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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crânio de Mengele vira material didático na USP

A informação é do Estadão:

Ossos de médico do Holocausto são usados em classe de Medicina em SP

Restos mortais de Josef Mengele, que conduziu experimentos em Auschwitz, viraram objeto de pesquisa na USP

SÃO PAULO - Por mais de 30 anos, os ossos de Josef Mengele, médico alemão que conduziu experimentos em milhares de judeus em Auschwitz, ficaram esquecidos em um saco plástico azul no Instituto de Medicina Legal (IML) em São Paulo.

O doutor Daniel Romero Muñoz, que liderou a equipe responsável pela identificação dos restos de Mengele em 1985, viu uma oportunidade de dar a eles uma utilidade. Há vários meses, o diretor do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) obteve permissão para usá-los em estudos de Medicina Forense. Hoje, seus estudantes estão aprendendo a profissão estudando os ossos de Mengele e os conectando com a história de vida do homem conhecido como "Anjo da Morte".

"Os ossos serão úteis para ensinar como examinar os restos de um indivíduo e então confrontar a informação com dados de documentos relacionados àquela pessoa", disse Muñoz, recentemente, cercado de estudantes.

Mengele morreu há quase quatro décadas quando se afogou na costa do Estado de São Paulo. Ele esteve foragido por anos, escondido enquanto era procurado por conduzir experimentos em presos e por ter mandado milhares deles para a câmara de gás durante a 2ª Guerra Mundial.

"A vida de foragido de Mengele, e o mistério sobre o seu paradeiro, são parte do que faz seus ossos uma ferramenta útil de aprendizagem", disse Muñoz. "Por exemplo, examinando os restos dele, vimos que a pélvis esquerda estava fraturada", disse, acrescentando que a "informação encontrada em seu histórico militar dizia que ele tinha fraturado a pélvis em um acidente de moto em Auschwitz", o notório campo de concentração na Polônia.

Segurando o crânio de Mengele, Muñoz apontou para um pequeno buraco no lado esquerdo do osso da bochecha, que ele disse ter sido o resultado de um sinusite de longa duração. Muñoz disse que o casal alemão que recebeu Mengele no Brasil informou à polícia que ele frequentemente sofria de abscessos dentários que ele mesmo tratava com uma lâmina.

"Não me sinto bem (a respeito do uso dos ossos de Mengele para estudo)", disse Cyrla Gewertz, uma sobrevivente do holocausto de 92 anos. "Já tenho muitas memórias dolorosas dele, do que ele me fez e a outros em Auschwitz. Essas são memórias que não posso apagar da minha mente."

Depois da guerra, Cyrla, que disse ter sido internada também em outros campos de concentração como Ravensbruck e Malchow, foi para a Suécia, onde viveu por sete anos e onde conheceu e se casou com seu marido com quem veio ao Brasil em 1952.

Polonesa, Cyrla tem uma tatuagem no seu braço esquerdo a identificando como uma prisioneira de Auschwitz: A24840. Ela disse ter ficado cara a cara com Mengele em diversas ocasiões.

"(Mengele) me disse para tirar a roupa e entrar em uma caldeira com água extremamente quente", disse Cyrla em uma entrevista em seu apartamento em São Paulo. "Eu disse que a água estava muito quente e ele disse que se não fizesse o que ele mandava, me mataria. Depois, tive que entrar em uma caldeira com água congelante." Cyrla disse ter visto uma vez Mengele matando uma bebê recém-nascida jogando-a do topo da instalação do quartel. "Ele era uma pessoa má e perversa", ela disse. "Era um torturador."

Depois da guerra, diante do julgamento ao qual foram submetidos os membros de liderança do 3º Reich de Adolf Hitler, Mengele fugiu para a Argentina e morou em Buenos Aires por uma década.

Ele se mudou para o Paraguai depois que integrantes da agência israelense Mossad capturou o cabeça Adolf Eichmann, que também morava em Buenos Aires. Em 1960, ele chegou a São Paulo, onde recebeu abrigo do casal alemão Wolfram e Lisolette Bossert e de uma família de imigrantes húngaros.

Mengele, então com 67 anos, morreu enquanto nadava na praia da cidade de Bertioga em 1979. O casal Bossert o enterrou em Embu, nos arredores de São Paulo sob o falso nome de Wolfgang Gerhard. Anos depois, autoridades alemãs interceptaram uma carta enviada pelo casal à família de Mengele com a notícia da morte. Eles alertaram as autoridades brasileiras.

Em 1985, seu corpo foi exumado. Equipes da Alemanha, Israel, Estados Unidos e Brasil confirmaram que se tratava de Mengele, usando métodos incluindo a análise de testemunhos de pessoas que o conheceram no Brasil, comparando sua caligrafia em cartas apreendidas e estudando o crânio recuperado para checar se era compatível com fotos antigas.

A professora Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora que coordena o laboratório de estudos étnicos, racismo e discriminação da USP disse esperar que o aprendizado da classe chegue eventualmente além da ciência para a história e a ética. Estudantes devem também aprender "como médicos, psiquiatras e outros cientistas de relevância estavam a serviço do Reich, emprestando conhecimento para excluir grupos étnicos classificados como pertencentes a raças inferiores", disse Maria Luiza. "Uma exclusão que culminou em genocídio.



domingo, 26 de junho de 2016

Papa desafia Turquia e lembra genocídio na Armênia

Papa Francisco e o presidente turco Recep Tayyp Erdogan, uma relação pra lá de delicada.

A mera menção à expressão "genocídio armênio" continua sendo fonte de dores de cabeça para o papa em sua relação com a Turquia.

A matéria é da Agência Brasil:

Papa usa a palavra genocídio em discurso no Palácio Presidencial da Armênia

Em seu primeiro dia de viagem à Armênia, o papa Francisco não se intimidou em usar a palavra "genocídio" para se referir ao extermínio de 1,5 milhão de armênios pelo Império Otomano há um século, mesmo sabendo que o vocábulo poderia desencadear um mal-estar diplomático com a Turquia, como já ocorreu no ano passado.

A Santa Sé não previa o termo "genocídio" nos discursos de Francisco, porém o líder católico não quis renunciar à palavra e a disse, em alto e bom som, na capital Erevan, dentro do Palácio Presidencial e diante das autoridades armênias, inclusive do presidente armênio Serzh Sargsyan.

Relembrando um encontro que teve com Sargsyan no dia 12 de abril de 2015, na Basílica Vaticana, o papa disse hoje (24) que, "naquela ocasião, se fez a memória do centenário de Metz Yeghern, o 'Grande Mal' que atingiu este povo e causou a morte de milhares de pessoas". "Aquela tragédia, aquele genocídio, abriu um triste elenco de imagens catastróficas do século passado, tornadas possíveis por motivações racionais, ideológicas ou religiosas aberrantes", disse Francisco, fazendo uma pausa e acrescentando a palavra "genocídio" à fala. O discurso foi proferido no Palácio Presidencial, em uma cerimônia com as autoridades locais e o corpo diplomático, seu primeiro compromisso da viagem de três dias que faz à Armênia.

A declaração do líder católico deve provocar novas críticas do governo turno, que recentemente convocou o embaixador na Alemanha após Berlim aprovar uma resolução sobre o genocídio armênio.

"Tendo diante dos nossos olhos os nefastos episódios conduzidos no século passado pelo ódio, preconceito e desenfreado desejo de domínio, espero vivamente que a humanidade saiba tirar destas trágicas experiências o ensinamento para agir com responsabilidade e sabedoria para prevenir os perigos de cair novamente em tais horrores", disse o papa. "É preciso multiplicar os esforços para que sempre prevaleça o diálogo nas desavenças internacionais e a constante e genuína busca pela paz, assim como a colaboração entre os Estados e o assíduo empenho dos organismos internacionais para que seja construído um clima de confiança propício a alcançar acordos duradouros".

Em suas primeiras horas na Armênia, Francisco também condenou as divisões e guerras atuais. "O mundo está muito marcado por divisões e conflitos, assim como por graves formas de pobreza material e espiritual, entre eles a exploração de pessoas, de crianças, de idosos".

Serzh Sargsyan, por sua vez, ressaltou que, em breve, a Armênia completará 25 anos de independência da União Soviética e que "muitas coisas importantes aconteceram nesse período, entre eles a visita de João Paulo II", ocorrida em 2001.

