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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Enfim uma ferramenta para comparar o tamanho real dos países

Projeção de Mercator: uma ideologia geográfica em desuso?

Manja o mapa-múndi?

Aquela projeção antiga, conhecida como Mercator, em que a parte norte parece muito maior do que o restante do planeta.

Por isso você repara que a Groenlândia é tão grande, mas tão grande que chega a sair voando pela parte de cima do mapa.

Rússia e Canadá, então, são gigantescos, mal cabem na representação geográfica. O próprio Alaska parece quase do mesmo tamanho do conjunto dos 48 Estados Unidos que formam a parte continental do país.

Hoje todo mundo sabe que não existe a possibilidade de fazer uma projeção fidedigna do mapa-múndi por uma questão muito simples: o planeta é redondo, e ao "transplantar" sua representação geográfica de 3D para 2D (do cilindro para o papel, por exemplo) é inevitável que informações importantes sejam perdidas.

O mapa-múndi, tal como o conhecemos, é criação do cartógrafo flamenco (de Flandres, hoje Bélgica) Gerhard Kramer, cujo nome foi transliterado para o latim como Gerardo Mercator, em 1569.

Por esta data, fica difícil acreditar que Mercator, já naquela época, tivesse a preocupação ideológica de criar um papa que privilegiasse os países colonizadores do Hemisfério Norte sobre os países colonizados do Hemisfério Sul, até porque as Américas eram ainda um vasto território essencialmente indígena e tampouco se havia descoberto a Austrália (cujo primeiro avistamento europeu teria se dado em 1606).

De qualquer forma, a projeção de Mercator se impôs pelo uso e pela praticidade, sobretudo na época das navegações com observação das estrelas, sextantes, mapas simples e compassos.

Para uma melhor compreensão do que dissemos acima, dê uma olhada no vídeo abaixo, intitulado "Por que todos os mapas-múndi estão errados", narrado em inglês, mas existe o recurso de legendas em português brasileiro:


Captou a mensagem?

Então...

Já que o problema é incontornável na prática, a internet agora provê uma ferramenta que vai nos ajudar a comparar o tamanho real dos países.

Trata-se do portal "The True Size" ("O Tamanho Verdadeiro"), que você pode acessar clicando aqui.

Inicialmente, você deleta os países que já estão assinalados lá clicando no botão direito do seu mouse.

Depois, você digita o nome do país que você quer comparar no campo "The True Size of..." e "arraste-o" para lá e para cá fazendo as comparações aleatórias que a sua imaginação sugerir.

Veja, por exemplo, a comparação dos tamanhos reais do Brasil e do Canadá:




E do Brasil com a Rússia:





Chega a ser divertido. E a gente aprende, o que é melhor.



terça-feira, 9 de maio de 2017

Templos compartilhados: uma ideia canadense


Sim, irmãos e amigos, eu sei que existem igrejas bastante grandes que apresentam cultos em distintos horários para comunidades específicas que existem no seu seio, como acontece com hispânicos em algumas igrejas de São Paulo, por exemplo.

O que eu nunca tinha visto até dois anos atrás era um templo dividido por duas denominações.

Em abril de 2015 eu passava pela Rodovia Trans-Canadá, a Highway 1, por uma pequena cidade chamada Salmon Arm, na província da Colúmbia Britânica, quando me deparei com uma cena no mínimo curiosa: um templo com duas denominações: uma presbiteriana e outra batista.


O templo compartilhado por batistas e presbiterianos, visto a partir da Trans-Canadá (Hwy 1)

Como não havia tempo para parar e investigar mais a fundo, apenas registrei mentalmente o fato e o local, e isso ficou me "encucando" por dois anos e agora resolvi localizar no Google Earth onde estava este templo.

Aparentemente, são duas pequenas comunidades religiosas, já que há poucos registros de suas atividades na internet.

Um pequeno mapa com a localização do templo em Salmon Arm, BC

Uma igreja é a St. Andrew's Presbyterian Church e a outra é a Mountain View Baptist Church.

Os batistas são madrugadores, têm seu culto às 9 da manhã no domingo. Já os presbiterianos começam seus serviços às 10:45 h., conforme mostra a foto da placa na entrada lateral do terreno:




Essa mesma foto, que tem baixa resolução, permite ver que há uma indicação de telefone para aluguel do templo, que é o mesmo número de telefone da igreja presbiteriana.

Provavelmente, numa cidade com uma pequena população, como é comum no interior da British Columbia, qualquer fonte de renda é muito bem vinda, não é mesmo?


A parte de trás do templo, com a Trans-Canadá passando lá no fundo da foto.

Perdão, amigos canadenses, demorou dois anos para eu reportar essa curiosidade de um brasileiro que passou rapidamente por Salmon Arm (BC) a caminho de Calgary (Alberta), mas fica registrada a sua criatividade e boa convivência com diferentes denominações.

Salmon Arm, BC em destaque entre Vancouver, BC e Calgary, AB, com destaque também para Kamloops, ali perto.

Algo tipicamente canadense, por sinal. Um lindo país onde as pessoas não têm problemas em conviver com gente das mais variadas procedências.

Será que este exemplo "pegaria" no Brasil?

Você conhece algo parecido por aqui? Se sim, por favor compartilhe conosco nos comentários abaixo.

Um templo simples e funcional acolhe as duas comunidades.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

A Bíblia na língua dos esquimós


A informação é da Gaudium Press:

Bíblia é traduzida para o idioma dos esquimós

Toronto - Canadá (Sexta-feira, 17-02-2017, Gaudium Press) A Bíblia foi o primeiro livro impresso no mundo e já foi traduzida para inúmeros idiomas. Agora foi divulgada uma nova tradução das Sagradas Escrituras para o idioma 'inuíte', a língua dos esquimós, um dos poucos idiomas que não possuía uma versão do livro sagrado.

Recentemente estudiosos e biblistas do Alasca, Nunavut e da Groenlândia se reuniram em Toronto, Canadá, para o primeiro congresso sobre a tradução da Bíblia para este idioma, que é usado pelos habitantes do Ártico além de aproximadamente 30 mil esquimós que vivem no Canadá, no Alasca e na Groenlândia.

