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sábado, 11 de novembro de 2017

Memorial do Holocausto abre suas portas amanhã em SP


A informação é do Estadão:

Memorial do Holocausto em São Paulo 
lembra dor de judeus

Museu no Bom Retiro, que abre no domingo, reflete sobre atrocidades do nazismo; entrada será gratuita

Edison Veiga

SÃO PAULO - Graças a uma cenografia carregada de simbolismos, com cores, sons e ambientações, percorrer os ambientes do novo Memorial do Holocausto, que será aberto ao público no próximo domingo, provoca emoções. A ideia, como destacam seus idealizadores, é comover. “Holocausto só houve um e vitimou 6 milhões de judeus”, pondera o professor e historiador Reuven Faingold, PhD em História e História do Povo Judeu pela Universidade Hebraica de Jerusalém e responsável pelos projetos educativos do espaço. “Mas é claro que aqui estamos falando da intolerância e da xenofobia. Para que perseguições assim não ocorram novamente.”

O Memorial do Holocausto está instalado no piso superior do Memorial da Imigração Judaica, museu que funciona desde 2016 em endereço muito caro à história dos judeus paulistanos: a mais antiga sinagoga paulista, a Kehilat Israel, de 1912. Logo na entrada, há a recriação do frontão típico de um campo de concentração, com a característica expressão alemã Arbeit macht frei, ou seja “o trabalho liberta”. E um detalhe. “O B está de cabeça para baixo, exatamente como o do campo de Auschwitz (na Polônia)”, pontua Faingold.

No nível inferior de um piso de vidro, logo na entrada, um homem maltrapilho está deitado com um ralo prato de comida. O visitante precisa passar por cima. Na sequência, é possível ver, em reproduções idênticas ao original, cartazes da campanha nazista de segregação.

Então vem o hall em que foi recriada a fachada de uma típica loja de comerciantes judeus na Alemanha dos anos 1930. Tudo pichado com insultos. Do outro lado da cenográfica rua, há uma pilha de livros na fogueira. “Queimavam qualquer livro que tivesse ligação com judeus. Obras de Freud, Einstein, Brecht...”, enumera o historiador.

O percurso ainda tem a réplica de uma ponta de locomotiva utilizada para transportar judeus a campos de concentração e a recriação de um alojamento, onde adultos e crianças eram amontoados. “Montar este museu era mais que uma obrigação para nós”, acredita o rabino Toive Weitman, diretor da instituição. “Queremos provocar a reflexão. Que todos saiam conscientes da importância de respeitar as diferenças.”

O espaço dedicado à memória do Holocausto foi planejado e construído nos últimos dez meses graças ao patrocínio de empresas e famílias de sobreviventes do genocídio nazista. Nem os valores nem os nomes dos doadores são divulgados.

Ao fim do percurso, o visitante nota um rosto familiar. A estudante alemã Anne Frank, cujo diário se tornou best-seller póstumo, uma das mais conhecidas vítimas do regime de Adolf Hitler (1889-1945). Em letras garrafais, há uma frase retirada de anotações: “Apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana”.

Testemunhos

Com a inauguração do memorial, a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, professora da Universidade de São Paulo (USP), pretende presentear a instituição com os dois primeiros volumes da coleção que ela vem preparando com os testemunhos dos sobreviventes do Holocausto que vieram para o Brasil. Seu projeto, o Arquivo Virtual Arqshoah, já coletou depoimentos de 300 sobreviventes. “Ainda faltam outros 100, mas precisamos de patrocínio para prosseguir em 2018. Se não conseguirmos, o projeto será uma memória interrompida.”

Maria Luiza pretende lançar, em um futuro próximo, dez volumes com todo o material. “Será a maior enciclopédia do mundo com relatos de sobreviventes.”

Serviço

Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto
Local: Rua da Graça, 160, Bom Retiro, São Paulo
Telefone: (11) 3331-4507
Entrada gratuita



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crânio de Mengele vira material didático na USP

A informação é do Estadão:

Ossos de médico do Holocausto são usados em classe de Medicina em SP

Restos mortais de Josef Mengele, que conduziu experimentos em Auschwitz, viraram objeto de pesquisa na USP

SÃO PAULO - Por mais de 30 anos, os ossos de Josef Mengele, médico alemão que conduziu experimentos em milhares de judeus em Auschwitz, ficaram esquecidos em um saco plástico azul no Instituto de Medicina Legal (IML) em São Paulo.

O doutor Daniel Romero Muñoz, que liderou a equipe responsável pela identificação dos restos de Mengele em 1985, viu uma oportunidade de dar a eles uma utilidade. Há vários meses, o diretor do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) obteve permissão para usá-los em estudos de Medicina Forense. Hoje, seus estudantes estão aprendendo a profissão estudando os ossos de Mengele e os conectando com a história de vida do homem conhecido como "Anjo da Morte".

"Os ossos serão úteis para ensinar como examinar os restos de um indivíduo e então confrontar a informação com dados de documentos relacionados àquela pessoa", disse Muñoz, recentemente, cercado de estudantes.

Mengele morreu há quase quatro décadas quando se afogou na costa do Estado de São Paulo. Ele esteve foragido por anos, escondido enquanto era procurado por conduzir experimentos em presos e por ter mandado milhares deles para a câmara de gás durante a 2ª Guerra Mundial.

"A vida de foragido de Mengele, e o mistério sobre o seu paradeiro, são parte do que faz seus ossos uma ferramenta útil de aprendizagem", disse Muñoz. "Por exemplo, examinando os restos dele, vimos que a pélvis esquerda estava fraturada", disse, acrescentando que a "informação encontrada em seu histórico militar dizia que ele tinha fraturado a pélvis em um acidente de moto em Auschwitz", o notório campo de concentração na Polônia.

Segurando o crânio de Mengele, Muñoz apontou para um pequeno buraco no lado esquerdo do osso da bochecha, que ele disse ter sido o resultado de um sinusite de longa duração. Muñoz disse que o casal alemão que recebeu Mengele no Brasil informou à polícia que ele frequentemente sofria de abscessos dentários que ele mesmo tratava com uma lâmina.

"Não me sinto bem (a respeito do uso dos ossos de Mengele para estudo)", disse Cyrla Gewertz, uma sobrevivente do holocausto de 92 anos. "Já tenho muitas memórias dolorosas dele, do que ele me fez e a outros em Auschwitz. Essas são memórias que não posso apagar da minha mente."

Depois da guerra, Cyrla, que disse ter sido internada também em outros campos de concentração como Ravensbruck e Malchow, foi para a Suécia, onde viveu por sete anos e onde conheceu e se casou com seu marido com quem veio ao Brasil em 1952.

Polonesa, Cyrla tem uma tatuagem no seu braço esquerdo a identificando como uma prisioneira de Auschwitz: A24840. Ela disse ter ficado cara a cara com Mengele em diversas ocasiões.

"(Mengele) me disse para tirar a roupa e entrar em uma caldeira com água extremamente quente", disse Cyrla em uma entrevista em seu apartamento em São Paulo. "Eu disse que a água estava muito quente e ele disse que se não fizesse o que ele mandava, me mataria. Depois, tive que entrar em uma caldeira com água congelante." Cyrla disse ter visto uma vez Mengele matando uma bebê recém-nascida jogando-a do topo da instalação do quartel. "Ele era uma pessoa má e perversa", ela disse. "Era um torturador."

