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domingo, 5 de março de 2017

Em pleno 2017, bolivianos são vendidos como escravos em feira livre de SP

Constatação: fracassamos miseravelmente como sociedade.

A prova cabal é a notícia - inacreditável sob todos os parâmetros - que foi publicada no Estadão em 04/03/17, para nosso horror e vergonha coletiva:

Na Justiça do Trabalho, há até caso de bolivianos 'à venda'

Caso ocorreu em 2014, mas decisão foi proferida na semana passada; dono de confecção foi acusado de tentar 'vender' três adolescentes em feira livre em SP


SOROCABA - A Justiça do Trabalho de Jundiaí, interior de São Paulo, obrigou ao cumprimento das leis trabalhistas uma confecção de Cabreúva, na mesma região, suspeita de submeter trabalhadores bolivianos à condição análoga à escravidão. O dono da empresa foi acusado de ter posto à venda três adolescentes bolivianos numa feira livre do Brás, em São Paulo, em 2014.

A liminar, dada na última quinta-feira, em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), obriga a oficina a contratar formalmente os trabalhadores estrangeiros e a se abster de aliciar mão de obra, sob pena de multa de R$ 50 mil por trabalhador lesado em seus direitos.

A Justiça proibiu a empresa de manter mais de uma família de empregados na mesma casa e obrigou a garantir as condições de higiene, além de prover cuidados básicos à saúde e de proteção do trabalho.

A decisão foi dada em ação que pede a condenação da empresa ao pagamento de indenização de R$ 3 milhões aos jovens bolivianos postos à venda. O mérito do processo ainda será julgado.

Em 2014, a Polícia Militar resgatou três bolivianos com idades entre 16 e 17 anos que estariam “à venda” numa feira. O homem que levava os rapazes fugiu, mas foi identificado e detido em Cabreúva. Segundo a denúncia do MPT, ele tinha aliciado os bolivianos com promessa de salário de US$ 500 cada por mês, mas ao chegar ao Brasil, eles descobriram que teriam de pagar as passagens e outras despesas, inclusive alimentação. Ao se negarem a continuar trabalhando, o dono da oficina teria decidido vendê-los a outros empresários na feira do Brás para se ressarcir do suposto prejuízo.

A fiscalização flagrou mais 14 estrangeiros trabalhando em condições degradantes na oficina. A empresa tinha contrato de exclusividade com uma lavanderia da capital, a qual foi incluída pelo MPT no polo passivo da ação e responderá de forma solidária por eventual descumprimento da liminar. O dono da confecção se mudou de Cabreúva e não foi localizado. A lavanderia da capital informou que a ação não teve julgamento final e que não se manifestaria sobre o assunto.





sexta-feira, 10 de julho de 2015

Papa faz o seu discurso mais ideológico durante visita à Bolívia

Do apelo à preservação do meio-ambiente ao pedido de perdão aos indígenas pelos abusos cometidos pela igreja na colonização da América, sobrou para todo mundo (inclusive o Estado Islâmico) no discurso anticapitalista do papa ontem, 09/07/15, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, segundo informa a Folha de S. Paulo:

Em discurso anticapitalista, Francisco prega "mudança de estruturas"

FABIANO MAISONNAVE

No discurso mais político em pouco mais de dois anos de pontificado, o papa Francisco defendeu nesta quinta-feira (9) uma "mudança de estruturas" mundial, chamou o capitalismo de "ditadura sutil" e exortou os movimentos sociais a realizar "três grandes tarefas" na economia, na união entre os povos e na preservação do ambiente.

"Reconhecemos que este sistema impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou na destruição da natureza?", perguntou o papa a algumas centenas de representantes de movimentos sociais de vários países, entre os quais o MST, sem-teto, indígenas e quilombolas brasileiros,durante o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia).

"Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. E tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco", completou o papa no encontro, realizado no auditório da Expocruz (feira agropecuária de Santa Cruz).

Para o papa, a "globalização da esperança" nasce e cresce entre os pobres, mas até a elite econômica quer mudanças: "Dentro dessa minoria cada vez menor que acredita que se beneficia com este sistema reinam a insatisfação e especialmente a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que os escraviza."