A tradução demandou um trabalho de 30 anos. Em 2012 a Bíblia havia sido traduzida para um dialeto do 'inuíte', o 'inuktitut'. "Traduzir os textos sagrados em vários dialetos locais ajuda a conservá-los e transmiti-los às futuras gerações", afirmou Rejean Lussier, um dos estudiosos que participaram do projeto.

De acordo com os responsáveis pelo projeto, nenhum livro contribuiu tanto para a alfabetização e a conservação da língua tradicional da população do Ártico como a Bíblia. (EPC)



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Garoto americano morre após pais adotivos orarem em vez de buscar um médico

Seth Johnson, um sorriso que se apagou devido à negligência e ao fanatismo de quem devia cuidar dele... 

Tristemente, mais uma demonstração de que a religiosidade não serve para desmascarar a depravação humana. A matéria é d'O Globo:

Menino morre 'após seus pais rezarem em vez de chamar um médico'

Criança teve pancreatite aguda e infecção generalizada; Pais são acusados pela polícia

PLYMOUTH, EUA — Um menino 7 anos de idade morreu após seus pais rezarem por ele em vez de levá-lo ao hospital, alega a promotoria pública do estado americano de Minnesota. Os pais, Timothy e Sarah Johnson, foram indiciados por negligência e devem comparecer ao tribunal este mês.

Por semanas, o menino Seth Johnson sofreu de pancreatite aguda e sepse — infecção geral grave —, mas nunca foi levado pelos pais para se consultar com um médico. De acordo com a Justiça, o garoto chegou a ser deixado em casa sozinho sob os cuidados do irmão de 16 anos para os pais irem a um casamento num fim de semana. Na volta, com o filho em um estado de saúde mais crítico, os pais simplesmente oraram para ele e o colocaram para dormir. Apenas quando Seth foi encontrado incosciente e coberto de vômito, os pais ligaram para a polícia.

— Não podemos compreender como um pai deixaria um filho de 7 anos muito doente aos cuidados de um adolescente de 16 anos para que pudesse sair no fim de semana — disse ao "Independent" Mike Freeman, promotor do condado de Hennepin. — Nem podemos compreender como os pais se recusaram a voltar para casa no domingo de manhã para cuidar de seu filho doente quando eles foram avisados de sua condição grave. Também é difícil compreender por que os pais não chamaram uma ambulância no domingo à noite para obter imediatamente ajuda médica quando finalmente chegaram em casa.

PAIS DISSERAM TER 'PROBLEMAS COM MÉDICOS'

Segundo Freeman, apesar de Timothy e Sarah Johnson terem presunção de inocência, a equipe da promotoria usará todos os recursos para que eles sejam considerados culpados.

Um documento de cinco páginas elaborado pelos promotores explica como o casal conheceu Seth aos 3 anos de idade, adotou-o aos 4 anos e o educou em casa. Segundo este mesmo documento, o casal afirmou que o comportamento do menino mudou nas semanas que antecederam sua morte, em 29 de março de 2016. Ele parou de dormir, desenvolveu bolhas nas pernas, lesões nos calcanhares, passou a levar cerca de duas horas para fazer as refeições e, às vezes, jogava-se pelas escadas.

Mas, aparentemente, eles nunca procuraram ajuda profissional porque tinham "problemas com médicos", de acordo com o documento. Em vez disso, eles mesmos diagnosticaram o garoto com transtorno de estresse pós-traumático e lesão cerebral traumática.

Segundo a polícia, o casal afirmou que o menino tinha sido previamente diagnosticado com problemas identificados como síndrome alcoólica fetal e transtorno de apego reativo — quando se sofre de negligência infantil. No entanto, a clínica que os pais deram como referência para a polícia checar essas informações afirmou que não tinha nenhum registro de já ter tratado o menino alguma vez.

Suas feridas foram alegadamente tratadas com pomada antibiótica Neosporin e "mel medicinal". Quando os pais voltaram para casa, na noite em que o menino morreria, eles "oraram por sua saúde", e, depois de darem banho nele, colocaram Seth para dormir. Somente depois de o pai encontrá-lo inconsciente e coberto de vômito, a mãe ligou para a polícia.

O caso não é o primeiro assim a acontecer. No Canadá, um casal cristão teria rezado por duas horas para seu filho diabético que estava morrendo, sem levá-lo ao hospital. E, em outra ocasião, um pai foi preso por se recusar a procurar tratamento médico para seus filhos por causa de crenças religiosas.



domingo, 23 de outubro de 2016

Canadá aos poucos vai se fechando a estrangeiros


Um dos países mais lindos, receptivos e agradáveis do mundo aos poucos vai se rendendo à xenofobia e ao racismo, infelizmente.

A matéria é da BBC Brasil:

O silencioso e inquietante crescimento de grupos racistas e xenófobos no Canadá

Jessica Murphy

No início do mês, pacotes de panfletos da organização supremacista branca Ku Klux Klan foram parar nos degraus de dezenas de casas em duas cidades da Província canadense de British Columbia. O material era similar a papeis deixados em uma comunidade vizinha no verão.

Nas últimas semanas, pôsteres com mensagens contra muçulmanos e a religião monoteísta indiana sikh apareceram nos campi de duas universidades na Província de Alberta.

Esses incidentes contrastam com a imagem do Canadá como país aberto e multicultural, e que recentemente abriu as portas para cerca de 30 mil refugiados sírios.

A polícia investiga os casos, mas ainda não está claro quem está por trás das manifestações.

Para pesquisadores como James Ellis, da Rede Canadense para a Pesquisa sobre Terrorismo, Segurança e Sociedade, os eventos não surpreendem.

"Aqui no Canadá parece haver menos preocupação com o extremismo de direita do que com o de outros tipos", disse. "Há muitas indicações de ressurgência do extremismo de direita e do terrorismo no mundo ocidental e não há razões especiais pelas quais o Canadá não sentiria os mesmos efeitos."

Influência do vizinho

Para Ellis, a extrema direita no Canadá - definida informalmente por apreço à desigualdade social e étnica, crença no nacionalismo étnico e uma forma radical de atingir esses objetivos - se fortaleceu com a retórica anti-imigração que circula nos Estados Unidos.

