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sábado, 13 de janeiro de 2018

O primeiro imperador chinês queria ser (literalmente) imortal

Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China

A curiosa informação foi publicada na BBC Brasil:

Como fracasso na busca de imperador chinês por 'elixir da vida' deu origem ao Exército de Terracota

O enorme poder de Qin Shi Huang tinha apenas um limite: a morte.

O primeiro imperador da China, o "senhor dos dez mil anos", o filho do sol, o senhor de todas as terras e dos céus, descobriu precocemente que apenas a imortalidade estava fora do seu alcance.

E, por isso, tentou alcançá-la de todas as maneiras possíveis.

Conforme revelado por um estudo recente com base em textos milenares encontrados em 2002, o imperador tornou-se tão obcecado com a ideia da imortalidade que ordenou uma busca desesperada por um elixir da vida em todos os cantos da China.

Os textos, de 2 mil anos de idade e escritos em milhares de lâminas de madeira (utilizados antes da invenção do papel), dão contam de uma incrível cruzada que tomou o país asiático na busca pela poção mágica.

Os documentos, encontrados em um poço na província de Hunan (região central do país), incluem um decreto imperial pelo início das buscas e, também, as ambíguas e desanimadas respostas de comunidades que não tinham outra opção senão dar uma resposta negativa ao imperador.

Uma localidade identificada como Duxiang, por exemplo, informou ao soberano que nenhum remédio milagroso havia sido encontrado ali.

O exército de terracota, um legado impressionante para a humanidade.

Mas a comunidade não deu o braço a torcer: disse que continuaria com as buscas.

Outro local, chamado Langya, parte da atual província de Shandong (no leste do país), indicou a existência de uma milagrosa planta que poderia ser colhida em uma "montanha sagrada".

Mas nenhuma planta ou poção mágica funcionou e Qin Shihuang morreu em 210 a.C., após 11 anos de reinado.

O imperador, que conquistou, um após o outro, os seis reinos que integravam a China, dando forma ao país como o conhecemos hoje, morreu aos 49 anos, segundo historiadores. E, até os últimos momentos da vida, obcecado com a imortalidade.

Huang construiu a Grande Muralha, forjou um vasto império - impondo sistemas únicos de escrita, dinheiro, pesos e medidas e encomendando canais e estradas - e ordenou que um exército "eterno" de guerreiros o acompanhasse ao reino da morte.

Foi assim que seus súditos construíram o formidável Exército de Terracota, uma coleção de esculturas de 8 mil soldados, cavalos e carros que foram enterrados junto com o imperador, depois que este perdeu sua última batalha: contra a morte.

8 mil soldados "acompanharam" o imperador até o além.



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 18


O INFERNO E A IMORTALIDADE DA ALMA

Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. Mas, se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã, vós ainda estais em vossos pecados e aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se depositamos nossa esperança em Cristo apenas nessa vida, somos as mais miseráveis de todas as pessoas. [1ª Cor. 15.16-19]

[...]

Em sexto e último lugar, ele conclui: “Se depositamos nossa esperança em Cristo, apenas nesta vida, somos as mais miseráveis de todas as pessoas sobre a terra” [1 Co 15.19]. Isso equivale a dizer: se isso fosse verdade, que depois dessa vida não se seguiria outra, eu daria de ombros para o Batismo, o púlpito e toda a cristandade. Pois repara bem um cristão e compara-o com outras pessoas que não creem, vivem na gandaia, têm e fazem o que querem e, quando chegam ao fim da vida, diz Jó [4.21], descem num instante e nem se dão conta, jamais experimentam o que é verdadeiro sofrimento ou tristeza, aflição ou amargura. Em comparação com esses, nós, que querermos ser cristãos, temos que passar por toda sorte de tormento e infortúnio; [as pessoas] nos desprezam, repudiam-nos, caluniam-nos e nos xingam, hostilizam-nos e acham que não temos o direito de viver sobre a terra; temos que esperar, diariamente, o pior, como o diabo e o mundo possam nos prejudicar. Quem quereria cometer a besteira de tornar-se um cristão se a vida futura nada fosse? Quem não poderia dizer: já que aqueles têm vida boa e vivem na gandaia, também quero fazer como os outros! Para que vou me expor, para que me atormentem e eu tenha que aguentar esse sofrimento, ardil, ódio e inveja do mundo? Isso, sem mencionar que um cristão ainda tem que passar por tanta tristeza e pesar interior e tanto temor e pavor da morte, do pecado e da ira de Deus que, na verdade, são as verdadeiras tribulações.

Pois, aquele sofrimento exterior ainda é brincadeira e, apenas, o á-bê-cê da miséria e do sofrimento dos cristãos, [quando] o mundo os persegue, escorraça e aplica toda sorte de malignos ardis. Mas o que vai fundo é o medo que levam no coração ante a ira de Deus, temendo a morte eterna, que tenham que ser camaradas do diabo no abismo do inferno. Isso lhes oprime o coração dia e noite, têm que se bater com isso a ponto de suarem sangue, de modo que eu preferiria ficar encarcerado um ano inteiro, sofrendo fome e sede, a passar um dia, sequer, com esse medo infernal do diabo, com o qual ele acomete os cristãos que, afinal, creem e estão certos da futura ressurreição e vida eterna que lhes está preparada e, por outro lado, do juízo e do fogo eterno sobre os maus. E, justamente, por saberem disso, não têm descanso até serem salvos desse vale da desolação. Pois, aqui, têm diante de si dois caminhos, além do diabo e de sua própria consciência contra si, que lhes diz que não são pios e têm a Escritura por testemunha de que somos todos pecadores e merecemos a condenação; isso o diabo pode aproveitar para torturar a ponto de se suar frio, tendo que lutar para resistir contra isso na fé, para não afundar na depressão e no medo, mas permanecer confiante de que Deus lhe seja gracioso e o queira levar para o céu, para junto de si. Disso, a maioria nada sabe, não temem nem a ira nem o juízo de Deus, nem o diabo ou a morte; pensam que, quando morrerem, estará morrendo uma vaca e, em quanto isso, ficam seguros e alegres, nada experimentam desse tormento. Por isso o cristão, certamente, é uma pessoa extremamente miserável, acima de tudo que se possa chamar de miserável, porque seu coração tem que assar diariamente no fogo, constantemente apavorado e tremendo de medo sempre que lhe passa pela cabeça a morte e o rigoroso juízo de Deus, tendo que se preocupar constantemente se ele indignou a Deus e mereceu o inferno, ainda que seja reto e bem treinado na fé. Pois esses pensamentos não largam dele. Na verdade, parecem muito mais frequentes e fortes do que os pensamentos bons. Por isso, veem-se muitas pessoas profundamente deprimidas e abatidas nessa tribulação e aflição do coração, a ponto de não o dizerem a ninguém, nem terem prazer, nem alegria, nem terem desejo por esta vida.

Por isso, S. Paulo diz, agora: nós teríamos que estar loucos e ser bobos ao nos meter nessa aflição e tristeza, nesse medo e tormento, sem estar seguros da morte e do inferno um momento sequer, se não tivéssemos outra coisa senão esta vida! De que nos adiantaria obter todos os bens do mundo na terra, tornando-nos, para tal, cristãos e tomando sobre nós esse sofrimento? Quem suportaria passar a sua vida com desolação e tormento e nada receber em compensação senão esta vida?

