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sábado, 4 de novembro de 2017

Papa canonizou 30 brasileiros mortos pelos holandeses em 1645


Olá, amigos leitores!

Como vocês perceberam, passamos o mês de outubro relembrando alguns textos de Lutero, dentre as milhares (talvez milhões) de páginas de sua vasta obra, pra que pudéssemos ver  e ler um panorama multifacetado do seu pensamento, dentro do que foi possível organizá-lo e selecioná-lo.

Retornamos agora, então, com nossa "programação normal", relembrando um fato que aconteceu alguns dias atrás e que representou, de certa forma, um contraponto católico à celebração do quinto centenário da Reforma Protestante, o que demonstra, ainda que de maneira capciosa, que manobras religiosas são também políticas e ideológicas, é só uma questão de aproveitar a ocasião, manja?

Trata-se da canonização de trinta "santos" brasileiros, martirizados pelos holandeses calvinistas que invadiram a então colônia portuguesa do Brasil no século XVII.

A matéria foi publicada na BBC Brasil em 14 de outubro de 2017:

O massacre holandês há 372 anos que levou o papa Francisco a decretar a santidade de 30 brasileiros

Renata Moura

Uma missa de domingo em uma capela, ameaças em campo aberto às margens de um rio e 150 pessoas brutalmente assassinadas. Dois massacres registrados no Rio Grande do Norte e apontados como símbolos da intolerância religiosa de holandeses que dominavam o Nordeste brasileiro em 1645 renderam ao país, 372 anos depois, 30 novos santos - "os primeiros santos mártires do Brasil".

Os chamados "mártires de Cunhaú e Uruaçú" - nomes de duas localidades da época que hoje correspondem aos muncípios potiguares de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante - foram beatificados no ano 2000 pelo Papa João Paulo II e canonizados neste domingo pelo Papa Francisco.

"Pela exaltação da fé católica e incremento da fé cristã, declaramos e definimos santos os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, Mateus Moreira e seus 27 companheiros leigos", disse o papa.

Na mesma cerimônia, ele canonizou Cristobal, Antonio e Juan, mortos em 1527 e 1529, e considerados os Protomártires do México e de todo o continente americano; o sacerdote espanhol Faustino Míguez, fundador do Instituto Calasanzio, Filhas da Divina da Divina Pastora, e o Frade Menor Capuchinho italiano Angelo d'Acri.

Os 30 novos santos do Brasil são os únicos mortos identificados em dois massacres que deixaram um saldo de aproximadamente 150 vítimas. Por esse motivo, somente eles foram reconhecidos na cerimônia.

O caso é considerado emblemático, entre outros motivos, porque os massacrados teriam "dado a vida, derramado o sangue, na vivência de sua fé", segundo a Igreja.

Em Cunhaú, 70 teriam sido assassinados em 16 de julho de 1645. O episódio é apontado como retaliação holandesa aos que seguiam a fé católica e se recusavam a migrar para o movimento religioso protestante que difundiam, o calvinismo.

O livro "Beato Mateus Moreira e seus companheiros mártires", escrito pelo Monsenhor Francisco de Assis Pereira a partir de pesquisas históricas e dados que embasaram a beatificação, afirma que os holandeses contaram com a ajuda de indígenas para invadir uma capela da região, fechar as portas e matar quem estivesse dentro, em uma manhã de domingo.

Quase três meses depois desse episódio, em 3 de outubro, outras 80 pessoas também viraram alvos em outro cenário: às margens do rio Uruaçú, foram despidas e assassinadas por não terem se convertido ao protestantismo.

Nem crianças foram poupadas do ataque. Uma delas, com dois meses de vida, foi uma das vítimas, junto com uma irmã e o pai.

Também parte desse segundo grupo, o camponês Mateus Moreira acabou virando símbolo do martírio porque, no momento de sua morte, teria bradado: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". A louvação seria uma prova incontestável de sua fé, na visão católica. Ele foi morto ao ter o coração arrancado pelas costas.

A presença da igreja católica no Nordeste já era considerada "marcante" nessa época, como descreve o Monsenhor Pereira, postulador da causa da beatificação dos mártires, no livro. "Havia padres seculares (padres pertencentes a dioceses), numerosos conventos de franciscanos, carmelitas, jesuítas e beneditinos. Eram mais de 40 mil católicos", escreve ele.

Os holandeses aportaram na região em 1630. Eles chegaram nesse período a Pernambuco e assumiram o comando político e militar da área - estendendo o domínio posteriormente a outras capitanias, inclusive à do Rio Grande, como era chamado o Rio Grande do Norte.

Os colonizadores teriam perseguido e assassinado adeptos da religião católica que não aceitaram virar calvinistas. Na mesma época em que, por meio da Inquisição, a Igreja Católica ainda perseguia, julgava e punia acusados de heresia.

Adultos, jovens e crianças: quem são os mártires canonizados

A lista de novos santos inclui um total de 25 homens, entre eles dois padres, e cinco mulheres. Eram 16 adultos, 12 jovens e duas crianças - a mais nova, o bebê de dois meses de idade.

"A identificação dos canonizados não se dá tanto pelos nomes, mas também por identificação de parentesco e de amizade (das vítimas)", ressalta o padre Julio Cesar Souza Cavalcanti, responsável por encaminhar a canonização dos mártires na Arquidiocese de Natal.

A missa solene em que o papa Francisco proclamou a canonização, na Basílica de São Pedro, em Roma, aconteceu às 10h deste domingo, no horário local (5h no Brasil), com a praça completamente lotada.

A professora aposentada Sônia Nogueira, de 60 anos, ficou em Natal, a mais de sete mil quilômetros de distância da cerimônia, mas em vigília e "com o coração cheio de gratidão pelos mártires".

Ela diz que, por intermédio deles, pediu "a graça da cura e da libertação" para o marido, José Robério, que em 2002 começou a enfrentar as consequências de um câncer no cérebro.

