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terça-feira, 16 de maio de 2017

Universidade Presbiteriana Mackenzie abre centro criacionista


A informação é da revista Exame da Abril:

Mackenzie abre núcleo de estudos que contesta teoria da evolução

O Núcleo Discovery-Mackenzie tem como objetivo promover os estudos de fé, ciência e sociedade

Marina Demartini

São Paulo – A Universidade Presbiteriana Mackenzie abriu um novo espaço para que professores e alunos discutam a origem da vida e questionem uma das principais teorias da biologia: o evolucionismo. O chamado Núcleo Discovery-Mackenzie é uma parceria entre a instituição brasileira e o Discovery Institute, um instituto americano que promove o estudo da Teoria do Design Inteligente (TDI).

Para os estudiosos do TDI, certas características do universo e dos seres vivos são tão complexas que só podem ser explicadas por uma causa inteligente. Assim, células e moléculas precisaram passar pela intervenção de algum tipo de inteligência para existir “e não por um processo não direcionado, como a seleção natural”, como aponta o site oficial do Discovery Institute.

A seleção natural é um dos mecanismos básicos da teoria da evolução proposta por Charles Darwin em seu livro A Origem das Espécies, de 1859. Segundo ela, indivíduos melhores adaptados à determinada condição ecológica têm mais chance de sobreviver e deixar descendentes.

Até hoje, a teoria da evolução é uma das mais aceitas entre os membros da comunidade científica para explicar a origem da vida e a evolução humana. Além disso, ela é amplamente ensinada em escolas de diversas partes do mundo.

O Discovery Institute, aliás, já tentou colocar o TDI dentro da grade de escolas públicas dos EUA. Um dos casos mais conhecidos é o de Kitzmiller contra o Distrito Escolar da área de Dover, na Pensilvânia, em 2005. Na época, o distrito mudou seu currículo de ensino da matéria de biologia para exigir que o TDI fosse apresentado como alternativa ao evolucionismo.

Onze pais de alunos da região processaram o distrito sob a alegação de que o design inteligente não passava de um tipo de criacionismo (crença religiosa de que os seres vivos foram criados por um ser superior).

O juiz John E. Jones III chegou ao veredito de que o ensino do design inteligente viola a Cláusula de Estabelecimento da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Segundo ele, o TDI não é ciência e “não pode desacoplar-se do seu criacionista, portanto religioso, antecedente”.

O teólogo e pastor presbiteriano Davi Charles Gomes, chanceler da universidade, ressalta em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o Núcleo Discovery-Mackenzie não é um espaço de TDI, mas de estudos de fé, ciência e sociedade. “Nossa instituição é confessional, o que significa que ela tem uma visão segundo a qual o mundo tem um significado transcendente. E não existe ciência que, no fundo, não reflita também sobre coisas transcendentes.”

Quem faz afirmação parecida é Marcos Eberlin, presidente executivo da Sociedade Brasileira do Design Inteligente e futuro coordenador do núcleo da Mackenzie. “Tem gente que acha que o design vem dos ETs, outros falam de um Grande Arquiteto do Universo, como os maçons, ou um espírito evoluído, como os espíritas”, disse em entrevista à Folha.

Já Maria Cátira Bortolini, geneticista da UFRGS, disse ao jornal que a teoria descarta evidências, fatos e provas científicas. “O que importa é a narrativa, construída de forma que se coadune com a ideologia ou a crença do sujeito.”



sábado, 22 de abril de 2017

Sobre falar, engasgar e soltar pum


Alegre o seu feriadão com a leitura divertidíssima da crônica de Luis Fernando Verissimo, publicada no Estadão em 06/04/17:

Em comum

Uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais, sendo a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa.

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem — ou, mais provavelmente, a mulher — sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou com a pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos.

A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam.

No século XVII um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês, e a serpente falava francês (Sempre a má vontade com os franceses).

Na sua infância — a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” — a humanidade não produzia palavras mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum.

Foi chamada de “teoria bow-wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow-wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo.

Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão.

Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava-Jato etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quem nos protegerá de Trump?

Marcelo Rubens Paiva tenta responder essa angustiante questão em coluna interessante publicada no Estadão de 14 de janeiro de 2017:

Aprender com o erro

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria

Os genes humanos cederam sua primazia na evolução dos homens a um agente completamente novo, inédito, não biológico, a cultura. Mas não devemos nos esquecer que tal agente novo e original é completamente dependente dos anciões genes humanos para existir. Aliás, foi feito pelos genes humanos, ser social que começou entre grupos de caçadores e colhedores coletivos, e que passou a pintar cavernas, compor músicas e contar histórias. Este é um dos pilares da sociobiologia de Theodosius Dobzhansky e Edward Wilson. Mas o que é cultura? Música, poesia, pintura, dança, esporte, folclore, festas familiares, jogos, religião, filosofia, narrativas e muito mais.

É culinária, confecção, decoração, previsão do futuro, contrato social, casamento, compreensão dos astros, calendário, divisão do ano em estações, meses, dias, horas, controle do tempo, ter noção do antes e depois, da vida e da morte.

É altruísmo (por incrível que pareça, poucas espécies o tem), tabu do incesto (aqui, há divergências, já que alguns acreditam que haja uma aversão natural de se afastar de alguém com quem conviveu na infância por mais de seis anos, o que aumenta a chance de diversificação genética do grupo), divisão entre infância e puberdade, rituais que celebram o princípio da fertilidade, cura pela fé, mitologia, divisão em castas, análise de sonhos, medicina, drogas psicoativas, educação.

Cultura é penteado, tatuagem, colares, cocares, fabricação de armas, utensílios para caça, cozinha, higiene pessoal. E ética, governos, Estado, nomes, nomes familiares, classificação das coisas, das cores, números, regras de convívio, rituais, leis, sanções penais, exílio ou banimento, superstições, correspondências, sinais e documentos.