Depois da guerra, diante do julgamento ao qual foram submetidos os membros de liderança do 3º Reich de Adolf Hitler, Mengele fugiu para a Argentina e morou em Buenos Aires por uma década.

Ele se mudou para o Paraguai depois que integrantes da agência israelense Mossad capturou o cabeça Adolf Eichmann, que também morava em Buenos Aires. Em 1960, ele chegou a São Paulo, onde recebeu abrigo do casal alemão Wolfram e Lisolette Bossert e de uma família de imigrantes húngaros.

Mengele, então com 67 anos, morreu enquanto nadava na praia da cidade de Bertioga em 1979. O casal Bossert o enterrou em Embu, nos arredores de São Paulo sob o falso nome de Wolfgang Gerhard. Anos depois, autoridades alemãs interceptaram uma carta enviada pelo casal à família de Mengele com a notícia da morte. Eles alertaram as autoridades brasileiras.

Em 1985, seu corpo foi exumado. Equipes da Alemanha, Israel, Estados Unidos e Brasil confirmaram que se tratava de Mengele, usando métodos incluindo a análise de testemunhos de pessoas que o conheceram no Brasil, comparando sua caligrafia em cartas apreendidas e estudando o crânio recuperado para checar se era compatível com fotos antigas.

A professora Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora que coordena o laboratório de estudos étnicos, racismo e discriminação da USP disse esperar que o aprendizado da classe chegue eventualmente além da ciência para a história e a ética. Estudantes devem também aprender "como médicos, psiquiatras e outros cientistas de relevância estavam a serviço do Reich, emprestando conhecimento para excluir grupos étnicos classificados como pertencentes a raças inferiores", disse Maria Luiza. "Uma exclusão que culminou em genocídio.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Quando o filho de um oficial nazista se converte ao judaísmo


No próximo domingo se comemora o Dia dos Pais no Brasil, e a história contada abaixo - lamentavelmente - não é festiva, pois fala da relação conturbada entre pai e filho, marcada pelas trevas do nazismo e do holocausto.

Entretanto, vale a pena ler o artigo até o final, quando Bernd Wollschlaeger fala sobre as sombras da história projetadas na morte. Um relato pesado, pungente, humano, demasiadamente humano...

A matéria - brilhante - foi publicada na Folha de S. Paulo:

Filho de oficial nazista rompe com família e se converte ao judaísmo

DEPOIMENTO A
LEDA BALBINO

O médico Bernd Wollschlaeger, 57, rompeu com a família após descobrir o papel que seu pai Arthur Wollschlaeger, um comandante de tanque condecorado pelo ditador nazista Adolf Hitler, teve na Segunda Guerra (1939-1945).

Após converter-se ao judaísmo, Wollschlaeger mudou-se em 1987 para Israel, onde adquiriu a cidadania israelense e serviu por dois anos no Exército como oficial médico. Um dos protagonistas do documentário "Fantasmas do Terceiro Reich", da brasileira Claudia Sobral, Wollschlaeger vive desde 1991 na Flórida, nos EUA.

Nasci em 1958 em Bamberg, no sul da Alemanha, onde aprendi muito cedo a importância da história por estar cercado por ela. Perguntava aos meus pais sobre seu passado, sobre meus avós, mas só se limitavam a dizer que houve uma guerra.

Mas gradualmente comecei a colher duas versões diferentes. Da minha mãe, uma tcheca de etnia alemã, ouvia sobre o horror de ter sido desalojada de casa, de ter perdido tudo que lhe era caro.

Do meu pai, ouvi as histórias de glória. Comandante de tanque, ele participou dos ataques à Polônia em 1939, à França em 1940 e à União Soviética em 1941.

Um dia me mostrou a condecoração que recebeu de Hitler: a Cruz de Ferro. Assim, quando tinha 6, 7, 8 anos, meu pai era um herói de guerra e eu devia ter orgulho dele.

As dúvidas surgiram entre meus 8 e 9 anos, porque havia algo curioso na nossa residência em Bamberg.

Vivíamos de aluguel no primeiro andar de uma construção antiga. A proprietária, uma condessa com quem minha mãe me proibia de falar, morava no andar de cima.

Na parede ao lado da escada que levava ao seu apartamento, ficava o retrato de um militar também usando o quepe, a Cruz de Ferro. Meu pai referia-se a ele como "o traidor", e eu não entendia por que alguém que parecia com ele poderia ser ruim.

Até que descobri que o retratado era Claus von Stauffenberg, o coronel alemão que liderou a tentativa de assassinato contra Hitler em 20 de julho de 1944.

E foi com sua viúva, Nina Stauffenberg, que aprendi mais tarde que houve uma Alemanha de ditadura e que houve pessoas que lutaram contra o sistema.

Quando tinha 14 anos, nos ensinaram na escola que a Olimpíada de Munique, em 1972, demonstraria ao mundo uma nova Alemanha, e não a de 1936, quando Hitler usou os Jogos como propaganda nazista.

Meus pais convidaram amigos para assistir à abertura. E, quando a equipe que trazia a estrela de davi na bandeira entrou no estádio, toda o clima mudou. Meus pais pararam de falar, como se tivesse aparecido um fantasma.

Dez dias depois, essa equipe foi feita refém por terroristas palestinos. E então o curso da minha vida mudou no dia seguinte ao fracasso do resgate, quando li nos jornais a manchete "Judeus mortos novamente na Alemanha".

Na escola, tiveram de nos explicar sobre Auschwitz, a solução final, a morte de judeus como política de Estado.

Apesar de meu pai ser um cara muito durão, com quem era difícil falar por controlar a situação, confrontei-o: "Pai, o que sabe sobre o Holocausto?" Ele respondeu que isso era uma mentira, que tudo era propaganda comunista.

No curso de vários anos, o abordei para tentar extrair a verdade. E, aos poucos, me disse. Aos poucos, ela apareceu.

Em janeiro deste ano, um especialista militar me entregou uma mala do mecânico do tanque de meu pai. Ela estava cheia de rolos rasgados da Torá.

Os parentes dele relataram que, na invasão da Polônia e da Rússia, os membros do regimento do meu pai destruíram vilas judaicas, mataram todos e saquearam. E usaram os rolos da Torá para envolver os motores dos veículos e evitar que perdessem calor no inverno. Então, meu pai não apenas soube do Holocausto: ele participou dele.

Quando eu tinha 17, 18 anos, ele defendeu o Holocausto dizendo: "Foi necessário, porque alguém tinha de se livrar da sujeira".

Durante todo esse processo, quanto menos meu pai estava interessado em falar sobre o assunto, mas me interessei em aprender sobre o judaísmo. E, quanto mais me aproximei dessa família de escolha, mais me distanciei da minha de origem.

MUDANÇA ESPIRITUAL

Entre os 19 até os 26, 27 anos, passei por uma mudança espiritual. Converti-me e me tornei judeu ainda na Alemanha, e isso foi um total rompimento com minha família. Tive de partir e imigrei para Israel em 1987.

Deixei minha nacionalidade alemã para trás, me tornei israelense, deixei minha fé cristã para me tornar judeu, servi no Exército israelense. Me desconectei totalmente do meu antigo eu para manter a sanidade.

