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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Surge mais um papiro antigo que sugere que Jesus era casado


Dia sim, dia não, aparece uma nova descoberta que traz alguma “revelação” sobre a vida de Jesus, especialmente quanto a textos apócrifos que falam sobre detalhes não canônicos de sua vida.

Desnecessário dizer que tem gente que ganha muito dinheiro com isso. Basta lembrar Dan Brown e seu livro “O Código Da Vinci” que requentava velhas estórias sobre o romance (e casamento) de Jesus com Maria Madalena.

Pena que só depois de ver o filme baseado no livro é que as pessoas se deram conta da bobagem paranoica de mais essa teoria da conspiração pseudobíblica (e do dinheiro que perderam e que poderia ter comprado livros melhores).

A bola da vez vem através de Karen L. King, professora da Harvard Divinity School, que alega ter encontrado um fragmento de papiro do século IV d. C., que – segundo ela – sugere que Jesus teria sido casado.

Mal foi lançado o novo boato extrabíblico, e os costumeiros teóricos da conspiração já estão chamando o novo manuscrito de “o evangelho da esposa de Jesus”, expressão que você certamente ouvirá muito nos próximos dias, talvez meses.

Escrito em copta, antiga língua egípcia, o fragmento (do tamanho de um cartão de visita) diria algo traduzido como “Jesus disse a eles, ‘minha esposa’”. “Eles”, no caso, seriam os discípulos a quem Jesus estaria se dirigindo na ocasião.

O tal “cartão de visita” ainda não foi datado cientificamente, embora King e outros eruditos (não se sabe quais) aleguem não ter dúvidas de sua autenticidade.

A professora King não é novata na função da, digamos, “polêmica escritural”, já que já publicou livros sobre outros apócrifos, como os evangelhos de Judas e Maria Madalena.

O anúncio do novo “evangelho” foi feito em Roma esta semana, durante a reunião do Congresso Internacional para Estudos Coptas.

Alega King, conhecida combatente das análises sexistas da Bíblia, que “faz tempo que a tradição cristã sustenta que Jesus não foi casado, ainda que não exista nenhuma evidência histórica para dar suporte a essa afirmação”.

Acrescenta que “esse novo evangelho não prova que Jesus era casado, mas nos diz que toda a questão só surgiu como parte de um debate acirrado sobre sexualidade e casamento. Desde o começo, os cristãos discordaram sobre se era melhor não se casar, mas só depois de um século depois da morte de Jesus é que eles começaram a apelar para o estado conjugal de Jesus para apoiar suas posições”.

Como se percebe, muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte. Inutilmente, diga-se de passagem, mas fornecerá combustível gratuito à fervura requentada e recalcada das paixões anticristãs e antiortodoxas que grassam no mundo de hoje.

Ficou curioso? Pelo menos, você não vai precisar gastar dinheiro comprando o livro. Alguém certamente te dará um "Código Da Vinci" usado com muito gosto.

Nada de novo no front.

A fonte das informações aqui repassadas é o The Huffington Post.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Rumores indicam descoberta de manuscrito de Marcos do primeiro século

Sempre que uma descoberta é feita na área da arqueologia bíblica, todo cuidado é pouco. Geralmente estas descobertas podem ser obras de gananciosos falsários ou de pessoas que desejam a todo custo (mesmo às custas da mentira), provar que sua fé é verdadeira.

É dentro deste contexto que a mera menção da descoberta de um novo manuscrito de Marcos causa ceticismo. Isto de fato é bastante natural. Porém, dadas as circunstâncias, há uma grande possibilidade desta descoberta ser realmente verdadeira. Como devemos reagir a esta notícia?

Primeiramente, para definirmos nosso posicionamento com relação à notícia, devemos expor como ela foi dada. O anúncio deste manuscrito foi feito em um debate entre Bart Ehrman e Daniel B. Wallace. Este já é a terceira vez que um debate entre os dois acontece. Todos devem conhecer Bart Ehrman por livros como "O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? Quem mudou a Bíblia e por quê" ou "Evangelhos Perdidos: As Batalhas pela Escritura e os Cristianismos que não chegamos a conhecer", que procuram demonstrar que não podemos ter certeza qual era o texto original das Escrituras (já fizemos uma pequena crítica de Ehrman aqui no blog). Por outro lado, Daniel B. Wallace é o autor da gramática intermediária de Grego Koiné mais usada nos seminários norteamericanos, e que recentemente foi traduzida para o português, Gramática Grega - Uma sintaxe exegética do Novo Testamento, além de dirigir o Center for que Study of New Testament Manuscripts, que se dedica a digitalizar e tornar disponível a todos os estudiosos os vários manuscritos bíblicos.

Neste debate, a pergunta direcionada a Bart Ehrman foi: Onde estão todos os primeiros manuscritos? Ele então teria respondido que nós não temos qualquer manuscrito antigo. Foi dentro deste contexto que Daniel B. Wallace respondeu que nós temos sim manuscritos bem antigos. Nós temos pelo menos 18 manuscritos do segundo século (seis dos quais foram recentemente descobertos), e um manuscrito do primeiro século. Pelas palavras de Daniel B. Wallace, este manuscrito foi recentemente descoberto, e se for realmente um manuscrito do primeiro século, teremos uma descoberta fantástica.

Os detalhes deste novo manuscrito estão sendo mantidos em segredo até o lançamento de um livro sobre ele, que será publicado pela E. J. Brill. Por este motivo, não temos ainda nada de concreto sobre esta nova descoberta. O que temos sobre o manuscrito é uma declaração do próprio Wallace, que diz em seu texto sobre o debate que Ehrman teria questionado a validade do manuscrito. Sobre isto ele teria respondido que um renomado paleógrafo havia estudado o manuscrito e definido esta data.

Temos apenas uma declaração sobre o manuscrito, e mesmo assim já há discussão sobre ela. Por exemplo, Timothy Michael Law em seu blog diz:
De qualquer forma a existência de um manuscrito é quase irrelevante a menos que ele dê alguma luz à história do texto, e pelo que se sabe, é incrivelmente difícil, se não impossível, definir uma data no primeiro século com base paleográfica: a linha entre o primeiro e o segundo século é muito embaçada.
O próprio Daniel B. Wallace já havia comentado sobre este ceticismo relacionado ao método paleográfico, ao discutir a datação do papiro P52 que traz o evangelho de João em um texto que está traduzido no site e-cristianismo:
A declaração do autor que “paleografia não é o mais efetivo método para datar textos” parece implicar que um melhor método está disponível para nós para este fragmento. Este não é o caso, como Nongbri admite. De fato, ele usa a paleografia para tentar desacreditar a datação-padrão deste fragmento! Mas ele não parece querer reconhecer o mesmo que P52 traz muito para a discussão a respeito da data de João. Sua conclusão que o papiro “não pode ser usado como evidência” para a data de João é certamente exagerada. Que a vasta maioria dos manuscritos do Novo Testamento é datada estritamente com bases paleográficas, e que há vários outros papiros de João tão antigos quanto o segundo século, sugere que o ceticismo de Nongbri é sem sentido.
Se a vasta maioria de manuscritos do Novo Testamento é datada com bases paleográficas, por que este manuscrito não poderia ser datado assim? Não é o uso ou não do método que deveria produzir questionamentos sobre a veracidade da data, mas as condições do manuscrito, evidências, etc... Precisamos ter acesso às informações relacionadas ao manuscrito para termos condições ou não de questionar esta data.

Temos portanto somente as palavras de D. Wallace. Há um bom tempo acompanho suas obras e sei como ele trabalha. Em sua gramática - por exemplo - ele gosta sempre de expor as explicações possíveis que um texto pode ter, para depois com base em evidências, apontar para a a melhor explicação. Quando há textos que ele acha difícil a decisão por uma interpretação, ele diz claramente. O mesmo pode ser observado nos artigos que ele escreve, que podem ser encontrados tanto no site e-cristianismo como em outros sites pela internet. Ele mesmo rejeita a identificação de 7Q5 como um pedaço do texto de Marcos com base em evidências. Ele demonstra ser bem cuidadoso em suas afirmações e sempre busca bases fáticas para elas. Assim, baseando-se na forma que ele trabalha, há uma boa expectativa de que o que ele afirmou neste debate seja verdadeiro. Pelo menos podemos acreditar que ele deve ter boas bases para concluir que o manuscrito encontrado seja realmente do primeiro século.

