Mostrando postagens com marcador montanismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador montanismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de junho de 2010

Montano e o montanismo


Montano, profeta que se revelou inopinadamente na Frígia, por volta dos anos 155-160, afirmava ser porta-voz do Espírito Santo e que, em sua própria pessoa, se encarnara o Paráclito prometido em João 14,16; 16,7; fundador do montanismo.

As motivações de sua afirmação são desconhecidas, mas o que lhe aplainou a estrada foi o mal-estar difuso na cristandade de seu tempo, por se haver enfraquecido a expectativa dos últimos tempos e entorpecido o fervor espiritual, ou seja, a consciência de se terem tornado tíbios em relação à vida cristã dos primeiros tempos. Os numerosos escritos de Montano e das duas mais importantes profetisas Prisc(il)a e Maximila, se perderam; apenas restam poucos oráculos transmitidos diretamente. Aquilo que sabemos sobre Montano e sobre o movimento a que deu vida é de fonte indireta (sobretudo Eusébio, História Eclesiástica 5,14-19 e Epif., Haer. 48s, que se valem dos primeiros escritos antimontanistas). Montano é inseparável o movimento da “nova profecia” (à qual, em seguida, os adversários deram, com intenção depreciativa, o nome de “montanismo”).

Caracteres e doutrina do montanismo. Os traços mais característicos são, antes de tudo, a glossolalia e uma linguagem espiritual tendente ao êxtase e ao entusiasmo. Tanto Montano quanto Priscila e Maximila (mas nenhum outro) pretendem ser a voz de Cristo e do Espírito Santo. Eles falam, por isto, com a autoridade deste Espírito e exigem fé incondicional e absoluta obediência às suas ordens. Negam toda autoridade eclesiástica. Conteúdo de sua profecia é o iminente fim do mundo, que Maximila prognostica para o tempo imediatamente posterior à sua morte. As guerras estouradas sob Marco Aurélio são interpretadas como sinais premonitórios. Como preparação para o fim são prescritos uma moral rigorosamente ascética, com a proibição do matrimônio (em seguida, apenas das segundas núpcias), jejuns severos, consistentes esmolas de toda espécie; encoraja-se o martírio, é probido subtrair-se às perseguições. Em referência a Apocalipse 21,1.10, a Nova Jerusalém, descida do céu, deverá localizar-se em Pepuza ou em Tymion (Frígia). Os crentes devem encontrar-se ali por ocasião da chegada do Senhor. Nenhuma posição herética, porém, é tomada no plano dogmático: permanecem no terreno da ortodoxia. Apenas mais tarde sustentou-se o contrário. Que os montanistas professassem também a ressurreição da carne é atestado explicitamente. O movimento é de restauração, até mesmo reacionário, não interessado em questões teológicas, e mesmo ingênuo. Alimenta-se com as antigas tradições proféticas e apocalípticas. A finalidade é reavivar e restaurar, com o recurso à autoridade do Paráclito, a antiga situação da igreja: eficácia do Espírito, falar em línguas, espera dos últimos tempos, ética rigorosa.

História do movimento. A doutrina do montanismo, dificilmente atacável do ponto de vista dogmático, criou dificuldades para a Igreja; não foi fácil a esta combatê-la eficazmente. Na Ásia Menor reuniram-se vários sínodos (provavelmente os primeiros da história da Igreja: Eusébio, HE 5,16,10; Anônimo) para porem um freio à expansão do movimento, perigosamente rápida e bem depressa também organizada. O ponto em que se centrava toda a questão era se se deveria considerar a “nova profecia” como uma real efusão do Espírito ou, então, como uma possessão demoníaca. Os meios tradicionais para desmascarar os falsos profetas (cf., por ex., as indicações da Didaquê) não eram suficientes ou não conseguiam golpear o movimento. Não bastava nem a exigência de um discurso mais claro nem a suposição de que os montanistas teriam sugestionado os bispos “consencientes”, impelindo-os á adesão (Eusébio, HE 5,16,17). Nem mesmo com o apelo às Escrituras do Antigo e do Novo Testamento obtiveram-se resultados. De fato, Montano, com a pretensão de que nele falava o Paráclito, afirmava estar acima da própria autoridade das Sagradas Escrituras.