Assim como em outros países, esse sentimento também é reforçado pela instabilidade social e econômica.

Há cerca de cem grupos de extrema direita ativos no Canadá nos últimos anos - de pequenas a grandes células até grupos mais organizados, embora sejam menos violentos do que os da Europa e EUA.

Apesar disso, Ellis destaca que há uma espécie de "polinização cruzada" das ideias desses grupos, e o Canadá tem sido fonte de muita bagagem ideológica.

"Há muitas situações nas quais o discurso de ódio e as músicas mais violentas se originaram aqui e influenciaram pessoas em toda parte", afirma.

Panfletos da Ku Klux Klan similares aos distribuídos em British Columbia também foram encontrados nos EUA - da Carolina do Norte até a Califórnia e a Pensilvânia.

De acordo com a entidade Southern Law Center, que monitora organizações extremistas e fica no Alabama (EUA), há um crescimento dos grupos radicais de direita nos Estados Unidos.

Entre 2014 e 2015, o número desses grupos cresceu 14%, e o número de células da KKK subiu de 72 em 2014 para 190 no ano passado.

De acordo com o pesquisador Ryan Scrivens, da Universidade de Fraser, em British Columbia, autoridades europeias e americanas têm conseguido monitorar esses grupos de forma mais efetiva do que no Canadá.

"Pensamos que somos esse país perfeito e multicultural, mas não somos. Não vemos as mesmas insurgências aqui porque nossa população é menor, mas eles estão aqui de toda forma", disse Scrivens, que estuda grupos extremistas de direita.

Scrivens e seu grupo de pesquisadores identificaram casos de violência extremista espalhados pelo país e registraram centenas de incidentes entre 1980 e 2015, documentando assédios verbais e físicos, além de atos de vandalismo relacionados a esses grupos.

As atividades estão agrupadas em torno de Quebec, ao oeste de Ontário, em Alberta e no centro de British Columbia.

O monitoramento da violência ligada ao extremismo mostra que os alvos mais comuns são muçulmanos, judeus, minorias mais visíveis e a população aborígene.




Brincando com fogo

Um ex-extremista radical e violento afirma, no entanto, que está mais preocupado com o rumo que a maioria do país está tomando do que com as células extremistas.

O canadense Anthony McAleer era organizador e recrutador no Canadá para o grupo neonazista Resistência Ariana Branca.

Agora ele trabalha para uma organização norte-americana sem fins lucrativos chamada Life After Hate (Vida após o Ódio, em tradução livre), fundada por ex-membros de movimentos radicais de direita e dedicada a combater a ideologia da extrema direita.

Para ele, é preciso se preocupar com a retórica do candidato do Partido Republicano à Presidência dos EUA, Donald Trump - que chegou a sugerir o banimento de muçulmanos do país. "Ele está mexendo com o centro dos EUA, e quando ele empurra esse centro certamente atinge os extremos."

Ele alerta ainda que, apesar de o Canadá não ser afetado pela desigualdade como outras nações e ter sido capaz de integrar refugiados e imigrantes, há uma pressão que pode mudar a cultura do país.

Essas pressões vão desde a retórica de outras regiões que chega via noticiário até grupos anti-islâmicos como o Pegida - um acrônimo para Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente, que se estabeleceu no Canadá.

As propostas de Kellie Leitch, que concorre pela liderança do Partido Conservador no Canadá, incluem revista a imigrantes baseada apenas em "valores canadenses". As medidas foram criticadas por espalharem medo, mas pesquisas de opinião mostram que têm apoio da maioria da população do país.

Além disso, há focos de estagnação econômica nas regiões produtoras de petróleo.

Para McAleer, são esses "influenciadores" que preocupam mais do que os extremistas que operam no país.

"É preciso olhar para os dois com atenção. Um é certamente uma ameaça ao cumprimento da lei. O outro é uma ameaça ao tecido social."

Nós te amamos, Canadá!
Volta pra nós, vai....




quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Como abraçar um muçulmano


A curiosa experimentação social começou muitos meses atrás, quando o mundo ainda estava em choque pelo surgimento do Estado Islâmico, mas não tão apavorado pela selvageria e pelos atentados que se seguiram.

O programa se chamava "Blind Trust Project" ("Projeto Confiança Cega") e consistia em posicionar um rapaz de pé nas ruas de Toronto (Canadá), com os olhos vendados, braços abertos, e com dois cartazes: um dizia "eu sou muçulmano e sou rotulado como terrorista", e o outro "eu acredito em você. Você acredita em mim? Dê-me um abraço então!".

Veja o que aconteceu:


Algum tempo depois, a experiência ocorreu num lugar ainda mais complicado, em Mumbai (antigamente denominada Bombaim) na Índia, onde a histórica rivalidade entre hindus e muçulmanos já levou a guerras e conflitos constantes entre Índia e Paquistão.

Pois foi exatamente lá que um muçulmano se posicionou numa rua com um cartaz dizendo "eu sou muçulmano e acredito em você. Você acreditaria em mim o suficiente para me dar um abraço?".

O resultado você pode ver no vídeo abaixo:



Já houve inclusive a versão francesa do "abrace um muçulmano" pós-ataques a Paris na sexta-feira 13 passada, com os mesmos dizeres e uma profunda emoção, conforme você pode ver no vídeo abaixo:




É interessante ver como as pessoas reagem aos estereótipos, e depois de uma desconfiança inicial se dispõem a encarar os medos individuais e coletivos.

Peço licença aos leitores para contar uma experiência pessoal que ilustra bem o que quero dizer.

Em maio de 2014, durante um voo de Las Vegas (Nevada) a Charlotte (North Carolina), presenciei uma cena que confrontou meus medos e preconceitos.

O voo é longo, dura mais de 3 horas, e confesso que, logo no embarque, estranhei a presença de 5 jovens tipicamente muçulmanos, com suas vestes e barbas que chamavam a atenção.

Confesso que, por um instante, pensei o pior, mas logo me acalmei. 

Afinal, com toda aquela segurança nos aeroportos dos Estados Unidos, em que o passageiro é revistado, tocado, scaneado e quase despido, a probabilidade de alguém mal-intencionado passar incólume é praticamente nula.

