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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 20


ENCARNAÇÃO: MARIA, MÃE DE DEUS

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Dizemos de cada ser humano que ele come, bebe, digere, dorme, acorda, anda, fica parado, trabalha, etc., embora a alma não participe em nenhuma dessas atividades, mas apenas o corpo. Contudo, afirma-se isso da pessoa toda, que tem corpo e alma. Pois ele é um ser humano não só por causa do corpo, mas por causa do corpo e da alma. Por outro lado, também afirmamos que o ser humano pensa, inventa, aprende. Pois, de acordo com sua razão ou alma, ele pode tornar-se professor ou mestre, juiz, conselheiro ou governante. Nem o corpo nem qualquer um de seus membros lhe dá essa competência. No entanto, afirmamos: “Ele tem uma cabeça boa; é sensato, instruído, sábio, eloquente, artístico”. Dessa maneira, diz-se de uma mulher que ela está grávida, dá à luz e amamenta uma criança, embora não seja a alma, mas tão-só o corpo que faz dela uma mãe. Todavia, atribuímos isso à mulher toda. Igualmente, se alguém golpeia uma pessoa na cabeça, dizemos: “Ele bateu no João ou na Margareta”. Ou, quando um membro do corpo é lesionado ou ferido, pensamos na pessoa toda como estando machucada.

Estou empregando essas ilustrações simples para que se entenda como se devem separar na pessoa de Cristo as duas naturezas distintas e como, no entanto, isso deixa a pessoa inteira e indivisa. Tudo que Cristo diz e faz, tanto Deus quanto o homem dizem e fazem, mas cada palavra e cada ação estão de acordo com uma ou outra natureza. Aquele que observa essa distinção, encontra-se no caminho seguro e certo. Ele não será desencaminhado pelas ideias errôneas dos hereges, as quais provêm unicamente do fato de não reunirem o que pertence junto e constitui uma unidade, ou por não separarem e dividirem, apropriadamente, o que deve ser diferenciado.

Por isso, devemos nos ater ao discurso e às palavras da Escritura e reter e confessar a doutrina de que este Cristo é verdadeiro Deus, através de quem todas as coisas são criadas e existem, e, ao mesmo tempo, que este mesmo Cristo, Filho de Deus, nasce da virgem Maria, morre na cruz, etc. Ademais, Maria, a mãe, não carrega, dá à luz, amamenta e alimenta tão-somente o homem, tão-somente carne e sangue – pois isso seria dividir a pessoa -, mas ele carrega e alimenta um filho que é Filho de Deus. Por isso, ela é corretamente chamada não só a mãe do home, mas, também, a mãe de Deus. Isso, os antigos Pais ensinaram contra os nestorianos, que se opunham a que Maria fosse chamada de mãe de Deus e se recusavam a dizer que ela dera à luz o Filho de Deus.

Aqui, devemos ratificar com o nosso Credo: “Creio em Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus Pai, nosso Senhor, que nasceu da virgem Maria, sofreu, foi crucificado, morreu”. Ele é sempre o mesmo e único Filho de Deus, nosso Senhor. Por isso, é certo que Maria é a mãe do real e verdadeiro Deus. E os judeus não só crucificaram o Filho do Homem, mas, também, o verdadeiro Filho de Deus. Pois não quero um Cristo em que devo crer e a quem devo invocar como meu Salvador que seja apenas um ser humano. Nesse caso, eu estaria indo ao encontro do diabo, pois simples carne e sangue não poderiam extinguir o pecado, reconciliar a Deus e abolir sua ira, superar e destruir a morte e o inferno, e conceder a vida eterna.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 143-144)

(para ler a sequência do comentário de Lutero
sobre João 14:6 a, clique aqui)



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ex-testemunhas de Jeová são rejeitadas pela família após saírem da denominação?


O ponto de interrogação no título acima se justifica porque a própria direção das Testemunhas de Jeová no Brasil tratou de se posicionar após a repercussão da matéria abaixo, da BBC Brasil, embora a experiência mostre que a pontuação em questão - na prática - se revela desnecessária.

As ex-testemunhas de Jeová rejeitadas pelas próprias famílias

Monica Soriano

Para algumas ex-testemunhas de Jeová do Reino Unido, abandonar a crença não significa apenas abrir mão de uma religião, mas também se afastar de entes queridos. Em muitos casos, amigos e familiares são orientados a cortar todos os laços com essas pessoas, as levando ao isolamento e, em casos extremos, até a pensamentos suicidas.

"Não falo com ninguém da minha família. Não temos nenhum contato, porque eu me 'desassociei'", conta Sarah (nome fictício) ao programa Victoria Derbyshire, da BBC.

No ano passado, a jovem, que está na casa dos 20 anos, foi expulsa de um grupo de Testemunhas de Jeová em um processo conhecido como "desassociação".

Ela diz que o motivo teria sido sua recusa em continuar em um relacionamento abusivo. Sarah afirma que seu parceiro na época era violento e chegou a quebrar suas costelas.

Fazer denúncias à polícia - e envolver pessoas de fora da religião em questões como essa - é algo desencorajado entre testemunhas de Jeová, explica a jovem.

Código moral

Sarah afirma que os anciãos da religião se recusaram a punir seu ex-companheiro pelo comportamento violento. Foi apenas quando seus colegas de trabalho notaram seus machucados e a convenceram a não se submeter mais aos abusos que ela deu fim ao relacionamento.

A jovem conta ter sido desassociada por esse motivo - e diz que seus amigos e familiares se afastaram em seguida. Isso porque testemunhas de Jeová acreditam que aqueles de fora da religião podem prejudicar sua fé.

Em um comunicado, o grupo religioso disse à BBC que "se uma testemunha batizada viola o código moral da Bíblia e não apresenta evidências de que não continua a fazer isso, ela ou ele serão afastados e desassociados".

"Quando se trata desse afastamento, as testemunhas seguem as instruções da Bíblia, e, neste ponto, a Bíblia diz claramente: 'Removam os homens perversos entre vocês'", afirma o texto.

Ailton Pereira, membro da Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados e porta-voz da Testemunhas de Jeová no Brasil, diz que, quanto à orientação de que familiares e amigos se afastem de pessoas desassociadas, a Bíblia determina na passagem 1 Coríntios 5:11/13 ser necessário cortar o relacionamento com alguém eu mantenha uma conduta inadequada. "Seguimos os ensinamentos sagrados", afirma Pereira.

"Se a pessoa toma um caminho errado de acordo com o que é dito pelas escrituras, ela é afastada, mas as pessoas têm liberdade para tomar sua própria decisão de como proceder. É um assunto de ordem familiar."

Pereira diz que, mesmo quando uma pessoa se afasta voluntariamente da religião, "os laços permanecem". "É uma decisão pessoal. Deus não obriga ninguém a servir. Oferecemos ajuda para que a pessoa reflita sobre sua decisão, mas isso não rompe o vínculo família nem faz um menor de idade ser expulso de casa."

Mas, diante de um comportamento considerado inapropriado, muitas vezes o afastamento ocorre para que "outros membros da família não sejam influenciados e a família seja preservada".

"O afastamento ocorre porque uma pessoa tomou o caminho. Se alguém está em um relacionamento imoral, é justo que o chefe de família proíba a pessoa de trazer seu companheiro para dentro de casa", explica Pereira.

Ele ressalta que a organização religiosa Testemunhas de Jeová se baseia nas escrituras sagradas em seu trabalho para manter as famílias unidas.

"Muitas vezes, quando chegamos a uma casa em que a família está se separando por um vício ou comportamento, mas aí a pessoa entende os princípios da Bíblia, e a família volta a ter paz."

'Ninguém responde'

Sarah diz que sua mãe se recusou a falar com ela na noite em que foi desassociada. E que seu pai a acordou bem cedo no dia seguinte para expulsá-la de casa.