Antropólogos e os pioneiros da sociobiologia costumam delimitar os avanços da humanidade como parte do alcance genético. Todas as particularidades da cultura humana têm explicações genéticas, fazem parte da evolução. Como entender Trump pela Teoria da Evolução, já que pode levar ao colapso das relações sociais.

É famosa a hipótese de Robin Fox. Que foi reproduzida em termos no clássico O Senhor das Moscas, de William Golding (Nobel de 1983), e recentemente no filme alemão A Onda, em que um professor de história prova que é possível, sim, que o nazismo possa voltar à Alemanha do novo milênio, numa experiência radical pedagógica que serve àqueles que não acreditam que tamanha insanidade coletiva um dia ocorreu.

Como seria se mandássemos bebês a um cenário isolado, uma ilha, um planeta, em que sobrevivessem sem contato conosco? Como seria a civilização criada por eles? Aprenderiam a se comunicar uns com outros? Teriam fala, escrita? Seus descendentes teriam inventado uma língua completamente diferente das existentes entre nós? Esta língua teria vários troncos? Seria possível nós entendermos esta ou estas línguas? Seria possível traduzi-las? Elas seguem os mesmos princípios de uma linguagem humana?

Fox vai longe. Esses exilados autônomos, se sobrevivessem ao isolamento, construiriam uma sociedade que teria governo, leis de propriedade, regras sobre o casamento, costumes sobre tabus, métodos para resolver conflitos sem derramamento abusivo de sangue, crenças no transcendente e sobrenatural (religião), práticas religiosas, mitos e lendas, narrativas orais, educação, sistema de status social, cerimônia para iniciação dos jovens, práticas de corte como enfeites para homens e mulheres, pinturas corporais, jogos, regras, disputas, prêmios, indústria de fabricação de ferramentas, armas, adultério, suicídio, psicoses, neuroses, curandeiros, família, guerras e pacificação.

Se a roda não tivesse sido inventada, seja lá onde ela foi inventada, outro povo a inventaria. Se Gutenberg não tivesse inventado a prensa mecânica, alguém a inventaria. Se o tear mecânico não tivesse sido inventado, alguém o inventaria. O avião foi inventado ao mesmo tempo por Santos Dumont e pelos irmãos Wright. Assim como a Teoria da Evolução.

O mundo está assustado. Procura nos manuais de ciência política explicações para a eleição de Trump. Ele é uma releitura de Silvio Berlusconi, o empresário não político, que admira Nixon e Reagan, do ideário republicano radical, somado ao ódio histérico fomentado pelo macarthismo, que o desencanto com a política e com a elite liberal levou ao poder.

Trump é perigoso. Escolheu os imigrantes como o senador Joseph McCarthy escolheu os comunistas, para numa caça às bruxas governar sem projeto. É uma aberração política? É explicado pelo darwinismo social?

As crianças isoladas inventariam a República e a paz entre cidades, o reino e a promessa de estabilidade, a guerra total de Hitler e depois a paz, Trump, o conflito extremo, e a democracia e o Estado de bem social.

Trump é a razão para a existência de Trump: é preciso identificar e entender o ódio, eventualmente, para explicar como é fundamental para a sobrevivência da espécie a tolerância, a ética e o altruísmo.

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria. Foram as bombas de Hiroshima e Nagasaki que impediram a detonação rotineira de outras em cidades habitadas.



sexta-feira, 22 de julho de 2016

Clérigos sauditas proíbem Pokemon (de novo)

A informação é d'O Globo:

Religiosos árabes dizem que 'Pokémon' promove blasfêmia

Justiça na Arábia Saudita reeditou lei islâmica contra franquia da Nintendo

DUBAI, Emirados Árabes - A alta corte religiosa da Arábia Saudita reeditou uma fatwa (decreto islâmico) de 2001 segundo a qual a franquia "Pokémon" é anti-islâmica, segundo informou a mídia estatal do país nesta quarta-feira.

O decreto, porém, não citou o jogo de realidade aumentada "Pokémon Go", que se tornou uma febre mundial desde seu lançamento, no último dia 6, nos EUA. Desde então, o jogo chegou a dezenas de outros países e deve estar acessível para brasileiros nos próximos dias.

O Secretariado Geral do Conselho de Acadêmicos Religiosos comunicou que reeditou o decreto de 2001, criado na época para responder a questionamentos de muçulmanos. Segundo os clérigos, as mutações dos personagens no jogo, que recebem poderes especiais, representam uma blasfêmia por promover a teoria da evolução natural.

"É escandaloso que a palavra 'evolução' esteja tão presente nas línguas de crianças", afirma a fatwa reeditada.

O decreto também diz que o game tem outros elementos proibidos pela Lei Islâmica, incluindo "politeísmo contra Deus por multiplicar o número de divindades, e jogatina, que Deus proíbe no Corão". A fatwa acrescenta que os símbolos usados no passatempo da Nintendo promove xintoísmo, cristiandade, maçonaria e outras crenças.

Na conservadora Arábia Saudita, país onde estão situadas as cidades sagradas de Meca e Medina, cinemas são proibidos e esportes femininos são criticados como algo que promove o pecado. O governo considera a era antes do Islã como uma idade da ignorância (a religião surgiu no século VII).



domingo, 17 de janeiro de 2016

Confiança é a base da amizade (entre macacos)


Os resultados da curiosa pesquisa foram publicados no Estadão:

Amizade entre chimpanzés é baseada em confiança, dizem cientistas

GIOVANA GIRARDI

Cientistas partiram da noção de que confiança traz benefícios evolutivos quando a espécie depende pesadamente em cooperação entre os indivíduos

SÃO PAULO - Que chimpanzés fazem alianças e têm amigos, em comportamentos semelhantes aos humanos, é algo sabido já há bastante tempo pela ciência. Mas uma nova pesquisa mostra que esses relacionamentos são baseados em algo que se imaginava ser unicamente um traço do Homo sapiens: a confiança.

É o que diz uma dupla de pesquisadores em um estudo publicado nesta quinta-feira (14) na revista científica Current Biology.

