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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Sumô luta para sobreviver após 15 séculos de tradição no Japão


A matéria foi publicada na BBC Brasil:

'Chorava todos os dias': o lado obscuro da vida dos lutadores de sumô no Japão

Rebecca Seales

De pé em meio ao frenesi dos flashes disparados em sua direção, o lutador anuncia com os olhos marejados sua aposentadoria imediata. "Desculpem-me do fundo do meu coração", ele diz após se curvar e permanecer nessa posição por um longo tempo.

Harumafuji é um grande campeão do sumô, conhecido em japonês como yokozuna. Em 25 de outubro, ele agrediu um lutador mais jovem em um bar, fraturando seu crânio, um caso que foi alvo de um inquérito policial e permaneceu nas manchetes por semanas.

O atleta, de 33 anos, chegou a pedir desculpas pelo ocorrido e decidiu se aposentar do esporte, mas foi acusado formalmente de agressão na última quinta-feira. Ele deve pagar uma multa, em vez de ser julgado em um tribunal.

De acordo com relatos, Harumafuji teria ficado furioso quando tentou dar conselhos ao rapaz e este continuou olhando o próprio celular.

O incidente reacendeu uma discussão sobre o esporte nacional do Japão, e não é a primeira vez que algo assim acontece. Há uma década, a reputação do sumô entrou em crise quando um rapaz de 17 anos que treinava para ser lutador morreu após levar uma surra com uma garrafa e um taco de baseball.

Os agressores eram seus toshiyoris, ou anciãos, como são chamados os ex-lutadores que assumem posições de autoridade, podendo ser treinadores e gerentes de um ginásio de sumô.

Em 2010, o esporte levou um novo golpe com a descoberta do envolvimento de um atleta e de um treinador em um esquema ilegal de apostas em partidas de baseball que teria ligações com a máfia japonesa, a yakusa.

No mesmo ano, o mentor de Harumafuji, o grande campeão mongol Asashoryu, deixou o sumô após se envolver, embriagado, em uma briga do lado de fora de uma boate na capital do país, Tóquio. Depois, vieram à tona provas da combinação prévia de resultados na segunda divisão do esporte.


Seriam sinais de que o sumô está em declínio e que a disciplina que um dia o definiu está em decadência? Ou será simplesmente que, após 15 séculos, o lado obscuro do esporte está finalmente vindo à tona? 


'Os mongóis estão chegando'


Uma forma de responder essas questões é olhar para a origem do esporte e para o duro regime de treinos ao qual os lutadores são submetidos.

Ainda que o sumô tenha surgido a partir de rituais de templos japoneses entre 1,5 mil e 2 mil anos atrás, o país não domina mais o circuito internacional da luta. Até a aposentadoria de Harumafuji, havia quatro grandes campeões. Três deles, inclusive o do agora aposentado Harumafuji, eram da Mongólia.

Rússia, Havaí, Samoa e países do leste europeu costumam enviar lutadores promissores para os ginásios de sumô do Japão, locais em que mestres treinam adolescentes na arte que um dia foi a grande atração das cortes imperiais da nação asiática.

O sumô não é apenas um esporte no país. É uma cerimônia que abre uma janela para o passado, calcada na tradição e na essência do que é ser japonês. Rituais rígidos estabelecem um código de conduta, e ser nascido no exterior não é desculpa para não receber um tratamento tão duro quanto o conferido aos nativos.

Todos os lutadores devem usar trajes tradicionais em público, inclusive um coque como o de samurais. Nas competições, o triunfo e o fracasso devem gerar a mesma reação impassível. Em conversas, o lutador deve ser um modelo de humildade e falar suavemente, comportando-se com hinkaku, ou dignidade. O status é tal que estranhos se curvam quando cruzam com eles na rua.

Cada um dos 45 centros de sumô no país aceita treinar apenas um estrangeiro, ou gaikokujin, de cada vez, por ordem da conservadora Associação de Sumô do Japão. E, quando conseguem chegar lá, normalmente aos 15 anos e com no máximo 23, devem comer, falar, vestir e respirar como japoneses.

Cozinhando, limpando – sem nada para o café da manhã

"(Os lutadores) São como soldados recebendo treinamento básico", explica Mark Buckton, um ex-comentarista e colunista de sumô do jornal Japan Times. "São eles que cozinham, limpam, descascam batatas... E todos aprendem japonês."

O ginásio de sumô é regido por uma hierarquia rigorosa, com um mestre – um ex-lutador – no comando. "Não é como no futebol, em que você pode se transferir de um time para outro", diz Buckton à BBC.

"Você faz parte de um ginásio para o resto da vida. A única forma de sair dele é abandonando o sumô."

Os lutadores deixam o cabelo crescer, normalmente até o meio das costas, para que o cabeleireiro do ginásio possa fazer um penteado tradicional. Só lavam o cabelo a cada uma ou duas semanas, e passam nele bintsuke, um tipo de cera feita a partir de soja com um cheiro adocicado que acompanha o lutador aonde ele vá.

As refeições, geralmente compostas de um caldo quente rico em proteína com vegetais, são tão controladas quanto o regime de treinos, em que os jovens passam horas tentando empurrar seus enormes colegas em um círculo coberto por areia. "Eles comem muito. Mas o crucial é ir dormir logo após de comer", diz Buckton.

"Eles não tomam café da manhã. Todo o treinamento ocorre pela manhã. Eles almoçam quase o mesmo que uma pessoa normal, talvez um pouco mais. Mas comem isso com uma grande quantidade de arroz. Depois, vão para a cama e só acordam no meio da tarde. Comem de novo à noite e vão dormir cedo, porque se levantam às 5h, 6h da manhã para treinar."

Ginásios mais rigorosos costumam gerar lutadores melhores? "Com certeza, com certeza", afirma o especialista.

Sem salário, namoradas ou telefones

Há seis competições profissionais de sumô por ano, todas no Japão. Um lutador ganha ao forçar seu oponente a sair do círculo ou ao fazê-lo tocar o chão com alguma parte do corpo que não os pés. Conforme acumula vitórias, o lutador sobe no ranking.

