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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ex-padre irlandês magoado com homenagem a Vanderlei Cordeiro de Lima na Rio 2016


A informação é do The New York Times, e repercutiu na Folha de S. Paulo:

Padre que atacou Vanderlei de Lima diz ter sentido raiva ao vê-lo acender pira

Neil 'Cornelius' Horan atacou Vanderlei Cordeiro de Lima durante a prova de maratona da Olimpíada de Atenas-2004. Doze anos depois, surpreendeu-se ao ver o corredor acender a pira olímpica na abertura da Rio-2016 –e mais do que surpreender-se, ficou com raiva. A informação é do "The New York Times", que conversou com Horan, um padre irlandês que foi afastado do sacerdócio.

"Eu olhei para Vanderlei e pensei: 'você não seria a estrela que é hoje se não fosse por mim'", disse ele ao "The New York Times".

De acordo com o jornal, a raiva vem de uma tentativa fracassada de reconciliação.

Horan diz ter enviado duas cartas, escritas em português, para Vanderlei, que nunca as respondeu. "Eu realmente gostaria de conhecer ele e sua família. Ele falhou miseravelmente no básico da decência humana e da cortesia", afirmou.

O padre afastado também disse que sentiu-se atacado por declarações de Vanderlei, que teria o chamado de religioso fanático. "Vejo isso como um ataque pessoal a mim, a minha missão cristã e ao próprio Cristo".

A agressão de Horan na maratona de Atenas-2004 não foi sua primeira intervenção em um evento esportivo. Ele acredita que o fim do mundo e o retorno de Jesus Cristo vão acontecer em breve e, para promover suas crenças, costuma interromper competições.

Em 2003, Horan já havia invadido a pista no GP de Fórmula 1 de Silverstone, na Inglaterra, em prova que foi vencida pelo brasileiro Rubens Barrichelo. O padre segurava um cartaz com os dizeres "leia a Bíblia".

Ele afirmou que o ataque à Vanderlei foi uma obra do destino. "Não sei dizer porque ataquei aquele jovem", disse. "Acredito que existe destino e que algumas coisas são predestinadas."

Vanderlei Cordeiro de Lima vencendo a dura subida ao sucesso e ao reconhecimento
de Atenas 2004 ao Rio 2016




quarta-feira, 15 de julho de 2015

"Menina pastora" cresceu e agora dá aulas de Física


A informação é da Folha de S. Paulo:

Jovem que pregava aos 7 anos deixou púlpito para dar aulas de física

De cima de um púlpito, uma menina de sete anos, de franjinha e vestido xadrez, encara uma plateia de milhares de fiéis e grita, com forte sotaque carioca: "É, meirmão, você sabe o que significa essas cinco pre... predrinhas [sic], meirmão? Maravilhoso, conseleiro [sic], Deus forte, pai da eternidade e príííííncipe da paaaiz [sic]!".

A pregação aconteceu num encontro de evangélicos em Camboriú (SC) em 2002. Quando a cena caiu no YouTube, inspirou o "Funk da Menina Pastora". A garota se chama Ana Carolina Dias e não era pastora, mas sim pregadora –a diferença é que não dava conselhos, apenas tinha o dom da oratória.

Hoje aos 21 anos, está no último semestre de licenciatura em física pela Universidade Federal Rural do Rio e não prega mais regularmente. É líder dos jovens de sua igreja e ainda cuida das crianças dos fiéis durante cultos.

Sempre quis trabalhar fora da igreja. Prestou vestibular para física porque gostava de matemática. Hoje dá aula numa escola e num curso pré-vestibular e faz estágio em escola de alunos especiais.

"Sofri muita crítica quando criança. As pessoas diziam que não seria uma pessoa normal. Mas sou prova de que isso não atrapalha a vida de ninguém. Consegui o que queria e continuo fazendo a obra de Deus."

O contato com a ciência não abalou sua fé. Ana se diz fã do movimento "Eu Escolhi Esperar", que defende a virgindade antes do casamento. Teve dois namorados. "Não deram certo, não era a vontade de Deus", diz.



quarta-feira, 17 de junho de 2015

Editorial da Folha ataca fundamentalismo evangélico na política


Editorial da Folha de S. Paulo publicado no último domingo, 14/06/15:

Submissão

Num futuro não muito distante, a aliança entre grupos políticos moderados e fundamentalistas religiosos obtém expressiva vitória eleitoral. Logo se estabelece, num país de tradições laicas e liberais, o predomínio da repressão, do obscurantismo e do preconceito.

Em “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq recém-traduzido no Brasil, imagina-se o domínio de certa “Fraternidade Muçulmana” sobre o Estado francês.

O Brasil por certo não é a França retratada nesse romance, e se o fanatismo de alguns grupos traz perigo à sociedade ocidental, não há sinais de sua atividade em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Brasília.

Um espírito crescente de fundamentalismo se manifesta, contudo, em setores da sociedade brasileira –e, como nunca, o Congresso Nacional parece empenhado em refleti-lo, intensificá-lo e instrumentalizá-lo com fins demagógicos e de promoção pessoal.

O ativismo legislativo que se iniciou com a gestão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara dos Deputados, e que Renan Calheiros (PMDB-AL) não deixou de seguir no Senado, possui o aspecto louvável de recuperar para o Parlamento um padrão de atuação e de debate por muito tempo sufocado.

Essa aparência de progresso institucional se acompanha, porém, dos mais visíveis sintomas de reacionarismo político, prepotência pessoal e intimidação ideológica.

Tornou-se rotineiro, nos debates do Congresso, que este ou aquele parlamentar invoque razões bíblicas para decisões que cumpre tratar com racionalidade e informação.

Condena-se a união homoafetiva, por exemplo, em nome de preceitos religiosos e de textos –não importa se a Bíblia ou o Corão– que podem muito bem ser obedecidos na esfera privada, mas pouco têm a contribuir para a coexistência entre indivíduos numa sociedade civilizada e plural.

Muitas religiões pregam a submissão da mulher ao homem, abominam o divórcio, estabelecem proibições a determinado tipo de alimento, condenam o consumo do álcool, reprovam o onanismo, legislam sobre o vestuário ou o corte de cabelo.

