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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 30


SOBRE O CASAMENTO E O CELIBATO


S. Paulo escreve: É bom para os viúvos e as viúvas que permaneçam no estado em que também eu vivo. Caso, porém, não se dominem, que se casem. É melhor casar do que viver abrasado. [1 Cor 7.8-9]

Sem dúvida, é bom permanecer como S. Paulo. No entanto, coloca ao lado disso a razão por que não é bom permanecer assim, e por que é melhor casar-se de novo do que permanecer viúvo. S. Paulo resumiu todas as razões para o casamento num só ponto e delimitou toda a glorificação da castidade nas palavras: “Caso, porém, não se dominem, que se casem”. Isso significa: a necessidade te obriga a casar. Por mais que se glorifique a castidade, e por mais nobre que seja a dádiva da castidade, a necessidade a impede, de maneira que poucos são aptos para ela, pois não se dominam. Embora sejamos cristãos e tenhamos o Espírito de Deus na fé, nem por isso está eliminada a criatura de Deus, tu como mulher, eu como homem. Apesar disso o Espírito deixa ao corpo sua natureza e suas funções naturais, como comer, beber, dormir, digerir, defecar, como o faz o corpo de qualquer pessoa.

Da mesma forma também não elimina os caracteres femininos ou masculinos, seu instinto, sua fecundidade e capacidade de procriar. O corpo de um cristão se procria e se multiplica da mesma forma como o de outros seres humanos, pássaros e todos os animais, para o que foi criado por Deus (Gn 1.28). Por isso um homem tem que se unir à mulher e a mulher ao homem por necessidade, quando Deus não faz um milagre por meio de um dom especial, impedindo [a destinação de] sua criatura. É isso que S. Paulo quer dizer aqui: “Quem não se domina, que se case”, como a dizer: A quem Deus não conceder o dom especial, mas deixa ao corpo, seu gênero e natureza, para este é melhor, sim, necessário, que se case, e que não permaneça nem viúvo nem virgem. Ora, Deus não tem a intenção de dar essa graça às pessoas em geral; o comum há de ser o casamento, tal como o instituiu uma vez e como criou ambos os corpos. Não anulará ou bloqueará em todas as pessoas os caracteres recebidos na criação.

Além do mais, um cristão é espírito e carne. Por causa do espírito ele não necessita de matrimônio. Visto, porém, que sua carne é carne comum, corrompida em Adão e Eva, cheia de maus desejos, ele necessita do matrimônio por causa dessa mesma enfermidade e não está em seu poder livrar-se dele. Pois seu corpo tumultua, arde e tem o desejo de procriar como o corpo de qualquer outra pessoa, se não lhe vem em socorro e o dominar com o devido remédio o matrimônio. Deus tolera esse tumultuar por causa do matrimônio e seu fruto. Pois revelou em Gn 3.16 o que está disposto a tolerar no homem, ao não revogar a bênção da multiplicação, pelo contrário, a confirmou, embora soubesse que a natureza corrupta, cheia de maus desejos, não seria capaz de efetuar essa benção sem pecado.

Querer desprezar o estado matrimonial, afastar dele e querer atrair as pessoas para a castidade, visto que acarreta muito sofrimento e incômodos, de nada adianta e não vale, é um empreendimento louco e maldoso. Pois assim não se resolve o problema, porque a necessidade sempre se interpõe e diz: Não pode ser, não é possível, a gente não consegue viver neste céu. Como diz S. Paulo: “Quem não se domina, que se case”. Por outro lado, também não resolve glorificar o estado matrimonial, pois de fato é algo divino, cheio de bens espirituais, pois ninguém ou somente poucos se deixariam comover ao casamento por causa de tais bens. A natureza teme esforço e trabalho.

Existem muitos motivos para casar. Alguns se casam por causa de dinheiro e bens; grande parte casa-se por paixão, à procura de prazer e satisfação; outros ainda para gerar herdeiros. S. Paulo aponta este um, e em princípio não conheço outro mais forte do que este: a necessidade. Sim, necessidade. A natureza procura realizar-se, quer fecundar e multiplicar-se e Deus não quer que isso aconteça fora do matrimônio. Portanto, por causa dessa necessidade, todos têm que procurar o matrimônio, se quiserem viver de boa consciência e orientar-se em Deus. Além dessa necessidade, todas as demais, evidentemente, farão um mau matrimônio, especialmente a paixão que leva as pessoas doidas a entrarem levianamente num estado tão sério, necessário e divino, para logo depois se darem conta do que prepararam para si mesmos.

No entanto, que significa: “Casar-se é melhor do que viver abrasado”? Sem dúvida, toda pessoa que quer viver sem matrimônio e castamente sem a graça [especial] entenderá essa palavra e saberá o que significa. Pois S. Paulo não fala de segredos, mas dos sentimentos comuns e evidentes daqueles que vivem castamente sem serem casados e que, não obstante, não receberam a graça para tanto. Pois diz que vivem abrasados todos os que vivem na castidade sem possuírem a graça, e aponta como único remédio o matrimônio. Se isso não fosse algo tão comum ou se existisse outra solução, não teria aconselhado o matrimônio, embora em alemão se fale do “sofrimento oculto”, que não seria tão comum se fosse um mal oculto.

Também é indubitável que aqueles que têm a graça da castidade não obstante sentem às vezes o mau desejo e são tentados. Mas é algo passageiro, por isso não se pode falar em ardor. Resumidamente, viver abrasado é o ardor da carne que não cessa de tumultuar, é a atração diária pela mulher ou pelo homem que existe em toda parte onde não há gosto e amor pela castidade, de maneira que são tão poucos os que não vivem abrasados, como são poucos os que receberam a graça de Deus para a castidade. Esse ardor é mais forte num, mais brando no outro. Alguns o sentem com tanta violência que se satisfazem a si mesmos. O lugar de todos esses é o casamento. Ouso até dizer: Para cada pessoa casta deve haver mais do que cem mil pessoas casadas.

Nada melhor do que um exemplo: S. Jerônimo, que glorifica a castidade da forma mais exagerada, confessa que não conseguiu dominar sua carne nem com jejum nem com vigílias, de modo que sua castidade se lhe tomou extremamente amarga. Quantas horas boas deve ter perdido com pensamentos carnais! Insistia em que a castidade deve ser trabalhada e que é algo comum. Ora, o homem vivia abrasado e devia ter-se casado. Aí percebes o que significa viver abrasado. Ele foi um daqueles que devia ter casado, e injustiçou-se e fez sofrer a si mesmo pelo fato de não ter-se casado. Há muitos desses exemplos nas biografias dos pais.