Em resposta aos relatos, a organização Testemunhas de Jeová diz não comentar sobre casos individuais e afirma que "violência, seja física ou emocional, é fortemente condenada na Bíblia e não tem lugar em uma família cristã".

John (nome fictício) tornou-se testemunha de Jeová ainda criança, quando seus pais decidiram se unir ao grupo. Há dois anos, ele foi desassociado depois de perder um velório, cerimônia vista na religião como uma ocasião importante.

Ele já tinha começado a se questionar sobre os ensinamentos - incluindo as ideias de que o fim do mundo é iminente e de que apenas 144 mil pessoas vão para o céu. Sua visão sobre a fé também ficou abalada após um amigo morrer depois de não ser submetido a uma transfusão de sangue, uma prática proibida pela religião. "Foi uma vida desperdiçada", diz.

John afirma ter descoberto depois que sua mulher testemunhou contra ele em seu processo de desassociação, algo que acredita ter prejudicado bastante o relacionamento do casal.

Ele saiu da casa e passou a viver temporariamente em barracas de camping. Além disso, perdeu contato com seus dois filhos, hoje adultos, e irmãos. "Eu me senti muito isolado, não tinha ninguém, pensava bastante em suicídio."

"Às vezes, eu mando uma mensagem dizendo 'amo vocês, ainda penso em vocês', mas, normalmente, ninguém responde."

'Últimos dias'

A religião Testemunhas de Jeová foi fundada nos Estados Unidos no fim do século 19, sob o comando de Charles Taze Russell, e é sediada em Nova York.

Apesar de ser baseada em princípios cristãos, o grupo acredita que as igrejas cristãs tradicionais se afastaram dos ensinamentos bíblicos e não estão em harmonia com Deus.

Por sua vez, as igrejas cristãs tradicionais não reconhecem o grupo Testemunhas de Jeová como uma denominação tradicional de sua fé por rejeitar a doutrina baseada na Santa Trindade.

As testemunhas de Jeová acreditam que a humanidade está vivendo seus "últimos dias" e que a batalha final entre o bem e o mal ocorrerá em breve. A organização diz ter mais de 8 milhões de fiéis em todo o mundo.

Terri O'Sullivan a abandonou há 17 anos, quando tinha 21, e foi expulsa de casa por sua mãe. Ela coordena hoje uma rede de apoio a pessoas que são excluídas ou deixam de fazer parte da igreja.

Afirma que ainda não se deparou com uma ex-testemunha de Jeová que não tenha sofrido de depressão ou alcoolismo ou tenha pensado em suicídio ou machucar a si mesma.

Órfã de pais vivos

Segundo Terry, apesar de nem todos passarem formalmente pelo processo de desassociação quando abandonam a religião, seus relacionamentos raramente não são afetados por isso.

"No caso de algumas ex-testemunhas, alguns familiares ainda falam com elas, mas a relação dificilmente é a mesma", diz.

No caso de Sarah, ela diz ter sido "muito, muito difícil" lidar com a perda dos laços familiares. Ela está noiva e sabe que terá de planejar uma cerimônia de casamento sem a participação de seus pais. "Eu me considero órfã, o que é bem triste", afirma.

Ela obtém apoio de amigos no trabalho. Quando abandonou a religião, eles "a confortaram" - o que a surpreendeu.

"São pessoas que minha religião dizia serem terríveis e más companhias, que seriam castigadas por Deus no Apocalipse. Mas essas pessoas abriram as portas de suas casas para mim."

A jovem ainda vê com bons olhos a maioria dos fiéis da igreja. "Há boas pessoas nessa religião, que acreditam estar salvando outras. Guardo boas memórias, porque são as últimas que tenho com minha família", diz.

"Mas também olho para trás e é dolorido, porque nunca mais poderei sentar com eles para um almoço de domingo. Quando morrerem, eu não serei convidada para seus enterros."

*Esta reportagem foi atualizada às 11h do dia 01 de agosto de 2017, para incluir as declarações do porta-voz das Testemunhas de Jeová no Brasil.



terça-feira, 18 de agosto de 2015

Presos líderes de seita evangélica acusados de escravizar fiéis

A informação é do Brasil Post:

Polícia Federal prende líderes de seita religiosa que teriam escravizado fiéis; fundador se apresenta como 'divindade'

A Polícia Federal deflagrou na madrugada desta segunda-feira (17) a Operação De Volta para Canaã em três Estados do País e prendeu líderes de uma seita religiosa que teriam escravizado fiéis. Segundo a PF, o grupo teria utilizado a seita para se apoderar do patrimônio dos fiéis, submetendo-os a trabalhos forçados, em situação análoga a de escravos.

Os investigados responderão pelos crimes de redução de pessoas à condição análoga a de escravo, tráfico de pessoas, estelionato, organização criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

As investigações apontaram que os dirigentes da seita Jesus, a Verdade que Marca estariam mantendo pessoas em regime de escravidão nas fazendas onde desenvolviam suas atividades e rituais religiosos. A PF afirmou que os fiéis, ao ingressarem na seita, eram convencidos a doar seus bens sob o argumento da convivência em uma comunidade onde "tudo deveria ser de todos" e, em seguida, obrigados a trabalhar sem qualquer espécie de pagamento.

Os investigadores estimam que o patrimônio recebido em doação dos fiéis chegue a pouco mais de R$ 100 milhões. Parte do valor teria sido convertido em "grandes fazendas, suntuosas casas e veículos de luxo". A operação conta com 190 policiais federais, que estão cumprindo 129 mandados judiciais: seis de prisão temporária, seis de busca e apreensão, 47 de condução coercitiva e 70 de sequestro de bens.

Os mandados expedidos pela 4ª Vara Federal em Belo Horizonte estão sendo cumpridos nas cidades de Pouso Alegre, Poços de Caldas, São Andrelândia, Minduri, São Vicente de Minas e Lavras, em Minas Gerais, Carrancas, Remanso, Marporá, Barra, Ibotirama e Cotegipe, na Bahia, e em São Paulo.

Caso antigo

A PF informou que a Operação De Volta a Canaã dá continuidade a investigações iniciadas em 2011, que levaram à deflagração da Operação Canaã em 2013. Na primeira etapa, a PF, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho fizeram inspeções em propriedades rurais e em algumas empresas. Segundo a PF, foi identificado um "sofisticado esquema de exploração do trabalho humano e lavagem de dinheiro levado a cabo por dirigentes e líderes religiosos". “Somente neste ano, a Polícia Federal começou a investigar mais de 50 casos envolvendo o tráfico e a exploração de pessoas no Brasil", informou a PF.

De acordo com o delegado da Polícia Federal em Varginha (MG), João Carlos Girotto, o modus operante da seita era sempre o mesmo: convencer pessoas de fragilidade emocional a mudarem as suas vidas no interior, alterando a sua condição de vida, “sob a promessa de que viveriam em comunidades onde vigeria o princípio da igualdade absoluta”.

“Todos os bens seriam de todos. Ao adentrarem na seita, as pessoas são convencidas a entregarem todos os seus bens, móveis e imóveis, e na sequência são transferidas para fazendas, onde trabalham sem remuneração. Lá eles também têm a liberdade cerceada e ao irem para as cidades, são escoltadas por membros da seita”, afirmou, em declarações reproduzidas pelo G1.

As primeiras investigações sobre a seita Jesus, a Verdade Que Marca, datam de 2006. Naquela época, as suspeitas eram de movimentações da ordem de R$ 10 milhões.