Nem por isso se pretende, nas sociedades ocidentais, adaptar o Código Penal a esse tipo de prescrições, dos quais muitos exemplos podem ser encontrados no texto bíblico. Sobretudo, não é função do Estado legislar sobre a vida privada.

Ainda assim, num evidente aceno a parcelas crescentes do eleitorado, uma verbiagem religiosa toma conta do Congresso.

Nos tempos de Eduardo Cunha, mais do que nunca a bancada evangélica se associa à bancada da bala para impor um modelo de sociedade mais repressivo, mais intolerante, mais preconceituoso do que tem sido a tradição constitucional brasileira.

O conservadorismo sem dúvida é forte no Brasil; a pena de morte, a redução da maioridade penal, a rejeição ao aborto e à liberação das drogas têm apoio em larga parcela da população –e diante de tais assuntos, naturalmente, cada pessoa tem o direito de se posicionar como lhe parecer melhor.

Mas nossa sociedade também é, felizmente, mais complexa do que pretendem os mais conservadores.

A tradição do sincretismo religioso, da liberalidade sexual, do bom humor, da convivência com pessoas vindas de todos os países e das mais diversas culturas, a prática do respeito, da cortesia e do perdão constituem elementos tão cultivados na identidade brasileira quanto o que possa haver –e indiscutivelmente há– de autoritário e violento em nosso cotidiano.

O debate entre essas forças contraditórias é constante e, a rigor, interminável. Não combina com o açodamento das decisões que, em campos diversos, têm sido tomadas na Câmara dos Deputados.

Seria equivocado criticar seu presidente por ter finalmente posto em votação algo que se arrastava há anos nos labirintos da Casa, como a reforma política. É inegável, entretanto, que Eduardo Cunha atropelou as próprias instâncias institucionais ao impor ideias como a do distritão na pauta de votações.

A toque de caixa, questões intrincadas como a do financiamento às campanhas eleitorais sofreram apreciações seguidas, e nada comprova mais a precipitação do processo do que o fato de que, em cerca de 24 horas, inverteram-se os resultados do plenário.

Uma espécie de furor sacrossanto, para o qual contribui em grande medida o interesse fisiológico de pressionar o Executivo, alastra-se para o Senado. No susto, acaba-se com a reeleição e se altera a duração dos mandatos políticos. O cidadão assiste a tudo sem sentir que foi consultado.

No meio dessa febre decisória, há espaço para que o Legislativo comece a transformar-se numa espécie de picadeiro pseudorreligioso, onde se encenam orações e onde se reprime, com gás pimenta, quem protesta contra leis penais duras e sabidamente ineficazes.

Setores políticos moderados se veem quase compelidos a conciliar-se com a virulência ideológica dos que consideram a defesa dos direitos humanos uma complacência diante do crime; dos que consideram a defesa do Estado laico uma agressão contra a fé; dos que consideram a racionalidade ocidental uma forma de subversão, e as conquistas do iluminismo uma espécie de conspiração diabólica.

Os inquisidores da irmandade evangélica, os demagogos da bala e da tortura avançam sobre a ordem democrática e sobre a cultura liberal do Estado; que, diante deles, não prevaleça a submissão.



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Assembleia de Deus de SP quer cassar título de pastor de Marco Feliciano

"Vaidade de vaidades, tudo é vaidade", já dizia o Pregador (Eclesiastes 3:1). Aliás, se certos indivíduos que se apresentam como "pastores" lessem como se deu a queda de Lúcifer no capítulo 28 de Ezequiel, eles - quem sabe - aprenderiam alguma coisa com as mancadas do satanás.

Depois de sua bombástica entrevista à revista Playboy, o conhecido pastor arroz-de-festa Marco Feliciano está sendo questionado por seus pares, segundo informa a Folha de S. Paulo:

Por dar entrevista à Playboy, Feliciano pode perder o título de pastor

DANIELA LIMA

A Convenção Fraternal das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo (Confradesp) pode cassar o título de pastor do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) por ele ter dado uma entrevista à revista "Playboy", cujo carro-chefe é a publicação de fotos de mulheres nuas.

Ontem, a entidade que reúne oito mil pastores do Ministério do Belém no Estado decidiu abrir uma apuração contra Feliciano em seu conselho de ética. O procedimento pode levar a desde uma advertência até o "descredenciamento pastoral" do deputado. Ou seja, a cassação do título de pastor.

A entrevista, publicada em abril, tem oito páginas. À publicação, Feliciano confessou ter usado cocaína na adolescência e disse sonhar com a Presidência. Ele também falou sobre sexo anal.

"Com certeza tem homens que têm tara por ânus, sim. Não entendo muito dessa área porque nunca fiz, graças a Deus, e espero nunca fazer, porque parece que quem faz não volta mais", avaliou.

À Folha, o chefe de gabinete de Feliciano, Talma Bauer, disse que ele não falaria sobre o caso porque ainda não havia sido notificado, mas que considerava normal um "pedido de explicações".

Bauer diz que a entrevista foi um "direito de resposta" concedido pela revista ao deputado, que se sentiu ofendido pelo modo como um humorista se referiu a ele na 'Playboy'.

Membro da direção da Confradesp, o pastor Lelis Washington diz que o problema não está no conteúdo das declarações de Feliciano. "Deixando de analisar a entrevista, não é essa literatura que recomendamos aos fiéis."



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mesmo que o morto tenha RG, São Paulo enterra como indigente

A dor da perda de um ente querido já é algo difícil de suportar, experiência triste pela qual todos nós passamos várias vezes na vida. 

Pior ainda é quando os governantes e os funcionários públicos que, com um simples telefonema pago por nossos impostos (aqueles mesmos que pagam seus salários e aposentadorias), poderiam aliviar muito esse sofrimento, permitindo aos enlutados que - pelo menos - pudessem sepultar seus parentes e amigos com um mínimo de dignidade.

Se você pensava que isso só acontece - infelizmente - com mendigos indocumentados, saiba que, em São Paulo, qualquer um pode ser enterrado como indigente numa vala comum, mesmo se tiver com a identidade e o telefone de casa no bolso. Basta ter a infelicidade de morrer subitamente na hora e no local "errados", se é que existe algum momento "certo" para isso, e ter seu óbito processado por um desumano qualquer.