S. Paulo chega à seguinte conclusão: Onde não existe o especial dom de Deus, há que se viver abrasado ou casar-se. Em todo o caso (diz Paulo) é melhor casar do que viver abrasado. Por quê? Viver abrasado é castidade inexistente, ainda que não se concretize em atos, porque não é vivida com prazer e boa vontade, mas com grande desgosto, aversão e sob coerção. Desse modo ela é considerada incastidade perante Deus, pois o coração é incasto embora o corpo não ouse ser incasto. De que adianta sustentares uma castidade inexistente e incasta com grande, amargo sacrifício contra tua vontade? Em todos os casos seria melhor ser casado e fugir desse dissabor. Embora também o matrimônio tenha seus desgostos e dissabores, é possível aceita-los e de vez em quando ter seus dias de sossego e prazer. E onde, fora do matrimônio, não existe a graça [especial], é impossível consentir com a castidade e viver nela com prazer.

Aí vês quão tolos mestres e governantes são esses que em toda parte obrigam a juventude à castidade e ainda pretextam que quanto mais amarga e quanto maior a resistência, tanto melhor seria a castidade. Brinca desse jeito com outros assuntos, mas não com a castidade, pois ninguém pode aceder prazerosamente a ela quando não tiver a graça especial. Todas as demais coisas podem ser aceitas prazerosamente, desde que haja fé. Procedem como os judeus que queimavam seus filhos em sacrifício ao ídolo Moloque [cfe. Jr 32.35], de modo que até parece que S. Paulo usou o termo “arder” porque quis apontar e denunciar essa abominação. Pois que diferença existe entre manter um jovem abrasado a vida inteira num convento ou de outra forma e queimar uma criança em honra ao diabo, somente para manter uma miserável castidade inexistente?

Em homenagem a esses mestres e governantes tenho que contar o que ouvi certa vez a respeito de um homem valente, para que essas grosseiras cabeças cegas compreendam com que sabedoria procedem em seu governo. Um desses pregadores escrevera certa vez que quem quisesse prestar um serviço a Deus, deveria empreender algo grande e machucar bastante a si mesmo. Para tanto cita como exemplo a Simeão de Vitae Patrum [*], que ficou um ano inteiro apoiado numa só perna sobre uma alta coluna, orando sem cessar, nem comer nem beber, até que se desenvolveram vermes em seu pé. Ao caírem, os vermes se transformaram em pedras preciosas. É assim que deves proceder contigo, se quiseres servir a Deus (disse dito pregador). É próprio desses pregadores pregar essas mentias que o diabo sem dúvida inventou outrora por meio de malvados patifes para zombar dos cristãos, para acabar com seus milagres que faziam em grande número naqueles tempos, como se todos eles não passassem de tais ludíbrios.

Um desses pregadores doidos teve por discípulo outro doido, conforme o provérbio: “Um louco produz mais outros dez”. Este quis servir a Deus e resolveu torturar-se a si mesmo e começou a reter a urina. Tendo retido a urina por quatro dias, ficou doente; mas ninguém conseguiu dissuadi-lo e quis morrer. Até que Deus inspirou alguém que elogiou seu intento e o apoiou dizendo que ele estava certo (como se deve falar com loucos, para que o entendam, diz Salomão [cfe. Pv 26.5]). “No entanto”, disse ele, “estás fazendo isso por pura vaidade. Se assim for, de nada vale”. Ouvindo isso, desistiu de seu intento e disse: “Se é como me acabais de explicar, desisto”.

Ora, isso é uma loucura grosseira, mas não se deve desprezá-la simplesmente. Com isso Deus mostrou (como disse) o que esses mestres e governantes são capazes de aprontar. Vamos sublinhar o seguinte: a realidade é como a ensina a Escritura e toda a experiência: esta vida na terra é miserável, cheia de miséria e sofrimento, qualquer que seja a posição social que venhas a escolher (desde que seja divina). No entanto, ninguém é tão miserável como aquele a quem se ordena reter a urina ou as fezes. Seria preferível escolher qualquer das condições [de miséria e sofrimento] do que sujeitar-se a algo tão impossível. Visto que ninguém tem obrigação de cumprir tal mandamento, as pessoas não percebem o quanto é agradável urinar e defecar; enquanto isso ficam contemplando e lamentando a miséria em sua condição, que não é a décima parte do que seria essa miséria.

A mesma coisa acontece com esse fogo. Pois os casados estão livres dele, podem apagar seu fogo e esquecem o sofrimento (do mesmo modo como a mulher pensa de maneira muito diferente depois do parto do que antes e durante o parto), e passam a olhar somente para as dificuldades e dissabores de seu estado. Pois ninguém dá atenção às coisas boas que tem, e as coisas más se esquecem depois que passaram. Aqueles, porém, que vivem abrasados e não têm perspectivas, só podem zombar e chamar de loucos aqueles que são casados e, não obstante, se queixam do matrimônio. Pois estão obrigados a dominar o que não se pode dominar, e ainda deverão dominá-lo em vão e perder toda essa amarga fadiga. Sem dúvida, uma desgraça lamentável! O quanto preferiram suportar todos os dissabores do matrimônio do que esse fogo. É isso que S. Paulo quer dizer com: “É melhor casar do que viver abrasado”, querendo significar: casar é ruim, mas viver abrasado é pior. Em resumo: o matrimônio cheio de dissabores é melhor do que a castidade cheia de dissabores. O matrimônio amargo e difícil é melhor do que a castidade amarga e difícil. Motivo: esta de nada vale, aquele pode ser útil.

Digo isso a respeito do fogo que sofrem os que se dominam, que são muito poucos, pois a maioria não suporta esse ardor e não se domina, mas encontram maneiras para se livrarem dele. Disso, porém, não pretendo escrever agora. Quando, porém, se livram dele fora do matrimônio, logo a consciência os acusa, o que é a desgraça mais insuportável e a mais miserável condição na terra. O resultado final de tudo é que a maior parte dos solteiros e dos que vivem na castidade sem terem o dom para isso são constrangidos e obrigados a pecar fisicamente com incastidade, e os demais são obrigados a viver castos exteriormente e incastos interiormente. Dessa maneira aqueles levam uma vida condenável e estes, uma vida desgraçada e sem sentido. E onde estão os governantes espirituais e seculares que se preocupam com esse sofrimento das pobres almas? Com sua incitação e constrangimento [à castidade] apenas ajudam ao diabo a multiplicar diariamente essa miséria.

[*] Vitae patrum. Migne, Patrol. Lat. Tom. 73, cl. 328s. A citação refere-se a Simeão, o Estilita (390-459), que levou a vida eremita e ascética a um certo auge, vivendo sobre uma coluna [em grego stylos - "pilar"] de 20 metros. Do alto dela dirigia-se aos que o procuravam, tendo grande influência em seus dias com suas pregações de acento calcedonense [o Concílio da Calcedônia foi realizado no ano 451 d. C.].