Fortes dores de cabeça levaram o militar aposentado, hoje com 68 anos, ao diagnóstico.

O caminho trilhado a partir desse ponto foi marcado por "apreensão", mas também pelo que Sônia resume com letras maiúsculas em um texto: "MILAGRE DA SOBREVIDA!"

A frase foi escrita por ela em um relatório que enviou à Igreja Católica no Rio Grande do Norte, em 2016, para contar a história do marido em meio a exames, tratamentos de saúde, cirurgias e momentos de "fé".

Rezar foi a estratégia fundamental, segundo Nogueira, para que Robério resistisse à doença, que raramente possibilita sobrevida de mais de três anos aos pacientes após diagnóstico. No laudo médico que a professora apresentou para embasar cientificamente o que considera um milagre, o neurocirurgião que acompanhou o caso de Robério o coloca no rol de "exceções da medicina", porque ele sobreviveu.

"Já se vão 15 anos e 5 meses desde que soubemos do tumor", diz Sônia, em entrevista à BBC Brasil. Ela não tem dúvidas: "Foi um milagre. A medicina foi só um complemento".

Comprovação de milagres não foi exigida no processo

Robério e sua mulher estão entre os mais de cinco mil fiéis que já relataram à Arquidiocese de Natal "graças alcançadas" por meio dos "novos santos" do Brasil. Não foram necessários, porém, milagres para fundamentar a canonização.

"O papa Francisco, quando decidiu pela canonização com a dispensa do milagre, colocou como um ponto básico (para a aprovação) a antiguidade do martírio e a perpetuidade da devoção do povo aos mártires", explica o padre Julio.

Por meio do chamado processo de equipolência, o papa reconhece a santidade considerando três requisitos: a prova da constância e da antiguidade do culto aos candidatos a santos, o atestado histórico incontestável de sua fé católica e virtudes e a amplitude de sua devoção.

O mesmo processo, em que milagres foram dispensados, foi adotado para a canonização de São José de Anchieta, outro santo do Brasil.

Para Nogueira e Robério, no Rio Grande do Norte, o milagre que os mártires teriam realizado é, porém, inquestionável. "Robério foi bem aventurado no processo, por intercessão deles", justifica a aposentada. "Como um paciente pode chegar a (sobreviver) 15 anos tomando uma medicação que segura outros por no máximo três?".

Com dificuldades para falar e andar sem apoio, após a segunda e última cirurgia que fez, o marido faz coro: "Estava muito doente e os mártires me levantaram".

"Quem não vai ficar bom tendo um santo dentro de casa?", ele questiona, referindo- se ao fato de os novos santos terem origem no estado em que mora.

A canonização deste domingo eleva para 36 a quantidade de santos considerados nacionais. Até agora, só um deles, Santo Antônio de Sant'Ana Galvão, mais conhecido como Frei Galvão - santificado em 11 de maio de 2007 - é, porém, brasileiro de nascimento. Os outros cinco já oficializados, São Roque Gonzales, Santo Afonso Rodrigues, São João de Castilho, Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus e São José de Anchieta, são estrangeiros, mas desenvolveram missões no país. Eles são reconhecidos por milagres.

Para o padre Júlio, "a grande mensagem com a canonização é de reconhecer que mesmo pensando diferente, seja em qualquer campo, devemos sempre respeitar o outro e jamais destruir alguém, de nenhum modo".



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Papa canonizará 30 brasileiros em outubro


Conforme anunciamos aqui no mês passado, o papa Francisco marcou a canonização de 30 brasileiros para o próximo mês de outubro.

Os 30 brasileiros foram mortos pelos protestantes calvinistas holandeses em 1645, e não escapa ao observador mais atento o fato de que essa canonização coincide com o mês em que se comemora os 500 anos da Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero.

Provavelmente, é uma forma do papa se contrapor à crescente onde conservadora dentro do Vaticano que o critica, enquanto estende a mão para os luteranos numa celebração conjunta da Reforma.

A notícia é da Agência Brasil:

Papa canonizará em outubro os primeiros mártires brasileiros

O papa Francisco canonizará no dia 15 de outubro deste ano, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, os primeiros mártires brasileiros, os sacerdotes André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e o laico Mateus Moreira, além de outras 27 pessoas assassinadas em 1645.

O anúncio foi realizado hoje (20), durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

Para que sejam canonizados, eles não necessitaram nenhum milagre, apenas o parecer positivo dos membros da Congregação para as Causas dos Santos, que reiterou o assassinato por "ódio à fé".

Eles são os primeiros mártires e santos brasileiros assassinados entre os dias 16 de julho e 3 de outubro de 1645 pelos protestantes calvinistas holandeses instalados em Brasil naquela época.

Muitos foram assassinados em Cunhaú e Uruacu, no Rio Grande do Norte, durante uma missa dominical celebrada por André de Soveral. Eles tinham sido beatificados pelo papa João Paulo II em março de 2000, na Basílica de São Pedro.

Os mártires brasileiros serão canonizados em uma cerimônia ao lado de dois meninos mexicanos conhecidos como Mártires de Tlaxcala; o espanhol Faustino Miguez, fundador do Instituto Calasancio Filhas da Divina Pastora e o sacerdote franciscano italiano Luca Antonio Falcone.

Papa canonizará crianças que viram aparição da Virgem Maria

O papa canonizará no próximo dia 13 de maio, durante sua viagem a Portugal, Francisco e Jacinta Marto, os irmãos pastores que, segundo a Igreja católica, presenciaram, ao lado da prima Lúcia, a aparição da Virgem Maria.

O anúncio foi realizado hoje, durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

No dia 23 de março, o pontífice tinha aprovado os decretos para canonizar as duas crianças, de 9 e 10 anos, que morreram pouco depois das aparições, entre maio e outubro de 1917, e que serão as primeiras crianças não mártires declaradas santos.