Minha jornada foi resolver meu próprio conflito, me reconciliar comigo mesmo, entender como posso ser alemão, ser filho de um pai que fez isso? E como ser eu mesmo, normal? Foi uma redenção pessoal.

Comecei essa jornada me sentindo culpado. No fim, me tornei um judeu por convicção. Não posso limpar o passado de meu pai ou desfazer o que aconteceu. Hoje não me sinto mais culpado, mas sinto que, como filho dele, sou responsável. Que tenho de carregar essa vergonha. Mas na minha vida fiz e faço tudo o que posso para contribuir para essa redenção.

Meu pai nunca foi capaz de sentir remorso. Antes de morrer, incluiu no seu último testamento que eu nunca deveria visitar sua sepultura, não deveria comparecer a seu funeral, me deserdou.

Obviamente, não fui ao seu enterro. Estava em Israel quando morreu. Mas visitei seu túmulo 20 anos depois, com meu filho.

A parte irônica é que o túmulo conjunto dos meus pais fica exatamente do lado do muro que separa o cemitério cristão, de Bamberg, do cemitério judaico. Quando você olha a partir do túmulo dos meus pais em direção a esse muro, vê do outro lado as lápides judaicas.

Olhando para aquilo, disse ao meu filho: "Essa é lição que posso te ensinar: a história sempre projetará sua sombra, mesmo na morte. Por isso é melhor lidar com ela estando vivo, saindo da sombra e aprendendo suas lições".

Meu pai nunca fez isso. Literalmente, ele repousa sob a sombra da história por toda a eternidade.



domingo, 28 de junho de 2015

Adolf Eichmann, Hannah Arendt e a banalidade do mal


Quem nos acompanha há bastante tempo já sabe que a filósofa preferida do blog é Hannah Arendt, sobre quem já publicamos vários artigos (clique aqui para lê-los).

Também já tivemos a oportunidade de resenhar seu livro "Eichmann em Jerusalém", um dos textos mais acessados por aqui.

Por isso, recomendamos para sua leitura de domingo mais uma resenha sobre este mesmo livro, que - em essência - não difere muito da que fizemos, mas ambas se complementam nos detalhes. Quem a publicou desta vez foi o IHU:

A problematização do mal no julgamento de Eichmann, segundo Hannah Arendt


“A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes”, escreve Cristiane Arendt Santos Alves, da equipe do CJCIAS/CEPAT, em síntese elaborada sobre a obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, apresentada na noite do dia 17 de junho, pelo Projeto Abrindo o Livro, nas dependências do Sindicato dos Engenheiros do Paraná, na cidade de Curitiba. 


Eis a síntese.


“Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa”. (Hannah Arendt)

No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), que envolveu setenta e duas nações divididas entre os Aliados e o Eixo, muitos fatos relevantes transformaram a história da humanidade. Tratou-se de uma guerra marcada por fortes ataques aos civis como forma de demonstração de poder, como os ataques com bombas de fósforo, napalm, a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, e o holocausto que atingiu o povo judeu. Muitos destes ataques aos civis tinham o objetivo de destruir as forças dos países inimigos. Porém, o genocídio que acometeu o povo judeu não tinha nenhuma destas intenções. Ele não anexaria novas terras a nenhum país, não neutralizaria o poderio de fogo de nenhum dos inimigos e mesmo assim foi executado pelos países ligados ao Eixo, coordenados pelo governo alemão com extrema dedicação.

O livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, oferece um relato sobre as condições em que se deu a prisão e os julgamentos de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista), que foi responsável pela logística de transportes para a implementação da Solução Final, e as possíveis análises dos resultados deste julgamento.

O livro é uma edição revisada e ampliada a partir da cobertura do processo de Eichmann em Jerusalém, para a revista New Yorker, na qual o relato foi publicado nos meses de fevereiro e março de 1963. Nele Arendt inicia seus relatos a partir do cenário montado em Israel para a realização do julgamento de Adolf Otto Eichmann, desde sua captura em um subúrbio de Buenos Aires, na Argentina, e os métodos nada convencionais utilizados pelo Mossad, o serviço secreto do governo de Israel, que o raptou em 11 de maio de 1960. O julgamento teve início em 11 de abril de 1961, na Corte Distrital, e foi encerrado no dia 29 de maio de 1962, com a leitura da sentença da Corte de Apelação.

A obra é um extenso relato, que descreve o tribunal, com Eichmann em uma cela de vidro, gripado, e os atores envolvidos (juízes, promotores, o advogado de defesa, etc.). Sobre o acusado, faz um denso relato de suas características pessoais, seu comportamento, suas tentativas de ascensão profissional dentro e fora do Partido Nacional Socialista e da SS, demonstrando a forma como ele chegou ao seu cargo no departamento de emigração e transportes, suas tentativas de resolver a questão judaica, através da expulsão deles da Alemanha, e a busca de terras para fundação de um país judeu, onde sonhava em ter um bom cargo.

Em setembro de 1939, com a eclosão da guerra, o governo nazista revela suas reais intenções em relação ao povo judeu. Assim, inicia-se a descrição do envolvimento de Eichmann em cada etapa deste processo.

Fato sobressaliente ocorre em janeiro de 1942, quando a cúpula do partido e os mais altos funcionários públicos alemães se reúnem na Conferência de Wannsee e são acertados os detalhes para viabilizar a Solução Final, que buscava tornar a Europa livre de judeus – judenrein – através dos assassinatos em massa. Os líderes nazistas esperavam receber muitas críticas e acreditavam que precisariam convencer os ministros e funcionários públicos de alto escalão para contribuírem com o plano, mas ocorreu o contrário. Eles aceitaram com muito entusiasmo a ideia, chegando inclusive a disputar entre si as responsabilidades para a execução da Solução Final.

Outro ponto destacado pela autora foi o envolvimento dos Conselhos Judaicos na execução da Solução Final, o capítulo mais sombrio de toda a história. Como os líderes judeus participaram ativamente da destruição de seu povo? Como eles foram levados a tomar atitudes que levaram ao assassinato de 1,1 milhão de judeus? Segundo R. Pendorf (professor da Universidade de Al-Aqsa), citado no livro, “sem a cooperação das vítimas dificilmente uns poucos milhares de burocratas teriam conseguido liquidar centenas de milhares de pessoas”.

Durante o interrogatório da polícia, apresentado no tribunal, Eichamnn declarou que tinha vivido toda a sua vida segundo os princípios morais de Kant, o princípio de que minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais. Sua defesa alegou que ele simplesmente seguiu ordens de seus superiores, que advinham de Atos de Estado, pelos quais Eichmann não poderia ser responsabilizado. Mas a sequência do julgamento buscou provar o seu envolvimento em cada um dos passos dados para a execução da Solução Final, em cada um dos países envolvidos, com provas documentais e testemunhais. Apontou para o seu conhecimento a respeito da logística de funcionamento dos Centros de Extermínio no Leste, as visitas que realizou a estes locais e suas reações.

Certamente, houve muitos exageros por parte da acusação, ao ponto de colocar Eichmann acima de Heinrich Himmler (comandante militar da SS) e como inspirador de Adolf Hitler, sendo que os documentos mostravam que ele não tinha quase nada a ver com o que acontecia no leste. Sua responsabilidade era providenciar o transporte dos judeus para os campos de trabalhos forçados ou extermínio. Mesmo assim ele não escapou da pena capital.