Primeiro país cristão

Francisco visita a Armênia a convite do patriarca Karekin II e autoridades políticas do país. A Armênia é considerada “o primeiro país cristão”, pois o rei Tiridates III proclamou o Cristianismo como religião de Estado em 301, ainda antes do Império Romano, sob o impulso de São Gregório, o Iluminador. O rito armênio é um dos mais antigos do cristianismo do Oriente, com origens que remontam à época apostólica com Tadeus e Bartolomeu – considerados os Apóstolos do país.

Esta é a segunda visita de um papa ao país. João Paulo II esteve na Armênia em 2001.



sábado, 5 de dezembro de 2015

O extermínio dos jovens negros no Brasil


Artigo publicado no HuffPost Brasil:

O racismo como licença para matar

Renata Martins

Racismo, racismo, racismo, racismo. Esta não é só uma palavra, é uma licença para matar. Ela vem banhada de sangue e estrutura às relações sociais. Ela tenta destituir a humanidade das populações não brancas, sobretudo, negra e indígena. Ela tenta definir lugares. Ela assassina, elimina, silencia e extermina jovens negros todos os dias. Ela assassina, elimina, silencia e extermina jovens negros. Todos os dias. Todos os dias e em quantidades absurdas.

Segundo a Anistia Internacional, "em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros."

De 2012 para cá, escorreu muito sangue e muitas lágrimas das famílias negras. Neste mar de horror, impossível contabilizar a dor e, nesta matemática sangrenta, muitas ausências não foram contabilizadas, não são números, são pessoas.

Em Osasco, foram assassinadas 18 pessoas e mutiladas 18 famílias, histórias, sonhos e possibilidades; DG, Alan de Souza, 15 anos, assassinado porque corria. Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, assassinado porque brincava em seu portão no Alemão. Nem a ausência do meu vizinho, do seu primo, do seu amigo de escola, todos os anônimos que não terão suas ausências contabilizadas, nem causarão comoção nacional nem os penúltimos assassinados; Roberto de Souza, 16 anos, Carlos Eduardo da Silva Souza, 16, Cleiton Corrêa de Souza, 18, Wesley Castro, 20, e Wilton Esteves Domingos Junior, 20. Todos assassinados no último domingo (29) no Rio de Janeiro. Delito: serem negros, empobrecidos e estarem na rua às 23h00.

Foram 50 buracos de bala no Gol branco ocupado por corpos negros. Não eram fogos de artifício, nem comemoração, nem GTA, nem auto de resistência, nem legítima defesa. Era a morte chegando em forma de bala, em forma de Estado.

A todos esses jovens, os direitos garantidos, cunhados em papeis nacionais e universais, foram e têm sido negados há muitos anos.

E nós, em meio a tudo isso, nós que temos o privilégio de escrever e ler sobre essas atrocidades, que compartilhamos imagens dos corpos perfurados, que até após esvair de vida, continuam sem direitos. Seguimos atônitos e muitas vezes passivos.

Há quem diga que somos um País de todos, desde que esses todos não sejam imigrantes negros, refugiados, haitianos, senegaleses, congoleses, porque esses, assassinamos também, com palavras, facadas e subemprego. Nestes "todos", não tem sobrado lágrimas, indignações, panelaço e hashtag que viralize para brecar o extermínio da juventude negra, brasileira ou mundial.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

20 anos é pouco tempo para a reconciliação na Bósnia


O genocídio de Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina, é um daqueles trágicos episódios da história da humanidade que não podem ser esquecidos para que jamais se repitam.

Entretanto, parece que a memória do massacre ainda está recente demais para que muçulmanos bósnios (as vítimas) e ortodoxos sérvios (os algozes) encontrem uma saída para vencer o ódio.

A matéria foi publicada pela BBC Brasil em 11/07/15:

Premiê sérvio é atacado em cerimônia dos 20 anos do massacre de Srebrenica

O primeiro-ministro da Sérvia, Aleksandar Vucic, foi atacado por uma multidão durante uma cerimônia para marcar o 20º aniversário do genocídio de Srebrenica na Bósnia-Herzegovina.

Garrafas, pedras, sapatos e outros objetos foram atirados contra o premiê, que teve de sair correndo, protegido por seus seguranças, do cemitério na região de Srebrenica - onde 136 vítimas do massacre estão enterradas.

Vucic foi atingido na cabeça por uma pedra e seus óculos foram quebrados, enquanto muitos gritavam ofensas ou palavras como "genocídio", em referência ao massacre.

O ministro do Interior da Sérvia, Nebojsa Stefanovic, descreveu o ataque ao premiê como "escandaloso", dizendo que foi comparável a uma tentativa de assassinato.

Em 1985, durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos foram mortos em Srebrenica pelo exército bósnio da Sérvia, no que é considerado a maior atrocidade já cometida na Europa desde a Segunda Guerra.

Na época, os bósnios muçulmanos buscaram abrigo junto às forças de paz holandesas ligadas à ONU, já que a organização havia declarado Srebrenica uma "área segura" para civis.

No entanto, os civis acabaram sendo mortos por forças sérvias que realizavam uma limpeza étnica na região.

No ano passado, o Tribunal de Haia considerou a Holanda culpada pela morte de mais de 300 homens e meninos muçulmanos bósnios em Srebrenica. No entanto, o Estado holandês foi eximido da culpa pelo destino de outros cerca de 7 mil homens que morreram na região mas que não buscaram abrigo no complexo e, em vez disso, fugiram para a mata nos arredores.

Genocídio

Vucic já havia divulgando um comunicado condenando as mortes e dizendo que o que ocorreu foi um "crime monstruoso". No entanto, ele evitou o termo genocídio.

De volta a Belgrado, capital da Sérvia, Vucic pediu aos sérvios que não odiassem os bósnios muçulmanos e que continuaria a trabalhar pela reconciliação dos dois povos.

Vucic é um ex-nacionalista racial sérvio que entre 1998 e 2000 foi ministro da Informação no governo de Solobodan Milosevic. Agora, ele é um político pró-Ocidente que busca integrar a Sérvia à União Europeia.

Clinton

O ex-presidente americano Bill Clinton, que está em Srebrenica, descreveu a presença de Vucic como um passo em direção à reconciliação.

Ele também se desculpou por ter demorado tanto para colocar um fim à guerra.

Segundo Guy Delauney, correspondente da BBC em Srebrenica, o ataque ao premiê ilustra bem o quanto é difícil a reconciliação na Bósnia e em toda a região.

"Dezenas de milhares de pessoas vieram aqui para homenagear as vítimas de Srebrenica e mostrar solidariedade a essa cidade. Eles ouviram líderes internacionais falarem das cenas de horror que ocorreram aqui e de como isso não deveria se repetir", disse Delauney.

"Mas muitos dos que estavam ali se revoltam com o fato de a Sérvia nunca usar o termo genocídio para Srebrenica. E, como já era esperado, Vucic foi hostilizado pela multidão. O imã que estava no local lembrou a todos que o momento era de se fazer orações. Mas o ódio aqui ainda permanece."

8372 sepulturas de vítimas inocentes ainda clamam por justiça em Srebrenica




sexta-feira, 10 de julho de 2015

Papa faz o seu discurso mais ideológico durante visita à Bolívia

Do apelo à preservação do meio-ambiente ao pedido de perdão aos indígenas pelos abusos cometidos pela igreja na colonização da América, sobrou para todo mundo (inclusive o Estado Islâmico) no discurso anticapitalista do papa ontem, 09/07/15, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, segundo informa a Folha de S. Paulo:

Em discurso anticapitalista, Francisco prega "mudança de estruturas"

FABIANO MAISONNAVE

No discurso mais político em pouco mais de dois anos de pontificado, o papa Francisco defendeu nesta quinta-feira (9) uma "mudança de estruturas" mundial, chamou o capitalismo de "ditadura sutil" e exortou os movimentos sociais a realizar "três grandes tarefas" na economia, na união entre os povos e na preservação do ambiente.

"Reconhecemos que este sistema impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou na destruição da natureza?", perguntou o papa a algumas centenas de representantes de movimentos sociais de vários países, entre os quais o MST, sem-teto, indígenas e quilombolas brasileiros,durante o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia).

"Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. E tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco", completou o papa no encontro, realizado no auditório da Expocruz (feira agropecuária de Santa Cruz).

Para o papa, a "globalização da esperança" nasce e cresce entre os pobres, mas até a elite econômica quer mudanças: "Dentro dessa minoria cada vez menor que acredita que se beneficia com este sistema reinam a insatisfação e especialmente a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que os escraviza."