E de nada adiantará a família e os amigos procurarem pelo "desaparecido" nas instituições que deveriam atender esse pleito simples e desesperado do cidadão. Podem passar décadas até que os parentes descubram que seu ente querido foi anonimamente jogado numa cova rasa.

O horror nem sempre depende da violência física ou de uma arma letal. Basta uma canetada para perpetrá-lo.

A notícia foi publicada na Folha de S. Paulo de 22/04/14:

Mesmo identificados, 3.000 mortos são mandados para vala comum em SP

ROGÉRIO PAGNAN
REYNALDO TUROLLO JR.

Nos últimos 14 anos, a rotina do técnico em telecomunicação Cláudio Rocha, 53, inclui a procura desesperada pelo pai, desaparecido.

Desde 15 de janeiro de 2000, ele visitou um sem-número de hospitais, unidades do IML e delegacias de São Paulo, mas nunca mais teve notícias do aposentado João Rocha, que tinha 72 anos quando sumiu de casa.

Na semana passada, Cláudio recebeu um telefonema que pôs fim à sua procura.

As notícias não poderiam ser piores: o pai estava morto e, apesar de ter se identificado ao dar entrada no hospital, foi enterrado como indigente em março de 2000.

Quatorze anos de procura em vão. "Eu esperava encontrá-lo vivo até hoje. Isso é um descaso muito grande", afirmou ele à Folha.

A família Rocha foi vítima de uma falha na burocracia estadual, que, revela-se agora, mandou para a vala comum cerca de 3.000 pessoas que possuíam identificação quando morreram nos últimos 15 anos na capital paulista.

Os "indigentes com RG" foram descobertos numa investigação do Ministério Público de São Paulo, coordenada pela promotora Eliana Vendramini, que se dedica a descobrir o paradeiro de desaparecidos em São Paulo.

Ela custou a acreditar, mas descobriu que o próprio sistema funerário estatal pode ter sido responsável pelo "desaparecimento" de milhares de pessoas na capital.

Isso porque o Estado manda para as valas públicas os corpos não reclamados por parentes num prazo de 72 horas, mesmo se o morto estiver com o RG no bolso. Vale-se de norma estadual de 1993, criada no governo Fleury (PMDB).

Faz isso sem tentar avisar qualquer parente, embora tenha dados de todos os mortos. Assim, deixa famílias numa busca sem fim.

Os enterros são realizados em parceria com o Serviço Funerário Municipal nos cemitérios 1 e 2 da Vila Formosa, na zona leste da cidade –onde os corpos chegam nus em caixotes de madeira com tampas de papelão.

Antes, também eram enterrados no cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte.

A responsabilidade pelos casos investigados pelo Ministério Público é do SVO (Serviço de Verificação de Óbitos), órgão ligado à Faculdade de Medicina da USP.

O órgão atende casos de mortes naturais, em que não há suspeita de violência, mas que necessitam de investigação da causa do óbito.

Agora, o Ministério Público quer saber por que o Estado não procurou as famílias dos mortos identificados.

Ao contrário da Promotoria, a direção do SVO entende que a lei não o obriga a procurar os familiares.

Diz ainda que não tem equipes para executar essa tarefa e que está disposto a colaborar com a investigação do Ministério Público.

À Promotoria, o SVO afirmou que não tinha informações suficientes para chegar aos parentes. "Mas é tão possível localizar as famílias que nós estamos conseguindo", contesta a promotora.

Vendramini diz ainda que, além da Constituição Federal, que em seu artigo 1º trata da "dignidade da pessoa humana", o Código Civil obriga o serviço a fazer essa comunicação, porque o corpo pertence à família.

"É uma questão óbvia. Vai ter uma lei para dizer o óbvio? Vai ter uma lei para dizer: 'Não enterre um corpo identificado sem avisar a família?'", questiona.

Outro problema é o fato de o SVO ser desconhecido da maioria da população, que, em geral, procura familiares desaparecidos apenas no IML –que é encarregado de lidar exclusivamente com mortes violentas ou com corpos sem identificação.

O Ministério Público quer acabar com as procuras desnecessárias das famílias e pôr fim aos enterros sem aviso.

Primeiro, está cruzando a lista dos cerca de 3.000 "indigentes identificados" que passaram pelo SVO com a lista de desaparecidos do Estado de São Paulo.

O objetivo é saber quantas famílias ainda estão buscando seus familiares para dar-lhes a notícia da morte e limpar os nomes que inflam a lista de desaparecidos.

João Rocha estava nessa lista e faz parte da primeira família avisada.

Nas últimas duas semanas, a Folha localizou outras quatro famílias. Nenhuma delas foi procurada pelos serviços do Estado e os parentes foram enterrados como indigentes.

NAS DELEGACIAS

O Ministério Público também vê problemas no trabalho da Polícia Civil.

Segundo a legislação, a polícia é obrigada a registrar boletins de ocorrência das mortes antes de enviar os corpos para o SVO. Da mesma forma, a polícia registra o desaparecimento quando as famílias dão queixa numa delegacia.

Porém, em todos os casos analisados pela Folha, os dados dos boletins de ocorrência –de morte e de desaparecimento– não foram cruzados, o que teria encerrado as buscas das famílias.

Três das cinco famílias procuradas pela Folha, que tiveram parentes ou amigos desaparecidos, disseram desconhecer a existência do SVO. Nesses casos, os reclamantes ou ainda procuravam os desaparecidos ou já tinham desistido da busca.

Em um caso, o parente havia morrido também. Em outro, a filha encontrou o pai 20 dias após a morte, já enterrado como indigente. Buscou ajuda até de um pai de santo.

Há ainda um número desconhecido de pessoas identificadas e enterradas como indigentes pelo IML, vítimas de violência ou de acidente.



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Entrevista imperdível de Ciro Gomes à Record News

Você tem todo o direito de não gostar de Ciro Gomes, nem das alianças políticas ou das opiniões dele sobre determinados temas e pessoas, mas há de concordar que muito do que ele fala é extremamente relevante e deve ser levado em consideração por todo cidadão brasileiro que quiser - de fato - ajudar a mudar o país.

A entrevista foi concedida ao programa Brasil em Discussão, da Record News, com direito inclusive a uma crítica rápida ao "culto" que é dono da rede de televisão (leia-se "universal"). 



