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sábado, 12 de agosto de 2017

A religiosidade brasileira e sua "fé de conveniência"

Interessante análise do jornalista britânico Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil (e talvez o mais brasileiro dos ingleses), sobre a religiosidade nacional (de lá e - principalmente - de cá), não por acaso publicada na BBC Brasil, como era de se imaginar:

Tim Vickery: A religiosidade brasileira muitas vezes é fé de conveniência

Estou sozinho agora na casa da minha mãe, nos arredores de Londres, porque ela foi à igreja - ela faz parte de uma minoria da sociedade britânica, de talvez 5%, que ainda tem o hábito de ir ao culto.

E essa fatia minúscula não é de fanáticos. Uma vez, numa visita anterior, eu (que não tenho nenhum sentimento religioso) comentei que não consigo ver a ligação entre a morte de Jesus Cristo e nossos pecados.

"Estranho", respondeu a minha mãe. "O meu pastor falou exatamente a mesma coisa na semana passada."

Trata-se de uma doutrina fundamental de qualquer religião cristã, mas até um empregado da Igreja Anglicana não acredita nele. A igreja dele tem pouco a ver com religião, mais a ver com uma missão vaga de ser "um bom sujeito".

Tudo isso, claro, nada mais é do que uma consequência do recuo da fé cega a partir do Iluminismo, no século 16, e a descoberta de que a Terra gira ao redor do Sol. Por que acreditar naqueles que afirmavam o contrário?

Uma pesquisa recente aponta que somente 28% da população britânica acredita em Deus ou em qualquer poder espiritual, ante 38% totalmente sem tal fé. Me lembra bem a minha época na escola, quando uma sessão de zombaria da professora sempre começava com a pergunta "Senhora, você acredita em Deus?"

Como a situação é diferente nas Américas! Nos Estados Unidos, por volta de 60% da população vai para a igreja. E, no Brasil, não acreditar em Deus é inconcebível para muitos.

As minhas enteadas ficavam tão fascinadas com o assunto que cada vez que alguém me visitava da Inglaterra isso sempre era a primeira pergunta que tinha que traduzir.

Uma vez a resposta a respeito de religiosidade foi "Não, não tenho nenhuma tolerância para superstições medievais", frase que foi um desafio e tanto para suas mentes então pré-adolescentes.

Mas - e estou ciente de estar entrando em uma generalização vasta e vulgar - se a crença na existência de Deus é quase total no Brasil, a fé, em muitos casos, parece bastante rasa.

Quando vejo políticos corruptos dando benção para dinheiro ilegal, ou jogadores de futebol louvando depois de cavar um pênalti, fico com a sensação de que a religiosidade brasileira, com frequência, trata-se de uma fé de conveniência.

É menos um código que determina como viver a vida e mais um recurso que se pega ou se larga conforme as circunstâncias.

Pode ser que seja uma extensão da tara brasileira por parentesco fictício. A figura do pai ausente é muito importante numa terra de padrinhos, onde o personagem político de mais destaque na formação do país, Getúlio Vargas, cultivava um tipo de fascismo benigno do tio universal.

É bastante factível que vários brasileiros imaginem Deus como uma espécie de Vargas celestial, bonzinho e indulgente.

Vargas também desempenhou um papel importante no desenvolvimento da religião no Brasil, e não me refiro à aproximação com a Igreja Católica que leva à estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Muito mais importante é a urbanização do país que ele promoveu.

O interessante aqui é que, no exemplo inglês, o crescimento das cidades foi um fator significativo no declínio da religião.

No caso da minha mãe, por exemplo, ela é uma mulher do interior que cresceu com o hábito de ir à igreja e nunca o perdeu. Mas não é de hoje que as igrejas nas cidades vivem vazias - na verdade, nunca encheram. A mudança para uma vida urbana acabou cortando a prática de ir à igreja.

No Brasil, entretanto, o que mais se vê na periferia das cidades são igrejas - só que nesse caso a Igreja Católica tradicional perdeu, mas as evangélicas novas ganharam espaço.

E seu público, em grande parte, são os migrantes internos, que trocaram a vida do campo pelas oportunidades da cidade grande - e também as suas complexidades, problemas a ameaças.

Nesse ambiente novo, complexo e confuso, as igrejas evangélicas não somente oferecem o conforto espiritual da fé, mas também uma rede de apoio social.

Nesse cenário, não é somente a ausência da figura paternal que impulsionou o crescimento da religião, mas também a ausência do Estado.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.



quarta-feira, 21 de junho de 2017

Emir árabe muda nome de mesquita para "Maria Mãe de Jesus"


A informação é do portal acidigital:

Mesquita nos Emirados Árabes agora se chama Maria Mãe de Jesus

ABU DHABI, 17 Jun. 17 / 10:00 am (ACI).- As autoridades dos Emirados Árabes Unidos decidiram mudar o nome de uma de suas mesquitas, lugar de culto muçulmano, para que, de agora em diante, se chame “Maria, Mãe de Jesus”.

Segundo informa ‘Gulf News’, a mudança de nome a “Mariam Umm Eisa”, árabe para “Maria, Mãe de Jesus”, foi decidido pelo xeique Mohammad Bin Zayed Al Nahyan, príncipe de Abu Dhabi e Comandante Geral das Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos.

A poucos metros da mesquita está a igreja anglicana St. Andrew. Seu capelão, Andrew Thompson, disse a ‘Gulf News’: “Estamos muito felizes de que celebremos algo que temos em comum entre ambos os credos”.

Por sua parte, o pastor da comunidade evangélica em Abu Dhabi, Jeramie Rinne, agradeceu ao xeique Mohammad por “outro gesto de tolerância religiosa ao renomear a mesquita”.

Por outro lado, o Vigário Apostólico da Arábia do Sul, o Bispo católico Paul Hinder, também expressou sua satisfação pela mudança de nome da mesquita e disse que Maria “está de forma proeminente na Bíblia e no Corão (o livro sagrado muçulmano) e constitui um laço importante entre cristãos e islâmicos”.

Em sua opinião, esta mudança de nome da mesquita “contribuirá para a paz e o entendimento mútuo não só em nosso país, mas em toda a região”.