Fundador se considera “o próprio Deus”

A seita foi fundada em 1998 no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, pelos pastores Cícero Vicente Araújo e Edmilson Pereira da Silva. Desde o início, as regras sempre partiram do pressuposto que os seguidores deveriam “obedecer cegamente” às orientações dos pastores, doando todos os seus bens e aceitando algumas regras, como o confinamento em fazendas, veto aos meios de comunicação e a proibição, por exemplo, de marido dormir com a mulher.

Não são poucos os depoimentos de dissidentes sobre as práticas dos líderes da seita. Em 2013, um homem de 72 anos disse, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, foi convencido a doar tudo o que tinha porque, segundo o pastor Cícero Vicente Araújo, “todas as estradas iam se fechar e colocariam chips na cabeça das pessoas”. “Diziam que os demônios destruiriam aqueles que saíssem”, completou.

Três anos antes, uma mulher do interior de São Paulo denunciou ter perdido contato com duas filhas, um neto e outros familiares, todos cooptados pela seita. De acordo com ela, o sistema de lavagem cerebral gerava situações como o fato de benefícios, como os cartões do Bolsa Família e aposentadorias, ficarem a cargo dos pastores. Para os que vivem nas fazendas da seita, as condições de vida seriam desumanas.

A mesma mulher disse também que o pastor Cícero Vicente Araújo se identifica “como o próprio Deus”, alegando ter “poderes divinos”. O temor, para ela, era de que, entre outras pregações, o pastor pudesse induzir seus seguidores a um suicídio coletivo.

Uma análise do pastor Natanael Rinaldi, uma das autoridades da igreja evangélica no País, afirma que a seita Jesus, a Verdade Que Marca é conhecida pelo seu caráter de “desagregação das famílias” e “leituras equivocadas dos ensinamentos bíblicos”.



terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O verdadeiro Papai Noel gostava de dar tapa na cara de hereges

Mesmo que o Natal tenha se tornado essa festa mercantilista, com o Papai Noel como figura proeminente (e exótica), em substituição ao menino Jesus, é interessante pesquisar as raízes do “bom velhinho” na cultura popular.

Primeiro, é curioso ver como a nomenclatura varia de país para país, inclusive dentro do mesmo idioma, como acontece em Portugal, onde Papai Noel é conhecido como Pai Natal.

Isto se justifica pelo fato de que Noël significa Natal em francês, e a influência gaulesa se fez sentir também nos países hispânicos, que o chamam de Papá Noel, com a divertida e defasada exceção do Chile, que o chama de Viejito Pascuero (Páscoa?!).

Entretanto, é pelo idioma inglês, sobretudo americano, que o nome Santa Claus remete à origem mais remota (e cristã) do Papai Noel.

O personagem histórico que teria inspirado a criação do mito do bom velhinho foi Nicolau de Mira, também conhecido como São Nicolau de Bari, canonizado por católicos e ortodoxos, e entronizado como santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega.

Lembre-se de que a Lapônia, terra onde habitaria o Papai Noel, é uma região ártica que engloba parte dos territórios de Suécia, Noruega, Finlândia e um pequeno trecho da Rússia.

Só que São Nicolau de Mira nasceu mais ao sul, em Patara, hoje Demre (na Turquia), supostamente na segunda metade do século III, vindo a morrer no mesmo local em 6 de dezembro de 342 d. C.

O santo continua tão popular na Europa que, depois do alegado descobrimento – em 1993 - de sua tumba na ilha turca de Gemile, o governo muçulmano da Turquia requereu formalmente à Itália, em 2009, a devolução dos restos mortais de Nicolau, que haviam sido levados a Bari em 1087, ainda na época das Cruzadas.

Em 2000, governo russo chegou a doar uma estátua de São Nicolau à cidade de Demre, mas em 2005 o prefeito da cidade trocou o pobre Nicolau de bronze por um Papai Noel de plástico (vermelho, é claro - foto abaixo), de olho nos ganhos monetários advindos do turismo.



Os protestos russos não tardaram a ser ouvidos, mas o prefeito turco foi irredutível. Deixou Papai Noel no seu pedestal e retornou São Nicolau a uma esquina próxima da igreja ortodoxa da cidade.




É difícil separar o que é lenda do que é real na vida de São Nicolau, mas o fato incontestável é que ele era muito popular no seu tempo. Conta-se, por exemplo, que ele teria ressuscitado três crianças vítimas de um macabro assassinato, além de ter convertido hereges que queriam saquear a sua igreja.

A mais famosa história que se conta a seu respeito é a de um pai muito pobre que não tinha como prover o dote para casar as três filhas. Nicolau, à noite, teria atirado três sacos de moedas de ouro e prata na casa da família, e assim salvou as moças de se tornarem prostitutas, o que fatalmente seria o seu fim caso não pudessem se casar.

Por esse dado (histórico ou não), você pode perceber de onde vem boa parte da inspiração que, associada a pitadas de mitos germânicos e escandinavos (a figura idosa e bonachona de Odin, por exemplo), resultou na “invenção” folclórica do Papai Noel.

Já que o mito suplantou em larga escala o personagem histórico, é bom voltar às origens e resgatar um pouco da humanidade e da cristandade de São Nicolau.

Ele era muito religioso desde a mais tenra idade, e após perder os pais ainda muito jovem, em decorrência de uma epidemia, foi criado pelo tio, que também se chamava Nicolau e era bispo de Patara à época.

O jovem Nicolau teria ido a Jerusalém, buscando se dedicar a uma vida eremita de oração, como era comum naqueles tempos, mas Deus conseguiria convencê-lo de que devia voltar a sua terra, onde seria mais útil ao Senhor.

Foi assim que ele subiu paulatinamente na hierarquia eclesiástica e, por ocasião do Concílio de Niceia, em 325 d.C., Nicolau de Mira foi um dos cerca de 300 bispos presentes para decidir questões cruciais que ameaçavam os rumos da ortodoxia da Igreja.

O tema mais disputado em Niceia foi a doutrina da Trindade, combatido por Ário de Alexandria e seus seguidores.

Reza a lenda que, enquanto Ário defendia sua doutrina de que Jesus, o Filho, não era nem nunca havia sido igual (ou cosubstancial) ao Pai, Nicolau ficou tão furioso que cruzou o recinto (na presença do imperador Constantino) e deu um tapa na cara do herege alexandrino.

O ato intempestivo teria causado profundo constrangimento no concílio, e Nicolau foi sumariamente despido de suas vestes episcopais e lançado na masmorra, onde Jesus e Maria teriam aparecido a ele para dizer que ele não seria punido.

Lendas à parte, o fato é que, terminado o concílio, o arianismo foi derrotado e suas ideias declaradas como anátemas, consolidando-se o dogma da Trindade, e Nicolau foi restituído à sua posição de bispo.

Talvez outra semelhança entre São Nicolau e o Papai Noel seja a dificuldade em separar o que é lendário e o que é real, mas – obviamente – é muito mais fácil acreditar que (pelo menos) algumas coisas que se contam sobre Nicolau tenham muito mais substrato fático do que sobre um bom velhinho de roupa vermelha esquisita que voa numa carruagem puxada por renas aladas.

De qualquer maneira, o tapa que São Nicolau teria dado em Ário por conta de sua heresia é uma história (ou estória) boa demais para não ser recordada.

Muito provavelmente, se vivo fosse, ele daria um tapa na cara do consumismo que impera no tal "espírito natalino" dos tempos atuais.

Feliz Natal, Nicolau!





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ário x Atanásio

Aproveitei o último fim de semana para preparar as biografias de Ário e Atanásio para o site e-cristianismo

Consultando os livros enquanto procurava passar a melhor ideia possível do que significaram as vidas dos dois personagens marcantes da história da igreja, me deparei com uma série de pessoas e circunstâncias que me fizeram pensar um pouco mais sobre essa tal "cristofobia" que virou a palavra da moda nas últimas semanas. 