Há cerca de 650 lutadores nas seis divisões, mas apenas cerca de 60 disputam a primeira. Eles não recebem salários nas quatro divisões inferiores. Um lutador talentoso pode levar de dois a três anos para começar a receber um salário.

Quando há pagamento, ele é bom: cerca de US$ 12 mil (R$ 39,6 mil) por mês na segunda divisão, um valor que pode chegar a US$ 60 mil (R$ 198 mil) na elite do esporte, incluindo contratos de patrocínio.

Os lutadores mais jovens devem usar um traje de tecido de algodão fino, o yukata, e geta, ou sandálias de madeira, mesmo no auge do inverno. Dirigir não é permitido, mas os melhores lutadores têm motoristas, algo que é tanto um símbolo de status quanto uma necessidade, já que seu tamanho dificulta a vida ao volante.

Celulares e namoradas são tecnicamente proibidos abaixo das duas primeiras divisões, ainda que haja uma tolerância crescente com isso. Mulheres não podem morar nos ginásios, e lutadores não podem se casar ou morar em outro local com sua namorada até atingir ao menos a segunda divisão.

Caso se machuque e caia para a terceira divisão, o lutador deve deixar sua mulher e filhos para trás e voltar a morar no ginásio.

O que acontece se os jovens não atenderem os padrões dos mestres ou criticarem o regime quase monástico do ginásio? "Ah, eles são terríveis", diz Buckton. "Antes do rapaz ser morto em 2007, havia espancamentos frequentes. Você via os caras com marcas nas costas e na parte de trás das pernas por não se esforçarem o suficiente."

No ano passado, segundo relatos, um lutador recebeu quase 32,4 milhões de ienes (R$ 946,3 mil) de indenização após de ter sido maltratado diariamente e ficar cego de um olho.

Depois que Takashi Saito, de 17 anos, foi espancado até a morte por ter ameaçado deixar seu ginásio, o grande campeão mongol Hakuho relatou experiências chocantes de surras que chegam a durar 45 minutos.

"Você pode olhar para mim agora e ver um semblante feliz, mas, na época, eu chorava todos os dias", disse. "Os primeiros 20 minutos são muito dolorosos, mas, depois, fica mais fácil, porque mesmo que você esteja apanhando, começa a sentir menos dor. Claro que chorei e, quando meu ancião disse que isso era para meu próprio bem, chorei de novo."

Quebrando o silêncio

Mas por que - em um esporte que submete seus maiores talentos a anos de punição corporal - Harumafuji foi forçado a se aposentar após agredir um lutador mais jovem? "Bem, ele bateu no rapaz em um bar...", afirma Buckton.

O escritor Chris Gould, que acompanha o universo do sumô há três décadas, diz que o "pacto de silêncio" no esporte é bem poderoso.

"Há uma consistência impressionante em como o treinamento e as punições são aplicados em diferentes ginásios e ao longo do tempo. Isso significa que, quando ocorrem incidentes como o de Harumafuji, não se fala sobre o assunto para preservar o grupo", diz Gould.

No episódio mais recente, o técnico do lutador agredido foi quem fez a denúncia e defendeu mudanças no esporte. "É interessante ver um técnico ser criticado por quebrar o código de silêncio. Na maioria dos esportes, ele seria celebrado como um herói."

Com esse tipo de atitude, é possível esperar que jovens continuem se interessando pelo esporte?

Os dias em que a promessa de duas boas refeições diárias atraía jovens de famílias pobres do Japão rural para o sumô ficaram no passado, e esportes como o futebol e o baseball oferecem salários melhores sem o risco de sofrer violência.

Mas, apesar de tudo isso, a popularidade do sumô vem crescendo. Em janeiro, foi consagrado o primeiro campeão japonês em quase duas décadas, para a alegria dos fãs. A Associação de Sumô do Japão também tem feito campanhas publicitárias para voltar a tornar o esporte atraente.

Na visão de Chris Gould, a previsões sobre a ruína do sumô foram prematuras. "Ainda não é hora de entrar em pânico quanto ao futuro. Mas a associação precisa divulgar o que o sumô defende ou não, seus valores fundamentais. A não ser que isso aconteça, o número de grandes lutadores em potencial que nem chegam a entrar para o esporte só vai continuar a crescer."



domingo, 26 de abril de 2015

Saber demais pode ser ruim

A matéria é da BBC Brasil:

O surpreendente lado ruim de ser inteligente

David Robson

Temos uma tendência a pensar em gênios como seres atormentados por angústias existenciais, frustrações e solidão – a escritora Virginia Woolf, o matemático Alan Turing e até a fictícia Lisa Simpson são estrelas solitárias, isoladas apesar de seu brilho.

A questão pode parecer um assunto que atinge apenas alguns poucos privilegiados – mas os conceitos e ideias por trás dessa impressão repercutem em quase todos nós.

Boa parte do sistema educacional ocidental é direcionada a melhorar a inteligência acadêmica. Apesar de suas limitações serem conhecidas, o Quociente de Inteligência (QI) ainda é a principal maneira de medir habilidades cognitivas. Cada vez mais gente gasta fortunas em atividades de treinamento do cérebro para tentar melhorar sua pontuação. Mas e se essa busca pela genialidade for uma tarefa para tolos?

As primeiras respostas para esses questionamentos surgiram há quse um século, no auge da Era do Jazz americana. Na época, o teste de QI ganhava popularidade após ter se provado útil nos centros de recrutamento de voluntários durante a Primeira Guerra Mundial.

Os altos e baixos de pequenos gênios

Em 1926, o psicólogo Lewis Terman decidiu usar a prova para identificar e estudar um grupo de crianças superdotadas. Ele selecionou 1,5 mil alunos da Califórnia com QI maior que 140 – 80 deles com mais de 170 de QI. O grupo ficou conhecido como os “Termites”, e os altos e baixos de suas vidas ainda são estudados hoje em dia.

Como era de se esperar, muitos dos Termites cresceram para fazer fama e fortuna. Nos anos 1950, eles ganhavam um salário médio que correspondia ao dobro do de pessoas “comuns”.