A defesa de Eichmann teve muitas dificuldades. As provas documentais eram escassas e as testemunhas de defesa não podiam vir a Israel, uma vez que seriam presas, não contavam com auxiliares de defesa como os de acusação. Eichmann foi o auxiliar de seu advogado. Foi acusado de 12 crimes, que demonstravam claramente que sua maior culpa era a de ter sido obediente aos seus superiores, obediência esta louvada como virtude. Segundo a defesa, só os verdadeiros líderes mereciam punição, coisa que Eichmann não era com sua “obediência cadavérica”. Apesar disso, em 15 de dezembro de 1961, a Corte Distrital pronunciou sua sentença de morte. Em março de 1962, iniciam-se os trabalhos na Corte de Apelação, ainda mais visceral que a Corte Distrital, aceitando todas as alegações de que Eichmann nunca recebera ordens superiores. Todas as ordens tomadas provinham de seu julgamento pessoal quanto às questões judaicas. E, em 29 de maio, a Corte de Apelação também pronuncia sua sentença: a pena capital. No mesmo dia o presidente de Israel, Itzak Ben-Zvi, recebe seu pedido de clemência, que é negado. Então, pouco antes da meia-noite, do dia 31 de maio, foi enforcado, cremado e suas cinzas jogadas no Mediterrâneo, fora das águas israelenses.

O livro nos traz uma série de questionamentos em relação à legalidade do julgamento de Jerusalém, as irregularidades e anormalidades que nele ocorreram e acabaram por tornar pequenos os problemas morais, políticos e legais que o julgamento tinha como meta inicial, apresentando o questionamento fundamental: será que o julgamento atingiu o objetivo de fazer justiça? Será que podemos julgar um indivíduo com base em leis retroativas no tribunal dos vitoriosos? Será que o resultado seria diferente se os países do Eixo tivessem vencido a guerra? O rapto foi justificado? Será que uma lei que versa exclusivamente sobre crimes de guerra seria adequada para este caso? As perguntas ainda hoje não foram todas respondidas, ou ainda, as respostas não estão todas certas e nem erradas. Porém, o que diferenciou o julgamento de Jerusalém foi a oportunidade do povo judeu em se defender. Sob certo ponto de vista a justiça foi feita, Eichmann foi acusado, defendido, julgado e punido. Mesmo assim, a humanidade se viu diante de vários novos problemas: o julgamento de Eichmann foi legal? Que castigo seria suficiente para impedir a perpetração de crimes como o genocídio?

A definição de crimes contra a humanidade elaborada em Nuremberg, como atos desprovidos de humanidade, revelou a realidade de que a Solução Final foi um crime sem precedentes, realizada sem nenhum propósito de ganhos de qualquer espécie. Foi uma tentativa de dizimar uma população inteira, realizada por pessoas assustadoramente normais, com uma intenção absolutamente indefinida, em uma conjuntura em que era praticamente impossível distinguir entre o certo e o errado. Nesse contexto, qualquer um poderia estar no lugar de Eichmann, um aluno mediano, em um cargo mediano, querendo se destacar e ser promovido, desempenhando muito bem o seu papel segundo o que era esperado dele e de acordo com a lei vigente, o que de forma alguma o isentaria da sua parcela de culpa. Muito pelo contrário, em se tratando de assuntos políticos, o apoio e a obediência se equivalem.

Mas em todo o caso, o mais inesperado desfecho foi a reação à questão levantada pelo promotor israelense – se o povo judeu podia ou deveria ter se defendido –, uma questão tola e cruel, que acarretou as mais diversas e incríveis reações. Uma delas foram as teorias de “desejo de morte”, das quais a autora foi acusada de deduzir com a elaboração desta obra, na qual, segundo críticos, Arendt conclui que os judeus mataram a si mesmos. Tal interpretação distorce e deturpa a real intenção da obra, que era a de ser um tratado teórico sobre a natureza do mal, de como um homem que não era nenhum gênio, mas um homem comum, focado em obter progressos pessoais, nunca percebeu o que estava fazendo. “Ele não era burro”, simplesmente não refletiu sobre seus atos, e isto é banal, esse distanciamento da realidade, esse desapego moral, isso foi o que se aprendeu em Jerusalém, e isto foi uma lição, não uma explicação, nem uma teoria. A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes.

O genocídio não era sem precedentes. A história está cheia de exemplos, mas aceitá-lo como algo banal, que simplesmente acontece, abriria precedentes para outros tipos de “limpezas étnico-raciais”. Pois, se na Alemanha da Segunda Guerra se escolheu dizimar uma população por se se tratar de doentes mentais, inválidos, deficientes, homossexuais, ciganos ou judeus, qual seria a próxima motivação? E com relação à desculpa do acusado ter agido como um simples funcionário, isto também não se aplica, pois equivaleria ao criminoso que justifica seus atos nas estatísticas sobre crimes – se eu não o fizesse outro o faria. A justificativa de Ato de Estado também não se aplica, pois um Estado soberano não pode julgar atos de outro Estado soberano, e segundo esta alegação nem mesmo Hitler poderia ter sido acusado, pois esta soberania pressupõe que o Estado está acima das regras às quais os cidadãos estão sujeitos, uma vez que para manter a ordem e o poder, o Estado pode tomar medidas de emergência.

Eichmann agiu dentro dos limites do discernimento dele, sempre guiado por ordens superiores e incapaz de diferenciar o certo do errado, no contexto em que estava inserido. Porém, o que se espera em termos de humanidade é justamente esta característica, de conseguir diferenciar o certo do errado mesmo quando tudo à sua volta lhe diz o contrário.

Com base em tudo o que o livro apresenta, o que fica mais evidente foi a questão levantada pelo promotor Gideon Hausner no questionamento realizado por ele durante o interrogatório das testemunhas: o povo judeu pôde se defender? Por que não se defendeu? E o mesmo aconteceu no julgamento de Eichmann: ele pôde se defender? O povo judeu pela primeira vez pôde levar a julgamento o seu algoz, mas de que forma? As críticas ao governo israelense em relação ao andamento e à conclusão do julgamento foram muitas, assim como as críticas à obra de Arendt. O julgamento estava sendo usado pelas autoridades israelenses para unir a população judia do mundo e consolidar a criação de Israel. Muitas testemunhas puderam, finalmente, falar abertamente dos horrores sofridos nos campos de concentração.

Mas o mal que se esperava encontrar em Eichmann, um mal absoluto, de um conspirador da destruição de um povo, de um facínora nazista, esse mal não foi encontrado. Ele era um burocrata por excelência, preso às suas pequenas atividades, que não refletiu sobre os seus atos, que não teve a capacidade de avaliar as leis e ordens que lhe eram dadas dentro de um contexto humanitário. Aí está a banalidade do mal, na realização de ordens sem se pesar as conseqüências de seus atos, em se tornar mera engrenagem, só mais um, seguindo um curso que nos distancia da nossa humanidade, da nossa capacidade de pensar, valorizando apenas a nossa obediência cega. E quantas vezes essa obediência é tão valorizada como virtude? Para Eichmann, ela foi a razão da pena capital.



terça-feira, 28 de abril de 2015

A difícil reconciliação entre turcos e armênios

No último dia 24 de abril, publicamos aqui um artigo sobre o centenário do genocídio armênio. O jornal britânico The Independent trouxe naquele dia, também, um excelente artigo de Robert Fisk que traça um panorama histórico detalhado do conflito e aponta a estreita porta que ainda pode ser aberta para uma reconciliação entre turcos e armênios.