Era tão gritante a discrepância entre aquilo que chamam atualmente de "cristofobia" com a situação real e aflitiva da Igreja primitiva, que foi inevitável fazer uma comparação. 

Ário e Atanásio foram contemporâneos, e serviram a igreja cristã em Alexandria quando o patriarca era Alexandre, só que de maneira bem distinta. 

Atanásio, o mais jovem deles, sempre foi submisso a seu bispo e muitos dizem que, conforme amadurecia, se tornou a sua maior influência intelectual. 

Ário foi o responsável pela difusão da heresia que leva o seu nome - o arianismo - que basicamente pregava que Jesus Cristo não participava da mesma natureza divina de Deus Pai (isto num resumo assumidamente sofrível, já que a questão da terminologia é central nessa controvérsia). 

Essa polêmica levou à convocação do Concílio de Niceia pelo imperador Constantino, que se realizou em 325 A.D., e no qual foram estabelecidos os dogmas centrais do cristianismo, que seriam aperfeiçoados e definitivamente "fechados" nos Concílios de Calcedônia (ano 451) e Constantinopla II (em 553). 

A controvérsia ariana atacava principalmente o pensamento cristológico ortodoxo da Igreja, com as suas inevitáveis imbricações com a doutrina da Trindade

Alexandre morreu um ano depois de Niceia, Ário em 336, e coube a Atanásio combater os muitos seguidores de Ário nas décadas seguintes, isso numa época em que os arianos tinham uma influência política muito grande, pela proximidade com Constantino e seus parentes, enquanto à ala ortodoxa restava pouca margem de manobra. 

Constantino, inclusive, teria sido batizado apenas no leito de morte, em 336, e quem lhe ministrou o batismo foi um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia. 

Fica difícil, portanto, argumentar que ele teria imposto a sua visão particular ao cristianismo, já que - se dependesse dele - a igreja primitiva inteira se converteria em ariana. 

Aliás, apesar de sua, digamos, "arianofilia", em todas as decisões cruciais que teve que tomar sobre os dogmas da Igreja, Constantino sempre se alinhou com a ortodoxia

Talvez fizesse isso a contragosto para apaziguar as facções teológicas contrárias, mas é mais provável que não tinha ideia da importância de suas decisões. 

Atanásio não teve tempo para pensar em "cristofobia". 

A ele cabia pregar o evangelho tal como o havia recebido de seus pais na fé. 

Não encontrou vida fácil com nenhuma autoridade política. 

Durante a sua vida, enfrentou cinco exílios e esteve debaixo do poder de vida ou morte de oito  imperadores: Constantino I; seus filhos Constantino II, Constâncio II e Constante; Juliano; Jovano; Valentiniano e Valente, dos quais apenas dois, Constante e Jovano, lhe foram favoráveis e, mesmo assim, por curtíssimo período. 

Juliano o definiu como "seu pior inimigo", e os demais apenas o toleravam, mas não hesitavam em mandá-lo para novos exílios. 

A disputa com os arianos serviu de combustível para que Atanásio seguisse em frente. 

Nada disso serviu de desculpa para que ele se furtasse a cumprir sua missão de pastor

Se a ortodoxia da Igreja cristã (e naquele tempo não havia diferença entre católicos, ortodoxos e protestantes) foi vitoriosa, isso se deveu, em primeiro lugar, à ação de Deus na História; e, em segundo, a pastores corajosos como Atanásio.

As duas biografias (mais a do patriarca Alexandre) podem ser lidas nos seguintes links:







quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Pastor quebra maldição do superbonder

É cada heresia que a gente ouve nas igrejas evangélicas hoje em dia que só expondo o ridículo da situação pra ver se alguém deixa essas práticas bisonhas e se converte. Ou talvez leiam Gálatas 3:13 e se convençam de que "Cristo se fez maldição por nós", exatamente para livrar o crente de toda e qualquer maldição. Pior ainda é a técnica cola-tudo da verificação dos amaldiçoados. Se bem que hoje, enquanto não inventam cola-tudo pra neurônios nem remendam cara-de-pau, em muitos púlpitos vai continuar funcionando a pregação do "se colar, colou"...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ateus se oferecem para cuidar de animais de fundamentalistas "cristãos" depois do arrebatamento de amanhã

A notícia já vem desde os tempos que Harold Camping marcou o Juízo Final para o dia 21 de maio de 2011 (veja nosso texto de fevereiro de 2010), mas voltou a circular nas vésperas do dia do suposto arrebatamento, conforme publica o UOL Notícias:


Ateus oferecem cuidados aos bichos dos cristãos após o Juízo Final

O destino de cães e gatos de estimação após o dia do Juízo Final, que alguns cristãos fundamentalistas garantem que acontecerá este sábado (21), tem sido motivo de preocupação para muitas famílias, mas um grupo de empresários ateus dos Estados Unidos já oferece a solução.

Em 26 dos 50 Estados americanos, os empreendedores abriram um negócio que oferece serviços de resgate e adoção dos animais dos cristãos que forem selecionados para subir aos céus, quando Jesus os chamar ao seu lado.

"Você prometeu a vida a Jesus. Agora, está salvo. Mas quando chegar o êxtase, o que acontecerá com seus amados bichos de estimação que deixará para trás?", questiona o site da internet da companhia Eternal Earth-Bound Pets, que oferece aos cristãos "tirar-lhes esta preocupação da cabeça".

O serviço de resgate de bichos de estimação já tem 259 clientes, que pagaram US$ 135 para o primeiro animal e US$ 20 adicionais pelo segundo no mesmo endereço. A empresa garante que o animal terá companhia, cuidados e amor, apesar de seus donos cristãos terem ido para o céu.

Todos os integrantes das equipes de resgate são ateus convictos, o que significa que ficarão definitivamente na Terra, dedicados a recolher os animais depois deste dia.

Quando vier o dia do Juízo Final, o co-fundador da empresa Bart Centre "notificará todos os socorristas para que entrem em ação".

"Isto ocorrerá só se acontecer. Ou seja, não temos previsto fazer nada se não acontecer nada no sábado", explicou uma fonte da Bart Centre à AFP.

Os contratos são válidos por 10 anos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Malucos australianos dizem ser Jesus e Maria Madalena


Tem uma seita nova no mundo, o que não é novidade, infelizmente, já que dezenas devem aparecer todos os dias. O que torna esta seita australiana tão peculiar é a mistura que ela faz de "O Código Da Vinci" de Dan Brown com ideias de reencarnação, segundo a notícia abaixo, d'O Globo. Já o jornal australiano Courier Mail diz que eles dirigem uma espécie de "terapia de gritos" na propriedade em que vivem, para se livrar dos traumas das vidas passadas. A porta-voz do grupo, Helen Pomery, expressa ainda mais sua megalomania ao declarar que "no momento em que alguém se torna Deus ou a voz de Deus na Terra, isso lhe dá um outro nível de autoridade para forçar outros a se submeterem a eles'". Qualquer semelhança com "terapias" e "encontros" realizados por "autoridades espirituais" e seus "discípulos submissos" em terras brasileiras não deve ser mera coincidência:

Casal que diz ser Jesus Cristo e Maria Madalena funda seita



Um casal que se diz a reencarnação de Jesus Cristo e Maria Madalena se estabeleceu no Cinturão Cristão de Queensland (Austrália). Os dois estão atraindo discípulos do país inteiro.

Os "novos" Jesus e Maria Madalena foram batizados como Alan John Miller, de 47 anos, e Mary Suzanne Luck, de 32. Eles estão baseados em uma propriedade rural em Wilkesdale.

"Meu nome é Jesus e estou falando sério", declarou Alan John, segundo o "Courier Mail".

"Jesus" comprou uma propriedade de 16 hectares em 2007. Desde então, os seus seguidores compraram terrenos na vizinhança. Corretores locais revelaram um boom na procura por áreas em Wilkesdale.