Quem quiser discutir o país de verdade, tem que ter sempre em mente os temas fundamentais que ele levanta. Vale muito a pena ver a íntegra da entrevista no vídeo abaixo:




domingo, 26 de fevereiro de 2012

Itália cancela isenção fiscal de empresas católicas. E o Brasil?

A Folha informa que, na última sexta-feira, 24 de fevereiro, o governo italiano anunciou que irá cancelar as isenções tributárias para as propriedades empresariais pertencentes à Igreja Católica, o que deve resultar num acréscimo de 600 milhões de euros aos cofres públicos. 

A medida faz parte de uma série de iniciativas do governo liderado pelo primeiro-ministro Mario Monti com o fim de salvar a Itália do naufrágio coletivo que está sendo a crise econômica europeia. 

Mais do que uma questão entre os Estados da Itália e do Vaticano (que afinal está ali em Roma), este é um tema que merece ser muito mais debatido, fiscalizado e implementado em todo o mundo. 

Isenção fiscal para as igrejas fez sentido (e continua fazendo em alguns casos) num tempo em que a religião se incumbia (e muito) das atividades de assistência social (e de educação e saúde outras vezes) sobretudo aos pobres. 

Democratizava, portanto, o socorro à população numa época em que o Estado era muito fraco para atender a essas necessidades básicas. 

Hoje, entretanto, ainda que de forma muitas vezes capenga, o Estado consegue atender a maior parte dessas antigas demandas através dos órgãos públicos ou mesmo da previdência oficial. 

Por outro lado, muitas igrejas se preocuparam mais em se estruturar como verdadeiras empresas, valorizando o lucro (ainda que travestido de saldo positivo no balanço do fim de ano) e minimizando os prejuízos. 

Isto, é claro, sem contar na avalanche de pilantras que se aproveitam da religião para se locupletar às custas dos fiéis incautos. 

É - infelizmente - comum hoje que igrejas façam vistas grossas e virem as costas aos pobres justamente porque a sua pregação materialista e consumista exige riqueza para se sustentar não só no discurso, mas também na ostentação, a fim de retroalimentar o seu caixa. 

Não faz sentido que toda a sociedade, independentemente do que crê ou não crê, arque com o peso dessa renúncia estatal aos impostos devidos enquanto líderes religiosos levam vidas nababescas. 


Logo, também não faz mais sentido que as religiões tenham isenção fiscal. 

Para não prejudicar as instituições sérias que restaram, talvez fosse o caso de estipular uma alíquota ínfima de imposto sobre a conta-corrente (do tipo da extinta CPMF) e obrigar que todas as transações financeiras das igrejas e associações religiosas transitassem por essa mesma conta e fossem devidamente registradas, exatamente com o fim de evitar a safadeza e o mau uso desse benefício fiscal em atividades que não representam o fim último das religiões, que é a assistência material, moral e espiritual às pessoas que nela congregam e à sociedade como um todo, a qual será - inclusive - beneficiada com o retorno de todos esses tributos a seu favor. 

Assim, as mesmas instituições comprovadamente sérias - encerrado o ano fiscal - poderiam restituir integralmente os impostos pagos, mesmo que fossem de pouca monta. 

O mesmo esforço deveria ser feito com relação à propriedade cruzada de líderes religiosos cujos bens deveriam pertencer à igreja mas estão a serviço deles em nome de "laranjas". 

Os estatutos sociais constitutivos das organizações religiosas deveriam ser padronizados por lei, a fim de evitar que se tornassem "propriedade privada e hereditária" de grupos familiares ou com terceiras intenções. 

Outra iniciativa que deveria ser também aplicada é o fim das isenções e tratamento igualitário com as outras empresas do ramo naqueles casos em que as igrejas exploram atividade econômica lícita e concorrencial, como é o caso dos hospitais, escolas e hotéis, por exemplo, como está fazendo o governo italiano neste momento. 

Religião séria não pode nem precisa ter medo do Fisco. 

Há líderes honestos e gente digna nas igrejas, que não precisam se esconder atrás de contas suspeitas, e cujo maior patrimônio pessoal é o nome honrado. 

Desconfio, portanto, que os únicos que sairão perdendo nesse caso são os líderes religiosos desonestos. 

Que os entreguem ao Leão!



domingo, 12 de fevereiro de 2012

Evangélico Neymar tem recrutador de mulheres para festinhas

Que o salário de Neymar é estratosférico, na casa dos 7 dígitos (sem os centavos), isso todo mundo sabe. Deve dar um bom dízimo na igreja, como já revelou o pastor da Igreja Batista Peniel de São Vicente (SP), isto no tempo das vacas magras (ou que pelo menos não eram tão gordas assim). Agora, o que pouca gente sabia é que essa dinheirama toda serve pra contratar um agenciador de mulheres para as baladas que Neymar dá de vez em quando. Só na festa de aniversário do jogador do Santos, domingo passado, foram 150 moçoilas que compareceram para, digamos, "divertir" e "alegrar" os convidados. Afinal, Neymar não é de ferro, nem os "evangélicos" atuais. Diga-se de passagem que ele pode fazer o que quiser com o seu dinheiro, mas bem que alguém podia dar umas aulinhas grátis a ele sobre o que é "testemunho cristão", se é que ele tem algum interesse em saber o que significam essas coisas antigas chamadas "dar testemunho" e "ser cristão". Se for só uma festinha inocente de deslumbradas garotas incautas, ou alguém argumentar que a galera de Corinto participava de umas baladas ainda mais sinistras, pode ser que - além das reprimendas de Paulo aos coríntios (e não aos santistas) - já tenha caducado aquela orientação do apóstolo em 1ª Tessalonicenses 5:22 ("Abstenham-se de toda a aparência do mal"). Esse Paulo, viu... que desmancha-prazeres! Sempre estragando as festinhas dos "evangélicos"... a notícia foi publicada na coluna da Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo deste domingo, 12/02/12:

O amigo das amigas de Neymar

Quem é o promoter que lota as festas do craque do Santos e de outras celebridades e baladas com até 150 - "ou mais" -mulheres jovens e sensuais

Quando o jogador Neymar quer encher uma festa de mulheres que considera bonitas, "liga para ele". Quando donos de baladas como a Disco e o Café de La Musique querem juntar uma turma buliçosa, contam com ele. O cantor Latino já telefonou do Rio: "Tô mandando meu ônibus particular aí para SP. Enche de mulher". Ele já desceu a Serra do Mar levando um comboio de jovens para uma festa do Santos. E, há dias, o pagodeiro Thiaguinho, do Exaltasamba, avisou: "Vou fazer uma festa. Fica ligeiro".