(LUTERO, Martinho. O 7º Capítulo de S. Paulo aos Coríntios. 1523. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. 1995. Vol. 5, págs. 204-208)



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 4

Lutero perante Carlos V na Dieta de Worms em 1521

NINGUÉM SERÁ JUSTIFICADO PELAS OBRAS

Pois, por obras da lei, ninguém será justificado.
(Gálatas 2:16)

Até aqui, as palavras são de Paulo que falou a Pedro. Nelas, resumiu o artigo principal da doutrina cristã, que faz verdadeiros cristãos. Agora, ele muda o discurso aos gálatas a quem escreve e conclui, dizendo: “Como a situação é essa que somos justificados pela fé em Cristo, conclui-se que, por obras da lei, não será justificada toda carne”.

“Não toda carne” é um hebraísmo que peca contra a gramática. Lemos, Gn 4[.15]: “Para que não o matasse todo aquele que o encontrasse”. Os gregos e os latinos não falam assim. “Não todo aquele” quer dizer “ninguém”. “Não toda carne” quer dizer “nenhuma carne”. Mas, em latim, “não toda carne” significa “alguma carne”. O Espírito Santo, todavia, não observa tal rigor da gramática.

Carne, contudo, não significa, me Paulo, aqueles pecados grosseiros como os sofistas supõem, pois esses, ele costuma mencionar por seus nomes explícitos, como, por exemplo, adultério, fornicação, imundícia, etc., Gl 5[.19ss]. Para Paulo, carne significa o mesmo que para Cristo, que diz em Jo 3[.6]: “O que é nascido da carne é carne”. Carne, portanto, significa toda a natureza do homem, com a razão e todas as suas forças. “Essa carne”, diz, “não é justificada por obras, nem mesmo, por obras da lei”. Não diz: “A carne não é justificada por obras contra a lei, como violência, bebedeira, etc., mas por obras feitas segundo a lei, as quais são boas”. Para Paulo, portanto, carne significa a mais alta justiça, sabedoria, culto, religião, intelecto, vontade, por maiores que sejam nesse mundo. Por isso, o monge não é justificado por sua ordem, nem o sacerdote pela missa ou pelas horas canônicas, nem o filósofo pela sabedoria, nem o teólogo pela teologia, nem o turco pelo alcorão nem o judeu por Moisés. Em suma, por mais sábios e justos que sejam os homens, segundo a razão e a lei divina, não são justificados, contudo, por suas obras, méritos, missas, por sua mais alta justiça e pela prestação de cultos.

Os papistas não creem nisso, mas, cegos endurecidos, defendem suas abominações contra a consciência e perseveram nessa sua blasfêmia e, ainda, agora, vangloriam-se com estas palavras: “Quem faz essa e aquela obra merece a remissão dos pecados; prometemos, com certeza, a vida eterna a quem serve a essa ou àquela santa ordem”. É uma blasfêmia indizível e horrível atribuir às doutrinas dos demônios, aos estatutos e regras dos homens, às ímpias tradições do papa e às obras dos monges aquilo que Paulo, o apóstolo de Cristo, recusa a atribuir à lei divina e às suas obras. Se ninguém é justificado por obras da lei divina, segundo o testemunho do apóstolo, muito menos, alguém será justificado pelas regras de Benedito, de Francisco, etc., em que não se encontra nenhuma sílaba a respeito da fé em Cristo, mas, apenas, insiste-se nisto: “Quem observa essas coisas, tem a vida eterna”.

Por isso, sempre me admirei muito que, por tantos séculos, em que perduravam essas seitas da perdição, a Igreja pôde subsistir em meio a tantas trevas e erros. Houve alguns que deus chamou, simplesmente, pelo texto do Evangelho, que permanecia em seus sermões, e pelo Batismo. Esses andavam perante deus na simplicidade e humildade do coração, pensando que, somente, os monges e os que foram ordenados pelos bispos fossem santos e religiosos, mas eles, profanos e seculares que, de forma alguma, poderiam ser comparados com aqueles. Não encontrando eles em si mesmos, nem boas obras, nem méritos que pudessem contrapor à ira e ao juízo de Deus, refugiaram-se na paixão e morte de Cristo e, nessa simplicidade, foram salvos.

Horrível, porém, e infinita é a ira de Deus que, através de tantos séculos, puniu a ingratidão e o desprezo do Evangelho e de Cristo nos papistas, entregando-os a uma mente reprovável. Negando totalmente a Cristo no que diz respeito à necessidade dele e blasfemando-o, acolheram, no lugar do Evangelho, as abominações das regras e tradições humanas as quais, unicamente, veneraram e preferiram à Palavra de Deus até que, finalmente, foi-lhes proibido o matrimônio e foram forçados àquele celibato incestuoso. Então, também, foram poluídos, exteriormente, com toda a sorte de escândalos, adultério, devassidão, impureza, sodomia, etc. Esse era o fruto daquele celibato impuro. Assim, Deus, com justiça, entregou-os, interiormente, a uma mente reprovável e, exteriormente, permitiu que caíssem em tantos crimes, pois blasfemaram o unigênito Filho de Deus no qual o Pai quer ser glorificado, a quem entregou à morte, a fim de que os que nele creem fossem salvos por intermédio dele e não, pelas ordens deles. “Aos que me honram”, diz Deus em 1 Rs 2[sc. 1 Sm 2.30], “honrarei”. Mas Deus é honrado em seu Filho, Jo 5[.23]. Quem, pois, crê que o filho de Deus é nosso Mediador e Salvador, honra o Pai e Deus, por sua vez, o honra, isto é, orna-o com seus dons: a remissão dos pecados, a justiça, o Espírito Santo e a vida eterna. Do outro lado, “os que me desprezam”, diz Deus, “serão desmerecidos” [1 Sm 2.30].

A conclusão principal, portanto, é esta: “Por causa das obras da lei, ninguém será justificado”. Dando a essa conclusão dimensões mais abrangentes e percorrendo todas as posições sociais, concluirás que um monge não será justificado por sua ordem, nem uma freira pela castidade, nem um cidadão justificado por sua honradez, nem um príncipe por sua beneficência, etc. A lei de Deus é maior que o mundo inteiro, porque abrange todos os homens e as obras da lei excedem, extremamente, às obras seletivas dos homens de justiça própria. No entanto, diz Paulo, que nem a lei nem as obras da lei justificam. Uma vez estabelecida a proposição, o apóstolo começa, agora, a confirma-la com argumentos. E o primeiro argumento é, por assim dizer o oposto da conclusão.

(LUTERO, Martinho. Comentário à Epístola aos Gálatas, 1531. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2008, Vol. 10, pág. 147-149)



sábado, 11 de março de 2017

Falta de padres na Amazônia faz papa cogitar a ordenação de casados


A matéria curiosa foi publicada no Estadão de 09/10/17:

Papa admite estudar ordenação de homens casados

Em entrevista a um jornal alemão, o pontífice disse que mudança não seria solução para falta de padres na Igreja, mas se colocou aberto ao tema

O papa Francisco disse em uma entrevista ao jornal alemão Die Zeit, publicada nesta quinta-feira, 9, que a Igreja Católica deveria estudar se é possível ordenar os “viri probati”, homens casados de fé comprovada. Na longa entrevista, Francisco destaca que acabar com a regra do celibato não é a resposta para a falta de padres na Igreja Católica, mas expressou uma abertura a estudar se os “viri probati” poderiam ser ordenados.