Eles partiram da noção de que confiança traz benefícios evolutivos quando a espécie depende pesadamente em cooperação entre os indivíduos e imaginaram se esse seria o caso entre os animais mais próximos de nós na linha evolutiva – os chimpanzés.

A premissa é que confiança não é algo com o qual facilmente se possa contar porque envolve o risco de não-reciprocidade e de traição. Por exemplo, entregar a alguém uma quantidade de recursos, achando que vai receber algo em troca, e o outro simplesmente desaparecer com tudo. Por outro lado, quando dá certo, é algo que ajuda os indivíduos a prosperar juntos.

Foi isso que os pesquisadores Jan Engelmann e Esther Herrmann, do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, na Alemanha, investigaram com um grupo de 15 chimpanzés de um santuário para esses animais no Quênia.

A princípio, ao longo de um período de cinco meses, eles avaliaram como eram as interações sociais entre esses indivíduos. Com quem os animais, por exemplo, comiam juntos e em quem faziam “grooming” (uma espécie de “carinho” entre os chimpanzés, aquela coçadinha que um dá na cabeça do outro, catando piolho, etc). Dessa observação, os cientistas estabeleceram quais eram amigos e quais não.



Na sequência eles passaram por uma bateria de testes semelhante ao jogo de confiança feito entre humanos. De dois em dois, uma de cada lado de duas cordas ligadas a bandejas com comida, os chimpanzés eram colocados diante da escolha de puxar a “corda da confiança” ou a “corda da não confiança”.

Se o primeiro animal puxasse a corda da não confiança, ele imediatamente recebia uma porção de comida que ele não gosta muito. Mas se puxasse a outra, o outro animal receberia um alimento bem mais gostoso. Este, por sua vez, tinha a possibilidade de enviar uma parte dessa comida de volta para o outro. Nesta opção, os dois lados saiam ganhando, mas somente se o primeiro confiasse que o segundo lhe mandaria algo em retorno.

Cada animal participou do jogo repetidas vezes: 12 rodadas com um amigo e 12 rodadas com um não-amigo. E o resultado é que os chimpanzés demonstraram confiar muito mais no primeiro do que no segundo. “Eles foram significativamente mais propensos a voluntariamente colocar recursos à disposição dos parceiros, desse modo escolhendo uma opção arriscada, mas potencialmente de retorno mais alto, quando a interação era com um amigo, na comparação com um não-amigo”, escrevem os autores no artigo.

Se entre humanos amizade e confiança são sentimentos praticamente intrínsecos, o mesmo não se tinha certeza em relação a chimpanzés. “Na verdade nem mesmo a noção de que eles formam amizades é algo amplamente aceito entre cientistas”, disse Engelmann ao Estado. “Muitas pessoas ainda acreditam que só humanos são capazes disso. Por isso queríamos checar se fortes relações entre eles são baseadas em confiança. Muitos argumentam que interações cooperativas entre chimpanzés são devidas a intimidação ou dominação pela força. Nossos resultados sugerem, no entanto, que os chimpanzés se engajam numa cooperação baseada na confiança”, explicou o pesquisador.

No artigo, os autores escrevem que “os chimpanzés, assim como os humanos, desenvolveram formas robustas de confiança em relação aos seus parceiros sociais mais próximos, o que pode permitir que eles forjem relações de cooperação mesmo em contextos onde existem riscos de deserção por traidores”.

Ao Estado, ele afirmou ainda que pesquisas com outras espécies de primatas, como babuínos, por exemplo, mostrou que indivíduos que formam relações de longo prazo, como amizades, vivem mais, tem mais filhos e níveis de estresse mais baixos. “Então eu diria que confiar em algo e, desse modo formar relações duradouras, tem claros benefícios evolutivos.”



domingo, 29 de novembro de 2015

Darwin e o instinto moral


Relembrando matéria publicada na Folha de S. Paulo de 20/04/13:

Antropologia de Darwin: 
Os fundamentos materiais da moral

CARLOS ALBERTO DÓRIA

RESUMO "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin, foi praticamente ignorado em nome da ideia liberal de "guerra de todos contra todos". Releituras e pesquisas recentes em torno do livro revelam uma verdadeira teoria antropológica darwiniana que aponta para as raízes biológicas da moral.

Um dos casos mais intrigantes da epistemologia das ciências biólogicas é a quase absoluta ignorância que se seguiu à publicação de "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin.

Quase ninguém se deu conta de que a obra encerrava uma revolução no conhecimento, tão importante quanto "A Origem das Espécies" (1859).

Tão certos estavam os seguidores e detratores de Darwin de que se tratava de uma "continuação" ou "aplicação" da "Origem" à espécie humana, contestando a natureza divina do homem, que nem se deram ao trabalho de lê-la. Do mesmo modo, parte do trabalho --sobre o mecanismo da seleção sexual-- foi considerado um ensaio independente, sem conexão com a origem do homem. Passou em brancas nuvens esta que é considerada agora a "segunda revolução darwiniana".

A obra vale por não repetir argumentos da "Origem", constituindo uma verdadeira antropologia na qual se fundem as dimensões biológica e cultural, como nunca se vira antes e não se viu depois, pois as ciências humanas se desenvolveram de costas para a biologia e a cultura foi considerada algo além do mundo orgânico ("superorgânica") --isto é, a vida simbólica já aparece como plenamente constituída.

Essa antropologia só é possível porque Darwin não vê diferenças de natureza, e sim de grau, naquilo que une o homem às demais espécies animais. As habilidades, os instintos, a inteligência, a capacidade de comunicação (linguagem), os comportamentos são caracteres animais difundidos por infinitas espécies.

O impacto político dessa antropologia é enorme. Ao "animalizar" o homem e seus instintos mais "nobres", deixava a igreja falando sozinha, mesmo sem haver pensado a obra como um libelo antideísta. O livro mostra que os homens pertencem a uma espécie polimórfica, na qual todos são iguais, e as diferenças secundárias, como a cor da pele, foram desenvolvidas ao longo de milênios, através de escolhas estéticas de grupos humanos.