Os aviões americanos que fazem os trajetos nacionais têm uma configuração um pouco diferente daquela que estamos acostumados no Brasil.

Os banheiros ficam no meio do avião e os passageiros são instruídos repetidas vezes para não aglomerar na frente deles.

Eu estava sentado numa poltrona do lado do corredor duas fileiras atrás do banheiro, com um jovem militar devidamente fardado na poltrona de trás e, lá pelas tantas, estranhei o fato de um daqueles jovens - aparentemente muçulmanos - estar parado em frente ao banheiro, lívido, se sentindo - ao que tudo indicava - bastante desconfortável.

Novamente, me acalmei e voltei a ler a revista que estava em minhas mãos quando, alguns minutos depois, houve uma barulhenta comoção generalizada logo à minha frente.

Levei alguns instantes (que pareciam uma eternidade) para reparar que o rapaz muçulmano havia desmaiado, e algumas pessoas se reuniam em volta dele para socorrê-lo.

Felizmente, havia vários médicos no avião retornando de um congresso médico em Las Vegas e todos foram rápidos e bastante solícitos em socorrer o rapaz que imediatamente teve uma poltrona liberada ali do lado para se recompor, enquanto recebia os cuidados dos profissionais habilitados para tanto.

Confesso que, por alguns segundos, meu coração saltou à boca e imaginei o pior, mas logo fui alegremente surpreendido pelo fato de que há pessoas que não se assustam com os estereótipos e se apressam em fazer o melhor que podem para socorrer alguém. 

Vergonha para mim.

Chegamos todos sãos e salvos a Charlotte e, na sala de conexões, os mesmos 5 rapazes apareceram para tomar um voo para Londres no portão ao lado daquele que me traria de volta a São Paulo. 

Pausa, claro, para refletir sobre como nossas reações são condicionadas pelo medo (e pelo inconsciente) coletivo e - felizmente - na imensa maioria das vezes, estamos equivocados.

Claro que tudo que tem acontecido no mundo em termos de fanatismo, decapitações, terrorismo e intolerância religiosa não pode ser explicado na simplificação de um discurso do abraço, mas não custa nada sonhar e manter a esperança de que dias melhores virão.

É o que nos resta, afinal!

Jamais despreze o poder de um abraço. Sim, pode ser que um abraço mude o mundo. 

Pelo menos um pouquinho...



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A incrível história do rapaz gay ex-muçulmano, hoje cristão, que mudou seu nome para João Calvino


John Calvin, atual nome do rapaz da foto acima, tem origem palestina, nascido numa família muçulmana de sobrenome Bilal e ligada ao Hamas. 

Homossexual desde que se entende por gente (segundo ele diz), se converteu ao cristianismo em 2010, o que lhe causou ser ameaçado de morte pelo pai e expulso de casa.

Hoje John Calvin busca refúgio no Canadá, que lhe foi negado (por enquanto).

Essa incrível história de vida é real e foi publicada na Folha de S. Paulo de 07/01/2015:

Minha História: gay e cristão, jovem foge de família ligada ao Hamas

DEPOIMENTO A
DIOGO BERCITO
EM ROMA

RESUMO
John Calvin, 24, nasceu na cidade palestina de Nablus em uma família de líderes do Hamas. Gay e cristão convertido, enfrentou desde jovem a autoridade de seus pais. Em 2010, fugiu para o Canadá, onde adotou o nome do teólogo cristão João Calvino. Hoje, ele luta para não ser deportado –o que, segundo ele, significaria a sua morte.

Venho de uma família influente em Nablus (Cisjordânia). Meu avô, Said Bilal, foi um dos fundadores da Irmandade Muçulmana na Palestina e na Jordânia. Cresci chamando Abd al-Fattah Dukhan, um dos fundadores do Hamas, de "avô".

Todos os meus tios são parte da liderança do Hamas. Dois deles estão na prisão, sentenciados a mais de uma vida detidos. Meu pai não esteve tão envolvido quanto eles no terrorismo.

Crescer foi horrível. Minha família sempre tinha alguém na cadeia, fazendo coisas ruins. Não temos uma refeição de família com todos em liberdade desde 1992. Soldados entravam e saíam o tempo todo das nossas casas.

Havia uma vantagem, que era ser tratado de maneira especial devido ao sobrenome do meu avô. Sou o primogênito da família, e havia grandes expectativas sobre mim.

Estudei doutrina islâmica e acumulei bastante conhecimento sobre o Alcorão, o livro sagrado do islã. Mas, aos 14 anos, desenvolvi meu próprio sentido de lógica, e as coisas pareciam contraditórias. Questionei minha família e, aos 16, parei de ser muçulmano. Vivia num limbo.

Foi uma grande decepção para a minha família. Briguei com o meu pai por isso, em 2006, e fugi para Israel, onde ele não poderia me encontrar.

Eu não tinha permissão para cruzar a fronteira. Fiquei uma semana em Tel Aviv, nas ruas, até me pegarem.

Como já tinham me detido três vezes, me mantiveram por alguns meses, mesmo sendo menor de idade.

Fiquei alguns meses detido em uma prisão especial. Havia um outro jovem de Nablus, e ele me estuprou.

AJUDA


A coisa que me surpreendeu foi como fui tratado pelos funcionários israelenses após ser estuprado. Parecia que todo mundo se dedicava a me ajudar. Contrataram um psiquiatra, pago pelo contribuinte israelense. Eles mostraram compaixão.

"Judeus dedicam a vida toda a destruir muçulmanos", me ensinaram. Eu vi que isso não era verdade.

Em Nablus, ninguém me ajudava. Eu não tinha amigos. Os funcionários do serviço social de Israel me ligavam discretamente.

Tentaram falar com minha mãe sobre o estupro, mas ela não quis ouvi-los. Preferiu fingir que não sabia falar inglês com eles.

Me converti ao cristianismo em 2010. Eu já não me considerava muçulmano desde os 16 anos. Li a Bíblia e fez mais sentido do que tudo o que eu tinha conhecido durante toda a minha vida.