Obviamente, "Jesus" e "Maria Madalena" vivem de doações. Os seguidores da Verdade Divina arrecadaram o equivalente a 690 mil reais e adquiriram uma propriedade de 240 hectares, onde realizam os cultos. Em uma aparente "coincidência", o desmatamento do terreno acabou criando uma cruz gigante. Os moradores insistem que nada foi proposital.



As igrejas católica e anglicana da Austrália acenderam o sinal de alerta...

O escritor Dan Brown, em "O Código Da Vinci", sugere que, no famoso quadro que retrata Jesus na última ceia, de Leonardo da Vinci, havia um apóstolo com traços femininos. Ele seria simplesmente Maria Madalena, a suposta prostituta que Jesus salvara.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O programa de milhagem do Malafaia

Pois é, não contente com o resultado da campanha da "unção" de 900 paus do Morris Cerullo e da outra, dos 100 x mais de fevereiro último, Silas Malafaia agora chamou o falso profeta Mike Murdoch, que não por acaso parece com algum vilão saído de seriado televisivo dos anos 60 (seria "Perdidos no Espaço"?), para mais um programa de arrecadação de dinheiro, na base de 12 ofertas mensais de 1.000 reais, conforme o vídeo abaixo. É um tal de vender "milagres" na base do mil pra lá, milhão pra cá, que é até difícil fechar as contas, mas como o Malafaia anda comprando avião de milhões de reais, vai ver ele tá querendo lançar algum programa de milhagem que só funciona pra ele. Confesso que não tenho mais estômago para conferir essas heresias na íntegra, por isso me fio na análise acurada e detalhada do Pr. Luiz Fernando Ramos de Souza, do Ministério Força para Viver, que também segue abaixo do vídeo.







TRÊS MILAGRES POR 1.000,00

Mais uma vez fomos atacados violentamente em uma tentativa de espoliação de nosso dinheiro. Mais uma vez Malafaia e seus pares adentraram em nossos lares com promessas não verdadeiras atrás de nosso dinheiro. Tal ataque já tinha sido anunciado há algumas semanas. Malafaia avisou que faria isso quando anunciou que o Sr. M. Murdock participaria de seu programa e para nossa angústia esse programa será reprisado algumas vezes. Como sempre fazem tais vendilhões do templo gospel adentram nossos lares com afirmações de novas revelações por parte do Espírito Santo. Não possuem base bíblica para tais afirmações daí apelarem para novas revelações. Calvino já nos advertia contra tais novas revelações já em 1540 aproximadamente. Lutero disse: “Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir.”

Em agosto de 2009 M. Cerullo veio a este programa e tentou nos convencer a doarmos R$900,00 e assim seria liberada sobre nós uma unção financeira ilimitada até dezembro de 2009. Agora M. Murdock se apresenta tentando nos convencer que se doarmos R$ 1.000,00 três milagres serão liberados em nossas vidas.

Gostaria de comentar algumas aberrações ditas neste programa de 03/04/2010:

1 – A reação a um profeta do Senhor determina a reação de Deus para com o homem.

Em primeiro lugar M. Murdock se coloca na posição e condição de profeta de Deus. Como se tivesse um chamado para ser profeta no Séc. XXI. Esse tipo de afirmação tenta respaldar suas falas e afirmações. Quem é competente para questionar um profeta? Nesta base tais pessoas se valem de uma autoridade auto proclamada e auto assumida e querem empurrar isso goela abaixo para a igreja. A afirmação feita por Murdock é descabida e indutiva. Isso leva o povo a crer que está obedecendo a Deus diretamente. Isso não é e nunca será verdade.
Esse tipo de pensamento e ensinamento coloca Deus como um ser desprovido de soberania, pois, fica aguardando o homem fazer para depois Ele fazer. A Bíblia nos diz que: “Agindo Deus quem impedirá?” Na Bíblia sempre a iniciativa é de Deus. Deus não reage ao homem. Deus age em relação ao homem e o homem reage à ação de Deus. Você pode argumentar sobre o caso do Profeta Jonas e a cidade de Nínive. Jonas pregou e os habitantes de Nínive se arrependeram, então é lícito concluir que Deus mudou seus planos. Deus nunca muda seus planos. Temporariamente, neste caso, Deus não executou seu juízo, mas 300 anos depois Nínive foi totalmente destruída.

2 – Murdock disse que seu novo livro está cheio de revelações poderosas. Mais parece com o livro mágico do Pr. Uriel do movimento de Boston, que teve uma revelação do livro que o profeta comeu ou se não me engano de um dos livros do Apocalipse, onde um anjo falava diretamente com uma equipe de seu ministério dando o significado de tal livrinho. Tal livro do Pr. Uriel tinha tanto poder que quando alguém tocava nele caia em arrebatamento espiritual. Ao longo do programa do Malafaia, Murdock leu algumas das novas e profundas revelações que recebeu. Mais parece conto da carochinha. Tentou demonstrar uma sabedoria espetacular, mas frontalmente contrária à Palavra de Deus. Ele disse algo parecido com isso: “se você insistir em tomar algo que Deus não lhe ofereceu, Ele tomar de volta o que lhe deu”. Deus, nesta forma de pensamento, mais parece um menino zangado que dá e porque foi decepcionado retira o que deu. Murdock cita Sansão como exemplo. Deus havia dado a ele uma unção, mas Sansão quis Dalila, aí Deus retira o poder de Sansão. O texto nos fala do pecado de Sanção ao quebrar o voto do nazireado e nunca essa lei imposta por Murdock. Tudo para tal pregado são leis espirituais. Se forem praticadas tudo ire bem, mas se forem quebradas o mal será descarregado em nós. Mais parece com o livro o Segredo. Exatamente o mesmo princípio.

3 – Murdock disse: “A única coisa que cria o favor de Deus é a obediência”.

Nunca vi tanto besteirol como nessa afirmação. Se for favor, Graça, então não é por atitude humana. O próprio termo favor ou Graça exclui a participação do homem, pois, Graça é o favor de Deus que nós não merecemos e nem fizemos por merecer. Mas para o grande sábio Murdock o favor de Deus é recebido quando obedecemos e acredito que assim diz para fortificar sua palavra que ele é profeta de Deus. O ensino da Graça soberana não nos empurra para a total passividade, mas nos lembra que Deus é a fonte de tudo, que a Sua graça deveria estar longe de nós, apesar de tudo que pudessemos fazer, mas Ele atua em minha vida e ai eu sou capacitado a fazer.

4 – Outra pérola: “Você deve semear a expectativa de uma semente”. Tal afirmação faz coro com o famigerado ensino do Dízimo Profético. Esse ensino diz que devemos dar o Dízimo Profético, ou seja, devemos dizimar a quantia que esperamos receber 10 vezes mais. Entrego o dízimo antecipadamente sobre a quantia que quero ganhar. Ensino profano e mundano. Chega às raias da obscenidade. A prova disso é que no final do programa Murdock pede para as pessoas ligarem e se comprometerem com a oferta mesmo que não tenham dinheiro. Pede para as pessoas se comprometerem que ofertarão assim que Deus lhes abençoar. Pede para que ofertem daquele dinheiro que está reservado para um carro novo, uma viagem ou mesmo uma imprevisibilidade na vida. No fundo ele pede que ofertem de qualquer maneira, ou seja, não quer saber de onde virá o dinheiro, ele quer é o dinheiro. Acredito que centenas de pessoas contrairão empréstimos para ofertar. Muitos deixarão de realizar algo importante para suas famílias e ofertarão.

5 - Murdock orou para liberar três milagres sobre os contribuintes.

1º milagre – Salvação de todos os familiares de todos os contribuintes em 12 meses.