Em outra dura crítica ao capitalismo, Francisco afirmou que, "atrás de tanta dor, tanta morte e destruição está o fedor disso que [são] Basílio de Cesareia (330-379) chamava de 'o esterco do Diabo' [dinheiro]". Segundo ele, o capitalismo é uma "ditadura sutil".

O líder católico atacou também "a concentração monopólica dos meios de comunicação social que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural". Para ele, trata-se de "colonialismo ideológico".

Apesar da análise dura, Francisco advertiu contra o excesso de pessimismo e exortou os movimentos sociais a protagonizar as mudanças: "Eu me atrevo a dizer-lhes que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos", afirmou. "Vocês são os semeadores das mudanças."

Em seguida, o pontífice propôs a realização de três tarefas aos movimentos sociais. A primeira é a "colocar a economia a serviço dos povos": A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas "a administração correta da casa comum". O objetivo, diz, é assegurar os "três Ts: trabalho, teto e terra".

"A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, a tarefa é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e aos povos o que lhes pertence."

A segunda tarefa, segundo o pontífice, é "unir nossos povos no caminho da paz e da justiça". Ele defendeu o conceito de "pátria grande", usado por movimentos de esquerda para pregar a união latino-americana.

Francisco afirmou que problemas como a violência não podem ser resolvidos sem cooperação entre os países e atacou o "novo colonialismo": "Interação não é sinônimo de imposição", afirmou. "Colocar a periferia em função do centro lhe nega o direito a um desenvolvimento integral. Isso é iniquidade, e a iniquidade gera tal violência que não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter."

Por último, o líder católico pediu a preservação da "Mãe Terra", tema de sua encíclica mais recente: "Não se pode permitir que certos interesses –que são globais, mas não universais– se imponham, submetam os Estados e organismos internacionais e continuem destruindo a criação".

'3ª GUERRA EM PARCELAS

O papa também condenou o assassinato de católicos pelo grupo terrorista Estado Islâmico e disse que o mundo vive "uma Terceira Guerra Mundial em parcelas".

"Isto também deve ser denunciado: dentro desta Terceira Guerra Mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em marcha, e ele deve cessar", declarou o pontífice.

Visitando um país de maioria indígena, Francisco pediu desculpas pelo atuação da Igreja Católica durante a colonização –momento do discurso em que ele foi mais aplaudido pelos fiéis.

"Digo-lhes com pesar: foram cometidos muitos e graves pecados contra os povos originários da América em nome de Deus", disse. "E quero dizer-lhes, quero ser muito claro, como foi são João Paulo 2°: peço humildemente perdão, não apenas pelas ofensas da própria igreja como pelo crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América."

Ao final do discurso, disse: "Digamos juntos de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem velhice digna. Sigam a sua luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra."



quinta-feira, 9 de julho de 2015

Papa reforça opção preferencial pelos pobres na chegada à Bolívia


A informação é da Rádio Vaticana:

Papa na chegada à Bolívia: opção pelos últimos

O Papa Francisco chegou à Bolívia na quarta-feira dia 8 de julho à cidade de La Paz. A acolhê-lo no aeroporto internacional de El Alto estava o presidente Evo Morales, representantes das instituições do país, os bispos da Bolívia e largos milhares de fiéis.

No seu discurso o Papa Francisco agradeceu o acolhimento do presidente e de todas as autoridades e saudou em modo especial todos os bolivianos que procuraram outras paragens para viver.

O Santo Padre declarou grande alegria por estar “neste país de beleza singular, abençoado por Deus nas suas distintas áreas: o planalto, os vales, as terras amazónicas, os desertos, os lagos incomparáveis.” Alegre por estar num país onde não só se fala o castelhano mas também 36 idiomas nativos, o Santo Padre apresentou-se como hóspede e peregrino:

“Como hóspede e peregrino, venho para confirmar a fé dos crentes em Cristo ressuscitado, a fim de que todos nós que acreditamos n’Ele, enquanto peregrinamos nesta vida, sejamos testemunhas do seu amor, fermento de um mundo melhor e colaboremos na construção duma sociedade mais justa e solidária” – declarou o Papa.