Minha mãe me ouviu ao telefone pedindo a um padre para ser batizado. Meu pai brigou comigo. Foi a primeira vez em que ele tentou me matar. Ele tentou me esfaquear. Fugi e passei um tempo na igreja.

Fui detido por apostasia [quando alguém renuncia a uma religião] –em Nablus, eles chamaram isso de "perturbar a ordem", em termos oficiais.

Quando fui solto, minha mãe me disse que meu pai planejava me matar. Ela pediu para eu sair do país. Tive duas horas para fugir.

Graças a Deus, não tive problemas na fronteira, apesar de meu nome estar numa lista de pessoas procuradas. Havia um erro de digitação no passaporte.

REFÚGIO


Era 2010. Fui à Jordânia e, depois, recebi uma bolsa de estudos no Canadá. Pedi asilo, mas o governo canadense diz que não posso entrar com o pedido, porque fui membro de uma organização terrorista [o Hamas].

Eu disse, por outro lado, que meu envolvimento com a minha família não pode ser considerado como participar de um grupo terrorista.

Agora no Ano-Novo, me avisaram que tenho até 30 dias para pedir a revisão dessa decisão.

Um amigo começou uma petição on-line e uma arrecadação de fundos para pagar os custos legais e advogado. Não quero ir para outro lugar. O Canadá é o meu lar.

Ser deportado não é uma opção. Isso não pode acontecer. Mas estou otimista. O melhor cenário é conseguir um segundo julgamento. Voltar a Nablus significaria a morte, para mim, por apostasia e porque eu sou gay.

Eu sempre soube que era homossexual, mas não aceitava. Tinha necessidades e interações sexuais, por volta dos 15 anos, mas não tinha namorados. Só comecei a aceitar em 2012, no Canadá.

Não é possível ser gay em Nablus. Isso não é nem discutido. Só usamos essa palavra em xingamentos.

Quando contei à minha mãe, por telefone, ela me disse: "Eu não esperava que você pudesse me dar um desgosto pior do que ter se convertido. Há alguma coisa de ruim que você não é?"



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Papa Francisco teve papel essencial no reatamento entre EUA e Cuba

peace

Ontem, 17 de dezembro de 2014, não por acaso dia em que o papa Francisco completou 78 anos de idade, o mundo não poderia ter recebido presente melhor: o descongelamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, após 53 anos de mutismo, espionagem e incompreensão de lado a lado.

Ainda é cedo para que se normalizem as relações entre ambos os países, mas o passo dado ontem foi gigantesco. Significa, na prática, o fim de uma era onde a "guerra fria" imperou, fazendo com que as partes capitalista e comunista do globo se enfrentassem localizada e sistematicamente em qualquer região onde houvesse a possibilidade da troca de um regime pelo outro.

A queda do muro de Berlim em 1989 e o esfacelamento da União Soviética em 1991 foram os dois outros acontecimentos, nesse processo histórico, que podem se comparar em magnitude ao que ocorreu ontem, com o anúncio simultâneo da retomada dos laços diplomáticos pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro.

O PAPEL DO VATICANO E DO CANADÁ


Ainda não se conhece com exatidão qual foi o papel que o papa Francisco desempenhou nas conversações entre ambos os presidentes, mas o simples fato dele ter sido referido nos discursos dos dois mandatários revela o quanto sua participação foi importante, além, obviamente, do fato do anúncio do acordo ter sido feito no dia do aniversário do pontífice.

Segundo as primeiras informações, o papa Francisco teria escrito carta aos líderes dos dois países incentivando o diálogo. Não se pode esquecer ainda a importância  das visitas anteriores a Cuba dos  papas Bento XVI e João Paulo II, que deram sua contribuição para pavimentar o longo e difícil processo de paz.

Outro grande facilitador do diálogo entre EUA e Cuba foi o Canadá, segundo anunciou também ontem o primeiro-ministro canadense Stephen Harper, embora sem especificar em que extensão se deu essa colaboração. Apenas se sabe que diplomatas cubanos e estadunidenses se reuniram várias vezes sob os auspícios das representações diplomáticas do Canadá.

OS INCENDIÁRIOS BRASILEIROS


De qualquer maneira, é impossível não notar o contraste entre a posição do líder católico com a de muitos pastores evangélicos brasileiros, que fizeram de tudo durante a última campanha eleitoral para demonizar Cuba, e não foram capazes de levantar uma oração em favor da paz entre os povos.

Essas figuras, entre as quais o candidato derrotado à Presidência da República, pastor Everaldo, não perderam nenhuma oportunidade para estigmatizar o governo cubano a fim de obter ganhos políticos, e não devem estar nada satisfeitos ao ver que o próprio Barack Obama já negociava secretamente o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba.

OS PRÓXIMOS DESAFIOS


Há muitos desafios à frente, mas dois se destacam. O primeiro é o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, que depende da aprovação do Congresso Americano, hoje sob comando dos republicanos, que não só são adversários ferrenhos de Obama como sofrem influência do eleitorado cubanodescendente, majoritariamente concentrado no Estado da Flórida, do qual o senador Marco Rubio é o principal porta-voz.

O segundo desafio é saber qual a extensão das reformas democráticas que serão feitas em Cuba para que o país finalmente chegue ao século XXI no campo das liberdades e da cidadania. A tão desejada "solução biológica", que implicava em esperar a morte de Raúl Castro e seu irmão Fidel, ficou para trás, mas algo deverá ser feito para garantir ao país uma transição segura para a plena democracia e a economia de mercado, o que não será nada fácil.

De qualquer maneira, o mundo está hoje um pouco melhor, ou, como diriam os pessimistas, um pouco menos ruim.



quarta-feira, 19 de março de 2014

Sarampo avança e levanta questões éticas e religiosas nos EUA e Canadá


O sarampo, essa velha e infecciosa doença, quem já não teve?

Bem, a geração mais jovem no Brasil nem sabe o que é isso porque foi devidamente vacinada, assim como as crianças de hoje em dia, mas aqueles que, como eu, tinham menos de 10 anos de idade no início dos anos 1970, em sua maioria, tiveram sarampo (tristemente com algumas vítimas fatais) porque a vacinação ainda era incipiente ou inexistente em muitas regiões do país.