Em outra dura crítica ao capitalismo, Francisco afirmou que, "atrás de tanta dor, tanta morte e destruição está o fedor disso que [são] Basílio de Cesareia (330-379) chamava de 'o esterco do Diabo' [dinheiro]". Segundo ele, o capitalismo é uma "ditadura sutil".

O líder católico atacou também "a concentração monopólica dos meios de comunicação social que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural". Para ele, trata-se de "colonialismo ideológico".

Apesar da análise dura, Francisco advertiu contra o excesso de pessimismo e exortou os movimentos sociais a protagonizar as mudanças: "Eu me atrevo a dizer-lhes que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos", afirmou. "Vocês são os semeadores das mudanças."

Em seguida, o pontífice propôs a realização de três tarefas aos movimentos sociais. A primeira é a "colocar a economia a serviço dos povos": A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas "a administração correta da casa comum". O objetivo, diz, é assegurar os "três Ts: trabalho, teto e terra".

"A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, a tarefa é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e aos povos o que lhes pertence."

A segunda tarefa, segundo o pontífice, é "unir nossos povos no caminho da paz e da justiça". Ele defendeu o conceito de "pátria grande", usado por movimentos de esquerda para pregar a união latino-americana.

Francisco afirmou que problemas como a violência não podem ser resolvidos sem cooperação entre os países e atacou o "novo colonialismo": "Interação não é sinônimo de imposição", afirmou. "Colocar a periferia em função do centro lhe nega o direito a um desenvolvimento integral. Isso é iniquidade, e a iniquidade gera tal violência que não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter."

Por último, o líder católico pediu a preservação da "Mãe Terra", tema de sua encíclica mais recente: "Não se pode permitir que certos interesses –que são globais, mas não universais– se imponham, submetam os Estados e organismos internacionais e continuem destruindo a criação".

'3ª GUERRA EM PARCELAS

O papa também condenou o assassinato de católicos pelo grupo terrorista Estado Islâmico e disse que o mundo vive "uma Terceira Guerra Mundial em parcelas".

"Isto também deve ser denunciado: dentro desta Terceira Guerra Mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em marcha, e ele deve cessar", declarou o pontífice.

Visitando um país de maioria indígena, Francisco pediu desculpas pelo atuação da Igreja Católica durante a colonização –momento do discurso em que ele foi mais aplaudido pelos fiéis.

"Digo-lhes com pesar: foram cometidos muitos e graves pecados contra os povos originários da América em nome de Deus", disse. "E quero dizer-lhes, quero ser muito claro, como foi são João Paulo 2°: peço humildemente perdão, não apenas pelas ofensas da própria igreja como pelo crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América."

Ao final do discurso, disse: "Digamos juntos de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem velhice digna. Sigam a sua luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra."



domingo, 28 de junho de 2015

Adolf Eichmann, Hannah Arendt e a banalidade do mal


Quem nos acompanha há bastante tempo já sabe que a filósofa preferida do blog é Hannah Arendt, sobre quem já publicamos vários artigos (clique aqui para lê-los).

Também já tivemos a oportunidade de resenhar seu livro "Eichmann em Jerusalém", um dos textos mais acessados por aqui.

Por isso, recomendamos para sua leitura de domingo mais uma resenha sobre este mesmo livro, que - em essência - não difere muito da que fizemos, mas ambas se complementam nos detalhes. Quem a publicou desta vez foi o IHU:

A problematização do mal no julgamento de Eichmann, segundo Hannah Arendt


“A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes”, escreve Cristiane Arendt Santos Alves, da equipe do CJCIAS/CEPAT, em síntese elaborada sobre a obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, apresentada na noite do dia 17 de junho, pelo Projeto Abrindo o Livro, nas dependências do Sindicato dos Engenheiros do Paraná, na cidade de Curitiba. 


Eis a síntese.


“Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa”. (Hannah Arendt)

No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), que envolveu setenta e duas nações divididas entre os Aliados e o Eixo, muitos fatos relevantes transformaram a história da humanidade. Tratou-se de uma guerra marcada por fortes ataques aos civis como forma de demonstração de poder, como os ataques com bombas de fósforo, napalm, a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, e o holocausto que atingiu o povo judeu. Muitos destes ataques aos civis tinham o objetivo de destruir as forças dos países inimigos. Porém, o genocídio que acometeu o povo judeu não tinha nenhuma destas intenções. Ele não anexaria novas terras a nenhum país, não neutralizaria o poderio de fogo de nenhum dos inimigos e mesmo assim foi executado pelos países ligados ao Eixo, coordenados pelo governo alemão com extrema dedicação.

O livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, oferece um relato sobre as condições em que se deu a prisão e os julgamentos de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista), que foi responsável pela logística de transportes para a implementação da Solução Final, e as possíveis análises dos resultados deste julgamento.

O livro é uma edição revisada e ampliada a partir da cobertura do processo de Eichmann em Jerusalém, para a revista New Yorker, na qual o relato foi publicado nos meses de fevereiro e março de 1963. Nele Arendt inicia seus relatos a partir do cenário montado em Israel para a realização do julgamento de Adolf Otto Eichmann, desde sua captura em um subúrbio de Buenos Aires, na Argentina, e os métodos nada convencionais utilizados pelo Mossad, o serviço secreto do governo de Israel, que o raptou em 11 de maio de 1960. O julgamento teve início em 11 de abril de 1961, na Corte Distrital, e foi encerrado no dia 29 de maio de 1962, com a leitura da sentença da Corte de Apelação.

A obra é um extenso relato, que descreve o tribunal, com Eichmann em uma cela de vidro, gripado, e os atores envolvidos (juízes, promotores, o advogado de defesa, etc.). Sobre o acusado, faz um denso relato de suas características pessoais, seu comportamento, suas tentativas de ascensão profissional dentro e fora do Partido Nacional Socialista e da SS, demonstrando a forma como ele chegou ao seu cargo no departamento de emigração e transportes, suas tentativas de resolver a questão judaica, através da expulsão deles da Alemanha, e a busca de terras para fundação de um país judeu, onde sonhava em ter um bom cargo.

Em setembro de 1939, com a eclosão da guerra, o governo nazista revela suas reais intenções em relação ao povo judeu. Assim, inicia-se a descrição do envolvimento de Eichmann em cada etapa deste processo.

Fato sobressaliente ocorre em janeiro de 1942, quando a cúpula do partido e os mais altos funcionários públicos alemães se reúnem na Conferência de Wannsee e são acertados os detalhes para viabilizar a Solução Final, que buscava tornar a Europa livre de judeus – judenrein – através dos assassinatos em massa. Os líderes nazistas esperavam receber muitas críticas e acreditavam que precisariam convencer os ministros e funcionários públicos de alto escalão para contribuírem com o plano, mas ocorreu o contrário. Eles aceitaram com muito entusiasmo a ideia, chegando inclusive a disputar entre si as responsabilidades para a execução da Solução Final.

Outro ponto destacado pela autora foi o envolvimento dos Conselhos Judaicos na execução da Solução Final, o capítulo mais sombrio de toda a história. Como os líderes judeus participaram ativamente da destruição de seu povo? Como eles foram levados a tomar atitudes que levaram ao assassinato de 1,1 milhão de judeus? Segundo R. Pendorf (professor da Universidade de Al-Aqsa), citado no livro, “sem a cooperação das vítimas dificilmente uns poucos milhares de burocratas teriam conseguido liquidar centenas de milhares de pessoas”.

Durante o interrogatório da polícia, apresentado no tribunal, Eichamnn declarou que tinha vivido toda a sua vida segundo os princípios morais de Kant, o princípio de que minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais. Sua defesa alegou que ele simplesmente seguiu ordens de seus superiores, que advinham de Atos de Estado, pelos quais Eichmann não poderia ser responsabilizado. Mas a sequência do julgamento buscou provar o seu envolvimento em cada um dos passos dados para a execução da Solução Final, em cada um dos países envolvidos, com provas documentais e testemunhais. Apontou para o seu conhecimento a respeito da logística de funcionamento dos Centros de Extermínio no Leste, as visitas que realizou a estes locais e suas reações.

Certamente, houve muitos exageros por parte da acusação, ao ponto de colocar Eichmann acima de Heinrich Himmler (comandante militar da SS) e como inspirador de Adolf Hitler, sendo que os documentos mostravam que ele não tinha quase nada a ver com o que acontecia no leste. Sua responsabilidade era providenciar o transporte dos judeus para os campos de trabalhos forçados ou extermínio. Mesmo assim ele não escapou da pena capital.