No domingo passado, o promoter Leonardo Cardoso causou frisson em SP ao levar 150 moças para o aniversário de Neymar. Elas se abarrotaram na porta da boate Villa Mix, na Vila Olímpia, e viraram assunto de sites e jornais. "Tinha até mais que 150. Meu telefone tocava sem parar."

De camisa cinza da Calvin Klein, Leo circula na porta da Disco, também na Vila Olímpia. É 0h15 de quinta. A noite começa. Encontra Dudu Pereira, filho de Juscelino Pereira, do restaurante Piselli, que comenta a festa. "Soube que tinha seis mulheres para cada homem!"

Aos 29 anos, Leo se define como "intermediário" entre eles e elas. E diz que caiu nesse negócio por acaso.

Formado em publicidade na Uniban, trabalhava na área de contatos de agências. Interpretava também um personagem na internet, "O Vigarista", imitando o "Impostor" do "Pânico na TV", o que fez com que tivesse contato com o pessoal do programa e com outros "famosos".

Em 2009, perdeu o emprego. Apelou por trabalho no Twitter e, diz, recebeu telefonema do apresentador Marcos Mion, sócio da Disco: "Você anda com uma galera legal. Faz um teste, traz o pessoal aqui". Está na Disco até hoje, como promoter das noites de quarta-feira.

O segurança da boate abre as grades para ele. "Meus convidados não pegam fila." Uma loira com vestido de estampa de tigre e uma morena de blusa vermelha e shorts branco, suas amigas, sentam-se em pufes. Na mesa, vodca, gelo, energéticos e garrafinhas d'água.

Leo diz que, na noite, passou a conhecer cada vez mais garotas e a ser chamado para levá-las em outras festas. Recheou o mailing. O que era bico virou trabalho.

Neste embalo, conheceu Neymar por meio de Thiaguinho. "Quando ele me liga e diz 'convida umas pessoas para a minha festa', eu já sei: é pra levar mulher. Bonita, né? Porque mulher feia..."

O promoter convoca as "gostosas" pelo bate-papo do celular e pelo Facebook. Tem uma lista de "3.500 amigas" na rede social. "Eu olho: se é feia, nem adiciono."

"As casas noturnas querem atrair homens ricos -se possível, milionários. E eles só vão onde tem mulher bonita. Aí gastam, se exibem, pra ficar ali com a menina mais bonita do grupo." Resume: "Mulher bonita chama homem rico, e vice-versa. Ninguém mais vai pra balada por causa do DJ. Só por mulher. E gente famosa".

E é a fama que funciona como chamariz. "As meninas não têm muito o que fazer e vão às festas querendo ficar famosas. Mais do que dinheiro, querem é estar num lugar de visibilidade e glamour. Dizer: 'Fui à festa do Neymar'", diz o dono de uma das principais baladas de SP. "As casas oferecem camarote e bebida de graça para promoters como o Leo. Ele leva convidadas. E vira referência, juntando cada vez mais meninas."

"A maioria é modelo. Mas tem as que trabalham normal e vão viradas para o emprego. Advogadas, dentistas...", diz o promoter.

Marcela Troiano, filha da apresentadora Claudete Troiano, da TV Gazeta, surge na Disco e abraça Leo. "Ele seleciona. Não são só meninas gostosas de vestido-bandagem. São inteligentes, dá para levar em casa. Não é só ficar, é para acrescentar", diz.

Ela diz que só vai às festas de Leo porque não tem garotas de programa. "Eu tinha amizade com um promoter superlegal, mas ele tá com parceria com uma menina que é 'do esquema'. Como vou a uma festa deles? Vão achar que também sou."

Leo separa "as que dão barraco, as que fazem programa. Essas eu tiro fora, não convido mais. Quer fazer programa, tudo bem. Mas não me coloca no meio".

Ele busca o ex-BBB Cristiano Naya na porta. "O que ele coloca de mulher é incrível, pelo amor de Deus. Festa dele é florida", diz Naya. Leo quis entrar no "BBB". "O Boninho me desaconselhou."

De vestido vermelho, cabelo preto e feições que lhe rendem o apelido de "Gretchen", Suellen Andrade, 26, que participa de um quadro do programa de Ana Hickmann, na TV Record, diz que Leo "corta mesmo" quem faz programa. "Esse negócio de ficha rosa [modelos que se prostituem] não é com ele." Suellen esteve no aniversário de Neymar e também numa reunião "lá em Acapulco, no Guarujá", a casa do craque no Jardim Acapulco. Na festa, diz, "realmente tinha muita maria-chuteira. Fico receosa. Pega mal esse negócio".

"A menina que disse que ficou com o Neymar no barco, o Leo cortou de vez", conta, referindo-se à modelo Carol Abranches, fotografada no já célebre passeio do santista num iate, em novembro. "Acho que foi a amiga de uma amiga de infância dele que a levou", diz Leo.

Mostra o celular, que tem uma foto do passeio como papel de parede. "Pus essas fotos no Face, ela pegou e vendeu para o 'TV Fama'." Carol teria ainda chamado o paparazzo que registrou o passeio. "Excluí ela do Face, do BBM. O Neymar também excluiu."

"Esse cara é um idiota, coitado! Tenho pena", diz Carol, que afirma ter trocado só "duas palavras" com Leo.

Às 2h59, ele deixa a Disco rumo ao clube Royal, onde o cantor Latino faz aniversário. "Tem umas gostosas lá. Levei umas dez, 12", diz, teclando no Blackberry. Ele vai lançar um site onde os internautas poderão localizar mulheres da balada. "Quem é a loira que tava na Disco? Ela vai estar lá, e a gente vai direcionar para o Face ou o Twitter dela. Vou ser o intermediário."