2º milagre – Deus restituirá 7 vezes mais tudo aquilo que o Satanás levou.

3º milagre – Alguém demonstrará favor financeiro para cada contribuinte.

Analisemos os 03 milagres prometidos:

1º milagre: Salvação de todos os familiares de todos os contribuintes em 12 meses.

Ninguém pode garantir a salvação de ninguém, pois, a salvação vem de Deus e é obra de Deus. Sabemos que nem todos os seres humanos serão salvos, pois, Deus tem os seus eleitos e somente os tais serão salvos. Tal afirmação caminha para o Universalismo, doutrina que ensina que todos serão salvos, pois, Cristo morreu por todos. Logo ninguém se perderá. Sendo assim tudo fica mais fácil, pois, basta esperarmos para vê-los salvos. A salvação exige a responsabilidade do homem e está nunca será deixada de lado. O homem precisa responder ao sacrifício de Cristo e isso ele somente o faz quando é regenerado pela graça mediante a fé.

Agora, afirmar que porque alguém ofertou R$ 1.000,00 no ministério X salvação chegará a toda sua família no prazo de 12 meses é algo estranho à Bíblia e mentiroso. É um engodo dos mais terríveis. Salvação nunca foi e nunca será vinculada a oferta financeira, mas somente à Graça de Deus. Por isso, os reformadores cunharam uma das máximas da Reforma: SOLA GRATIA.

Está é a mesma mentira proclamada por M. Cerullo em agosto de 2009 no mesmo programa. Naquela ocasião quem desse uma oferta de R$ 900,00 receberia salvação em sua família. Nesse ponto Malafaia é coerente, pois, só trouxe ao Brasil profetas da mesma extirpe. Todos proclamando as mesmas asneiras.

2º milagres: Deus restituirá 7 vezes mais tudo aquilo que o Satanás levou.

Quem é M. Murdock para afirmar o que Deus fará esta restituição? Será que é tão intimo de Deus a ponto de saber tais segredos da Divindade? Pense um pouco: Por que não 70 vezes mais? Por que não 700 vezes mais? Para quem pensa tão grande como Murdock 7 constitui-se em um número muito pequeno, não acha? Qual o prazo dessa restituição?

Tal afirmação de Murdock deixa Deus à mercê do Diabo. Como se Satanás fizesse o que bem entende sem prestar satisfação para ninguém. Não entendo essa mania ou ensino idiota de atribuir nossos fracassos a Satanás. Tudo o que deu errado foi o Diabo. Isso tira a responsabilidade do homem e transfere para o mundo espiritual. Ai vem alguém especial e promete que por R$ 1.000,00 que tudo voltará 7 vezes mais. Acho engraçado isso, pois, a Bíblia nos diz que Deus retribuiu a Jó 2 vezes. Muito esquisito isso!

Agora fica a pergunta: O que foi que Satanás levou? Ou o que foi perdi por causa dos meus pecados e erros de avaliação? Ou onde entra nisso tudo a Soberania de Deus?

3º - Alguém demonstrará favor financeiro para cada contribuinte.

Parece-me que alguém aparecerá do nada e dará dinheiro e resolverá todos os problemas instantaneamente. Que coisa ridícula e descabida.

O que achei mais lindo nisso tudo foi a garantia que o ofertante receberia um exemplar do novo livro de M. Murdock e um belíssimo certificado de participante do seleto grupo que quer ganhar um milhão de almas. Algo subsidiado por princípios de marketing. Acredito que centenas de cristãos colocarão o tal certificado em seus escritórios, salas de jantar ou mesmo nas cabeceiras de suas camas e se sentirão realizados e orgulhosos do que fizeram. Que pena!

Terminando Mudorck profetizou que Deus estava revelando a ele que havia uma pessoa que estava precisando de um milagre financeiro, pois, tal pessoa passa por grande crise, então deveria plantar uma semente dos seus negócios, ou seja, dizimar sobre valores arrecadados em sua empresa. Que profecia esdrúxula! Que profecia caquética! Que profetada! Observe a afirmação: Existe uma pessoa que está passando por sérios problemas... Fiquei a me perguntar: Qual pessoa? Quantos entenderão que a tal profecia diz respeito a eles? Acredito que milhares. Não houve nome de ninguém. Não houve indicação dos negócios desta pessoa. Nada específico, somente o geral. Isso contraria a Palavra de Deus que nos diz que quando o Espírito Santo falou Ananias sobre Paulo, Ele disse quem era a pessoa, como se encontrava, na casa de quem se encontrava e o nome da rua onde tal casa se localizava. Isso é profecia. Inquestionável. Ágabo profetizou utilizando o cinto de Paulo, ou seja, identificou a pessoa e mostrou o que aconteceria e Paulo recebeu tal profecia, creu nela e não se intimidou ou abalou diante dela, mas confiantemente disse que estava pronto não somente a viver, mas também a morrer por Cristo.

Logo depois o grande profeta Murdock profetizou que Deus levaria ao sucesso 12 pessoas e que era para que tais pessoas ofertassem os R$ 1.000,00. Embasou o número 12 nos números dos 12 apóstolos, nas 12 tribos de Israel e nas 12 portas da Nova Jesuralém. Estas 12 pessoas deveriam oferta 12 sementes de R$ 1.000,00 durante os próximos 12 meses. Estas 12 pessoas são sementes extras. São 12 negócios que terão favor sobrenatural de Deus.

JÁ VIMOS ESTE FILME EM AGOSTO DE 2009. CERULLO EMBASOU ASSIM SEUS R$900,00: O PORQUE DOS R$ 900,00 É POR ESTARMOS EM 2009 E NOVE É NÚMERO DE COMPLETUDE. 2008 ERA O ANO DE DO INÍCIO E 2009 ANO DE SER COMPLETO.

No final do apelo Murdoch disse assim: “Quanto mais rápido a semente entrar no solo, mais rápido você verá o seu crescimento.

Lembrou o grande enviado Papa Leão X Johann Tetzel. Padre dominicano que foi encarregado pelo papa para vender indulgências na Alemanha no tempo de Lutero. Tetzel tinha uma máxima: “Tão logo a moeda no cofre ressoa, a alma sai do purgatório.” Parece muito com a esta palavra de Murdock, não parece? Refiro-me a rapidez dos resultados.

O que muito me estranha é não ver nenhum tipo de censura por parte da denominação pertencente tais pastores. Que pena!O que me estranha também é não existir ninguém com penetração na mídia para questionar essas coisas. Mesmo as denominações tidas como históricas, aquelas que estão na mídia, têm se calado concordando assim com essa orgia gospel.

Creio que ainda restam os 7000 que não dobraram seus joelhos a Baal.

Soli Deo Glória

Pr. Luiz Fernando R. de Souza

sábado, 23 de janeiro de 2010

Quem eram os nicolaítas?

Apocalipse 2:

6 Tens, porém, isto, que aborreces as obras dos nicolaítas, as quais eu também aborreço.
15 Assim tens também alguns que de igual modo seguem a doutrina dos nicolaítas.