A defesa de Eichmann teve muitas dificuldades. As provas documentais eram escassas e as testemunhas de defesa não podiam vir a Israel, uma vez que seriam presas, não contavam com auxiliares de defesa como os de acusação. Eichmann foi o auxiliar de seu advogado. Foi acusado de 12 crimes, que demonstravam claramente que sua maior culpa era a de ter sido obediente aos seus superiores, obediência esta louvada como virtude. Segundo a defesa, só os verdadeiros líderes mereciam punição, coisa que Eichmann não era com sua “obediência cadavérica”. Apesar disso, em 15 de dezembro de 1961, a Corte Distrital pronunciou sua sentença de morte. Em março de 1962, iniciam-se os trabalhos na Corte de Apelação, ainda mais visceral que a Corte Distrital, aceitando todas as alegações de que Eichmann nunca recebera ordens superiores. Todas as ordens tomadas provinham de seu julgamento pessoal quanto às questões judaicas. E, em 29 de maio, a Corte de Apelação também pronuncia sua sentença: a pena capital. No mesmo dia o presidente de Israel, Itzak Ben-Zvi, recebe seu pedido de clemência, que é negado. Então, pouco antes da meia-noite, do dia 31 de maio, foi enforcado, cremado e suas cinzas jogadas no Mediterrâneo, fora das águas israelenses.

O livro nos traz uma série de questionamentos em relação à legalidade do julgamento de Jerusalém, as irregularidades e anormalidades que nele ocorreram e acabaram por tornar pequenos os problemas morais, políticos e legais que o julgamento tinha como meta inicial, apresentando o questionamento fundamental: será que o julgamento atingiu o objetivo de fazer justiça? Será que podemos julgar um indivíduo com base em leis retroativas no tribunal dos vitoriosos? Será que o resultado seria diferente se os países do Eixo tivessem vencido a guerra? O rapto foi justificado? Será que uma lei que versa exclusivamente sobre crimes de guerra seria adequada para este caso? As perguntas ainda hoje não foram todas respondidas, ou ainda, as respostas não estão todas certas e nem erradas. Porém, o que diferenciou o julgamento de Jerusalém foi a oportunidade do povo judeu em se defender. Sob certo ponto de vista a justiça foi feita, Eichmann foi acusado, defendido, julgado e punido. Mesmo assim, a humanidade se viu diante de vários novos problemas: o julgamento de Eichmann foi legal? Que castigo seria suficiente para impedir a perpetração de crimes como o genocídio?

A definição de crimes contra a humanidade elaborada em Nuremberg, como atos desprovidos de humanidade, revelou a realidade de que a Solução Final foi um crime sem precedentes, realizada sem nenhum propósito de ganhos de qualquer espécie. Foi uma tentativa de dizimar uma população inteira, realizada por pessoas assustadoramente normais, com uma intenção absolutamente indefinida, em uma conjuntura em que era praticamente impossível distinguir entre o certo e o errado. Nesse contexto, qualquer um poderia estar no lugar de Eichmann, um aluno mediano, em um cargo mediano, querendo se destacar e ser promovido, desempenhando muito bem o seu papel segundo o que era esperado dele e de acordo com a lei vigente, o que de forma alguma o isentaria da sua parcela de culpa. Muito pelo contrário, em se tratando de assuntos políticos, o apoio e a obediência se equivalem.

Mas em todo o caso, o mais inesperado desfecho foi a reação à questão levantada pelo promotor israelense – se o povo judeu podia ou deveria ter se defendido –, uma questão tola e cruel, que acarretou as mais diversas e incríveis reações. Uma delas foram as teorias de “desejo de morte”, das quais a autora foi acusada de deduzir com a elaboração desta obra, na qual, segundo críticos, Arendt conclui que os judeus mataram a si mesmos. Tal interpretação distorce e deturpa a real intenção da obra, que era a de ser um tratado teórico sobre a natureza do mal, de como um homem que não era nenhum gênio, mas um homem comum, focado em obter progressos pessoais, nunca percebeu o que estava fazendo. “Ele não era burro”, simplesmente não refletiu sobre seus atos, e isto é banal, esse distanciamento da realidade, esse desapego moral, isso foi o que se aprendeu em Jerusalém, e isto foi uma lição, não uma explicação, nem uma teoria. A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes.

O genocídio não era sem precedentes. A história está cheia de exemplos, mas aceitá-lo como algo banal, que simplesmente acontece, abriria precedentes para outros tipos de “limpezas étnico-raciais”. Pois, se na Alemanha da Segunda Guerra se escolheu dizimar uma população por se se tratar de doentes mentais, inválidos, deficientes, homossexuais, ciganos ou judeus, qual seria a próxima motivação? E com relação à desculpa do acusado ter agido como um simples funcionário, isto também não se aplica, pois equivaleria ao criminoso que justifica seus atos nas estatísticas sobre crimes – se eu não o fizesse outro o faria. A justificativa de Ato de Estado também não se aplica, pois um Estado soberano não pode julgar atos de outro Estado soberano, e segundo esta alegação nem mesmo Hitler poderia ter sido acusado, pois esta soberania pressupõe que o Estado está acima das regras às quais os cidadãos estão sujeitos, uma vez que para manter a ordem e o poder, o Estado pode tomar medidas de emergência.

Eichmann agiu dentro dos limites do discernimento dele, sempre guiado por ordens superiores e incapaz de diferenciar o certo do errado, no contexto em que estava inserido. Porém, o que se espera em termos de humanidade é justamente esta característica, de conseguir diferenciar o certo do errado mesmo quando tudo à sua volta lhe diz o contrário.

Com base em tudo o que o livro apresenta, o que fica mais evidente foi a questão levantada pelo promotor Gideon Hausner no questionamento realizado por ele durante o interrogatório das testemunhas: o povo judeu pôde se defender? Por que não se defendeu? E o mesmo aconteceu no julgamento de Eichmann: ele pôde se defender? O povo judeu pela primeira vez pôde levar a julgamento o seu algoz, mas de que forma? As críticas ao governo israelense em relação ao andamento e à conclusão do julgamento foram muitas, assim como as críticas à obra de Arendt. O julgamento estava sendo usado pelas autoridades israelenses para unir a população judia do mundo e consolidar a criação de Israel. Muitas testemunhas puderam, finalmente, falar abertamente dos horrores sofridos nos campos de concentração.

Mas o mal que se esperava encontrar em Eichmann, um mal absoluto, de um conspirador da destruição de um povo, de um facínora nazista, esse mal não foi encontrado. Ele era um burocrata por excelência, preso às suas pequenas atividades, que não refletiu sobre os seus atos, que não teve a capacidade de avaliar as leis e ordens que lhe eram dadas dentro de um contexto humanitário. Aí está a banalidade do mal, na realização de ordens sem se pesar as conseqüências de seus atos, em se tornar mera engrenagem, só mais um, seguindo um curso que nos distancia da nossa humanidade, da nossa capacidade de pensar, valorizando apenas a nossa obediência cega. E quantas vezes essa obediência é tão valorizada como virtude? Para Eichmann, ela foi a razão da pena capital.



terça-feira, 28 de abril de 2015

A difícil reconciliação entre turcos e armênios

No último dia 24 de abril, publicamos aqui um artigo sobre o centenário do genocídio armênio. O jornal britânico The Independent trouxe naquele dia, também, um excelente artigo de Robert Fisk que traça um panorama histórico detalhado do conflito e aponta a estreita porta que ainda pode ser aberta para uma reconciliação entre turcos e armênios.

O artigo foi traduzido e publicado no Carta Maior:

Genocídio Armênio: Os perigos da negação

Me lembro de uma senhora armênia descrevendo como militares turcos ateavam fogo a pilhas de bebês vivos. Até quando a Turquia negará o genocídio?

Às sete da noite desta sexta-feira, um grupo de homens e mulheres muito valentes se reuniu na Praça Taksim, no centro de Istambul, para organizar uma comemoração sem precedentes, e ademais comovedora. Homens e mulheres, turcos e armênios, se reuniram para recordar os mais de 1,5 milhão de cristãos armênios, homens, mulheres e crianças, assassinados pelos turcos otomanos no genocídio de 1915. Esse Holocausto armênio – o precursor direto do Holocausto judeu – começou há cem anos atrás, a poucos metros dessa mesma Praça Taksim, quando o governo da época sequestrou centenas de intelectuais e escritores armênios de suas casas e os preparou para a morte e a aniquilação de seu povo.