O Santo Padre declarou ainda que a Bolívia “tem dado passos importantes na inclusão de amplos sectores na vida económica, social e política do país” e considerou que “a coesão social requer um esforço na educação dos cidadãos”.

Dirigindo-se em especial à Igreja o Papa Francisco afirmou:
“A voz dos Pastores, que tem de ser profética, fala à sociedade em nome da Igreja Mãe, partindo da sua opção evangélica preferencial pelos últimos, pelos descartados, pelos excluídos, essa é a opção preferencial da Igreja.” Não se pode crer em Deus Pai sem ver um irmão em cada pessoa, e não se pode seguir Jesus sem dar a vida por quem Ele morreu na cruz” – advertiu o Santo Padre.
O Papa Francisco afirmou que “a família merece uma atenção especial dos responsáveis pelo bem comum” e os jovens, “comprometidos com a sua fé e com grandes ideais, são uma promessa de futuro”.

O Santo Padre expressou ainda a necessidade de se “gerar uma ‘cultura da memória’ que garanta aos idosos não só a qualidade de vida nos seus últimos anos, mas também o carinho.”

O Papa Francisco concluiu a sua intervenção afirmando estar numa “pátria que de si própria diz ser pacifista, que promove a cultura da paz e o direito à paz.”

“Coloco esta visita sob o amparo da Santíssima Virgem de Copacabana, Rainha da Bolívia, pedindo-Lhe que proteja todos os seus filhos. Muito obrigado e que o Senhor vos abençoe. Jallalla Bolívia! – disse o Santo Padre no final do seu discurso na sua chegada à Bolívia. (RS)



quinta-feira, 2 de julho de 2015

Papa mascará folhas de coca durante visita à Bolívia


No que faz muito bem, pois este que vos escreve já teve que mascar folhas de coca (além de abusar do respectivo chá) para enfrentar as extremas altitudes da cordilheira dos Andes.

Fiquem tranquilos, queridos leitores, não fiquei "doidão". Só quem fica desesperado em busca de oxigênio nas altitudes superiores a 2.500m do nível do mar sabe como a coca (a planta, e não sua derivada, a cocaína) é essencial para aguentar o tranco.

No fundo, a experiência de mascar coca ou tomar o seu chá é um teste de força para o coração, que passa a bombear loucamente o sangue para retirar o máximo de oxigênio do ar rarefeito que os pulmões inspiram do ambiente ao seu redor.

A experiência é curiosa, confesso. O simples ato de inspirar o ar, que em altitudes menores requer um ou dois segundos, de repente passa a durar o triplo ou quádruplo.

Esperamos que o coração do papa resista bravamente ao exercício. Desejamos longa vida e muito oxigênio para o pontífice romano.

A notícia é da BBC Brasil:

Papa 'pretende mascar coca durante viagem à Bolívia', diz governo de Morales


O papa Francisco pediu para mastigar folhas de coca durante sua visita à Bolívia, segundo o ministro da Cultura do país, Marko Machicao.
O pontífice deve chegar ao país no dia 8 de julho.


A folha de coca, um dos ingredientes usados para a fabricação da cocaína, é usada em vários países dos Andes há milhares de anos para combater os males da altitude e também como um leve estimulante.

Machicao disse que o governo ofereceu ao papa o chá da folha de coca e o pontífice fez um "pedido específico", para mastigar as folhas.

O Vaticano não comentou a afirmação do ministro boliviano.

Ilegal e sagrada

As folhas de coca foram declaradas uma substância ilegal sob a Convenção da ONU para Drogas Narcóticas de 1961.

Mas, o cultivo de folhas de coca com fins religiosos e medicinais é legal na Bolívia.

Muitos indígenas bolivianos consideram a planta da coca sagrada e mastigar as folhas, ou fazer um chá com elas, é muito popular.

A Constituição boliviana de 2009 até declarou que a folha de coca é um "patrimônio cultural" do país.