“Também devemos determinar quais seriam suas funções, por exemplo, em localidades remotas”, destacou o papa Francisco.

De acordo com os jornais alemães, integrantes da Igreja acreditam que, diante da falta de párocos em vários países, seria necessário abrir uma nova via: juntamente com os sacerdotes, que fazem voto de celibato em sua ordenação, seria recomendável ordenar os “viri probati”, homens casados que tenham tempo e possam demonstrar um compromisso duradouro com a Igreja.

Em várias ocasiões, pontífices já haviam afirmado que a proibição de ordenar homens casados não era um ponto de doutrina irreversível. Antes de Francisco, o papa Bento XVI afirmou que isso não constituía um dogma, como, por exemplo, a fé na ressurreição de Jesus Cristo.

Ainda de acordo com a publicação alemã, o cardeal dom Claudio Hummes, um amigo de longa data do papa Francisco, tem pressionado para permitir a ordenação de “viri probati” na região da Amazônia, onde a Igreja tem cerca de um padre para cada 10 mil católicos. O Estado não conseguiu nesta quinta falar com o religioso a respeito.

Francisco ainda destacou que momentos de crise de fé podem ser oportunidades para crescer e, ele mesmo, já passou por “vazios”. “Na vida humana acontece assim. O crescimento biológico sempre é uma crise, não? A crise de uma criança que se torna adulta. Com a fé é o mesmo. A crise faz parte da vida de fé. Uma fé que não entra em crise para crescer, permanece infantil.”

Ataques. Na mesma entrevista, o pontífice afirmou que não perde a paz por causa das críticas internas que possa vir a receber. Recentemente, ele foi alvo de panfletos apócrifos em Roma, supostamente ligados a pessoas da Igreja que não comungam de suas posições, consideradas progressistas. Com bom humor, que afirma sempre procurar manter no dia a dia, chegou a destacar que o manifesto contrário é “belíssimo” e bem escrito.

“Sobre isto eu farei uma confissão sincera”, disse Francisco. “Desde o momento que fui eleito papa não perdi a paz. Entendo que meu modo de agir não agrada a alguns, também justifico isto: existem tantos modos de pensar; é também lícito, é também humano e também uma riqueza.” / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Papa João Paulo II teve relação "intensa" com filósofa

Já no fim da vida, João Paulo II recebeu Anna-Teresa Tymieniecka no Vaticano

A matéria é da BBC Brasil:

Correspondência revela relação ‘intensa’ de João Paulo 2º com filósofa

Centenas de cartas e fotos contam a história de uma relação próxima entre o papa João Paulo 2º e uma mulher casada, que durou mais de 30 anos.

A BBC teve acesso a parte da correspondência trocada entre o papa e a filósofa polonesa naturalizada americana Anna-Teresa Tymieniecka, que foram mantidas em segredo por anos pela Biblioteca Nacional da Polônia.

Os documentos revelam uma face pouco conhecida do pontífice, que morreu em 2005.

Não há sugestão de que o papa tenha quebrado seu celibato.

Quando ambos se conheceram, em 1973, o então cardeal Karol Wojtyla era arcebispo de Cracóvia. Como ele, Tymieniecka era polonesa e tinha vivido a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Após a guerra ela foi estudar no exterior e veio a desenvolver carreira como filósofa nos Estados Unidos, onde se casou e teve três filhos.

Tymieniecka contatou o futuro papa sobre um livro de filosofia que ele havia escrito. Ela então viajou dos EUA até a Polônia para discutir o trabalho.

A troca de cartas começou pouco depois. As cartas do cardeal eram formais no começo, mas se tornaram mais íntimas à medida que a amizade crescia.

A dupla decidiu trabalhar em uma versão ampliada do livro do cardeal The Acting Person (Pessoa em ação, em tradução livre). Eles se encontraram por muitas vezes - às vezes com a secretária de Wojtyla presente, às vezes a sós - e se corresponderam frequentemente.

Em 1974, ele escreveu que estava relendo quatro cartas de Tymienkiecka escritas em um mês porque eram "significativas e profundamente pessoais".

No verão de 1976, o cardeal Wojtyla liderou uma delegação de bispos poloneses em um grande encontro católico nos EUA, e Anna-Teresa Tymieniecka o convidou a ficar na casa de campo da família na pequena cidade de Pomfret, em Vermont. Era o tipo de vida na natureza que o papa adorava, e as fotos feitas à época mostram o futuro papa relaxado e descontraído.

Ela aparentemente revelou sentimentos fortes pelo papa porque as cartas escritas por Wojtyla logo depois sugerem um homem lutando para definir em termos cristãos a amizade que mantinham.

Em setembro de 1976, ele escreve: "Minha querida Teresa, recebi todas as três cartas. Você escreve sobre estar arrasada, mas não consegui encontrar resposta a essas palavras."

Ele a descreve como um "presente de Deus".

"Aqui temos uma das grandes figuras públicas transcendentais do século 20, o chefe da Igreja Católica, em uma relação intensa com uma mulher casada", diz Eamon Duffy, professor de história do cristianismo na Universidade de Cambridge.

A BBC não teve acesso às cartas escritas por Tymienkiecka. Acredita-se que cópias tenham sido incluídas no arquivo da filósofa que foi vendido à Biblioteca Nacional da Polônia em 2008, seis anos após a morte dela. Mas elas não estavam lá quando a BBC consultou o arquivo. A biblioteca não confirmou a posse das cartas de Tymienkiecka.

Marsha Malinowski, uma comerciante de manuscritos raros que negociou a venda das cartas, diz acreditar que Tymienkiecka tenha se apaixonado pelo cardeal Wojtyla logo no começo do relacionamento entre os dois. "Acho que isso se reflete completamente na correspondência", afirmou à BBC.

As cartas revelam que o cardeal deu a Tymienkiecka um de seus objetos mais preciosos, um escapulário - um colar de devoção com dois quadrados pequenos, geralmente de pano.

Em uma carta de 10 de setembro de 1976, ele escreveu: "No ano passado já estava buscando uma resposta a essas palavras: 'Eu pertenço a você', e finalmente, antes de partir da Polônia, encontrei uma maneira, um escapulário. A dimensão na qual aceito e sinto você em todo lugar em todos os tipos de situações, quando você está perto e quando está distante."

Após tornar-se papa, ele escreveu: "Estou escrevendo após o evento, para que a correspondência entre nós continue. Prometo que me lembrarei de tudo nesse novo estágio da minha jornada".

O cardeal Wojtyla tinha várias amigas, entre elas Wanda Poltawska, psiquiatra com quem trocou cartas por décadas.

Mas suas mensagens a Tymienkiecka às vezes são muito mais intensas, e em alguns pontos lutavam com o sentido da relação que mantinham.