O Papa também irritou os turcos otomanos, ao classificar este – o mais terrível massacre da Primeira Guerra Mundial – como um ato de maldade, e um genocídio, por que isso era: uma deliberada e planejada operação para erradicar uma etnia. O governo turco – mas, graças a Deus, não todos os turcos – se mantiveram negando esse capítulo da história através dos tempos, de forma petulante e infantil, baseados na versão de que os armênios não foram mortos segundo um plano (a antiga desculpa de que “havia caos devido à guerra e não se podia ter controle sobre as consequências”), e que a palavra “genocídio” foi concebida somente depois da Segunda Guerra Mundial, e que aplicá-la sobre um caso anterior seria inadequado. Seguindo essa lógica, a Primeira Guerra Mundial não deveria ser a Primeira Guerra Mundial, já que não foi chamada de “Primeira Guerra Mundial” naquele momento.

Dois pensamentos vêm à mente, então, neste centenário da carnificina, da violação massiva e dos assassinatos de crianças em 1915. O primeiro é que, para um poderoso governo, de uma forte – e valente – nação europeia e da OTAN, como é a Turquia, continuar negando a verdade desta massiva crueldade humana significa que vale a pena insistir numa mentira criminosa. Contudo, mais de 100 mil turcos descobriram que têm avós armênias, ou bisavós – as mesmas mulheres sequestradas, escravizadas e estupradas nas marchas da morte, que partiram de Anatólia até o deserto da Síria – e os próprios historiadores turcos (desgraçadamente, não em quantidade suficiente) agora apresentam as provas documentadas detalhada das sinistras ordens de extermínio emitidas por Talat Pasha desde a capital antes conhecida como Constantinopla.

Entretanto, qualquer um que se oponha à negação do genocídio por parte do governo termina sendo vilipendiado. Durante quase um quarto de século, venho recebendo cartas de turcos sobre minhas opiniões a respeito do genocídio. Comecei em 1992, cavando com minhas próprias mãos os ossos e crânios de armênios massacrados fora do deserto da Síria. Alguns poucos correspondentes queriam expressar seu apoio. A maioria das cartas eram quase malignas. E temo que a contínua negação do governo turco poderia ser tão perigosa para a Turquia, como é a indignação dos descendentes armênios das vítimas. Me lembro de uma senhora armênia, bastante velha, descrevendo para mim como ela viu os militares turcos fazendo pilhas de bebês vivos para depois atear fogo sobre eles, e que os gritos que se escutavam depois eram como o som de suas almas indo ao céu. Não é exatamente isso – além da escravidão das mulheres – o que o Estado Islâmico (EI) está cometendo hoje contra seus inimigos étnicos, exatamente do outro lado da fronteira turca? A negação está cheia de perigos.

E nos podemos perguntar o que aconteceria se o atual governo alemão afirmasse que qualquer demanda para reconhecer os “eventos” de 1939-1945 – nos quais seis milhões de judeus foram assassinados – como um genocídio se tratava somente de “propaganda judia” e “mutilação da história e da lei”. Porém, isso é mais ou menos o que o governo turco disse na semana passada, quando a União Europeia pediu que o país reconhecesse o genocídio armênio. Para o Ministério de Relações Exteriores turco, a UE havia sucumbido à “propaganda armênia” sobre os “eventos” de 1915, e acabou “mutilando a história e a lei”. Se a Alemanha houvesse adotado tais imperdoáveis palavras sobre o Holocausto judeu, seriam tantos gases saindo dos escapamentos dos veículos diplomáticos em Berlim que não permitiria que as autoridades do país pudessem ver a debandada dos embaixadores de todos os países do mundo.

Porém, a pequena e valente comemoração desta sexta-feira na Praça Taksim é um sinal para a grande parte do mundo ocidental que se reunirá com os líderes turcos a poucos quilômetros de Istambul para honrar os mortos de Gallipoli, a extraordinária e brilhante vitória de Mustafá Kemal sobre os aliados, em 1915, na Primeira Guerra Mundial. Quantos deles recordarão que, entre os heróis turcos lutando pela Turquia em Gallipoli, havia um certo capitão armênio, Torossian, cuja própria irmã seria uma das vítimas do genocídio?

Minha intenção era a de informar sobre a comemoração em Taksim em companhia de amigos turcos. Mas o segundo pensamento que me vem à mente –e os amigos armênios que me perdoem – é que não estou muito interessado no que os armênios dizem e fazem neste centésimo aniversário. Quero saber o que pensam em fazer no dia seguinte ao do centésimo aniversário. Os sobreviventes armênios – os que puderam recordar – já estão todos mortos. Em 30 anos mais, os judeus de todo o mundo vão a encarar essa mesma profunda tristeza, quando seus últimos sobreviventes desapareçam do mundo, junto com seus testemunhos. Mas os mortos podem continuar vivendo, sobretudo quando seu estado de vítima é negado – uma maldição que os obriga a morrer uma e outra vez. Minha sugestão é que os armênios deveriam, agora, elaborar uma lista dos valentes turcos que salvaram suas vidas durante a perseguição de seu povo. Há pelo menos um governador de província, e alguns soldados e policiais turcos, que arriscaram suas próprias vidas para salvar os armênios naquele momento horrível da história turca. Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro triunfalista da Turquia, falou de sua dor pelo que aconteceu com os armênios, sem deixar de negar o genocídio. Se atreveria a negar o respaldo a um livro de homenagem às vítimas do genocídio armênio que trouxesse também uma lista dos valentes turcos que tentaram salvar a honra de sua nação em sua hora mais obscura?

Venho insistindo há anos sobre essa ideia com meus amigos armênios. Propus também aos armênios da comunidade em Detroit, na semana passada. Honrar os bons turcos. Infelizmente, todos aplaudem, mas não dizem nada.

* Jornalista e escritor britânico com sede em Beirute, premiado várias vezes por seu trabalho sobre o Oriente Médio. É um dos poucos repórteres ocidentais que fala árabe fluentemente. The Independent do Reino Unido. Especial para Página/12 da Argentina, 23.04.15.



sexta-feira, 24 de abril de 2015

100 anos depois do genocídio armênio

O Império Otomano foi a potência muçulmana que dominou por muitos séculos boa parte do Oriente Médio, da África do Norte, da Ásia Menor e do Leste Europeu.

Era contra os otomanos que as Cruzadas se batiam naquilo que chamavam de libertação de Jerusalém dos não-cristãos, entre os séculos XI e XIII.

Responsáveis pela queda de Constantinopla em 1453, os otomanos conquistaram o antigo (e cristão) Império Bizantino e faltou pouco para que islamizassem todo o continente europeu, cujos reinos cristãos se uniram e venceram a batalha de Lepanto em 1571, o que impediu a expansão islâmica para o Ocidente.

No início do século XX, o Império Otomano havia perdido muito de sua antiga glória e poder, mas mesmo assim era fundamental no jogo geopolítico da época, pois ainda dominava vastas regiões do Oriente Médio e Ásia Menor.

Entre essas regiões estava a Armênia, a primeira nação que se declarou oficialmente cristã (dentro do que se podia entender como "religião oficial" na época) no ano de 301 d. C.

Encravados que estavam entre russos e otomanos, a identidade armênia foi forjada na fricção entre as duas potências e construída, em enorme parte, com seus fundamentos cristãos, o que não impediu que boa parte do seu território fosse tomado pelo Império islâmico no século XVI.

A convivência entre cristãos e muçulmanos nunca foi fácil, até que - no início da Primeira Guerra Mundial - os armênios se aliaram aos russos para combater o Império Otomano, que havia entrado no conflito ao lado da Alemanha e do Império Austro-Húngaro.

Na noite de 24 de abril de 1915, um domingo, o governo otomano prendeu e executou cerca de 600 líderes e intelectuais armênios, e por isso esta data é considerada como o marco inicial daquilo que ficou conhecido como o "genocídio armênio".

Embora as estatísticas continuem polêmicas, estima-se que, nos dois anos que se seguiram, cerca de 1.500.000 de armênios foram assassinados das mais diferentes maneiras, por cremação, afogamento, crucificação, fome, gás tóxico, e outras modalidades de crueldade que ficaram mais conhecidas na Segunda Guerra Mundial.

O Império Otomano estava no meio de uma guerra que ia lhe custar a própria sobrevivência como país. No dia seguinte (25 de abril de 1915) começaria a invasão britânico-francesa da península turca de Gallipoli, na qual morreriam - inútil e estupidamente - 500.000 soldados dos dois lados.

