cristianismo e islamismo entre identidade e proselitismo



No seu livro "Como Nosso Mundo se Tornou Cristão" (tradução de Marcos Castro, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010), o historiador (ateu) francês Paul Marie Veyne, numa nota de rodapé à pág. 226, dá uma visão interessante e um tanto quanto inusitada a respeito da expansão do islamismo em áreas antes - pelo menos nominalmente - cristãs, que contraria a versão tradicional de que o Islã forçou a conversão dos povos a que submetia a fio de espada pela jihad ("guerra santa"), e que as igrejas cristãs do Oriente Médio e da África eram majoritariamente influenciadas pelas heresias do nestorianismo e do monofisismo, o que as tornou, de certa forma, docemente receptíveis a uma doutrina monoteísta clássica como a defendida pelo Islã. Para Paul Veyne, o que diferencia a abordagem cristã da muçulmana quanto ao proselitismo é a identidade de grupo (uma espécie de sentimento de "nação") que dá ao último um certo senso de superioridade difícil de resistir. Uma lição que, aparentemente, continua muito atual. Confira o excerto:
Esta palavra proselitismo abarca várias atitudes bem diferentes. Uma religião cuja ambição é universal, como o cristianismo, pretendia converter todos os homens à sua verdade, para salvação deles. Em compensação, nos seus inícios, o islã conquistador quis que triunfasse por toda a parte a dominação da religião que é superior a todas, e não queria converter os povos dominados, conquistar as almas; o que importava ao islã era que a religião superior fizesse a lei, que os Crentes fossem os mestres. – Quanto à palavra identidade, também se refere a atitudes muito diversas. O islã é uma identidade cujos caracteres são muito particulares. Ser muçulmano é pertencer a uma comunidade de crentes pluriétnica e politicamente dividida e conflituosa; contudo, contra os Infiéis, os Crentes de qualquer nacionalidade, formam um grupo solidário cujos membros devem (ou deveriam) dar mão forte uns aos outros. De alguma forma, essa Comunidade religiosa que não é nacional também não é escolhida, subjetiva, como não são escolhidas as identidades nacionais, assim como ser francês, brasileiro ou belga. O que explica talvez uma dissimetria: enquanto velhas regiões cristãs converteram-se em massa ao islã (pareceria que o islã se impunha e impunha a todos seu profundo e impressionante sentimento de superioridade), as conversões de muçulmanos ao cristianismo foram raríssimas e quase impossíveis. Porque, se se provar, ao francês que eu sou, que outras nações são preferíveis à França, ainda que eu admitisse isso e deplorasse meu nascimento, minhas lamentações não mudariam em nada meu destino, que é ser francês. Renegar o cristianismo é uma traição, é renegar sua profissão de fé e preferir o erro à verdade, enquanto renegar o islã seria um absurdo, como pretender mudar de sexo, de natureza. Em uma palavra, as duas religiões não estão situadas da mesma maneira no fundo dos cérebros.




terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da Assembleia de Deus ao Islã

Como diria Zagalo, “aí então fomos surpreendidos novamente”... A gente nunca deve menosprezar a possibilidade de ser pego de surpresa por alguma notícia estranha vinda da igreja evangélica brasileira. Leio no blog Genizah que o pastor presidente da Assembleia de Deus no Estado da Paraíba, João de Deus Cabral, se converteu ao islamismo. A notícia – se verdadeira, há que ressalvar - não chamaria tanto a atenção se não se tratasse de um pastor que, além de ter comandado a Convenção Estadual da maior denominação evangélica no Brasil, foi secretário nacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil por 15 anos. É normal que, todo santo dia, pessoas transitem (se “convertam”) de uma religião pra outra (ou à negação dela) no mundo inteiro, afinal o que não falta são religiosos (e ateus) nominais.

Segundo as informações colhidas até o momento, o ex-pastor teria se oposto à doutrina da Trindade, à celebração do Natal, além de acreditar na surrada teoria da conspiração de que Constantino teria sido o, por assim dizer, consolidador da religião cristã . No fundo, cá entre nós, essas são apenas desculpas para quem nunca foi cristão nem entendeu o que significa a cruz de Cristo. Entretanto, estava lá, falando em nome da maior denominação evangélica do Brasil. Por isto mesmo, não deixa de ser uma oportunidade para se avaliar a situação em que se encontra a igreja no país.