Mas, inesperadamente, muitas crianças no grupo de Terman preferiram profissões menos glamorosas, como policial, marinheiro ou datilógrafo. Os Termites também não foram particularmente mais felizes do que o cidadão americano comum, com os níveis de divórcio, alcoolismo e suicídio semelhantes ao da média da população do país.

A moral da história é que, na melhor das hipóteses, um grande intelecto não faz diferença em relação à sua satisfação com a vida. Na pior, ele pode significar uma sensação maior de vazio.

Isso não quer dizer que todo mundo com um QI alto seja um gênio torturado, como a cultura popular nos faz crer. Mas ainda é assim, é algo intrigante. Por que os benefícios de ter uma inteligência abençoada não aparecem a longo prazo?

Fardo pesado e preocupação excessiva

Uma possibilidade é a de que a consciência de alguém sobre seus próprios talentos intelectuais tenha se tornado uma carga pesada. De fato, nos anos 1990, quando alguns dos Termites tinham quase 80 anos, eles olhavam para trás e, em vez de se vangloriar de seus sucessos, diziam ter sido perseguidos pela sensação de que não corresponderam ao que esperavam atingir quando jovens.

Essa sensação de fardo – principalmente quando combinada com as expectativas dos outros – é uma constante para muitas outras crianças superdotadas. Um dos casos mais famosos – e tristes – é o da britânica Sufiah Yusof. Admitida na prestigiada Universidade de Oxford aos 12 anos, ela abandonou os estudos na área de Matemática antes de se formar e começou a trabalhar como garçonete. Depois disso, tornou-se garota de programa e ficou conhecida por recitar equações para os clientes durante o sexo.

Outra reclamação comum é a de que pessoas mais inteligentes geralmente têm uma visão mais clara sobre os problemas do mundo. Enquanto o resto de nós se mantém distante das crises existenciais, os gênios perdem o sono sofrendo pela condição humana e pelos erros dos outros.

A preocupação constante, de fato, pode ser um sinal de inteligência – mas não da maneira que os filósofos de poltrona imaginaram. Alexander Penney, da MacEwan University, no Canadá entrevistou estudantes universitários sobre vários tópicos e descobriu que aqueles com o QI mais alto realmente se sentiam mais ansiosos.

Mas curiosamente, a maioria das preocupações era banal e cotidiana. “Eles não se inquietavam por coisas muito profundas, mas se preocupavam mais frequentemente sobre mais coisas”, diz Penney. “Se algo ruim acontecia, eles passam mais tempo pensando naquilo.”

Ao examinar com mais atenção, Penney também descobriu que isso se relaciona com a inteligência verbal, testada em jogos de palavras nos exames de QI. Ele acredita que uma maior eloquência pode ajudar o indivíduo a verbalizar suas ansiedades e remoer mais seus pensamentos. O que não é necessariamente uma desvantagem. “Eles tendem a solucionar problemas mais rapidamente do que a maioria das pessoas”, afirma.

Pontos ‘cegos’

A verdade nua e crua, no entanto, é que uma maior inteligência não equivale a tomar decisões mais sábias. Na realidade, a situação pode até tornar as decisões mais equivocadas.

Keith Stanovich, da Universidade de Toronto, passou a última década preparando testes de raciocínio e descobriu que decisões justas e independentes não estão nem um pouco relacionadas ao QI.

Segundo ele, os indivíduos que se saíam melhor em testes cognitivos padrão são na realidade um pouco mais vulneráveis a terem um “ponto cego de predisposição”. Ou seja, eles têm menos capacidade de enxergar seus próprios defeitos, mesmo quando são capazes de criticar os pontos fracos dos outros.

Eles também tendem a ser vítimas da “ilusão do apostador” – a ideia de que se uma moeda cai indicando “cara” dez vezes, ela terá mais chances de cair em “coroa” na 11ª vez.

Uma tendência a confiar mais nos instintos do que no pensamento racional pode explicar porque um número surpreendente de membros da associação britânica de superdotados Mensa acredita em atividades paranormais. Ou por que alguém com um QI de 140 têm duas vezes mais chances de estourar seu cartão de crédito.

Stanovich enxerga esses vieses em todas as camadas da sociedade. “Existe muita irracionalidade no mundo de hoje – pessoas fazendo coisas irracionais apesar de terem uma inteligência mais que adequada”, afirma. “Essas pessoas que ficam espalhando memes antivacinação para pais ou disseminando erros de informação na Internet são em geral pessoas com uma inteligência e uma educação acima da média.” Obviamente, pessoas inteligentes podem ser perigosamente, e bobamente, enganadas.

O lado bom

Portanto, se a inteligência não leva a decisões racionais ou a uma vida melhor, quais as suas vantagens? Igor Grossmann, da Universidade de Waterloo, no Canadá, acredita que temos que prestar mais atenção a um conceito antiquado: a sabedoria.

Sua abordagem é mais científica do que parece. “O conceito de sabedoria tem uma qualidade etérea”, admite. “Mas se olharmos para a pura definição de sabedoria, muitos vão concordar que se trata da ideia de alguém que pode fazer um julgamento bom e sem amarras”.

Em um experimento, Grossmann apresentou a voluntários vários dilemas sociais – que iam desde o que fazer sobre a guerra pela Crimeia a crises que leitores descrevem em colunas de aconselhamentos sentimentais de jornais.

Conforme os voluntários falavam, um painel de psicólogos julgava seus argumentos e sua tendência a uma ideia preconcebida.

Os que mais pontuaram acabaram predizendo maior satisfação com a vida, mais qualidade de relacionamento, e menos ansiedades e preocupações – todas as qualidades que parecem faltar a pessoas enquadradas no conceito clássico de inteligência.

Crucialmente, Grossmann descobriu que um alto QI não necessariamente significa maior sabedoria.

Aprender a saber

No futuro, empregadores podem começar a empregar testes como os de Grossmann para examinar outras capacidades intelectuais em vez do QI. A área de recursos humanos do Google, por exemplo, já anunciou que planeja avaliar candidatos com base em qualidades como “humildade intelectual”, em fez de pura proeza cognitiva.