Insuflada pelo desejo armênio de independência e pelo ódio religioso, a reação otomana perpetraria em proporções assustadoras o primeiro genocídio do século XX.


Oficial turco provocando crianças armênias famintas,
fingindo oferecer-lhes pão.

A derrota no fim da Primeira Guerra marcou a ruína do Império Otomano, cuja maior parte do território foi assumida pelo país que hoje conhecemos como Turquia.

Os armênios não tiveram paz, entretanto. Após novo conflito com a nascente nação turca, que lhe abocanhou boa parte do território, a Armênia foi incorporada à União Soviética em 1922, como uma das 15 Repúblicas Socialistas que formaram a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

País que tem o Monte Ararate como símbolo nacional, o que nunca faltou na história da Armênia foram dilúvios de toda espécie, afinal.

Os turcos jamais aceitaram que se usasse a palavra "genocídio" para descrever o massacre dos armênios. Sua principal defesa é a de que se tratava de um período de guerra no qual a barbárie e a traição corriam soltas.

Embora muitos países, como o Brasil, evitem o uso dessa palavra para evitar melindres diplomáticos com a Turquia, o fato é que a maior parte da comunidade internacional e quase a totalidade dos historiadores não-turcos concordam que o holocausto que começou naquela noite de 2015 configura um genocídio.

Apenas 10 países reconhecem oficialmente o genocídio armênio: Argentina, Bélgica, Chile, Chipre, França, Canadá, Alemanha, Grécia, Itália e Lituânia. 

Como você percebeu, também Israel e Estados Unidos dão às costas ao nome "genocídio" para manter boas relações com os turcos.

Alguns dias atrás, inclusive, o papa Francisco foi severamente criticado pelo governo turco por ter utilizado o termo "genocídio" em missa concelebrada com o patriarca Karekin II, da Igreja Ortodoxa Armênia.

O pontífice romano foi incisivo em sua fala: "Não podemos nos silenciar sobre o que vimos e ouvimos".

Curiosamente, apesar do centenário que hoje tristemente se relembra, esta declaração papal foi vista como inoportuna, pois enfraquece politicamente a Turquia num momento difícil em que o seu maior inimigo é o Estado Islâmico que lhe ameaça as fronteiras com a Síria e o Iraque.

De qualquer maneira, o genocídio armênio precisa ser relembrado para que, a exemplo de tantos outros massacres que maculam a história da humanidade, jamais seja repetido.

Este risco, infelizmente, está sempre batendo à porta de um planeta ainda contaminado pelo fanatismo e pela barbárie. O horror, ah, o horror...


Mosteiro de Khor-Virap, na fronteira com a Turquia tendo o Monte Ararate ao fundo.
Desde 642 d. C., é testemunha da história da Armênia, sempre esperando dias melhores.



terça-feira, 29 de julho de 2014

Como a Primeira Guerra moldou o mundo que conhecemos

Na esteira do centenário do começo da Primeira Guerra Mundial, tristemente relembrado ontem aqui, reproduzimos excelente artigo de Diego Viena, bem detalhado e abrangente, publicado no Valor Econômico de 24/01/14:

Rastros da guerra

Uma guerra iniciada há cem anos na Europa trouxe consequências até hoje expostas nas divisões que afetam o continente, apesar de décadas de esforços de integração e unificação. Mais do que sugerir paralelos com as dificuldades atuais da Europa, a "Grande Guerra" está sendo lembrada em analogias com um mundo em que o equilíbrio entre potências é frágil, a relação entre governos e suas populações está em xeque e pequenas disputas locais adquirem rapidamente um significado global.

É consenso, entre historiadores, que a Primeira Guerra Mundial marcou o verdadeiro início do século XX: o tempo da guerra total, da industrialização dos conflitos, das mortes contadas aos milhões, do ocaso da Europa e do triunfo dos Estados Unidos. Há divergências, porém. Enquanto cada país avança em suas iniciativas particulares de lembrar os próprios mortos entre 1914 e 1918, com poucas exceções, os esforços para fazer da efeméride um evento global, ou ao menos europeu, não frutificaram. Nem a Comissão Europeia, instituição que representa diretamente o longo e difícil processo de integração do continente, programou eventos que levem sua assinatura.

"A dificuldade de integração é real", diz o historiador Gerd Krumeich, da Universidade de Dusseldorf e do Instituto para a História do Tempo Presente, na França. "A Europa não tem como ficar unida e pacífica se não conseguir passar além dos acordos meramente econômicos e políticos. Também é indispensável que se dissemine o hábito de conhecer melhor a história comum e a mentalidade uns dos outros." Para Krumeich, não se deveria exigir dos alemães que tenham comemorações da Primeira Guerra só porque outras nações comemoram o armistício, em 11 de novembro. "Mas podemos pedir que os alemães entendam por que as outras nações celebram seus mortos: esses mortos têm a ver com a Alemanha, mesmo que os alemães tenham esquecido disso."

Segundo Krumeich, a Primeira Guerra foi tão apagada da memória coletiva alemã que os monumentos aos mortos estão "completamente mofados". Mas, pergunta o historiador, "seria muito pedir aos franceses para colocar uma placa no ossuário de Douaumont, onde 150 mil soldados desconhecidos estão enterrados, lembrando que pelo menos 70 mil deles são alemães?"

A chanceler alemã, Angela Merkel, mencionou brevemente a efeméride em seu discurso de ano-novo, lembrando que também se celebram em 2014 os 75 anos do início da Segunda Guerra Mundial e os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Ela chamou atenção para o contraste entre esses três eventos e as eleições para o parlamento europeu, que ocorrerão em maio. A queda do muro, na definição da chanceler, marcou "o começo do fim da separação entre a Alemanha e a Europa". Mas ela também afirmou que, para a prosperidade de seu país, é indispensável um papel de liderança na União Europeia, mais especificamente, na superação da crise da zona do euro.

Tanto a moeda comum quanto a liderança alemã são fonte de desconfiança no continente. A crise tem causas econômicas, que aprofundam as divisões internas na Europa, mas a falta de coordenação na celebração do centenário mostra que ainda não existe uma identidade europeia em termos de história e perspectivas comuns. "Isso quer dizer que não existe um público europeu", afirma o historiador Oliver Janz, da Universidade Livre de Berlim e autor de um livro recém-lançado que, apesar de chamar-se "1914", trata da guerra inteira. "A história é essencialmente sobre identidades. Então, é preciso ampliar o esforço para organizar a história, a memória e as identidades em escala europeia, e não nacional. As rememorações do centenário da guerra deveriam fazer isso."

A memória da Primeira Guerra fomenta outros tipos de paralelos. A historiadora Margaret McMillan, da Universidade Oxford, autora de "Paz em Paris", argumenta que vários sinais apontam para semelhanças entre o mundo anterior a 1914 e o início do século XXI. A instabilidade na Síria, por exemplo, envolve interesses de três dos principais blocos de poder - Estados Unidos, Rússia e União Europeia. No ano passado, o uso de armas químicas naquele país - surgidas, como assinala Margaret, durante a Primeira Guerra Mundial - quase resultou em bombardeios americanos, contra a vontade dos russos. Na Ásia, uma China em rápida expansão econômica começa a testar seus músculos geopolíticos, entrando em rota de colisão com o Japão, aliado dos Estados Unidos.

Assim como na "belle époque" o antissemitismo era uma válvula de escape para qualquer problema doméstico importante, do ponto de vista da opinião pública, diz Margaret, a atualidade tem seu escapismo na forma da xenofobia de partidos de extrema-direita, como a Frente Nacional na França e o British National Party (BNP) no Reino Unido, ambos em expansão paulatina nas últimas décadas.

Em termos internacionais, a ideia de que o comércio produz uma interdependência que afasta o risco de uma guerra de larga escala já não era novidade em 1914. Margaret McMillan cita o livro "A Grande Ilusão", escrito em 1909 pelo jornalista Norman Angell, como argumento da época para a impossibilidade de um conflito entre as grandes potências: o Reino Unido e a Alemanha eram os principais parceiros comerciais um do outro naquele tempo, assim como, hoje, os destinos das duas maiores economias, Estados Unidos e China, estão intimamente interligados.