Emir ou amir - (termo que, em língua árabe, significa "comandante") é como se fosse um título de nobreza equivalente a príncipe, historicamente usado nas nações islâmicas do Médio Oriente e Norte de África. Originalmente, foi um título de honra atribuído aos descendentes de Maomé. Séculos depois, tornou-se utilizado em vários contextos, como por exemplo, para se referir a chefes e nobres, como no caso dos Beduínos da Arábia e do Império Otomano.
Fonte: Wikipedia


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Filhos adotados por ativista gay recebem batismo católico em Curitiba


O casal Toni Reis e David Harrad e seus filhos Alyson (esquerda), Felipe (centro) e Jéssica (direita),
ao lado do padre Élio, em batizado no domingo, 23 de abril.
Foto: David Harrad/Arquivo Pessoal

Toni Reis é dos mais importantes ativistas dos direitos GBLT no Brasil, que ficou mais conhecido ainda quando participou de um debate com Silas Malafaia por ocasião de audiência pública que discutiu o Estatuto da Família no Congresso Nacional, isso em 25/06/15.

Naquela oportunidade, o gestual hitleriano de Malafaia gerou um meme que viralizou na internet, como observamos aqui na época e você pode rever abaixo.



Toni Reis mora em Curitiba e é casado com David Harrad, com quem adotou 3 filhos que, hoje adolescentes, pediram o batismo católico.

Não deixa de ser interessante o contraste entre a atitude do bispo católico de Curitiba e aquela de Malafaia, conforme você pode ler no artigo abaixo, publicado no Estadão:

Filhos de casal gay são batizados em igreja católica de Curitiba

SARA ABDO

O arquivista da igreja disse que a questão dos pais não infringe o sacramento das crianças

Na manhã do domingo, 23, o padre Élio Dall'Agnol realizou o batizado de três adolescentes, filhos adotivos do casal Toni Reis e David Harrad. Juntos há 27 anos, eles decidiram propor o batizado católico para os filhos e, no último fim de semana, participaram da cerimônia na Catedral Basílica de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em Curitiba.

Em entrevista ao E+, o professor Toni Reis contou que o casal foi em quatro igrejas da capital paranaense e só ouvia não, fosse pela religião anglicana de David, fosse pela agenda, fosse por questões burocráticas. Quando falou com o Arcebispo Metropolitano de Curitiba, Dom José Antonio Peruzzo, Reis recebeu um sim imediatamente. O bispo autorizou o batismo e pediu para padre Élio realizar o sacramento de Alyson, de 16 anos, Jéssica, de 14 anos e Filipe, de 12 anos.

"Foi uma cerimônia muito emocionante", disse Toni, que é uma das lideranças da causa LGBT. Criado sob as concepções da igreja católica, ele disse ter chorado pelo menos três vezes ao se lembrar da mãe, uma mulher muito religiosa. "Na missa o padre falou muito sobre a importância da adoção e de sempre falar a verdade para os filhos".

A cerimônia de batismo, realizada às 11h do domingo, logo após da missa, durou 1h15. "Como nossos filhos já são adolescentes, o padre caprichou e explicou o porque do batismo. Ele fez muito esforço para que o significado do sacramento fosse entendível para os três", disse Harrad. Ele estava acostumado com os batizados de recém-nascidos nas igrejas anglicanas da Inglaterra. Compareceram à cerimônia 40 pessoas.

O arquivista da Catedral, Gabriel Forgati, disse à reportagem que a origem da criança e adolescente não infringe o sacramento. Segundo ele, se os filhos de David e Toni procurarem a mesma igreja para darem continuidade nos sacramentos católicos como catequese e crisma, serão recebidos normalmente. "Nem teria porque ser diferente".

Os cinco membros da família frequentam as missas, juntos, pelo menos todo 1º domingo do mês. Após o batizado, durante o jantar e enquanto tomavam sopa, os pais perguntaram aos adolescentes como se sentiam. Segundo relatou Toni, Alyson se descreveu 'purificado'. Jéssica, que sempre vai à missa, sentia-se incluída: "agora sou católica, com orgulho". O caçula, Felipe, afirmou que mais que nunca eram todos irmãos em Cristo.

O processo. Todo o processo de batismo dos filhos durou sete anos. Foi necessário alterar todos os documentos, dentre eles a certidão de nascimento, que agora registra filho de pai Toni Reis e pai David Harrad. A proposta do sacramento foi feita para os filhos, que não seriam batizados contra a própria vontade. Reis conta que os três são escoteiros, e isso os ajudou muito a valorizar a importância dos princípios e valores na vida.



domingo, 21 de fevereiro de 2016

"Opção preferencial pelos ricos" põe anglicanos em risco de extinção

É o que diz análise da própria cúpula da Igreja Anglicana, segundo noticia o IHU.

Melhor os ideólogos da prosperidade repensarem o seu foco, não é mesmo? 

Eis a matéria:

Sínodo anglicano ouve que a vida católica em comunidades carentes está desaparecendo rapidamente

O sínodo geral da Igreja da Inglaterra ouviu, nesta quarta-feira, que ela vem estando demasiadamente focada na classe média e na meia idade e que precisa levar “a batalha pela alma cristã desta nação” a comunidades periféricas, aos jovens e minorias étnicas. Muitos vigários têm pregado somente aos convertidos em vez de ativamente buscarem novos recrutas ao “partilhar a nova do bom pastor”.

A reportagem é de Harriet Sherwood, publicada por The Guardian, 16-02-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O arcebispo de Canterbury, Justin Welby, que preside a força-tarefa da Igreja e fez do trabalho missionário um objetivo central da instituição religiosa sob o seu comando, disse que o evangelismo não é “uma técnica de sobrevivência como decorrência de uma inquietação com os mais recentes números mostrando a frequência à igreja”, e sim um “compromisso com a sua renovação”.

Philip North, bispo de Burnley, disse que a igreja tem centrado demais os seus recursos na classe média e falou que ela deveria aumentar a sua presença entre as comunidades mais carentes. “A batalha pela alma cristã desta nação não será vencida ou perdida em Kensington, Cobham ou Harrogate, mas nos locais onde a vida é difícil e onde a vida da igreja está desaparecendo rapidamente”, declarou, acrescentando que a igreja esteja, pelo menos, presente nas “comunidades mais pobres, nos bairros periféricos das nossas cidades”.

Segundo uma análise apresentada num encontro sinodal em Londres:

• per capita, a igreja gasta significativamente menos em comunidades carentes na relação com a média nacional (£ 5,09 por ano numa média de £ 7.90);

• a frequência à igreja entre os que vivem em comunidades carentes está menos da metade abaixo do que os dados nacionais: – 0,8% em comparação com 1,7%;

• a velocidade do declínio na frequência à igreja é quase quatro vezes mais rápida aqui do que na comparação nacional.

O clero se sente isolado, sozinho e esquecido, segundo North. “A igreja em nossas comunidades carentes está morrendo, e está morrendo muito rapidamente. A conclusão é óbvia: somos líderes de uma igreja que assumiu uma opção preferencial pelos ricos”. Uma igreja que “abandona os pobres abandonou a Deus”, disse ele.