Francisco viajará para Fátima onde participará dos atos em comemoração do centenário das aparições, nos próximos dias 12 e 13 de maio. A cerimônia de canonização será no sábado (13), quando está prevista uma missa multitudinária na esplanada do santuário mariano.

O milagre pela intercessão dos irmãos que pode decretar a canonização, segundo as normas católicas, é o da suposta cura de uma criança brasileira.

Francisco (1908-1919) e Jacinta Marto (1910-1920), que junto com sua prima Lúcia, que se tornou freira e a única que sobreviveu, presenciaram as aparições na Cova da Iria e foram beatificados no dia 13 de maio de 2000, por João Paulo II, em Fátima.

As três crianças portuguesas garantiram que testemunharam as aparições da Virgem, e quem revelou a elas os chamados três Segredos de Fátima, relatados por Lúcia, que morreu em 2005, para quem também foi aberto um processo de beatificação.

O papa Francisco chegará ao Santuário de Fátima na sexta-feira, dia 12 de maio, e, na base aérea de Monte Real, terá um encontro privado com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.

No dia seguinte, visitará a Basílica de Nossa Senhora do Rosário e celebrará uma missa na esplanada do santuário e onde canonizará as duas crianças. Francisco será o quarto pontífice que visitará Portugal, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).

Edição: Kleber Sampaio



sábado, 25 de março de 2017

Papa argentino fará 30 brasileiros se tornarem santos católicos


Sim, é isso mesmo o que você leu, numa só penada papal 30 brasileiros serão canonizados, ou seja, elevados aos altares para veneração católica, segundo informa o Estadão.

Depois dessa, pelo menos os católicos brasileiros (sobretudo os pernambucanos e potiguares) nunca mais permitirão que alguém fale mal de argentinos perto deles.

Para não perder a paródia futebolística, que envolve o bispo de Roma, os vilões da história são um punhado de holandeses e um alemão, protestantes e calvinistas, como (não) pedia a ocasião.

No fundo, a gente faz essas pequenas brincadeiras apenas para tentar atenuar um pouco (o que é impossível) o horror dos fatos ocorridos no século XVII, em nome da religião, durante as invasões holandesas do território (então português) hoje conhecido como Brasil.

Eis a matéria:

Brasil terá mais 30 santos católicos

Papa Francisco aprova canonização de beatos assassinados em 1645 em duas igrejas do Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa

José Maria Mayrink

O papa Francisco aprovou nesta quinta-feira, 23, a canonização de 30 beatos brasileiros que foram massacrados em 1645 nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa do Nordeste, por se negarem a abjurar da fé católica e aderir ao calvinismo, religião dos invasores. Os futuros santos serão André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos, Mateus Moreira e outros 27 companheiros leigos.

“Ficamos muito felizes, pois esta canonização é uma grande bênção para a Igreja e com certeza vai reavivar a fé e a devoção dos fiéis”, disse o arcebispo de Natal, d. Jaime Vieira Rocha, após receber a notícia da aprovação do papa. Os 30 brasileiros foram beatificados em março de 2000 por João Paulo II. O cardeal d. Cláudio Hummes, que foi arcebispo de Fortaleza, ajudou a levar adiante a causa dos mártires e, no ano passado, confidenciou a d. Jaime que Francisco estava interessado na canonização.

Foram dois massacres coletivos: o primeiro em 15 de julho, em Cunhaú, atualmente município de Canguretama, e o segundo em 3 de outubro, em Uruaçu, hoje município de São Gonçalo do Amarante. Segundo relatos da época, mais de 70 pessoas foram assassinadas, mas a Congregação para as Causas dos Santos reconhece apenas o martírio daqueles cujos nomes são conhecidos. Na cerimônia de beatificação, João Paulo II chamou os novos beatos de protomártires e disse que eles eram exemplos e defensores da fé cristã.

Os massacres foram executados por índios tapuias e soldados holandeses, sob comando de Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas. As vítimas foram mortas em um domingo, durante a missa celebrada pelo padre Ambrósio Ferro. Após a consagração da hóstia e do vinho, a tropa holandesa trancou as portas da igreja e, após um sinal de Rabbi, os índios chacinaram os fiéis.

Com a notícia das atrocidades em Cunhaú, o medo se espalhou pelo Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. Com razão. Outra vez sob as ordens de Jacob Rabbi, um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais o padre André de Soveral, foi massacrado. Além dos padres André de Sandoval e Ambrósio Ferro, foram mortos os leigos Mateus Moreira e seus 27 companheiros que serão transformados em santos. O camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Emissários do governo holandês enviados para investigar os massacres constataram a prática de violência, atrocidade e crueldade. Cronistas da época relatam que em Uruçu a crueldade foi maior. Os índios e a tropa holandesa fecharam as portas da igreja e mataram os católicos ferozmente. Arrancaram línguas, deceparam braços e pernas, cortaram crianças ao meio e degolaram corpos. A história dos massacres foi pesquisada na Torre do Tombo, em Portugal, e no Museu de Ajax, na Holanda. Segundo documentos levantados, os holandeses ofereceram aos católicos a opção de salvar a vida, se eles se convertessem ao calvinismo.

Data. D. Jaime pensou na hipótese de a canonização ser em outubro deste ano, se Francisco viesse ao Brasil por ocasião da comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como não virá, a cerimônia deverá ser celebrada no Vaticano, em data a ser marcada. Milhares de devotos celebram a memória dos mártires nos meses de julho e de outubro. Há celebrações frequentes também nas quatro paróquias dedicadas aos beatos no Rio Grande do Norte.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A incrível história do rapaz gay ex-muçulmano, hoje cristão, que mudou seu nome para João Calvino


John Calvin, atual nome do rapaz da foto acima, tem origem palestina, nascido numa família muçulmana de sobrenome Bilal e ligada ao Hamas. 