Como devemos reagir a esta notícia então? Obviamente, temos que esperar pelo relatório sobre o manuscrito. A forma de trabalho de Daniel Wallace só nos dá grandes expectativas, mas isto por si só não deve servir para nós de argumento. Somos obrigados a aguardar. Ansiosamente...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Borra-Botas Dawkins anda tendo alucinações com William L. Craig

A repercussão das sucessivas negativas do militante ateu Richard Dawkins em debater com o filósofo cristão William Lane Craig deve ter sido tão forte, inclusive no próprio meio ateísta, que Dawkins, pelo jeito, anda tendo uma espécie de "ilusões retroativas", aproveitando o título de um dos seus livros, "The God Delusion" ("Deus, Um Delírio" em português). Anda delirando o velho combatente britânico, e outro filósofo norteamericano, Edward Feser, conta em seu blog que estava participando ao vivo do programa de entrevistas Catholic Answers ("Respostas Católicas"), sobre o tema "Deconstructing Atheism" ("Desconstruindo o Ateísmo", clique no link indicado para ouvir o áudio), em que foi comentada essa insistente recusa dawkinsiana em debater com Craig, e Sean Faircloth, representante de Dawkins, não contradisse a crítica que foi - mais uma vez - feita em relação ao expoente narcisista ateu, e ainda defendeu o seu direito de se negar a debater com quem quer que seja. Entretanto, o assunto deve causar tantos arrepios no borra-botas britânico que, depois da entrevista, o apresentador do programa, Patrick Coffin, recebeu o seguinte e-mail diretamente do Delusional Dawkins:
Caro Sr. Coffin,

Contrariamente ao que foi repetidamente dito no seu programa, eu DEBATI com William Lane Craig, num debate em cadeia nacional no México em 2010, e ele foi PROFUNDAMENTE irrelevante. Eu espero que o senhor corrija a informação no seu próximo programa.

Richard Dawkins

Edward Feser, que é um cara sério, excelente debatedor e não estava tão interessado assim nas fugas e desculpas esfarrapadas de Dawkins, conhecedor que é dos seus métodos diversionistas, foi investigar que raios de programa mexicano era esse, mas antes uma dúvida trepidante lhe assaltou: por que é que Dawkins NÃO citou esse episódio azteca de sua festejada biografia no artigo que escreveu - em outubro de 2011 - para o The Guardian, intitulado "Why I refuse to debate with William Lane Craig" ("Por que eu me recuso a debater com William Lane Craig?"). Ora, nota o perspicaz Feser, como é que o desmemoriado Dawkins se recusa a debater com alguém que ele não tinha percebido até então que já tinha debatido? Além disso, se ele realmente não quer debater com Craig, ele não precisa sair por aí gritando aos quatro ventos que não quer debater com Craig, não é mesmo? Mas o que chama mais a atenção naquele artigo do The Guardian, de dois meses atrás, é que em nenhum momento Dawkins se lembra que já tinha debatido com Craig no México. Pelo contrário, com a sua costumeira arrogância, Dawkins solta no artigo mais uma de suas infinitas bravatas: "Eu preferiria deixar uma cadeira vazia do que compartilhar um palco com ele" (ai que dó dele, gente!). Vai ver que, de tanto pensar em seleção natural, a memória de alguns ateus fica bem seletiva (e conveniente, não é mesmo?).

Diante dos delírios de Dawkins, só restou a Edward Feser ir atrás do tal debate "México 2010", que nesta altura do campeonato está parecendo mais título de algum campeonato mundial de cinismo, ou um UFC da hipocrisia ateísta. Feser então descobriu que o tal "debate" não foi exatamente um debate entre duas pessoas previamente convidadas para tanto, mas um painel de seis (6) pessoas que se chamou "Ciudad de las Ideas" em que tanto ele como Craig participaram, e de acordo com o que Craig contou sobre o episódio em novembro de 2010, parece que nenhum dos debatedores necessariamente sabia, antes do evento, quem seriam os outros participantes. Craig disse então que ficou surpreso ao chegar no painel e constatar que Dawkins também estaria presente, e que ele acredita que também Dawkins não sabia quem dividiria o palco com ele, tanto que Craig manifestou a sua surpresa a Dawkins, diante de sua repetida recusa em debater com ele, ao que o borra-botas ateu teria respondido que não considerava aquilo um debate com ele, já que os mexicanos o haviam convidado a participar e ele tinha aceito sem saber exatamente do que se tratava. Ou seja, Dawkins precisa se decidir: no ano passado, seu encontro com Craig NÃO foi um debate. Agora, ele diz que foi SIM um debate. Algum parafuso anda solto na cabeça dele, o que deve estar lhe provocando esses delírios. Já o apresentador do programa Catholic Answers que recebeu o e-mail acima de Dawkins, Patrick Coffin, que não é bobo nem nada, já tratou de aproveitar o delírio descuido do "papa ateu" e tratou de convidá-lo na sua página para um debate com o próprio Edward Feser, já que Dawkins se borra todo quando ouve o sobrenome Craig. Se bem que algum amigo próximo dele podia armar uma presepada qualquer noite dessas, não é mesmo, do tipo "adivinhe quem vem hoje pra debater, Dawkins"?



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 39

Lucas 23:27-56

Depois que Simão Cireneu é forçado a carregar a cruz destinada a Cristo no seu trajeto até o Calvário (v. 26), Lucas relata um episódio que só ele, entre os evangelistas, registra: uma conversa altamente emotiva entre Jesus e as mulheres de Jerusalém.

Lucas é o evangelista, digamos, mais “feminista”, no sentido de que dá vez e voz às mulheres de uma maneira muito mais perceptível do que se vê nos outros evangelhos. Aqui, ele fala do pranto das mulheres (v. 27) e da mensagem de Jesus a elas, num discurso relativamente longo (vv. 28-31), em que lhes recomenda – cifrada e profeticamente – que chorassem pela destruição de Jerusalém, com a subsequente dispersão do povo judeu, que se daria no ano 70, ou seja, menos de 40 anos depois.

 Claro que as mulheres não tinham noção de que isto iria acontecer, embora não seja de duvidar que a intuição feminina as fizesse pressentir que algo muito fora da ordem estabelecida estivesse para acontecer. Muito provavelmente, a expressão “lenho verde” do v. 31 equivalia a um provérbio popular da época, e Jesus compara a sua passagem por Israel com um lenho verde, em que tudo florescia e havia esperança de vida verdadeira, e mesmo assim o estavam crucificando.

Há um eco aqui do lamento “mas não quereis vir a mim para terdes vida!” de João 5:40. Logo, certamente não haveria mais “lenho verde” quando ele fosse rejeitado (pelo povo que o próprio Deus havia escolhido para Si) e os seus discípulos perseguidos, mas somente “lenho seco”, vida estéril que se consumiria completamente quando chegassem os dias da desolação de Israel com a ruína final de Jerusalém e seu templo.

Junto com Jesus, dois “malfeitores” são encaminhados à execução (vv. 32-33) no local chamado “Caveira” (ou “Calvário”, do grego κρανίον kranion). Mateus (27:38) e Marcos (15:27) os chamam de “salteadores”. Curioso o contraste que Lucas faz entre a rejeição do povo judeu e a companhia (forçada, no caso) de dois malfeitores que teriam o mesmo destino da execução, a que o evangelista passa rapidamente no v. 33, chamando a atenção para o fato de que Jesus ocupava o lugar central das três cruzes.

Cumprindo a profecia de Isaías 53:12, Jesus era “contado com os transgressores”. A partir daí, Lucas não se diferencia muito dos outros evangelistas, mostrando como Jesus pede ao Pai que perdoe seus executores porque “eles não sabem o que fazem” (v.34), enquanto os soldados repartiam as suas vestes, sorteando-as e cumprindo a profecia do Salmo 22:18.

O v. 35 muda um pouco o foco para a plateia que ali estava para acompanhar a crucificação e certificar-se de que o veredito de Pilatos seria cabalmente cumprido, enquanto as autoridades farisaicas zombavam dele, desafiando-o a salvar-se a si mesmo se era verdade que Ele era o Messias tão ansiado por Israel, o “escolhido de Deus”.

A humilhação pública devia ser tão contagiosa que os próprios soldados romanos se animaram a escarnecer do Mestre, oferecendo-lhe vinagre (v. 36) e repetindo o desafio dos fariseus (v. 37). Lucas registra no v. 38 que acima da cabeça de Jesus estava a inscrição “Este é o Rei dos Judeus” nos 3 alfabetos que eram de uso comum do povo que habitava e transitava pela região, o grego, o hebraico e o latim. Sobre as diferentes versões registradas pelos 4 evangelistas, na sua Bíblia de Estudo, John MacArthur dá a seguinte explicação:
“Os quatro autores dos Evangelhos mencionaram a inscrição, mas cada um registrou uma versão um pouco diferente. Tanto Lucas como João (19:20) relatam que a inscrição estava em grego, latim e hebraico, de modo que os diferentes relatos nos Evangelhos podem simplesmente refletir maneiras alternativas de se traduzir o que estava escrito na placa. É ainda mais provável que cada um dos evangelistas tenha simplesmente relatado a essência da inscrição de maneira elíptica, sendo que cada um omitiu diferentes partes da inscrição como um todo. Todos os quatro Evangelhos concordam com Marcos de que a inscrição dizia O REI DOS JUDEUS (Mt 27:37; Mc 15:26; Jo 19:19). Lucas acrescentou “ESTE É” no início e Mateus começou com “ESTE É JESUS”. A versão de João diz “JESUS NAZARENO”. Ao reunir todas as versões, a inscrição como um todo é “ESTE É JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS”.”
A partir do v. 39 até o v. 43, há um inusitado diálogo, se é que pode ser chamado assim, entre Jesus e os dois malfeitores que foram crucificados com Ele, um de cada lado. Há quem diga – embora não exista qualquer evidência conclusiva a esse respeito - que os dois outros não foram crucificados com pregos, mas amarrados cada um à sua cruz, de maneira que estariam em melhores condições físicas do que Jesus, até porque, muito provavelmente, não teriam sido tão torturados como o Mestre havia sido.