Canonização

João Paulo 2º foi diagnosticado com mal de Parkinson no começo dos anos 1990, e passou a ficar cada vez mais isolado no Vaticano. Anna-Teresa Tymieniecka o visitava com frequência, e mandava flores e fotos de sua casa em Pomfret.

Após a última visita dele à Polônia, ele escreveu: "Nosso lar comum; tantos lugares onde nos encontramos, onde tivemos conversas tão importantes para nós, onde vivenciamos a beleza da presença de Deus".

O marido de Tymienkiecka, Hendrik Houthakker, era um conhecido economista de Harvard. Após a queda do comunismo, ele aconselhou João Paulo 2º sobre a economia dos países do leste europeu, e o papa o homenageou pelos serviços prestados.

O papa João Paulo 2º morreu em 2005, depois de um pontificado de quase 27 anos. Em 2014 ele foi declarado santo.

O processo de canonização costuma ser longo e custoso, mas o de Wojtyla levou apenas nove anos.

Normalmente o Vaticano requisita todos os escritos públicos e privados quando avalia um candidato a santo, mas a BBC não conseguiu confirmar se a correspondência com Tymieniecka foi examinada.

A Congregação para as Causas dos Santos, órgão do Vaticano responsável pelas canonizações, disse que cabe aos fieis católicos decidir sobre o envio de documentos úteis aos processos.

"Todas nossas tarefas foram cumpridas", informou o órgão, em nota. "Todos os documentos privados enviados por fieis e documentos localizados em importantes arquivos foram estudados."

Para a Biblioteca Nacional da Polônia, não foi uma relação única. A instituição diz que foi apenas uma entre várias amizades próximas que o papa teve durante sua vida.



domingo, 10 de janeiro de 2016

O mundo diferente dos assexuados


Matéria publicada na BBC Brasil:

Jovem aborda tabu de viver sem desejo sexual: 'Não acho que eu esteja perdendo alguma coisa'

Robin tem 23 anos, é virgem, diz que não tem desejo sexual por nenhuma outra pessoa e que nunca beijou ninguém.

"Eu não tenho nenhum desejo sexual por ninguém. Eu nunca fiquei excitado fisicamente ou mentalmente por outro ser humano... E eu não acredito que eu esteja perdendo alguma coisa", disse ele, em entrevista à rádio 5 da BBC.

"Eu nunca me apaixonei. Eu amo minha família e eu sei como esse sentimento é".

Essa é a assexualidade, que significa não sentir atração sexual. É uma orientação sexual e não uma opção como o celibato.

"Eu me classifico como arromântico e assexuado, o que significa que eu nunca tive interesse em ter envolvimento emocional com alguém. Eu nunca senti isso por alguém. Pode acontecer algum dia, eu não descarto isso".

A comunidade de assexuais tem crescido nos últimos 10 anos, com a criação de fóruns e grupos na internet. Mas pesquisas e dados são limitados e é difícil estimar quantas pessoas no mundo se consideram assexuais.

Ainda não se sabe, por exemplo, se a assexualidade é alguma coisa que dura por toda a vida ou apenas por um período.

No Reino Unido, estima-se que 1% da população se identifique assim, disse Matt Dawson, professor de Sociologia da Universidade de Glasgow.

Ele integrou um grupo que entrevistou, por dois anos, 50 pessoas assexuais sobre suas experiências. Para muitos, sexo e romance são duas coisas distintas: alguns têm relacionamentos bem próximos, outros têm relacionamentos românticos mas não sexuais.

"De forma alguma se trata de pessoas sem relacionamentos íntimos", disse ele.

Mas ainda há problemas na aceitação de assexualidade. Um estudo sugeriu que estas pessoas são vistas de forma mais negativa do que aquelas com outras orientações sexuais.

George Norman é ativista assexual e estudante da Universidade de York. Segundo ele, as pessoas "tendem a fazer conclusões" sobre as pessoas assexuais.

"Você tem reações negativas mas, em geral, especialmente entre os mais jovens, é cada vez mais positivo", disse ele.

"É importante para todo mundo entender que sexo e romance não são necessariamente a mesma coisa. Podem ser coisas distintas".

Românticos e arromânticos

Tom tem 26 anos e também é virgem. Disse que nunca se apaixonou e acredita que isso provalmente não mudará.

Ele não gosta de tocar outras pessoas e considera muitas músicas "demasiadamente românticas". Cenas de sexo em filmes são uma interrupção desnecessária do roteiro, diz.

"Eu cresci no tradicional 'você não pode fazer sexo antes do casamento'", disse ele.

Só aos 22 anos que ele descobriu sua assexualidade. "Minha família não entende e eles não querem falar sobre isso, mas alguns dos meus amigos sabem".

"Um gay só precisa mencionar o namorado e ficará óbvio que eles são gays. É mais difícil se você é assexual".

"Às vezes eu fico triste - é pior quando eu estou doente e em casa sozinho, seria legal ter alguém".

Assim como Robin, Tom também se considera um "assexuado arromântico".

O sociólogo Mark Carrigan, da Universidade de Warwick, diz que há uma diferença entre assexuados arromânticos e românticos.

"Os arromânticos não têm qualquer atração romântica, então, em muitos casos, eles não querem ser tocados, não querem nenhuma intimidade física", disse.

"Os românticos não têm atração sexual, mas têm atração romântica. Então, eles olham para alguém e não respondem sexualmente, mas querem chegar perto, descobrir um pouco mais, compartilhar coisas".

Mas Robin rebate aqueles que acreditam que ele mudaria se pudesse: "Não gostaria que fosse diferente".



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Milionário indiano doa fortuna e vira monge

A informação é da BBC Brasil:

'Rei do Plástico', milionário indiano doa fortuna e larga tudo para virar monge

Um dos homens mais ricos da Índia renunciou a sua fortuna para seguir uma vida espiritual de total austeridade.

Bhanwarlal Doshi, que criou um império do plástico avaliado em US$ 600 milhões (R$ 1,8 bilhão) pela revista Forbes, tornou-se monge do jainismo, uma das religiões mais rigorosas e tradicionais da Ásia.

O jainismo não só exige a renúncia a bens materiais, como também professa uma vida de profundo respeito à vida, em que se evita violência até contra insetos ou mesmo micróbios.

Doshi, que era casado e só usava roupas de marcas de luxo, agora será celibatário, usará somente uma túnica e caminhará descalço. As intensas atividades sociais darão lugar à meditação e quase toda a sua fortuna será doada para obras da religião.

De milionário a monge

A busca de um caminho espiritual é algo comum na Índia, mas a mudança radical na vida de Doshi para alcançar seu moksha – ou salvação – não tem precedentes, segundo Amresh Dwivedi, do serviço hindu da BBC.

Tampouco foi uma decisão tomada repentinamente, por causa de alguma crise mental ou moral que o empresário teria sofrido. Bhanwarlal Doshi, na verdade, passou décadas pensando em abandonar sua riqueza e entregar-se à espiritualidade.