Os dados do Ap 2.6.14.16.20 não permitem identificar a seita nem de fixar-lhe, mesmo aproximativamente, as origens. Provavelmente trata-se de um movimento de cunho doutrinal e ético. Se se deve reconhecê-los nos “falsos apóstolos” (Ap 2.2), corresponderiam àqueles pregadores itinerantes, que se faziam passar por profetas e apóstolos sem sê-lo (cf. 1 Ts 5,20-21; 1 Jo 4,1), que deixaram vestígios também nos inícios do séc. II (In., Eph. 9,1; Did. 11.8-10). Remonta-se à sua doutrina através do exame da conduta. Os nicolaítas não tinham escrúpulos em participar dos banquetes sacros dos pagãos (Ap 2,14-15), que muitas vezes eram acompanhados de práticas imorais. Arquétipos de tal conduta são Balaão (Nm 31,16s), que, segundo a exegese rabínica, teria aconselhado o rei Balac de Moab a oferecer aos israelitas mulheres moabitas para fazê-los prevaricar o monoteísmo e convertê-los à idolatria, fazendo-os comer carne de animais imundos, e Jezabel, nome certamente simbólico, correspondente a uma pessoa real, que se liga à fenícia rainha homônima de Israel, que induziu o marido Acab, seguido por boa parte do povo, aos cultos idolátricos (1 Reis 16,31; 2 Reis 9,22). Esta mulher, fazendo-se passar por profetiza, reunia em volta de si um grande grupo de fiéis, os quais desencaminhava com profecias e seduções (Ap 2,20-23). As indicações do Apocalipse induziriam a crer que nos encontramos diante de uma espécie de pré-gnósticos, que em nome de uma sabedoria superior (Ap 2,24) professavam e praticavam um certo laxismo teórico e prático, levando às últimas consequências os ensinamentos de Paulo sobre a liberdade dos cristãos (1 Cor 8; Rom 14). As consequências seriam a participação nos banquetes sacros dos pagãos, já que o ídolo não é nada, e uma certa complacência em relação ao culto imperial, pois no ato cultual não se adorava a pessoa do imperador, mas seu gênio protetor. A linguagem simbólica do Apocalipse (idolotitos – fornicação) parece encerrar esta doutrina. À exceção do nome, não existem provas para se considerar como fundador do movimento o prosélito de Antioquia, o diácono Nicolau (At 6,5). A tradição patrística está dividida: Ireneu (Adv. Haer. I, 26,3; III, 11,1), Hipólito (Refut. VII, 36) e Epifânio (Pan. 25) repetem e ampliam os dados do Apocalipse. Sua credibilidade é bem pouca no que concerne ao 20; III, 4), seguido por Eusébio (HE III, 29) e por Teodoreto (Haer. fab. III, 1), rejeita a identificação com o diácono de Atos 6,5 e explica que homens perversos mudaram seu dito “é preciso negligenciar a carne” de seu significado autêntico para dele fazer um princípio de libertinagem. Na Idade Média, sob o nome de nicolaítas foram compreendidos todos quantos se opunham ao celibato eclesiástico.

(“Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs”, Ed. Vozes e Ed. Paulinas, 2002, pp.998-9)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da Assembleia de Deus ao Islã

Como diria Zagalo, “aí então fomos surpreendidos novamente”... A gente nunca deve menosprezar a possibilidade de ser pego de surpresa por alguma notícia estranha vinda da igreja evangélica brasileira. Leio no blog Genizah que o pastor presidente da Assembleia de Deus no Estado da Paraíba, João de Deus Cabral, se converteu ao islamismo. A notícia – se verdadeira, há que ressalvar - não chamaria tanto a atenção se não se tratasse de um pastor que, além de ter comandado a Convenção Estadual da maior denominação evangélica no Brasil, foi secretário nacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil por 15 anos. É normal que, todo santo dia, pessoas transitem (se “convertam”) de uma religião pra outra (ou à negação dela) no mundo inteiro, afinal o que não falta são religiosos (e ateus) nominais.

Segundo as informações colhidas até o momento, o ex-pastor teria se oposto à doutrina da Trindade, à celebração do Natal, além de acreditar na surrada teoria da conspiração de que Constantino teria sido o, por assim dizer, consolidador da religião cristã . No fundo, cá entre nós, essas são apenas desculpas para quem nunca foi cristão nem entendeu o que significa a cruz de Cristo. Entretanto, estava lá, falando em nome da maior denominação evangélica do Brasil. Por isto mesmo, não deixa de ser uma oportunidade para se avaliar a situação em que se encontra a igreja no país.

Muitos cristãos nominais não se preocupam em – pelo menos – tentar entender o que significa a doutrina da Trindade (e da correlata Encarnação) para o cristianismo. É claro que é uma doutrina inalcançável para a razão humana, mas sem essas duas doutrinas o cristianismo não subsiste, porque não haveria salvação se Jesus – como sendo 100% Deus e 100% homem – não tivesse sido sacrificado em nosso lugar, discussão que procurei aprofundar no texto “A doutrina da Trindade – Uma Introdução”, ao qual remeto o leitor que busca compreender melhor a sua importância. Com relação à celebração do Natal, cujo antagonismo de alguns evangélicos – como Edir Macedo - tem se tornado uma verdadeira superstição antissuperstição, recomendo a leitura do artigo “Esclarecimento sobre as origens do Natal”, de autoria do Gustavo, coeditor deste blog. A questão natalina, a meu ver, é mera perfumaria argumentativa, dessas filigranas que servem de desculpa pra qualquer coisa, já que nenhum ramo do cristianismo impõe a seus seguidores a obrigação de celebrar o Natal. Provavelmente, algumas “igrejas” estão querendo evitar que seus fiéis gastem seu dinheiro em presentes de Natal e o destinem aos cofres da organização.

Retornando aos dogmas da Trindade e da Encarnação, eles, entretanto, são decisivos. A atitude de negá-los explica bastante sobre as heresias que saíram da Igreja primitiva, como o nestorianismo e o monofisismo dos séculos V e VI, com resultados parecidos como o que vemos hoje na Paraíba do século XXI, por incrível que pareça. Num brevíssimo resumo, o nestorianismo pregava que havia em Jesus duas naturezas absolutamente distintas, a divina e a humana, de forma que eram dois entes independentes, sem qualquer ligação. Já o monofisismo dizia que havia em Jesus apenas a natureza divina que, digamos, “absorvia” a humana. A doutrina da Trindade, para eles, gravitava em torno das suas doutrinas exóticas da Encarnação, e terminavam por condená-la à morte, conforme exposto no texto Trindade – Uma Introdução. Essas heresias tiveram enorme influência nas igrejas orientais, em especial na região da península arábica, na qual outra seita já havia florescido, ainda no século II: os ebionistas. O ebionismo, como ensina o historiador cristão Justo L. González (leia o excerto clicando aqui), foi fortemente influenciado pelo gnosticismo e pelos grupos judaizantes da época, e, em suma, negava a Jesus qualquer divindade, colocando-o no patamar de apenas mais um dos grandes profetas de Deus. González acrescenta: “Ele não era mais o filho unigênito de Deus, mas um mero profeta dentro da sequência de profetas. Ele não era mais o salvador, mas simplesmente um elemento – algumas vezes secundário – da ação de Deus ao longo desta era”. Desta maneira, todo este caldo de cultura com referências cristãs, mas que negava as doutrinas cristãs básicas da Trindade e Encarnação, muito provavelmente terminou influenciando Maomé na fundação do islamismo, para quem Jesus era de fato um dos grandes profetas, mas não o unigênito e todo-divino Filho de Deus. O historiador Paul Johnson, em sua obra clássica “História do Cristianismo” (Ed. Imago, 2001, p. 291 – leia o excerto clicando aqui) relata que na sua primeira grande vitória, no Rio Yarmuk, em 636, o profeta do Islã contou com o apoio de 12.000 árabes cristãos, que não tiveram problemas significativos com os muçulmanos por muitos séculos.