POLÍTICA

Mas por que Darwin escreveu esse livro, se as ciências humanas não eram seu foco de atenção? A razão foi de ordem política e humanitária, conforme hoje se sabe, graças ao estudo dos biógrafos de Darwin sobre suas anotações e diários (Adrian Desmond e James Moore, "Darwin's Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins", Penguin Books, 2009).

Quando Darwin esteve no Brasil, horrorizou-se com a escravidão e, desde o distante ano de 1837, começou a reunir elementos para provar a origem comum e a igualdade entre os homens no plano biológico, de modo a sepultar as principais teses dos escravistas, com destaque para a tese da poligenia (tomando raças ou variedades como se fossem espécies "criadas" independentemente, segundo sugeria a leitura que faziam da Bíblia) com a qual "justificavam" o direito à escravizar seres aparentemente distintos.

Do ponto de vista historiográfico, a trajetória intelectual de Darwin também é surpreendente: uma obra sobre o homem, provando sua igualdade (monogenia), foi ideia anterior à concepção da seleção natural. Assim, se o estudo sobre a origem das espécies favoreceu sua compreensão sobre a animalidade do homem, ela contribuiu igualmente para o amadurecimento de sua antropologia.

A nova leitura esclarecedora de "A Descendência do Homem" deve-se ao trabalho de quase 20 anos do epistemólogo francês Patrick Tort, cujo livro "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008) é síntese dessa trajetória persistente.

A primeira questão que Tort busca explicar é o desprezo pela antropologia de Darwin. E sua explicação é relativamente simples: a ideia de "luta pela vida" era extremamente conveniente para a economia política liberal; reforçava a noção de luta de "todos contra todos" e triunfo dos mais fortes, e os evolucionistas liberais, como Herbert Spencer, a ela se aferraram.

"A Descendência do Homem", ao contrário, é a obra na qual Darwin sofistica os mecanismos de seleção --faz até um mea-culpa por haver exagerado o papel da seleção natural-- introduzindo na história natural as noções cruciais da cooperação e "altruísmo".

Contudo, só nos países sem tradição de economia política liberal esses mecanismos de evolução foram percebidos e valorizados, como na Rússia czarista, resultando em algumas obras discrepantes em relação à interpretação dominante, como a de Peter Kropotkin, "Ajuda mútua: Um Fator de Evolução" (1888).

Em "A Descendência do Homem", Darwin mostra como esse animal surge da evolução de formas mais simples através da convergência fortuita de vários processos: a pedestrialização (quando o animal desce das árvores), o bipedismo, a encefalização (aumento do cérebro) e o desenvolvimento da linguagem simbólica. Mas não foram só as transformações físicas que Darwin captou. Ele indicou que, ao se desenvolver no plano social, criou-se uma ruptura com o processo anterior, no qual, por força de pressões ambientais, os animais se adaptavam mediante a transformação física milenar.

O Homo sapiens já não se transforma fisicamente, mas age sobre o ambiente, adaptando-o às suas necessidades (produz vestimentas, habitação etc.). Do mesmo modo, o instinto animal evolui e aprofunda seu caráter social, impondo formas cooperativas, tornando-o um animal social bastante sofisticado, capaz de várias ações altruístas.

Mas por que o altruísmo? Não se trata da manifestação de uma "essência humana", fruto de um sopro divino, mas de uma necessidade material da vida. O instinto social é característica de várias espécies --como as abelhas, as formigas e vários mamíferos superiores. Através dele, a reprodução do grupo entra em causa, condicionando as ações e escolhas individuais.

NOVO PERCURSO

No homem, desde a divisão de trabalho entre macho e fêmea para cuidar da cria (longamente inabilitada para, sozinha, prover a vida) até o desenvolvimento das instituições sociais, como a ciência ou a medicina, um novo percurso evolutivo se instaura quando crianças, velhos e indivíduos menos aptos são protegidos, em vez de eliminados.

Uma seleção natural de instintos e comportamentos antieliminatórios (ou "antisselecionistas") vai tomando corpo e reprimindo as ações eliminatórias.

O resultado cego desse longo processo é a civilização, isto é, a repressão sistemática da "lei do mais forte" na medida em que padrões encontram formas de se impor ao grupo e se sobrepor aos do indivíduo. Tort verá nesse mecanismo a "reversão da seleção natural", ou o nascimento da civilização sem ruptura com a dimensão biológica da vida. Em outras palavras, a base material, natural, da moral.

"A Descendência do Homem" traz uma segunda parte, sobre a "seleção sexual". Nela, o cientista inglês mostra justamente a necessidade do altruísmo --a capacidade de dar a vida por outros membros da espécie-- como fator de evolução. Por que em certas espécies, notadamente de aves, o macho é muito mais belo e exuberante que as fêmeas? Simplesmente porque, ao se desenvolverem dessa forma, eles têm mais chances de serem "escolhidos" pelas fêmeas e criarem descendência. Mas o pavão, por exemplo, ao desenvolver sua beleza perde a capacidade de voar, ficando à mercê dos predadores. Essa inabilitação adquirida só se explica pelo "altruísmo": correr riscos, o autossacrifício em nome do outro, da descendência.

Por esse mecanismo da seleção sexual, o homem também terá capacidade de alterar seus caracteres secundários. Sendo espécie polimórfica, variará na cor da pele e outros traços físicos exteriores ao perseguir padrões de beleza restritos a cada grupo humano isolado. O "belo ideal" é um conceito social que se materializa nos indivíduos que ocupam a chefia do grupo, nas mulheres que utilizam adornos, nas estátuas que representam os deuses e assim por diante.

Esses padrões se tornam dominantes na medida em que passam a intervir nas escolhas matrimoniais e, por esse processo, disseminam-se pelo grupo. Nada disso precisa ser consciente para agir sobre o homem, como o instinto não é consciente no animal.