Felizmente, a sabedoria pode vir do treino, segundo Grossmann. Ele ressalta que nós normalmente temos mais facilidade em deixar para trás nossas predisposições quando levamos outras pessoas em consideração em vez de nós mesmo.

Com isso, ele descobriu que simplesmente falar sobre seus problemas na terceira pessoa (“ele” ou “ela” em vez de “eu”) ajuda a criar a distância emocional necessária, diminuindo preconceitos e levando a argumentos mais sábios. Novos estudos devem gerar novos truques semelhantes.

O desafio vai fazer com que as pessoas admitam seus próprios defeitos. Mesmo se você conseguiu repousar sobre os louros da sua inteligência durante toda a vida, pode ser muito difícil aceitar que ela vem atrapalhando seu julgamento. Como disse o filósofo Sócrates, “o sábio é aquele que pode admitir que não sabe nada”.



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Papa Francisco 10 x 0 Falastrões Gospel

O papa Francisco já foi embora depois de uma semana agitada no Brasil, e muitas conclusões já foram e continuarão sendo feitas a respeito de sua estada entre nós.

Limitaremos nossa análise preliminar, entretanto, a um quesito apenas: sua notória capacidade de se comunicar com os mais diferentes estratos da sociedade.

Nesse aspecto, o papa Francisco deu um show de comunicação, simpatia, empatia e simplicidade.

Sem abrir mão do dogmatismo católico inerente à fala do trono do Vaticano, o pontífice romano conseguiu fazer-se ouvir e ouviu com mansidão e brilhantismo.

Fez a sua mensagem compassiva ser recebida mesmo através do silêncio de seu olhar contemplativo.

Foi fiel, portanto, a pelo menos três preceitos neotestamentários (e paulinos) sobre como dialogar com um mundo não cristão:
Filipenses 4:5 Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor.

Colossenses 4:6 A vossa palavra seja sempre com graça, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um.

Tito 2:7-8 Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra integridade, sobriedade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo nenhum mal que dizer de nós.
Aos quais podemos acrescentar o sempre bem-vindo conselho de Pedro:
1ª Pedro 3:15 antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós;
Sem querer entrar nas diferenças doutrinárias aparentemente irreconciliáveis entre católicos e protestantes, foi inevitável comparar a postura papal com aquela de alguns expoentes evangélicos que usam e abusam cotidianamente de todas as formas de mídia.

Os nomes desses nem precisam ser citados, pois a sua verborragia e seus interesses monetários invadem os lares brasileiros todos os dias pelas ondas do rádio e da TV.

Outra maneira pela qual os falastrões gospel são conhecidos é pela sua falta de compaixão e sua contundência em atacar os adversários e rebater as críticas, desqualificando os oponentes e partindo para a agressão verbal sem o menor pudor.

Qualquer pessoa minimamente versada na Bíblia já identificaria que lhes falta não só humildade e simplicidade, mas a moderação que deve caracterizar qualquer pessoa que diz professar o evangelho.

A julgar apenas por este critério, o papa Francisco deu de 10 x 0 nos pugilistas verbais que se dizem “evangélicos” e infestam nossos rádios e televisões.

Conclusão óbvia: considerando os líderes que aparecem na mídia, os católicos estão muito melhores de papa do que os evangélicos.



segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ajudar o próximo é tão simples e tão bom



Você já deve ter percebido que as câmeras instaladas a bordo dos veículos russos são famosas por captar os mais loucos acidentes de trânsito.

O que pouca gente sabia é que elas também captam momentos de sublime humanidade e gentileza, não só para com pessoas mas também animais, como você pode ver na montagem do vídeo abaixo.

Se você não se emocionar com essas cenas, está mais do que na hora de você repensar a sua vida:




domingo, 12 de maio de 2013

Mãe, a mulher invisível


No dia especialmente dedicado a elas, nossa singela homenagem a todas as mães que se sacrificam às custas da própria visibilidade pelos seus filhos e pela sua família:







quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma homenagem aos cristãos anônimos


É uma pena que, quando se ouve a palavra “evangélico” no Brasil, imediatamente se associe o termo a uma série de líderes vaidosos e gananciosos mais preocupados com batalhas políticas, dinheiro e poder, além do séquito de pessoas que os defendem cegamente.

Imediatamente também se esquece de uma legião de homens e mulheres simples e anônimos, que levam o amor e a Palavra de Deus a milhares, talvez milhões de pessoas, sem esperar nada em troca.

Fazem isso não só pelo prazeroso dever de compartilhar o evangelho, mas principalmente pelo amor que o Espírito Santo lhes derramou no coração (Romanos 5:5).

Na mesma carta aos Romanos, no capítulo 16, Paulo listou várias pessoas que, se não ficaram exatamente anônimas, foram reconhecidas pelo apóstolo e tiveram os seus nomes associados ao verdadeiro significado de ser cristão.

Poucos atentaram para os seus nomes, mas estão lá Febe, Prisca, Áquila, Epêneto, Maria, Andrônico, Júnias, Ampliato, Urbano, Estáquis, Apeles, Aristóbulo, Herodião, Narciso, Trifena, Trifosa, Pérside, Rufo, Asíncrito, Flegonte, Hermas, Pátrobas, Hermes, Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas, Timóteo, Lúcio, Jáson, Sosípatro, Tércio, Gaio, Erasto e Quarto.

Com exceção de Timóteo e de Hermas (a quem se atribui o antigo livro “O Pastor”), todos os demais pouco ou nenhum destaque tiveram na história registrada da igreja cristã.

Muito provavelmente nem Paulo nem seus acompanhantes se lembravam do nome da irmã de Nereu, mas o apóstolo fez questão de mencioná-la para que ninguém se esquecesse da sua humilde existência e do seu trabalho simples e valoroso.

Da mesma maneira, milhares, talvez milhões de crentes, hoje estão fazendo seus trabalhos simples, sem esperar reconhecimento, poder ou dinheiro.

Eles levam a preciosa semente da mensagem da cruz de Cristo (Salmo 126:6) a todo lugar, indistintamente, de porta em porta, de pessoa em pessoa, sem negociá-la com as trevas.

