sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Meninos tacando pedras nos vitrais das catedrais

No artigo "Dawkins não sabe título da obra-prima de Darwin", recentemente publicado aqui no blog, vimos como o Rev. Giles Fraser demonstrou a Richard Dawkins que a pesquisa patrocinada pela fundação do militante ateu não nos dá uma verdadeira perspectiva do cristianismo, por mais que Dawkins queira garantir o contrário. Fizemos questão de tratar esta notícia de forma irônica, já imaginando que fosse mais do que natural que o sarcasmo descontentasse alguém, dando-lhe a oportunidade de fazer críticas ao texto. O comentário foi feito não muito tempo depois.

Mais do que um comentário, se trata de uma queixa deveras interessante. Quando a li pela primeira vez, percebi que havia alguma coisa errada nela. Um certo padrão paria querer saltar do texto, o que me obrigou a refletir bastante antes de identificá-lo.

O que há de errado neste comentário, então? Bem, o que chamou a atenção foi o fato do autor alegar que a religião é um tema rico - cultural e filosoficamente. Este reconhecimento é em si louvável para qualquer pessoa. Entretanto, alguém que reconhece uma riqueza cultural e filosófica na religião deveria ser capaz de identificar esta, digamos, "preciosidade" em todos os seus discursos e debates, não é mesmo?

Ora, o artigo que publicamos sobre o debate entre o Rev. Fraser e Dawkins é um texto religioso. Ele traz uma discussão religiosa que se vale do sarcasmo e da ridicularização como meios hábeis a transmitir uma mensagem.  Não é nenhuma constatação alienígena dizer que o Rev. Fraser baixou o nível de sua argumentação para adequá-la às catilinárias irônicas de Dawkins. Sabedores de que este é o estilo essencial do discurso ateu, seguimos a mesma descida ao poço da argumentação do Rev. Fraser e fizemos questão de jogar no campo do adversário (retoricamente falando). O autor do artigo fez isto com uma intenção clara. Vemos então aqui tal riqueza cultural: até mesmo o humor, sarcasmo ou ridicularização, que também são meios humanos de se transmitir uma mensagem, são ferramentas úteis para o debate. Mas o comentarista, em nome da riqueza cultural e filosófica da religião, pretende negar ali alguns meios deste tesouro se expressar. E é isto que está errado com o comentário dele.

Agora, alguém poderia se perguntar se o sarcasmo ou a ridicularização são meios apropriados para se empregar em um texto assim. Obviamente, quem questiona desta forma ou não acompanha debates com ateus, principalmente com aqueles que idolatram Dawkins, ou não percebe as reais motivações desses ateus em idolatrá-lo.

Há muito tempo participo de alguns fóruns onde há grande quantidade de usuários jovens, e que permitem a discussão de religião, mesmo que não seja este o razão principal de existir do fórum. É muito fácil perceber nestes lugares que a quantidade de jovens que aderem ao  discurso (mais que ao ateísmo propriamente dito) é muito grande. E sempre aparece algum tipo de tópico para discutir algum ponto defendido por alguma religião (na maioria das vezes é sobre o cristianismo), não para identificar eventuais riquezas ou correlações culturais e filosóficas, mas para ridicularizá-la mediante um discurso jocoso, cheio de sarcasmo e deboche. Esta é a "metodologia" dos jovens seguidores de Dawkins, e de muitos ateus (felizmente alguns se "salvam", é forçoso admitir). Recorrer, portanto, ao sarcasmo e deboche é o mesmo que falar na linguagem deles.