O presidente do país, Evo Morales, já foi agricultor e cultivava as folhas. Ele faz campanha para descriminalizar o consumo de folhas de coca.

Se o papa Francisco realmente mascar folhas de coca durante sua visita à Bolívia, o ato significaria um grande apoio à campanha de Morales.

"Estamos esperando o santo padre com a folha sagrada de coca", disse Machicao.

A visita do papa à Bolívia é parte de uma viagem do pontífice pela América do Sul, que deve passar também pelo Equador e Paraguai.



domingo, 22 de dezembro de 2013

25 anos sem Chico Mendes

Em maio de 2012, tive a oportunidade de realizar uma viagem sonhada desde a infância, até Macchu Pichu, por um meio que até bem recentemente era impossível: por rodovia.

No retorno de Cuzco a Cuiabá, fiz questão de entrar em Xapuri, no Acre, pequena cidade que fica a apenas 12 km da Rodovia Interoceânica, ou Rodovia do Pacífico, que liga o Brasil ao Peru.

Minha visita a Xapuri foi para conhecer o local onde viveu e morreu esse grande herói brasileiro, Chico Mendes.

Visitando o Acre, ainda que de passagem de ida e volta pela Amazônia brasileira/peruana, pude parar o suficiente para ver com meus próprios olhos a pujança da região, a alegria e as dificuldades do povo em lidar com a selva hostil, a complicada, animada e escancarada conurbação de Brasileia e Epitaciolândia com Cobija (Bolívia), a pacífica fronteira da simpática Assis Brasil com Iñapari (no Peru) conturbada pela "invasão" dos haitianos, e as chagas do desmatamento nas matas acrianas.

Como você percebe, trata-se de uma tríplice fronteira bem diferente daquela patrocinada por Brasil, Argentina e Paraguai na região de Foz do Iguaçu (PR), mas igualmente movimentada, só que em menores proporções.

Sim, existe vida no Acre, posso garantir pois eu mesmo tive o privilégio de constatar. Vida bela e aguerrida de um povo digno e alegre como há em qualquer outra região do Brasil. E, se existe vida nas franjas amazônicas do extremo oeste brasileiro, isso se deve - em grande parte - à luta de gente como Chico Mendes.



A foto acima é da casa de Chico Mendes, local onde ele foi assassinado exatos 25 anos atrás, e foi tirada por mim mesmo. Um registro para a história que serve também como minha homenagem a esse grande brasileiro.

A matéria abaixo é do Terra:

Há 25 anos, morria Chico Mendes, mártir do meio ambiente

Francisco Alves Mendes Filho levou um tiro no pátio de casa por defender seus ideais contra fazendeiros

Em 22 de dezembro de 1988, um tiro de espingarda disparado em Xapuri, no interior do Acre, ecoou por toda a Amazônia. Estirado no pátio de casa, assassinado a mando de fazendeiros, o seringueiro e sindicalista Francisco Alves Mendes Filho, conhecido como Chico Mendes, aos 44 anos, converteu-se em mártir da causa ambientalista, chamou a atenção do mundo inteiro para a proteção das florestas e promoveu o debate ecológico no Brasil.

Duas semanas antes, em entrevista ao jornalista Edilson Martins, Chico Mendes anunciou que estava sendo ameaçado de morte pelos irmãos Darly e Alvarinho Alves, da Fazenda Paraná. Contava, inclusive, com policiais militares que lhe faziam segurança 24 horas por dia. Mas tinha medo de que a proteção não seria suficiente. Estas foram suas últimas palavras na entrevista: "Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta, até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia".

No Jornal do Brasil, a matéria foi publicada três dias depois da morte do ativista. Pelo crime, Darly Alves da Silva, como mandante, e seu filho Darci, como executor, foram condenados a 19 anos de prisão. Em 1993, os dois fugiram da cadeia e só foram detidos três anos depois. Da pena, cumpriram seis anos em regime fechado. Então progrediram para o regime semiaberto e domiciliar.