Isto lhes daria, então, melhores condições para tentar entravar um diálogo com Jesus. No v. 39, talvez inspirado pela zombaria dos fariseus e dos soldados, ou ainda na esperança de que Jesus tivesse mesmo algum poder sobrenatural que o livrasse da morte, um dos malfeitores provoca Jesus a mostrar que era de fato o Cristo e se salvasse a Si mesmo e – óbvia e convenientemente – aos seus dois companheiros de cruz.

Seu amigo, entretanto, não concorda com este tipo de provocação a um companheiro de crucificação (v. 40), com uma declaração que revela que ele teve uma visão muito mais completa do que realmente estava acontecendo naquele dia e lugar: “Nem ao menos temes a Deus, estando na mesma condenação?”.

É muito interessante que ele estivesse percebendo como a plateia estava se comportando de maneira ímpia ao zombar de alguém naquela condição, que ele reconhecia como diferente, talvez divina, o que fica claro no versículo seguinte (v. 41), quando admite que ambos mereciam a condenação, mas Jesus era um homem inocente, o que o leva a fazer ao Mestre, chamando-O pelo nome, um pedido inesperado: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (v. 42).

Aqui é necessário adiantar um aspecto que será indicado mais adiante, no v. 44. A melhor tradução para esse verbo “lembrar” (no grego, μνησθητι - mnaomai) não é o imperativo “lembra-te”, mas “comece a lembrar-se de mim” no sentido de “fazer desse pedido a Sua prioridade nº 1”, dada a urgência que a ocasião requeria. Esta circunstância vai influenciar o advérbio “hoje” do v. 44, como veremos mais à frente.

Este é um dos mais belos mistérios humanos do cenário da crucificação. Tudo indica que este homem foi o único, naquele momento decisivo da história da humanidade, a compreender com surpreendentes olhos espirituais o que – realmente – estava acontecendo com Jesus.

A reação dos apóstolos, de Maria e dos discípulos, indica que eles estavam, de alguma forma, desanimados e temerosos do que estava por vir. Seus olhos miravam apenas as evidências materiais do que lhes parecia uma tragédia que eram obrigados a assistir. A própria estupefação de todos eles, três dias depois, ao constatarem que Jesus ressuscitara, mostra o quão incrédulos eles estavam naquele momento terrível de suas vidas e como os seus olhos espirituais estavam fechados até então.

Um dos malfeitores, entretanto, não tinha esta visão, tanto que lhe faz um pedido que deve ter soado louco a quem o ouviu. Como assim seu companheiro de cruz ia entrar num reino e, ainda por cima, se lembraria dele?

Esta é uma das maiores provas de fé registradas na Bíblia, vindas de um homem sobre o qual pouco se sabe e menos ainda se esperaria que tivesse uma atitude como essa. É possível que ele já tivesse ouvido a pregação de Jesus, ou mesmo O seguido à distância.

O Mestre, então, honra essa maravilhosa prova de fé, e o presenteia com uma das mais belas frases proferidas por Sua abençoada (e abençoadora) boca: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Tanto o pedido do ladrão como a resposta de Jesus mostram que, de alguma forma, era firme em ambos a crença de que a vida não terminava ali, mesmo para os ímpios (já que o ladrão se via nessa condição e Jesus concordava – ainda que tacitamente - com a sua opinião) e que ainda naquele dia, o ladrão estaria com Jesus no paraíso.

Isto foi perfeitamente compreendido por toda a cristandade, seja ela católica, ortodoxa ou protestante, durante quase dois milênios, até que – no século XIX, dois grupos dissidentes em especial, os adventistas e as testemunhas de Jeová, passaram a ter uma interpretação diferente, para adaptá-la ao seu sistema de crenças.

O que eles basicamente questionam é a tradução do v. 43, em que haveria uma pontuação inexistente tanto no texto original como nas traduções mais aceitas, uma vírgula (ou dois pontos) que modificaria completamente o entendimento do seu significado: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso”.

Perceba que o advérbio de tempo “hoje”, nessa versão extemporânea, modificaria o verbo “dizer” e não o “estarás”, o que deixaria essa entrada no paraíso para um futuro indeterminado, um “quem sabe um dia...talvez”. Esta tradução alternativa se justifica, para esses grupos, por uma razão muito mais ideológica do que teológica.

Na sua visão de mundo, o tempo cronológico é essencial para justificar as suas marcações de datas para a volta de Jesus, ou o início do juízo investigativo, ou o fim do mundo propriamente dito. Necessitam, portanto, contar o tempo para Deus da mesma maneira como o contam para o ser humano, com início, meio e fim, ainda que a eternidade e a perfeição sejam valores inalcançáveis para o nosso entendimento presente.

O tempo de Deus tem que caber no nosso calendário gregoriano, o que até favoreceria a interpretação mais aceita, se a isso não se somasse a sua pregação do aniquilacionismo, ou seja, que as almas dos ímpios são extintas, aniquiladas (em contraposição à doutrina da imortalidade da alma), que não há nenhum estado intermediário após a morte e que o inferno não existe.

Esperam uma espécie de paraíso físico, real, no qual o corpo material, de alguma forma, será aproveitado, daí também as suas restrições alimentares. Essa polêmica só faz sentido para quem tem que defender outras doutrinas que julga muito mais importantes para a sua própria constituição e sobrevivência como grupo dissidente da ortodoxia cristã.

A objeção costumeira que fazem à interpretação ortodoxa do v. 43 é que, em João 20:17, depois da ressurreição, Jesus diz que não havia subido ainda ao Pai. É difícil ver algum problema aí, a não ser para criar polêmicas desnecessárias que sirvam à afirmação de alguma doutrina extravagante, porque a ênfase em João 20:17 é no corpo humano de Jesus (“não me detenhas, Maria!”) e na sua ascensão física aos céus, o que ocorreria 40 dias depois.

Tudo isso, ainda que resumido de maneira insuficiente aqui (reconhecemos), os leva a não aceitar a tradução tradicional de Lucas 23:43, que nos parece que não só é a mais correta, como a única compatível não só com o contexto imediato de Lucas 23, mas também com toda a pregação neotestamentária.

Como este não é o espaço e o momento para nos estendermos sobre esse assunto, que realmente demanda uma análise interessante e bastante detalhada, quem quiser se aprofundar em todos os detalhes técnicos da tradução do grego e da discussão acadêmica que a envolve, recomendamos enfaticamente que visite o artigo abaixo:


Especificamente sobre a imortalidade da alma, recomendamos os seguintes artigos:




Apenas para registrar, as testemunhas de Jeová também levantam uma polêmica tola quanto à forma de execução de Jesus, que - segundo eles - teria sido consumada numa estaca e não numa cruz, cuja "justificativa" talvez seja a sua necessidade mórbida, típica de seitas, de se sentirem diferentes e portadores de uma informação única e exclusiva (nada mais gnóstico!), cuja refutação também pode ser lida no link abaixo:

Com quantos paus se faz uma stauros?

A partir do v. 44 começa a ser pintado, com grandes trevas (cumprindo a profecia de Amós 8:9), o quadro dos últimos suspiros de Jesus. O véu do santuário, o Santo dos Santos, que até então era visitado única e exclusivamente pelo Sumo Sacerdote uma vez por ano para fazer expiação pelo povo de Israel (Hebreus 9:3-8), passaria a ter o caminho aberto por Jesus (Hebreus 10:19-22), franqueado a todos os que cressem no seu sacrifício pelo seu próprio sangue derramado na cruz.

Este véu, naquele momento, é rasgado (v. 45), enquanto Jesus entrega o Seu espírito e morre como homem (v. 46). A cena deve ter sido de tal forma tocante e simbólica que o centurião que estava aos pés da cruz reconhece que havia algo de especial naquele homem que acabara se expirar (v. 47).

O contraste gritante apontado por Lucas é que ele não era judeu, mas romano, e mesmo assim glorificava a Deus porque, muito provavelmente, agora entendia o que de fato acontecera naquele local, um “espetáculo”, nas próprias palavras do evangelista, o que fez a multidão sair dali “batendo no peito” (v. 48), o que mostrava um sinal de arrependimento tardio (provavelmente, mais remorso do que arrependimento) pelo que haviam consentido que se fizesse contra um inocente.

 Os discípulos de Jesus estavam vendo tudo isso de longe (v. 49) e coube a José de Arimateia, membro do Sinédrio que não concordara com a execução de Jesus, ir até Pilatos para pedir o corpo de Jesus (vv. 50-52) a fim de lhe providenciar o devido sepultamento (vv. 53-56), dando destaque ao sepulcro escavado na rocha, pertencente ao rico José e cumprindo a profecia de Isaías 53:9, o qual ninguém havia utilizado ainda (v. 53), o que afastaria a suspeita, quando da ressurreição, de que era outro cadáver que estava na tumba.