Ele discutiu seus planos com sua família que, no início, rejeitou a ideia. Doshi queria receber a diksha, cerimônia de consagração, há três anos, mas seus familiares não permitiram.

Ele levou todo esse tempo para convencê-los, mas, no fim, foi iniciado como monge em uma cerimônia em três dias na cidade de Ahmedabad, no oeste da Índia.

"Estamos orgulhosos dele. A honra e o respeito que ele recebeu quando anunciou sua decisão é algo que precisamos ver para crer", disse seu filho, Rohit, ao jornal indiano Ahmedabad Mirror.

Regime rigoroso

De certo modo, Doshi imitou um dos precursores do jainismo, Majavira, um rei que viveu entre os séculos 6 e 5 a.C.

Segundo Amresh Dwivedi, do serviço hindu da BBC, Majavira era um monarca que abandonou seu reinado, atormentado pela miséria que o rodeava para dedicar-se a fazer o bem à humanidade.

Dwivedi explica que duas grandes religiões surgiram na Índia mais ou menos na mesma época: o jainismo e o budismo.

O último se estendeu até o leste, com grande aceitação na China, no Tibete, no Japão e em outros países. Mas o jainismo, por causa de seu regime mais rigoroso, não encontrou o mesmo apoio e está concentrado em uma pequena área na parte ocidental da Índia. Seu número de praticantes foi diminuindo até quase a extinção, de acordo com o jornalista da BBC.

Após a iniciação como monge, Doshi enfrentará uma vida de celibato e completa austeridade, sem nenhuma das comodidades nem elementos que consideramos indispensáveis na vida moderna, como telefone, relógio, acessórios ou roupas elaboradas.

Ele se levantará todas as manhãs às quatro da manhã para praticar o ritual da alochana, a autocrítica, que consiste em refletir sobre as atividades do dia anterior e os momentos em que ele pode ter ferido algum animal.

Extremos

A consideração por todos os seres vivos é o motivo pelo qual os seguidores do jainismo não usam sapatos – para não pisar por engano em algum pequeno invertebrado no caminho.

Alguns adeptos extremos da religião também cobrem a boca para evitar que moscas entrem nela e até para não inalar micróbios no ar.

Naturalmente, os jainistas são vegetarianos, mas eles não podem dedicar-se à agricultura por receio de matar os animais que vivem na terra.

A única profissão exercida por eles é o comércio, porque consideram que, assim, não prejudicam nada e ninguém, segundo Amresh Dwivedi.

O ex-milionário Bhanwarlal Doshi é justamente um comerciante, mas de grande porte. Ele é dono da DR International, uma das maiores produtoras de plástico da Índia.




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Católicos australianos associam pedofilia ao celibato

Australia catholic church
Artigo publicado no IHU:

Igreja católica australiana vincula o celibato a abusos sexuais


A Igreja Católica na Austrália apresentou, pela primeira vez, os votos de celibato dos sacerdotes como um fator que pode ter contribuído para abusos sexuais de menores, segundo um documento publicado hoje.

A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 12-12-2014. A tradução é do Cepat.

“O celibato obrigatório pode ter contribuído para o abuso em algumas circunstâncias”, destaca o texto do Conselho de Justiça e Cura que coordena a posição da Igreja Católica junto à comissão governamental que analisa a resposta das instituições australianas aos abusos sexuais contra menores no seio das entidades estatais, sociais e religiosas.


O documento também admite que alguns líderes religiosos aparentemente esconderam estes abusos nas ordens e nas dioceses e tentaram proteger a reputação da Igreja Católica ao invés de velar pelo bem-estar dos menores, reporta a Agência Australiana de Imprensa.

Também recomenda reformar os procedimentos para abordar as queixas das vítimas proporcionando assistência no local do enfrentamento, assim como pede abertura diante dos eventuais julgamentos em casos como esses.


O diretor executivo deste Conselho, Francis Sullivan, considerou que esta admissão pode gerar polêmica entre os líderes religiosos, mas insistiu que seu organismo atuou com independência.

Em 2012, a Igreja Católica confirmou 620 casos de abusos sexuais contra menores cometidos na Austrália por sacerdotes, desde os anos 1930, em uma revelação inédita neste país.

Também em 2012, a Polícia de Nova Gales do Sul acusou a Igreja de acobertar estes crimes, procurar silenciar as investigações e destruir provas cruciais para evitar processos judiciais.

As autoridades criaram uma comissão de investigação sobre as respostas institucionais diante dos abusos contra menores cometidos em instituições sociais, religiosas e públicas.



domingo, 3 de novembro de 2013

"Síndrome do celibato" ataca Japão

Os japoneses não pensam mais "naquilo", segundo matéria publicada no UOL:

'Síndrome do celibato': por que os jovens do Japão não fazem mais sexo?

Japoneses com menos de 40 anos de idade parecem estar perdendo o interesse nos relacionamentos convencionais. De acordo com reportagem publicada pelo jornal britânico "The Guardian", a mídia do Japão tem tratado o fenômeno como "síndrome do celibato".

Para o governo japonês, essa síndrome pode significar uma catástrofe iminente. O Japão já tem uma das menores taxas de natalidade do mundo, e a atual população de 126 milhões de pessoas --que vem diminuindo nos últimos dez anos-- pode ser reduzida em 30% até 2060, segundo projeções feitas no país.

Milhões de japoneses não estão sequer namorando, e o número de pessoas solteiras atingiu seu recorde. Uma pesquisa realizada em 2011 constatou que 61% dos homens e 49% das mulheres com idade entre 18 e 34 anos não mantinham qualquer tipo de relação romântica com outra pessoa. Outra pesquisa mostrou que um terço das pessoas com menos de 30 anos nunca havia tipo uma experiência amorosa --na vida.

Dados oficiais mostram, ainda, que o número de bebês nascidos no Japão em 2012 é o menor de que se tem registro. Além disso, com o aumento da população de idosos, as vendas de fraldas geriátricas ultrapassaram as de fraldas para bebês pela primeira vez em 2012. Para Kunio Kitamura, da Associação de Planejamento Familiar, a crise demográfica é tão grave que o Japão "pode eventualmente acabar em extinção".

Nesse cenário, surgiu, então, o profissional que trabalha como conselheiro de sexo e relacionamento, a fim de tentar curar a chamada "síndrome do celibato". Ai Aoyama, 52 --que cerca de 15 anos atrás ganhou a vida como dominatrix profisisonal-- é uma dessas conselheiras. Ela diz que, hoje, seu trabalho é muito mais desafiador.

"Recebo mais homens, mas a presença das mulheres está aumentando", disse Aoyama, que trabalha em Tóquio. "Eu uso terapias como ioga e hipnose para relaxá-los e ajudá-los a entender o modo como o corpo do ser humano real funciona", disse ela, que às vezes --por uma taxa extra-- pode ficar nua para seus clientes do sexo masculino, a fim de guiá-los fisicamente em torno da forma feminina. "Mas sem absolutamente qualquer relação sexual", afirma. Como exemplo, ela cita um cliente de 30 anos, virgem, que só fica excitado quando vê robôs femininos em games, algo semelhante àqueles da série Power Rangers.