Homossexual desde que se entende por gente (segundo ele diz), se converteu ao cristianismo em 2010, o que lhe causou ser ameaçado de morte pelo pai e expulso de casa.

Hoje John Calvin busca refúgio no Canadá, que lhe foi negado (por enquanto).

Essa incrível história de vida é real e foi publicada na Folha de S. Paulo de 07/01/2015:

Minha História: gay e cristão, jovem foge de família ligada ao Hamas

DEPOIMENTO A
DIOGO BERCITO
EM ROMA

RESUMO
John Calvin, 24, nasceu na cidade palestina de Nablus em uma família de líderes do Hamas. Gay e cristão convertido, enfrentou desde jovem a autoridade de seus pais. Em 2010, fugiu para o Canadá, onde adotou o nome do teólogo cristão João Calvino. Hoje, ele luta para não ser deportado –o que, segundo ele, significaria a sua morte.

Venho de uma família influente em Nablus (Cisjordânia). Meu avô, Said Bilal, foi um dos fundadores da Irmandade Muçulmana na Palestina e na Jordânia. Cresci chamando Abd al-Fattah Dukhan, um dos fundadores do Hamas, de "avô".

Todos os meus tios são parte da liderança do Hamas. Dois deles estão na prisão, sentenciados a mais de uma vida detidos. Meu pai não esteve tão envolvido quanto eles no terrorismo.

Crescer foi horrível. Minha família sempre tinha alguém na cadeia, fazendo coisas ruins. Não temos uma refeição de família com todos em liberdade desde 1992. Soldados entravam e saíam o tempo todo das nossas casas.

Havia uma vantagem, que era ser tratado de maneira especial devido ao sobrenome do meu avô. Sou o primogênito da família, e havia grandes expectativas sobre mim.

Estudei doutrina islâmica e acumulei bastante conhecimento sobre o Alcorão, o livro sagrado do islã. Mas, aos 14 anos, desenvolvi meu próprio sentido de lógica, e as coisas pareciam contraditórias. Questionei minha família e, aos 16, parei de ser muçulmano. Vivia num limbo.

Foi uma grande decepção para a minha família. Briguei com o meu pai por isso, em 2006, e fugi para Israel, onde ele não poderia me encontrar.

Eu não tinha permissão para cruzar a fronteira. Fiquei uma semana em Tel Aviv, nas ruas, até me pegarem.

Como já tinham me detido três vezes, me mantiveram por alguns meses, mesmo sendo menor de idade.

Fiquei alguns meses detido em uma prisão especial. Havia um outro jovem de Nablus, e ele me estuprou.

AJUDA


A coisa que me surpreendeu foi como fui tratado pelos funcionários israelenses após ser estuprado. Parecia que todo mundo se dedicava a me ajudar. Contrataram um psiquiatra, pago pelo contribuinte israelense. Eles mostraram compaixão.

"Judeus dedicam a vida toda a destruir muçulmanos", me ensinaram. Eu vi que isso não era verdade.

Em Nablus, ninguém me ajudava. Eu não tinha amigos. Os funcionários do serviço social de Israel me ligavam discretamente.

Tentaram falar com minha mãe sobre o estupro, mas ela não quis ouvi-los. Preferiu fingir que não sabia falar inglês com eles.

Me converti ao cristianismo em 2010. Eu já não me considerava muçulmano desde os 16 anos. Li a Bíblia e fez mais sentido do que tudo o que eu tinha conhecido durante toda a minha vida.

Minha mãe me ouviu ao telefone pedindo a um padre para ser batizado. Meu pai brigou comigo. Foi a primeira vez em que ele tentou me matar. Ele tentou me esfaquear. Fugi e passei um tempo na igreja.

Fui detido por apostasia [quando alguém renuncia a uma religião] –em Nablus, eles chamaram isso de "perturbar a ordem", em termos oficiais.

Quando fui solto, minha mãe me disse que meu pai planejava me matar. Ela pediu para eu sair do país. Tive duas horas para fugir.

Graças a Deus, não tive problemas na fronteira, apesar de meu nome estar numa lista de pessoas procuradas. Havia um erro de digitação no passaporte.

REFÚGIO


Era 2010. Fui à Jordânia e, depois, recebi uma bolsa de estudos no Canadá. Pedi asilo, mas o governo canadense diz que não posso entrar com o pedido, porque fui membro de uma organização terrorista [o Hamas].

Eu disse, por outro lado, que meu envolvimento com a minha família não pode ser considerado como participar de um grupo terrorista.

Agora no Ano-Novo, me avisaram que tenho até 30 dias para pedir a revisão dessa decisão.

Um amigo começou uma petição on-line e uma arrecadação de fundos para pagar os custos legais e advogado. Não quero ir para outro lugar. O Canadá é o meu lar.

Ser deportado não é uma opção. Isso não pode acontecer. Mas estou otimista. O melhor cenário é conseguir um segundo julgamento. Voltar a Nablus significaria a morte, para mim, por apostasia e porque eu sou gay.

Eu sempre soube que era homossexual, mas não aceitava. Tinha necessidades e interações sexuais, por volta dos 15 anos, mas não tinha namorados. Só comecei a aceitar em 2012, no Canadá.

Não é possível ser gay em Nablus. Isso não é nem discutido. Só usamos essa palavra em xingamentos.

Quando contei à minha mãe, por telefone, ela me disse: "Eu não esperava que você pudesse me dar um desgosto pior do que ter se convertido. Há alguma coisa de ruim que você não é?"



sábado, 15 de novembro de 2014

A estranha relação entre livre-arbítrio e vontade de fazer xixi

A matéria esquisita foi publicada no Brasil Post:

Estudo indica relação entre vontade de urinar e descrença no livre arbítrio

Ione Aguiar

Spinoza, Hobbes, Lutero, Santo Agostinho, Schopenhauer: todos eles já perderam noites de sono pensando no livre arbítrio.