O casal imperial a minutos de morrerem: flores e sorrisos antes da catástrofe.
"Um paralelo é digno de nota: o caráter explosivo do terrorismo internacional", afirma o historiador americano Jay Winter, da Universidade Yale e autor dos livros "1914-1918: The Great War and the Shaping of the 20th Century" (A grande guerra e a formação do século XX) e "Remembering War: The Great War Between History and Memory in the 20th Century" (Relembrando a guerra: a Grande Guerra entre história e memória no século XX). O conflito, que deixou mais de dez milhões de mortos e redesenhou o cenário político internacional, começou após o assassinato do herdeiro do trono austríaco, Francisco Ferdinando e sua mulher, Sofia Chotek, por um estudante sérvio ligado ao grupo terrorista Mão Negra, contrário à presença do arquiduque na capital da Bósnia-Herzegóvina, em 1914. Em resposta, o império austro-húngaro declarou guerra à Sérvia. "A guerra foi iniciada pelas respostas austro-alemã e russa ao ataque terrorista na Bósnia. O caminho para a paz no Oriente Médio foi irreversivelmente alterado pelo assassinato de Yitzhak Rabin [primeiro-ministro de Israel, de 1992 a 1995] por um terrorista judeu. Os ecos são evidentes", afirma Winter.

A voz dissonante é a de Krumeich. "Essas comparações não me convencem, porque hoje conhecemos a capacidade de destruição das máquinas militares. Em 1914, isso não acontecia. Também sabemos quais são as forças e os limites de uma economia globalizada: não somos mais obcecados por abrir novos mercados como um imperativo que envolve a vida e a morte das nações. É muito diferente." Krumeich lançou no fim do ano passado o livro "Juli 1914: Eine Bilanz" (Julho de 1914: um balanço).

Imprensa americana anuncia guerra contra a Alemanha,
acrescentando que Cuba e Brasil podiam se aliar a eles.
As analogias não dão o tom das celebrações que se preparam. Os principais projetos europeus de rememoração do conflito iniciado em 28 de julho de 1914 têm foco semelhante. Buscam trazer à tona as memórias dos combatentes e das populações envolvidas, mais do que celebrar temas nacionais ou militares. No Reino Unido, os Arquivos Nacionais prometem colocar em livre acesso na internet 1,5 milhão de páginas de diários de guerra escritos por soldados. Na França, uma Comissão do Centenário foi criada para receber projetos de eventos de cultivo da memória da guerra, com consultoria de especialistas de vários países. Foram selecionados mais de 2000 projetos. Na Alemanha, a Associação Popular Alemã de Manutenção de Sepulturas de Guerra colocou no ar uma página que agrega todos os eventos e exposições que relembram os mortos do conflito.

Segundo Winter, que é consultor da comissão francesa, os eventos relacionados ao centenário devem caracterizar-se por uma linha pacifista, "honrando os mortos sem glorificar a guerra", o que seria "como comemorar a peste bubônica do século XIV". "Se há uma mensagem política, é a de que, para entender a importância da integração europeia, é preciso voltar a esse momento espetacular de desintegração da Europa, em 1914."

O mais ambicioso projeto de rememoração do conflito é conduzido pela Biblioteca Europeana, instituição continental de documentação digital, que desde o ano passado recolhe e digitaliza as lembranças e documentos de particulares relacionados ao dia a dia das trincheiras. A França, onde ocorreu grande parte dos combates na frente ocidental, é o país onde essa coleta mais avançou, encabeçada pelos Arquivos Nacionais. Há duas semanas, uma das organizadoras do projeto na França, Catherine Dhérent, comemorou a descoberta de um diário mantido por um soldado desconhecido, com anotações sobre a localização e atividades de sua unidade em cada etapa da guerra. Chamou a atenção da equipe de digitalização o fato de que o próprio soldado censurou passagens que não eram factuais: riscou, rasgou ou cortou todas as partes em que deixava sua opinião.

Cena insólita da Primeira Guerra:
cavalaria contra força aérea.
Na Universidade Livre de Berlim, Oliver Janz coordena um projeto de memória da Primeira Guerra com maior abrangência. A Enciclopédia Internacional 1914-1918 on-line" tem como objetivo realçar o caráter mundial de uma guerra que começou como um conflito localizado nos Bálcãs, entre uma Sérvia que ambicionava se tornar uma potência local e um império austro-húngaro em franca decadência, mas rapidamente se transformou em guerra total na Europa e, ao terminar, tinha envolvido os cinco continentes. Com a participação de 86 editores e cerca de 900 pesquisadores, a enciclopédia pretende resgatar o sentido do conflito em todas as frentes de batalha.

"É uma perspectiva muito eurocêntrica considerar que a guerra aconteceu entre agosto de 1914 e novembro de 1918", diz Janz. "No Leste Europeu, por exemplo, a guerra continuou por vários anos, com a guerra civil na Rússia e na Turquia, o confronto entre a Grécia e a Turquia, a expulsão dos gregos da Anatólia e assim por diante."

A Enciclopédia será lançada em 8 de outubro, na sede do Conselho das Regiões da Europa, em Bruxelas. Segundo Janz, a escolha do local visa realçar o objetivo de superar as perspectivas excessivamente nacionais com que a Primeira Guerra é encarada no continente europeu. Janz lembra também que, do ponto de vista de vários países, a Primeira Guerra foi a amplificação de disputas armadas que já vinham acontecendo. Em 1912 e 1913, houve guerras nos Bálcãs, envolvendo a Sérvia, a Bulgária, a Romênia e o império otomano. A Itália, em 1911, aproveitou-se da derrocada dos otomanos para conquistar a Líbia, em ataque não provocado, graças ao qual sérvios, russos, alemães, ingleses e franceses enxergaram suas próprias possibilidades de acesso aos territórios dominados pelo antigo império muçulmano. Entre esses territórios estão Iraque, Síria e Palestina, que até hoje sofrem de instabilidade geopolítica.

O Japão, que se beneficiou da desintegração do pequeno império colonial alemão em 1919, vinha exercitando sua musculatura militar desde 1895, quando venceu a China, e principalmente 1905, quando derrotou a Rússia. Foi a primeira vez, desde que os otomanos deixaram de expandir seu território, que uma potência europeia foi derrotada por um país não europeu em uma guerra de larga escala. A guerra russo-japonesa de 1905 foi crucial para que os russos concentrassem suas energias em perseguir interesses no lado europeu, contra os otomanos e, principalmente, os austríacos.

Mesmo quando olhada apenas nas duas frentes europeias e no período agosto de 1914-novembro de 1918, vê-se que o conflito provocou uma transformação profunda na maneira como se faziam as guerras, no seu sentido econômico e no impacto sobre populações civis. Por isso, vários historiadores consideram 1914 o verdadeiro início do século XX. Estendida até a exaustão financeira das partes envolvidas, a guerra foi em grande parte decidida com a entrada, no lado aliado, de uma potência com recursos quase ilimitados e uma economia que até então só tinha lucrado com o conflito na Europa: os EUA.

Kaiser Guilherme II e Tzar Nicolau II,
os primos antes da guerra. O primeiro
perderia o trono, o segundo, a vida.
"A derrota da Rússia no inverno de 1917 deu à Alemanha uma grande oportunidade de transferir suas forças para a frente ocidental, mas, a essa altura, a guerra de submarinos conduzida pelos alemães tinha levado os Estados Unidos para a guerra", diz o economista Mark Harrison, da Universidade de Warwick e um dos autores de "The Economics of World War One" (A economia da Primeira Guerra Mundial), livro que examina detidamente a condição econômica de cada país beligerante. "Com a Rússia, os aliados tinham perdido a mais fraca das grandes potências. Com os Estados Unidos, receberam o reforço do mais rico de todos."

O ano de 1914 marca o encerramento de uma era de liberalismo na economia e expansão do comércio e das finanças internacionais, migração em massa com liberdade e integração dos mercados de capitais. "Foram necessárias décadas para reverter o impacto negativo da Primeira Guerra na globalização", diz Harrison. Contrariando a célebre tese de Lênin em "Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo", de que a guerra era consequência de disputas econômicas entre grandes blocos de capital, Harrison afirma que, para "a maior parte dos interesses comerciais e econômicos, era pouquíssima a expectativa de lucro com a guerra, mesmo na Alemanha".

Segundo o economista, em quase todos os países envolvidos, o interesse em entrar em guerra estava restrito a uma pequena elite militar e política. As sociedades civis e as elites econômicas preferiam a prosperidade dos tempos de paz. Na Alemanha, o Partido Social-Democrata, o mais representado no parlamento e que aprovaria a emissão de bônus de guerra, manifestou-se contra a escalada armamentista diversas vezes. "O que há de interessante, e um tanto deprimente, é ver como essas pequenas elites conseguiram influenciar o curso dos acontecimentos."