A força-tarefa da Igreja da Inglaterra realizará um congresso no próximo mês no Palácio de Bishopthorpe, a casa do arcebispo de York, para debater o potencial de expansão de sua presença entre os pobres nas comunidades carentes.

O sínodo foi também advertido que a igreja está enfrentando um desafio urgente no engajamento com os jovens. Mais da metade das paróquias tinham menos de cinco pessoas com idade inferior a 16 anos em suas congregações, afirmou Mark Russell, membro da força-tarefa. Ele citou um estudo que descobriu que apenas 1% dos cristãos começam a vir à igreja com a idade de 45 anos, e disse: “É fundamental compreender a seriedade da situação que enfrentamos; a situação continua crítica”.

As dioceses e paróquias deveriam investir em cargos pagos no trabalho junto às crianças e jovens, é o que recomenda a força-tarefa em seu relatório, que foi aprovado pelo sínodo. A igreja pensa em nomear um coordenador nacional para o evangelismo junto aos jovens.

O relatório também diz que negros e pessoas de minorias étnicas tinham uma baixa representação na instituição. Muitos falaram que “se sentiam diferentes na igreja, com perguntas de onde eram e em que lugar vivem. O foco está em enfatizar as diferenças culturais”.

As igrejas deveriam “criar uma cultura que acolha a diversidade cultural dentro de si e que aborde ativamente o preconceito inconsciente”, lê-se no texto.

A força-tarefa destacou questões significativas sobre a disposição de alguns clérigos em se engajar no evangelismo. “Para muitos deles, o entendimento vocacional que possuem está firmemente focado no ministério pastoral que encontra a sua mais completa expressão no exercício dos deveres litúrgicos, na oração, na pregação e no ministério pastoral (...) o trabalho social intencional era de uma importância relativamente menor”.

O clero existente e o clero futuro precisam se equipar como “líderes de missão e testemunho”; o evangelismo é central às vocações ordenadas e “não uma opção extra para alguns”. Os pedidos de ordenação deveriam ser selecionados com base na disposição das pessoas em se envolver com os não cristãos, diz o relatório.



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Arcebispo de York aconselha britânicos a não criticarem o Brasil

Com a Copa do Mundo começando na próxima quinta-feira em terras brasileiras, o arcebispo anglicano de York, Dr. John Sentamu, aconselhou os britânicos a olharem para o próprio umbigo antes de criticarem a desigualdade social no Brasil.

York é tradicionalmente considerada como a segunda diocese mais importante da comunhão anglicana, atrás apenas da de Cantuária, cujo bispo é o chefe da Igreja da Inglaterra.

Dr. John Tucker Mugabi Sentamu nasceu na Uganda, mas após ser perseguido pelo então ditador Idi Amin Dada (de triste memória), se refugiou no Reino Unido em 1973, onde estudou Teologia em Cambridge e, a seguir, foi ordenado sacerdote anglicano ate chegar a ser o 94º bispo de York em 2005.

Discursando na International Fairness Conference ("Conferência Internacional sobre Justiça") que acontece em York ontem, 9 de junho de 2014, o arcebispo fez questão de ressaltar o crescimento alarmante da pobreza no Reino Unido:
"Nós não precisamos ser presunçosos quando estamos aqui nesta maravilhosa cidade de York, com sua beleza, história, cultura, e muitas excelentes instalações para os seus cidadãos e visitantes ... Não só aqui em York, mas nas cidades, vilas e campo, neste país e em toda a União Europeia próspera, há aqueles para quem o quadro é muito diferente."
Dr. John Sentamu insistiu em que se dê atenção às muitas áreas britânicas que estão experimentando a pobreza, a educação de má qualidade, o desemprego, altos níveis de criminalidade e o isolamento.
Acrescentou ainda à sua crítica a constatação da desigualdade no acesso à saúde e ao bem-estar das crianças, a falta de emprego e renda para os mais jovens, alertando que essas questões devem ter prioridade nas políticas públicas.

O arcebispo culpou a desigual distribuição de renda por todos esses males, ressaltando que as grandes diferenças nos rendimentos fazem com que a sociedade se torne “mais antissocial”, o que “enfraquece os laços de cuidado, gentileza e confiança entre nós”.

O prelado concluiu dizendo que “se nós queremos uma sociedade mais feliz e menos dividida, então um passo importante à frente seria reduzir as diferenças de rendas entre ricos e pobres”, aconselhando os britânicos a olharem para os seus próprios problemas antes de criticarem o Brasil.

Talvez a iniciativa do arcebispo de York sirva para amenizar o complexo de vira-latas que muitos brasileiros reforçam nessa época de Copa do Mundo, ao se compararem com outros países.

As informações aqui divulgadas foram publicadas originalmente no Christian Today.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Papa Francisco recebeu hoje a rainha Elizabeth II no Vaticano


O Vaticano testemunhou, nesta tarde de 3 de abril de 2014, o encontro entre o papa Francisco e a rainha Elizabeth II, do Reino Unido, sendo ambos, respectivamente, chefes da Igreja Católica e da Igreja Anglicana.

Francisco é o quinto papa com o qual a rainha Elizabeth II se encontra, sendo que a primeira vez em que viu um papa, no caso Pio XII em 1951, ela ainda era princesa-herdeira do trono inglês. Depois disso, se avistou com João XXIII em 1961 e com João Paulo II em 1980 e 2000, todas essas oportunidades no Vaticano. A única vez em que recebeu um papa em território britânico foi quando Bento XVI a visitou em Edimburgo (Escócia) no ano de 2010.

Considerando a idade avançada da monarca inglesa (87 anos) e do papa (10 anos mais novo), além do Duque de Edimburgo, marido da rainha (92 anos) que a acompanhava, a reunião entre os dois líderes se deu num salão anexo à sala de audiências Paulo VI, para facilitar seu acesso e locomoção.

Por algum desencontro de agenda ainda não especificado, Elizabeth II chegou 15 minutos atrasada ao encontro, arranhando a conhecida imagem da pontualidade britânica, e - após a cerimônia protocolar pública - se reuniu em privado com o papa por apenas 17 minutos.

Considerando que ontem, 2 de abril de 2014, fez 32 anos que a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas dando início à guerra com o Reino Unido pela posse do arquipélago no Atlântico Sul, fontes do Vaticano se apressaram em dizer que o papa argentino sequer tocou no assunto, como era de se esperar.

O papa Francisco deu à rainha um pergaminho do século XVII e também um presente destinado ao bisneto dela, o príncipe George, filho do príncipe William e de Kate Middleton: um globo de pedra encimado por uma cruz.

Já a jornalista australiana Josephine McKenna disse que rainha teria presentado o papa com whisky, vinho, sidra e uma dúzia de ovos produzidos nas terras reais. A confirmar...