Recebe uma mensagem de Suellen, a "Gretchen", que estava na Disco: "Minha amiga te queeer!". Ele pega o carro e vai para o Itaim, onde pretende encerrar a noite com hambúrguer com cheddar e bacon em uma lanchonete. No caminho, às 4h40, pega Suellen e a amiga, a modelo Luciana Premenkamp, 22, de cabelos castanhos e olhos verdes. Suellen sugere: "Leo, por que você não abre uma casa e enche de modelo para morar com você?".

Suellen, nascida em Franca (SP), e Luciana, natural de Domingos Martins (ES), contam que alguns promoters fazem isso. Mesmo assim, algumas modelos "pulam a cerca e vão às festas de outro promoter". "As pessoas acham que um cara morando com um monte de mulher é o cafetão, e elas são tudo p..., mas não é assim", diz Luciana. Leo encerra o dia de trabalho, perto das 6h, aos beijos com a capixaba.

(DIÓGENES CAMPANHA E MÔNICA BERGAMO)



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Bandidos invadem velório para "matar" defunto que já havia sido assassinado

De fato, o ódio e a depravação total da humanidade não conhecem limites. Tem certas notícias que mais parecem saídas de alguma obra de realismo fantástico da literatura latinoamericana, como essa que chega de Foz do Iguaçu (PR) pela Folha, com vídeo (abaixo da matéria) da afiliada local da Rede Globo:

Bandidos encapuzados invadem velório e atiram contra o morto

LUIZ CARLOS DA CRUZ
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE CASCAVEL (PR)

Quatro homens armados e encapuzados invadiram na madrugada desta quarta-feira o salão de uma igreja onde acontecia o velório de um adolescente de 15 anos e fizeram vários disparos contra o caixão, em Foz do Iguaçu (PR).

Alisson Soares da Silva foi morto a tiros na tarde de terça-feira (7) no bairro Jardim Manaus. A morte ainda está sendo investigada.

O delegado Geraldo Evangelista de Souza Junior disse que os bandidos chegaram atirando, por volta das 4h, e fugiram em dois carros. No momento dos disparos apenas a mãe do menor e uma amiga da família estavam no local. Elas se esconderam em um terreno baldio até a chegada dos policiais.

O corpo do jovem, que havia passado pelo IML (Instituto Médico Legal), na tarde de ontem, retornou ao órgão para um segundo exame de necropsia. Com medo, familiares do jovem decidiram não dar sequência ao velório e vão levar o corpo do IML direto para o cemitério.

Dois inquéritos estão em andamento, um na Delegacia de Homicídios, que busca identificar os autores do assassinato e outro na Delegacia Central de Foz, para investigar o crime de vilipêndio de cadáver.

Segundo a polícia o menor já possuía passagem na Delegacia do Adolescente por ter sido apreendido pilotando uma motocicleta furtada.








segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A morte do jornalista que "enforcou" Jesus

Antes de mais nada, um esclarecimento é necessário já que o tema é pra lá de delicado.

Não há aqui nenhuma intenção de tripudiar sobre a morte de Daniel Piza, colunista do Estadão, aos 41 anos de idade, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) no último dia 30 de dezembro.

Independentemente do que alguém possa pensar sobre suas opiniões religiosas, políticas ou esportivas, áreas sobre as quais ele costumeiramente escrevia, não se pode negar que era um bom articulista, sabia debater e foi um escritor prolífico.

Uma perda lamentável, portanto, para a sociedade brasileira como um todo.

O fato que não pode ser apagado da história, entretanto, até para que as pessoas aprendam com ele, é que Daniel Piza - um garoto ainda - teve a infelicidade de cometer um dos erros mais crassos da história da imprensa brasileira, quando escreveu que Jesus havia sido "enforcado", e não crucificado, num artigo para a Folha de S. Paulo em 06/12/1994, na página 3 do caderno Ilustrada, que inclusive está ilegível no acervo digital que a própria Folha - supostamente - disponibiliza ao público em geral.

A gafe ("barriga", na gíria jornalística) gerou uma errata que se tornou célebre e foi publicada no dia seguinte:
"Diferentemente do que foi publicado no texto 'Artistas 'periféricos' passam despercebidos', à pág. 5-3 da edição de ontem da Ilustrada, Jesus não foi enforcado, mas crucificado, e a frase 'No princípio era o Verbo' está no Novo, não no Velho Testamento." (7.dez.94)
Religião costuma ser um terreno pantanoso para jornalistas novatos, afobados ou distraídos. A Folha, por sinal, tem uma página dedicada aos erros bíblicos que já publicou, tanto o do "enforcamento" acima como outros do tipo "arca de Jó" e não de Noé (para acessá-la, clique aqui).

Isto revela o quanto se escreve diariamente sobre os mais variados assuntos nos jornais e na mídia em geral, sem que o repórter ou articulista conheça um mínimo plausível sobre o assunto que informa ou opina, ou - pior - diz dominar.

A favor dos jornalistas, por outro lado, se deve dizer que líderes e sacerdotes religiosos cometem erros muito mais absurdos, e com consequências muitíssimo mais graves, sobre assuntos que eles têm a obrigação de dominar.

Apesar da "barriga" tê-lo perseguido por toda a sua - infelizmente - curta vida, Daniel Piza não se deixou abater e seguiu adiante, construindo uma respeitável carreira de sucesso e reconhecimento.

Uma história de superação, portanto. Erros acontecem e ninguém está imune a eles, afinal.

Em agosto de 2007, ele voltou ao tema "religião", declarando-se agnóstico e criticando a militância ateísta panfletária da assim chamada "modernidade".

O artigo está no blog dele no Estadão, de onde transcrevemos um trecho, e lá você encontrará o link para a íntegra:

A fé e o tom

Perdi o pouco que tinha ou poderia ter de fé religiosa entre os 13 e 14 anos, depois de um coquetel de leituras que viria a conter Dostoiévski, Darwin, Nietzsche (O Anticristo) e Bertrand Russell (Por Que não Sou Cristão), os dois últimos na coleção Os Pensadores da editora Abril. Mas, na realidade, já desconfiava de tudo aquilo desde quando fui obrigado a fazer primeira comunhão, aos 10 anos, período em que de fato tentei acreditar e rezar e confessar. A chatice e caretice das aulas, a falta de vontade de obedecer aos padres, a sensação de que não fazia sentido pedir perdão por um pecado que a espécie humana teria gravado em sua alma, não apenas por eventualmente ter roubado o chocolate do meu irmão do armário da cozinha – tudo isso era difícil de engolir, como a hóstia que só provei naquela ocasião e nunca mais.