Para este último, por exemplo, o ser humano tem apenas a ilusão de liberdade, mas é escravo de suas vontades e necessidades.

Um estudo publicado na revista Consciousness and Cognition coloca mais uma pitada de sal na discussão. De acordo com a pesquisa, quanto mais as pessoas sentem vontade de fazer xixi, menos elas acreditam no livre-arbítrio.

Parece que não faz sentido, mas o raciocínio é o seguinte: como observou este artigo da Scientific American, quando passamos por experiências físicas que nos lembram das leis da natureza, deixamos de acreditar que controlamos nosso destino.

A pesquisa faz parte de uma controversa corrente de estudos cognitivos que investiga como nossos estados corporais afetam nossa mente. É a chamada teoria da cognição corporificada, que sugere, por exemplo, que sorrir nos faz mais felizes, ou que nosso senso de julgamento é afetado pela temperatura ambiente.

Como funcionou a pesquisa?

Os pesquisadores submeteram os 193 participantes a um questionário amplo, envolvendo seus desejos, suas crenças e inclusive as vontades que sentiam enquanto respondiam às perguntas.

Os pesquisadores observaram uma tendência clara: pessoas que declaravam estar com vontade de dormir, comer, urinar, fazer sexo e outros desejos corporais acreditavam menos na liberdade de escolha.

A única exceção foram os participantes que estavam de dieta. Nesse caso, a sensação de fome foi associada à sensação de liberdade de escolha.

Conclusão: está cheio de caraminholas na cabeça? Faça xixi...



terça-feira, 1 de julho de 2014

Novas pesquisas reforçam ideia de que o livre-arbítrio não existe

Livre-arbítrio? Como diria o padre Quevedo, "isso non ecziste"...

Ainda não se sabe se os pesquisadores são calvinistas (risos), mas a matéria pra lá de interessante foi originalmente publicada no The Independent e reforça as conclusões de outras pesquisas de 2008 que já foram divulgadas no Brasil pela Superinteressante:

O jornal britânico The Independent, por sua vez, publicou no último sábado, 21 de junho de 2014, a informação de que cientistas da Universidade da California, em Davis, concluíram que as decisões que as pessoas tomam corriqueiramente podem ser preditas com base em certos padrões de atividade cerebral.

Desta maneira, o conceito de livre-arbítrio deveria deixar a esfera filosófica (e teológica) e se reduzir a uma espécie de "barulho de fundo" do cérebro.

Não é nova a ideia de que o livre-arbítrio é uma ilusão, conforme você poderá ver pela matéria da Superinteressante (de 2008) mais abaixo, mas o Centro de Mente e Cérebro da Universidade da California decidiu aprofundar o trabalho nessa área.

O resultado da pesquisa foi publicado no Journal of Cognitive Neuroscience ("Jornal de Neurociência Cognitiva") e o experimento consistiu em fazer com que voluntários se sentassem na frente de uma tela de computador, com sensores eletroencelafográficos devidamente acoplados, para observar um sinal gráfico que - aleatoriamente - os impelia a decidir entre a direita ou esquerda, conforme você pode ver no vídeo abaixo:


A conclusão da pesquisa é que o cérebro tem uma espécie de ruído neural de fundo, com base no qual seria possível prever as decisões que os voluntários tomariam antes que eles tivessem consciência disso.

Os cientistas alertam, entretanto, que a, digamos, "batucada de retaguarda" do cérebro não deve ser considerada isoladamente, mas em conjunto com os mecanismos de metas, desejos e causalidade que compõem o método até agora tido como "natural" de tomada de decisões por parte dos seres humanos.

A matéria da Superinteressante de 2008, relatando experiência feita por outra equipe e com método diferente, é a seguinte:




O livre-arbítrio não existe

A ciência comprova: você é escravo do seu cérebro

Você se interessou pelo tema desta reportagem e, por isso, resolveu dar uma lida. Certo? Errado! Muito antes de você tomar essa decisão, a sua mente já havia resolvido tudo sozinha – e sem lhe avisar. Uma experiência feita no Centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim, colocou em xeque o que costumamos chamar de livre-arbítrio: a capacidade que o homem tem de tomar decisões por conta própria.

As escolhas que fazemos na vida são mesmo nossas. Mas não são conscientes. Voluntários foram colocados em frente a uma tela na qual era exibida uma seqüência aleatória de letras. Eles deveriam escolher uma letra e apertar um botão quando ela aparecesse.

Simples, não? Acontece que, monitorando o cérebro dos voluntários via ressonância magnética, os cientistas chegaram a uma descoberta impressionante. Dez segundos antes de os voluntários resolverem apertar o botão, sinais elétricos correspondentes a essa decisão apareciam nos córtices frontopolar e medial, as regiões do cérebro que controlam a tomada de decisões.

“Nos casos em que as pessoas podem tomar decisões em seu próprio ritmo e tempo, o cérebro parece decidir antes da consciência”, afirma o cientista John Dylan-Haynes. Isso porque a consciência é apenas uma “parte” do cérebro – e, como a experiência provou, outros processos cerebrais que tomam decisões antes dela.

Agora os cientistas querem aumentar a complexidade do teste, para saber se, em situações mais complexas, o cérebro também manda nas pessoas. “Não se sabe em que grau isso se mantém para todos os tipos de escolha e de ação”, diz Haynes. “Ainda temos muito mais pesquisas para fazer.” Se o cérebro deles deixar, é claro.

A pessoa decide

O voluntário precisa tomar uma decisão bem simples: escolher uma letra. Enquanto ele faz isso, seu cérebro é monitorado pelos cientistas
1. Observa a tela...
O voluntário olha para uma seqüência de letras, que vai passando em ordem aleatória numa tela e muda a cada meio segundo.
2. Escolhe uma letra...
Na mesa, existem dois botões: um do lado esquerdo e outro do lado direito. O voluntário deve escolher uma letra – e, quando ela passar na tela, apertar um desses dois botões.
3. E aperta o botão.
Pronto. A experiência terminou. O voluntário diz aos pesquisadores qual foi a letra que escolheu e em que momento tomou a decisão.