Muitos cristãos nominais não se preocupam em – pelo menos – tentar entender o que significa a doutrina da Trindade (e da correlata Encarnação) para o cristianismo. É claro que é uma doutrina inalcançável para a razão humana, mas sem essas duas doutrinas o cristianismo não subsiste, porque não haveria salvação se Jesus – como sendo 100% Deus e 100% homem – não tivesse sido sacrificado em nosso lugar, discussão que procurei aprofundar no texto “A doutrina da Trindade – Uma Introdução”, ao qual remeto o leitor que busca compreender melhor a sua importância. Com relação à celebração do Natal, cujo antagonismo de alguns evangélicos – como Edir Macedo - tem se tornado uma verdadeira superstição antissuperstição, recomendo a leitura do artigo “Esclarecimento sobre as origens do Natal”, de autoria do Gustavo, coeditor deste blog. A questão natalina, a meu ver, é mera perfumaria argumentativa, dessas filigranas que servem de desculpa pra qualquer coisa, já que nenhum ramo do cristianismo impõe a seus seguidores a obrigação de celebrar o Natal. Provavelmente, algumas “igrejas” estão querendo evitar que seus fiéis gastem seu dinheiro em presentes de Natal e o destinem aos cofres da organização.

Retornando aos dogmas da Trindade e da Encarnação, eles, entretanto, são decisivos. A atitude de negá-los explica bastante sobre as heresias que saíram da Igreja primitiva, como o nestorianismo e o monofisismo dos séculos V e VI, com resultados parecidos como o que vemos hoje na Paraíba do século XXI, por incrível que pareça. Num brevíssimo resumo, o nestorianismo pregava que havia em Jesus duas naturezas absolutamente distintas, a divina e a humana, de forma que eram dois entes independentes, sem qualquer ligação. Já o monofisismo dizia que havia em Jesus apenas a natureza divina que, digamos, “absorvia” a humana. A doutrina da Trindade, para eles, gravitava em torno das suas doutrinas exóticas da Encarnação, e terminavam por condená-la à morte, conforme exposto no texto Trindade – Uma Introdução. Essas heresias tiveram enorme influência nas igrejas orientais, em especial na região da península arábica, na qual outra seita já havia florescido, ainda no século II: os ebionistas. O ebionismo, como ensina o historiador cristão Justo L. González (leia o excerto clicando aqui), foi fortemente influenciado pelo gnosticismo e pelos grupos judaizantes da época, e, em suma, negava a Jesus qualquer divindade, colocando-o no patamar de apenas mais um dos grandes profetas de Deus. González acrescenta: “Ele não era mais o filho unigênito de Deus, mas um mero profeta dentro da sequência de profetas. Ele não era mais o salvador, mas simplesmente um elemento – algumas vezes secundário – da ação de Deus ao longo desta era”. Desta maneira, todo este caldo de cultura com referências cristãs, mas que negava as doutrinas cristãs básicas da Trindade e Encarnação, muito provavelmente terminou influenciando Maomé na fundação do islamismo, para quem Jesus era de fato um dos grandes profetas, mas não o unigênito e todo-divino Filho de Deus. O historiador Paul Johnson, em sua obra clássica “História do Cristianismo” (Ed. Imago, 2001, p. 291 – leia o excerto clicando aqui) relata que na sua primeira grande vitória, no Rio Yarmuk, em 636, o profeta do Islã contou com o apoio de 12.000 árabes cristãos, que não tiveram problemas significativos com os muçulmanos por muitos séculos.

Não deveria ser surpresa, portanto, que cristãos nominais iludidos e mal formados se convertam ao islamismo. Mas infelizmente é, e este fato exige redobrada atenção das igrejas evangélicas brasileiras, hoje muito mais preocupadas com o “evangelho do desempenho”, em que a salvação pode ser perdida a qualquer momento, se determinadas obras não forem cumpridas, certos alvos financeiros não forem alcançados e "dons espirituais" coreografados não sejam exibidos à exaustão, num profundo desprezo por tudo que os grandes reformadores protestantes resgataram da poeira dos séculos amontoada nas Escrituras e nos repassaram. Por outro lado, vemos um constante solapamento dos dogmas fundamentais do cristianismo, como a Trindade e a Encarnação, aliado à proliferação de práticas judaizantes. Além disso, o gnosticismo (com suas revelações especiais particulares e numerologia, por exemplo), infesta muitas igrejas. Registre-se, ainda, essa verdadeira fixação de muitos evangélicos pela novidade, venha ela de onde vier. Queiram ou não, o islamismo é uma religião com representatividade minúscula no espectro populacional brasileiro, e não deixa de ser “novidade” que ocorra uma conversão como essa aqui destacada.

Cabe a cada denominação e a cada pastor cuidarem bem de seu rebanho. Isto não se faz com a “espetacularização” do evangelho para satisfazer alguns corações novidadeiros, insaciáveis e voláteis. Tudo passa pelo fortalecimento doutrinário dos irmãos e das confissões de fé de cada igreja cristã, que deve permanecer firme no ensino da Palavra e intransigente no testemunho de fidelidade da Igreja primitiva, sem negociar com a areia movediça das conversões não tão convictas assim. Espero que a Assembleia de Deus, por sua importância estatística no país, debata a fundo o assunto, para que ela própria continue relevante do ponto de vista espiritual e não siga o caminho das seitas orientais do primeiro milênio.

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