Passei a me declarar agnóstico, como que dizendo “não sei se Deus existe”, o que era a mais pura e dura verdade. Depois aprendi que o termo tinha sido cunhado por outro escritor-biólogo de grande estilo, Thomas Huxley, com intenção muito mais combativa: a de negar qualquer possibilidade de conhecermos fenômenos supernaturais ou místicos. Ao mesmo tempo, ele traçou uma distinção com os ateístas da época, que supunham poder provar a não-existência de Deus ou deuses. Em países como o Brasil, porém, quando alguém declara ser ateu ou agnóstico causa levantar de sobrancelhas ou olhares de esguelha, como se prestes a cometer algum gesto feio ou autodestrutivo. Nos EUA, principalmente em certas regiões, a reação é ainda pior.

De uns anos para cá, talvez por causa dos atentados de 11/9/2001, os ateus e agnósticos decidiram sair do armário. Surgiram movimentos como o dos “brights” (você leu aqui primeiro), que acham importante aglutinar pessoas que não acreditam em entidades superiores, espírito e vida pós-morte. O livro do mais célebre desses “brights”, Richard Dawkins, Deus, um Delírio (Companhia das Letras), acaba de chegar ao Brasil, onde no final do ano passado já tinha sido publicado o do quase tão célebre Daniel C. Dennett, Quebrando o Encanto (Globo). Recentemente li também God Is not Great, de Christopher Hitchens (Twelve), o polemista inglês. Todos têm bons argumentos, mas, devo dizer, nada acrescentam ao que eu já tinha lido e pensado naquele tempo.

O que fica sem destaque nesses livros é a observação de que até mesmo pessoas não-religiosas atribuem sentidos diversos à palavra Deus, como a qualquer palavra genérica e antiga, e de que isso é um direito delas. Para umas, é justamente a aceitação de que não podemos explicar tudo, de que somos pequenos diante dos mistérios e da passagem do tempo, etc. Minha palavra para isso é Natureza. Para outras, Deus é uma crença que ajudaria a fortalecer valores morais, em especial a humildade e a responsabilidade, numa era em que há tanto materialismo e egoísmo. Chamo a isso Ética. E outras defendem a noção como forma de consolo ou esperança, necessária para situações de desespero como a do pai de família bêbado e agressivo que encontra conforto na palavra de Jesus. Meu nome para isso é Ânimo – ou boa vontade, ou bom humor, ou qualquer coisa que designe disposição de continuar vivendo e superar obstáculos.

Mas, se quiserem chamar de Deus, estarei errado ao supor que defendam ou estejam sujeitas a defender um comportamento repressivo e hipócrita, como diz em especial Hitchens, que é mais um panfletário do que um pensador e nem sequer reconhece o papel do imaginário cristão na tradição cultural. Dennett se mostra mais inclinado a investigar por que o cérebro humano precisa de uma dose de ilusão sobre o futuro, mas acha que não existe convívio possível entre ciência e religião, como se a mesma pessoa não pudesse encarar a fé como “encanto” e defender evolução e genética. Dawkins, no prefácio à nova edição de seu best-seller, rebate a crítica – de que a presença da religião na humanidade desde priscas eras é inelutável – dizendo que a aceitaria se dita “num tom que chegasse pelo menos perto do da pena ou da preocupação”.

Aqui está, portanto. A religião me preocupa quando pretende explicar a dinâmica das coisas e estimula dogmatismo e conformismo; só não perco meu tempo sonhando em aboli-la. E, tal como Dawkins, acho que seu problema e o de Dennett e Hitchens é de tom. Há algo tolo em quem critica o fundamentalismo com o mesmo dedo em riste e a mesma pregação exaltada daqueles que acusa.



domingo, 18 de dezembro de 2011

Globo oferece prato de lentilhas a evangélicos e alguns Esaús aceitam

"Business is business", já diria o caipira. Com a audiência em baixa e a ideologia gospel em alta, era só questão de tempo para que a Rede Globo percebesse a mina de ouro que é o mercado "evangélico" no Brasil, antes território cativo da Record do bispo (enquanto a Globo se especializou em produzir novelas espíritas, diga-se de passagem).

Depois de passar décadas ignorando e ridicularizando os evangélicos em suas novelas e minisséries, a Globo resolveu realizar o evento especial de final de ano, intitulado "Promessas", um fracasso de público ao vivo que vai ao ar em videotape na tarde deste domingo, e que certamente fará os seus artistas gospel (da Som Livre) venderem mais discos.

Foi o suficiente para uma leva de evangélicos, Malafaia incluído, achar que o céu desceu na forma de Vênus Platinada, como a Globo sempre foi conhecida. Não deixa de ser (mais) um misticismo pra esse povo seguir.

Como Esaú vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas (Hebreus 12:16), ao primeiro aceno mercadológico da antes Babilônia televisiva, lá estavam na rebarba vários cantores e cantoras, sempre com a desculpa na ponta da língua de que estavam fazendo um "serviço" pra Deus.

Como se Ele precisasse da Globo para que o evangelho seja pregado. Não é surpresa, portanto, que alguns tenham viajado na maionese gospel, dizendo que "Deus tocou o coração da Globo".

Agora, quem diria, além de cozinhar lentilhas na Ana Maria Braga, a Globo também "tem coração"... confira na notícia publicada na Folha de S. Paulo de hoje:

Cantora gospel diz que 'Deus tocou o coração da Globo'

Festival Promessas reuniu público abaixo do esperado no Rio, mas artistas e fiéis o classificam como 'evento histórico'

Rede carioca, que exibe show hoje, montou estrutura com um helicóptero, câmeras de alta definição e gruas

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO

"Este é um evento histórico", dizia o animador de palco, tentando inspirar o pequeno público que aguardava o início do festival Promessas, no sábado passado. "Você vai poder dizer que esteve no primeiro evento evangélico que a Globo organizou!"