Mas o cérebro já resolveu

Bem antes de a pessoa apertar o botão, ele toma as decisões sozinho
10 segundos antes
Os córtices medial e frontopolar, que controlam a tomada de decisões, já estão acesos – isso indica que o cérebro está escolhendo a letra.
5 segundos antes
Os córtices motores, que controlam os movimentos do corpo, estão ativos. Olhando a atividade deles, é possível prever se a pessoa vai apertar o botão direito ou o esquerdo.

E já é possível prever pensamentos

Além de provar que o livre-arbítrio não existe, a neurociência acaba de fazer outro enorme avanço: pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, construíram um computador capaz de ler pensamentos. Ou quase isso.

Cada voluntário recebeu uma lista de palavras sobre as quais deveria pensar. Enquanto ele fazia isso, um computador analisava sua atividade cerebral (por meio de um aparelho de ressonância magnética). O software aprendeu a associar os termos aos padrões de atividade cerebral – e, depois de algum tempo, conseguia adivinhar em quais palavras as pessoas estavam pensando.

O sistema ainda tem uma grande limitação – ele só consegue ler a mente de uma pessoa se ela estiver totalmente concentrada. O que nem sempre é fácil. “Às vezes, no meio da experiência, o estômago de um voluntário roncava, ele pensava ‘estou com fome’”, e isso embaralhava o computador, conta o cientista americano Tom Mitchell, responsável pelo estudo.



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Livro grátis do dia para kindle - 5


A dica de livro grátis para o e-reader kindle da Amazon brasileira é "John Calvin: A Heart for Devotion, Doctrine and Doxology" ("João Calvino: Um Coração para Devoção, Doutrina e Doxologia").

A obra é uma seleção de artigos (com 246 páginas) sobre o reformador de Genebra, sua teologia e sua influência no cristianismo, organizada por Burk Parsons, com a participação dele próprio e de nomes bastante conhecidos no meio protestante americano como Jay E. Adams, John MacArthur e Michael Horton, entre outros.

Alertamos que o "presente" vale para hoje, 1º de outubro de 2013, e que não temos qualquer vínculo comercial ou financeiro com a Amazon.com, razão pela qual não sabemos por quantos dias o e-book continuará grátis.

O livro, escrito em inglês e adequado para quem possui um kindle, pode ser baixado gratuitamente clicando-se aqui.



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aqueles calvinistas beberrões do Recife

Artigo publicado na Revista de História:

Bebem, sim, e vão conquistando

Na tomada de Pernambuco, holandeses se embriagaram o quanto puderam, para espanto e reprovação dos luso-brasileiros

João Azevedo Fernandes

O Recife dos holandeses era “um burgo de beberrões. Pessoas da melhor posição social eram encontradas bêbadas pelas ruas. Os próprios observadores holandeses da época se espantavam do contraste entre sua gente e a luso-brasileira”, como relatou o escritor Gilberto Freyre. E essa característica própria dos invasores poderia ser vista desde o início da conquista de Pernambuco.

Ao subirem as íngremes ladeiras da vila de Olinda, os soldados da poderosa Companhia das Índias Ocidentais (Westindische Compagnie, ou WIC) estavam bem cansados. Além da longa travessia do oceano, eles haviam marchado mais de seis quilômetros pela praia, sob um sol escaldante e travando combates com uma resistência que se esvaía conforme se aproximavam da orgulhosa capital de Pernambuco.

Apesar das dificuldades, o ataque foi um total sucesso. Os poucos portugueses e habitantes da terra que não haviam fugido foram dominados, e às 4 horas da tarde de 16 de fevereiro de 1630, a bandeira holandesa estava erguida na parte mais alta da vila. Imediatamente, os soldados livraram-se da disciplina militar e trataram de saquear o que pudessem. As igrejas foram despojadas de suas riquezas e as casas dos grandes senhores olindenses invadidas. Dos vários produtos encontrados nas casas e armazéns, um em especial agradou em cheio ao gosto dos recém-chegados: o vinho, disponível em grande quantidade.

Durante três dias, soldados e oficiais se embriagaram à farta, afogando as agruras da viagem e dos combates. Protestantes em sua maioria, usavam os cálices sagrados como copos e os panos das igrejas como “capas” — com as quais imitavam e zombavam de portugueses e espanhóis, caindo de bêbados pelas ruas, dando rebates falsos de ataque, “como brutos irracionais”, no dizer de um relato da época. Posteriormente, tanto holandeses quanto portugueses afirmaram que, se os alcoolizados invasores tivessem sofrido um contra-ataque, acabariam expulsos da vila por sua absoluta falta de condições para reagir.

O que aconteceu naqueles dias não foi um fato isolado. Durante todo o período holandês no Brasil (1630-1654), os luso-brasileiros e os invasores travaram uma verdadeira batalha de culturas, para além das ações militares. O estranhamento entre conquistadores e conquistados começava pela religião e estendia-se para a própria definição do viver em sociedade, refletida nas práticas cotidianas — que incluíam os costumes etílicos dos holandeses, totalmente inusitados para os homens da terra.

Essa distância entre as práticas etílicas tinha origens milenares, separando duas áreas culturais desde os tempos de gregos e romanos. De um lado, os povos mediterrâneos, bebedores de vinho, que associavam a bebida aos alimentos e tendiam a valorizar a temperança e a moderação no beber. De outro lado, os povos do norte da Europa, herdeiros das culturas célticas e germânicas, bebedores de cerveja, que valorizavam a embriaguez como um ato nobre e próprio dos grandes heróis, como Beowulf, e deuses, como Thor e Odin. Não é por acaso que esses povos foram os primeiros a popularizar o uso de novas bebidas destiladas, como o conhaque e o gim, a partir de fins da Idade Média.