Por outro lado, é interessante observar que o ateísmo é muito atrativo aos jovens. O ateísmo não possui regras, e esta anomia - em uma fase onde se desafia as regras impostas pelos pais - pode ser algo muito bem visto e bem-vindo. Por outro lado, o ateísmo também não tem livros sagrados, ou não deveria adotá-los, em tese. Teoricamente, não possui um corpo de doutrinas para serem defendidas, nem possui líderes, já que tê-los seria um contra-senso ao chamado "pensamento livre". Você não precisa explicar as ideias e atitudes de outros ateus exatamente por que ninguém tem qualquer compromisso com elas. São todos livres na sua escravidão da ideia única da negação da divindade. Desta forma, o jovem pode ridicularizar aqueles que seguem (ou dizem seguir) uma religião, sem - no entanto - se submeter ao risco de enfrentar a temível ridicularização contrária. Cômodo, não? Ele pode levantar um exército de contradições em livros sagrados ou nas atitudes de religiosos, sem jamais ter que passar pelo crivo dos mesmos problemas que joga na cara do outro. Retira os esqueletos do armário do religioso enquanto o seu está vazio. Não há como perder a discussão. Isto tudo por que a fase pela qual ele está passando é cheia de inseguranças, e ele precisa se sentir seguro na sua impenetrável zona de conforto. A melhor defesa é o ataque, já ensina a sabedoria popular. O menino tem uma pedra inconsequente na mão, mas a catedral tem os vitrais.


Além disso, não se pode desprezar o instinto gregário da condição humana e o comportamento de manada que está sempre à disposição de quem não sabe para onde ir. Ao optar pelo ateísmo, sobretudo via internet, o jovem - até então recluso e solitário - faz dezenas, centenas de "amigos" instantaneamente, sem nenhuma necessidade de interagir pessoalmente com eles, geralmente jovens como ele que precisam morbidamente da aceitação imediata de um grupo que se sinta unido por um sentimento comum, no caso o ódio à religião. Está montando o cenário da "batalha", então. Só falta combinar com a torcida adversária, no caso pessoas religiosas que - muitas vezes pelas mesmas carências - veem na polêmica rotineira com ateus uma espécie de cumprimento de "missão divina". Eles nunca vão faltar, e aí é atendida toda essa carência de pertencer a um grupo ao qual é reservado um papel revolucionário (e imaginário) que mudará os destinos da humanidade. De uma hora para outra encontram sentido na vida. Só não satisfaz completamente porque a maturidade - essa inevitável - não tarda a chegar, e com ela muitas fantasias juvenis se desfazem, e é preciso algo mais que a mera militância ateísta não consegue fornecer, a não ser que o jovem se recuse a crescer. Já dizia Karl Marx que tudo o que é sólido desmancha no ar...

Neste momento, entretanto, destacar esta falha grosseira de Dawkins de forma sarcástica incomoda muito aquele jovem. Isto traz à tona toda aquela insegurança que ele havia escondido em algum beco escuro de seu subconsciente. Assim, quando se maneja o sarcasmo ou o deboche na argumentação contra esses jovens, o seu castelo de cartas (que é sua pálida segurança) desmorona. Será que esta posição é realmente segura? Será que ele se livrará de críticas? Será que assumir essa postura é realmente coerente? Talvez eles não se perguntem isto, mas foi o medo da ridicularização e a ansiedade pela aceitação que os motivaram em primeiro lugar a buscar o ateísmo (e alçar Dawkins aos píncaros da glória mundana como ídolo). Talvez a oposição inesperadamente sarcástica os force a encarar os próprios medos e finalmente os leve a fazer escolhas baseadas em algo mais sólido e crível, por incrível que pareça. Desta maneira, a ridicularização pode ser sim um meio interessante de trazê-los à razão.

Só para finalizar, me lembro que na escola havia toda essa coisa de grupinhos e de deboches com os outros colegas... o que modernamente se chama de bullying. Naquela época ninguém tinha muita maturidade para lidar com esse tipo de crítica. Qual era a resposta mais rápida a este tipo de problema? Bem, a ansiedade de se deixar a infância, fase que dependemos muito dos pais, para nos tornarmos adultos, provavelmente explica a atitude: tudo pode ser tachado de “criancice”. Deve ser o fim do mundo para um jovem ser chamado de criança, o que faz com que a "criancice" se torne a ofensa mais detestável para eles.