Entre os lançamentos que se anteciparam às celebrações do centenário, tentando explicar precisamente a questão levantada por Harrison, um dos mais traduzidos e discutidos é "The Sleepwalkers" (Os sonâmbulos), do historiador australiano Christopher Clark, da Universidade Cambridge. O livro se concentra na "crise de julho", que se seguiu ao assassinato do herdeiro austro-húngaro Francisco Ferdinand e sua mulher em Sarajevo, em 28 de junho de 1914. Em mais de 600 páginas, Clark descreve os meandros confusos das relações entre as potências do continente no fim da "belle époque", mas também as divisões internas de cada país e o modo de pensamento tradicional e belicoso que motivou os principais artífices da guerra.

No fim do relato, a conhecida tese da responsabilidade alemã pelo conflito aparece bastante mitigada, a não ser pelos blefes e ultimatos lançados ao longo da crise de julho. O expansionismo da Sérvia, o orgulho ferido austro-húngaro, a estratégia russa de assegurar sua predominância na área do decadente império turco, o interesse de autoafirmação da Itália, a perseverança francesa em dar o troco pela guerra perdida contra a Alemanha em 1870 e a arrogância do regime britânico, são aspectos que ganham realce na narrativa de Clark, em paralelo ao pânico de que eram tomados os estrategistas de Berlim, à medida que a aliança de vizinhos hostis ao cáiser crescia em poderio e importância.

O historiador inglês Max Hastings, autor de "Catastrophe: Europe Goes to War, 1914" (Catástrofe: a Europa entra em guerra, 1914), chama atenção para o fato de que a política interna alemã pode ter influenciado as lideranças do país a subir o tom do militarismo. A maioria social-democrata no parlamento alemão, além de hostil ao militarismo, também se empenhava em reduzir os poderes da monarquia. Enquanto isso, afirma Hastings, a Alemanha exibia vantagens em relação aos vizinhos em todos os indicadores econômicos, mas a mentalidade imperial não conseguia reconhecer outra forma de poder que não o número de soldados.

Para Harrison, a difícil relação entre o pensamento político do século XIX e a racionalidade econômica explica em grande medida o interesse equivocado da Alemanha por entrar em guerra. "Naquele tempo, ninguém estava calculando o PIB e os líderes alemães não tinham a menor ideia do que pensariam os historiadores econômicos cem anos mais tarde. Eles raciocinavam em termos de equilíbrio militar e, nesse campo, o que podiam ver era uma aliança anti-alemã crescente." O que a história econômica mostra, e Harrison destaca, "é que a Alemanha poderia perfeitamente ter prosperado sem guerra. Mas não seria a Alemanha que existia na cabeça da elite prussiana: conservadora, aristocrática e militarista". O historiador pergunta o que Otto von Bismarck, chanceler do império alemão, ou o cáiser teriam pensado da Alemanha atual, próspera, liberal, democrática, vivendo em harmonia com seus vizinhos, apesar da perda da Alsácia e da Prússia Oriental. "Provavelmente, não gostariam muito", conclui.

Krumeich elogia o livro de Clark, mas manifesta desconforto com o que lhe parece uma diminuição excessiva da responsabilidade alemã. Foi o regime do cáiser, afinal, que deu o "cheque em branco" à Áustria para atacar a Sérvia - depois que o império dos Habsburgos impôs exigências deliberadamente inviáveis ao governo de Belgrado, na sequência de eventos que começou com o assassinato de Francisco Ferdinando em Sarajevo. Também foi a Alemanha que deu um ultimato à Rússia e, mais tarde, à França, para não se envolverem no conflito que se iniciava. Por fim, foram os alemães que violaram a neutralidade da Bélgica e a invadiram no caminho para a França, provocando a entrada do Reino Unido na guerra.

Ainda assim, Krumeich coloca a questão da responsabilidade pela guerra em outros termos. Tanto os alemães quanto os outros países que, nos anos anteriores, expandiam e equipavam seus exércitos em ritmo acelerado têm responsabilidade por atirar a Europa e o mundo no conflito. Mas os diplomatas e líderes políticos que trabalhavam pela eclosão do conflito não imaginavam que a guerra se tornasse tão prolongada e assumisse dimensões de verdadeira catástrofe. Pensavam que o conflito, ganhasse quem ganhasse, seria curto. Uma guerra de tamanhas proporções era algo que sequer podiam conceber. "A guerra poderia ter sido evitada, se os líderes das grandes potências pudessem imaginar o que seriam as batalhas de Verdun e do Somme" [que, em 1916, mataram, juntas, cerca de 1,4 milhão de soldados], conclui Krumeich.

Janz observa que outros temas importantes são deixados de lado, enquanto a questão da responsabilidade pelo início da guerra continua sendo citada em primeiro lugar até hoje, quando o público começa a se interessar pelo tema. O primeiro fato negligenciado é que um conflito localizado se tornou global e afetou até mesmo países que permaneceram neutros. "Além disso, precisamos encarar essa tragédia como um alerta de que não se pode nunca considerar que a paz está garantida", afirma o historiador. "Um conflito localizado em alguma região instável pode levar à ruína todo o sistema de equilíbrio global. Seria uma ilusão pensar que isso deixou de ser verdade."

Os nomes pelos quais a Primeira Guerra é chamada, cem anos mais tarde, nos países envolvidos revelam a marca que deixou na consciência dos povos. A "Urkatastrophe", catástrofe originária dos alemães, é também a "Great War" dos britânicos ou "Grande Guerre" dos franceses. É a origem da identidade nacional para australianos, neozelandeses e outros povos que emergiram do colonialismo graças à participação no conflito. A resposta rápida e extensa à convocação por contribuições pessoais, na França e na Inglaterra, sobretudo, é uma demonstração, segundo Winter, de que "a Primeira Guerra foi o momento em que a história global e a história pessoal se tornaram uma coisa só, e nunca mais se separaram".

O foco das celebrações em relatos de soldados e histórias de particulares reflete também uma novidade nefasta introduzida pela Primeira Guerra Mundial, que se tornaria um espectro recorrente no século XX: os massacres e deslocamentos forçados de civis. Já nos primeiros dias da guerra, na futura Iugoslávia, ocorreram expurgos de sérvios. Na Bélgica, moradores suspeitos de sabotar as linhas de comunicação alemãs foram executados. Na Rússia, populações de origem alemã foram deslocadas e houve pogroms em comunidades judaicas. O episódio mais sangrento ocorreu no império turco-otomano. O governo acusou a população armênia de colaborar com as tropas russas e passou a considerar cada armênio um inimigo. O resultado foi o genocídio armênio, que vitimou um número estimado em até 1,5 milhão de civis. Até hoje, o governo turco nega a ocorrência do episódio - negação que é um dos entraves à entrada da Turquia na União Europeia.

Quando foi assinado o Tratado de Versalhes, em 1919, considerado o documento que encerrou a guerra, o mundo estava profundamente transformado: seu centro cultural e econômico, a Europa, sede dos grandes impérios coloniais que dominaram o século anterior, estava moralmente humilhado: deixara de ser o exemplo quase único de modernização possível. Regiões até então periféricas, como o Japão e a América Latina, puderam passar a procurar seus modelos de modernização. "Foi o começo de uma era de nacionalismo profundo, tanto em política quanto nas artes", afirma Janz. Movimentos modernistas, como o brasileiro de 1922, têm entre suas raízes, segundo o historiador, um esforço de repensar a condição nacional depois do trauma da Primeira Guerra.

Quatro dinastias centrais para a história dos séculos anteriores haviam sido removidas. Os Hohenzollers alemães e os Habsburgos austro-húngaros haviam sido expulsos e viviam no exílio. No lugar do antigo império turco-otomano, que em 1453 havia derrotado o império bizantino, a jovem república turca era reformada sob o comando de Mustafa Kemal Atatürk. Nicolau II, na Rússia, mais do que removido, havia sido morto, com toda sua família. O novo poder bolchevique ainda deveria enfrentar uma longa e sangrenta guerra civil antes de tornar-se a União Soviética e controlar um enorme território, até a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Na Alemanha, as revoluções de 1918, que forçaram o fim da guerra, também quase resultaram em socialismo. Mas o resultado mais palpável foi o ressentimento disseminado pelo país como resultado dos termos draconianos do tratado que encerrou o conflito: estava instalado o ovo da serpente do qual sairia o nazismo.



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