O artigo foi traduzido e publicado no Carta Maior:

Genocídio Armênio: Os perigos da negação

Me lembro de uma senhora armênia descrevendo como militares turcos ateavam fogo a pilhas de bebês vivos. Até quando a Turquia negará o genocídio?

Às sete da noite desta sexta-feira, um grupo de homens e mulheres muito valentes se reuniu na Praça Taksim, no centro de Istambul, para organizar uma comemoração sem precedentes, e ademais comovedora. Homens e mulheres, turcos e armênios, se reuniram para recordar os mais de 1,5 milhão de cristãos armênios, homens, mulheres e crianças, assassinados pelos turcos otomanos no genocídio de 1915. Esse Holocausto armênio – o precursor direto do Holocausto judeu – começou há cem anos atrás, a poucos metros dessa mesma Praça Taksim, quando o governo da época sequestrou centenas de intelectuais e escritores armênios de suas casas e os preparou para a morte e a aniquilação de seu povo.

O Papa também irritou os turcos otomanos, ao classificar este – o mais terrível massacre da Primeira Guerra Mundial – como um ato de maldade, e um genocídio, por que isso era: uma deliberada e planejada operação para erradicar uma etnia. O governo turco – mas, graças a Deus, não todos os turcos – se mantiveram negando esse capítulo da história através dos tempos, de forma petulante e infantil, baseados na versão de que os armênios não foram mortos segundo um plano (a antiga desculpa de que “havia caos devido à guerra e não se podia ter controle sobre as consequências”), e que a palavra “genocídio” foi concebida somente depois da Segunda Guerra Mundial, e que aplicá-la sobre um caso anterior seria inadequado. Seguindo essa lógica, a Primeira Guerra Mundial não deveria ser a Primeira Guerra Mundial, já que não foi chamada de “Primeira Guerra Mundial” naquele momento.

Dois pensamentos vêm à mente, então, neste centenário da carnificina, da violação massiva e dos assassinatos de crianças em 1915. O primeiro é que, para um poderoso governo, de uma forte – e valente – nação europeia e da OTAN, como é a Turquia, continuar negando a verdade desta massiva crueldade humana significa que vale a pena insistir numa mentira criminosa. Contudo, mais de 100 mil turcos descobriram que têm avós armênias, ou bisavós – as mesmas mulheres sequestradas, escravizadas e estupradas nas marchas da morte, que partiram de Anatólia até o deserto da Síria – e os próprios historiadores turcos (desgraçadamente, não em quantidade suficiente) agora apresentam as provas documentadas detalhada das sinistras ordens de extermínio emitidas por Talat Pasha desde a capital antes conhecida como Constantinopla.

Entretanto, qualquer um que se oponha à negação do genocídio por parte do governo termina sendo vilipendiado. Durante quase um quarto de século, venho recebendo cartas de turcos sobre minhas opiniões a respeito do genocídio. Comecei em 1992, cavando com minhas próprias mãos os ossos e crânios de armênios massacrados fora do deserto da Síria. Alguns poucos correspondentes queriam expressar seu apoio. A maioria das cartas eram quase malignas. E temo que a contínua negação do governo turco poderia ser tão perigosa para a Turquia, como é a indignação dos descendentes armênios das vítimas. Me lembro de uma senhora armênia, bastante velha, descrevendo para mim como ela viu os militares turcos fazendo pilhas de bebês vivos para depois atear fogo sobre eles, e que os gritos que se escutavam depois eram como o som de suas almas indo ao céu. Não é exatamente isso – além da escravidão das mulheres – o que o Estado Islâmico (EI) está cometendo hoje contra seus inimigos étnicos, exatamente do outro lado da fronteira turca? A negação está cheia de perigos.

E nos podemos perguntar o que aconteceria se o atual governo alemão afirmasse que qualquer demanda para reconhecer os “eventos” de 1939-1945 – nos quais seis milhões de judeus foram assassinados – como um genocídio se tratava somente de “propaganda judia” e “mutilação da história e da lei”. Porém, isso é mais ou menos o que o governo turco disse na semana passada, quando a União Europeia pediu que o país reconhecesse o genocídio armênio. Para o Ministério de Relações Exteriores turco, a UE havia sucumbido à “propaganda armênia” sobre os “eventos” de 1915, e acabou “mutilando a história e a lei”. Se a Alemanha houvesse adotado tais imperdoáveis palavras sobre o Holocausto judeu, seriam tantos gases saindo dos escapamentos dos veículos diplomáticos em Berlim que não permitiria que as autoridades do país pudessem ver a debandada dos embaixadores de todos os países do mundo.

Porém, a pequena e valente comemoração desta sexta-feira na Praça Taksim é um sinal para a grande parte do mundo ocidental que se reunirá com os líderes turcos a poucos quilômetros de Istambul para honrar os mortos de Gallipoli, a extraordinária e brilhante vitória de Mustafá Kemal sobre os aliados, em 1915, na Primeira Guerra Mundial. Quantos deles recordarão que, entre os heróis turcos lutando pela Turquia em Gallipoli, havia um certo capitão armênio, Torossian, cuja própria irmã seria uma das vítimas do genocídio?

Minha intenção era a de informar sobre a comemoração em Taksim em companhia de amigos turcos. Mas o segundo pensamento que me vem à mente –e os amigos armênios que me perdoem – é que não estou muito interessado no que os armênios dizem e fazem neste centésimo aniversário. Quero saber o que pensam em fazer no dia seguinte ao do centésimo aniversário. Os sobreviventes armênios – os que puderam recordar – já estão todos mortos. Em 30 anos mais, os judeus de todo o mundo vão a encarar essa mesma profunda tristeza, quando seus últimos sobreviventes desapareçam do mundo, junto com seus testemunhos. Mas os mortos podem continuar vivendo, sobretudo quando seu estado de vítima é negado – uma maldição que os obriga a morrer uma e outra vez. Minha sugestão é que os armênios deveriam, agora, elaborar uma lista dos valentes turcos que salvaram suas vidas durante a perseguição de seu povo. Há pelo menos um governador de província, e alguns soldados e policiais turcos, que arriscaram suas próprias vidas para salvar os armênios naquele momento horrível da história turca. Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro triunfalista da Turquia, falou de sua dor pelo que aconteceu com os armênios, sem deixar de negar o genocídio. Se atreveria a negar o respaldo a um livro de homenagem às vítimas do genocídio armênio que trouxesse também uma lista dos valentes turcos que tentaram salvar a honra de sua nação em sua hora mais obscura?

Venho insistindo há anos sobre essa ideia com meus amigos armênios. Propus também aos armênios da comunidade em Detroit, na semana passada. Honrar os bons turcos. Infelizmente, todos aplaudem, mas não dizem nada.

* Jornalista e escritor britânico com sede em Beirute, premiado várias vezes por seu trabalho sobre o Oriente Médio. É um dos poucos repórteres ocidentais que fala árabe fluentemente. The Independent do Reino Unido. Especial para Página/12 da Argentina, 23.04.15.



sexta-feira, 24 de abril de 2015

100 anos depois do genocídio armênio

O Império Otomano foi a potência muçulmana que dominou por muitos séculos boa parte do Oriente Médio, da África do Norte, da Ásia Menor e do Leste Europeu.