No vídeo abaixo, imagens do encontro. Repare que a rainha, ainda que no seu modo "posh" de falar, pede desculpas por ter chegado atrasada. Ô dó!




quarta-feira, 11 de julho de 2012

Educação e ressocialização de presos em SP

Um programa interessante que está sendo desenvolvido no sistema carcerário de São Paulo, que lança novas luzes sobre a capacidade da natureza humana de superar as suas próprias limitações.

A notícia do UOL Educação inclui até uma Bíblia em inglês:

"Depois que comecei a estudar, não vejo mais grades", diz preso de SP que faz pedagogia

O ensino a distância chegou à Penitenciária 1 de Serra Azul, a 300 km da capital paulista, e está transformando a realidade de detentos, como Venilton Leonardo Vinci, 52, que estuda licenciatura em pedagogia desde o início de 2010. Se mantiver o ritmo de estudos, no fim de 2013, ele será o primeiro preso a concluir um curso superior no regime fechado no Estado de São Paulo. "Depois que comecei a estudar, não vejo mais grades", afirma.

Vinci está preso há seis anos, condenado por assaltos reincidentes e por um flagrante de homicídio. Ainda lhe faltam 22 anos para “pagar a dívida com a Justiça”, como ele diz. Até lá, o reeducando mantém um dia a dia de estudo e trabalho, o que inclui ser professor de alfabetização na escola do presídio.

A primeira prisão de Vinci ocorreu em 1979 e, desde então, voltou a ser detido sob diversas acusações. Durante os anos de cárcere em diferentes penitenciárias, Vinci começou a aprender inglês com um amigo de cela, e carrega uma Bíblia da Igreja Anglicana neste idioma, que consulta todos os dias. Em Serra Azul, concluiu o ensino médio e teve aulas de braile para auxiliar um detento cego. Um ano depois da conclusão, foi convidado a participar do curso de pedagogia na modalidade de EAD (Ensino a Distância).

Na faculdade de pedagogia, além de Vinci, outros três detentos fazem o curso: Antonio Marcos de Freitas, 39, Benedito Paulo Reis, 52, e Matheus Henrique Daniel, 30. Todos trabalham como monitores da Funap (Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel de Amparo ao Trabalhador Preso).

A contrapartida é a redução de pena (a cada três dias trabalhados, um dia de detenção é eliminado). Alguns juízes também decidem pela diminuição de um dia de prisão a cada 12 horas de estudo.

Pelo trabalho, os presos recebem uma remuneração de R$ 466, o equivalente a três quartos de salário mínimo. Desse total, R$ 157 são usados para pagar a mensalidade da faculdade. De acordo com o diretor técnico do Centro de Trabalho e Educação da penitenciária, Denis Nunes Rossetti, o dinheiro recebido desobriga os parentes dos detentos de custearem o curso. “Não queremos onerar ainda mais a família, que muitas vezes sofre dificuldade financeira quando um de seus membros é preso”.

Professores das 7h às 15h30

As aulas de alfabetização, ensino fundamental e ensino médio começam às 7h para os detentos da turma da manhã. Segundo dados da unidade prisional, em média, 215 presos frequentam as aulas por ano. Os quatro monitores dizem preparar as aulas à noite, enfrentando o barulho das celas.

A escola é improvisada em um galpão com seis salas de aula, uma biblioteca e um espaço de convivência. Na época da construção da Penitenciária 1 de Serra Azul não havia espaço destinado ao estudo dos presos, apenas um pavilhão de trabalho. “As novas unidades já contam com o pavilhão educacional”, afirma o diretor-geral da unidade penitenciária, Reginaldo Neves de Araújo.

Estudantes das 15h30 às 21h

Terminado o período da docência, os monitores vão à sala de EAD às 15h30, onde permanecem por duas horas. O espaço é do tamanho de uma cela e tem cinco computadores sem acesso à internet, só está habilitado o acesso ao ambiente virtual da faculdade, mas sem contato com outros alunos.

A interação se dá somente entre os quatro presos, que recebem visitas diárias do monitor presencial e auxílio de uma professora a distância da faculdade. Como estão em semestres diferentes do curso, cada um estuda no próprio ritmo.

Segundo a coordenadora das atividades educacionais do presídio, Eleonai Amaro Pereira, o objetivo da licenciatura é profissionalizar os presos para quando estiverem em liberdade. “O curso superior permite que o monitor educacional leigo receba as informações e técnicas específicas que lhes deem condições de atuar como educadores profissionais.” “A condição de ser monitor oferece a oportunidade de aplicar os conhecimentos diariamente”, complementa Sílvio Luís do Prado, gerente regional da Funap.

Expansão do programa

O projeto de EAD começou em 2009 e está em fase experimental, em uma pequena parte do presídio, que tem cerca de 1.550 detentos. “A ideia é solidificar o projeto para poder expandi-lo de forma segura”, afirma o diretor geral da unidade penitenciária, Reginaldo Neves de Araújo. O plano é que, com o crescimento do programa, também sejam oferecidos outros cursos. De acordo com Eleonai, a segunda maior demanda é a graduação de teologia.

A penitenciária têm também atividades de trabalho e cursos. Além dos professores, há detentos que atuam na cozinha e na limpeza da penitenciária, com o benefício da redução de pena. Entre os cursos, já foi oferecido o de teatro, de restauração de móveis, de empreendedorismo, panificação artesanal e profissional, manipulação de alimentos e pintura e texturização de paredes. Os treinamentos são resultado de parcerias com a iniciativa privada e com órgãos públicos.



domingo, 22 de abril de 2012

Vaticano tenta enquadrar freiras americanas (de novo)

Não é fácil a vida de quem se senta no trono da Praça de São Pedro quando vê uma freira americana pela frente. Parece que os pedidos de ordenação feminina representam o nervo exposto do Vaticano, e os Estados Unidos, neste particular, são o seu calcanhar de Aquiles, que quer se mostrar invulnerável, mas não há reprimenda que faça as religiosas norteamericanas se calarem.

O papa João Paulo II já havia sentido isso na pele durante sua primeira visita aos Estados Unidos, em 1979, quando - numa reunião com cerca de 5.000 religiosas no Santuário Nacional de Washington - teve que ouvir, visivelmente constrangido e contrariado, o pedido de uma delas (vídeo abaixo).

A freira Theresa Kane, então presidente da Leadership Conference of Women Religious (LCWR - "Conferência de Liderança das Religiosas"), foi corajosa o suficiente para pedir ao papa, no seu discurso de saudação tête-à-tête, que "incluísse as mulheres em todos os ministérios da Igreja" a fim de que elas se tornassem "membros completamente participantes" dela.