Aoyama afirma que, além do sexo casual, vê o crescimento da procura por pornografia online e "namoradas virtuais". Ou então, opina, estão substituindo o sexo por outras formas de relaxamento e diversão.

A pressão para se conformar ao modelo de família anacrônico do Japão --marido assalariado que trabalha 20 horas por dia e mulher dona de casa-- permanece forte, e talvez essa seja uma das explicações para o fenômeno do celibato. Ironicamente, o sistema que produziu papéis conjugais segregados também criou o ambiente ideal para aqueles que querem ficar só, sem qualquer incômodo, como costumam falar. "As pessoas não sabem para onde ir. Elas vêm até mim porque pensam que, por querer algo diferente, há algo de errado com elas", conta Aoyama.

Família X Trabalho

Embora as mulheres japonesas sejam cada vez mais independentes e ambiciosas, no mundo corporativo japonês é quase impossível que a mulher consiga combinar carreira e família. Assim, as mulheres japonesas hoje encaram o casamento como o "túmulo" da carreiras conquistada --cerca de 70% das mulheres japonesas deixam seus empregos depois de seu primeiro filho, e o Fórum Econômico Mundial classifica o Japão como um dos piores países do mundo para a igualdade de gênero no trabalho.

Eri Tomita, 32, trabalha no departamento de recursos humanos de um banco francês --e adora. Fluente no idioma francês e com dois diplomas universitários, ela evita relacionamentos românticos para poder se concentrar no trabalho. "Um namorado me pediu em casamento há três anos, e eu recusei quando percebi que se preocupava mais com o meu trabalho. Depois disso, perdi o interesse em namoro." Tomita diz ainda que às vezes tem "uma noite só" com homens que conhece em bares, mas afirma que sexo não é uma prioridade para ela.

Mas esse modelo de sociedade também tem afetado os homens. Em meio à recessão e à crise dos salários, os homens têm sentido a pressão da responsabilidade de sustentar uma família. Satoru Kishino, 31, pertence a uma tribo de homens com menos de 40 anos que estão envolvidos em uma espécie de rebelião passiva contra masculinidade tradicional japonesa. Para eles, sustentar mulher e família como guerreiros é algo fora da realidade.

"É muito preocupante. Eu não ganho um salário enorme e não quero essa responsabilidade do casamento", diz Kishino, que se define como "um homem heterossexual para quem relacionamentos e sexo não são importantes".

Futuro

O Japão está oferecendo uma visão do futuro de todos nós? Muitas das mudanças constatadas lá vem ocorrendo em outros países avançados também: no outro lado urbano da Ásia, na Europa e na América as pessoas estão se casando mais tarde, taxas de natalidade têm caído e famílias de uma pessoa só estão em ascensão. No entanto, para o demógrafo Nicholas Eberstadt, é um conjunto de fatores que caba acelerando essa tendências no Japão: falta de autoridade religiosa que pregue o casamento e a família, o alto custo de vida e a precária geografia do país, localizado em zona com frequentes abalos sísmicos, o que gera sentimentos de inutilidade.

"Aos poucos, mas inexoravelmente, o Japão evolui para um tipo de sociedade cujos contornos só foram contemplados na ficção científica", escreveu Eberstadt no ano passado.

Voltando à ex-dominatrix Ai Aoyama, ela se diz determinada a educar seus clientes sobre o valor daquilo que chama de "pele a pele", "coração a coração". "Não é saudável que as pessoas sejam tão desconectados umas das outras fisicamente", diz. "Sexo com outra pessoa é uma necessidade humana que produz sensação de bem estar e ajuda as pessoas a encarar melhor a vida cotidiana."



domingo, 13 de outubro de 2013

Papa Francisco é uma caixinha de surpresas

É o que diz - com outras palavras - o historiador, teólogo e jornalista Francesco Strazzari, que também é padre de Sovizzo, na região de Vicenza, na Itália, em entrevista ao Estadão:

Choque de periferia

O contato com os pobres foi aos poucos transformando Bergoglio e suas opções, diz autor de livro sobre o papa

José Maria Mayrink

Do papa Francisco só se deve esperar surpresas, adverte Francesco Strazzari, de 69 anos, pároco da pequena Sovizzo, localizada nas montanhas vizinhas de Vicenza, no norte da Itália. Strazzari acredita que, após a criação do Conselho de Cardeais para ajudá-lo a governar a Igreja, Francisco tomará medidas radicais e inovadoras, apesar da resistência indisfarçável de parte da Cúria Romana, "a lepra do papado", como ele afirmou numa entrevista ao jornal La Repubblica, divulgada na semana passada. Funcionários eclesiásticos do Vaticano que não reconhecem o "cheiro das ovelhas" serão devolvidos às suas dioceses de origem ou às congregações religiosas.

Francisco poderá permitir o diaconato para as mulheres e a ordenação sacerdotal de homens casados. Na visão de Strazzari, no entanto, o papa não mudará a doutrina clássica da Igreja com relação ao aborto, embora olhe com compaixão a pessoa que aborta. Autor do livro Na Argentina para Conhecer o Papa Bergoglio, a ser lançado nas próximas semanas, com apresentação do brasileiro José Oscar Beozzo, o historiador, teólogo e jornalista Strazzari trabalha na revista Il Regno, de Bolonha, pela qual correu boa parte do mundo para escrever dossiês sobre Vietnã, Laos, Camboja, China, Irã, Iraque e Líbano, além de países europeus no tempo do comunismo.

Na Argentina, chegou à conclusão de que não é possível ter uma imagem objetiva de Bergoglio sem inseri-lo no contexto do peronismo, da posição da hierarquia da Igreja no tempo da ditadura militar, da crise dos jesuítas argentinos e da situação econômica dos Kirchners. "Minha avaliação é que Bergoglio foi caminhando progressivamente, amadurecendo e fortalecendo a opção por uma Igreja dos pobres e para os pobres", afirma Strazzari em entrevista ao Aliás. As periferias, de que o papa Francisco tanto fala, o transformaram.

Quais as principais marcas desses sete primeiros meses do pontificado de Francisco?

Acredito que as características principais do papa argentino podem se resumir numa palavra: estilo. Se, como dizia em 1753 o escritor francês Buffon, o estilo é o homem, pode-se captar de seu estilo quem é o papa Francisco. Ele não é filósofo nem teólogo no sentido estrito, mas um pastoralista que carrega no coração a aventura humana nas suas múltiplas periferias. É um bispo da grande Igreja que tem solicitude por todas as igrejas. É um apóstolo, segundo as cartas de Paulo a Timóteo. E é um papa que enfim rompe com os esquemas tradicionais e tradicionalistas que tinham feito do ofício petrino uma função anacrônica e incapaz de respirar a plenos pulmões.

A pregação de uma Igreja pobre para os pobres está conquistando adeptos na hierarquia?