No palco como na plateia, a visão de que se tratava de um "evento histórico" estava disseminada entre os fiéis -boa parte vinda de municípios da Baixada Fluminense e de subúrbios distantes do Aterro do Flamengo (onde o festival aconteceu).

O baixo quórum não preocupava: todos apostavam na capacidade da emissora líder de disseminar "a palavra de Deus" para uma audiência abrangente.

"É a concretização de um clamor de muitos anos. Vai marcar a história", disse a pastora e cantora Ludmila Ferber. "É maravilhoso que a Globo tenha abraçado a causa e entendido quão poderosa é a mensagem de Deus."

Fé à parte, o aspecto comercial da empreitada -para a qual a Globo montou uma grande estrutura de divulgação e de transmissão (14 câmeras de alta definição, gruas, helicóptero)- não escapou aos religiosos.

"A Globo era a única emissora que não abria para os evangélicos. Notou que estava ficando para trás", disse Erisvaldo Oliveira, 26, fiel da primeira Igreja Batista da Ponte Preta, de Magé (RJ).

"Ela sabe que vai passar a ter muito mais audiência."

A disputa pelos telespectadores (e pelos ouvintes, já que parte dos artistas tem discos lançados pela Som Livre, gravadora ligada à Globo) era, no entanto, relativizada pelos participantes.

"Eu sei que, a princípio, todo mundo pensa em grana, em 'business'. É claro que isso existe, nós somos de carne e osso, mas acima disso tudo está o propósito de Deus para esta nação", disse o cantor Fernandinho, um dos mais aguardados do festival.

Os evangélicos também celebravam o evento como um ponto de inflexão no tratamento dispensado a eles pela emissora carioca.

"A Bíblia diz que todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Deus é o Senhor", afirmou a enfermeira Janaína Silva, 28, citando um trecho da Carta aos Romanos.

"A Globo fez isso agora porque Deus tocou o coração deles. Era o momento certo, Deus não chega atrasado", disse a cantora Damares.





terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um silêncio ensurdecedor

Desde meados da semana passada, uma parte significativa da população brasileira, pelo menos aquela porção que tem condições de acessar informação não controlada pela mídia ou pelo governo, está estarrecida com o lançamento de um livro pela Geração Editorial, "A Privataria Tucana", do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que expõe os intestinos da era da privatização da telefonia brasileira, no governo FHC, do PSDB, com ênfase nas articulações pouco ortodoxas de José Serra, ex-candidato a Presidente da República em 2002 e 2010, mas também sobra parte da munição para gente do PT, segundo dizem, já que não tive oportunidade de ler ainda o livro, que já está a caminho de casa, segundo a Livraria Saraiva me informou ontem. Entretanto, o livro em si, ao que parece, traz provas irrefutáveis de ligações tucanas no mínimo estranhas com gente que foi (muito) beneficiada pelas privatizações no Brasil. Aliás, não se trata nem de uma discussão se a privatização foi ou não uma boa solução para o Brasil, mas se a sua motivação principal foi a abertura da economia ou o desvio de recursos públicos e a venda de estatais a um grupinho seleto de amigos. Independentemente do que você ache a respeito, ou mesmo da sua posição política a favor ou contra esse ou aquele partido, o que está chamando a atenção nos últimos é o silêncio da grande mídia brasileira a respeito do assunto. Não só da mídia, registre-se, mas também do PT, a quem - em tese - interessaria investigar e execrar seus rivais tucanos diante de uma bomba como essa. Só que os deputados e senadores do PT fingem que nada sabem, e seu comportamento de avestruz revela que o teatro político brasileiro não deve ter nenhum mocinho. Pelo jeito, são todos vilões.

Diante desse quadro de mistura nada ética de políticos de situação e oposição num pacto do algodão no ouvido e do esparadrapo na boca, a imprensa deveria ser a nossa salvação. Só que reina um silêncio mortal nas redações da Globo, SBT, Folha, Abril e Estadão. A lei da mordaça impera nesse lugares, e eles nem se preocupam em desqualificar o livro ou seu autor, talvez porque seja realmente impossível desmontar as provas documentais que ele traz. Este silêncio ensurdecedor, como diz Bob Fernandes no comentário abaixo, feito na pouco vista TV Gazeta de SP, é revelador. Mostra o perigo que TODA a sociedade brasileira está correndo com uma mídia que - ao que tudo indica - deve ter o rabo preso com alguém, ou com algum esquema do qual se favoreceu ou é favorecida, a ponto de se calar sobre o maior fenômeno editorial dos últimos anos, um livro que tem vendido na casa dos milhares ao dia, mesmo que a primeira edição já tenha se esgotado e as próximas reimpressões já estejam dobradas. Mais do que a reputação desse ou daquele político medalhão, ou da própria imprensa, o que está em jogo é a democracia brasileira. Como já dissemos em outra oportunidade aqui no blog, liberdade de imprensa não é sinônimo de liberdade de expressão, e ambas também não se confundem com a liberdade de informação. São três liberdades distintas, e do equilíbrio entre elas depende a saúde democrática de um país. Liberdade de expressão temos todos. Liberdade de imprensa só têm aqueles que conseguem montar um veículo próprio para noticiar o que querem. Liberdade de informação deveríamos ter todos, mas ultimamente só aqueles que vão buscá-la em veículos como a internet é que conseguem alcançá-la. Além do conchavo político por baixo dos panos entre PSDB e PT, o silêncio que reina na imprensa brasileira sugere, pelo menos, que existe algo tão grave por trás dos bastidores das suas redações que jornais, revistas e televisões têm tanto medo de revelá-lo a ponto de arriscarem a sua própria sobrevivência para levar o segredo à cova. Independentemente da sua preferência partidária, você tem TODO o direito de ser corretamente informado. É por essa e outras que o comentário de Bob Fernandes, abaixo, é tanto revelador como assustador:



Abaixo segue a íntegra da entrevista do escritor Amaury Ribeiro Jr., em que fatos e conexões nunca imaginados são revelados:






Abaixo a entrevista do autor Amaury Ribeiro Jr. a Heródoto Barbeiro, no Jornal da Record News:



Abaixo a entrevista do autor a Paulo Henrique Amorim, na Record News:






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