De fato, o enterro de Chico Mendes não salvou a Amazônia. Porém sua morte, de forma trágica, fortaleceu a sua luta. Seus ideais ganharam manchetes, seu nome formou institutos de preservação da natureza, as políticas em prol do meio ambiente se fortaleceram, as Reservas Extrativistas se expandiram e as áreas de proteção ambiental se multiplicaram.

Na semana passada, o ativista foi reconhecido, por lei, como patrono nacional do meio ambiente. Em sessão solene na Câmara dos Deputados, sua filha, Ângela Mendes, apontou conquistas no Acre, onde 47% do território são reservas extrativistas, mas observou que ainda há muito o que fazer. "Meu pai nunca gostou de títulos. Por isso, eu ouso dizer, sem medo de errar, que o título de herói nacional e patrono do meio ambiente brasileiro só terá valor, de fato, quando não houver mais nenhuma morte por conflito de terra, quando não houver mais injustiças e ameaças contra aqueles que, de fato, defendem o meio ambiente", afirmou.

Foi justamente para defender o meio ambiente e os direitos dos seringueiros que Chico Mendes aprendeu a ler, aos 20 anos. Nascido em 15 de dezembro de 1944, em Xapuri, trabalhou desde criança no seringal Porto, com seu pai. Aprendeu desde cedo as injustiças que eram cometidas contra os trabalhadores da floresta – e contra a própria floresta. A partir de 1973, passou a se envolver em conflitos de terras com fazendeiros. Dois anos depois, criou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Então ganhou mais destaque ao promover os "empates", manifestações pacíficas de seringueiros que protegiam as árvores com o próprio corpo. Em 1977, fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e foi eleito vereador na Câmara Municipal. Um ano depois, recebeu sua primeira ameaça de morte. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores no Acre.

Com aumento da repercussão internacional a respeito da situação da Amazônia e dos seringais, representantes da Organização das Nações Unidas visitaram Xapuri em 1987. Lá presenciaram a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros provocadas por projetos financiados por bancos estrangeiros. Mendes chegou a levar as denúncias ao senado americano, sem falar uma palavra em inglês. E obteve êxito: os financiamentos foram suspensos. Assim, o ativista enfrentou outro problema: foi acusado de prejudicar o progresso do Acre, especialmente por fazendeiros e políticos da região. No ano de sua morte, ganhou o prêmio Global 500, oferecido pela ONU.

Desmatamento

Desde 1988, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais analisa e apresenta as taxas anuais do desflorestamento da Amazônia Legal. Naquele ano, 21.050 km2 de florestas foram devastadas. Em 25 anos, o desmatamento anual foi reduzido em mais de 70%. Em 2013, a destruição ficou em 5.843 km2, a segunda menor taxa da história, atrás de 2012.

De acordo com Danicley Saraiva de Aguiar, coordenador da Campanha da Amazônia do Greenpeace, a criação de gado segue como um dos maiores vetores de desmatamento. "Basta uma análise mais cuidadosa para percebermos que os rebanhos bovinos na região aumentaram nas últimas décadas, a taxas mais altas do que no resto do país. Mesmo que localizadamente, o cultivo de grãos continua sendo uma ameaça considerável, e com um forte potencial de destruição", explica.

Para o Greenpeace, que atua na proteção das florestas da região amazônica e se inspira nos ideais de Chico Mendes, essa melhora no índice não é suficiente. "Zerar o desmatamento da Amazônia deveria estar entre os interesses estratégicos do Brasil, pois lideramos um seleto grupo de países que dominam as maiores riquezas naturais do mundo e que, em vez de utilizá-las com sabedoria para gerar um ciclo sustentável de riqueza, ainda se utiliza de um modelo de desenvolvimento ecocida. O Desmatamento Zero está na essência de qualquer estratégia na qual a floresta é um ativo, e não um obstáculo", acredita Aguiar.



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Diplomata pivô da fuga de senador boliviano diz que Deus "multiplicou gasolina"


O rocambolesco episódio da fuga (por via terrestre) do senador boliviano Roger Pinto teve como seu articulador o diplomata brasileiro Eduardo Saboia, que atuava como encarregado de negócios na embaixada do país em La Paz.