Pela conversa que tive com pessoas próximas dele, o papa Francisco tem duas palavras-chave: Jesus Cristo e os pobres. Tudo gira em torno dessa sua preocupação, que por sinal é a opção dos jesuítas, a partir do grande e mítico Arrupe, o superior geral dos jesuítas nos anos 1980 que enfrentou não poucas dificuldades até da parte do papa João Paulo II, que lhe impôs a destituição, perturbando toda a Companhia de Jesus. E essas duas palavras-chave remetem de imediato ao povo. Basta ver sua opção: não à residência renascentista no Palácio Pontifício. Mas não somente isso.

Mas como a Cúria Romana, "a lepra do papado", vai reagir às críticas e investidas de Francisco? Os poderosos do Vaticano tentarão barrar a ação do papa?

Que parte da Cúria Roma não gosta do estilo do papa Francisco salta aos olhos de todos. As resistências estão na ordem do dia. Os ataques, às vezes dissimulados, de prelados são confiados a determinados órgãos de imprensa que, nestes últimos tempos, se tornaram mais frequentes. Talvez também porque o papa Francisco dialogue e fale a jornais leigos como o La Repubblica, no qual seu fundador, Eugenio Scalfari, ateu declarado, lhe deu o espaço de três páginas em plena crise política italiana, relegando essa, por assim dizer, a segundo plano. Que muitos na Cúria pensem estar com dos dias contados é uma coisa que se diz e se constata. Há muitos "empregados" eclesiásticos no Vaticano que não sabem o que é o cheiro das ovelhas. Serão devolvidos às dioceses de origem ou às congregações e institutos religiosos.

O Conselho de Cardeais tende a ser um conselho fixo?

Sim, acho que um dos projetos do papa é fazer do Conselho de Cardeais (G8) um espécie de Conselho permanente, que teve sua origem nos votos expressos dos cardeais reunidos no conclave. O papa Francisco precisa dele, neste momento, para enfrentar os muitos problemas da Igreja que se acumularam nos últimos anos. Existem outros organismos (sínodo, congregações, conselhos pontifícios, conferências episcopais) com os quais o Conselho de Cardeais deverá estar em estreito contato.

É possível prever quais serão os próximos passos desse papa tão surpreendente?

Do papa Francisco só se deve esperar surpresas. Chamamos de surpresas porque, no passado recente, estávamos habituados a certa monotonia.

Homens e mulheres divorciados que tornaram a casar poderão ter mais acolhida na Igreja e acesso aos sacramentos, particularmente à eucaristia?

Creio que o papa Francisco retomará algumas colocações de bispos, teólogos e pastoralistas que, no passado, desafiando as iras da Congregação para a Doutrina da Fé, haviam chamado atenção dos fiéis e alimentado esperanças. Refiro-me em particular ao documento dos bispos do Reno (os grandes teólogos bispos Lehmann, Kasper, Seier), que apontava um caminho corajoso, doutrinariamente correto, para enfrentar o problema. O então prefeito da Congregação, cardeal Ratzinger, estigmatizou o documento com dureza e ironia. Voltou a circular também o estudo do grande teólogo moral B. Haring, que muito sofreu da parte da Congregação romana. Estão aparecendo outras publicações que convidam a hierarquia a enfrentar o problema com carinho e misericórdia.

Pode-se esperar a ordenação de homens casados para o ministério sacerdotal?

Certamente sim. O problema está debaixo do tapete há muitos anos. Foi posto em evidência a partir dos anos 1980 por cardeais como Pellegrino, de Turim; Konig, de Viena; Alfrink, de Utrecht; Hume, de Londres; Lorscheider, de Fortaleza; Martini, de Milão. Para não falar de teólogos do calibre de Rahner, Congar, Schillebeeckx. Perdeu-se muito tempo discutindo sobre viri probati (homens tirados da comunidade para receber a ordenação presbiteral) e esquecendo-se, como observa o ex-mestre geral dos dominicanos Timothy Radcliffe, que o ponto de partida é o batismo, não a ordem sacra.

Uma maior participação da mulher na Igreja inclui a discussão da ordenação?

Com relação às sacerdotisas, muitos teólogos sérios pensam que não se trata de uma questão dogmática, mas disciplinar. Então, a exclusão (das mulheres) se baseia em elementos que não têm suporte bíblico, como, aliás, se expressou uma comissão de especialistas biblistas, nos anos 1970, da qual fazia parte o jesuíta Carlo Maria Martini. É outro o discurso para as diaconisas, a favor das quais se vão multiplicando os pedidos de reintrodução. O cardeal Kasper e parte dos bispos alemães recentemente pediram isso.

Haverá avanços com relação aos ortodoxos e evangélicos? Até que ponto?

Esperamos que o papa Francisco incentive o movimento ecumênico, que está vivendo um tempo de hibernação. Ele, mestre nos gestos, intervirá para encontrar-se, a dois, sobretudo com os patriarcas das Igrejas cristãs. Esperam-se e estudam-se encontros com Bartolomeu de Constantinopla e Cirilo de Moscou.

Como o papa Francisco tratará o problema do aborto?

O aborto é com certeza uma chaga. O papa Francisco não tem intenção de ir além do ensinamento da doutrina clássica da Igreja. Mas se compadece com a pessoa que aborta. Enfrenta o drama do aborto como pastor, não como jurista. O problema/drama do aborto, sobretudo em algumas partes do mundo, é uma chaga que vai além de um indivíduo, causada por culturas e situações de degradação. É esse o motivo pelo qual o aborto, enquanto tal, não está na ribalta. Não porque seja inegociável, mas porque está inserido em contextos mais amplos.

A pobreza inclui o combate à riqueza ou sinais de riqueza no Vaticano?

A pobreza da Igreja e na Igreja é um ponto-chave de Francisco. Tem dado provas disso em meio a enormes dificuldades, metendo as mãos em instituições econômico-financeiras que certamente não foram modelo de clareza. Será um trabalho duro, que em grande parte dependerá da escolha de sagazes colaboradores. A escolha do arcebispo Parolin para secretário de Estado é uma esperança.

O senhor escreveu um livro sobre Francisco chamado Na Argentina para Conhecer o Papa Bergoglio. Por que esse enfoque local?

Parti da ideia de que não se pode ter uma imagem objetiva do papa Bergoglio se ele não for inserido na história de seu país: o peronismo, as crises dos jesuítas argentinos, a posição da hierarquia argentina no tempo da ditadura, a situação econômica com os Kirchners. Minha avaliação é que, no curso de sua história, Bergoglio foi caminhando progressivamente, amadurecendo e fortalecendo a opção por uma Igreja dos pobres e com os pobres. Um pouco como Câmara (d. Hélder) no Brasil, Samuel Ruiz no México e Romero (Oscar) em El Salvador. No primeiro período da sua vida, como provincial dos jesuítas, não era assim, como aliás ele mesmo admitiu recentemente. As periferias o transformaram.





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