Lembro-me, por exemplo, que meu irmão - 3 anos mais velho que eu - esteve à beira da morte quando tinha 10 anos de idade, e jamais me saíram da mente as imagens dele indo e voltando do hospital prostrado na parte traseira do jipe do meu pai, ou do quarto escuro em que ele ficava o dia inteiro convalescendo.

Essas imagens estão indelevelmente gravadas na minha memória, muito provavelmente, porque foi o primeiro contato que eu tive com a possibilidade da morte de uma pessoa tão próxima. Os médicos praticamente o haviam "desenganado" (como se dizia naquela época para os casos terminais), mas Deus foi gracioso e - com o devido louvor à medicina da época - o trouxe de volta à família e à vida.

O sarampo em mim foi, digamos, mais light, e serviu apenas para entrar na minha vasta coleção de doenças contagiosas infantis: caxumba, coqueluche, catapora e rubéola, entre outras. Nada de que me orgulhe, mas sobrevivi, assim como meu irmão, graças ao bom Deus.

Escapamos por pouco da poliomielite, por exemplo, já que um amigo de infância do meu irmão não teve a mesma sorte de resistir ao vírus da paralisia infantil a tempo de ser vacinado já no fim dos anos 1960, e até hoje sofre as sequelas da pólio.

Minha irmã 9 anos mais nova não soube o que é isso, pois teve a felicidade de nascer numa era (1972) em que já era obrigatória e amplamente disponível a vacinação em massa contra os males que acometiam as crianças.

Tomo a liberdade de registrar aqui essas reminiscências de saúde pública da minha infância porque chegam notícias assustadoras dos Estados Unidos e do Canadá, que dão conta do avanço de uma epidemia de sarampo lá pelos lados do primeiro mundo, cuja principal causa é exatamente a falta de vacinação das crianças norteamericanas.

No Brasil, as últimas duas mortes por sarampo aconteceram em 1999, segundo informa o Hospital Albert Einstein. A Folha de S. Paulo registrava em fevereiro de 2014 que há um rebrote da doença no país e só o Estado do Ceará tinha registrado 81 casos até então.

A mesma matéria da Folha informa que o Brasil já havia tentado, em 2010, receber da Organização Pan-Americana de Saúde o certificado de país livre de sarampo, o que foi rejeitado porque a OPAS extinguiu essa classificação e passou a considerar o continente americano como um todo, o que a levará a emitir um certificado geral se e quando o mal for totalmente erradicado do Alaska à Terra do Fogo.

Tudo indica, portanto, que o grande foco de sarampo no continente é a sua porção Norte, onde estão exatamente os dois países mais desenvolvidos, Canadá e Estados Unidos, e é muito provável que o vírus que circula no Brasil tenha sido "importado" de lá pelos turistas que visitam a região.

O fato alarmante é que muitos pais americanos e canadenses vêm se recusando, desde longa data, a vacinar seus filhos contra o sarampo.

Isto tem feito com que um número crescente de médicos dos Estados Unidos também se recuse a tratar crianças que não foram vacinadas, segundo informa o The Daily Beast.

Obviamente, essa recusa médica em cuidar de crianças levanta questões éticas de altíssima prioridade, pois o interesse primordial que está em jogo é o dos pequeninos que não podem emitir a sua própria opinião, seja por incapacidade natural de se entender a questão em tão tenra idade, seja pela ignorância daqueles que deveriam tomar as decisões corretas em nome deles.

Entre as razões variadas que os pais alegam para não vacinar os seus filhos estão questões de preferência por medicina alternativa, o medo de que a vacina contra sarampo e rubéola cause autismo, e também objeções de cunho religioso.

Neste último caso, chama a atenção um pastor de Chilliwack (Colúmbia Britânica, Canadá), Rev. Adriaan Geuze da Congregação Reformada da América do Norte, que prega que a vacinação contra doenças infantis é uma interferência humana no cuidado de Deus para com suas criaturas, segundo informa The Vancouver Sun.

O Rev. Geuze afirma que "nós deixamos nas mãos de Deus. Se é da vontade dEle que nós peguemos uma doença contagiosa, como neste caso do sarampo, há outras maneiras, naturalmente, de se evitar isso. Se ficarmos doentes, Ele também pode nos curar".

Este descaso para com a saúde infantil já causou o registro de 100 crianças infectadas com sarampo em uma escola confessional de Chilliwack, o que alarmou as autoridades sanitárias locais.

Indagado sobre sua influência na recusa da população local em vacinar seus filhos, o Rev. Geuze se justifica dizendo: "Naturalmente, eu expresso abertamente o meu ponto de vista de acordo com a Bíblia, mas não é que eu os forço. É através da consciência deles que eles têm que agir. Eles esperam de mim que eu emita a minha opinião de maneira clara".

Portanto, nuvens negras (e medievais) assombram as terras mais ao Norte do continente americano. Esperamos que as crianças de lá, se e quando infectadas pelo sarampo, tenham a mesma sorte do meu irmão. E que dramas - hoje desnecessários e perfeitamente evitáveis -  como o que vivemos não sejam experimentados por milhões de famílias ao redor do mundo.



domingo, 7 de julho de 2013

Canadá não é mais o escoteiro do mundo. Graças a um evangélico.


O Canadá sempre foi uma espécie de "bom moço" da diplomacia e da economia global, aquele cara que, se você fosse um país, adoraria ter como genro. 

Agora, a julgar pela matéria abaixo, publicada no Estadão em 30 de junho de 2013, essa fama acabou graças ao atual primeiro-ministro canadense, o evangélico Stephen Harper, que é uma espécie de Malafaia da política local.

E, apesar de tudo o que você vai ler a seguir, pode ter certeza de que o governo canadense ainda vai ter a cara de pau de insistir com seu par brasileiro para preservar a Amazônia:

Arrogância e cobiça mudam imagem do Canadá

Obsessão do premiê Stephen Harper pela exploração do petróleo extraído de depósitos de betume faz com que o país deixe de ser o escoteiro global

ANDREW NIKIFORUK

Durante décadas, o mundo pensava no Canadá como o cordial vizinho dos EUA, uma terra responsável, séria, apesar de um tanto entediante, de torcedores de hóquei e de um sistema de saúde universal e abrangente. Sobre as grandes questões, há muito que ele fazia o papel de escoteiro global, oferecendo uma liderança moral em tudo, da proteção da camada de ozônio à erradicação de minas terrestres e os direitos dos gays.