Apesar de toda a reação contrária que veio a seguir e que culminou no "não" supostamente definitivo à ordenação feminina, mediante a carta "Ordinatio Sacerdotali" de 1995, o movimento nunca arrefeceu, mesmo à revelia da autoridade papal.

A "Ordinatio Sacerdotali" de João Paulo II teve como pretexto a então recente abertura do sacerdócio anglicano às mulheres, ocorrida em 1992, mas o alvo - na verdade - era outro: matar no ninho os movimentos internos católicos que reforçavam o mesmo pleito.

Bento XVI assumiu o papado em 2005, mantendo a linha conservadora do antecessor, mas também não conseguiu calar as freiras norteamericanas. Não lhe restou outra saída, senão, tentar "enquadrar" de novo a LCWR, que reúne nada mais, nada menos que 80% das religiosas dos Estados Unidos.

Para tanto, entrou em cena a Congregação para a Doutrina da Fé, nome atual aparentemente inofensivo do antigo "Santo Ofício", responsável pela inquisição medieval, atualmente dirigida pelo cardeal norteamericano William Joseph Levada.

Em 2008, o Cardeal Levada tratou de dar um corretivo nas levadas freiras do seu país (com o perdão do péssimo - mas inevitável - trocadilho), indicando o arcebispo de Seattle, Peter Sartain, para investigar e reorganizar a LCWR.

Apontando uma série de divergências com o ensino tradicional católico quanto ao sacerdócio feminino, aborto, sexualidade e temáticas feministas, o relatório do bispo Leonardo Blaire, de Toledo (Ohio), responsável pela "visita apostólica", deu margem à intervenção do Vaticano na LCWR.

Na prática, isto significa que o grupo de freiras norteamericanas estará, a partir de agora, debaixo de estrita vigilância e supervisão das autoridades vaticanas. Resta saber se isto conseguirá calá-las.

Já a Irmã Theresa Kane continua firme, falante e dentro da igreja. A julgar pelo histórico passado, é melhor apostar - sem dinheiro e informalmente - que não conseguirão emudecê-las.




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Bispo anglicano D. Robinson Cavalcanti e esposa são mortos por filho adotivo

A tragédia ocorreu nessa última noite (estima-se que por volta das 22h de domingo, 26/02) e os dados ainda são um pouco desencontrados, mas tudo indica que D. Robinson Cavalcanti e sua esposa tenham sido mortos pelo filho adotivo, que seria viciado em drogas. D. Robinson, bispo anglicano da Diocese do Recife, sempre teve uma forte atuação social e política, além de ter sido autor de vários livros como "Cristianismo e Política" e "Uma Bênção Chamada Sexo". Lamentamos profundamente a notícia (com o vídeo abaixo) que vem do Diário de Pernambuco:

Filho mata pais adotivos a facadas em Olinda

O pastor da Igreja Anglicana, cientista político e ex-reitor da Universidade Federal Rual de Pernambuco (UFRPE), Edward Robinson Cavalcante, de 64 anos, e a esposa dele, a professora aposentada Mirian Nunes Machado Cotias Cavalcante, também de 64 anos foram assassinados na casa da família, na Rua Barão de São Borja, número 305, em Jardim Fragoso, Olinda.

De acordo com a policia, o autor do crime é o filho adotivo do casal Eduardo Olímpio Cotias Cavalcante, de 29 anos. O rapaz morava nos Estados Unidos desde os 16 anos de idade e teria voltado ao Btasil há cerca de 15 dias depois de ter sido preso no país estrangeiro várias vezes por envolvimento com drogas e outros delitos.

Segundo o reverendo Hermany Soares, amigo da família, quando Eduardo chegou ao Brasil, ele foi buscá-lo no aeroporto e ainda no desembarque teria perguntado onde compraria uma arma.

Ontem pela manhã, o rapaz saiu de casa, foi beber na praia e voltou à tarde. À noite ele foi visto amolando uma faca na frente do portão de casa. Por volta das 22 horas da noite, Eduardo começou a discutir com o pai, pegou a faca e começou a golpear o idoso. A mãe foi defender o marido e também foi esfaqueada.

O bispo Robison morreu no quarto. Já a mãe ainda foi levada para o Hospital Tricentenário, em Olinda, com uma facada no peito esquerdo, mas já chegou morta. Após o crime, Eduardo tentou cometer suicídio ingerindo uma substância não identificada e aplicando vários golpes de faca no próprio peito. Ele foi levado para o Hospital da Restauração (HR) em uma viatura da Polícia Militar. Eduardo estava passando por um processo de deportação.

Segundo informações de parentes, o bispo Robinson foi o coordenador regional da primeira campanha do ex-presidente Lula para presidente da República, que o teria visitado em casa depois de eleito. O bispo também foi candidato a deputado federal e proferiu palestras na ONU.

Com informações do repórter Edson Araújo, da TV Clube










Abaixo, o comunicado em vídeo do bispo Renato Suhett, ex-Universal, hoje na Igreja Anglicana:



Existe a expectativa de que as notícias sejam atualizadas no decorrer do dia através do site TV A Voz da Fé



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Dawkins afirma que não é ateu

Parem as rotativas! Urgente! 

Com o perdão aos mais jovens que já nasceram na época da internet, e que não sabem como funcionavam os jornais (que tinham que fechar a edição  da manhã seguinte justo na adiantada hora em que aparecia uma notícia importantíssima) num passado não tão distante assim, o planeta Terra parece que deu uma sacudida na noite passada, quando - após passar toda uma vida atacando a religião e defendendo o ateísmo, o militante (até então ateu) Richard Dawkins deu uma declaração que fez até o gigante Atlas perder o fôlego e quase descartar o planeta nas suas costas, atirando-o de volta na corrente sideral.

Perdoem-me o suspense, mas é uma notícia tão chocante que eu nem sei como dá-la porque sei que vai ter muita gente que vai ficar sem pai nem mãe depois de lê-la. 

Uma geração inteira de órfãos intelectuais acaba da ser formada como tartaruguinhas indefesas que saem dos ovos e correm para o mar. 

Comecemos pelo começo, então. 

O fato é que pegou muito mal em todos os meios, inclusive ateístas, a negativa de Dawkins em debater com William L. Craig e ele, diante do constrangimento que teria em admitir que estava errado na sua recusa, tratou de agendar desesperadamente um debate com o Arcebispo da Cantuária, Dr. Rowan Williams, o líder religioso da Igreja Anglicana (a rainha da Inglaterra é a chefe política e autoridade máxima). 