Aliás, essa hipótese de bullying merece ser melhor investigada. Longe de nós sermos levianos a ponto de fazermos generalizações instantâneas como faz Richard Dawkins com os dados super isentos das estatísticas produzidas por sua própria fundação, mas é de se desconfiar que exista alguma relação entre jovens que sofreram bullying na infância e adolescência, e o apego - muitas vezes fanático - ao ateísmo assim que deixam o ensino médio para trás.  Talvez, na impossibilidade física e/ou emocional de confrontar os valentões da escola, vejam na religião um "inimigo" fácil de afrontar. Afinal, a maioria dos que dizem ter fé em uma entidade superior nunca se preocuparam em se preparar para defendê-la nem ouviram falar nessa tal "apologética". Basta ver uns vídeos na internet, aprender alguns chavões ateus e pronto: o cenário da luta está montado, e o rival no outro canto do ringue é um ser etéreo que não tem vontade alguma de lutar, até porque os valores religiosos, em geral, desestimulam este tipo de atitude. Um adversário difuso assim é sopa no mel para corações magoados e  inconstantes. Curiosamente, eles chamam esse adversário de "imaginário", no sentido de que o divino é uma invenção, uma ficção humana, mas é realmente imaginário para eles, no sentido de que precisam de um bode expiatório - um inimigo imaginário - para o qual desviem toda a sua frustração acumulada.

Chamou-me a atenção, portanto, quando o autor do comentário chamou o texto de algo do “jardim de infância”. Ele faz isto ao mesmo tempo em que tenta avocar a si próprio uma atitude “adulta” de reconhecer - embora não lhe dê a mínima - a riqueza cultural e filosófica da religião, ou de demonstrar conhecimento ao empregar anglicismos (atitude do tipo “me respeite, eu conheço mais de um idioma”). Por trás dessa arrogância juvenil, se percebem indícios de que ele seja de fato jovem, ou que ele não teve a oportunidade de refletir sobre os próprios temores e anseios. De qualquer forma, me parece que o texto acabou cumprindo seu papel, atingindo como um míssil certeiro os frágeis fundamentos de suas escolhas. Os vitrais ficaram intactos...




2 comentários:

  1. Que legal. Toda uma analise equivocada por conta de um comentario que eu fiz nas pressas. Eu vou ignorar a maior parte do que foi escrito e me concentrar na parte que voce de fato fala sobre algo concreto. Eu posso ter me expressado mal no comentario anterior, mas eu não me incomodei com o argumento do reverendo (que foi muito adequado), e nem com o suposto sarcasmo do blogueiro, e sim com a propagacao da ideia de que o Dawkins e um inimigo, um cara que luta pelo lado do mal. Ele tem uma postura militante que me desagrada, mas ninguem precisa que se transforme o debate em um campo de batalha. Eu certamente não pretendi causar nenhuma confusao, muito menos encorajar uma analise vazia de minha personalidade, so estava criticando o tom de sua ultima postagem. Não sei porque causou esse drama todo.

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  2. Meus Parabéns por essa analise. Muito concreta.

    O ateismo se tornou algo livre de críticas e com liberdade para deboxar e se superiorisar de tudo, sem o mínimo de respeito. Conheço pessoas que cabem bem nesse perfil que você citou.

    E como o comentário do anonimo acima "vou ignorar a maior parte do que foi escrito", é porque não aguenta uma analise profunda do que falou.

    É uma vergonha esse negócio de levantarem um monte de críticas, sem ao menos ter 1% de profundiade sobre as escrituras.

    Pensam que nós cristão somos ignorantes? Ou burros e iletrados?

    Como Dawkins, todos esse ateus vão cair por sua própria palavra, por serem injustos no que falam, sem princípios de honra.

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