Os pagãos disseram sabiamente: qui mortem metuit, quod vivit, perdit idipsum, tolo é quem tem medo da morte, pois, com isso, perde sua própria vida. Essas seriam palavras boas, se a gente conseguisse praticá-las. Pois isso todo mundo percebe muito bem por si mesmo que, com esse temor, não consegue mais do que estragar, ele próprio, esta vida e que ela para nada lhe serve e nunca mais o deixará contente, como se vê naqueles que se encontram em profundo pesar, não encontrando conforto nem alegria, ainda que a gente os enfeite com todas as joias de ouro, entupa da melhor comida e bebida e lhes apresente toda sorte de diversão e música. Pois não têm nenhum prazer na vida, só pensam na morte e já se encontram na morte. Por isso, dão o conselho de que o melhor é, simplesmente, despachar todo esse medo e tirá-lo da cabeça à força, pensando: para que vamos nos preocupar? Uma vez mortos, estamos mortos. É o que disseram (como S. Paulo apontou depois): “Comamos e bebamos, hoje ou amanhã estaremos mortos” [1 Co 15.32], etc. Isso não faz justiça à realidade e significa, simplesmente, ignorar a ira de Deus, o inferno e a condenação.

Mas isso os cristãos não podem fazer. Não se pode eliminar [este fato] desse jeito do coração, que gostaria de crer e que se sente mais forte à medida em que a fé luta para fortalecer-se. Isto equivale a dizer que, em nenhum momento, [o cristão] está [absolutamente] seguro da sua vida. Ele sempre tem diante dos olhos o julgamento de Deus e o fosso infernal. É preciso confortar as pessoas [nessa situação] com a seguinte pregação: meu caro, embora tu sintas isso e o fato de viver assim te doa incessantemente, sendo um pobre miserável, conforma-te e saibas que, necessariamente, é assim porque tu és um cristão. Caso contrário, não passarias por essa tortura. Não deves resistir a isso, mas, sim, assegurar-te com fé firme de que o teu Cristo que, também, ressuscitou dos mortos, passou por essa aflição e medo do inferno, mas, por sua ressurreição, tudo superou. Por isso, mesmo que eu seja um pecador digno da morte e do inferno, este deve ser o meu consolo e a minha vitória: meu Senhor Cristo vive e, além disso, ressuscitou para me livrar, enfim, do pecado, da morte e do inferno.

Com essa fé, os cristãos precisam mitigar seu sofrimento em manejar o infortúnio. Caso contrário, seria impossível confortar um coração entristecido e intimidado ou repelir os pensamentos com alguma alegria na terra. Mas o que permite isso é o fato de esse homem, Cristo, dizer que ele é o Deus e o Salvador dos miseráveis, não dos que vivem na devassidão, sem medo algum, e, sim, dos que temem o diabo e o inferno, estes devem aceitar o batismo, o púlpito e o evangelho e concluir o seguinte: o fato de eu sentir que tenho medo do inferno e do juízo de Deus é um sinal seguro de que, também, sou um cristão e tenho algo da fé; pois quem fica horrorizado com aqueles, com certeza, acredita na existência de um inferno e um céu; por outro lado, quem não tem esse medo, também nada crê. Por isso, justamente, nesse medo e pavor, vou me confortar e dar uma reviravolta pela fé, dizendo ao diabo e ao meu coração: tu me aterrorizas com pecado e inferno, mas Cristo me fala do céu, da justiça, da vida e da bem-aventurança eternos. Ele me valerá mais do que todo meu sentir e pensar. O que importa, então, é lutar sempre e prevenir-se dessa forma, agarrando e mantendo firme esse artigo, pois ele será necessário na vida e na morte.

(págs 326-331)

[...]

Pois, assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos também serão vivificados. [1ª Cor. 15.22]

S. Paulo fala, aqui, apenas dos cristãos, os quais ele quer ensinar e confortar com este artigo; pois, mesmo que todos tenham que ressuscitar, também, os não-cristãos, só que, para eles, [a ressurreição] não será conforto nem alegria, uma vez que ressurgirão não para a vida, mas, para o juízo. Por isso, também, agora, não se trata de uma pregação confortadora e alegre para o mundo e os ímpios, ao ouvirem esse artigo, conforme o senti em mim mesmo quando eu queria ser um mogne santo – e eu era o mais devoto, a ponto de preferir ouvir a respeito de todos os diabos no inferno a ouvir sobre o dia derradeiro e os meus cabelos ficavam em pé só de pensar nisso. Pois fora o fato de o mundo todo ter a mentalidade de não querer renunciar a esta vida e morrer, levando um susto quando se fala da morte ou da vida no além, nós, todos, participamos da baboseira da santidade própria, acreditando que, com nossa vida e obras, deveríamos saciar o juízo de Deus e merecer o céu, quando, na verdade, com isso, nada mais conseguíamos do que piorar e detestar ainda mais esse dia. Nem quero falar da outra multidão grosseira dos que, aqui, só buscam seu prazer e conforto, desprezam a Palavra de Deus e não dão um centavo por Deus e seu Reino. Se esses se sentem atormentados e não gostam de ouvir [falar] da bem-aventurada ressurreição, isso não causa surpresa. Mas, para nós, essa pregação é puro conforto e alegria, porque ouvimos que já temos, lá em cima, no céu, o nosso melhor tesouro no qual nos alegramos e, não por último, o fato de que ele [nos] ressuscitará e levará para lá, com a facilidade com que se desperta uma pessoa do sono, de modo que sofrimento e dor deixarão de ser e nem mundo nem diabo vão nos atormentar e nos entristecer mais. Ao invés, como agora eles nos perseguem e torturam, o jogo se inverterá, de modo que gritarão de dor eternamente, ao passo que nós nos alegraremos eternamente. Pois, como Cristo será juiz sobre retos e maus, eles, naqueles dias, também terão que aparecer, para receber seu juízo e punição por aquilo que cometeram em Cristo e em nós, por maldade impenitente e diabólica.

[pág.s 338-339]

(LUTERO, Martinho. O Capítulo 15 [da Primeira Carta] de S. Paulo aos Coríntios. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Ed. Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra. 2005, “O capítulo 15 da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios”, vol. 9, tradução de Walter O. Schlupp, páginas indicadas no texto)



domingo, 8 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 8

                                                                                                                                                                                                                                                                        

O TEMPO E O SÁBADO - PARTE II

E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele tinha descansado de toda a obra que Deus criou, assim o fez.
( Gênesis 2:3)

Em Mateus 12 [sic. Mc 2.27], Cristo diz: “O sábado foi feito por causa do ser humano, não o ser humano por causa do sábado”. Contudo, aqui, Moisés silencia sobre o ser humano e não diz explicitamente que o sábado foi confiado às pessoas. [Limita-se, porém, a] dizer que Deus abençoou o sábado e o santificou para si. Isso, ele não fez com nenhuma outra criatura. Não santificou para si o céu, nem a terra, nem qualquer outra criatura, mas santificou para si o sétimo dia. Isso significa, de modo especial, que devemos entender que o sétimo dia deve ser usado principalmente para o culto a Deus. Pois santo é o que foi dedicado a Deus e separado de todos os usos profanos. Por isso, santificar significa escolher para usos sagrados ou para o culto a Deus. Desse modo, Moisés usa essa expressão mais vezes, também quando fala de vasos sagrados.