O Dr. Williams, que também é um intelectual renomado, quebrou o galho de Dawkins e aceitou o debate, que aconteceu na noite de ontem na Clarendon House, da mítica Universidade de Oxford. 

Foi um debate extremamente polido, como se requer de dois homens que se pretendem elegantes no trato com as pessoas, e cujo acompanhamento - muito interessante, por sinal - pode ser lido em espanhol no Canal Ciência do jornal El Mundo da Espanha. 

Tanto os debatedores, como o mediador, o filósofo Sir Anthony Kenny, se desdobraram em mesuras e palavras simpáticas, e o encontro demorou 1 hora e 20 minutos. 

Salvo uma única exceção bombástica (que será tratada a seguir) não houve nada assim muito significativo que se tornasse digno de nota. 

O debate transcorreu no nível inodoro e insípido do seguinte diálogo, quando ambos discutiam a questão teórica da navalha ser ou não ser mais complexa do que um aparelho de barbear, e o Dr. Williams, notório por sua barba cultivada há décadas (foto abaixo), respondeu: "Não que eu saiba muito sobre aparelhos de barbear". 

Típico humor britânico inofensivo, as usual

Quando tudo se encaminhava para um modorrento empate em 0 x 0 sem disputa de pênaltis, cai do céu a bomba: Richard Dawkins reconheceu que ele está MENOS do que 100% convicto de que NÃO existe um Criador, declaração que quase fez o pasmo Sir Anthony Kenny cair da poltrona (de cujo desconforto já tinha reclamado desde o início, diga-se de passagem):

Sir Anthony Kenny - Então, por que você não se define como agnóstico?
Richard Dawkins - Eu sou agnóstico...
Sir Kenny (incrédulo) - Você é descrito como o ateu mais famoso do mundo...
Dawkins - Eu estou convicto de 6,9 em cada 7 das minhas crenças... eu acho que a possibilidade de existir um Criador sobrenatural é muito, mas muito baixa...

Pronto! Dawkins acaba de derrubar mais um mito... ele próprio!

Desculpem-nos, queridos ateus, mas essa também não dá pra passar batido...



P.S.1: Atentos aos críticos ateus que aqui vieram dizer que Richard Dawkins já havia assumido seu agnosticismo anteriormente, fomos ler o livro indicado e somos obrigados a discordar. Ele sempre se reconheceu ateu. Confira as razões que nos levaram a essa conclusão no artigo "Agnosticismo de Dawkins é mesmo novidade?"




P.S.2: Felizmente a íntegra do debate já está disponível no youtube:









Fonte: The Telegraph



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Escândalo sexual envolve padre católico e bispo anglicano na Austrália

Alguma coisa muito estranha anda acontecendo na Austrália, e não é pela inveja da Copa do Mundo de Rugby que está sendo disputada ali do lado, na Nova Zelândia. As recentes notícias da tentativa de mudança da datação em relação a Cristo e a inclusão do terceiro sexo no passaporte australiano são só alguns exemplos de que há algo de podre no reino do canguru. Se isto já não bastasse para levantar dúvidas sobre que tipo de água koalas, blokes e matildas estão bebendo, agora um senador do país, de nome esquisito - Nick Xenophon -, está sendo acusado de denegrir a imagem do sacerdote católico Monsenhor Ian Dempsey, por tê-lo acusado de abusar sexualmente do arcebispo anglicano John Hepworth, que hoje tem 67 anos de idade e se diz "disposto a perdoar", quando este ainda era menor de idade. Tudo começou com uma entrevista do arcebispo anglicano, dizendo que havia sofrido os abusos a partir dos 15 anos de idade, quando entrou em um seminário católico, e os perpetradores seriam dois padres e um colega seminarista, que o senador Xenophon posteriormente identificou como sendo o Monsenhor Dempsey, o único dos abusadores que ainda está vivo. Esta situação teria perdurado por 12 anos. Posteriormente, John Hepwort se tornou anglicano e hoje, curiosamente, lidera uma facção tradicionalista da Igreja Anglicana que quer retornar ao seio da Igreja Católica com base na recente abertura concedida pelo papa Bento XVI para que esta reconciliação aconteça. Depois da denúncia do senador Xenophon, o padre católico Ian Dempsey veio a público no último fim de semana para se defender, dizendo que sua honestidade e sua integridade estavam sendo injustamente atacadas e que ele não teve qualquer contato inapropriado com menores de idade ao longo de sua vida. O senador então mudou seu discurso, dizendo que os dois religiosos haviam tido relações sexuais consentidas quando já eram adultos. Enfim, muita água ainda vai rolar na ilha-continente e, provavelmente, não vai se chegar a lugar algum.

The Age - Priest denies any sex with archbishop

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A teologia do espetáculo do papa Bento XVI

Teologia do espetáculo

Matéria publicada na edição 644 da revista Carta Capital, que começou a circular na sexta-feira 29.

A beatificação a toque de caixa de Karol -Wojtyla, o papa João Paulo II, será celebrada em 1º de maio, meros seis anos após seu falecimento, apesar de muitas resistências dentro da própria Igreja. “Sou contra e prevejo que a história não verá com bons olhos João Paulo, que ignorou a pior crise na Igreja desde a Reforma”, disse o padre Richard McBrien, teólogo da Universidade Notre Dame de Nova York. “A beatificação de João Paulo por seu sucessor soa incestuosa e tem afinidade com o hábito de deificar os próprios ancestrais”, declarou o historiador católico Michael Walsh.

Foi política a decisão de não esperar os habituais cinco anos para iniciar o processo, apoiar-se num “milagre” arrancado a fórceps e ignorar as objeções, em especial as fundadas nas obscuras manobras financeiras do Vaticano em sua gestão e a negativa do papa polonês a investigar e punir padres e bispos pedófilos. Principalmente o corrupto padre mexicano Marcial Maciel, líder da Legião de Cristo, que abusou de menores (inclusive dois de seus próprios filhos ilegítimos), mas manteve a boa vontade da Igreja arrecadando rios de dinheiro de milionários mexicanos, boa parte dos quais fluiu para os bolsos da Cúria Romana. O papa polonês protegeu-o até o fim e o próprio Ratzinger teve de esperar subir ao trono papal para discipliná-lo.

Outro de seus protegidos foi o arcebispo estadunidense Paul Marcinkus, que João Paulo II promoveu à chefia do Banco do Vaticano e ao terceiro cargo mais importante na Igreja antes que se envolvesse até o pescoço no escândalo da falência do Banco Ambrosiano (do qual já fora diretor), seguido pelo assassinato disfarçado em suicídio do seu presidente, Roberto Calvi, que teria financiado a dissidência polonesa a pedido do papa. Queima de arquivo, que não se sabe se deve ser atribuída à Máfia ou a setores da própria Igreja.