Entrevistado pela Folha de S. Paulo, Saboia disse que a principal motivação para a aventura diplomática foi o "estágio perigoso de depressão" em que o senador Pinto estava, com possibilidade real de suicídio depois de 15 meses refugiado na representação brasileira na capital boliviana, período em que lhe foi negado o salvo conduto para sair do país andino, apesar do asilo político que o Brasil lhe havia concedido.

Alegando estar comovido com a situação do refugiado, acusado de vários crimes pelo governo boliviano e que estava já há 452 dias sem tomar sol, Eduardo Saboia justificou sua decisão dizendo que "fiz uma opção por um perseguido político, como a presidente Dilma fez em sua história".

Só que o imbroglio diplomático andino terminou derrubando o chanceler Antonio Patriota, que havia sido o responsável pela indicação de Saboia para o cargo que ocupava na embaixada brasileira em La Paz.

Com o Ministério das Relações Exteriores em polvorosa desde a fuga de carro do senador Pinto em trajeto de carro que levou 22 horas de La Paz a Corumbá (MS), o católico praticante Eduardo Saboia se defende dizendo que "ouviu a voz de Deus" para levar a cabo a arriscada empreitada.

Segundo alega, depois de 1.600 km de altitude, névoa, gelo e frio, sem comida suficiente, com o senador passando mal, o combustível estava no limite.

Antes do tanque zerar de vez, Saboia não teve dúvidas e apelou à reza: "peguei a Bíblia, abri nos Salmos e li. Foi o milagre da multiplicação da gasolina".

Não é difícil concluir que alguma coisa está errada quando um diplomata joga a responsabilidade em Deus para sumir com um refugiado e precisa rezar para multiplicar gasolina.

Logo, logo, vão contratar alguma sessão de descarrego para benzer os nossos valorosos diplomatas. Ou fazê-los ver repetidas sessões do filme "Thelma & Louise" para doutriná-los  na triste conclusão de que fugas cinematográficas de carro costumam não terminar bem.

Algo me diz que - tão cedo - nem com reza braba o Itamaraty voltará a ser considerado um lugar sério.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Evangélicos bolivianos homenageiam Evo Morales que lhes diz que é politeísta


Você certamente já reparou que, às vésperas das eleições, todos os candidatos vão a todos os cultos religiosos aos quais são convidados (ou não). Se eleitos, continuam fazendo cara de santo com auréola toda vez que representantes dessa ou daquela fé vão até eles.

A lógica desse fenômeno é simples aqui no Brasil: quanto mais média você fizer com o padre ou pastor, mais votos você terá. Ou pelo menos espera que essa troca de favores nem sempre explícita se traduza em votos quando as urnas forem abertas.

Evo Morales, o polêmico presidente da Bolívia, não foge muito do figurino.

Ao receber um grupo de evangélicos de uma comunidade denominada Ekklesia, Evo não fez rodeios e se declarou politeísta: "Alguns me declaram como sendo ateu, mas pela primeira vez digo publicamente que, nas madrugadas ou à meia-noite, rezo para meu pai e minha mãe que me deram esta vida. Creio nos meus pais, creio na nossa mãe também e creio também nos nossos deuses".


Por "nossa mãe" nessa declaração entenda a "Mãe Terra", ou Pachamama, a deusa adorada pelos indígenas da etnia aimará, a mesma do presidente boliviano, e por "meus pais" entenda não só o seu pai e sua mãe biológicos mas também o deus sol.

Os representantes evangélicos foram ao encontro de Evo Morales para entregar-lhe o título de "líder de 2012 na Bolívia", mas o presidente fez questão de afirmar que agora "todas as igrejas da Bolívia têm os mesmos direitos e os mesmos deveres", ao contrário do que acontecia antes, quando apenas uma (a católica) gozava de reconhecimento oficial.

Evo faz questão, também, de que as mais diversas manifestações religiosas sejam praticadas no Palácio do Governo durante os atos oficiais, dizendo que esta "é a contribuição de todo o povo boliviano para que todas as igrejas sejam reconhecidas".