Apesar das mulheres terem visto onde o corpo de Jesus fora depositado, e terem se preocupado em preparar os perfumes e especiarias para tratá-lo devidamente, já escurecia a sexta-feira da Paixão, e o sábado sagrado começava, não havendo mais tempo para os seus cuidados. Elas voltariam apenas no domingo, quando teriam uma grata surpresa. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.



sábado, 22 de outubro de 2011

Richard Dawkins é só mais um cagão

Além de dormir de touca, o “papa” ateu Richard Dawkins foge do conhecido apologista americano William L. Craig como o diabo da cruz, conforme já tivemos oportunidade de nos referirmos aqui no blog, mais especificamente no texto “Líder ateísta britânica foge de debate com William L. Craig”:

A vergonha só não é maior para Polly Toynbee, entretanto, pois ela está na doce companhia ateia de Richard Dawkins, seu vice-presidente na BHA, que também se recusa a debater com William L. Craig apelando para os seus conhecidos insultos que a nada levam, senão a uma convicção crescente de que seu discurso só funciona na base da ofensa gratuita. Debate parece não ser o forte da diretoria da BHA, já que o outro vice-presidente, A. C. Grayling, autor da "bíblia humanista" intitulada "The Good Book", também bate o pé e se recusa terminantemente a debater com Craig. Talvez o "não" de Polly tenha sido parido num cafezinho nos corredores da BHA. Curioso: se eles dizem que a razão está do lado deles, do que eles têm medo afinal? Vai ver não querem sair mal na foto. A recusa de Dawkins em debater com Craig foi descrita como "apta a ser interpretada como covardia" por Dr. Daniel Came, professor ateu de Filosofia na Universidade de Oxford, que acrescentou que isto é uma "clara omissão" no curriculum do fujão Dawkins. Um debate com regras claras de argumentação não parece ser a praia dos ateus, a não ser que possam jogar areia na cara do oponente. Talvez este seja o caso de muitos deles, magoados com a religião (por motivos muitas vezes compreensíveis e razoáveis), que migram para o neoateísmo apenas para descarregar suas frustrações na verborragia inconsequente, sem pausa para pensar. Justo eles que se dizem livres-pensadores...
Depois de toda a repercussão negativa causada pela reiterada recusa de Dawkins em debater com Craig, a situação deve ter se tornado insustentável para o conhecido líder ateísta britânico, a ponto dele ter emitido uma nota oficial em que busca se justificar por não aceitar nenhum evento público em que ambos discutam a existência (ou não) de Deus. Dawkins começa atacando a condição intelectual de Craig, omitindo o fato de que outros expoentes ateus como Christopher Hitchens, a quem Dawkins se junta na hora que lhe convém, já terem debatido com o apologista americano, sendo que o blog ateu Common Sense Atheism, reconheceu que Craig “spanked Hitchens like a foolish child” ("espancou Hitchens como se fosse uma criança tola"). Ora, como é que alguém tão desqualificado, na visão de Dawkins, pode ter dado uma “surra” em um amigo seu? No mínimo, Dawkins está fazendo pouco caso do próprio Hitchens, talvez julgando-o indigno de dividir a mesma mesa na defesa do movimento neoateísta, já que apanha de Craig de vez em quando. Esta postura mostra, ainda, que Dawkins, a exemplo de muitos ateus, se julga tão imensamente superior aos outros que cria dogmas em torno de si mesmo, e os protege de tal maneira que chega a se recusar a debater com alguém que considera tão inferior. Afinal o neoateísmo está cada vez mais parecido com uma religião, com seus papas, suas fumaças brancas e seus dogmas que condenam e excluem sumariamente qualquer pessoa que ouse contestá-los. A nova inquisição ateísta também tem seus autos-de-(não)-fé.

A seguir, talvez reconhecendo que o argumento anterior é muito fraquinho e facilmente desmontável, Dawkins tenta construir outra razão tola para sua rejeição ao debate. Invocando a interpretação que supostamente Craig teria dado ao genocídio de cananeus em Deuteronômio 20:13-15, diz que não poderia dividir o mesmo ambiente com tal pessoa, sequer vê-lo ao vivo e a cores (“ai que ódio!”), como se fosse uma criança magoadinha que não quer brincar mais. Ocorre que Dawkins tira uma frase de Craig do seu contexto, em que o apologista justamente dizia que esses massacres bíblicos do Velho Testamento são difíceis de entender e aceitar para um cristianismo que foi forjado (e forjou a sociedade em que vivemos) no caldeirão de amor, perdão e solidariedade que flui do Novo Testamento. Aliás, este é um recurso que muitos ateus utilizam para encerrar uma discussão que não lhes interessa ou que sabem que vão perder: apelam para aquilo que chamam de “genocídio” do Velho Testamento. Esquecem-se convenientemente que o próprio conceito de “genocídio” foi construído no século XX, mais especificamente a partir das atrocidades nazistas, que exigiram da humanidade uma postura clara e definitiva a respeito desta conceituação nebulosa que veio a ser tão debatida (e definida) no Julgamento dos nazistas em Nuremberg (veja o texto “Einchmann em Jerusalém” para aprofundar-se sobre o tema). Além disso, a Bíblia não se preocupa em dar todos os detalhes históricos e culturais de determinada época ali narrada em todas as suas minúcias, e os mesmos ateus que criticam a historicidade bíblica acabam por confirmá-la quando buscam esses argumentos. Adotam, portanto, critérios seletivos do que vale e do que não vale na Bíblia, a seu bel prazer. Isto sem falar no anacronismo, já que aplicar conceitos atuais a fatos ocorridos milênios atrás depõe contra qualquer tentativa séria de se entender o fenômeno observado. Desta forma, invocar os “genocídios” do Velho Testamento é só mais uma arma que ateus gostam de brandir com mórbido prazer, já que – por não terem nada a propor – se preocupam apenas em atacar e ofender gratuitamente para se justificarem aos seus próprios olhos, o que revela outra característica que lhes é peculiar: ora, ninguém é obrigado a crer em nada, e se não crê, que seja feliz assim, mas o curioso é que a negação não basta e essa descrença só consegue ser justificada mediante a ridicularização do oponente, sobretudo na base da agressão gratuita e desrespeitosa.

Como já vimos acima, a recusa de Dawkins em debater com Craig já havia sido descrita como "apta a ser interpretada como covardia" por Dr. Daniel Came, professor ateu de Filosofia na Universidade de Oxford, que acrescentou que isto é uma "clara omissão" no curriculum do ateu fujão. Agora, depois da chorosa nota oficial que ele se viu forçado a emitir para tentar se justificar, na sua coluna no jornal britânico The Telegraph, o historiador Tim Stanley comenta que Richard Dawkins ou é tolo ou covarde por declinar o convite para debater com William L. Craig, diz que ele não sabe o que significa "apologética" e aponta uma possível razão para a recusa: é que Dawkins só debate com religiosos britânicos (algo de que se gaba), os quais, apesar de suas credenciais intelectuais, são dóceis e verdadeiros cordeirinhos no trato com seus oponentes, algo muito distinto da tradição norteamericana na qual Craig foi formado, que é muito mais dura, incisiva e – sobretudo – treinada no que há de melhor e de pior na retórica, o que – muito provavelmente – levaria Dawkins a tomar uma “surra” equivalente àquela que Hitchens tomou de Craig, algo impensável para um ego desse tamanho. Já no (também britânico) The Guardian de hoje, o cético Daniel Came afirma que Dawkins está sendo oportunista ao usar as frases de Craig como uma cortina de fumaça para esconder as reais razões que o levam a rejeitar o debate com o americano, abrindo ainda espaço para a nostalgia dos antigos e bons debates entre Bertrand Russell e o padre Copleston, que foram transmitidos pela rádio da BBC em 1948. Segundo Came, o que há de novo no movimento neoateísta é a sua postura reiterada de diminuir e desprezar os crentes, e a fúria que cerca essas polêmicas, daí sugerir que os "novos ateus" podiam aprender mais com o "velho ateu" Russell, sobretudo com uma abordagem mais poderosa que não deixe, entretanto, de ser também respeitosa e um modelo de precisão filosófica. Difícil mesmo vai ser convencer os neoateus a aprenderem algo com outras pessoas, mesmo que elas sejam antigas e sábias personalidades ateias (o ego não permite). Came conclui seu artigo assim:
Como cético, eu tendo a concordar com a conclusão de Dawkins a respeito da falsidade do teísmo, mas as táticas desenvolvidas por ele e por outros "novos ateístas" me parecem que são fundamentalmente ignóbeis e potencialmente danosas à vida intelectual pública, isto porque há algo cínico, vergonhosamente paternalista e anti-intelectual no seu modus operandi, que é a assunção implícita de que vaiar e insultar é uma maneira efetiva de influenciar as crenças das pessoas sobre a religião. A presunção é que suas leituras largamente não-acadêmicas não se importam, ou são incapazes de pensar sobre as coisas; a paixão prevalece sobre a razão. Ao contrário, as atitudes das pessoas em relação à crença religiosa podem e devem ser moldadas pela razão, não pela bílis ou pela ofensa gratuita. Ao ignorar essas coisas, os neoateístas buscam substituir uma forma de irracionalidade por outra.
Apesar das críticas dos seus próprios companheiros, imaginando ainda que não vai sair mal na foto, Dawkins insiste em continuar em sua bad ego trip narcisista no seu pedestal (ou trono “ateopapal”), mas, cá entre nós, bem no popular (e adiantando nosso pedido de desculpas), apesar dessa pose toda, Dawkins é só mais um cagão.





segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Líder ateísta britânica foge de debate com William L. Craig

Polly Toynbee, presidente da Associação Humanista Britânica (British Humanist Association - BHA) desistiu de participar de um debate sobre a existência de Deus, com o conhecido filósofo e apologeta cristão William Lane Craig, que seria realizado no próximo mês de outubro, no Westminster Central Hall, em Londres, sob os auspícios da Premier Christian Radio. Polly Toynbee é muito conhecida por suas críticas reiteradas ao cristianismo, além da coluna que escreve no jornal britânico The Guardian, e - no último mês de abril - havia concordado em debater com William L. Craig, dentro do circuito de discussões agendadas para o The Reasonable Faith Tour do apologeta. A desculpa que Polly deu para desistir do evento foi que "não tinha conhecimento do estilo de debate do Sr. Lane Craig, e a partir do momento que viu seus debates anteriores, percebeu que este não era o mesmo estilo de debate dela". A estranha alegação foi dada na semana passada e causou espécie, já que o mínimo que se espera dos líderes ateístas proeminentes é que eles tenham, pelo menos, "estudado" - um pouco que seja - os adversários, a não ser que a arrogância os impeça de descer a esses detalhes comezinhos tão caros à retórica e à argumentação. Afinal, bastava um telefonema simpático a um ou outro colega ateu para se informar sobre o que a esperava. É que William L. Craig tem debatido com expoentes ateus muito mais conhecidos do que a Sra. Toynbee. Ele é professor e pesquisador de Filosofia na Talbot School of Theology, na California (EUA), e seus debates estão disponíveis no youtube. Entre os seus oponentes estão ateus do porte de Anthony Flew, Lewis Wolpert, Christopher Hitchens, e mais recentemente Sam Harris, que deu um ótimo testemunho a respeito de Craig, descrevendo-o como "o único apologista cristão que colocou o temor de Deus em muitos dos meus companheiros ateus". Logo após o debate com outro titã do neoateísmo, Christopher Hitchens, em abril de 2009, também ficou bastante conhecida a declaração do site ateu Common Sense Atheism, que reconheceu que Craig “spanked Hitchens like a foolish child” ("espancou Hitchens como se fosse uma criança tola"). A vergonha só não é maior para Polly Toynbee, entretanto, pois ela está na doce companhia ateia de Richard Dawkins, seu vice-presidente na BHA, que também se recusa a debater com William L. Craig apelando para os seus conhecidos insultos que a nada levam, senão a uma convicção crescente de que seu discurso só funciona na base da ofensa gratuita. Debate parece não ser o forte da diretoria da BHA, já que o outro vice-presidente, A. C. Grayling, autor da "bíblia humanista" intitulada "The Good Book", também bate o pé e se recusa terminantemente a debater com Craig. Talvez o "não" de Polly tenha sido parido num cafezinho nos corredores da BHA. Curioso: se eles dizem que a razão está do lado deles, do que eles têm medo afinal? Vai ver não querem sair mal na foto. A recusa de Dawkins em debater com Craig foi descrita como "apta a ser interpretada como covardia" por Dr. Daniel Came, professor ateu de Filosofia na Universidade de Oxford, que acrescentou que isto é uma "clara omissão" no curriculum do fujão Dawkins. Um debate com regras claras de argumentação não parece ser a praia dos ateus, a não ser que possam jogar areia na cara do oponente. Talvez este seja o caso de muitos deles, magoados com a religião (por motivos muitas vezes compreensíveis e razoáveis), que migram para o neoateísmo apenas para descarregar suas frustrações na verborragia inconsequente, sem pausa para pensar. Justo eles que se dizem livres-pensadores...

Fonte: bethinking

quinta-feira, 17 de março de 2011

É bíblico rezar pelos mortos?

A recente campanha católica "Volta para Casa", que busca reconquistar fieis católicos que se converteram para outras religiões ou denominações cristãs, ou mesmo aqueles que abandonaram a fé, tem vários pontos em que faz apologética das doutrinas católicas, defendendo crenças como a da reza pelos mortos. Neste particular, o site Volta para Casa desenvolve a seguinte argumentação:

Por que os católicos rezam pelos mortos?


Porque a Bíblia ensina que é santo e salutar o pensamento e a prática de rezar pelos mortos. E por isso nos apresenta o Apóstolo São Paulo realizando essa salutar prática.

De fato, no 2º Livro dos Macabeus, capítulo 12, vers. 43 a 46, lemos: "(Judas Macabeu) tendo feito uma coleta mandou duas mil dracmas de prata a Jerusalém para se oferecer um sacrifício pelo pecado. Obra bela e santa, inspirada pela crença na ressurreição, porque se ele não esperasse que os mortos haviam de ressuscitar, seria coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Ele considerava que, aos falecidos na piedade está reservada uma grandíssima recompensa. SANTO E SALUTAR ESSE PENSAMENTO DE ORAR PELOS MORTOS, para que sejam livres dos seus pecados". Este texto do Antigo Testamento tem confirmação em vários outros do Novo Testamento, embora os protestantes o tenham por "apócrifo". ("Folh. Cat.", nº16) Vejamos:

Assim, São Paulo, na 2ª Epístola a Timóteo, cap. l, vers. 18, assim ora a Deus pelo amigo Onesíforo: "Que o Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia do Senhor naquele dia".

Nota: Comparando os vers. 15 a 18 do cap. 1º, com o vers.19 do cap.4º desta mesma Epístola, vê-se que Onesíforo já era morto, porque nestes textos, S. Paulo se refere nominalmente a outras pessoas, e quando seria ocaso de nomear Onesíforo, seu grande amigo e benfeitor, ele não o faz, mas só se refere "à casa" e "à família de Onesíforo". Daí se conclui que ele não era mais do número dos vivos. E S. Paulo reza por ele, pedindo ao Senhor misericórdia para ele.

Portanto, os católicos rezam pelos mortos, porque, com a Bíblia e toda a Tradição, desde os tempos apostólicos, crêem na existência do Purgatório.

Primeiramente, registre-se que os católicos têm todo o direito de pensar o que quiserem a respeito desta doutrina que lhes é tão cara e peculiar; o que se questiona aqui é fundamentá-la nos textos citados acima. Sabe-se que a Igreja Católica não considera a Bíblia como a única regra de fé e conduta, baseando-se também na tradição oral e escrita da Igreja, considerando-a igualmente inspirada por Deus e autorizada a estabelecer e corroborar seus dogmas. Neste sentido, a doutrina do Purgatório (razão central para se rezar pelos mortos) começa a ser formulada por Tertuliano, em sua obra "De Anima", com forte inspiração e vocabulário estoicos, e isso só na virada do século II para o III (aliás, a influência do estoicismo - e seu sistema de virtudes humanamente conseguidas e cultivadas - na Igreja primitiva é um capítulo à parte que merece ser estudado posteriormente). Curiosamente, entretanto, em "De Anima" Tertuliano não faz nenhuma referência explícita a rezar pelos mortos, o que era de se esperar se esta fosse uma doutrina relevante à época.

Na apologética católica em destaque acima, o primeiro texto citado é o de 2ª Macabeus 12:43-46. O problema é que os livros de Macabeus são deuterocanônicos ou apócrifos, ou seja, muitos judeus e cristãos não o consideram divinamente inspirados e os recomendam apenas para entender o contexto histórico e cultural do período intertestamentário. O maior problema dos livros de Macabeus, entretanto, se encontra no próprio texto, pois o final do segundo (e último) livro é marcado por um "pedido de desculpas" do escritor: "Se o fiz bem, de maneira conveniente a uma composição escrita, era justamente isso que eu queria; se vulgarmente e de modo medíocre, é isso o que me foi possível" (2ª Macabeus 15:38 - versão Bíblia de Jerusalém). É justo, portanto, que qualquer pessoa minimamente preparada tenha sérias dúvidas sobre a inspiração do autor, ainda que os apologetas católicos digam que se trata de um "epílogo do abreviador" que, estranhamente, não foi sacado do texto original.

Talvez por isso mesmo se apele para outro texto, agora do Novo Testamento, que fala de Onesíforo, inferindo que ele já estivesse morto por ocasião da 2ª carta de Paulo a Timóteo, o que levou o apóstolo a se referir e orar pela "casa de Onesíforo", conforme os versículos destacados acima. Ora, não há qualquer razão firme e insofismável para deduzir que Onesíforo estivesse morto àquela altura. Muitos estudiosos alegam, inclusive, que Onesíforo estaria, naquele momento, acompanhando Paulo (!!!), pois, segundo o próprio apóstolo diz, "muitas vezes me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas" (2 Timóteo 1:16). Como Paulo ficava pouco tempo nas cidades por onde passava, e cartas não circulavam com facilidade, não se pode negar que a hipótese de Onesíforo ser seu companheiro de viagem não pode ser descartada. A questão se desloca, portanto, para a necessidade (e validade) de se fundar uma doutrina tão importante sobre essa hipótese tão questionável. É possível construir tamanho dogma sobre alicerces bíblicos tão frágeis? É esta a pergunta que não quer calar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Então é Natal!