Trata-se de santificar não a duvidosa virtude de Karol Wojtyla, mas a virada conservadora que promoveu. João XXIII e Paulo VI haviam conduzido a Igreja à modernização e reaproximação com a sociedade laica e com outras igrejas e religiões-, processo subitamente freado após a morte nunca devidamente esclarecida do efêmero João Paulo I e a eleição do polonês identificado com a luta contra o comunismo. Foram congelados os debates sobre contracepção e o papel da mulher na Igreja. Quando o cardeal de Sevilha, José María Bueno, reuniu-se com ele e insistiu em que sua consciência lhe impunha insistir na questão do celibato e da escassez de sacerdotes, Wojtyla foi brutal: “E minha consciência de papa me impõe expulsar sua eminência de meu escritório”.

Joseph Ratzinger, jovem teólogo convidado por João XXIII para participar do Concílio Vaticano II, esteve de início do lado da modernização, apoiando a revisão do celibato e do primado absoluto do papa, que defendia ainda em livros publicados nos anos 70. Elevado a cardeal- por Paulo VI em 1977, não se soube que mudasse de opinião antes de 1981, quando foi escolhido por João Paulo II para chefiar a Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora do velho Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, para comandar a repressão à dissidência. Ratzinger decepcionou seus ex-amigos progressistas e reprimiu a Teologia da Libertação, mas satisfez seu superior e seu círculo e foi recompensado com a sucessão.

Fora dos corredores estagnados do Vaticano, porém, os ventos continuaram a soprar. Abriu-se ainda mais o abismo entre uma Igreja cada vez mais conservadora e exigente e a sociedade civil dos países católicos, cada vez mais laica e menos interessada nas opiniões do papa sobre moral e pecado. Até 2005, as falhas morais da Igreja e seu crescente esvaziamento e irrelevância no Ocidente foram até certo ponto mascarados pelo colapso do bloco soviético e o carisma pessoal de Wojtyla. O renascimento da Igreja na Europa Oriental e o entusiasmo gerado pelas visitas de João Paulo II pelo mundo permitiam a seu círculo acreditar que estavam no caminho certo.

Com o frio e rígido Ratzinger, as ilusões não se sustentam. Escândalos por muito tempo abafados vieram a público, mostrando que a Igreja não está à altura do que prega – em muitos casos, nem sequer à altura do que a sociedade laica considera decência comum. As tentativas do Vaticano de favorecer partidos conservadores e pressionando contra o uso de preservativos e a legalização do aborto e da união homossexual têm acabado quase sempre em fiascos humilhantes. As viagens e os pronunciamentos de Bento XVI mal atraem- uma fração do interesse e entusiasmo despertado por seu antecessor.

O Vaticano é hostil aos exorcismos das igrejas carismáticas populares, mas sente a mesma necessidade de espetacularização. A apressada multiplicação de beatificações e canonizações tenta suprir o déficit de interesse, distribuindo santos a comunidades e grupos de interesse que não os tinham. Paulo VI fez 11 canonizações em 15 anos; João Paulo II estabeleceu um recorde histórico com 113 em 25 anos, inclusive o controvertido fundador da Opus Dei e a canonização coletiva de 25 fanáticos cristeros que lutaram contra o governo laico do México nos anos 1920 e 1930. Bento XVI fez nada menos de 34 nos primeiros seis anos. Na Páscoa, tentou reanimar o interesse dos fiéis, respondendo perguntas na televisão, cuidadosamente escolhidas. Com a beatificação de João Paulo II, pretende despender o que resta de seu capital de carisma e reunir 300 mil fiéis. Mas aos poucos esse espetáculo se banaliza.

Não são tempos fáceis para a Igreja Católica. Foi deixada por 50 mil alemães e 53 mil austríacos em 2009 e por 180 mil alemães e 87 mil austríacos no ano seguinte. Não se trata do abandono tácito de quem simplesmente deixa de comparecer às missas, mas de pedido formal de baixa, enviado a autoridades civis de forma a encerrar o pagamento de contribuições à Igreja (1,1% da renda, até o limite de 200 euros anuais) e pesa de fato nos bolsos das paróquias e dioceses. Desde 1990, 1,78 milhão de alemães ormalizaram sua apostasia, mas o salto recente nos números está relacionado aos escândalos de pedofilia: é nas dioceses mais afetadas que o êxodo é maior.

Em países onde a filiação formal à Igreja não tem consequências civis, o número dos que saem batendo a porta e exigem o registro formal de sua opção é menor, mas cresce explosivamente. Na Bélgica, foram 66 casos em 2008, 380 em 2009 e 1,7 mil em 2010. Em Portugal, uma comunidade criada no início de 2010 para trocar informações sobre o “desbatismo” no Facebook tem mais de 3 mil participantes, centenas dos quais já cobraram o certificado das paróquias – e, se estas o recusaram, se queixaram ao bispo. Na Argentina, a comunidade Apostasía Colectiva tem mais de 4 mil integrantes.

Na Espanha, a Igreja, temerosa das consequências políticas da queda nas estatísticas formais sobre número de fiéis, alegou que seus livros de batismo não são arquivos sujeitos à Lei de Proteção de Dados. Conseguiu que a Suprema Corte e o Tribunal Constitucional a isentassem da obrigação de atender a tais pedidos, no mesmo país no qual outrora fazia da excomunhão a mais terrível das ameaças. Mas os -apóstatas, com ou sem certificados, são milhares. Tentaram organizar uma “procissão ateísta” e uma campanha pelo uso de preservativos na Semana Santa de 2011, proibidos pelo governo de Madri, pressionado por um abaixo— assinado- de 100 mil conservadores.

Apesar do renascimento do fundamentalismo e do fanatismo em várias partes do mundo cristão, muçulmano e hindu, desde os anos de Ronald Reagan e João Paulo II, mais espetacularmente nos anos de Bush júnior, as últimas décadas veem crescer atitudes que vão da simples indiferença ante a religião organizada ao ateísmo militante. Em dezembro de 2010, o estudo de um grupo de matemáticos dos Estados Unidos indicou que a religião organizada tende a desaparecer até 2050 em pelo menos nove países: Austrália, Áustria, Canadá, República Tcheca, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça.

Mesmo na arquicatólica Polônia, a frequência à Igreja caiu de 60% nos últimos dias do regime comunista para 45% nos dias de hoje. Nos EUA, as pessoas sem religião são o único grupo religioso em crescimento em todos os 50 estados. E mesmo “ter uma religião” pode não significar muita coisa além de um rótulo social para ocasiões como casamentos e funerais. Na Inglaterra e em Gales, 61% dizem que têm uma religião, mas apenas 29% se dizem religiosos. Só 48% dos 53,5% que se dizem cristãos (ou seja, 25,7% dos ingleses) acreditam que Jesus foi de fato o filho de Deus e ressuscitou dos mortos.