Logo, conclui-se dessa passagem: se Adão tivesse permanecido na inocência, ele teria mantido sagrado o sétimo dia, isto é, teria ensinado, neste dia, seus descendentes sobre a vontade de Deus e o culto a ele; teria louvado a Deus, dado graças, sacrificado etc. Nos outros dias, teria cultivado o campo, cuidado dos animais. Aliás, ele também manteve sagrado o sétimo dia, depois da queda, pois nele ensinou seus filhos, conforme atesta o sacrifício oferecido pelos seus filhos, Caim e Abel. Portanto, o sábado foi destinado ao culto a Deus desde o início do mundo.

Caso a natureza tivesse permanecido inocente, ela teria celebrado a glória e os benefícios de Deus. No sábado, os seres humanos teriam conversado [entre si] sobre a inestimável bondade do Criador; teriam sacrificado, orado etc. Pois é isso que significa o verbo “santificar”.

Além disso, inclui-se aqui também [o conceito d]a imortalidade do gênero humano, conforme atesta sabiamente a Carta aos Hebreus [3.18] ao se referir ao descanso de Deus com base no Salmo 95[.11]: “Não entrarão em meu descanso”. Ora, o descanso de Deus é eterno. Adão teria vivido um certo tempo no paraíso conforme a vontade de Deus; depois disso, teria sido arrebatado para aquele descanso divino que Deus não só quis indicar aos seres humanos, mas também entregá-lo a eles por meio da santificação do sábado. Nesse caso, a [própria] vida animal teria sido feliz e santa, espiritual e eterna. Agora, nós, miseráveis, perdemos essa felicidade da vida física por causa do pecado e, enquanto vivemos, estamos em meio à morte. No entanto, como o mandamento do sábado é dado à Igreja, indica-se que também aquela vida espiritual será restituída a nós por meio de Cristo. Assim, os profetas examinaram cuidadosamente aquelas passagens em que Moisés aponta secretamente para a ressurreição da carne e para a vida imortal.

Ademais, mostra-se aqui que o ser humano também foi criado principalmente para o conhecimento de Deus e o culto a ele. Pois o sábado não foi instituído por causa das ovelhas e dos bois, mas devido aos seres humanos, para que eles praticassem o conhecimento de Deus e crescessem nele. Portanto, mesmo que o ser humano tenha perdido o conhecimento de Deus por causa do pecado, Deus quis que o mandamento sobre a santificação do sábado permanecesse; que, no sétimo dia, fosse exercida a Palavra, fossem praticados outros cultos instituídos por ele, para que pensássemos, primeiramente, sobre a nossa condição, ou seja, que esta natureza foi criada principalmente para o conhecimento e a glorificação de Deus.

Além disso, [o sábado foi instituído] para que também retivéssemos o coração certa esperança da vida futura e eterna. Porque todas as coisas que Deus quis que fossem feitas no sábado são sinais claros de uma outra vida depois desta. [Caso contrário,] por que seria necessário que Deus falasse conosco por meio de sua Palavra se não fosse para viver numa vida futura e eterna? Se não se deve esperar uma vida futura, por que não vivemos como pessoas com quem Deus não fala e que não o conhecem? Mas como a majestade divina só fala com o ser humano, e só o ser humano o conhece e o apreende, segue-se, necessariamente, que há uma outra vida depois desta, a qual devemos alcançar mediante a Palavra e o conhecimento de Deus. Pois esta vida temporal e presente é uma vida animal, que todos os animais, que não conhecem a Palavra nem Deus, vivem.

É isso que significa o sábado ou o descanso divino, no qual Deus fala conosco através da sua Palavra e nós, por nossa vez, falamos com ele por meio de invocação e fé. Os animais, como cães, cavalos, ovelhas, bois, certamente também aprendem a ouvir e a entender a voz do ser humano e também são conservados e alimentados por ele. Mas nossa condição é melhor, pois ouvimos a Deus, conhecemos sua vontade e somos chamados para uma certa esperança de imortalidade. Estes são testemunhos claros das promessas sobre a vida eterna que Deus nos revelou por meio da sua Palavra, depois dessas indicações obscuras, como aquela relativa ao descanso de Deus e à santificação do sábado. Mas essas [revelações] sobre o sábado são bastante claras. Imagina se não houvesse [outra] vida depois desta. Não se concluiria que não temos necessidade de Deus nem da sua Palavra? Pois aquilo que necessitamos ou fazemos nesta vida também podemos ter [e fazer] sem a Palavra. Os animais pastam, vivem, se alimentam, embora não tenham a Palavra de Deus nem a ouçam. Por que se necessitaria da Palavra para o alimento e para a bebida, que já foram criados antes?

Portanto, o fato de Deus dar a Palavra, ordenar a que se a pratique, que se santifique o sábado e seu culto, tudo isso demonstra haver [outra] vida depois desta e que o ser humano foi criado não só para a vida corporal, como os outros animais, mas para a vida eterna, assim como Deus, que ordena e institui estas coisas, é eterno.

Mas aqui surge outra pergunta, que já tocamos acima, isto é, sobre a queda de Adão, ou seja: quando ele caiu, no sétimo ou num outro [dia]? Embora não se possa precisa-lo, tenho boas razões para imaginar que ele tenha caído no sétimo dia. Ele foi criado no sexto dia; Eva também foi criada na tarde ou no fim do sexto dia, enquanto Adão dormia. No sétimo dia, que fora santificado pelo Senhor, Deus fala, de manhã, com Adão, instrui-o quanto ao seu culto e proíbe-lhe de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Pois esta é, em si, a função do sétimo dia, pregar e ouvir a Palavra de Deus. Desde então, permaneceu, na Escritura e no costume, a prática de se destinar o tempo da manhã para a oração e os cultos, como diz o Salmo 5[.3]: “De manhã estarei parado diante de ti e verei”.

Assim, na manhã do sétimo dia, Adão parece ter ouvido o Senhor que lhe confiou o cuidado da economia e da política, juntamente com a proibição do fruto. Satanás estava impaciente com essa belíssima criação e ordem e invejava tamanha felicidade do ser humano, que na terra e todas as coisas estivessem abundantemente a seu dispor e que, depois de uma vida corporal tão feliz, tivesse a esperança certa da vida eterna, que ele próprio, Satanás, havia perdido. Por isso, talvez por volta do meio-dia, depois da conversa de Deus, ele próprio também conversa com Eva. Assim costuma ser até hoje: onde está a Palavra de Deus, ali também Satanás se empenha em semear a mentira e a heresia, pois lhe dói que nós, por meio da Palavra, como Adão no paraíso, nos tornemos cidadãos dos céus. Por isso, ele seduz Eva para o pecado, e vence. O texto diz claramente que, quando o calor do dia já tinha cessado, o Senhor veio e condenou Adão à morte, juntamente com toda a sua descendência. Eu me convenço facilmente de que tudo isso aconteceu no sábado, no único dia – e este não completo – em que Adão viveu no paraíso e se alegrou com seus frutos.

Foi por essa razão que o ser humano perdeu essa felicidade devido ao pecado. Mas Adão não teria vivido ocioso no paraíso se tivesse permanecido na inocência: no sábado, ele teria instruído seus filhos; com a pregação bíblica, teria honrado a Deus com os merecidos louvores e, com a reflexão sobre as obras de Deus, teria estimulado a si e aos outros para a ação de graças. Nos outros dias, ele teria trabalhado, cultivando o campo ou caçando, mas de uma maneira bem diferente do que acontece hoje. Pois, para nós, o trabalho é um incômodo, mas para Adão teria sido um enorme prazer, mais agradável do que o ócio. Por isso, assim como as outras calamidades desta vida nos lembram do pecado e da ira de Deus, também o trabalho e a dificuldade de obter o sustento nos devem lembrar do pecado e convidar para a penitência.

(LUTERO, Martinho. Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. 1535-1545. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2014, vol. 12, tradução de Geraldo Korndörfer, págs. 115-118)



domingo, 10 de maio de 2015

Por que as pessoas fazem tatuagens idiotas?

Um artigo curioso e interessantíssimo publicado no Vice:

Um Psicólogo Explica Por Que as Pessoas Fazem Tatuagens Idiotas

Jules Suzdaltsev

Tatuagens dizem tudo que você precisa saber sobre a sociedade na qual elas foram feitas – e os EUA estão testemunhando uma epidemia de tatuagens escrotas. Não tenho números para sustentar essa afirmação, porque ninguém pensou em pesquisar isso, mas realmente parece que há mais tatuagens horríveis do que nunca. Por todo lado, você vê gente ostentando marcas clichês, citações idiotas, nomes de ex (lembra de "Winona Forever"?), frases mal traduzidas em outras línguas e, num caso muito bizarro, terríveis tatuagens faciais.

Mas por que as pessoas ainda estão tatuando arame farpado em volta do bíceps e borboletas no cóccix? Tentando entender melhor a questão, falei com Kirby Farrel, professor da Universidade de Massachusetts especializado em antropologia, psicologia e história relacionadas ao comportamento humano. Seu último livro, Berserk Style in American Culture, discute o vocabulário da cultura pós-trauma da sociedade norte-americana.

VICE: Qual é o seu interesse em tatuagens péssimas?
Kirby Farrel: Estou interessado principalmente no que você pode chamar de "a antropologia da autoestima e identidade". Penso nas tatuagens como um método que as pessoas usam para tentar se sentir significantes no mundo. Trabalho muito com Ernest Becker – você já ouviu falar do livro dele? Acho que ele ganhou um prêmio Pulitzer com esse livro chamado A Negação da Morte.

Sim, já ouvi falar.
Bom, ele argumenta que somos únicos entre os animais, porque somos sobrecarregados com a consciência do futuro, da futilidade, da morte e assim por diante. Estamos constantemente inventando defesas. A cultura é uma defesa contra o sentimento de opressão, futilidade e perdição. Culturas estão cheias de valores e belezas que te fazem sentir que sua vida é significativa e que tem um significado duradouro, mesmo que limitado. Então, você pode dizer que tatuagens são expressões culturais de heroísmo e individualidade.

Logo, isso se traduz numa epidemia de tatuagens idiotas?
Muitas pessoas dizem que fizeram uma tatuagem como uma lembrança de alguém ou algum evento. Por exemplo, tatuar a letra de uma música. As frases, claro, acabam sendo os maiores clichês. Mas elas estão te exortando a ser um indivíduo forte, imitando todos os outros animais que também pintam clichês na própria pele.

E onde esses caminhos se cruzam? Por um lado, a pessoa quer algo que lhe dê a sensação de significância e autoexpressão, mas acaba fazendo exatamente o oposto disso (o que consideramos uma "tatuagem ruim" ou uma "tatuagem clichê")?
Acho que a fantasia de ser especial, único, importante e heroico, que é do que estamos falando, é complicada quando vivemos numa cultura que celebra esses valores. Estamos sempre bombardeando outros países para preservar nossa "liberdade", o que presumivelmente significa individualidade. Mas, ao mesmo tempo, nossa cultura é intensamente conformista. Temos empresas constantemente tentando imprimir sua marca na consciência popular. Então, por exemplo, se você está tatuando algum clichê bobo de uma música pop, como "Vou te amar para sempre" ou "Não seja um imitador", na verdade você está se marcando com entretenimento industrial, porque grupos de rock, como sabemos, são basicamente máquinas de fazer dinheiro, empregando modelos financiados pela indústria do entretenimento.

Então por que as pessoas fazem isso?
Uma resposta é que somos animais incrivelmente sociais. Você tem de ter em mente que o eu não é uma coisa. É um evento. Se você está em sono profundo, o eu realmente não existe. A neuroquímica do eu não está ali. Desse ponto de vista, nos sentimos mais reais quando outras pessoas nos afirmam, reasseguram e reforçam nossa identidade. Nos rituais sociais pelos quais passamos, como dizer "Oi, como vai? Bem, e você?", você não espera ouvir qualquer informação pessoal. É só uma confirmação de que vocês dois existem e reconhecem um ao outro. De certa maneira, tatuagens também funcionam assim. Elas chamam atenção para você e fazem você se sentir real, mesmo se essa atenção fizer você se sentir membro de um grande grupo. Uma tatuagem te diz que você é parte de uma tribo de colegas tatuados, uma tribo linda e significativa. Você pode até compartilhar símbolos com outra pessoa! Ao mesmo tempo, por causa do fenômeno das marcas, isso faz você se sentir mais esperto do que o cara ao lado, que não sabe o suficiente para comprar seu produto em particular ou sua moda em particular.

Parece que você está dizendo que a própria cultura é clichê. Assim, tentando emular essa cultura social, fazemos essas tatuagens ruins.
A cultura está constantemente nos tentando com fantasias de singularidade e heroísmo. Você é tentado a comprar uma nova BMW, porque isso promete te fazer sentir heroico nas ruas. Você vai se destacar na multidão. A multidão é formada de pessoas comuns, elas vão morrer um dia e serão esquecidas. Mas todo mundo está olhando para você, você está sob os holofotes, você é o herói. E, ao mesmo tempo, se você ajustar a perspectiva sutilmente, eles estão fazendo as pessoas comuns acharem que é OK adorar heróis. Você é convidado a identificar e admirar o rico, o heroico, o prestigioso – e, se você os admira, isso se torna "minha música", "meu cabelo" ou "meu produto". Na verdade, você compartilha o glamour com o poder fetichista das coisas que admira.

Você está dizendo que isso é ser enganado por um movimento social de adoração ao herói?
Bom, se você está ou não sendo "enganado", depende de como você se sente sobre a validade e o pertencimento dos clichês. Quando você quer se tatuar com um verso da sua música favorita, você certamente está sentindo um tipo de excitação emocional e admiração por essa música. Um tipo de êxtase romântico. Você ouve as pessoas dizerem "Isso tem um significado especial para mim". É como uma auréola emocional em torno desse objeto.

Por que esse sentimento é significativo para nossa identidade própria?
Acho que, no geral, as pessoas estão com medo do futuro e se agarram a um ritual, um lema, um clichê familiar que elas acham significativo. É como um cobertor de segurança para dar sentido à sua vida, principalmente quando sua moral está sob pressão ou você está realmente empolgado com algo bom. Mas a questão é que, em qualquer um desses eventos, o clichê não parece ser um clichê. Isso parece ter um significado especial.

OK. Mudando um pouco de assunto: tatuagem é uma coisa que existe há milhares de anos. Alguns dos primeiros humanos já tinham tatuagens. Você acha que existe algo inerente à natureza humana que nos faz querer nos tatuar?
Claro. O cadáver que foi encontrado congelado e preservado nos Alpes, que acho que tem uns 5 mil anos – ele está num museu na Itália, você pode passar para dar um oi –, a última pesquisa mostra que esse corpo tem várias tatuagens. Elas tendem a ter um desenho abstrato. Baseado na localização delas, a hipótese é que elas serviam para se distrair de coisas físicas desconfortáveis, como artrite. Ou elas provavelmente tinham algum tipo de significado mágico. Pensando nisso, de certa maneira, todos os nossos comportamentos tendem a ser muito mágicos. Imaginamos que há algum poder especial em nossos símbolos, em nossos lemas, em nossas marcas, que isso de alguma forma eleva nosso humor, nos faz sentir mais fortes, mais capazes e melhores sobre nós mesmos.

E você acha que isso é algo inerente à humanidade?
Claro. Como pessoas, estamos regularmente à beira do pânico existencial. Becker disse que, se você visse o mundo realisticamente (quão vulnerável e totalmente insignificante você é, considerando o cosmo), você ficaria louco. Então, você precisa constantemente de histórias que constroem sua autoestima e fazem você se sentir significante, o que é fornecido pela cultura.

Logo, essas tatuagens escrotas são uma representação desse mecanismo de defesa?
Sim, exatamente. São representações físicas e artísticas de valores com que você se identifica. Vivemos nesse mundo onde existe um tipo de racismo recorrente e repentino, que vemos desde os anos 60 ou até desde a Guerra Civil. As condições de trabalho são extremamente punitivas, exigentes e despersonalizantes para quem está na base. Você não sente que tem direito à própria identidade. Então, as pessoas se sentem especialmente pressionadas para tentar encontrar seu próprio reforço mágico, porque há coisas em que a cultura não pode te ajudar. Você vê dinheiro, morte e culpa quando as pessoas querem se sentir seguras e como se estivessem no comando em termos de autoestima e bem-estar.

Muitas tatuagens parecem um tanto inconsequentes. Como as pessoas racionalizam a permanência de uma tatuagem em relação à própria mortalidade?
Muitas pessoas, especialmente quando são jovens, imaginam que serão jovens para sempre. Afinal de contas, se a mágica de que estamos falando sobre a cultura realmente funcionar, então, você pode se sentir invencível e imortal, por assim dizer. E é um clichê adolescente achar que você vai viver para sempre – é por isso que eles se arriscam, usam drogas, etc. Eles não conseguem imaginar que vão crescer e parecer diferentes do ideal cultural. Você nunca teve de se preocupar em ficar doente nem nunca esteve em apuros. Você nunca teve de se preocupar em ficar velho e ter de aceitar diminuir suas perspectivas, seus poderes, suas fantasias.

Você acha que isso é uma reação ao medo, ou na verdade resultado da falta de experiência?
Bom, você não acha que são as duas coisas?

Acho que sim.
Você tem medo, mas não admite isso, porque poderia prejudicar sua moral frágil. Uma moral danificada te torna menos eficiente, menos seguro, menos produtivo, etc. Então, você nega que tem medo. Provavelmente, o mecanismo básico da cultura é fingir que tudo está bem e que você não está com medo.

Mas estamos com medo.
Sim, com certeza. Estamos vivendo um momento em que as pessoas estão tão famintas por autoestima, aprovação e confiança, que estão dispostas a dizer e fazer coisas realmente bizarras e idiotas, porque com isso elas se sentem diferentes. Assim, elas se sentem únicas, significativas e vivas.



domingo, 14 de setembro de 2014

Parece haver um teto para a expectativa de vida

A matéria é do HypeScience:

Estudo responde se é possível viver para sempre

De acordo com um novo estudo francês, provavelmente existe uma “barreira biológica” que impede seres humanos de viver para sempre.
Os pesquisadores descobriram isso enquanto tentavam responder a velha questão da “imortalidade”.

Eles estudaram duas categorias de pessoas que viveram longas vidas: primeiro, analisaram 1.205 mortes registradas entre 1899 e 2013 de “supercentenários”, pessoas que morreram com idade de 110 anos ou mais; em seguida, estudaram 19.012 atletas que competiram nos Jogos Olímpicos de 1896 a 2012, já que atletas são considerados pessoas com grande longevidade.

Os pesquisadores concluíram que a longevidade dos supercentenários aumentou sem parar até 1997, quando a taxa se estabilizou. Um teto semelhante foi observado entre o grupo de atletas.

De acordo com a equipe, estas tendências fornecem sinais de um “limite” no aumento de longevidade, o que não é uma boa notícia para pessoas com expectativa de vida média.

Se tivesse havido uma tendência de subida constante, ou seja, se os cientistas tivessem encontrado evidências de pessoas vivendo cada vez mais tempo, daí poderíamos crer na existência de uma espécie de “imortalidade”. Em vez disso, os resultados apoiam as teorias de uma “barreira invisível” a um aumento da longevidade.

No entanto, os pesquisadores advertem que o número de pessoas estudadas é “relativamente pequeno” e o período de observação restrito, ou seja, a tendência observada pode ser apenas uma anomalia temporária. A esperança é a última que morre (trocadilho não proposital).

O estudo foi publicado na revista Journal of Gerontology.



terça-feira, 14 de maio de 2013

Se aguentares até 2045 poderás ser imortal!

Segura firme aí, 'merrmão', faltam só 32 anos para você poder se tornar imortal.

Bom, não exatamente "você", mas a sua consciência. É o que propõe o projeto 2045 Initiative, patrocinado - a exemplo de certas equipes inglesas de futebol - por um bilionário russo.

A notícia já circulou em 2012, mas voltou a repercutir no Mashable no mês passado (abril/2013), e a matéria abaixo, publicada em 01/08/12 é do Megacurioso:

Bilionário russo pretende propiciar a imortalidade humana a partir de 2045

O magnata tem a intenção de alojar mentes artificiais humanas em avatares holográficos que durem para todo o sempre!

Por Maurício M. Tadra

Um magnata russo está planejando alcançar a imortalidade cibernética dentro dos próximos 33 anos. A ideia é muito mais séria do que pode parecer à primeira vista, tanto é que o multimilionário do país da vodka já tem uma equipe inteira de profissionais trabalhando no desenvolvimento de unidades holográficas funcionais com capacidade de carregar um cérebro artificial humano. Agora, o russo está tentando reunir mais bilionários ao redor do mundo interessados em colaborar financeiramente com o intento.

O homem por trás do projeto “2045 Initiative” — descrita como uma organização sem fins lucrativos — é Dmitry Itskov. A lista de metas e prazos que o russo estipulou para o desenvolvimento da obra é um tanto ambiciosa. Segundo a imagem acima, divulgada no site oficial do projeto, as ações preteridas são as seguintes:

  • Até 2020: a criação, com sucesso, de um avatar para o qual um cérebro humano possa ser transplantado.
  • Até 2025: conseguir transplantar com sucesso o cérebro de uma pessoa no final da vida para o avatar.
  • Até 2030: criar um cérebro artificial.
  • Até 2035: conseguir, com sucesso, transplantar o cérebro artificial para o avatar.
  • Até 2040: a criação de um corpo holográfico.
  • Até 2045: finalmente transplantar o cérebro artificial humano para o avatar holográfico, representando o ser imortal.


No entanto, o conceituado engenheiro Dario Borghino, da Polytechnic University of Turin, alertou a ideia do projeto para o fato que, em muitas vezes, as tecnologias mais improváveis se tornam mais fáceis de serem aceitas quando olhamos para um futuro distante. Contudo, se pensarmos com racionalidade, 2045 não está tão longe assim... “Então, qual a probabilidade de um projeto desse ter sucesso?”.

Cá com meus botões, concordo com Borghino. E você, o que acha?






quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 12

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 11

O último capítulo de Eclesiastes é um poema belíssimo sobre a decadência inexorável da vida de cada um de nós.

O envelhecimento nos acomete a todos os que tivemos o prazer de passar pela juventude e ver os anos bons em que tínhamos força, curiosidade e vitalidade para experimentar os prazeres da vida, desde os mais simples até os mais complexos. 

O chamado constante do Pregador à sabedoria não deixa de ser um lembrete para que todos os jovens (de corpo, alma  e espírito) se preparem para o destino inevitável: a morte.

Quando este preparo é feito sabiamente, não deixa de ser uma espécie de "décadence avec élégance" ("decadência com elegância"), já que tolo é aquele que quer retardar indefinidamente ou se revolta contra o processo orgânico inevitável que nos leva ao fim da vida. 

E a morte deve ser vista, também, como uma celebração da vida, como um retorno à casa do Pai (12:7), por mais que seja doloroso pensar que existe um final para a existência, seja a nossa própria, seja a dos nossos queridos. 

É nesse espírito que o Pregador escreve as palavras finais de Eclesiastes, chamando a atenção do jovem para Deus, que é o grande Provedor de todas as coisas, que é o grande sustentador da vida, mas é também Aquele que nos recebe de braços abertos depois de uma vida entregue a Ele.

Assim, a primeira parte do capítulo 12 de Eclesiastes exorta o leitor a lembrar-se do Criador em três momentos (três "antes"), um no v. 1 (que mostra a perda da alegria de viver), outro nos versículos 2 a 5 (que falam da deterioração do corpo) e o terceiro nos versículos 6 e 7 (que se referem ao fim propriamente dito, à morte). 

No primeiro ANTES (v. 1), o Pregador fala da perda da alegria de viver, da importância de se lembrar de Deus e do dom da vida "antes que venham os maus dias" e cheguem os anos em que se possa dizer que neles não há mais prazer, alegria e felicidade. 

Este não deixa de ser um reforço à pregação que ele vinha fazendo, ou seja, de se aproveitar a vida, pelo simples fato de se existir, nos bons e maus momentos. 

Nos vv. 2-5, o Pregador diz que devemos lembrar do Criador ANTES que a decadência física seja incontornável, e a partir daí começa a descrever de uma maneira poética belíssima, como o nosso corpo – paulatina e definitivamente – não responde mais aos estímulos que no circundam. 

É claro que a tendência natural do ser humano é passar por uma fase de esplendor físico na juventude, e a partir de uma certa idade, o organismo começa, por assim dizer, a se desconstruir, assim como o Pregador vinha desconstruindo – nos capítulos anteriores - toda a percepção da vida que o senso comum dita. 

Há um momento final, entretanto, em que o corpo entra em colapso, e a partir daí a vista escurece, os ouvidos mal conseguem detectar o sussurro, o corpo treme, os dentes caem, o prazer sexual (o perecer do "apetite" do v. 5) se esvai, e o sono não serve mais de repouso (o "levantar-se à voz das aves" do v. 4). 

Depois dessa descrição triste, mas realista, vem o desenlace último, o terceiro ANTES (vv. 6), que é o rompimento do cordão de prata e do copo de ouro, o cântaro que quebra junto à fonte, e para mais nada serve senão ser jogado fora. 

Perde o seu viço e a sua utilidade, simplesmente não existe mais. 

Tudo poderia terminar por aí, mas Salomão conclui dizendo que ainda que o pó volte à terra, inservível para os propósitos humanos, por outro lado o espírito volta a Deus, que o deu (v. 7), porque "vaidade de vaidade, diz o pregador, tudo é vaidade" (v. 8). 

Não por acaso, esta é a sublime conclusão do discurso do Pregador, a mesma que ele já adiantara ao iniciá-lo (1:2). 

Mais que um discurso, este é um percurso que ele apresenta, o seu transcurso "debaixo do sol", expressão tão repetida em Eclesiastes, que dá a ideia de que a nossa vida é como um dia que amanhece, amadurece, desvanece e se despede ao escurecer:


1:3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?1:4 Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.1:5 Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.1:6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.1:7 Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.1:8 Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.1:9 O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Felizmente, há um retornar, não mais para o mesmo dia terreno, onde há lida e dor, mas também alegria e felicidade. 

Há um retorno à casa do Pai, ao Deus criador, ao Pai que espera o filho pródigo voltar para seu lar (Lucas 15), para o dia perfeito, conforme Salomão diz em seus Provérbios:


Prov 4:18 Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.Prov 4:19 O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.

Este dia perfeito, da luz divina, é o dia da alma imortal, conforme Calvino ensina:

2. ESPIRITUALIDADE E IMORTALIDADE DA ALMA, CONTUDO DISTINTA DO CORPO
Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito. Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido quando ocorre juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que "o espírito retorna então a Deus, que o deu" [Ec 12.7]. E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23.46], como também Estêvão o seu a Cristo [At 7.59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.
Entretanto, são absolutamente destituídos de senso aqueles que imaginam que a alma é denominada espírito por ser um sopro, ou força divinamente infundida nos corpos, a carecer, no entanto, de essência, comprovando-o não só a própria realidade, mas ainda toda a Escritura. Sem dúvida é verdade que, enquanto se apegam à terra mais do que é justo, os homens se fazem broncos; aliás, visto que se alienaram do Pai das Luzes [Tg 1.17], foram cegados pelas trevas, de sorte que não pensam que haverão de sobreviver à morte. Contudo, nem assim a luz lhes foi aniquilada nas trevas a tal ponto que não se sintam tangidos por algum senso de sua imortalidade. Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade? Ademais, tampouco é o corpo afetado pelo temor de uma penalidade espiritual; ao contrário, só recai na alma, do quê se segue que a alma é dotada de essência.
Já o próprio conhecimento de Deus comprova sobejamente que as almas, que transcendem ao mundo, são imortais, visto que um alento evanescente não chegaria jamais à fonte da vida. Enfim, quando tantos dotes preclaros dos quais a mente humana está enriquecida proclamam sonoramente que algo divino lhe é impresso, são outros tantos testemunhos de uma essência imortal. Ora, a sensibilidade que se instila nos animais brutos não vai além do corpo, ou, pelo menos, não se estende mais longe que às coisas que lhes estão adiante. Também a versatilidade da mente humana, a perlustrar céu e terra e os arcanos da própria natureza, e quando a todos os séculos compendiou no intelecto e na memória, cada evento a dispor em sua ordem, e dos fatos passados a deduzir os futuros, demonstra claramente que no homem se aninha algo distinto do corpo. Mediante a inteligência concebemos o Deus invisível e os anjos, o que ao corpo escapa totalmente; aprendemos as coisas que são retas, justas e honrosas, o que não podemos fazer pelos sentidos corpóreos. Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.
Estou abordando, apenas de leve, estes assuntos que mesmo os escritores profanos exaltam magnificamente, com estilo e expressão mais esplêndidos. Contudo, entre leitores piedosos será bastante um simples lembrete. Ora, se a alma não fosse algo essenciado, distinto do corpo, a Escritura não ensinaria que habitamos casas de barro e que na morte migramos do tabernáculo da carne, despojamo-nos do que é corruptível para que, por fim, no último dia recebamos a recompensa, em conformidade com o que, enquanto no corpo, cada um praticou.
Ora, por certo que essas referências e semelhantes a essas, que ocorrem com freqüência, não só distinguem claramente a alma do corpo, mas ainda lhe transferem o designativo homem, indicando ser ela a parte principal. Ora,quando Paulo exorta os fiéis [2 Co 7.1] a que se purifiquem de toda impureza da carne e do espírito, ele enuncia duas partes nas quais reside a sordidez do pecado. Também Pedro, chamando a Cristo "pastor e bispo das almas" [1 Pe 2.25], teria falado improcedentemente, se não existissem almas em relação às quais desempenhasse este ofício. Nem seria procedente, a não ser que as almas tivessem essência própria, o fato de que fala acerca da eterna salvação das almas, e que ordena purificar as almas, e que desejos depravados militam contra a alma [1 Pe 1.9; 2.11]; de igual modo, o autor da Epístola aos Hebreus [13.17] declara que os pastores velam para que prestem conta de nossas almas.
Com o mesmo propósito é o fato de Paulo [2 Co 1.23] invocar a Deus por testemunha contra sua própria alma, porquanto ela não se faria ré diante de Deus, se não fosse susceptível à penalidade. Isto expressa-se ainda mais claramente nas palavras de Cristo, quando ele manda que se tema àquele que, após haver matado o corpo, pode lançar a alma na Gehena de fogo [Mt 10.28; Lc 12.5]. Ora, quando o autor da Epístola aos Hebreus distingue Deus dos pais de nossa carne, como sendo o Pai dos espíritos, não poderia ele afirmar de modo mais claro a essência das almas.
Além disso, a não ser que as almas liberadas dos cárceres dos corpos continuassem a existir, seria absurdo Cristo representar a alma de Lázaro a desfrutar de bem-aventurança no seio de Abraão, e a alma do rico, por outro lado, destinada a horrendos tormentos [Lc 16.22,23]. Paulo confirma isso mesmo, ensinando que peregrinamos distanciados de Deus durante o tempo em que habitamos na carne; desfrutamos de sua presença, porém fora da carne. E, para que não me alongue mais em matéria de forma alguma obscura, acrescentarei apenas isto de Lucas [At 23.8]: ele menciona entre os erros dos saduceus o fato de não crerem na existência de espíritos e anjos.
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 1, pp. 180-182)

Tudo, portanto, que fazemos nesta vida interessa a Deus, em toda a extensão de nossa existência, e quanto antes nos lembrarmos para onde vamos (ou deveríamos ir), ou seja, quanto antes nos lembrarmos do nosso Criador, mais desfrutaremos esta vida aqui, com todas as suas limitações, mas também com todas as suas alegrias. 

Após ter promovido, pelo seu discurso-percurso, a desconstrução daquilo que era tido como sábio e proveitoso pela humanidade, o Pregador fincou 4 estacas sobre o terreno pantanoso e instável da vaidade humana, a saber: a sabedoria, a eternidade, a providência divina e o temor de Deus

Desses 4 pilares, apenas 2 têm o condão de tanto ser imanente como transcendente: a sabedoria e o temor de Deus. 

Os dois outros são transcendentes, estão acima das possibilidades do ser e do existir, e é nessa busca da sabedoria mediante o temor de Deus que podemos confiar que tanto a providência divina não nos faltará, como a eternidade nos está reservada pelo Pai que nos aguarda de braços abertos no final da jornada.

Os versículos finais de Eclesiastes (12:9-14), são uma espécie de assinatura do Pregador, um apelo à inspiração divina de suas palavras (vv. 10-11) e um último reforço ao conselho de temer a Deus (vv. 13-14). 

Conforme a experiência demonstra, sempre haverá novos e velhos conselhos a circular entre nós, e nunca os livros conseguirão dar conta deles, nem vale a pena ficar estudando-os tentando descobrir o segredo da vida(v. 12), pois a única coisa que realmente importa é viver e ser feliz com o que temos e alcançamos, e sempre temer a Deus e tê-lO em conta em todas as nossas atividades e em todos os nossos dias.

Se fosse possível resumir o ensino de Eclesiastes em poucas palavras, talvez elas seriam: "aproveite bem a sua vida e lembre-se de que a finitude é sua companheira inseparável, mas você pode ter o Infinito e o Eterno ao seu lado". Basta crer!



FIM



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 9


Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 8

O capítulo 9 de Eclesiastes começa ainda com o eco do último versículo do capítulo 8, ou seja, "o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol". 

O discurso do Pregador está perto do fim, e ele começa a preparar o leitor/ouvinte para a conclusão, não sem antes repetir alguns temas que já havia dito, e enfatizar a questão da morte, do tempo e do acaso, principalmente. 

No primeiro versículo, há um jogo interessante entre as palavras "amor" e "ódio", que provoca uma certa controvérsia, sobre se ambos se referem a Deus ou ao homem. 

Ambas as traduções são possíveis, como se percebe das diferentes versões em português:


"os seus feitos estão nas mãos de Deus; e, se é amor ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem" (Revista e Atualizada)

"O homem não conhece nem o amor nem o ódio; tudo isto lhe está pela frente" (Tradução Ecumênica)

"O que os espera, seja amor ou ódio, ninguém sabe" (NVI)

"o homem não sabe se Deus o ama ou odeia" (Bíblia do Peregrino)

"O homem não conhece o amor nem o ódio de tudo o que espera" (Bíblia de Jerusalém)

"Deus controla o que as pessoas sábias e honestas fazem e até o amor e o ódio delas" (NTLH)

O versículo, a meu ver, deve ser entendido dentro do seu contexto, que inclui o último versículo do capítulo 8, ou seja, realmente o homem não sabe o que lhe está reservado nesta vida, já que ele não é dono de si mesmo, nem do seu destino, e mesmo as situações sobre as quais ele imagina ter controle geralmente são as que mais lhes escapam das mãos. 

As palavras "amor" e "ódio" podem também significar, respectivamente, "aceitação" ou "rejeição" da parte de Deus, o que, de alguma maneira, se relaciona com o v. 7, em que o Pregador diz que o homem deve viver gostosamente, "pois Deus já de antemão se agrada das suas obras". 

Mais do que propriamente a predestinação, Salomão fala aqui da providência divina, de uma forma que a graça de Deus está em destaque. 

É interessante perceber que o próprio Calvino usa esses versículos para refutar o dogma escolástico de que a fé é uma conjectura moral, ou seja, a pessoa teria certeza de que tem fé em Deus se se sente em paz com Deus pelas obras que realiza:

38. IMPROCEDÊNCIA DO DOGMA ESCOLÁSTICO DE QUE A CERTEZA DE FÉ É UMA CONJETURA MORAL.

Daqui se pode ajuizar quão pernicioso seja esse dogma escolástico de que não podemos estabelecer de outro modo quanto à graça de Deus para conosco do que por uma conjetura moral, segundo cada um não se reputa indigno dela. Certamente, se houvéssemos de julgar por nossas obras que afeto Deus nos tem, confesso que não o podemos compreender nem pela menor conjetura do mundo. Como, porém, deve a fé responder à simples e graciosa promessa, não se deixa nenhuma possibilidade de dúvidas. Ora, pergunto, de que confiança seremos armados, se raciocinarmos que Deus nos é propício com esta condição: desde que a pureza de nossa vida assim o mereça? Entretanto, uma vez que, para tratar destas coisas destinamos seu devido lugar, por ora não iremos mais longe, sobretudo vendo que nada pode haver mais contrário à fé do que a conjetura ou qualquer outro sentimento que tenha algo parecido com a dúvida ou incerteza.E para isso torcem mui abusivamente o testemunho de Eclesiastes, que por vezes, têm nos lábios: "Ninguém sabe se, porventura, seja digno de ódio ou de amor" [Ec 9:1]. Ora, deixando de parte que esta passagem foi incorretamente traduzida na versão corrente, contudo, não pode ser desconhecido até mesmo ás próprias crianças o que Salomão tem em mente com palavras desta natureza, isto é, se alguém queira julgar do presente estado das coisas, as quais delas Deus persegue com ódio, as quais delas abraça em amor, em vão labora ele e se atormenta com nenhum proveito, uma vez que "tudo sobrevém igualmente ao justo e ao ímpio, ao que oferece sacrifícios e ao que não os oferece" [Ec 9.2]. Do quê se segue que Deus não atesta perpetuamente seu amor para com aqueles a quem tudo faz suceder prosperamente, nem manifesta sempre seu ódio para com aqueles a quem aflige.E Salomão faz isso para comprovar a fatuidade do engenho humano, quando em coisas sumamente necessárias de se conhecer ele se vê dominado de tão grande obtusidade. Como havia escrito pouco antes [Ec 3.19], não se pode discernir em que a alma do homem difira da alma do animal, visto que parece morrer da mesma forma. Se alguém daí queira inferir que a convicção que temos acerca da imortalidade das almas se apóia em mera conjetura, porventura com razão não será tido por insano? Portanto, porventura são dotados de são juízo esses que, porque não se pode alcançar nenhuma conclusão da percepção sensória das coisas presentes, concluem que nenhuma certeza existe da graça de Deus?
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, cap. II, p. 63)

Assim, os primeiros versículos do capítulo 9 de Eclesiastes ressaltam que "tudo sucede igualmente a todos" (v. 2), a crentes e incrédulos, a justos e injustos, o destino é o mesmo, o que dá a idéia de que somos todos, digamos, "descartáveis" no final. 

Nem "reciclados" somos, já que tudo jaz no esquecimento (v. 5). De nada adiantou amar, odiar, invejar, pois a vida se foi e tudo foi em vão (v. 6). 

Palavras duras, sem dúvida, se o Pregador tivesse parado por aí. Entretanto, ele realmente crê que vale a pena viver (v. 7), que a vida é melhor do que o nada (v. 9). 

Ele não está pregando uma alienação total, um desânimo generalizado, um distanciamento da vida, um nihilismo desenfreado. 

Tudo o que vier às nossas mãos, façamos conforme as nossas forças (v. 10), até porque, no nosso destino final, nada disso existirá. Pode-se perceber ecos desta lição nas palavras de Jesus:
João 12:35 Disse-lhes então Jesus: Ainda por um pouco de tempo a luz está entre vós. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai.
E nas de Paulo:
Gálatas 6:10 Então, enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.
Já Derek Kidner, no seu livro "A Mensagem de Eclesiastes" (Ed. ABU, 2ª ed., 1998, pp. 69-70), vê ecos de culturas passadas, como o Gilgamesh, neste trecho de Eclesiastes:
Há notáveis semelhanças entre esta passagem (9:7-10) e algumas linhas da Epopéia de Gilgamesh [placa X], um poema acadiano que data do tempo de Abraão ou antes e que era muito conhecido no mundo antigo. Neste ponto da história o herói, impelido pela morte de seu grande amigo a ir em busca da imortalidade, chega ao jardim dos deuses. Ali a jovem Siduri, a fabricante de vinhos, lhe fala:
"Gilgamesh, por onde você está vagueando?
A vida que está procurando, você nunca encontrará,
Pois os deuses, quando criaram o homem, deram-lhe
A morte como quinhão, e a vida
Ficou retida nas mãos deles.
Gilgamesh, encha o estômago!
Alegre-se dia e noite,
Encha os seus dias de alegria,
Dance e faça música de dia e de noite.
Use roupas limpas,
Tome banho e lave a cabeça.
Olhe para o filho que lhe segura a mão,
E que sua esposa se deleite com o seu abraço.
Apenas essas coisas dizem respeito ao homem.
"Este não é o único lugar onde se encontram sentimentos deste tipo. A canção de um banquete fúnebre egípcio, talvez mais ou menos contemporâneo de Gilgamesh, contém o seguinte conselho, após advertir os vivos acerca do que terão de enfrentar:
"Realiza os teus desejos enquanto estiveres vivo. Unge a tua cabeça com mirra, veste-te de linho fino, e unge-te...., e não aborreças o teu coração, até que chegue o dia da lamentação."

Após destacar a questão da morte, o Pregador segue dizendo que "tudo depende do tempo e do acaso" (v. 11), o que não deixa de ser uma recordação do que já havia dito em Eclesiastes 3, no célebre texto do "há tempo para tudo". 

Afinal, não sabemos a nossa hora de chegar nem de partir (v. 12). A maneira como decidimos sair do portão de casa pode definir a nossa vida (ou a nossa morte) de maneira totalmente inesperada. 

A nossa vida pode depender do simples fato de decidirmos sair pela direita ou pela esquerda, pelo portão de casa, numa linda manhã. 

A morte nos ronda todos os dias, conforme percebemos por uma simples passada de olhos nas manchetes dos jornais, com tantas vítimas do acaso, das balas perdidas, dos diques que se rompem, das pontes e dos meteoritos que caem. 

Já repararam como, às vezes, tudo dá errado? Muitas vezes, eu tive que sair mais tarde de casa, ou pegar a estrada atrasado, porque simplesmente algo (ou uma sucessão de "acasos") deu errado. 

Com o tempo, eu percebi que aquilo muito bem podia ser Deus simplesmente me protegendo de um acaso pior, e eu passei a relaxar depois desta percepção das coisas. 

Mais do que a Lei de Murphy, existe uma providência divina agindo nas nossas vidas, de todos nós, e esta providência às vezes se parece mais com um agente secreto que espreita os acontecimentos mais banais e corriqueiros do nosso dia-a-dia, mas está sempre ali presente, batendo o ponto, influindo nos mínimos detalhes para o nosso bem, mesmo que o aparente mal nos aconteça.

No final do capítulo 9, o Pregador conta uma pequena parábola, para exaltar a sabedoria (v. 13). Ele conta a história de uma pequena cidade, cercada por um grande rei (v. 14), em que um homem pobre, mas sábio, a livrou (v. 15), mas logo caiu no esquecimento do povo que havia salvo (v. 16). 

Esta é uma parábola com vários significados, mas o que mais salta aos olhos, a meu ver, é a questão da gratidão e da ingratidão

No v. 7, já vimos que havia uma espécie de gratidão de Deus para com os seus servos, sem nenhuma razão específica, apenas pela graça dEle mesmo. 

Aqui vemos que o povo daquela cidade deveria ser eternamente grato ao homem pobre, mas eles logo se esqueceram do benefício que este lhes havia feito. 

De fato, não devemos esperar gratidão dos homens, porque a regra é a ingratidão. 

Da mesma maneira, é esta regra que vigora no relacionamento dos homens para com Deus, como o próprio Jesus teve ocasião de vivenciar e delatar quando curou 10 leprosos (Lucas 17:11-19), e apenas um (ainda mais samaritano, ou seja, um pária para a época e contexto social em que vivia) retornou para lhe agradecer. 

Isto depois do Mestre ter dito que o senhor não precisava agradecer ao servo por este ter feito o que lhe havia sido ordenado (Lucas 17:9).

Este é um claro contraste com Eclesiastes 9:7, que é muito mais existencialista, no sentido de nos mostrar a importância de viver uma vida bem vivida, com todos os seus bens e males, e nos lembrarmos sempre de agradecer a Deus pelo dom da vida que Ele graciosamente nos deu.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 10




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