Como a comunidade Ekklesia é uma das maiores denominações evangélicas no país, o mandatário boliviano, que já disse que se você comer frango transgênico vira gay, mas de bobo não tem nada, não perdeu a chance de prometer ao manda-chuva da Ekklesia, Alberto Salcedo, que vai visitá-los em breve para "buscar força quando enfrente problemas e ódios"

O pastor Salcedo reiterou seu apoio ao presidente, dizendo que ele "devolveu a dignidade à Bolívia". Espera-se que - quem sabe - ao recebê-lo para um almoço, o reverendo não inclua frango no cardápio.

Evo não tem a mesma relação cordial com os bispos católicos do país, com quem sempre tem algum entrevero e os acusa de atuar politicamente quando criticam seu governo.

Pelo jeito não é só no Brasil que certos líderes evangélicos gostam da proximidade do poder. O utilitarismo venceu.

A fonte da notícia é o portal infoCatólica



terça-feira, 20 de abril de 2010

Você é gay e/ou careca porque come frango

É o que garante Evo Morales, o sábio presidente boliviano, em mais uma de suas tiradas sensacionalistas, conforme noticia o site infobae. Culpando os produtos transgênicos por todos os males do mundo, e assegurando que tudo isso está cientificamente comprovado, Evo disse que, por causa dos hormônios femininos que os frangos consomem nas granjas, os homens têm "desvios em seu ser" e as meninas têm um "desenvolvimento prematuro dos seios". Além disso, o presidente boliviano profetizou que dentro de 50 anos todos os homens do mundo serão calvos se continuarem comendo alimentos transgênicos, já que a calvície não existe entre os indígenas dos Andes. Talvez a única coisa que ele acertou é que Coca-Cola serve para desentupir vasos sanitários. Portanto, se o seu cabelo está caindo, ou se você sente vibrações estranhas quando ouve Gloria Gaynor cantando "I Will Survive", tá na hora de parar de comer frango. Como presidente, esse Evo é um comediante razoável...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Los "fanfarrones"

Evo Morales y Diego Armando Maradona são dois fanfarrões. Eles promoveram uma pelada em La Paz para comprovar os sublimes benefícios de se jogar futebol a mais de 3.000 metros de altitude. O único lado bom deste encontro de estrelas (cadentes) sulamericanas foi o fato de recolherem alimentos para as vítimas das enchentes na Bolívia, como ingresso. A FIFA parece não concordar com esta loucura. Nada contra o fato da turma dos Andes resolver bater um futebolzinho entre eles, no clássico local Condores x Vicuñas, afinal eles já moram lá e estão acostumados com os efeitos do ar rarefeito. O problema é quando times e seleções de outros lugares, digamos, menos elevados, mesmo da Bolívia, têm que subir a cordilheira. O período de adaptação às condições de falta de oxigênio teria que ser muito grande, algo em torno de duas a quatro semanas, conforme a altitude, e obviamente o mundo não pode parar para que jogadores de futebol se aclimatem à altura de Potosí, Oruro, La Paz e outros píncaros do desporto sulamericano.


O que me espanta nisso tudo é a lógica que se esconde por trás deste discurso maradoniano de apoio aos jogos nas alturas. A altitude funciona como um doping, uma vantagem que o jogador que lá vive tem sobre os recém-chegados das planícies e do litoral. Seria ótimo poder se aclimatar pra jogar uma partida de futebol em igualdade de condições, mas a única saída seria ele usar um equipamento de oxigênio que nivelasse o seu consumo do precioso gás. Certamente, isto seria visto pelos nossos fanfarrões como vantagem indevida, mas é curioso que eles não apliquem o mesmo raciocínio ao seu pleito do altímetro. Nós, que já sofremos tanto com o jeitinho brasileiro, agora nos deparamos com o jeitinho boliviano, com uma pitadinha argentina. Talvez eu esteja enganado e tudo se trate apenas da velha e boa hospitalidade boliviana: "Pede pra subir! Pede pra subir!".

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