Era contra os otomanos que as Cruzadas se batiam naquilo que chamavam de libertação de Jerusalém dos não-cristãos, entre os séculos XI e XIII.

Responsáveis pela queda de Constantinopla em 1453, os otomanos conquistaram o antigo (e cristão) Império Bizantino e faltou pouco para que islamizassem todo o continente europeu, cujos reinos cristãos se uniram e venceram a batalha de Lepanto em 1571, o que impediu a expansão islâmica para o Ocidente.

No início do século XX, o Império Otomano havia perdido muito de sua antiga glória e poder, mas mesmo assim era fundamental no jogo geopolítico da época, pois ainda dominava vastas regiões do Oriente Médio e Ásia Menor.

Entre essas regiões estava a Armênia, a primeira nação que se declarou oficialmente cristã (dentro do que se podia entender como "religião oficial" na época) no ano de 301 d. C.

Encravados que estavam entre russos e otomanos, a identidade armênia foi forjada na fricção entre as duas potências e construída, em enorme parte, com seus fundamentos cristãos, o que não impediu que boa parte do seu território fosse tomado pelo Império islâmico no século XVI.

A convivência entre cristãos e muçulmanos nunca foi fácil, até que - no início da Primeira Guerra Mundial - os armênios se aliaram aos russos para combater o Império Otomano, que havia entrado no conflito ao lado da Alemanha e do Império Austro-Húngaro.

Na noite de 24 de abril de 1915, um domingo, o governo otomano prendeu e executou cerca de 600 líderes e intelectuais armênios, e por isso esta data é considerada como o marco inicial daquilo que ficou conhecido como o "genocídio armênio".

Embora as estatísticas continuem polêmicas, estima-se que, nos dois anos que se seguiram, cerca de 1.500.000 de armênios foram assassinados das mais diferentes maneiras, por cremação, afogamento, crucificação, fome, gás tóxico, e outras modalidades de crueldade que ficaram mais conhecidas na Segunda Guerra Mundial.

O Império Otomano estava no meio de uma guerra que ia lhe custar a própria sobrevivência como país. No dia seguinte (25 de abril de 1915) começaria a invasão britânico-francesa da península turca de Gallipoli, na qual morreriam - inútil e estupidamente - 500.000 soldados dos dois lados.

Insuflada pelo desejo armênio de independência e pelo ódio religioso, a reação otomana perpetraria em proporções assustadoras o primeiro genocídio do século XX.


Oficial turco provocando crianças armênias famintas,
fingindo oferecer-lhes pão.

A derrota no fim da Primeira Guerra marcou a ruína do Império Otomano, cuja maior parte do território foi assumida pelo país que hoje conhecemos como Turquia.

Os armênios não tiveram paz, entretanto. Após novo conflito com a nascente nação turca, que lhe abocanhou boa parte do território, a Armênia foi incorporada à União Soviética em 1922, como uma das 15 Repúblicas Socialistas que formaram a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

País que tem o Monte Ararate como símbolo nacional, o que nunca faltou na história da Armênia foram dilúvios de toda espécie, afinal.

Os turcos jamais aceitaram que se usasse a palavra "genocídio" para descrever o massacre dos armênios. Sua principal defesa é a de que se tratava de um período de guerra no qual a barbárie e a traição corriam soltas.

Embora muitos países, como o Brasil, evitem o uso dessa palavra para evitar melindres diplomáticos com a Turquia, o fato é que a maior parte da comunidade internacional e quase a totalidade dos historiadores não-turcos concordam que o holocausto que começou naquela noite de 2015 configura um genocídio.

Apenas 10 países reconhecem oficialmente o genocídio armênio: Argentina, Bélgica, Chile, Chipre, França, Canadá, Alemanha, Grécia, Itália e Lituânia. 

Como você percebeu, também Israel e Estados Unidos dão às costas ao nome "genocídio" para manter boas relações com os turcos.

Alguns dias atrás, inclusive, o papa Francisco foi severamente criticado pelo governo turco por ter utilizado o termo "genocídio" em missa concelebrada com o patriarca Karekin II, da Igreja Ortodoxa Armênia.

O pontífice romano foi incisivo em sua fala: "Não podemos nos silenciar sobre o que vimos e ouvimos".

Curiosamente, apesar do centenário que hoje tristemente se relembra, esta declaração papal foi vista como inoportuna, pois enfraquece politicamente a Turquia num momento difícil em que o seu maior inimigo é o Estado Islâmico que lhe ameaça as fronteiras com a Síria e o Iraque.

De qualquer maneira, o genocídio armênio precisa ser relembrado para que, a exemplo de tantos outros massacres que maculam a história da humanidade, jamais seja repetido.

Este risco, infelizmente, está sempre batendo à porta de um planeta ainda contaminado pelo fanatismo e pela barbárie. O horror, ah, o horror...


Mosteiro de Khor-Virap, na fronteira com a Turquia tendo o Monte Ararate ao fundo.
Desde 642 d. C., é testemunha da história da Armênia, sempre esperando dias melhores.



sábado, 7 de março de 2015

A maldade é contagiosa

Primo Levi, 1919-1987
escritor judeu italiano
que testemunhou os horrores
do holocausto
Artigo publicado no IHU:

O contágio do mal.
Artigo de Primo Levi

Nunca a consciência humana foi violentada, ofendida, distorcida como nos campos de concentração: em nenhum lugar, foi mais clamorosa a demonstração de quão tênue é cada consciência, de quão fácil é subvertê-la e submergi-la.

A opinião é do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987), sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. É autor do livro É isto um homem? (1947), memória dos seus sofrimentos no campo de concentração.

O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 21-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Pensem: há não mais do que 20 anos, e no coração desta civilizada Europa, foi sonhado um sonho demente, o de edificar um império milenar sobre milhões de cadáveres e de escravos. O verbo foi banido para as praças: pouquíssimos se recusaram e foram decepados; todos os outros consentiram, parte deles com desgosto, parte com indiferença, parte com entusiasmo. Não foi somente um sonho: o império, um efêmero império, foi edificado: os cadáveres e os escravos existiram. […]

Mas também houve mais, e pior: houve a demonstração despudorada de como o mal prevalece facilmente. Isso, notem bem, não só na Alemanha, mas onde quer que os alemães tenham posto os pés; em toda a parte, eles o demonstrado, é uma brincadeira de criança encontrar traidores e fazer deles sátrapas, corromper as consciências, criar ou restaurar aquela atmosfera de consenso ambíguo, ou de terror aberto, que era necessária para traduzir em ato os seus desígnios.

Tal foi a dominação alemã na França, na França inimiga de sempre; tal foi na livre e forte Noruega; tal foi na Ucrânia, apesar dos 20 anos de disciplina soviética; e as mesmas coisas aconteceram, conta-se com horror, dentro dos próprios guetos poloneses: até mesmo dentro dos campos de concentração. Foi uma irrupção, uma enxurrada de violência, de fraude e de servidão: nenhuma represa resistiu, salvo as ilhas esporádicas das Resistências europeias.