É quase impossível que pelo menos alguns de seus nomes venham a ser conhecidos na imensa balbúrdia em que se tornou a militância ideológica evangélica no Brasil, mas o seu valoroso anonimato merece ser homenageado assim como Paulo fez com seus anônimos cooperadores da Roma de 20 séculos atrás.

Desconfio, porém, que é por amor a esses pastores e crentes fiéis (e àqueles a quem eles servem piedosa e silenciosamente) que Deus – na Sua infinita misericórdia - ainda não trouxe a destruição que merecem todos os usurpadores da fé que profanam Seu nome por aqui.



sábado, 22 de outubro de 2011

Motorista bêbado atropela e mata dois garis em SP. Alguém liga?

Enquanto você dormia ou tomava seu café da manhã planejando o merecido descanso do fim-de-semana, dois garis trabalhavam honesta e duramente nesta manhã de sábado em São Paulo, na alça de acesso à Ponte Ary Torres, que liga a Marginal Pinheiros à Avenida dos Bandeirantes, quando foram atropelados por um motorista embriagado que perdeu a direção do seu Toyota Hilux SW4 e investiu contra uma turma de limpeza que ali estava. Dois deles morreram na hora.  Um terceiro gari ficou gravemente ferido e foi atendido no PS do Hospital Santa Marcelina. Eram 7h40m da manhã e o mundo acabou para dois jovens honestos que queriam apenas ganhar o pão de cada dia. Bóris Casoy não dirá uma palavra sobre eles (o que já é melhor do que ofendê-los). Não se sabe os nomes das vítimas, se têm família, onde moravam. Provavelmente nunca se saberá, porque, além deles serem pobres e invisíveis à sociedade, este é o país da impunidade, com leis frouxas e juízes bonzinhos, onde o réu sempre tem razão e nunca é culpado de nada, para nossa vergonha coletiva. Os culpados somos nós. Pelo menos aqueles garis deviam ter amigos de verdade, pois deles ficaram apenas as fotos da dor de seus companheiros de infortúnio:





 Fontes: iG - Estadão - Terra



sexta-feira, 25 de março de 2011

A igreja do pastor Roboão

Roboão herdou um grande reino, ainda cheio do esplendor conquistado por seu pai, Salomão, e seu avô, Davi. Era dele o trono sobre todo o Israel. O 12º capítulo do 1º livro dos Reis conta a sua coroação, e como o povo, liderado por Jeroboão, queria que o novo rei aliviasse a pesada carga de tributos e trabalhos forçados que seu pai lhes havia imposto. Roboão lhes pediu que voltassem em 3 dias para ouvir a sua resposta. Buscou conselho, inicialmente, com os anciãos que haviam servido a seu pai, e esses lhes disseram que deveria se tornar “servo do seu povo” e falar-lhes “boas palavras” (v. 7), o que não satisfez Roboão. Procurou, então, os jovens que haviam sido criados com ele, e esses lhe aconselharam a ser ainda muito mais duro do que fora seu pai com o povo (vv. 11-12), o que terminou sendo feito “asperamente” pelo novo rei (v. 13), resultando na divisão do reino em dois, Israel ao norte (sob o comando de Jeroboão) e Judá ao sul (o que restou a Roboão).

Ainda que a Bíblia relate que todas essas coisas aconteceram segundo o propósito de Deus (v. 15), é possível daí extrair lições para a igreja evangélica atual, que despreza tanto os conselhos dos antigos e vive à caça de inovações. É verdade que muitas dessas novidades nada têm de “jovens” e são heresias seculares, mas elas rotineiramente reaparecem com a roupagem e o frescor de coisa nova, como se todo o caminho trilhado pela Igreja cristã ao longo de dois milênios não mais tivesse qualquer valor. Nada mais satisfaz os novos líderes evangélicos. Mesmo aquilo que foi uma aparente novidade dez anos atrás não tem mais qualquer serventia nesta ânsia desenfreada de parecer jovem e antenado, talvez "diferente", como se o cristianismo tivesse começado no dia em que o profeta de ocasião “sentiu o desejo no coração” de fundar uma nova denominação. Os templos enchem e as mentes se esvaziam, numa rotatividade mórbida de membros que entram e que saem, sem que ninguém realmente consiga identificar o que foi que eles aprenderam (e principalmente creram – ou não) sobre Jesus. Isso, entretanto, não importa aos líderes, já que seu único compromisso é com sua vaidade e o culto ao seu próprio ego, imune a conselhos de qualquer época e espécie.

É neste aspecto que o conselho dos anciãos - que Roboão rejeitou – continua válido para os dias atuais. Precisamos de pastores que sejam, também, “servos do seu povo” e não que dele se sirvam. Quando os anciãos aconselharam Roboão a dizer “boas palavras” aos seus súditos, não estavam lhe pedindo que fosse demagogo ou hipócrita, mas que seguisse a gentileza, retidão, justiça e humildade, e que o rei não se esquecesse que a boa liderança inclui necessariamente o bom serviço, como o próprio Jesus se dispôs a fazer (Marcos 10:45). A autoridade do rei (e do líder cristão) não deriva, portanto, dos decretos egocêntricos ou do estilo áspero e inatingível de se impor, mas do respeito que ele tem por seu povo e pelo serviço que lhe devota. Infelizmente, hoje há muitos pastores que se preocupam mais com suas “determinações” e seus comandos imperativos do que simplesmente servir ao seu rebanho, com temor e tremor, o puro e imaculado evangelho da cruz de Cristo.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Precisamos de Barnabés

Só pra lembrar de uma época em que os líderes cristãos não tinham amor ao dinheiro, nem se locupletavam daquilo que os outros repartiam, e a única semente que plantavam era o amor à Igreja e ao próximo, e pra também reviver outra época, em que se fazia música evangélica de qualidade no Brasil:






BARNABÉ, HOMEM DE DEUS


Composição: Guilherme Kerr Neto e Jorge Rehder

Não fica bem a gente passar bem e o outro carestia,
ainda mais quando se sabe o que fazer e não se faz.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
vendeu um homem o que tinha e repartiu.