Os holandeses eram vistos como grandes concorrentes ao título de maiores bebedores da Europa. William Temple, embaixador inglês em Haia na segunda metade do século XVII, dizia que a bebida era indispensável àquele povo, para que o espírito pudesse ser despertado sob um “clima tão pesado”, e que as condições climáticas impediam que os efeitos da bebida fossem mais “calamitosos”. Para Temple, não existia holandês que não houvesse se embebedado pelo menos uma vez na vida, pois sua existência austera só conhecia uma alegria e um luxo: o álcool.

O ato de se reunir em banquetes, onde se bebia muito e bem, era parte integrante da identidade holandesa, construída em sua luta de independência: a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648) contra os espanhóis, inimigos mortais do calvinismo e do modo de vida dos holandeses. Pintores como Jan Steen e Pieter de Hooch exibiam ricos mercadores e gente do povo divertindo-se em suntuosas salas de jantar e tabernas, misturando homens e mulheres que bebiam e se embriagavam. As bebedeiras eram tão típicas do “ser holandês” que o hábito comum de “animar” (com álcool) os soldados antes dos combates era chamado de dutch courage, “coragem holandesa”.

Ao conquistarem Pernambuco, a região açucareira mais rica do mundo, os holandeses trouxeram seu modo de vida para o Recife, urbanizado pelo conde Maurício de Nassau (1604-1679). Por mais que os naturais da terra devotassem simpatia a esse notável estadista, eles jamais deixaram de considerar os conquistadores como um povo herege, sem rei, governado por comerciantes sovinas, que dava excessiva liberdade às mulheres e que, para completar, se entregava de forma entusiasmada e descontrolada à bebida.

Os holandeses, por sua vez, afirmavam que, na raiz desta apartação cultural, estava a moderação e mesmo a abstinência de muitos luso-brasileiros. Relatórios holandeses observavam que “a bebida dos portugueses é principalmente água da fonte, que é muito boa e agradável”, ressaltando especialmente a abstinência feminina: “poucas são as que bebem vinho, e há muitas que em sua vida nunca provaram dele”.

Alguns funcionários da Companhia procuraram apresentar os costumes portugueses como um ideal a ser seguido por aqueles que desejassem prosperar no Brasil. Enquanto os luso-brasileiros viviam “de água, farinha, um pouco de bacalhau ou qualquer comida vulgar, de modo que em alguns engenhos não há vinho por muito tempo”, os neerlandeses não se contentavam “com tomar à mesa um trago de cerveja ou de vinho”, mas também se reuniam com os amigos, fazendo muitas despesas.

Entre os holandeses que tentavam coibir os costumes etílicos estavam os pregadores calvinistas. Dedicados à missão catequizadora, eles lamentavam o pendor dos índios para a embriaguez: quando bebiam, dizia um pregador, “passavam os dias e as noites pulando e cantarolando”, vício do qual nasciam “brigas e outros maus costumes”. Os religiosos chegaram a pedir para o Conselho dos XIX — responsável pela WIC em Amsterdã — que enviasse ao Brasil apenas “pessoas honradas para servir de mestres-escolas, não sendo pessoas inclinadas a bebidas já que os índios são muito chegados a este vício”. Mas essa preocupação estava longe de ser majoritária: o próprio Supremo Conselho do Recife costumava enviar “presentes de aguardente” aos índios. Em 1644, os holandeses desistiram oficialmente de seu ensaio de catequização.

Recepções, banquetes e jogos etílicos permaneceram no cotidiano dos conquistadores, tal como faziam na Holanda. O frade português Manuel Calado (1584-1654) — formalmente prisioneiro, mas íntimo de Nassau a ponto de frequentar sua casa e seus banquetes — dizia que a bebedeira era o “ordinário costume” dos holandeses. O que mais lhe chocava era a facilidade com que os homens, e ainda mais as mulheres, esvaziavam garrafas e copos.

O papel das mulheres nos “beberetes” era um dos principais motivos da repulsa luso-brasileira àqueles estranhos costumes, o que revela uma diferença marcante no papel social exercido por elas nas duas sociedades. Enquanto que nos Países Baixos as mulheres tinham ativa presença no mundo extra-doméstico, participando de festas de rua, indo às tavernas e recebendo convidados em casa, as portuguesas eram bastante segregadas e colocadas à parte dos assuntos públicos.

Quando o conde Maurício de Nassau convidou algumas mulheres luso-brasileiras para banquetear com ele, recebeu, segundo o frade Calado, a pronta resposta de que “não era uso, nem costume entre os portugueses comerem as mulheres, senão com seus maridos, e ainda com estes era quando não havia hóspedes em casa (...) porque nestes casos não se vinham assentar à mesa”. Essa postura era totalmente contrária à das estrangeiras do Recife. Nos banquetes que o conde ofereceu em homenagem à aclamação de D. João IV, em 1640, “as mais lindas damas que em Pernambuco havia”, holandesas, inglesas e francesas, bebiam alegremente, tanto ou mais do que os homens, dizendo que esse era “o costume de suas terras”.

Outra cerimônia presenciada pelo frade português, que também revela o abismo cultural entre conquistadores e conquistados, foi o funeral do irmão de Maurício de Nassau, conde João Ernesto, que morreu no mar e foi enterrado no Recife. Calado ficou impressionado com a gravidade da “diabólica cerimônia”, na qual “não havia música, nem preces, nem lágrimas”, mas o que o estarreceu de fato foi a enorme quantidade de alimentos e bebidas disponíveis aos convidados, algo típico nos funerais holandeses na Europa. Entre inúmeros brindes e discursos, foram esvaziados muitos frascos de vinho espanhol e francês, cerveja e aguardente, com as consequências previsíveis — “e estes eram os Pater Noster [Pai Nosso], e responsos, que rezavam pelo defunto”.