Nos próprios campos de concentração, eu disse. Não devemos recuar diante da verdade, não devemos indultar à retórica, se realmente queremos nos imunizar. Os campos de concentração foram, além de lugares de tormento e de morte, lugares de perdição.

Nunca a consciência humana foi violentada, ofendida, distorcida como nos campos de concentração: em nenhum lugar, foi mais clamorosa a demonstração a que nos referíamos antes, a prova de quão tênue é cada consciência, de quão fácil é subvertê-la e submergi-la.

Não admira que um filósofo, Jaspers, e um poeta, Thomas Mann, tenham renunciado a explicar o hitlerismo em chave racional e tenha falado dele, literalmente, como "dämonische Mächte", como potências demoníacas.

Nesse plano, adquirem sentido muitos detalhes, desconcertantes, da técnica concentracionária. Humilhar, degradar, reduzir o homem ao nível das suas vísceras. Por isso, a viagem nos vagões selados, propositalmente promíscuos, propositalmente desprovidos de água (não se tratava aqui de razões econômicas). Por isso, a estrela amarela sobre o peito, o corte dos cabelos, também nas mulheres. Por isso a tatuagem, o uniforme desajeitado, os sapatos que fazem tropeçar. Por isso, e de outro modo não se entenderia, a cerimônia típica, predileta, cotidiana, da marcha em passo militar dos homens-trapos diante da orquestra, uma visão grotesca mais do que trágica.

Assistiam-na, além dos chefes, as repartições da Hitlerjugend, rapazes de 14-18 anos, e é evidente quais deviam ser as suas impressões. São esses, portanto, os judeus de que nos falaram, os comunistas, os inimigos do nosso país? Mas eles não são homens, são marionetes, são feras: estão sujos, esfarrapados, não se lavam, não se defendem ao serem agredidos, não se rebelam; não pensam senão em encher a pança. É justo fazê-los trabalhar até a morte, é justo matá-los. É ridículo compará-los a nós, aplicar a eles as nossas leis.

Chegava-se ao mesmo escopo de aviltamento, de degradação por outro caminho. Os funcionários do campo de Auschwitz, mesmo os mais altos, eram prisioneiros: muitos eram judeus. Não se deve acreditar que isso mitigasse as condições do campo: ao contrário. Era uma seleção ao revés: eram escolhidos os mais vis, os mais violentos, os piores, e lhes eram concedidos todo poder, alimentos, vestes, isenção do trabalho, isenção da própria morte em gás, contanto que colaborasse.

Colaboravam: e eis que o comandante Höss pode se livrar de todo remorso, pode levantar a mão e dizer "está limpa": não somos mais sujos do que vocês, os nossos próprios escravos trabalharam conosco. Releiam a terrível página do diário de Höss em que se fala do Sonderkommando, da equipe designada para as câmaras de gás e para o crematório, e vocês entenderão o que é o contágio do mal.



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Reedição de "Mein Kampf" de Hitler assusta alemães


"Mein Kampf" ("Minha Luta" em alemão) é o livro maldito escrito por Adolf Hitler entre 1924 e 1925, em que ele delineia os princípios básicos do nazismo, alguns anos antes de chegar ao poder (em janeiro de 1933) e levar o mundo a outra guerra generalizada que ceifou cerca de 50 milhões de vidas entre 1939 e 1945.

O livro continua proibido na Alemanha, mas só até 1915, quando passa a ser de domínio público, o que provoca desde já reações dentro do país para que a obra de Hitler siga proibida por lá.

AS matérias abaixo foram publicadas no Estadão de 30/03/14, nos links indicados:


MARIA LUIZA TUCCI CARNEIRO

A recente notícia de que Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, poderá ser reeditada em uma versão comentada pelo Instituto de História Contemporânea de Munique (Alemanha) tem gerado polêmica nos meios midiáticos. Ao mesmo tempo, tem criado apreensão entre aqueles que defendem a liberdade de expressão e lutam contra a proliferação do racismo no mundo contemporâneo. É natural e compreensível que tal anúncio repercuta negativamente nas comunidades judaicas, que durante o Holocausto foram as principais vítimas do programa de extermínio nazista e, ainda hoje, são foco da intolerância em vários países da Europa e Américas.

O fato de os direitos autorais de Mein Kampf - publicado em 18 de julho de 1925 - expirarem em 2015 não quer dizer que as ideias racistas ali editadas tenham seu tempo de validade vencido. O vírus da intolerância, endossado por Hitler e colaboradores enquanto programa genocida de Estado, não encontrou ainda - apesar de todas as resoluções e comissões de direitos humanos criadas pós-Auschwitz - um antídoto capaz de extirpar o veneno do antissemitismo, que continua vivo na epiderme da sociedade globalizada. Ainda que os direitos autorais dessa "bíblia nazista" estejam protegidos pelo Ministério das Finanças da Baviera desde 1948, a internet não encontrou barreiras legais para multiplicar e vender (a preço de doação) a obra.

Assim, cai por terra a justificativa do Instituto de História Contemporânea de Munique de que uma nova edição comentada, conforme propõe, "evitaria a publicação de outras edições financiadas pela extrema direita". Pura ingenuidade. Na minha opinião, obras como Mein Kampf e a obra apócrifa Os Protocolos dos Sábios de Sião continuam a incitar ao ódio aos judeus, além de pregar a intolerância sem limites. Sobrevivem de forma camuflada, servindo para alimentar mitos políticos, sendo inseridas na categoria "propaganda e psicologia política", conforme a Amazon.com, ou como obras de "ajuda mútua", vendidas em sebos e tiendas de feiras de antiguidades e livros usados. Argumentar que a proibição da reedição de Mein Kampf infringe os direitos de liberdade de expressão ou que atenta contra a liberdade científica não tem sustentação, pois antes de mais nada devemos nos prevenir contra a reedição do ódio e a incitação às práticas genocidas. Para esses casos, excepcionalmente, a palavra "liberdade" impõe limites, pois abre oportunidades para o renascimento da "besta nazista". Alguma razão maior deve existir para que a reprodução e venda de Mein Kampf estivessem proibidas na Alemanha, que ainda hoje tenta lidar com a própria história e o número de 6 milhões de judeus exterminados durante o Holocausto.

O livro Mein Kampf , escrito em dois volumes entre 1924-1925, é certamente uma obra fundamental para compreendermos o processo de construção dos ideais do nacional-socialismo. No entanto, ainda que contextualizado cientificamente, reeditará a visão da pureza racial ariana e o ódio aos judeus que têm suas raízes nas pseudoteorias do século 19. Mein Kampf é um documento histórico e, como tal, deve estar preservado nas sessões de obras raras dos arquivos e bibliotecas de qualquer país consciente do recrudescimento do antissemitismo no mundo atual. Não deve ser leiloado como "peça de antiquário" nem vendido como "exemplar raro" pelos sebos que, a cada dia, conquistam clientes racistas camuflados de colecionadores favorecidos pelo anonimato do mundo digital.

A reedição comentada de Mein Kampf, por mais bem-intencionada que seja, sempre abrirá espaço para interpretações dúbias por parte daqueles que não estão interessados em diferenciar uma obra comentada do conteúdo racista da obra original. Ela abre uma fratura que favorece atos racistas da extrema direita e servirá de munição para os neonazistas, que, assim como seus antecessores nazistas, pouco se importam com esclarecimentos científicos. Uma nova edição de Mein Kampf não vai minimizar o antissemitismo latente, cada vez mais, no mundo globalizado de hoje.