Era o seu nome Barnabé, natural de Chipre,
também chamado de José da Consolação,
homem bom e piedoso, cheio de temor e fé,
homem de Deus.

E quando Saulo converteu-se a Cristo lhe faltou amigo,
alguém que fosse companheiro, fonte de consolo e abrigo.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
foi um homem procurá-lo, dando-lhe a mão.

E quando a igreja se espalhou por todo canto que havia,
por providência, sim, por mão de Deus chegou a Antioqui.
Precisando de um pastor de almas,
mesmo de um pastor de homens,
foram procurar aquele Deus que preparou.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Quando tirar os sapatos...

Abaixo segue uma crônica de Michal Kepp, publicada no caderno Equilíbrio do jornal Folha de S. Paulo de 07/12/10, em que ele dá um enfoque bastante humano (e interessante) ao ritual de se tirar os sapatos, atitude que geralmente carrega um simbolismo muito mais religioso, como no caso de Moisés (Êxodo 3:5) e Josué (Josué 5:15):

Basta tirar os sapatos

Ficar descalço chama a atenção para furos nas nossas meias. Mas a vulnerabilidade nos humaniza

"GENTE INTERESSANTE" não é um clube exclusivo.

Qualquer um pode entrar, porque todos são interessantes para alguém. O grau de interesse depende do que a pessoa revela de si, e não do quanto ela mostra. Não precisa fazer um striptease. Basta tirar os sapatos e esperar os resultados.

Sim, tirar os sapatos traz riscos: chama a atenção para os buracos nas nossas meias.

Mas ser vulnerável humaniza e pode convencer o outro a também tirar os sapatos. A maioria precisa de um empurrãozinho para fazer isso.

Nas festas, uso álcool. Nas minhas crônicas, tiro bem mais do que os sapatos, porque o público está distante e normalmente é simpático.

Por isso, aos leitores já revelei minha transa com uma prostituta, a vez que botei no jornal um classificado amoroso, minhas dificuldades de lidar com a adolescência dos meus enteados, meu derrame e alguns dos meus defeitos (mas não os piores). Eu já escrevi até sobre meu pelo corporal. Mas, mesmo assim, eu nunca tiro tudo.

Todas essas confissões têm o propósito de provocar alguma reação: risos, lágrimas, raiva ou reflexão. Enfim, comover aqueles que conseguem se identificar comigo e se sentir menos alienados, menos solitários. Às vezes, essa cumplicidade se confirma em um e-mail que diz: "Sua crônica expressou algo que sempre senti e queria dizer, mas nunca consegui"."

Há pouco tempo, eu contei a um amigo que, durante uma viagem recente à minha cidade natal, visitei, pela primeira vez, o túmulo da minha mãe, que morreu quando eu tinha dez anos. E quando vi a lápide me emocionei tanto que a abracei como se fosse seu corpo. Daí ele me contou que há dois anos, no Peru, ele visitou a montanha onde ocorreu o acidente aéreo que matou seus pais quando ele tinha 13 anos. Quando viu uma cruz enorme fincada no lugar do desastre, ele se debruçou no solo diante dela e abriu os braços para dar nos seus pais o mesmo abraço simbólico que dei em minha mãe. Foi uma das raras vezes que ele se abriu comigo.

Ele tirou os sapatos porque eu tirei também. E quando duas pessoas começam a se expor, ambas ficam mais interessantes.

Uma pessoa pode ser interessante antes de abrir a boca. Pode ser também que ela nunca tire os sapatos e só revele que prefere se esconder.

Mas quem não corre o risco de se expor também paga um preço. Afinal, uma pérola só tem valor fora da ostra.


MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 27 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)

sábado, 31 de outubro de 2009

O pastor soberbo, por Lutero

Hoje faz exatos 492 anos que Martinho Lutero pregou as suas famosas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. 

Assim, o dia 31 de outubro de 1517 é considerado o marco oficial do começo da Reforma Protestante, embora outros movimentos já houvessem existido, e o próprio Lutero venha a romper definitivamente com a Igreja Católica apenas alguns anos depois. 

Em 2017, portanto, comemoraremos os 500 anos da Reforma Protestante, mas talvez cheguemos lá com outra Reforma profunda na Igreja evangélica, especialmente a brasileira, hoje tão soberba e entregue a símbolos e práticas pagãs.

O momento é, então, propício para que lembremos das palavras do próprio Lutero, comentando Tito 1:7, em que Paulo diz que o bispo (pastor) não deve ser soberbo (αὐθάδης - authadēs) nem irascível. 

Queira Deus que seus ensinamentos contribuam para que voltemos aos eternos valores genuinamente cristãos defendidos pela Reforma:




Não soberbo. Essas são preciosidades que se encontram na casula sacerdotal. Tal qualidade adere, naturalmente, a todas as honras. Authadis refere-se à ideia de que sou agradável a mim mesmo; [e aquele que se agrada a si. Trata-se daquela disposição inflexível e entediada de quem olha para si mesmo no espelho e despreza os outros. As formas de como a soberba se manifestas são descritas neste dito: ela espelha a própria pessoa e se infla devido às dádivas que recebeu de Deus frente à outra pessoa que as não possui; ela quer ser temida e notada. A este vício opõe-se Cristo que “se esvaziou”, Fp 2.7. O apóstolo poderia ter dito: “Eu sou santo, tu és pecador; eu sou filho de Deus, tu, do diabo”. Mas, ao invés disso, diz “se esvaziou”. “Mas tenho pena de ti; farei com que tu sejas santo e filho de Deus, e com que eu assuma a posição contrária”. Assim deve agir um bispo. Ao ver um irmão ignorante, que não pense: “Eu sou mais douto e o outro nada é”, “considerado em relação a mim, é um rei camponês”. Tal soberba não é nobre, mas própria de camponeses, como, por exemplo, quando um camponês possui cem florins no seu cofrinho e se esforça para que todos saibam disso. Se tens uma habilidade, sabe que não a tens para zombar do próximo e insultá-lo, mas, sim, para edificá-lo. É assim que agem nossos entusiastas: eles próprios querem saber tudo, e insinuam que nós nada sabemos. Se, contudo, eu sei alguma coisa, sendo um fiel despenseiro, devo sabê-lo em prol do irmão, de modo que, simplesmente, compartilhe-o com ele, não buscando, nisso, favores, proveito e elogios, mas de tal sorte que seja sequioso pela salvação do irmão. Trata-se, pura e simplesmente, de conceder-lhe parte naquilo que ele próprio não possui, e não de agradar a si mesmo. Esta última atitude é, segundo Paulo, submeter as dádivas e os dons de Deus a uma rapina. A dádiva e o dom me foram dados para que sirvam ao próximo. Se eu quero, porém, que os outros me olhem , então, transformo o que me foi concedido num objeto de rapina. Devo distribuir e conceder os dons a outrem e, no entanto, tomo-os exclusivamente para mim. Desse modo, deleito-me em ser louvado e chamado de homem piedoso e douto. Se, por outro lado, sou considerado culpado de alguma coisa, fico logo irado. Este é o maior dos vícios, um defeito inenarrável. Ele carrega consigo a vanglória, a inveja, o espírito do amor a si próprio e o roubo das dádivas de Deus. É uma “cebola vestida com túnica”. Quando algum pregador possui um dom maior em comparação com outro, ele não quer mais ensinar, a menos que seja liberto da vanglória, essa peste. Eu mesmo fiz isso, a fim de remover a vanglória que se acha no meu coração. Certamente, todo e qualquer um deve fazê-lo. É possível reconhecer outros pecados, mas não esse. Quando o Senhor torna um homem douto, também o constitui para que não agrade a si mesmo, para que não se vanglorie nem seja um ladrão da glória de Deus. Se o fazes, cometes uma abominação e um sacrilégio, Rm 2.5. Alegrar-se apenas com aquilo que considera seus próprios dons, nada é senão somatório de sacrilégios. Quem faz isso não se preocupa com as pessoas a quem serve. Cristo, porém, exige de nós que essas virtudes, ainda que ínfimas, etc., nos sejam atribuídas por causa do serviço. Um bispo é alguém que não agrada a si mesmo, mas, sim, a outrem; isso, porém, quando o faz para a boa edificação.

Todo o homem soberbo é “iracundo”. Diz-se que as virtudes são encadeadas entre si. O mesmo também ocorre com os vícios. Aquele que agrada a si mesmo, deleita-se consigo e com os dons recebidos, facilmente se ofende com o defeito de um irmão. Portanto, quando um bispo é constituído como objeto de admiração em meio aos irmãos, dentre os quais alguns são firmes e cultos, notando-se, porém, uma grande diferença do lado oposto; e quando, além disso, tem ao seu redor lobos e é constituído no meio de diabos, torna-se impossível que não seja tentado, a todo instante, por várias tentações e que se não lhe apresente um grande motivo para irar-se. Deve cuidar, particularmente, de não mostrar-se irascível diante dos irmãos, ou seja, ele deve ser manso e bondoso, de sorte que possa tolerar as fraquezas, e todas as enfermidades de suas almas. Aquele, porém, que agrada a si mesmo, fica ofendido tão logo as coisas não aconteçam conforme os seus propósitos. Caso veja alguém um pouco relutante, logo quer excomungá-lo, como fazem os nossos bispos. Que não se levantem murmúrios e queixas contra eles acerca de sua tirania! Ao contrário, deve haver um afeto paterno e materno no bispo. Pedro o expôs da seguinte maneira: “Não como dominadores dos que vos foram confiados” [1 Pe 5.3], como se o rebanho fosse sua própria herança e como se quisessem, simplesmente, dominar na Igreja, de forma que tudo suceda conforme se enfurece e vocifera sua própria cabeça, de modo que o bispo possa gloriar-se a cada palavra, etc. Como já disse, foi assim que agiu o papa, e assim agem nossos bispos. “Não”, diz Paulo, “porque dominemos, mas como vossos servos por causa de Cristo” [2 Co 4.5]. Não fui constituído para governar qualquer cristão na condição de senhor; antes, fui constituído como servo. Somente um é o Senhor. Embora sejam servos, devemos obedecer-lhes e, diante deles, humilhar-nos por causa do Senhor. Por outro lado, eles devem servir-nos e suportar até mesmo nossa fraqueza por causa do Senhor. Por conseguinte, aquele que agrada a si próprio não pode deixar de ofender-se e exercer a tirania. Se alguém é constituído bispo, é preciso que seja uma pessoa honrada e de boa reputação. Se não fosse assim, a Palavra seria desprezada. Pois quem ouviria uma pessoa reprovável, principalmente entre aqueles a quem lidera? Caso isso ocorresse, estaríamos, de imediato, numa situação de perigo, visto que a carne e o sangue são tomados de pruridos pelos louvores, submetendo-os a seus propósitos. De outra parte, se meu irmão não me elogia, é ele quem peca. “Se és louvado, estás em perigo; se não és, é teu irmão que está”, diz Agostinho em seu comentário ao Sermão do Monte. Portanto, é necessário que o Espírito Santo esteja presente para que sejamos moderados em relação ao outro, de modo que o bispo conceda a glória a Deus, e que aquele que o ouve honre o bispo por causa de Cristo, Hb 13.7. Assim, pois, deve meditar o pastor, o bispo: embora te encontres numa posição superior e tenhas recebido dons melhores, os juízos de Deus, não obstante, são incompreensíveis. Pode acontecer que Deus volte seu olhar para alguém numa situação muito inferior, e que o mais baixo lhe seja agradável, mesmo que te encontres numa posição elevada. É possível que um só denário lhe agrade mais do que dez mil talentos. Um exemplo disso encontra-se em Lucas [7.36-48]: obras de inestimável valor são realizadas, tratando Deus publicamente com todo louvor. A pecadora, por sua vez, não faz nada disso. Cristo rejeita as obras esplêndidas e magníficas do fariseu. Ele proclama e gaba o que fez a pecadora e coloca sobre o miserável fariseu o fardo de muitos pecados. Sim, sim, assim tu és! Portanto, que toda pessoa o tema; ele despreza os soberbos, e dá atenção aos humildes, não fazendo acepção de pessoas. Por isso, nossa humildade não é monástica, pois esta é a soberba e a humildade em si mesma e não a humildade em Cristo. Trata-se de uma simulação de humildade. Os mais humildes são, na verdade, soberbos no mais alto grau. A vossa humildade, porém, certamente, possui os mais altos dons e, contudo, teme a Deus, visto que ele julga maravilhosamente. Eu poderia perecer com meus dons, fama e honra. Aqueles que conhecem a Cristo, associam-se a ti de maneira apropriada. Quem conhece a Cristo, deve ser honrado e ter os irmãos em alta estima. Porém, não deve fazer uso dessas coisas, mas passar de largo, como se não as visse, pensando, ao contrário: “Eu sou um servo e me empenharei para servir ao irmão, mesmo ao menor”. Desse modo, ele deve humilhar-se por meio de Cristo. Quem tiver esse sentimento, não pode ser soberbo, pois esse espírito não tolera a soberba. Ele diz: seguramente, sei mais do que outros, mas de que adianta isso se alguém cai por causa de uma única palavra minha, etc.? Assim, o pavão soberbo acaba largando suas penas. “Eu me gloriarei em ti e não em meus dons, pois te conheço e te compreendo”. Por esses meios, a soberba fica proibida.


(LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. vol. 10. Interpretação do Novo Testamento. Gálatas-Tito. Ed. Sinodal-Ed. Concórdia, São Leopoldo, Porto Alegre, 2008, pp. 580-583)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A fé que Deus honra



AS TRÊS CAPINAS

Adriano é um irmão humilde e trabalhador de uma igreja batista do interior do Estado de São Paulo. Casado com Divanete, ambos levam a vida típica da gente simples do chamado Brasil profundo, lutando com as dificuldades e sempre buscando uma renda extra para fazer frente aos gastos da família. 

Adriano tem um trabalho digno e aproveita os dias de folga para fazer alguns bicos e ganhar um dinheirinho honestamente. Um desses bicos é capinar terrenos baldios, algo muito necessário nas cidades do interior. 

Num dia muito quente, Adriano foi capinar um terreno e, conversando com o pastor da sua igreja, este lhe aconselhou que usasse um chapéu, pois o sol estava muito forte naquele dia, mas Adriano não lhe deu ouvidos. 

Foi capinar com a cabeça desprotegida e quando estava na metade do serviço, percebeu - tarde demais - que o pastor tinha razão. 

O sol a pino estava para "rachar mamona", como se diz na roça, e ele já estava se sentindo mal, expondo-se aos riscos de uma insolação. 

Não teve dúvidas: parou o serviço e orou, pedindo a Deus que lhe ajudasse a suportar o calor. 

Pouco depois, capinando uma moita, viu que atrás dela, no meio do mato, estava um boné novinho em folha, o que o deixou muito feliz. Parou o serviço novamente e deu glórias a Deus por ter respondido a sua oração.

Algum tempo depois, surgiu outro terreno para capinar, cujo proprietário lhe havia pedido urgência, pois precisava começar uma obra no dia seguinte. 

Já declinando a tarde, a enxada que Adriano usava soltou a cunha, e a gambiarra que ele improvisou às pressas não ajudava muito, já que ele mal conseguia capinar com aquela peça bamba que ameaçava se voltar contra ele. 

Recriminou-se por não ter pego uma enxada melhor. 

Não teve dúvida, parou tudo e orou pedindo ajuda a Deus. 

Pouco depois, deu uma enxadada numa quiçaça e ali, para sua grata surpresa, tinha uma cunha semi-enterrada, que cabia perfeitamente na sua enxada. 

Diante do achado, levantou as mãos ao céu e glorificou a Deus efusivamente, o que parece ter assustado a vizinha que via pela janela a cena insólita de um homem cansado, no fim da tarde, agradecendo a Deus por uma cunha. 

Pelo canto dos olhos, assim meio de soslaio, Adriano só teve tempo de ver a cortina se fechando rapidamente.

Passados alguns dias, outra pessoa pediu a Adriano um serviço de urgência, que ele não podia recusar nem fazer num dia só sem a ajuda de outra pessoa. 

Combinou com o seu irmão, mas este lhe avisou a tempo que não poderia ir. 

Chamou um rapaz que às vezes lhe ajudava, mas no dia e hora combinados, ele simplesmente não deu as caras. 

Lá estava o terrenão enorme pedindo enxada, e só Adriano enfrentando o que lhe parecia agora um latifúndio. 

Decidiu-se a fazer o que podia, mas já terminava o dia e ainda faltava muito chão para capinar. 

Exausto e já próximo do desespero, não teve dúvida: parou tudo e clamou a Deus por socorro.

Mal teve tempo de dizer o "amém", quando percebeu uma sombra estranha denunciando um vulto enorme que se aproximava. 

Era um homem negro, grande, mal encarado, como aquele personagem condenado à morte no filme "À Espera de Um Milagre", o que lhe deixou com um baita medo naquele ermo do sem fim. 

O homem se aproximou e disse:

- Ei, rapaz, você não quer que eu te ajude? Tem muito terreno ainda e eu posso te ajudar por um trocadinho qualquer...

Adriano combinou o preço com o socorro recém-enviado dos céus - que, segundo ele, era um verdadeiro trator - e terminou o seu dia feliz, levando dinheiro para casa e dando glórias a Deus.

Esta é uma história verídica...

Ouvindo esta história, eu fiquei pensando cá com os meus botões: esta é a fé que Deus honra.

Não uma pseudo-fé auto-imputada, arrogante, soberba, que trata Deus como um menino de recados ou um escravo obrigado a "honrar" quem alega segui-lO, de preferência cobrindo-o de bens, mas uma fé simples, inocente, dedicada, que se dispõe e põe a mão no arado e na enxada com vontade de ser feliz, e não tem vergonha da sua condição, nem de pedir auxílio a Deus quando as coisas não saem exatamente como se pensava, e em tudo, absolutamente tudo, dando glória a Ele. 

Simples assim...

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