Caminhos como esse mostram, mais de um século depois, a dimensão insuspeitada de uma obra que parecia "caduca" aos olhos das ciências naturais e ciências humanas. Trata-se de um clássico que, finalmente, impõe sua grandeza intelectual.



domingo, 20 de setembro de 2015

Desacelere a sua mente, elimine o excesso de informação e viva melhor!


É o que aconselha o neurocientista Daniel Levitin em entrevista concedida a Lúcia Guimarães e publicada no Estadão:

Contemplar o capim

Em livro, neurocientista desmonta o mito das multitarefas e mostra que descansar a mente libera espaço para as grandes ideias

Folgo e convido minha alma,
deito-me e folgo à vontade vendo
uma lança de capim no estio.
(CANÇÃO DE MIM MESMO, POEMA DE FOLHAS DE RELVA, DE WALT WHITMAN)

Quem tem tempo de se espalhar na grama e admirar a lança de capim em vez de conferir a tela do smartphone? Em 1855, o poeta Walt Whitman não sabia nem precisava saber o que era ser multitarefas, mas já ensinava, em seu poema clássico, que a mente precisa vadiar. Vivemos uma era de aceleração de fontes de informação como nenhuma outra na história da humanidade. Mas o nosso cérebro tem a mesma capacidade fisiológica de enfrentar esse ataque de dados que tinha o cérebro do poeta. Em um livro best-seller escrito para você e para mim, não para cientistas, o celebrado autor Daniel Levitin oferece recursos para impedir que o leitor seja soterrado pela avalanche diária de informação. A Mente Organizada combina a apresentação das descobertas recentes em estudos sobre o cérebro e sugere rotinas para assumir o controle do ecossistema de informação, e não ser controlado por ele. Levitin é um neurocientista, especialista em psicologia cognitiva e músico, autor de outro best-seller, A Música no Seu Cérebro.

Ele dirige um laboratório de percepção musical na McGill University, em Montreal, e é cofundador e diretor do programa de Ciências Sociais do Projeto Minerva, universidade fundada em 2012 em San Francisco. O Minerva é um programa de graduação com 120 alunos que visa a reformar a educação superior do século 21 para enfrentar as rápidas mudanças em vários campos de conhecimento. “Não achamos honesto cobrar altas anuidades de estudantes que, ao se formar em certos campos profissionais, não podem mais usar o que aprenderam porque seu conhecimento já está superado”, diz Levitin, em entrevista exclusiva ao Aliás. “Temos foco em pensamento crítico, solução de problemas e 25% do currículo é concentrado em promover a comunicação efetiva.” Engraçado: na era dos nerds esquisitões da tecnologia, uma escola de vanguarda privilegia o diálogo.

Em A Mente Organizada, Levitin observa o que têm em comum as pessoas bem-sucedidas e produtivas. Sugere estratégias de organizar a memória – esvaziá-la com exercício e instrumentos que chama de extensões do cérebro, como calendários eletrônicos, smartphones e cadernos de anotação. Curiosamente, ele notou, entre seus mais ocupados interlocutores, um apego físico a objetos analógicos, pequenos cadernos de anotação, fichas, canetas e lápis. E especula sobre as vantagens de manter esse hábito.

O cérebro precisa de resets neurais. São esses resets que nos tiram de situações como a de um carro atolado na lama. É frequente, depois de uma pausa de repouso, encontrar a solução para um problema que parecia fora de alcance. A neurociência, conta Levitin, comprova que contemplar a natureza oferece um poderoso reset – até mesmo olhar imagens da natureza.

A eficiência em organizar a informação nos torna mais do que produtivos. É um instrumento de libertação para o ócio, para os momentos em que podemos contemplar a grama e ter grandes ideias. Como ter inspiração para escrever o maior clássico da poesia norte-americana.

Por que falamos em sobrecarga de informações?

Para os cientistas, a sobrecarga é a diferença entre a quantidade de informação com que somos bombardeados e a capacidade do nosso cérebro de lidar com ela.

O que é a obsolescência evolucionária, que o senhor aponta como parte do obstáculo para lidar com o excesso de informação?

Todos os organismos vivos estão constantemente se adaptando ao meio ambiente. A seleção natural exerce influência sobre essa adaptação. Por exemplo, nós nos adaptamos à erosão da camada de ozônio e pessoas que adquirirem maior resistência aos raios ultravioleta transmitirão aos descendentes o gene de sobrevivência a eles. Mas é um longo e lento processo. Nosso cérebro evoluiu para lidar com um ambiente que existia há 10, 20 mil anos. O genoma humano precisa de tempo para se adaptar. Para você ter uma ideia, em 30 anos quintuplicou a quantidade de informação que recebemos a cada dia. Pense nisso como o equivalente a ler 175 jornais de ponta a ponta diariamente. Outro número extraordinário: em 1976, nos Estados Unidos, havia cerca de 9 mil produtos únicos à venda num supermercado. Hoje, há cerca de 40 mil. O consumidor americano, que compra uma média de 150 produtos, tem que navegar entre uma quantidade muito maior de escolhas.

Embora a evolução do cérebro esteja “atrasada”, há duas gerações essa obsolescência era muito menos sentida, certo?

Vamos considerar um aprendizado que foi necessário para nossos avós. Eles tiveram que aprender a usar o telefone uma ou duas vezes – tiveram que fazer chamadas com ajuda de telefonistas e depois aprenderam a discar. Hoje, os smartphones não param de mudar. Você troca de modelo e tem que aprender inúmeras funções, que daqui a poucos anos serão trocadas.

Há um site chamado “Deixe eu googlar isto pra você” inspirado na exasperação que muitos sentem quando alguém faz uma pergunta que pode ser respondida online. Qual a importância de ter tanta informação disponível em poucos segundos?