Uma pesquisa Ipsos de abril de 2011 em 23 países encontrou que, em média, apenas 19% acreditam em céu e inferno (4% na França, 5% na Espanha e Alemanha, 10% no Reino Unido, 12% na Rússia, 15% no México, 21% na Itália, 28% no Brasil, 41% nos EUA). Para outros 23% a existência cessa com a morte, 26% não têm opinião, 2% acreditam no céu mas não no inferno, 7% creem em reencarnação e 23% em alguma vida após a morte que não o céu e inferno cristãos. Na maioria dos países da Europa Ocidental, a crença definida em um Deus ou Ser Supremo varia de 18% (Suécia) a 28% (Espanha), e o ateísmo explícito, de 28% (Espanha) a 39% (França). Só a Itália destoa, com 50% de teístas e 13% de ateus (no Brasil, respectivamente, 84% e 3%).

A opção por sistemas de crenças -pessoais “faça você mesmo” ou pela pura e simples irreligiosidade está crescendo, em que pese o fervor de organizações como a Fraternidade Muçulmana, a Opus Dei ou a Westboro Baptist Church. Na maioria dos países ricos e em pelo menos alguns dos “emergentes”, como Rússia, Coreia do Sul, China e Argentina, caminha-se a médio prazo para sociedades nas quais não só a prática religiosa, como também a identificação formal com a religião organizada, será minoritária. Mas também parece bem possível que essas minorias se mostrem mais exaltadas do que a média dos religiosos de hoje. A aposta do Vaticano de Joseph Ratzinger parece ser em uma Igreja capaz de manter influência política (e arrecadar recursos financeiros) por meio de um rebanho pequeno, mas monolítico e militante.

Aponta para isso a indiferença para com as defecções de setores liberais e de -esquerda da Igreja – do teólogo Hans Küng ao ex-frade Leonardo Boff – combinada com os esforços extremados para atrair dissidências pequenas, mas ferozmente hostis à modernidade laica. Um exemplo é a Fraternidade São Pio X, do falecido arcebispo Marcel Lefebvre, rompida com o Vaticano desde 1988. Para tentar reincorporar seus 500 sacerdotes e alguns milhares de fiéis, o papa Bento XVI permitiu, em 2007, a celebração da missa tridentina em latim e anulou a excomunhão de seus quatro bispos, incluindo o britânico Richard Williamson, que nega o Holocausto, defende a autenticidade dos Protocolos dos Sábios de Sião e se associa a neonazistas. Nem por isso foi acatado por esses dissidentes, que continuam a ordenar seus próprios sacerdotes e exigir que o Vaticano declare inválidas as missas vernáculas de Paulo VI celebradas desde 1969 e repudie o Concílio Vaticano II e os gestos ecumênicos em relação a outras igrejas e religiões, inclusive o judaísmo.

Mais recentemente, Ratzinger abriu as portas a dissidentes tradicionalistas da Igreja Anglicana inconformados com a ordenação de mulheres e bênção a uniões homossexuais dentro de sua igreja, incorporando uns 900 fiéis ao custo de prejudicar o relacionamento do Vaticano com o protestantismo e o arcebispo de Canterbury – e de aceitar algumas dezenas de padres casados e com família, embora exija o celibato dos que se formaram no catolicismo. A Igreja se encolhe e a instituição que moldou a civilização ocidental pouco a pouco se transforma em uma entre muitas seitas reacionárias e intolerantes.

domingo, 24 de abril de 2011

Os sermões de Nárnia na Páscoa

Rowan Williams é o Arcebispo da Cantuária (Canterbury), cargo máximo dentro da hierarquia religiosa da Igreja Anglicana, já que o posto de chefe da denominação é ocupado formalmente pelo monarca da Inglaterra, atualmente a Rainha Elizabeth II. É ele, por sinal, que celebrará o casamento do Príncipe William com Lady Kate Middleton na Abadia de Westminster no próximo dia 29. Enquanto não chega o casório real, já é tradição que o Arcebispo da Cantuária pregue sermões especiais durante a Semana Santa, ritual que Rowan Williams desempenhou na semana que passou, falando por três noites consecutivas sobre "As Crônicas de Nárnia", a obra-prima de C. S. Lewis, supostamente escrita para crianças, mas que tem toda uma simbologia cristã mais facilmente compreendida por adultos. Nos anos anteriores, o Arcebispo Williams pregou sobre temas bíblicos, como o evangelho de Marcos, o credo apostólico e a oração.

Roger Williams é licenciado em Filosofia e Teologia e foi professor das duas universidades mais prestigiosas da Inglaterra, Cambridge e Oxford, por longo tempo. É, portanto, uma pessoa intelectualmente muito capacitada para comentar as Crônicas de Nárnia, o que de fato faz muito bem. Entretanto, por mais que C. S. Lewis seja um escritor cristão da melhor qualidade, com enorme influência no período pós-Segunda Guerra Mundial, é sintomático que sua obra tenha sido escolhida para os sermões de Páscoa do chefe da Igreja Anglicana. Pode ser que a mensagem que o Arcebispo está passando seja, na verdade, a de que a Bíblia não basta mais, ou não fornece inspiração suficiente para pregações, ou ainda que seja necessário apelar a autores mais atuais para transmitir uma mensagem cristã. Nada contra C. S. Lewis, diga-se de passagem, ou ainda que Roger Williams escolhesse outra oportunidade para brindar-nos com o seu enorme conhecimento das obras do autor. Tudo bem que a gente saiba que o leão Aslan representa uma figura simbólica do Leão de Judá, mas o perigo é misturar todas as estações da religião e da literatura e, de repente, começar a falar sobre o coelho de Alice no País das Maravilhas. O problema, me parece, é de outra palavra inglesa, timing: escolheram o momento errado para a iniciativa. Enquanto a Igreja Anglicana se esfacela em divisões internas por causa de setores liberais que ordenam sacerdotes homossexuais, por exemplo, além do assédio do Vaticano que abriu exceções para que anglicanos retornem à Igreja Católica, o Arcebispo da Cantuária aproveita a Páscoa para desfilar sua erudição sobre C. S. Lewis.

Last but not least, as pregações de Rowan Williams sobre o autor britânico e suas Crônicas de Nárnia são realmente excelentes, e, para quem se interessar, estão disponíveis em mp3 (em inglês):

Sermão 1: "Not a tame lion"

Sermão 2: "I only tell you your own story"

Sermão 3: "Bigger inside than outside"

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