segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ário x Atanásio

Aproveitei o último fim de semana para preparar as biografias de Ário e Atanásio para o site e-cristianismo

Consultando os livros enquanto procurava passar a melhor ideia possível do que significaram as vidas dos dois personagens marcantes da história da igreja, me deparei com uma série de pessoas e circunstâncias que me fizeram pensar um pouco mais sobre essa tal "cristofobia" que virou a palavra da moda nas últimas semanas. 

Era tão gritante a discrepância entre aquilo que chamam atualmente de "cristofobia" com a situação real e aflitiva da Igreja primitiva, que foi inevitável fazer uma comparação. 

Ário e Atanásio foram contemporâneos, e serviram a igreja cristã em Alexandria quando o patriarca era Alexandre, só que de maneira bem distinta. 

Atanásio, o mais jovem deles, sempre foi submisso a seu bispo e muitos dizem que, conforme amadurecia, se tornou a sua maior influência intelectual. 

Já Ário foi o responsável pela difusão da heresia que leva o seu nome - o arianismo - que basicamente pregava que Jesus Cristo não participava da mesma natureza divina de Deus Pai (isto num resumo sofrível, já que a questão da terminologia é central nessa controvérsia). 

Essa polêmica levou à convocação do Concílio de Niceia pelo imperador Constantino, que se realizou em 325, e no qual foram estabelecidos os dogmas centrais do cristianismo, que seriam aperfeiçoados e definitivamente "fechados" nos Concílios de Calcedônia (ano 451) e Constantinopla II (em 553). 

A controvérsia ariana atacava principalmente o pensamento cristológico ortodoxo da Igreja, com as suas inevitáveis imbricações com a doutrina da Trindade. 

Alexandre morreu um ano depois de Niceia, Ário em 336, e coube a Atanásio combater os muitos seguidores de Ário nas décadas seguintes, isso numa época em que os arianos tinham uma influência política muito grande, pela proximidade com Constantino e seus parentes, enquanto à ala ortodoxa restava pouca margem de manobra. 

Constantino, inclusive, teria sido batizado apenas no leito de morte, em 336, e quem lhe ministrou o batismo foi um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia. 

Fica difícil, portanto, argumentar que ele teria imposto a sua visão particular ao cristianismo, já que - se dependesse dele - a igreja primitiva inteira se converteria em ariana. 

Aliás, apesar de sua, digamos, "arianofilia", em todas as decisões cruciais que teve que tomar sobre os dogmas da Igreja, Constantino sempre decidiu a favor da ortodoxia. 

Talvez fizesse isso a contragosto para apaziguar as facções teológicas contrárias, mas é mais provável que não tinha ideia da importância de suas decisões. 

Atanásio não teve tempo para pensar em "cristofobia". 

A ele cabia pregar o evangelho tal como o havia recebido de seus pais na fé. 

Não encontrou vida fácil com nenhuma autoridade política. 

Durante a sua vida, enfrentou CINCO exílios e esteve debaixo do poder de vida ou morte de OITO imperadores: Constantino I; seus filhos Constantino II, Constâncio II e Constante; Juliano; Jovano; Valentiniano e Valente, dos quais apenas dois, Constante e Jovano, lhe foram favoráveis e, mesmo assim, por curtíssimo período. 

Juliano o definiu como "seu pior inimigo", e os demais apenas o toleravam, mas não hesitavam em mandá-lo para novos exílios. 

A disputa com os arianos serviu de combustível para que Atanásio seguisse em frente. 

Nada disso serviu de desculpa para que ele se furtasse a cumprir sua missão de pastor. 

Se a ortodoxia da Igreja cristã (e naquele tempo não havia diferença entre católicos, ortodoxos e protestantes) foi vitoriosa, isso se deveu, em primeiro lugar, à ação de Deus na História; e, em segundo, a pastores corajosos como Atanásio.

As duas biografias (mais a do patriarca Alexandre) podem ser lidas nos seguintes links:







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