Hoje é 1º de dezembro, vem chegando o Natal. Além do consumismo desenfreado, das crianças chorosas no colo dos papais noéis de shopping, das edições requentadas de Veja e Superinteressante, começam a circular aquelas surradas teorias conspiratórias de fim de ano, dizendo que o Natal é uma festa pagã e o cristão não deve comemorá-lo. É claro que devemos fugir do espírito consumista, mas nada nos impede de parar um pouco para celebrar o aniversariante, algo que deveríamos fazer todo santo dia.

Em relação a essa boataria anti-Natal, o Gustavo escreveu um excelente artigo comentando sobre as origens da festividade, desde o começo da Igreja Cristã (disponível no site E-Cristianismo). O texto é cheio de informações muito bem embasadas, que permitem que o cristão não só comemore sem culpa a Natividade, como também anime os paranóicos a pelo menos tentar encontrar algum fundamento melhor para continuar procurando chifre em cabeça de cavalo.

Veja também um excelente artigo no blog Bíblia e Transdisciplinaridade.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O que Jesus disse e não disse?

Em 2005, Bart D. Ehrman lançou um livro intitulado Misquoting Jesus, que em português soaria como algo parecido com "Citando Errado Jesus", mas foi traduzido por "O Que Jesus Disse? O Que Jesus Nao Disse? Quem Mudou A Biblia E Por Quê", publicado aqui em 2006 pela Ed. Prestígio. A obra trata, basicamente, de alguns problemas de interpolação e adulteração de textos bíblicos, como Hebreus 2:8-9, Marcos 1:41, Mateus 24:36 e João 1:18, entre outros. Teve ampla repercussão na época e, além de servir de munição para céticos que preferem despir o santo sem nem contar o milagre, continua plantando dúvidas naqueles crentes que pouco ou nada entendem de crítica textual, ou que acham que os problemas na transmissão das cópias dos manuscritos originais do Novo Testamento tenham acarretado algum dano às doutrinas fundamentais do cristianismo.

A quem possa interessar, não há nenhuma novidade no livro, já que esses problemas são conhecidos e debatidos há dois séculos pelo menos, e nenhuma doutrina central da Bíblia ficou chamuscada pela investigação. Todos os iniciados sabem que nenhum dos manuscritos originais do Novo Testamento resistiu aos primeiros séculos da Igreja cristã, e eles eram constantemente reproduzidos à mão por copistas que, não raras vezes, introduziam, erravam ou retiravam acidentalmente alguma letra ou palavra das cópias que estavam copiando. A ortodoxia cristã entende que apenas os manuscritos originais foram diretamente inspirados pelo Espírito Santo. Isto não invalida, entretanto, o fato de que Deus agiu inclusive nesta transmissão humana falha para permitir que o essencial dos evangelhos e das cartas dos apóstolos chegassem até nós.

Meu querido amigo e irmão Vítor Grando leu o livro e, apesar das críticas, gostou. Dê uma lida no artigo do blog dele, o Despertai, Bereanos!.

Para aqueles que quiserem se aprofundar no assunto, em resposta ao livro de Ehrman, Daniel B. Wallace escreveu um excelente artigo, "O Evangelho segundo Bart", que o Gustavo traduziu e disponibilizou no site E-Cristianismo, do qual destaco abaixo a introdução:




Para a maioria dos estudantes do Novo Testamento, um livro sobre crítica textual é uma real chatice. Os detalhes tediosos não são matéria para um bestseller. Mas desde a publicação em 1 de Novembro de 2005, Misquoting Jesus[2] tem circulado mais e mais alto até o pico de vendas da Amazon. E já que Bart Ehrman, um dos líderes da América do Norte em crítica textual, apareceu em dois programas da NPR (o Diane Rehm Show e Fresh Air com Terry Gross) - ambos em um espaço de uma semana - ele tem estado entre os primeiro cinquenta mais vendidos na Amazon. Em menos de três meses, mais de 100000 cópias foram vendidas. Quando a entrevista de Neely Tucker a Ehrman no The Washington Post apareceu em 5 de Março deste ano as vendas do livro de Ehrman subiram ainda mais. O sr. Tucker falou de Ehrman como um "estudioso fundamentalista que vasculhou tanto as orígens do Cristianismo que ele perdeu sua fé."[3] Nove dias depois, Ehrman era a celebridade convidada no The Daily Show de Jon Stewart. Stewart disse que vendo a Bíblia como algo que foi deliberadamente corrompida por escribas ortodoxos fez da Bíblia "mais interessante... quase mais divina em alguns aspectos." Stewart concluiu a entrevista declarando, "Eu realmente te parabenizo. É um baita de um livro!" Em menos de 48 horas, Misquoting Jesus chegou ao topo da Amazon, ainda que somente por um curto período. Dois meses depois e ainda está voando alto, ficando entre os 25. Ele "se tornou um de meus bestsellers mais improváveis do ano."[4] Nada mal para um tomo acadêmico em uma matéria "chata"!

Porque todo o alvoroço? Bem, por uma coisa, Jesus vende. Mas não o Jesus da Bíblia. O Jesus que vende é aquele que é saboroso ao homem pós-moderno. E com um livro entitulado Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, uma audiência disponível foi criada através da esperança que haveria novas evidências que o Jesus bíblico é uma imaginação. Ironicamente, quase nenhuma das variantes que Ehrman discute envolve palavras de Jesus. O livro simplesmente não entrega o que o título promete. Ehrman preferiu Lost in Transmission, mas a publicadora achou que tal livro seria percebido pelo pessoal de Barnes e Noble como relacionado a corridas de stock car! Mesmo que Ehrman não tenha escolhido o título resultante, ele foi uma jogada de marketing.

Mais importante, este livro vende porque ele apela ao cético que quer razões para não acreditar, que considera a Bíblia um livro de mitos. É uma coisa dizer que as histórias na Bíblia são lenda; outra bem diferente é dizer que muitas delas foram adicionadas séculos depois. Apesar de Ehrman não dizer bem isto, ele deixa a impressão que a forma original do Novo Testamento era bem diferente dos manuscritos que nós lemos agora.

De acordo com Ehrman, este é o primeiro livro escrito sobre a crítica textual do Novo Testamento - uma disciplina que tem circulado por quase 300 anos - para uma audiência leiga.[5] Aparentemente ele não conta os vários livros escritos por advogados da KJV Only, ou os livros que interagem com eles. Parece que Ehrman quer dizer que o seu é o primeiro livro sobre a disciplina geral do criticismo textual do Novo Testamento escrito por um crítico textual de boa fé para leitores leigos. Isto é muito provavelmente verdade.




[1] Agradecimentos são dados a Darrell L. Bock, Buist M. Fanning, Michael W. Holmes, W. Hall Harris, e William F. Warren por verificar um esboço preliminar deste artigo e oferecer sua opinião.

[2] San Francisco: HarperSanFrancisco, 2005.

[3] Neely Tucker, "The Book of Bart: In the Bestseller ‘Misquoting Jesus,' Agnostic Author Bart Ehrman Picks Apart the Gospels That Made a Disbeliever Out of Him," Washington Post, March 5, 2006. Acessado em http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/03/04/AR2006030401369.html.

[4] Tucker, "The Book of Bart."

[5] Misquoting, 15.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Jesus e os outros deuses

Você já deve ter lido em algum lugar, ou alguém comentou com um certo ar intelectual, que Jesus (e o cristianismo, por consequência) é um mito montado (ou copiado) a partir de outras divindades pagãs tais como Hórus, Krishna, Zoroastro, Mitra, etc.. Principalmente quando chega a época do Natal, além daquelas tradicionais edições de fim de ano de Veja e Superinteressante, requentando velhas teorias da conspiração sobre a Bíblia e o cristianismo, muitos enchem a boca arrotando sabedoria, imaginando que estão descobrindo a América novamente, mas nenhuma dessas alegadas semelhanças de Jesus com os outros deuses resiste a uma análise acurada, como a feita pelo site americano The Devine Evidence, traduzida para o português pelo Gustavo, e agora disponível no link abaixo:

Alegadas similaridades entre Cristo e divindades pagãs

O texto é bastante interessante e algumas vezes indigesto, por mostrar até que ponto chega a imaginação humana quando se criam deuses ou se quer destruir a crença alheia mediante argumentos falsos pré-fabricados. Destaco apenas o texto introdutório:




Introdução

Se você procurar a internet por similaridades entre Jesus e deidades pagãs, você encontrará incontáveis resultados apresentando o mesmo material errôneo que não fornece nenhuma fonte religiosa original para validar seus clamores. Contudo, se você procurar os textos religiosos das figuras em questão você será confrontado com informação honesta que revela que o clamor de que a história de Jesus foi roubada de mitos pagãos é expressamente falso. Para a conveniência do leitor, eu forneço links por toda esta discusão aos textos originais, assim você poderá ver pessoalmente que a "Teoria da Cópia Pagã" foi completamente fabricada.

Declaração cética: mas estas figuras existiram antes da alegada vida de Jesus. Somente a cronologia faz esta discussão inútil.