O romancista Douglas Adams, certa vez, ironizou e disse que, se os EUA se comportavam normalmente como um adolescente belicoso, o Canadá era uma mulher inteligente na faixa dos 30. Basicamente, o Canadá era os EUA - não como eles são, mas como deveriam ser. No entanto, um segredo tenebroso espreita as florestas setentrionais do país.

Ao longo da última década, o Canadá se transformou, com grande alarde, em um centro internacional de mineração e um Estado petrolífero irresponsável. Ele já não é a metade melhor da América, mas uma visão distópica do futuro empapado de energia do continente.

Uma coisa é certa: o bom vizinho atrelou sua economia ao elixir amaldiçoado da disfunção política - o petróleo. Ofuscado pelas visões de se tornar uma superpotência energética global, o governo do Canadá se mancomunou com evangelistas dos oleodutos, valentões do petróleo e céticos da mudança climática. Ocorre que o escoteiro não está apenas viciado em petróleo bruto - ele se tornou um traficante. E isso ainda não é o pior de tudo.

Agora que o petróleo e o gás correspondem a aproximadamente um quatro de suas receitas de exportação, o Canadá perdeu sua tradicional cordialidade. Desde que o Partido Conservador conquistou maioria no Parlamento, em 2011, o governo federal atacou ambientalistas, nações indígenas, comissários europeus e praticamente todos os que se opuseram à produção irrestrita de petróleo.

O governo amordaçou cientistas estudiosos das mudanças climáticas, cassou o financiamento a todo tipo de ciência ambiental e, em leis sem precedentes, desmantelou sistematicamente a muito elogiada legislação ambiental mais significativas do país.


O autor dessa metamorfose é o primeiro-ministro Stephen Harper, um cristão evangélico e "rato político" de direita com base eleitoral em Alberta, marco zero do boom petrolífero do Canadá. Do jeito que Margaret Thatcher baseou a renovação política da Grã-Bretanha na receita do petróleo do Mar do Norte, Harper pretende reformar toda a experiência canadense com petrodólares extraídos do solo.

No processo, ele concentrou poder no escritório do primeiro-ministro e reorientou as prioridades externas do Canadá. Harper, que assumiu o cargo em 2006, aumentou os gastos com Defesa em US$ 1 bilhão, anualmente, em seus primeiros quatro anos, e comprometeu US$ 2 bilhões para a expansão de prisões com uma política de "endurecimento ao crime" que faz vista grossa à queda da taxa de criminalidade do país. Enquanto isso, o Canadá acumulava uma enorme dívida federal - a mais alta de sua história, de cerca de US$ 600 bilhões.

Os críticos liberais gostam de dizer que a revolução política de Harper pegou muitos canadenses, em geral pessoas gordas e apáticas, de surpresa. Isso pode ser verdade, mas, embora os canadenses vivam em latitudes altas, eles não estão acima dos instintos humanos mais baixos - como a ganância.

Harper fez uma aposta econômica no petróleo, o recurso natural mais volátil do mundo, prometendo uma nova prosperidade nacional com base em riquezas inexploradas distantes de onde a maioria dos canadenses vive que encherão seus bolsos por gerações. Com o apoio de quase três quartos dos canadense, tudo indica que Harper está convencendo o país.

O recurso natural que está por trás de muitas dessas mudanças comportamentais nefastas é o betume, um petróleo bruto pesado e ácido extraído de areias petrolíferas. Os depósitos da substância muito degradada, parecida com asfalto, repousam sob uma floresta do tamanho da Flórida, no nordeste de Alberta, e representam a terceira maior reserva de petróleo do mundo.

Ao longo da última década, enquanto os preços do petróleo quintuplicavam, as companhias petrolíferas investiram aproximadamente US$ 160 bilhões para desenvolver o betume de Alberta até ele se tornar lucrativo.

Hoje, o Canadá produz 1,7 milhão de barris por dia de betume e a produção programada deve encher os cofres dos governos provincial e federal com cerca de US$ 120 bilhões em arrendamento e royalties até 2020. Mais de 40% dessa receita vão diretamente para o governo federal ,principalmente na forma de impostos corporativos. Mas o governo quer ainda mais e está se empenhando para a produção atingir 5 milhões de barris por dia até 2030.

Pouco importa que o processo todo seja confuso e perdulário. Ele requer quantidades copiosas de água, capital e energia para escavar as areias ricas em carbono, para não falar de melhorar e processar o óleo bruto pesado, que não dá nem para escoar por um oleoduto se não for previamente diluído num condensado importado semelhante à gasolina.

Com o maior descaramento, o governo ainda defende o megaprojeto de Alberta como "responsável" e "sustentável" - "um empreendimento de proporções épicas, comparável à construção das pirâmides ou à Grande Muralha da China, só que maior". De fato: os projetos de extração do betume aprovados poderiam escavar uma área florestal seis vezes o tamanho da cidade de Nova York. Recuperação e reflorestamento continuam sendo uma proposta incerta e cara. Até agora, as companhias petrolíferas já criaram lama tóxica de mineração suficiente (6 bilhões de barris) para inundar Washington.

Não espanta que Ottawa tenha se tornado mestre na arte cínica da falsa responsabilidade ambiental. Quando ministros de Harper não estão atacando o ex-cientista da Nasa James Hansen nas páginas do New York Times ou fazendo lobby contra as normas para a qualidade de combustíveis da Europa (que considera o betume mais poluente do que o petróleo convencional), seu governo gastou US$ 100 milhões, desde 2009, em anúncios para convencer os canadenses de que exportar esse petróleo é um "desenvolvimento responsável de recurso natural".