Impossível concordar com a reedição de Mein Kampf, que, do ponto de vista da legislação brasileira, será interpretado como uma publicação que incita ao ódio aos judeus, sendo passível de penalização como "crime de racismo, inafiançável e imprescritível". Foi com base na Lei 7.716, de 25 de janeiro de 1989, que Siegfried Ellwanger Castan, proprietário da Editora Revisão e autor de várias obras que negavam o Holocausto, foi condenado pelo STF em 2003, um marco histórico na jurisprudência brasileira. A condenação veio apos várias denúncias encaminhadas, desde 1986, à Coordenadoria das Promotorias Criminais e ao Ministério Público. Manifestaram-se na ocasião o grupo Movimento Popular Anti-Racismo, formado pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos, pelo Movimento Negro Brasileiro e pela comunidade judaica de Porto Alegre. Em 1991, a Justiça ordenou a busca e apreensão dos exemplares dos livros publicados pela Editora Revisão, entre os quais: Holocausto Judeu ou Alemão? Nos Bastidores da Mentira do Século, do próprio Castan, Hitler Culpado ou Inocente?, de Sérgio Oliveira, e Os Protocolos dos Sábios de Sião, prefaciado por Gustavo Barroso, sendo essa uma "edição comemorativa" em homenagem ao principal teórico antissemita no Brasil dos anos 1930 e 40. Em São Paulo, as denúncias contra obras racistas podem ser encaminhadas à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), órgão público criado para o combate aos crimes de racismo e homofobia, preconceito e intolerância, sobretudo religiosa.

Em síntese: Mein Kampf não é uma publicação liberada no Brasil, ainda que com o selo do conceituado Instituto de História Contemporânea de Munique. Não vejo aqui conflito entre liberdade de expressão e a dignidade humana, ambos direitos constitucionalmente protegidos pela legislação brasileira. É, antes de mais nada, um direito humano universal de preservação da vida.

Dois exemplares autografados de Mein Kampf, de Adolf Hitler, foram leiloados por US$ 64 mil no dia 28 de fevereiro, em Los Angeles. Na quinta-feira, o alemão Kim Dotcom (fundador do MegaUpload) disse que adquiriu uma cópia assinada do livro como 'investimento'.





Mein Kampf (Minha Luta), escrito por Adolf Hitler, é um livro maldito. Trata-se, provavelmente, da obra mais execrada da historiografia do século 20, um dos principais símbolos do regime mais odiado desse período, senão de toda a história. Por essa razão, sua reedição, na Alemanha, estava até recentemente cercada de interdições. Temia-se, não sem razão, que a liberação de um livro tão identificado com o pensamento hitleriano pudesse disseminar ainda mais essa ideologia hedionda, alimentando o antissemitismo feroz que dele transborda. No entanto, a obra passará ao domínio público em 2015. Nessa ocasião, o respeitadíssimo Instituto de História Contemporânea de Munique, comissionado pelo governo da Baviera, pretende lançar uma edição comentada de Mein Kampf - e nem todo o provável cuidado que o instituto terá ao lidar com o texto de Hitler é suficiente para afastar o receio de que, uma vez em circulação sem nenhum tipo de censura, o livro se torne imediatamente difusor das ideias nazistas. Em razão disso, muitos defendem que Mein Kampf permaneça proibido. Trata-se de um equívoco.

O texto de Hitler é daqueles casos em que o livro é muito mais comentado do que lido. Enfadonha, mal escrita e pretensiosa, a obra chegou a ser distribuída pelo regime nazista a todo casal recém-casado na Alemanha, como um presente do Führer. No entanto, havia gente dentro do próprio regime que não havia lido o livro - Reinhard Heydrich, o executor da Solução Final, nunca ouvira falar de Mein Kampf até pelo menos 1930, quando conheceu sua futura mulher, que, nazista convicta, lhe apresentou a obra.

Tudo o que Hitler tinha a dizer, muitas vezes sem nenhum constrangimento ou desejo de esconder suas verdadeiras intenções, ele o fazia em seus discursos - e não se tem conhecimento de que esses pronunciamentos, carregados de ódio, estejam proibidos. Muito ao contrário: eles constam de qualquer dos livros mais respeitados da historiografia sobre o nazismo e integram antologias documentais, como a clássica obra de Max Domarus The Essential Hitler, que reúne todos os discursos do ditador.

Ademais, há livros e textos muito mais virulentos que Mein Kampf e que não são objeto de censura. Um bom exemplo é o diário de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler. Nele, por exemplo, encontram-se, sem subterfúgios, descrições dos judeus como se fossem animais. A propósito dos judeus que ele viu no gueto de Lódz, na Polônia, Goebbels fala da necessidade urgente de exterminá-los (vernichtet): "É indescritível. Eles não são mais seres humanos. São animais. Assim, não se trata de uma tarefa humanitária, mas cirúrgica. Do contrário, a Europa perecerá graças à peste judaica".

Textos como esse circulam livremente e estão nas melhores livrarias do mundo. Mesmo que não estivessem, mesmo que, por hipótese, todas as diatribes pronunciadas ou escritas por nazistas e seus simpatizantes fossem proibidas de uma hora para outra, o acesso a essas obras estaria garantido: basta ter um computador ligado à internet e entrar nos sites de livrarias virtuais, como iTunes e Amazon, ou em diversos sites neonazistas, inclusive com tradução para o português. Na loja do iTunes, por exemplo, duas versões do Mein Kampf apareciam em 12º e 15º lugar entre os e-books de "política e atualidades" mais vendidos em janeiro.

Por essa razão, até mesmo a Liga Antidifamação (ADL, em sua sigla em inglês), principal entidade judaica dedicada a combater o antissemitismo no mundo e que por décadas defendeu a censura ao Mein Kampf, rendeu-se às evidências de que proibir a circulação, neste caso, é simplesmente inútil. No mês passado, a ADL decidiu publicar um prefácio ao Mein Kampf para ser anexado pelos editores do livro na forma de e-book, de modo a alertar os leitores sobre a natureza do texto e seu papel na disseminação do ódio aos judeus. "Acreditamos que a única forma construtiva de publicar o livro seja com uma introdução que explique seu contexto histórico e o impacto do pensamento por trás das palavras de Hitler", diz o texto da ADL. A edição que o Instituto de História Contemporânea de Munique pretende lançar tem o mesmo objetivo.

A precaução é obviamente necessária. Mein Kampf não é um livro qualquer. É o "livro sagrado" do nazismo, como salientou Victor Klemperer, o linguista judeu que permaneceu na Alemanha durante o nazismo e descreveu em seus diários a destruição da civilização naquele país. A obra de Hitler guarda esse simbolismo e deve, portanto, ser cercada de cuidados especiais. Mas proibi-la seria privar os historiadores e outros interessados na Alemanha nazista de um texto fundamental. Trata-se de um documento de rara importância, pois lá estão delineados os projetos de extermínio dos judeus, na luta racial de vida ou morte que Hitler vislumbrou quase uma década antes de chegar ao poder.

Ademais, manter a obra indefinidamente sob censura é inútil principalmente porque os antissemitas não precisam de Mein Kampf para nutrir seu ódio aos judeus. Não é um livro que guarda o espírito do Mal.



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