Não deveria ser surpresa, portanto, que cristãos nominais iludidos e mal formados se convertam ao islamismo. Mas infelizmente é, e este fato exige redobrada atenção das igrejas evangélicas brasileiras, hoje muito mais preocupadas com o “evangelho do desempenho”, em que a salvação pode ser perdida a qualquer momento, se determinadas obras não forem cumpridas, certos alvos financeiros não forem alcançados e "dons espirituais" coreografados não sejam exibidos à exaustão, num profundo desprezo por tudo que os grandes reformadores protestantes resgataram da poeira dos séculos amontoada nas Escrituras e nos repassaram. Por outro lado, vemos um constante solapamento dos dogmas fundamentais do cristianismo, como a Trindade e a Encarnação, aliado à proliferação de práticas judaizantes. Além disso, o gnosticismo (com suas revelações especiais particulares e numerologia, por exemplo), infesta muitas igrejas. Registre-se, ainda, essa verdadeira fixação de muitos evangélicos pela novidade, venha ela de onde vier. Queiram ou não, o islamismo é uma religião com representatividade minúscula no espectro populacional brasileiro, e não deixa de ser “novidade” que ocorra uma conversão como essa aqui destacada.

Cabe a cada denominação e a cada pastor cuidarem bem de seu rebanho. Isto não se faz com a “espetacularização” do evangelho para satisfazer alguns corações novidadeiros, insaciáveis e voláteis. Tudo passa pelo fortalecimento doutrinário dos irmãos e das confissões de fé de cada igreja cristã, que deve permanecer firme no ensino da Palavra e intransigente no testemunho de fidelidade da Igreja primitiva, sem negociar com a areia movediça das conversões não tão convictas assim. Espero que a Assembleia de Deus, por sua importância estatística no país, debata a fundo o assunto, para que ela própria continue relevante do ponto de vista espiritual e não siga o caminho das seitas orientais do primeiro milênio.

sábado, 1 de novembro de 2008

A apologia do profano


Dicionário Houaiss:


Profano:


Acepções

■ adjetivo

1. que não pertence ao âmbito do sagrado - Ex.: coisas p.

2. que é estranho, que não pertence à religião - Ex.: elementos p. penetraram no santuário

3. que deturpa ou viola a santidade de coisas sagradas - Ex.: atitude p. diante da Bíblia

4. que não é religioso; leigo, temporal, secular - Ex.: instituição p.

5. que não tem finalidade religiosa; mundano


Sinônimos - ver sinonímia de secular

Antônimos - sacro, sagrado; ver tb. antonímia de secular


A coisa no meio dito "evangélico" anda tão desavergonhada, que tem até pastor vendendo consórcio "em nome de Jesus", expressão tão bela e pura que está sendo transformada em mais um dos inúmeros chavões evangélicos que assolam a Igreja no Brasil, ao lado de "palavras mágicas" como "nova unção", "noiva", "apaixonado" e outras do gênero. Meus 45 anos de vida (25 como cristão) muito bem vividos, diga-se de passagem, me dão a convicção empírica de que determinadas atitudes reprováveis e/ou reprimidas por muito tempo, se a pessoa não muda (ou se converte) efetivamente, tendem a se tornar aberrações. Infelizmente, boa parte da igreja evangélica brasileira está sendo consumida pela voracidade das heresias travestidas de piedade, profanando o sagrado, como Paulo havia predito a Timóteo:

2Ti 3:1 Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis.
2Ti 3:2 Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios,
2Ti 3:3 sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem,
2Ti 3:4 traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus,
2Ti 3:5 tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se também destes.

O interessante é que este descaramento da pastorzada - que, além de não merecerem o título de pastor, desprezam a importância do nome (e do sacrifício) de Jesus - começa a ser percebido inclusive pela imprensa secular (aquela que, pela sinonímia acima referida, deveria ser profana), como é o caso deste artigo do Ricardo Feltrin no UOL, que merece ser transcrito:


29/10/2008 - 15h46


Pastor usa nome de Jesus para fazer 'merchan' de consórcio na TV

Ricardo Feltrin

Colunista do UOL


Se existe uma "vítima" da chamada Teologia da Prosperidade ela é a própria palavra escrita na Bíblia. Essa teoria (ou prática teológica) tem se disseminado de forma surpreendente, e é defendida por evangélicos que crêem - a grosso modo - que Deus tem algum tipo de dívida para com o ser humano, ou que tem uma espécie de acordo (com ares de obrigação inescapável) de dar-lhe riqueza e felicidade caso a pessoa realmente tenha fé e o queira. A contrapartida geralmente é o fiel desembolsar alguma riqueza própria (dinheiro) em troca da riqueza maior futura.

O pastor evangélico Marco Feliciano, do Ministério Tempo de Avivamento, leva a teoria às últimas consequências em site e em programa na Rede TV. Enquanto garante que Deus atenderá a todos os pedidos de "fiéis", "perseverantes" ou "valentes", ele aproveita e vende cursos de teologia, DVDs, CDs de músicas e camisetas. Até aí, ok, nada demais. Mas ele também usa o nome de Jesus em merchandisings.

Segundos após realizar uma oração inflamada (que inclui palavras de língua desconhecida), pastor Feliciano ressurge como garoto-propaganda no mesmo cenário para vender um consórcio de casa própria, o GMF Consórcios.

"Você realiza, então, em nome de Jesus, o sonho da casa própria", diz o pastor.

Bíblia, hermenêutica e edição

Os pastores e bispos adeptos da teologia ou teoria da prosperidade fazem uso da hermenêutica na leitura da Bíblia para garantir que o que estão fazendo não viola as regras de Deus ou de Jesus. Trata-se de uma espécie de "edição" de conteúdo: cada um usa a Bíblia da forma que lhe interessa.

Senão vejamos: a orientação divina para que os humanos não se percam em desejos materiais em detrimento ao amor por Deus está citada duas vezes, de forma muito semelhante, em dois diferentes Evangelhos.

Em Lucas, 16:13, lê-se: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas."

Da mesma forma, em Mateus 6:24, está: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom".

Por outro lado há outro trecho em Lucas , 11:9, que diz que ao pedir algo a Deus, o fiel simplesmente receberá o que deseja (de acordo com o merecimento e fé, pressupõem-se). Mas sem precisar fazer um carnê de desafio com uma igreja. Sem intermediários.

"Por isso eu digo: peçam e vocês receberão; procurem e vocês acharão; batam, e a porta será aberta para vocês." No caso do pastor do "merchan", a porta começa com um consórcio para a casa própria.


(PARA VER O TRISTE VÍDEO, CLIQUE AQUI)


Quando o profeta Balaão vendeu-se a Balaque (Números 22), Deus usou uma jumenta para adverti-lo. Na sua insensatez, preocupado que estava em locupletar-se com o sagrado, Balaão nem se deu conta de que estava travando um diálogo acalorado (e estapafúrdio) com uma jumentinha. Quando os pseudo-profetas se rendem ao consumismo desenfreado, e quando o povo de Deus se cala diante de tanta indecência, o Senhor levanta outras vozes para expô-los ao ridículo.

A aberração, a indecência, e a indiferença e o desprezo pelo sagrado (ou seja, o profano), estão se transformando na marca registrada de uma parte enorme da igreja evangélica brasileira. Isto precisa ser combatido e denunciado, pois é assim que a população nos vê, misturados a esses mercadores das coisas santas, a esses atiradores de pérolas aos porcos, e precisamos nos separar desta gente que envergonha o evangelho (e o nome) de Jesus. Ou fazemos isso, ou animemos esses mercadores a usarem o - muito mais apropriado - nome de Esaú:

Hebreus 12:14 Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor.
12:15 Cuidem para que ninguém se exclua da graça de Deus, nem alguma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos.
12:16 Não haja nenhum imoral ou profano, como Esaú, que por uma única refeição vendeu os seus direitos de herança como filho mais velho.
12:17 Como vocês sabem, posteriormente, quando quis herdar a bênção, foi rejeitado; e não teve como alterar a sua decisão, embora buscasse a bênção com lágrimas.


O próximo merchan evangélico provavelmente será o Disk-Donkey:

Ligue para nossa jumenta, que te mandamos um prato de lentilhas, em nome de Esaú...


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