Cobiça. Ao mesmo tempo, o Canadá fez de tudo para seduzir Pequim. Três companhias petrolíferas estatais chinesas (todas com histórico lamentável em transparência) já gastaram mais de US$ 20 bilhões comprando direitos de exploração das areias petrolíferas de Alberta. A bajulação da China, hoje a maior consumidora de petróleo do mundo, mostra o dilema do betume do Canadá: como levar petróleo sujo enterrado no chão a mercados globais.

Os EUA, o maior cliente do Canadá, não parecem necessitar mais dele. As importações caíram mais de 4 milhões de barris por dia, entre 2005 e 2011, e com os projetos de oleodutos para os EUA atolados na lama, a visão de Harper de ser uma "superpotência energética emergente" parece em perigo.

Não espanta que Harper tenha encerrado as críticas ao histórico de direitos humanos da China. Como deixa claro um documento secreto de política externa vazado, no ano passado, para a Canadian Broadcasting Corp. (CBC), o Canadá tem novas prioridades: "Para vencermos, precisamos buscar relações políticas combinadas com os interesses econômicos, mesmo onde os valores e interesses políticos possam não se alinhar".

Em 2012, o Canadá assinou silenciosamente um acordo comercial com a China e aprovou uma compra de US$ 15 bilhões da Nexen, operadora em areias petrolíferas, pela China National Offshore Oil. Agora que as areias petrolíferas respondem por quase 10% das emissões de gases estufa do Canadá, Ottawa não pode tolerar nenhuma discussão sobre um imposto do carbono, embora a maioria dos canadenses seja a favor.

Harper descreveu o Protocolo de Kyoto como "um esquema socialista" e um acordo "destruidor de economias e eliminador de empregos" antes de se retirar por completo dele, em 2012. Muitos ministros canadenses hoje são céticos até mesmo da ciência por trás das mudanças climáticas. Como explicou o ministro dos Recursos Naturais, Joe Oliver: "Creio que as pessoas não estão tão preocupadas como estavam antes sobre o aquecimento global de 2 graus. Os cientistas nos disseram que nossos temores são exagerados".

Para silenciar opositores, o governo simplesmente parou de financiar a Canadian Foundation for Climate and Atmospheric Sciences, desmantelou o Environment Canada's Adaptation to Climate Change Research Group e eliminou o papel de consultor chefe de ciência. E, desde 2008, os dirigentes políticos vetaram todos os pedidos de recursos para 23 mil cientistas federais do país.

Depois que o governo proibiu um cientista de falar sobre a descoberta de um grande buraco na camada de ozônio no Ártico, um editorial, em 2012, na influente publicação científica Nature pediu que Ottawa "libertasse seus cientistas". Ao que parece, Harper não ouviu: seu governo fechou sumariamente a mundialmente famosa estação de pesquisa Experimental Lakes Area, uma joia da ciência experimental canadense, que ajudou a instigar uma política global sobre a chuva ácida, para economizar a soma principesca de US$ 2 milhões por ano (embora o governo de Ontário esteja trabalhando para mantê-la aberta).

A continuação obstinada desse projeto petrolífero tem assombrado analistas. A revista Economist, que não é nenhum farol de esquerda, caracterizou Harper, o filho de um contador da Imperial Oil, como um valentão "intolerante com críticas e dissidentes" com um hábito contumaz de violar as regras.

Lawrence Martin, um dos comentaristas políticos mais influentes do Canadá, diz que "a governança no porrete" de Harper desbravou "novos terrenos na subversão do processo democrático". O especialista em pesquisas eleitorais conservador Allan Gregg descreveu a agenda de Harper como um "assalto ideológico a evidências, fatos e razão".

Plano. O governo Harper tem um único plano para enfrentar as mudanças climáticas: empurrar o problema para EUA e China. O petróleo bruto das areias petrolíferas transportado para os EUA pelo oleoduto Keystone XL, por exemplo, poderia aumentar, em 50 anos, as emissões de carbono em até 935 milhões de toneladas métricas em relação a outros petróleos brutos.

O planejado oleoduto Northern Gateway, de US$ 5,5 bilhões, de Alberta ao Oceano Pacífico, resultaria num aumento de 100 toneladas métricas de emissões de dióxido de carbono por ano, da extração e produção no Canadá à queima na China - mais do que as emissões totais da Colúmbia Britânica em 2009.

O Relatório sobre Estoque Nacional de 2012 do Environment Canada, departamento ambiental do país, diz que o Canadá reduziu parcialmente a intensidade das emissões totais nas areias petrolíferas "exportando mais betume bruto".

Tudo isso ressalta a nova realidade do Canadá: praticamente todo tipo de evidência racional está sendo atacada por um governo que acredita que os mercados - e somente eles - têm as respostas. Toda lei que o setor considere um obstáculo à rápida extração mineral ou à construção de oleodutos tem sido reescrita com floreios ao estilo saudita.

Uma única lei orçamentária abrangente alterou 70 outras leis, eliminando, por exemplo, a Lei dos Pesqueiros, que proibia diretamente a destruição de hábitats de vida aquática e estava no caminho do oleoduto Northern Gateway, que terá de cruzar 1.000 cursos d'água até o Oceano Pacífico.

Ao mesmo tempo, o financiamento do emblemático sistema de parques do Canadá foi cortado em 20%, o que os críticos chamaram de "lobotomia". A CBC, respeitada emissora estatal há muito ironizada por Harper como uma crítica independente do poder, sofreu uma série de cortes.

O Conselho de Saúde, que já assegurou padrões nacionais e inovação nas 13 províncias e territórios também sofreu cortes. Além disso, com o ímpeto de um príncipe do Oriente Médio, Harper nomeou o chefe de sua segurança embaixador na Jordânia. E fez tudo isso sem um pio do povo canadense.

Há mais de uma década, o cientista político americano Terry Lynn resumiu a disfunção dos Estados petrolíferos: países que se tornam dependentes demais das riquezas de petróleo e gás se comportam como economias de plantation, que dependem de uma trajetória de desenvolvimento insustentável alimentada por um recurso esgotável" cujos fluxos de receita formam "uma barreira implacável para mudanças".

Foi o que ocorreu com o Canadá enquanto ninguém estava olhando. Preso à arrogância de um líder que sonha em construir uma nova superpotência energética global, o escoteiro virou escravo de sua própria cobiça. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK





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