“Era o costume de suas terras”. Essas palavras, repetidas muitas vezes por Manuel Calado, eram um verdadeiro emblema da segregação auto-imposta pelos luso-brasileiros com relação aos invasores. Vivia-se uma luta entre dois mundos irremediavelmente separados, pela religião certamente, mas também pelas diferenças sobre o que fazer ao redor de uma mesa. E sobre o que fazer com uma garrafa.

João Azevedo Fernandesé professor da Universidade Federal da Paraíba e autor de “A contenção e o excesso: Bebida, embriaguez e identidades étnicas no Brasil Holandês (1630-1654)”, em Actas do Congresso Internacional Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades (Lisboa, 2005, disponível em bit.ly/QFtL2M).

Saiba mais - Bibliografia

CALADO, Frei Manoel. O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade. Recife: CEPE, 2004.
MELLO, Evaldo Cabral de (org.). O Brasil Holandês.São Paulo: Penguin Classics, 2010.
SCHAMA, Simon. O desconforto da riqueza: a cultura holandesa na Época de Ouro, uma interpretação. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.



domingo, 5 de maio de 2013

Francisco, o papa protestante?

Artigo interessante publicado no IHU:

O ''protestantismo'' do Papa Francisco

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre a questão dos ateus, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

A opinião é de Bill Tammeus, elder presbiteriano e ex-colunista religioso do jornal The Kansas City Star, pelo qual recebeu diversos prêmios. É autor do blog Faith Matters e colunista mensal da revista The Presbyterian Outlook. Seu livro mais recente, em coautoria com o rabino Jacques Cukierkorn, é They Were Just People: Stories of Rescue in Poland During the Holocaust.

O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu costumo dizer às pessoas que, se você se perder na teologia da Tradição Reformada (leia-se presbiteriana), você sempre pode voltar à estaca zero, que diz, em essência, isto: Deus é soberano.

Ou – em estilo, eu prefiro esta outra, porque a maioria de nós não tem nenhuma experiência de vida sob um soberano – Deus é gloriosamente livre.

Eu pensei sobre isso outro dia, quando eu li algo que o Papa Francisco disse em um livro do qual ele foi coautor em 2010, como cardeal Jorge Mario Bergoglio. Falando sobre como ele conversaria com um ateu, Bergoglio escreveu: "Eu não lhe diria que a sua vida está condenada, porque estou convencido de que não tenho o direito de fazer um juízo sobre a honestidade dessa pessoa".

Essa, amigos, é a teologia da Tradição Reformada. Cabe a Deus determinar quem terá a vida eterna. Não cabe a nós. Mesmo que você recorra aos conceitos difíceis de seguir do fundador da Tradição Reformada, João Calvino, sobre predestinação (sem falar da dupla predestinação), você descobrirá que nenhum ser humano pode saber ao certo quem está salvo e quem está condenado.

Esse ponto, uma vez, levou minha amiga Kathleen Norris a escrever isto no seu livro Amazing Grace: A Vocabulary of Faith: "Surpreende-me que só um advogado francês poderia chegar a uma justificação tão complexa, senão bizarra, para tratar todas as pessoas como se elas pudessem estar entre os eleitos, os escolhidos de Deus".

Ela está certa. Mesmo que você compre a ideia do esquema calvinista "alguns se salvam, alguns são condenados e não há a nada que você possa fazer a respeito", você não sabe quem é quem, por isso você precisa ser bom para com todos, na teoria de que você pode passar a eternidade com essa pessoa.

E isso é quase a mesma coisa que Bergoglio está dizendo em Sobre o Céu e a Terra, coescrito com o rabino Abraham Skorka.

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre esse assunto, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

Mas, no dia seguinte que eu li as palavras do papa, eu descobri que alguém tinha sido mais rápido do que eu nessa conclusão. O escritor Jonathan Merritt fez essa pergunta sobre o Papa Francisco no seu artigo do site Religion News Service: "A crescente popularidade (de Francisco) entre os não católicos pode torná-lo o primeiro papa protestante?".

Merritt acrescentou: "A combinação da preocupação do novo papa com as questões de justiça e a sua teologia conservadora parecem ser atraentes para muitos daqueles protestantes socialmente conscientes" (eu gosto do que Merritt disse, embora eu não fique feliz que ele tenha posto por escrito antes de mim a ideia de que Francisco pode ser o primeiro papa protestante. Mas deixe estar).

Aqueles de nós que fazem parte das principais Igrejas protestantes (presbiterianos, metodistas, luteranos etc.) têm sido exaustivos no que se refere às preocupações de justiça social e superficiais no que se refere ao respeito pelas estruturas de governo hierárquicas e rituais extravagantes.

Nós pagamos um preço por causa dessa ênfase, mas é um preço que nós temos estado dispostos a pagar. E agora muitos de nós acham que o novo papa tem a intenção de aproximar a Igreja Católica um pouco mais dessa abordagem protestante.

Talvez pudéssemos nos encontrar no meio do caminho. Nós, protestantes, acrescentaremos mais ritual, e vocês, católicos, podem descentralizar a sua estrutura de governo, enquanto nós, juntos, lavamos os pés dos pobres.

Eu sei que soa um pouco jocoso, mas eu estou falando sério. Há muita coisa que podemos aprender uns com os outros, e o aprendizado disso pode nos aproximar mais de algum tipo de reunificação (ao menos de espírito), quase 500 anos depois que Martinho Lutero pregou as suas 95 teses na porta da catedral, dando início assim (inadvertidamente) a Reforma Protestante.

Nós, protestantes, não temos o nosso próprio papa para negociar um grande acordo com Francisco, mas, se ele realmente é o primeiro papa protestante, o problema está resolvido. Tudo o que nós, protestantes, e vocês, católicos, precisamos fazer, para início de conversa, é prestar atenção às vezes em que ele se posiciona no nosso campo comum e nos unirmos a ele lá.



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