Quando eu cursava a Universidade Stanford, na Califórnia, gostava de estudar dentro da enorme biblioteca principal. Havia ali respostas para tudo o que eu queria saber. Mesmo se eu me distraísse e quisesse conferir algo que não tinha ligação direta com o trabalho em questão, era preciso levantar, localizar um livro ou publicação num sistema de classificação. Hoje, a nossa atenção é desviada o tempo todo para novas fontes e isso afeta a possibilidade de recuperar o foco inicial. Há enorme variação na nossa capacidade de virar a chave da atenção. Mulheres e jovens tendem a ser mais rápidos do que homens e idosos. Mas varia muito. Se me distraio de algo, demoro uns cinco minutos para retomar a concentração.

A palavra multitarefas, executar várias tarefas ao mesmo tempo, é indissociável da rotina do século 21. Mas o senhor diz que multitarefas não passam de ficção.

Não existem multitarefas, é um mito. O cérebro simplesmente não comporta isso. A pessoa pensa que está lidando com várias coisas ao mesmo tempo quando, de fato, o cérebro está experimentando rápidas mudanças de foco que mal percebemos, o que resulta numa atenção fragmentada a várias coisas e nenhuma atenção sólida a uma que seja. Recentemente ficou provado que conseguimos prestar atenção a, no máximo, três ou quatro coisas de uma vez. O cérebro é eficaz em provocar autoilusão. Achamos que estamos no controle das coisas. Mas executar várias tarefas ao mesmo tempo libera um hormônio de estresse, o cortisol. O cortisol tem um papel evolucionário, mas também provoca ansiedade, nervosismo e afeta a clareza de pensamento. Comparo o ato de fazer várias tarefas ao mesmo tempo com uma espécie de embriaguez. Há trabalhos que exigem essa capacidade, como tradutor simultâneo ou controlador de tráfego aéreo. E não é à toa que, nessas funções, as pessoas são obrigadas a fazer várias pausas de descanso para recuperar a capacidade de se concentrar.

No entanto, há uma noção de que as pessoas bem-sucedidas, e o senhor entrevistou mais de 100 para escrever o livro, são as que têm o poder de acumular mais tarefas do que os outros.

Exato, mas a história e a ciência de laboratório nos provam o contrário. Estudos mostram que o trabalho de quem mantém o foco numa tarefa é mais criativo. Isso vale tanto para grandes empresários, atletas e inovadores como para artistas. Valia para Da Vinci e Michelangelo. Olhe para o alto na Capela Sistina, considere grandes conquistas como o cubismo, a 5ª Sinfonia de Beethoven, a obra de William Shakespeare – tudo é resultado de atenção sustentada ao longo do tempo.

Por que o senhor diz que as crianças devem aprender na escola, já aos 10 anos, a enfrentar a sobrecarga de informação?

Qualquer criança alfabetizada sabe que pode encontrar uma informação em segundos. Mas a maior parte do que está online é desinformação. Ficções mascaradas de fatos. Até estudantes universitários se deixam confundir. Recolhem informações sem perguntar quem está por trás. Como saber que a fonte é confiável? Na escola, os professores devem ensinar, para começo de conversa, que websites não são iguais. Devem incutir um questionamento crítico na pesquisa. À medida que os alunos crescem, vão adquirindo mais nuances para se informar. Por exemplo, se a criança quer um brinquedo, pode-se ensinar a ela que o website do fabricante não é a fonte mais confiável sobre a segurança do brinquedo. Antes, no ecossistema analógico, tínhamos curadores de informação, era mais fácil distinguir a credibilidade de fontes.

O senhor diz que as pessoas mais produtivas são as que melhor estabelecem prioridades.

A maioria de nós chega ao trabalho hoje em dia e é bombardeada com o “por fazer”. É como entrar cambaleando num ambiente em que há muitas exigências e começamos a atacar o que passa pela frente. Não fazemos um esforço consciente e deliberado de evitar que o ambiente em volta nos domine. Isso aumenta o cansaço e diminui a produtividade. Todas as pessoas altamente bem-sucedidas com quem converso têm em comum o fato de que elas anotam o que há por fazer e já começam a trabalhar cientes de prioridades.

O senhor diz que uma ferramenta útil para priorizar são os chamados exercícios de limpeza da mente.

Sim. O David Allen, um guru da produtividade e autor de A Arte de Fazer Acontecer, aponta para a importância de externalizar a informação. Recomenda anotar tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que têm a ver com a tarefa em questão e preocupações que podem distrair a pessoa. É um processo neurológico, porque o cérebro teme esquecer o que é importante. Quando o cérebro sabe que a informação foi arquivada externamente, nas anotações, e o efeito é de nos acalmar, é libertador. Retira o entulho mental que prejudica a atenção.

A sobrecarga de informação se estende ao excesso de objetos. Por que o senhor defende uma gaveta de bagunça?

Um profissional precisa saber exatamente onde estão seus instrumentos. Pode ser um cirurgião, um dentista, um bombeiro. Este tipo de organização nos libera para pensar e tomar decisões. Mas excesso de organização é contraprodutivo, uma perda de tempo. O importante é deixar visíveis os objetos que utilizamos regularmente. Quantas vezes você encontra um parafuso, uma peça e não se lembra de onde vem? Jogue na gaveta de bagunça, a que tem objetos de utilidades diferentes. Isso é uma forma de fazer economia cognitiva, porque não é preciso classificar tudo.

O senhor aponta a correlação entre eliminar o excesso de informação e de pertences e a felicidade.

Se quiser destilar tudo o que se conhece sobre pessoas que se consideram felizes, a frase é a seguinte: elas se satisfazem com o que têm. E são as que querem conquistar algo, não receber prêmios e elogios. O que é diferente de não ter ambição pessoal ou criativa. O empresário Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna de mais de US$ 70 bilhões, mora na mesma casa há mais de cinco décadas. Ele inventou o neologismo “satisficing”, sobre as coisas que bastam. Não perde tempo com o que não lhe interessa e tem uma agenda diária de trabalho quase vazia, de poucas reuniões, que o deixa livre para ser produtivo.