Resposta: Um fato importante a ter em mente enquanto ler esta seção é a quantidade aproximada de 300 profecias messiânicas detalhadas a respeito da vida, morte e ministério de Jesus no Velho Testamento. As profecias datam de aproximadamente 450 a 1500 anos antes de Seu nascimento. A acusação de cristãos plagiando os registros de outras figuras no primeiro século ignoram o fato que conceitos como nascimento virginal, a ressurreição, e uma relação Pai-Filho precedem muitas das figuras neste artigo.

Também, muitos dos textos religiosos contendo as figuras e as alegadas similaridades clamadas por críticos são posteriores à finalização da Bíblia Cristã. Muitos textos a respeito destas figuras foram adicionados com o passar dos séculos, com aspectos de suas vidas se tornando mais espetaculares e suspeitosamente similares ao Cristianismo. Uma importante diferença entre Jesus e outras figuras neste artigo é a existência de fatos verificáveis sobre a vida de Jesus: nós conhecemos aproximadamente o ano de Seu nascimento, numerosos registros existem que verificam Sua existência, eventos históricos acurados que ocorreram por volta de Seu tempo de vida como mencionados nos textos cristãos, e nós podemos traçar as origens das crenças judaico-cristãs. Muitas outras figuras em questão não possuem ponto de origem documentado e não mencionam datas ou datas aproximadas de quanto os alegados eventos ocorreram.

Não obstante, assim que nós mostrarmos que os clamores de cópia são falsos, o argumento de quem veio primeiro se mostra irrelevante.

Declaração cética: Como a menção de eventos históricos prova a exatidão da Bíblia? Muitos autores de ficção incorporam pessoas reais ou lugares em seus trabalhos para dar ao enredo um sentimento de veracidade. Como a Bíblia seria diferente?

Resposta: Exatidão histórica sozinha não é prova da inerrância Bíblica mas ela atesta sua confiabilidade. Se a Bíblia mencionasse apenas localizações e pessoas espúrias como muitos dos textos pagãos fazem, certamente isto iria diminuir sua autenticidade.

Cuidados para o discernimento

Eu quero que vocês tenham as seguintes coisas em mente na próxima vez que forem apresentados à teoria de cópia pagã. Pergunte a si mesmo as seguintes perguntas baseadas em lógica e verá que muitos clamores instantaneamente desintegram.

TERMINOLOGIA Uma coisa para se alertar ao ser apresentado com os clamores de cópia é o uso de terminologia Judaico-cristã. Houve muitas religiões através da história cujos membros participavam em banhos rituais, mas não era batismo. Grupos políticos e religiosos podem ter celebrado refeições comunitárias mas não era uma Eucaristia. Seguidores podem considerar seu deus um salvador de algum tipo mas eles não eram chamados de Messias. Religiões podem falar de uma vida após a morte mas eles não consistem de lugares conhecidos como Céu e Inferno. Críticos podem usar tais termos para fazer suas conexões parecer mais fortes mas este é um uso errado de terminologia pois estas palavras são usualmente de origens judaico-cristãs.

TEMPO Quando apresentado com evidência comparativa, pergunte a si mesmo: 1) A figura precede as profecias messiânicas do Velho Testamento? (muitos não precedem) 2) O tempo da evidência precede o Cristianismo? (muitos textos religiosos e ajudas são posteriores ao Cristianismo) 3) A figura precede a vida de Jesus? (figuras como Apolônio de Tiana não precedem)

LOCALIZAÇÃO Se críticos clamam que uma figura da América do Sul, por exemplo, (como Quetzalcoatl) influenciou o Cristianismo, é obviamente um falso clamor se nós acreditamos que as Américas ainda não haviam sido descobertas.

SIMBOLISMO Se pergunte que simbolismo existe por trás de tais paralelos. Como muitos grupos políticos e religiosos da antiguidade, uma seita pode ter celebrado uma refeição comunitária mas ela não tinha o mesmo significado que uma Eucaristia Cristã. Membros podem considerar sua deidade um salvador mas eles não consideram a figura um salvador do pecado e da perdição, etc.

FONTES Veja se os clamores se baseiam ou não em textos sagrados reais da religião em questão (muitos raramente baseiam-se). Muitas referências simplesmente citam fontes secundárias de autores do mesmo gênero. Quando eles citam uma fonte religiosa, muitos críticos não especificam o livro, volume ou verso embora eles prontamente citem exatamente onde a "cópia" pode ser encontrada na Bíblia Cristã. Pergunte por referências específicas sobre onde a evidência pode ser encontrada nos reais textos religiosos. Por fim, como poderemos ver através desta discussão, muitos textos religiosos não possuem um cânon oficial como a Bíblia Cristã. Seus textos foram admitidamente alterados e adicionados durante os séculos. Quando críticos citam uma fonte de outro texto, pergunte a si mesmo se esta evidência é encontrada ou não em um texto que seja anterior ao Cristianismo (muitos não são).

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Profetadas a 900 paus

via blog Bereianos

A "bênção financeira" a 900 pilas, propagada por Morris Cerullo no programa de Silas Malafaia é algo tão vergonhoso que não mereceria nem ser mencionada, mas o Pr. Airton Evangelista da Costa fez uma refutação tão simples e lúcida que - essa sim - merece ser divulgada:


sábado, 24 de janeiro de 2009

Pequenos delírios racionais



Sempre que alguém quer criticar a idéia de Deus, ou a religião, ou as crenças transcendentais em geral, é muito comum o apelo à racionalidade, como se ela fosse a solução para todos os males e a única forma de vida possível no planeta. Não raras vezes, se alega que podemos ser felizes apenas respeitando o próximo e as leis, que podemos aprender com os nossos próprios erros, que devemos amar e nos deixar ser amados, enfim, todo um discurso muito bonito, mas muito mais emocional do que racional, o que não deixa de ser contraditório. Afinal, evoca-se a emoção para enaltecer a razão.

Entretanto, os racionais que me desculpem, mas irracional é imaginar uma sociedade perfeita como esta que os racionalistas emotivos propõem. É belíssimo imaginar um mundo livre e harmonioso, mas, convenhamos, essa sociedade não existe, nunca existiu e provavelmente jamais existirá neste mundo. Basta verificar o argumento do "respeito à lei". A própria noção de lei depende de um consenso moral, e a criação de uma entidade imaginária (o "Leviatã" de Thomas Hobbes), o Estado, que regule a todos. Ora, a própria noção de Estado é, portanto, em sua origem, irracional, por mais racionais que sejam os desejos de institui-lo. Entretanto, com exceção dos anarquistas mais puristas, parece que a idéia de Estado é aceita por todos como absolutamente natural, sendo que - pasmem! - se trata de uma ficção jurídica do séc. XVIII. Nem por isso, saímos por aí chamando todos os cidadãos de irracionais por aceitarem obedecer as leis de um Estado.

Além disso, quem é que vai definir o que é erro? Erro é apenas a desobediência à lei ou está ligado a valores morais? Quem é que vai definir o que é amor? Não é o amor indefinível, apenas experimentado ou "experimentável"? Quem é que vai obrigar o outro a "se deixar ser amado"? Não tem ele o direito de recolher-se em seu exílio auto-imposto? Não são - tudo isso - valores subjetivos, que dependem das circunstâncias de cada pessoa? Então, ninguém é obrigado a crer em nada, mas deixe que creiam, que não queiram ser amados, que errem à vontade, deixe que sejam apenas humanos, demasiadamente humanos, mesmo naquilo que transcende a humanidade.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ecos do Egito



Chega a ser tragicômico o esforço que algumas pessoas fazem na vã tentativa de "desconstruir" o cristianismo. Apesar de alegarem que o cristianismo é uma mitologia destituída de provas, não piscam os olhos quando atacam-no com mitologias destituídas de evidências cabais, nem se dando ao trabalho de apresentar provas irrefutáveis das supostas deficiências que alegam. Atiram-nas ao ventilador como verdades insofismáveis, sem se dar ao trabalho de ler as fontes que invocam em suporte de suas teses mirabolantes, como as comparações que fazem com a mitologia egípcia:

1. "O deus Osíris ressuscitou dos mortos"

O que existe é uma espécie de "fusão" entre Horus e seu pai-deus Osíris, que foi inclusive alterada pelos próprios egípcios ao perceber a confusão que isso causava. Em algumas dessas versões, Osíris é desmembrado pelo deus Set numa batalha, em outras ele é atingido no peito por uma lança e afogado no Nilo. Então a deusa Ísis junta as partes do corpo de Osíris e o reconstrói magicamente para que ele gere nela o filho Hórus. Apesar disso, não se pode dizer que Osíris tecnicamente "ressuscitou", pois ele é impedido de voltar ao mundo dos vivos, e tudo isso acontece no mundo dos mortos.

Fonte: Livro dos Mortos 51:670, v. 1972 em diante (texto em inglês, clique aqui):

2. Imagem de Ísis com o faraó no colo.

Não há figura mais recorrente na história da humanidade do que uma mãe segurando o filho no colo. Até as pinturas rupestres dos homens da caverna registram isso. A maternidade sempre foi algo sagrado, a perpetuação da espécie. Difícil mesmo é um ateu negar o instinto religioso dos primórdios da humanidade que esta imagem demonstra.


3. "Após a morte a alma pode ir para o paraíso e precisará do seu corpo físico para isso, daí os católicos terem sido, por muito tempo, contra a cremação dos mortos".