Todavia, o movimento foi excomungado pela igreja naqueles sínodos microasiáticos e, com isto, forçadamente reduzido às dimensões de uma seita. O que por fim o levou à ruína foi a pretensão que se arrogara a si mesmo, e que contrastava com a exigência da Igreja de manter a tradição (normas canônicas, profissões de fé, ofício). Apesar disto, a seita se expandiu ulteriormente até no Ocidente. Em Roma parece que por longo tempo se haja levado em consideração seu reconhecimento (por volta de 177-8), impedido depois por Práxeas (Tertuliano, Adv. Prax. 1). Na Gália conheciam-se, neste mesmo período, adeptos de Montano, e seu talento profético suscitava grande impressão. Os mártires de Lião escreveram, em favor dos montanistas (evidentemente contra a opinião de outros setores da comunidade), cartas à comunidade da Ásia e da Frígia e ao bispo de Roma Eleutério, a fim de que se empenhassem na reconciliação. Quando, com a morte de Maximila (179), o fim do mundo por ela profetizado para aquele momento não se verificou, o movimento não se desconcertou, mas a frenética expectativa do fim foi aos poucos minguando nos montanistas, sem no entando extinguir-se completamente (cf. a relação de Firmiliano, Cipr., Ep. 75,10).

Começou nova fase do movimento (a partir de 200 aprox.), caracterizada principalmente por uma acentuação do rigorismo moral. Com isto estava preparado o desenvolvimento, com o qual o montanismo se auto-supera gradualmente dentro da própria Igreja. O movimento fez a experiência de que o espírito profético não podia naquela circunstância ter êxito, coisa que, antes dele, a igreja primitiva já havia provado. O representante mais importante do montanismo da segunda geração foi Tertuliano que, em 207, passou para o montanismo, sobretudo pelo motivo de seu forte rigor ético. Os numerosos escritos ascéticos e dogmáticos do período posterior ilustram, portanto, a personalidade de Tertuliano montanista, mas do que dão um quadro do movimento. Contudo, também Tertuliano reconheceu expressamente a função histórico-salvífica que Montano se havia arrogado. Com ele, qual Paráclito, ter-se-ia aberto nova fase da revelação divina, além da neotestamentária.

A história posterior do movimento não registra mais, como é natural, momentos de particular destaque. Os montanistas são ainda mencionados pelos escritores eclesiásticos posteriores, comparecem nas listas dos hereges, e são mencionados regularmente nas leis estatais contra os hereges, até o séc. VI. Isto não depõe necessariamente a favor de uma sobrevivência de certo modo significativa do movimento. Apenas na Frígia, e sobretudo em Pepuza, parece que a igreja montanista tenha continuado a manter alguma vitalidade. Pepuza foi a sede do governo da seita, dotada de uma estrutura organizativa intercomunitária (Jerônimo, Ep, 41,3s). No séc. IV, Epifânio (Haer. 49,1,2-4) fala de alguns montanistas que, para receberem a aparição de Cristo, dormiam no templo.

(“Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs”, Ed. Vozes e Ed. Paulinas, 2002, pp. 959-960)

Disponível no portal e-cristianismo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