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Bebês choram à noite para evitar que papai e mamãe gerem novos filhos

O título deste artigo poderia parecer até uma piadinha inocente, não fosse a prestigiosa universidade de onde procede a teoria sobre o choro egoísta do bebê: Harvard!

O biólogo evolucionista David Haig escreveu sobre isso no livro "Evolution, Medicine and Public Health" ("Evolução, Medicina e Saúde Pública"), onde defende a ideia de que o bebê que berra a todo momento à noite pedindo para ser amamentado, na verdade está tentando impedir que sua querida mamãe fique grávida de novo.

Esse choro nada altruísta serviria, portanto, para impedir que outro óvulo e outro espermatozoide da mesma família se encontrem e assim gerem um irmãozinho ou uma irmãzinha com o(a) qual o bebê ranheta teria que dividir os pais.

Já que ele não poderia forçar sua mãe a tomar pílulas ou seu pai a usar camisinha, só lhe restaria o aleitamento noturno para importunar sua mamãe e assim impedi-la de ter relações sexuais com o papai, até porque o cansaço torraria a libido de ambos.

Além disso, esse incômodo todas as noites faria com que a mãe atrasasse seu ciclo fértil, devido a mudanças hormonais que, embora não seja um método contraceptivo seguro, é o único recurso de que dispõe o bebê chorão.

Haig esclarece que, obviamente, os filhos recém-nascidos não fazem isso de propósito, mas em razão de que, no passado remoto, os bebês que eram amamentados à noite tinham uma maior possibilidade de sobrevivência.

O momento em que essas demandas noturnas começam a ser percebidas acontece por volta de 6 meses de idade do bebê, e tende a aumentar significativamente nos meses seguintes.

Em apoio à sua tese, David Haig acrescenta que certas desordens genéticas herdadas de cada um dos genitores mostram o acerto de sua teoria. Bebês que recebem certos genes do lado materno dormem mais à noite, o que favorece com que sua mãe engravide logo em seguida. 

Por outro lado, os rebentos que herdam os mesmos genes do lado paterno acordam mais vezes à noite, postergando a ovulação de suas mães, o que faz sentido evolucionário, pois os pais não teriam a garantia de que o próximo bebê fosse dele, o que lhes deixaria interessados em que o ciclo fértil de sua parceira fosse interrompido por um período.

Outros cientistas ouvidos pelo portal ScienceNews chamaram a atenção para o fato de que vivemos em uma sociedade muito diferente da primitiva, e que não há como voltar no tempo para testar a teoria na época em que o ser humano surgiu no mundo.

Haig conclui que, na sociedade moderna, não é mais necessário que as mães se preocupem tanto em amamentar os filhos à noite, pois bebês que não se alimentam à noite ou tomam mamadeiras durante o dia tendem a dormir um sono mais regular sem perturbar seus pais.



quinta-feira, 18 de julho de 2013

Morgan Freeman crê em ET's


Artigo publicado no GameVicio:

Morgan Freeman: "Os ETs não vão nos comer"

Ganhador de Oscar e mega astro de cinema Morgan Freeman não é um cientista, como ele mesmo prontamente nos alerta. Mas ele sabe uma coisa ou duas sobre física, em parte devido ao seu papel como produtor executivo e anfitrião da série de TV popular do Science Channel, "Through the Wormhole" (Através do Buraco de Minhoca).

A nova temporada do programa começou nos EUA no mês passado e será apresentada até 31 de julho, com episódios mostrando as grandes questões da humanidade, tais como "Como Pensam os Alienígenas?" e "Deus Criou a Evolução?" Esse último episódio foca não somente na teoria da evolução apresentada por Darwin, mas também no "projeto inteligente", que é uma forma de criacionismo rejeitada pelos cientista convencionais.

E o que Freeman pensa sobre tudo isso? Ele acredita na existência de alienígenas? Ele aceita a evolução Darwiniana - ou o criacionismo? Recentemente o HuffPost Science teve a oportunidade de apresentar outras grandes questões para Freeman. Abaixo, editadas para deixar mais claro, estão as questões e as repostas dadas por ele:

HP: Um enquete recente do Huffpost Science descobriu que aproximadamente metade da população dos Estados Unidos acredita na existência de vida extraterrestre. Você acredita que ela exista?

MF: Eu estou muito seguro de que ela exista. Se você olhar para dentro do universo, há simplesmente bilhões de galáxias e cada galáxia contém bilhões e bilhões de estrelas. Assim, é ridículo imaginar que não haja outros mundos populados.

HP: Você está falando de vida inteligente?
MF: Eu penso que a vida por si mesma seja inteligente. Toda a vida possui inteligência. De outra forma ela não existe.

HP: Algumas pessoas tem argumentado que alienígenas inteligentes possam ser carnívoros - e que eles iriam nos comer se viessem para a Terra. Você se preocupa sobre isso?
MF: Nãããooo. Vamos supor que eles sejam carnívoros. Isto significa que eles nos comerão?

HP: Você já teve um contato imediato?
MF: Não, não tive. Eu não posso acreditar que tenhamos sido secretamente visitados por outra forma de vida que não deixou um registro de sua vinda aqui. Se eles vieram, por que partiram? Essa deve ter sido uma enorme jornada.

HP: Você acredita em 'projeto inteligente?'
MF: Não. Deixe-me clarificar essa resposta. Porque projeto inteligente é exatamente o que nós vemos. Mas isto vem de algum ser? Eu acho que a vida por si mesma seja inteligente. Eu não acho necessariamente que o criador precisou se envolver nisso.

HP: Houve algum propósito em particular de incluir o 'projeto inteligente' no episódio?
MF: Você não pode apresentar um programa e falar, "eu posso dizer que eu acredito, mas não posso dizer o que é." Eu não sei o que é. Nós queremos apresentar ambos os lados - porque tudo está previsto na fé. É no que você acredita. E nesta série queremos aceitar todas as idéias e ser inclusivos.

HP: Então, você acredita que um 'criador' seja responsável pela vida?
MF: Agora você está falando com Morgan Freeman, o ator. Você não está falando com Morgan Freeman, cientista, ou Morgan Freeman, teólogo, ou qualquer um deles. OK? Bem, eu realmente não acho que haja uma entidade envolvida na criação do universo.

HP: Você acredita que a ciência e a religião são compatíveis?
MF: Sim, isso tem sido provado muitas vezes.

HP: Se lhe fosse oferecida uma viagem só de ida para Marte, você aceitaria?
MF: Não, eu não quero ir em viagens só de ida para lugar nenhum - não se for fora deste planeta.

HP: Você gostaria de ir ao espaço?
MF: Não, eu estou perfeitamente feliz aqui. Mas eu quero nos ver chegar lá. Realmente quero.

HP: No seu filme de 1998, "Deep Impact", a Terra foi atingida por uma enorme asteróide. Isso é algo que o preocupa na vida real?
MF: Não, eu não me preocupo com isso. Parece que isso pode acontecer no futuro. Mas não, minha pressão sanguínea já é alta o suficiente.

HP: Como é que você começou seu interesse pela ciência?
MF: No meu último ano do ensino secundário em Nashville, Tennessee, eu tinha uma aula de física e esse foi o início do meu interesse pelo assunto. Agora, vamos deixar claro: eu não tenho a mente de cientista. Eu sou um ator. Meu interesse em algo como a física é periférico. À medida que o tempo passou, meu interesse em coisas relacionadas ao espaço e a cosmologia e astronomia cresceu. Só isso.

HP: Você tem uma disciplina científica favorita?
MF: Esta seria a física. Eu não tenho questões associadas à biologia ou quaisquer outras disciplinas. Todas as minhas questões realmente têm a ver com a física. É nela que todas as questões estão sendo perguntadas pelas grandes mentes. Particularmente com os teóricos, eles estão lidando com uma grande gama de imaginação. E isso é fascinante, porque também há muita matéria aí para o que eu faço - eu faço filmes.



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Cientistas sugerem que a vida seja muito mais antiga que a Terra. E agora?

A matéria foi publicada pelo portal Ciência Online com base em artigo do MIT Technology Review:

A vida poderá ser mais velha que a própria Terra?

Aplicando uma máxima de ciência da computação à biologia emerge uma possibilidade intrigante sobre se a vida existia antes da Terra existir e pode ter originado fora do nosso sistema solar, dizem cientistas.

A Lei de Moore é a observação de que os computadores aumentam exponencialmente em complexidade a uma taxa de cerca de duas vezes os transistores de circuito integrado a cada dois anos.

Se você aplicar a Lei de Moore para a taxa de complexidade computacional dos últimos anos e trabalhar para trás, você vai voltar para a década de 1960, quando o primeiro microchip era, na verdade, inventado.

Agora, dois geneticistas têm aplicado a Lei de Moore para a taxa na qual a vida na Terra cresce em complexidade - e os resultados sugerem que a vida orgânica veio pela primeira vez à existência muito antes da própria Terra.

Alexei Sharov do Instituto Nacional sobre o Envelhecimento, em Baltimore, e teórico biólogo Richard Gordon do Gulf Specimen Marine Laboratory, na Flórida, usaram a Lei de Moore, substituíram os transistores por nucleotídeos - os blocos de construção de ADN e RNA - e os circuitos com material genético, e fizeram as contas.

Os resultados sugerem que a vida apareceu pela primeira vez há cerca de 10 biliões de anos, muito mais velha do que a idade da Terra, projetada para 4,5 bilhões de anos. Assim, mesmo se for matematicamente possível para a vida ter existido antes da Terra, é fisicamente possível? Novamente, Sharov e Gordon disseram que sim.

Como o nosso sistema solar estava a formar-se, organismos pré-existentes semelhantes a bactérias, ou nucleotídeos mesmo simples de uma parte mais antiga da galáxia, poderiam ter chegado à Terra engatando uma viagem interestelar, em cometas, asteróides ou outros detritos espaciais inorgânicos - um processo teórico chamado de panspermia.

Os cálculos dos cientistas não são prova científica de que a vida antecede a Terra - não há nenhuma maneira de saber com certeza a taxa a que a complexidade orgânica aumentou e mesmo se foi constante em qualquer ponto da história do universo. Trata-se de um exercício de pensamento ou um ensaio, ao invés de uma teoria, disse Sharov.

A ideia de Sharov e Gordon levanta outras possibilidades intrigantes. Por um lado, "a vida antes de terra" desmascara o a ideia da ficção científica das espécies exóticas cientificamente avançadas. Se a complexidade genética avança a um ritmo constante, então o desenvolvimento social e científico de qualquer outra forma de vida alienígena na galáxia Via Láctea seria mais ou menos equivalente ao dos seres humanos.

O estudo de Sharov e Gordon traça um paralelo teórico e prático entre a origem da vida e a relação entre vida e conhecimento. A evolução humana não ocorre apenas no genoma, que ocorre epigeneticamente, ou dentro da mente, como a memória de tecnologia, linguagem e cultural todos se tornam mais complexas. "A complexidade funcional de organismos [é] codificada no genoma parcialmente hereditário e parcialmente na mente perecível", explicam no artigo.

Ao aplicar a Lei de Moore - uma teoria originalmente concebida para explicar o desenvolvimento tecnológico - na vida, os geneticistas não estão a simplificar a evolução, eles estão a reconhecer a sua extraordinária complexidade, dizem eles.

Embora alguns possam ser cético em relação às conclusões de Sharov e Gordon, "a contaminação com esporos de bactérias a partir do espaço parece a hipótese mais plausível que explica o aparecimento precoce da vida na Terra", dizem no artigo, que foi publicado online na revista Arxiv.

Sharov disse que se tivesse que apostar, diria que "é 99% verdade que a vida começou antes da Terra". O relatório completo está disponível nos arquivos online da Cornell University Library.



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