De fato, sempre houve discussão na Igreja sobre a cremação, mas não porque a alma precisava do corpo para entrar no paraíso, embora houvesse uma ou outra pessoa que defendesse essa ideia ao longo da história da igreja. O motivo pelo qual a cremação foi mal vista por muito tempo se devia, inicialmente, à crença judaica contrária a essa prática. O cristianismo já significava uma ruptura com o judaísmo, o que lhe rendia muitas perseguições, e eles não quiseram abrir mais este front de batalha. Por outro lado, os primeiros cristãos tinham o costume de serem enterrados juntos, nas catacumbas de Roma, por exemplo, simbolizando que continuariam unidos mesmo após a morte. O enterro dos corpos era considerado muito mais digno do que a cremação, até porque eles observavam essa práticas em outras religiões pagãs. Entretanto, muitos mártires da Igreja foram queimados nos postes que iluminavam Roma, outros no Coliseu, mas nunca ninguém disse que eles não poderiam entrar no paraíso. Pelo contrário, sempre tiveram um lugar de honra na cristandade. Hoje, a cremação ainda não é bem vista por muitos cristãos, mas dado o seu caráter ecologicamente correto (e de saúde pública), existe uma tendência em que aumente no meio cristão.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Anacronismo

Já que estamos iniciando um novo tempo, é sempre bom nos situarmos nele e não nos colocarmos na posição de julgar os tempos passados pelas nossas experiências atuais. Algumas pessoas questionam certas práticas do Velho Testamento, que aos olhos do homem do século XXI, realmente parecem despropositadas, como as leis do Levítico sobre usos e costumes do povo judaico. Entretanto, se analisarmos ceticamente, o mundo tem 6.000 anos de história registrada, de explosão da inteligência, por assim dizer. Desses 6.000 anos, faz apenas 64 que saímos da Segunda Guerra Mundial e publicamos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e mesmo assim eles continuam sendo desrespeitados em vários lugares do mundo. Admitamos, entretanto, que há 60 anos tá tudo bem em relação ao respeito dos direitos humanos, ou seja, 1% apenas da história da humanidade. Em 99% dessa história, a prática (dos homens) não foi essa.

Logo, quem examina o passado remoto com os olhos de hoje incorre num erro chamado anacronismo. A história revelada de Deus é compatível e condizente com a história do homem. As regras de conduta do passado dependem de cada época, de cada cultura e de cada civilização, individualmente consideradas. Querer julgá-las pelos nossos olhos atuais é, no fundo, um ego-sócio-centrismo disfarçado de preocupação social. Mesmo no mundo de hoje, se julgássemos os costumes de cada povo e cada civilização, é muito provável que terminássemos nos matando uns aos outros, e isso seria obra do homem, não de Deus.

Afinal, como mostra a ilustração acima, ainda não incrustaram astronautas nos umbrais das catedrais...

sábado, 1 de novembro de 2008

A apologia do profano


Dicionário Houaiss:


Profano:


Acepções

■ adjetivo

1. que não pertence ao âmbito do sagrado - Ex.: coisas p.

2. que é estranho, que não pertence à religião - Ex.: elementos p. penetraram no santuário

3. que deturpa ou viola a santidade de coisas sagradas - Ex.: atitude p. diante da Bíblia

4. que não é religioso; leigo, temporal, secular - Ex.: instituição p.

5. que não tem finalidade religiosa; mundano


Sinônimos - ver sinonímia de secular

Antônimos - sacro, sagrado; ver tb. antonímia de secular


A coisa no meio dito "evangélico" anda tão desavergonhada, que tem até pastor vendendo consórcio "em nome de Jesus", expressão tão bela e pura que está sendo transformada em mais um dos inúmeros chavões evangélicos que assolam a Igreja no Brasil, ao lado de "palavras mágicas" como "nova unção", "noiva", "apaixonado" e outras do gênero. Meus 45 anos de vida (25 como cristão) muito bem vividos, diga-se de passagem, me dão a convicção empírica de que determinadas atitudes reprováveis e/ou reprimidas por muito tempo, se a pessoa não muda (ou se converte) efetivamente, tendem a se tornar aberrações. Infelizmente, boa parte da igreja evangélica brasileira está sendo consumida pela voracidade das heresias travestidas de piedade, profanando o sagrado, como Paulo havia predito a Timóteo:

2Ti 3:1 Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis.
2Ti 3:2 Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios,
2Ti 3:3 sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem,
2Ti 3:4 traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus,
2Ti 3:5 tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se também destes.

O interessante é que este descaramento da pastorzada - que, além de não merecerem o título de pastor, desprezam a importância do nome (e do sacrifício) de Jesus - começa a ser percebido inclusive pela imprensa secular (aquela que, pela sinonímia acima referida, deveria ser profana), como é o caso deste artigo do Ricardo Feltrin no UOL, que merece ser transcrito:


29/10/2008 - 15h46


Pastor usa nome de Jesus para fazer 'merchan' de consórcio na TV

Ricardo Feltrin

Colunista do UOL


Se existe uma "vítima" da chamada Teologia da Prosperidade ela é a própria palavra escrita na Bíblia. Essa teoria (ou prática teológica) tem se disseminado de forma surpreendente, e é defendida por evangélicos que crêem - a grosso modo - que Deus tem algum tipo de dívida para com o ser humano, ou que tem uma espécie de acordo (com ares de obrigação inescapável) de dar-lhe riqueza e felicidade caso a pessoa realmente tenha fé e o queira. A contrapartida geralmente é o fiel desembolsar alguma riqueza própria (dinheiro) em troca da riqueza maior futura.

O pastor evangélico Marco Feliciano, do Ministério Tempo de Avivamento, leva a teoria às últimas consequências em site e em programa na Rede TV. Enquanto garante que Deus atenderá a todos os pedidos de "fiéis", "perseverantes" ou "valentes", ele aproveita e vende cursos de teologia, DVDs, CDs de músicas e camisetas. Até aí, ok, nada demais. Mas ele também usa o nome de Jesus em merchandisings.

Segundos após realizar uma oração inflamada (que inclui palavras de língua desconhecida), pastor Feliciano ressurge como garoto-propaganda no mesmo cenário para vender um consórcio de casa própria, o GMF Consórcios.

"Você realiza, então, em nome de Jesus, o sonho da casa própria", diz o pastor.

Bíblia, hermenêutica e edição

Os pastores e bispos adeptos da teologia ou teoria da prosperidade fazem uso da hermenêutica na leitura da Bíblia para garantir que o que estão fazendo não viola as regras de Deus ou de Jesus. Trata-se de uma espécie de "edição" de conteúdo: cada um usa a Bíblia da forma que lhe interessa.

Senão vejamos: a orientação divina para que os humanos não se percam em desejos materiais em detrimento ao amor por Deus está citada duas vezes, de forma muito semelhante, em dois diferentes Evangelhos.

Em Lucas, 16:13, lê-se: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas."

Da mesma forma, em Mateus 6:24, está: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom".

Por outro lado há outro trecho em Lucas , 11:9, que diz que ao pedir algo a Deus, o fiel simplesmente receberá o que deseja (de acordo com o merecimento e fé, pressupõem-se). Mas sem precisar fazer um carnê de desafio com uma igreja. Sem intermediários.

"Por isso eu digo: peçam e vocês receberão; procurem e vocês acharão; batam, e a porta será aberta para vocês." No caso do pastor do "merchan", a porta começa com um consórcio para a casa própria.


(PARA VER O TRISTE VÍDEO, CLIQUE AQUI)


Quando o profeta Balaão vendeu-se a Balaque (Números 22), Deus usou uma jumenta para adverti-lo. Na sua insensatez, preocupado que estava em locupletar-se com o sagrado, Balaão nem se deu conta de que estava travando um diálogo acalorado (e estapafúrdio) com uma jumentinha. Quando os pseudo-profetas se rendem ao consumismo desenfreado, e quando o povo de Deus se cala diante de tanta indecência, o Senhor levanta outras vozes para expô-los ao ridículo.

A aberração, a indecência, e a indiferença e o desprezo pelo sagrado (ou seja, o profano), estão se transformando na marca registrada de uma parte enorme da igreja evangélica brasileira. Isto precisa ser combatido e denunciado, pois é assim que a população nos vê, misturados a esses mercadores das coisas santas, a esses atiradores de pérolas aos porcos, e precisamos nos separar desta gente que envergonha o evangelho (e o nome) de Jesus. Ou fazemos isso, ou animemos esses mercadores a usarem o - muito mais apropriado - nome de Esaú:

Hebreus 12:14 Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor.
12:15 Cuidem para que ninguém se exclua da graça de Deus, nem alguma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos.
12:16 Não haja nenhum imoral ou profano, como Esaú, que por uma única refeição vendeu os seus direitos de herança como filho mais velho.
12:17 Como vocês sabem, posteriormente, quando quis herdar a bênção, foi rejeitado; e não teve como alterar a sua decisão, embora buscasse a bênção com lágrimas.


O próximo merchan evangélico provavelmente será o Disk-Donkey:

Ligue para nossa jumenta, que te mandamos um prato de lentilhas, em nome de Esaú...


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