As benzedeiras evangélicas

Dona Zefina era a benzedeira oficial da cidade em que nasci e cresci. Naquele tempo, não tão longínquo assim (anos 70), as benzedeiras estavam sempre a postos para os problemas corriqueiros de quebranto, mau-olhado, espinhela caída, e tantas outras crendices populares que as apontavam como única e melhor solução. Filho de uma família católica não praticante, a exemplo da imensa maioria das famílias da cidade, minha mãe sempre me levava para a D. Zefina benzer ao menor sinal de algum problema misterioso que só a superstição conhecia. D. Zefina era uma senhora negra já idosa, que, com suas rezas e águas bentas, sustentava a família enorme e humilde. Não cobrava nada pelos seus “serviços”, mas todo mundo sempre deixava uma lembrancinha. Lembro-me que ela gostava particularmente das sandálias e dos chinelos que minha mãe lhe dava (havaianas, é claro!). O ritual de “benzimento” era um espetáculo à parte, prova cabal do sincretismo dos rituais católicos com a pajelança e a religiosidade africana. Minha alma de criança achava aquilo tudo lindamente misterioso. Sentávamos num cubículo escuro, na frente de imagens de santos e muitas velas coloridas, enquanto D. Zefina movia um terço pra lá e pra cá, hipnoticamente, pronunciando repetitivamente palavras incompreensíveis, que meus amigos e eu, na nossa ingenuidade, tentávamos reproduzir na escola, algo como “santeverezesp, santeverezesp, etc.”. Fazia também pausas intermináveis enquanto bocejava deliciosamente fazendo um ruído bem alto, capturando-nos numa espécie de encanto infantil. Afinal, éramos todos crianças no espírito, sem saber exatamente o que significava todo aquele misticismo.

O tempo passou, eu me converti a Cristo, e deixei as coisas de menino, embora visse nisso tudo uma busca incessante de Deus, ainda que em lugares e por modos equivocados. Na verdade, foi Ele que me alcançou, hoje bem sei. Perambulei por cidades maiores, e nunca mais soube da D. Zefina. Gostava dela, espero que tenha tido oportunidade de conhecer a Verdade. Entretanto, conforme fui crescendo na fé e conhecendo mais irmãos e igrejas, deparei-me com, digamos, “fenômenos” parecidos com o da D. Zefina. Sempre havia uma irmã que fazia “orações” ou tinha “revelações” para uma série de pessoas – não necessariamente crentes – que as procuravam e - geralmente - deixavam alguns "presentinhos". Não evangelizavam, não queriam saber da vida das pessoas, se alguém seria prejudicado injustamente se os pedidos fossem atendidos, nem se eles eram lícitos e decentes. Oravam por atacado. De vez em quando, aparecia alguém com um recado de uma irmã que tinha tido uma revelação sobre algo ou alguém, e a coisa tomava rumos tão místicos como aqueles da benzedeira da minha infância. D. Zefina pelo menos era honesta e autêntica no seu misticismo caboclo. Com o crescimento da população evangélica (infelizmente em quantidade e não em qualidade), este fenômeno tomou ainda mais vulto. Hoje, em qualquer cidade do interior ou bairro das metrópoles, sempre tem uma irmã que as pessoas procuram, independentemente de suas crenças, para “receberem” uma oração. Geralmente, são mulheres as que oram, e estão vinculadas a uma igreja pentecostal (ou neopentecostal), sem esquecer dos muitos pastores que prometem uma “oração forte”, eufemismo para “reza braba”. Imagino que há muitas irmãs que exercem este ministério de maneira sincera e com simplicidade de coração, inspiradas e autorizadas por Deus, mas me preocupa o fato de que muitas outras não só estejam enganadas a respeito do que creem, como também enganam os que as procuram, incapazes que são – estes últimos - de dirigir-se diretamente a Deus, talvez por O negarem no seu íntimo, mas não dispensarem uma ajudinha extra de alguém que eles desconfiam que têm um canal direto com a divindade, seja ela qual for. Parece que há muito tempo estamos vivendo um renascimento do montanismo, movimento herético que assolou a nascente igreja cristã do segundo século. Fundado por Montano, que se fazia acompanhar de duas profetisas de nome Priscila e Maximila, o montanismo pregava, basicamente, que eles haviam inaugurado a Era do Paráclito, ou seja, que as suas visões e profecias vinham diretamente do Espírito Santo e, portanto, as suas palavras tinham autorização divina que as faziam dignas de respeito e obediência. Nada muito diferente do que tem acontecido ultimamente com tantos intermediários místicos que alegam ter o mesmo acesso privilegiado ao Deus cristão. Não se fazem mais benzedeiras como antigamente, mas as "profetisas" continuam as mesmas.

Pensando bem, o sono transmitido por aquele bocejo da D. Zefina curava qualquer mau-olhado que uma criança pudesse ter. Duro mesmo é a igreja evangélica brasileira despertar do seu sono letárgico. O sincretismo venceu...

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails