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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Arte cristã de Bernini sobreviveria aos "cristãos" brasileiros de 2017?


A "crentaiada" pudica que se associa ao que há de pior no fascismo brasileiro é uma ameaça a todas as liberdades civis que a humanidade conquistou - a duras penas - nos últimos séculos.

A indecência não está na mostra de arte X ou Y que afronta este ou aquele símbolo cristão. Vai lá quem quer, já sabendo de antemão se vai se ofender ou não.

Eu jamais entraria numa exposição (seja do que for) que ofende meu sistema de crenças ou simplesmente o meu - acho eu - bom gosto, mas nem por isso vou tentar impedir que quem quer que seja exiba ou queira apreciar aquilo que eles chamam de "arte". Ou uma dobradinha. É um problema deles, simples assim. 

Eu prefiro poupar meu precioso tempo e meu suado dinheirinho, se é que me entende...

Não por acaso, antes da 2ª guerra e mesmo durante o conflito, Hitler fazia questão de rodar pela Alemanha com a sua mostra de "arte degenerada", segundo os seus dizeres.

Aquilo que hoje consideramos "arte moderna" é o que Hitler, fanzoca da arte clássica greco-romana e renascentista, chamava de "arte degenerada", mas - incrível para os padrões fascistas atuais - Hitler promovia um tour de deboche pela Alemanha mostrando o que era aceitável ou não do ponto de vista nazista no quesito "arte".

Nem isso os boçais radicais brasileiros são capazes de fazer.

Os "compenetrados" Himmler, Goebbels e - ali na frente - Hitler observam a "arte degenerada" em Munique, 1937.
Nossos censores militontos decidem o que é ruim e fazem campanha para exterminá-lo. 

Hoje, o gosto artístico de Hitler é lembrado apenas para ridicularizá-lo.

Entretanto, perceba o contraponto: Hitler aproveitava o que chamava de "arte degenerada" - principalmente o moderno expressionismo - para contrapô-la ao seu ideal "artístico" e promover sua política da eugenia, ou seja, o extermínio de tudo e todos que fogem à "normalidade" genética ou cultural da estética nazista.

Tudo termina, para o fascista, em extermínio...

O expressionismo foi o grande inimigo da "estética nazista"
Sim... "estética" nazista. É incrível como os fascistas de ontem e de hoje continuam preocupados com a "beleza", mas na verdade há outro nome para isso, bem nu e cru: fetiche!

Seguindo seu profeta mal humorado de um tal Movimento Brasil Livre, de "Kinta Katiguria", os "cristãos" brasileiros se esquecem do conselho bíblico de que "o que eles fazem em oculto, até dizê-lo é torpe" (Efésios 5:12) e se põem a divulgar o que dizem condenar, atuando mais como promotores do que censores da libido alheia.

E, para tanto, se valem do discurso pornográfico, tão afeto ao fanatismo, conforme já tivemos oportunidade de comentar aqui no blog.

Se realmente lessem a Bíblia, não divulgariam nem se importariam com essas coisas, mas não: -  é preciso militar, proibir, divulgar e coibir.

Isso, sim, tem nome: fetiche!

Os que se dizem cristãos se esquecem - convenientemente - de que Jesus veio ao mundo em carne e osso num período em que orgias de todos os tipos eram patrocinadas pelos palácios imperiais e nem por isso Ele deixou de colocar seus sacrossantos e ensanguentados pés empoeirados nas mansões de Herodes e Pilatos, para - sobretudo e sobre todos - pregar o evangelho que transformou o mundo.

Fico imaginando o que os que se dizem "cristãos" atualmente diriam quando o gênio do barroco italiano Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), responsável "só" pelo conjunto arquitetônico da Praça e da Basílica de São Pedro, no Vaticano, entre tantas outras obras, quisesse exibir seus monumentos "O Êxtase de Santa Teresa" e o tumular "Beata Ludovica Albertoni", só para citar dois deles.

Indubitavelmente, Bernini seria apedrejado na Praça da Sé de São Paulo em 2017 como tarado.

Confira você mesmo, prezado fascista com mente poluída, o que há de errado, primeiro com a "Beata Ludovica Albertoni":


Esse olhar perdido e lânguido da beata, meu Pai do Céu, como é que pode?


E depois, se os seus olhos ainda puderem ver tamanha afronta à sua "fé", horrorize-se com "O Êxtase de Santa Teresa":


Esse "êxtase", esse anjo com cara de safado, essa flecha, sei não...


Que horror, oh, que horror...

Mas, poxa, Bernini, e esse "Rapto de Prosepina" que fica na Galleria Borghese de Roma?



E a Santa Bibiana com seus raios dourados na igreja que lhe é dedicada em Roma, hein, Bernini?



Ah, Bernini, seu tarado! Como ousas ofender nossos sacrossantos olhos castos?

Ai, minha Santa Rita do Passa Quatro, dá um "passa moleque!" nesse tarado que só pensa naquilo...

E, por gentileza, mal humorados de plantão, nos poupem dos seus comentários supostamente indignados.

Aos "cristãos" que queiram discutir a questão de maneira mais apaixonada e aprofundadamente teológica, recomendamos o excelente ensaio crítico de Mario Persona, no seu blog "O que respondi?", intitulado "Devo protestar contra a exposição de arte LGBT?".

E não se esqueçam de atirar a primeira pedra, ok?!



domingo, 25 de dezembro de 2016

A estética do Natal aponta para Jesus


Artigo publicado no Gaudium Press:

Diretor musical reflete sobre a importância 
da estética do Natal

Uma chamativa reflexão sobre as decorações, cantos e outros complementos da festa do Natal na Igreja Católica foi feita por Joel Morehouse, Diretor de Música da igreja de Santa Maria de Auburn, Estados Unidos, e divulgada pelo portal New Liturgical Movement. "As paróquias dão o melhor de si no Natal", expressou Morehouse, "competimos na excelência de nossas flores, nossos sermões, a música, as velas, as toalhas e a hospitalidade". Apesar de que essas coisas exteriores poderiam chegar a perder de vista à profundidade, "são sinais que nos levam diretamente a um bebê: o eterno Filho de Deus, Jesus".

"Como Santo Agostinho relata em 'Sobre o Mestre', sem sinais, sem palavras, não poderíamos chegar a conhecer a coisa mesma", recordou o autor. "Não podemos identificar ou inclusive pensar sobre algo sem usar palavras e nomes, ainda que o nome não é a coisa mesma. De igual maneira passa com nossas Missas no dia do Natal: sem nossas palavras polidas, nossos belos cantos, nossas igrejas amorosamente decoradas, o mundo talvez nunca saberia acerca do Menino do Natal, Jesus".

O músico recordou que, com exceção do Santíssimo Sacramento, todos os elementos em um templo se dirigem até Deus sem ser Deus mesmo. Inclusive o serviço ao próximo realizado pelos cristãos não é uma substituição da obra de Deus, mas um sinal que indica até Jesus Cristo. Os villancicos (canções natalinas) e as decorações, portanto, contribuem para dar a conhecer a Cristo inclusive ao que não o compreendem.

"Aqueles que conhecem a Jesus cantam e falam sobre Ele de maneira que o recordam e, com esperança, aqueles que escutem as palavras e as canções e não sabem seu significado serão motivados a perguntar", explicou Morehouse. "Inclusive depois de ter recebido a Fé através do batismo, o processo de buscar entender está a cargo do lado do Céu. Para usar as palavras de Santo Agostinho: 'credo, ut intelligam' (creio, de maneira que possa compreender)".

O músico culminou sua reflexão pedindo ao leitor revisar sua própria celebração de Natal através desta ótica. "Existe suficiente mistério e beleza em nossos louvores para que alguém que não conheça esteja motivado a perguntar?", questionou. "Nossas posturas e comportamento demonstram humildade e maravilhamento diante da vasta verdade que está diante de nós, o Santo Menino Jesus que desarma todo poder humano em um instante? Se não o conhecemos, deveríamos perguntar a alguém que o faça!". (GPE/EPC)



domingo, 16 de outubro de 2016

Não existe erro médico nem dano estético se paciente não para de fumar

Uma decisão curiosa do Tribunal de Justiça de Santa Catarina:

Médico não tem culpa pelo fracasso de cirurgia estética se paciente não para de fumar

A 3ª Câmara Civil do TJ negou pleito de indenização por danos materiais, morais e estéticos formulado por ex-grávida de gêmeos que queria retirar, por meio de cirurgia, gordura da região abdominal do corpo. O procedimento, porém, gerou uma necrose no pós-operatório e, por fim, uma cicatriz. A perita afirmou que fumantes - caso da autora da ação - têm três vezes mais chances de apresentar pele morta durante o processo de recuperação.

Na avaliação da expert, a nicotina diminui o diâmetro dos vasos sanguíneos da área operada e dificulta o alcance de oxigênio e nutrientes aos tecidos. A autora argumentou que houve erro médico, pois o profissional não teria tratado as complicações decorrentes do período pós-operatório nem adotado as medidas possíveis para evitar a má cicatrização da pele. Todavia, ela admitiu que não interrompeu o vício em fumo durante o processo, contrariando recomendação médica.

Em sua defesa, o médico disse que a necrose é uma intercorrência que pode acontecer, conforme reconhecido amplamente pela literatura, devido a fatores orgânicos imprevisíveis e, evidentemente, ao tabagismo. Para o desembargador Marcus Tulio Sartorato, relator da apelação, nem o réu nem sua clínica agiram com culpa. Ele assinalou que a condição de fumante da paciente foi fator preponderante para o insucesso da cirurgia.

"Tendo em conta, portanto, que a perita judicial concluiu que o segundo réu adotou todas as cautelas cabíveis no período pós-operatório e que a necrose apresentada na pele da autora é um risco inerente ao ato cirúrgico, o qual foi agravado pela condição da recorrente de fumante, não é possível atribuir aos réus a responsabilidade pelo insucesso da cirurgia a que foi submetida", anotou o magistrado. A decisão foi unânime (Apelação n. 0003841-27.2003.8.24.0075).



domingo, 10 de maio de 2015

Por que as pessoas fazem tatuagens idiotas?

Um artigo curioso e interessantíssimo publicado no Vice:

Um Psicólogo Explica Por Que as Pessoas Fazem Tatuagens Idiotas

Jules Suzdaltsev

Tatuagens dizem tudo que você precisa saber sobre a sociedade na qual elas foram feitas – e os EUA estão testemunhando uma epidemia de tatuagens escrotas. Não tenho números para sustentar essa afirmação, porque ninguém pensou em pesquisar isso, mas realmente parece que há mais tatuagens horríveis do que nunca. Por todo lado, você vê gente ostentando marcas clichês, citações idiotas, nomes de ex (lembra de "Winona Forever"?), frases mal traduzidas em outras línguas e, num caso muito bizarro, terríveis tatuagens faciais.

Mas por que as pessoas ainda estão tatuando arame farpado em volta do bíceps e borboletas no cóccix? Tentando entender melhor a questão, falei com Kirby Farrel, professor da Universidade de Massachusetts especializado em antropologia, psicologia e história relacionadas ao comportamento humano. Seu último livro, Berserk Style in American Culture, discute o vocabulário da cultura pós-trauma da sociedade norte-americana.

VICE: Qual é o seu interesse em tatuagens péssimas?
Kirby Farrel: Estou interessado principalmente no que você pode chamar de "a antropologia da autoestima e identidade". Penso nas tatuagens como um método que as pessoas usam para tentar se sentir significantes no mundo. Trabalho muito com Ernest Becker – você já ouviu falar do livro dele? Acho que ele ganhou um prêmio Pulitzer com esse livro chamado A Negação da Morte.

Sim, já ouvi falar.
Bom, ele argumenta que somos únicos entre os animais, porque somos sobrecarregados com a consciência do futuro, da futilidade, da morte e assim por diante. Estamos constantemente inventando defesas. A cultura é uma defesa contra o sentimento de opressão, futilidade e perdição. Culturas estão cheias de valores e belezas que te fazem sentir que sua vida é significativa e que tem um significado duradouro, mesmo que limitado. Então, você pode dizer que tatuagens são expressões culturais de heroísmo e individualidade.

Logo, isso se traduz numa epidemia de tatuagens idiotas?
Muitas pessoas dizem que fizeram uma tatuagem como uma lembrança de alguém ou algum evento. Por exemplo, tatuar a letra de uma música. As frases, claro, acabam sendo os maiores clichês. Mas elas estão te exortando a ser um indivíduo forte, imitando todos os outros animais que também pintam clichês na própria pele.

E onde esses caminhos se cruzam? Por um lado, a pessoa quer algo que lhe dê a sensação de significância e autoexpressão, mas acaba fazendo exatamente o oposto disso (o que consideramos uma "tatuagem ruim" ou uma "tatuagem clichê")?
Acho que a fantasia de ser especial, único, importante e heroico, que é do que estamos falando, é complicada quando vivemos numa cultura que celebra esses valores. Estamos sempre bombardeando outros países para preservar nossa "liberdade", o que presumivelmente significa individualidade. Mas, ao mesmo tempo, nossa cultura é intensamente conformista. Temos empresas constantemente tentando imprimir sua marca na consciência popular. Então, por exemplo, se você está tatuando algum clichê bobo de uma música pop, como "Vou te amar para sempre" ou "Não seja um imitador", na verdade você está se marcando com entretenimento industrial, porque grupos de rock, como sabemos, são basicamente máquinas de fazer dinheiro, empregando modelos financiados pela indústria do entretenimento.

Então por que as pessoas fazem isso?
Uma resposta é que somos animais incrivelmente sociais. Você tem de ter em mente que o eu não é uma coisa. É um evento. Se você está em sono profundo, o eu realmente não existe. A neuroquímica do eu não está ali. Desse ponto de vista, nos sentimos mais reais quando outras pessoas nos afirmam, reasseguram e reforçam nossa identidade. Nos rituais sociais pelos quais passamos, como dizer "Oi, como vai? Bem, e você?", você não espera ouvir qualquer informação pessoal. É só uma confirmação de que vocês dois existem e reconhecem um ao outro. De certa maneira, tatuagens também funcionam assim. Elas chamam atenção para você e fazem você se sentir real, mesmo se essa atenção fizer você se sentir membro de um grande grupo. Uma tatuagem te diz que você é parte de uma tribo de colegas tatuados, uma tribo linda e significativa. Você pode até compartilhar símbolos com outra pessoa! Ao mesmo tempo, por causa do fenômeno das marcas, isso faz você se sentir mais esperto do que o cara ao lado, que não sabe o suficiente para comprar seu produto em particular ou sua moda em particular.

Parece que você está dizendo que a própria cultura é clichê. Assim, tentando emular essa cultura social, fazemos essas tatuagens ruins.
A cultura está constantemente nos tentando com fantasias de singularidade e heroísmo. Você é tentado a comprar uma nova BMW, porque isso promete te fazer sentir heroico nas ruas. Você vai se destacar na multidão. A multidão é formada de pessoas comuns, elas vão morrer um dia e serão esquecidas. Mas todo mundo está olhando para você, você está sob os holofotes, você é o herói. E, ao mesmo tempo, se você ajustar a perspectiva sutilmente, eles estão fazendo as pessoas comuns acharem que é OK adorar heróis. Você é convidado a identificar e admirar o rico, o heroico, o prestigioso – e, se você os admira, isso se torna "minha música", "meu cabelo" ou "meu produto". Na verdade, você compartilha o glamour com o poder fetichista das coisas que admira.

Você está dizendo que isso é ser enganado por um movimento social de adoração ao herói?
Bom, se você está ou não sendo "enganado", depende de como você se sente sobre a validade e o pertencimento dos clichês. Quando você quer se tatuar com um verso da sua música favorita, você certamente está sentindo um tipo de excitação emocional e admiração por essa música. Um tipo de êxtase romântico. Você ouve as pessoas dizerem "Isso tem um significado especial para mim". É como uma auréola emocional em torno desse objeto.

Por que esse sentimento é significativo para nossa identidade própria?
Acho que, no geral, as pessoas estão com medo do futuro e se agarram a um ritual, um lema, um clichê familiar que elas acham significativo. É como um cobertor de segurança para dar sentido à sua vida, principalmente quando sua moral está sob pressão ou você está realmente empolgado com algo bom. Mas a questão é que, em qualquer um desses eventos, o clichê não parece ser um clichê. Isso parece ter um significado especial.

OK. Mudando um pouco de assunto: tatuagem é uma coisa que existe há milhares de anos. Alguns dos primeiros humanos já tinham tatuagens. Você acha que existe algo inerente à natureza humana que nos faz querer nos tatuar?
Claro. O cadáver que foi encontrado congelado e preservado nos Alpes, que acho que tem uns 5 mil anos – ele está num museu na Itália, você pode passar para dar um oi –, a última pesquisa mostra que esse corpo tem várias tatuagens. Elas tendem a ter um desenho abstrato. Baseado na localização delas, a hipótese é que elas serviam para se distrair de coisas físicas desconfortáveis, como artrite. Ou elas provavelmente tinham algum tipo de significado mágico. Pensando nisso, de certa maneira, todos os nossos comportamentos tendem a ser muito mágicos. Imaginamos que há algum poder especial em nossos símbolos, em nossos lemas, em nossas marcas, que isso de alguma forma eleva nosso humor, nos faz sentir mais fortes, mais capazes e melhores sobre nós mesmos.

E você acha que isso é algo inerente à humanidade?
Claro. Como pessoas, estamos regularmente à beira do pânico existencial. Becker disse que, se você visse o mundo realisticamente (quão vulnerável e totalmente insignificante você é, considerando o cosmo), você ficaria louco. Então, você precisa constantemente de histórias que constroem sua autoestima e fazem você se sentir significante, o que é fornecido pela cultura.

Logo, essas tatuagens escrotas são uma representação desse mecanismo de defesa?
Sim, exatamente. São representações físicas e artísticas de valores com que você se identifica. Vivemos nesse mundo onde existe um tipo de racismo recorrente e repentino, que vemos desde os anos 60 ou até desde a Guerra Civil. As condições de trabalho são extremamente punitivas, exigentes e despersonalizantes para quem está na base. Você não sente que tem direito à própria identidade. Então, as pessoas se sentem especialmente pressionadas para tentar encontrar seu próprio reforço mágico, porque há coisas em que a cultura não pode te ajudar. Você vê dinheiro, morte e culpa quando as pessoas querem se sentir seguras e como se estivessem no comando em termos de autoestima e bem-estar.

Muitas tatuagens parecem um tanto inconsequentes. Como as pessoas racionalizam a permanência de uma tatuagem em relação à própria mortalidade?
Muitas pessoas, especialmente quando são jovens, imaginam que serão jovens para sempre. Afinal de contas, se a mágica de que estamos falando sobre a cultura realmente funcionar, então, você pode se sentir invencível e imortal, por assim dizer. E é um clichê adolescente achar que você vai viver para sempre – é por isso que eles se arriscam, usam drogas, etc. Eles não conseguem imaginar que vão crescer e parecer diferentes do ideal cultural. Você nunca teve de se preocupar em ficar doente nem nunca esteve em apuros. Você nunca teve de se preocupar em ficar velho e ter de aceitar diminuir suas perspectivas, seus poderes, suas fantasias.

Você acha que isso é uma reação ao medo, ou na verdade resultado da falta de experiência?
Bom, você não acha que são as duas coisas?

Acho que sim.
Você tem medo, mas não admite isso, porque poderia prejudicar sua moral frágil. Uma moral danificada te torna menos eficiente, menos seguro, menos produtivo, etc. Então, você nega que tem medo. Provavelmente, o mecanismo básico da cultura é fingir que tudo está bem e que você não está com medo.

Mas estamos com medo.
Sim, com certeza. Estamos vivendo um momento em que as pessoas estão tão famintas por autoestima, aprovação e confiança, que estão dispostas a dizer e fazer coisas realmente bizarras e idiotas, porque com isso elas se sentem diferentes. Assim, elas se sentem únicas, significativas e vivas.



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O antissemitismo de Cruz e Souza


O simbolismo foi o movimento artístico e literário surgido na França no final do século XIX, que tinha como principais características a reação ao realismo, o uso e abuso das metáforas e a musicalidade dos versos.

No Brasil, os seus maiores representantes foram os poetas Cruz e Souza (1861-1898), Augusto dos Anjos (1884-1914) e Alphonsus de Guimaraens (1870-1921).

É deste último, por exemplo, o belo poema "Ismália":

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

A musicalidade dos versos pode ser facilmente percebida nessa quadra do poema "Violões Que Choram", de Cruz e Souza:

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

De certa forma, naquela confusão de escolas artísticas da virada do século XIX para o XX, o embate e a conjunção entre aspectos do simbolismo, do parnasianismo e do realismo (mescla da qual Augusto dos Anjos seria - talvez - o maior ícone), foram precursores do movimento modernista que impera até hoje.

O poeta e diplomata Felipe Fortuna escreveu um artigo, que foi publicado no jornal Valor Econômico de 04/10/13, em que questiona se o grande poeta Cruz e Souza seria (ou não) antissemita.

Apesar da excelente abordagem do tema, parece que o artigo peca pelo anacronismo, ao julgar não só um poeta do século XIX, como também a obra de São João Crisóstomo (século IV), com os olhos do século XXI.

Outro questionamento pode ser feito, portanto: até que ponto Cruz e Sousa, o negro filho de escravos alforriados, seria antissemita no sentido atual que se dá ao termo?

Talvez a interrogação do título do artigo seja uma concessão do seu autor à dúvida dele próprio sobre a procedência de sua indagação.

Feito este pequeno reparo, que não chega a prejudicar a leitura da tese de Felipe Fortuna sobre o poema "Marche aux Flambeaux" (que pode ser lido na íntegra mais abaixo).

Eis o artigo:




Seria Cruz e Sousa antissemita?

Felipe Fortuna

É conhecida a extraordinária obra poética de Cruz e Sousa (1861-1898), que trouxe uma musicalidade singular e versos surpreendentes, alguns estranhamente repetitivos. Também é conhecida a revolta racial do poeta catarinense, que se expressou de modo dramático na prosa de "Emparedado", "Dor Negra" e "A Nódoa", do livro "Evocações". Muito menos conhecido é o longo poema "Marche aux Flambeaux", o maior exemplo de antissemitismo literário já publicado no Brasil. Deve-se a Andrade Muricy, que organizou, em 1961, a edição da "Obra Completa" de Cruz e Sousa, o aparecimento do poema. Ao longo dos seus 216 versos alexandrinos, desfilam insultos e impropérios que transmitem a extremada violência de uma linguagem de exclusão.

"Marche aux Flambeaux" é um desses raríssimos títulos em língua francesa de que se vale o poeta - já que Cruz e Sousa geralmente mostra preferência pelo latim, de ressonância bíblica e espiritual. O antissemitismo do poema está vinculado à tradição europeia e, mais propriamente, à francesa, seguindo uma voga que culminou com o debate em torno do caso Dreyfus, a partir de 1894, e se irradiou em escritores como Alphonse Daudet. É possível considerar, assim, que o surpreendente antissemitismo de Cruz e Sousa seja bem mais uma imitação literária do que uma convicção; uma absorção dos clichês e da retórica da perseguição, em vez de um programa político e ideológico. Mas uma análise do poema poderá revelar aspectos significativos e paradoxais do poeta que tanto sofreu o preconceito da raça e da origem social.

O ataque de Cruz e Sousa tem início na segunda seção do poema, toda ela dedicada aos "filósofos titãs" que elaboraram uma "Ciência fatal"; filósofos que transformaram tudo "num doloroso caos". O lamento do poeta se converte numa invectiva contra a morte de Deus, que talvez possa ser resumida à pergunta formulada por Jean-Paul Sartre quando estudou a poesia de Mallarmé: "Se o Universo se reduz a uma desordem de átomos, sobre o que fundar a ordem moral?" A análise do filósofo também detecta, entre os poetas simbolistas, o surgimento de um "arianismo simbólico" e uma atitude de recusa em relação ao fim do Ideal. E salienta as condições de extrema pobreza material que caracterizavam a vida desses escritores.

Para o poeta, filósofos e cientistas devem pagar pelo erro monumental de abalar a fé dos seres humanos e de fazê-los "rudes, egoístas, maus". São eles os principais personagens do desfile, durante o qual serão expostos à denúncia e à execração. E o poeta Cruz e Sousa, presente à multidão dos que verão passar os condenados intelectuais, aparece, pela primeira vez, em tudo consciente da sua função crítica: "Com toda intrepidez hercúlea de acrobata/ vou sobre eles soltar, gloriosa, intemerata,/ a sátira que tem esporas de galhardo/ cavaleiro ideal que joga a lança e o dardo".

Ainda assim, a segunda seção do poema é apenas uma preparação para a erupção do ódio. Obviamente, o antissemitismo não foi exclusividade dos simbolistas, que aproximaram a morte de Deus e o liberalismo social ao estereótipo do "povo deicida": sua origem se encontra em textos teológicos e em sermões acusatórios que criaram uma imagem grotesca do judeu, associada não apenas à blasfêmia e ao antiespiritualismo, mas também à glutonaria e ao canibalismo... Já no século IV, a retórica de São João Crisóstomo (347-407), em suas furiosas homilias, atribuía aos judeus inumeráveis defeitos e vícios e os expunha a uma vingança sem possibilidade de defesa.

Quando Cruz e Sousa designa os seus filósofos como "apóstolos sombrios" que "lutaram pelo Bem dos Bens contemporâneos!", está de fato introduzindo, com a possível sutileza, o tema do materialismo ateu. Na análise rigorosa que fez sobre o antissemitismo na poesia de T.S. Eliot, o crítico Anthony Julius faz referência à imagem dos judeus livres-pensadores, que são descritos, de modo genérico, como intelectualmente subversivos, anárquicos e céticos. O estereótipo do filósofo que nega a divindade, identificado à exaustão com o judeu, alcança dimensões monstruosas até então desconhecidas em sua poesia.

Já na terceira seção de "Marche aux Flambeaux", Cruz e Sousa lança seu bestiário: "Lobos, tigres, chacais, camelos, elefantes,/ hipopótamos, ursos e rinocerontes,/ leopardos e leões, panteras acirrantes,/ hienas do furor, membrudos mastodontes,/ tredas feras do mal, soturnos dromedários,/ serpentes colossais que rastejais na treva,/ monstros, monstros cruéis, medonhos, sanguinários,/ cuja pata esmagante a presa aos antros leva".

A desfiguração do judeu pelo grotesco anatômico é um topos comum à literatura antissemita. O poeta catarinense apenas a amplia pela animalização, seguindo outra tendência não menos comum. Não é difícil encontrar, na poesia e na prosa de Cruz e Sousa, o gosto pela violenta caricatura verbal, marcado pela comparação agressiva e depreciativa da figura humana com algum animal. Em geral, os exemplos existentes estão vinculados a um estado de excitação e de indignação moral.

Aplicada ao judeu, a animalização ganha o aspecto de monstruoso estigma: trata-se de comunicar, com eloquência, a desumanidade do personagem. Ele se torna suspeito e imediatamente subtraído da sociedade em que vive: ostentando a indefinida fronteira entre o humano e o animal, ele se torna vítima, já não importa se social, étnica ou religiosa. O judeu, violentamente associado a quadrúpedes e a bichos rastejantes, passa a encarnar as piores qualidades e os aspectos arquetípicos que caracterizam, como no trecho de "Marche aux Flambeaux", os animais em estado selvagem. Discretamente, também se insinua no poema de Cruz e Sousa um tema igualmente caro à literatura da sua época, o do judeu como símbolo do feio.

No entanto, para além da discussão estética, o que parece sobressair, no poema, é a gratuidade do discurso da perseguição: os judeus são insultados porque se encontram no fim de um processo que poderia ser descrito, redutoramente, como o de reação a um questionamento da natureza e da fé. Na caracterização do estereótipo, é importante notar que o judeu habita as cidades industriais, onde exerce atividades financeiras e comerciais, apesar de descrito como um deslocado. É o que escreve Cruz e Sousa: "Gafentos histriões, ridículos da moda,/ que fingis entender Berlim, Londres, Paris,/ mas nos altos salões, por entre a fina roda,/ meteis sordidamente o dedo no nariz".

Anthony Julius tem razão ao afirmar que o antissemitismo encontrou, no momento simbolista, um período oportuno para a transmissão dos principais estereótipos e das imagens de perseguição: escritores declaradamente antissemitas, como J.K. Huysmans, fizeram largo uso da prosa visionária, na qual combinaram a emoção extremada ao uso vertiginoso da metáfora - tudo redundando numa combinação da fantasia e da revelação. Também é preciso considerar um aspecto essencial do simbolismo, que consiste na dificuldade de definir os limites entre o mundo real e o imaginário, para o qual ainda concorre o uso intensivo da sinestesias. O grande poeta, no simbolismo, é aquele que atinge uma visão delirante e personalíssima do assunto que está tratando.

É o que acontece com Cruz e Sousa em "Marche aux Flambeaux": dá-se uma explicação do mundo que é, a rigor, uma reação violenta ao mundo. No poema se encontram, irmanados de maneira sórdida, não apenas os "tábidos judeus", mas também outros grupos que vêm reunir-se e desfilar: "burgueses que já são bem bons comendadores/ e marqueses de truz, com ares de mistério" e "velhacos de batina".

Ao fim do poema se descobre que o poeta tem consciência de que sua parada não poderia mesmo ser noturna, já que sua intenção é revelar à luz solar os vícios e as caricaturas humanas que governam o mundo. Atento para o uso que deve fazer da "marche aux flambeaux", essa importação chegada da Europa, o poeta escreve como se estivesse anunciando uma correção: "Mas eu quero assim mesmo, eu quero-vos assim,/ em marcha tropical, à crua e ardente luz/ que vos seja uma febre indômita, sem fim,/ um cautério de pus a vos queimar o pus/ venéreo da Moral".

Lamentavelmente, a marcha que transcorre ao sol não contém nenhuma outra novidade em relação a um possível modelo europeu: nela está presente uma crítica à nobreza, mas não, por exemplo, aos escravocratas. A opção pelo período diurno parece representar, assim, apenas um capricho do poeta, que por motivos possivelmente estéticos tomou a decisão de apresentar a sua sátira à cáustica luz dos trópicos. De todas as importações presentes no poema, a mais deplorável é certamente a do antissemitismo, não apenas por sua irracionalidade e despropósito, mas também pela inevitável consequência que a divulgação dos estereótipos de perseguição poderia provocar na consciência de um poeta que se defrontou com a questão racial no Brasil.

Praticante de diversos recursos verbais, Cruz e Sousa demonstra ser, em sua obra de poeta e de prosador, um dos escritores de maior inconsistência ideológica. Em geral, os seus versos mais engajados se misturam a devaneios e a referências necessariamente vagas, num complexo de hesitações e de ambiguidades que é capaz de deixar perplexo o seu leitor. "Marche aux Flambeaux" representa, em si mesmo, um exemplo modelar da aparente falta de consciência para um problema de discriminação. O que não resolve as contradições do poeta, mas torna o seu sofrimento mais sublime.

Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Recentemente, publicou o livro de poemas "A Mesma Coisa" (Topbooks)




MARCHE AUX FLAMBEAUX

I

Rompe na aurora o sol que a terra esbofeteia
Com látegos de chama, iriando o pó e a areia,
Iriando os vegetais de ricas pedrarias,
Dos rubis e cristais das ourivesarias;
Aurora acesa em cor de púrpura de cravos v Opulentos, febris, ensanguinados, bravos;
De ritmos leves de harpa e frêmitos e beijos v Que são da natureza os trêmulos arpejos;

Aurora que sorri, que traz pomposamente
Todo o raro esplendor da luz resplandecente,
Das paisagens loucas no fúlgido matiz
O aroma a derramar da meiga flor de liz.

Na alegria dos tons os pássaros cantando
Vão as asas abrindo, entre os clarões ruflando, v Asas emocionais, que assim dentre clarões
Palpitam num fervor de alados corações.

E no luxo oriental de etéreo Grão-Mogol
Como um Baco feliz rubro flameja o sol.

II

Filósofos titãs, filósofos insanos
Que destes turbilhões, que destes oceanos
De lutas e paixões, de sonho e pensamentos
Espalhásteis no mundo aos clamorosos ventos v A Ciência fatal, talvez como um veneno,
Que os tempos abalou no caminhar sereno;
Filósofos titãs, que os séculos austeros
No flanco da Matéria abris, graves, severos,
Sobre o escombro da fé, da crença e da esperança,
Da civilização o trilho que hoje alcança
No seu aço viril as regiões supremas,
Traçado em novas leis, doutrinas e problemas;
Vós que sois no Saber os monges da existência
E só acreditais na força da Ciência,
Que da morte sabeis os filtros invisíveis,
Narcóticos, sutis, incógnitos, terríveis,
Não sabeis, entretanto, apóstolos sombrios,
Como a luz da Ciência os homens estão frios,
Como o tudo ficou num doloroso caos
E os seres que eram bons, rudes, egoístas, maus.

Em vão! em vão! em vão! os vossos largos crânios
Lutaram pelo Bem dos Bens contemporâneos!
Tudo está corrompido e até mais imperfeito...
Não há um lírio são a florescer num peito,
De piedade, de amor e de misericórdia...
Se brota uma virtude o ascoso vício morde-a,
Envilece, corrompe e abate essa virtude
Com o cinismo revel dum epigrama rude...
E até muita alma vil, feroz, patibular,
Impunemente sobe ao mais sagrado altar.

Por isso vão passar perante a turbamulta
Como abrupta avalanche, enorme catapulta,
Numa marche aux flambeaux, os famulentos vícios
Que cavaram no globo horrendos precipícios,
Os vícios imortais, que infestam tribos, greis,
Povos e gerações, seitas, templos e reis
E que são como a lava obscura da cratera
Que subterraneamente em tudo se invetera.

Com toda intrepidez hercúlea de acrobata
Vou sobre eles soltar, gloriosa, intemerata,
A sátira que tem esporas de galhardo
Cavaleiro ideal que joga a lança e o dardo.
Vou com esse altanado e muscular esforço
De quem galga triunfal o soberano dorso,
A crista vigorosa, altiva, sobranceira,
Da mais agigantada e vasta cordilheira.

III

Lobos, tigres, chacais, camelos, elefantes,
Hipopótamos, ursos e rinocerontes,
Leopardos e leões, panteras acirrantes,
Hienas do furor, membrudos mastodontes
Tredas feras do mal, soturnos dromedários,
Serpentes colossais que rastejais na treva,
Monstros, monstros cruéis, medonhos, sangüinários,
Cuja pata esmagante a presa aos antros leva;
Ó ventrudos judeus, opíparos, obesos,
De consciência obtusa, ignóbil e caolha
Que no mundo passais grotescamente tesos
Com honras de entremez e grandezas de rolha.
Gafentos histriões, ridículos da moda,
Que fingis entender Berlim, Londres, Paris,
Mas nos altos salões, por entre a fina roda,
Meteis sordidamente o dedo no nariz;
Brasonados truões, inúteis como eunuco,
Que as pompas ostentais de aurífero nababo
Mas apenas valeis como um limão sem suco,
Tendes rabo no corpo e dentro d′alma rabo;
Nobres de papelão, milionários vândalos
De ventre confortado e rosto rubicundo,
Que no torvo cancã no cancã dos escândalos
Sois o horrendo espantalho, a ignominia do mundo;
Ó deuses do milhão, ó deuses da barriga,
Que sentindo a aguilhada intensa da luxúria
Buscais a mais em flor e linda rapariga
Para então vos fartar na luxuriante fúria;
Gamenhos de toilette e convicções de lama
Onde tudo afinal se atola e se chafurda,
Que do clube e do esporte sintetizais a fama
Mas tendes para o Bem a fibra sempre surda;
Palhaços, clowns senis, hediondos borrachos
Que aos trambolhões urrais afora no universo,
Desdenhando de tudo e até rindo dos fachos,
Do clarão do saber em toda a parte imerso;
Almas negras, servis, d’ergastulos caóticos,
Gerado no paul das lúgubres voragens,
Do crime nos bulcões, nos vícios mais despóticos
Aos quais tanto rendeis eternas homenagens,
Manequins, charlatães, devassos do bom-tom,
Que viveis nas Babéis das grandes capitais
Apodrecendo sempre infamemente com
O cancro do dinheiro as forcas virginais;
Mascarados tafuis de gordos ventres de ouro,
Ó bonzos do deboche e cínicos esgares,
Que sois o único sol esterlinado e louro
Das parvas multidões, das multidões alvares;
Fidalgos de barril, sicofantas, malandros
Do templo e do bordel, da crápula de harém
Que ao puro mar do Ideal, com torpes escafandros,
Arrancais, p′ra vender, a pérola do Bem;
Ó trânsfugas, ladrões que difamais a terra,
Que tudo poluís, do próprio lodo a flor,
A serena humildade, - intrepidez da guerra.
Aos beijos maternais, ao nupcial amor;
Espíritos de treva, espíritos de barro
Que enegreceis de horror o sangue das papoulas
E das ostentacões vos aclamais no carro,
Cobertos de cetins, arminho e lantejoulas;
Que se vem de repente o Nada sepulcral
Nunca deixais, sequer, no tétrico leilão,
No leilão da memória, estranho, universal,
Nem um som a vibrar do estéril coração!
Dentre feras brutais de ríspidos penhascos
E a torrente caudal de rijos versos francos
E a zombaria e o riso e as sátiras e os chascos,
Nesta marche aux flambeaux ides passar, aos trancos
Do mundo os naturais, zoológicos museus
Despejem pare fora as pavorosas massas,
Para virem reunir-se aos tábidos judeus
Irromper e seguir e desfilar nas praças.
Que a cada mate, a entranha, o seio virgem se abra
Jorrando tigres, leões, panteras do seu centro
E na dança infernal, estrupida, macabra,
Siga a marche aux flambeaux pelo universo a dentro.

Gargalhadas abri a rubra flor sangrenta
Da humanidade vã na amargurada boca
Vai agora passar a marcha truculenta
Sob o espingardear duma ironia louca.
E desfila e desfila em becos e vielas
E torna a desfilar por vielas e por becos
às risadas da turba, estultas e amarelas
Que tem o áspero som de gonzos perros, secos...
E desfila e desfila, estrídula e execranda,
Das praças na amplidão, rugindo em mar desfila,
Enquanto além dardeja, heróica e formidanda,
A metralha do sol que rútilo fuzila...
E mastodontes vão de braço dado a sérios
Burgueses que já são bem bons comendadores
E marqueses de truz, com ares de mistérios
De lunetas gentis e aspectos sonhadores
Dão o braco fidalgo e airoso das nobrezas
Aos ursos boreais, enquanto os conselheiros
Os condes, os barões, os duques e as altezas
Lá vão de braço dado aos lobos carniceiros.
E nessa singular, atroz promiscuidade,
Animais e truões de catadura suína
Gordalhudos heróis da infâmia e da maldade,
Vendidos da honradez, velhacos de batina
Bobos, cães, imbecis, humanos crocodilos
E déspotas, jograis, todos os miseráveis
De todas as feições e todos os estilos,
Uns aos outros lá vão jungidos, formidáveis!...
Mas a marche aux flambeaux derrama um pesadelo,
A agonia dum tigre, em sonhos, sobre um ventre,
Agonia mortal que envolve tudo em gelo...
E desfila e desfila entre sarcasmos e entre
As sátiras-fuzis, relampejando açoite,
Por essa imensa aurora, estranhamente imensa
Por um sol que angustia e que não tem da noite
Para a Miséria a sombra atenuante e densa.

Os vícios, as paixões, os crimes, ódios e erros,
Na marcha, de roldão, caminham fraternais
Com bandidos, vilões, burgueses rombos, perros
E focas e mastins, macacos e chacais.
Aos sobressaltos vão como visões, fantasmas
Bichos de toda a casta, anões de chapéu alto,
Deixando em convulsão todas as almas pasmas
E o globo num tremendo e fundo sobressalto.
E nas praças, ao sol, confundem-se os bramidos,
Os uivos com a expressão humana misturados,
Através do sussurro e bruscos alaridos
Das chacotas bestiais, dos risos trovejados.
E segue e segue e segue, afora, légua a légua
Essa marche aux flambeaux, ciclópica, estupenda
Caminha atravessando um longo sol sem trégua,
Um dia secular, um dia de legenda;
Caminha atravessando um sol de foco aberto,
Por um dia fatal, interminável, mudo,
O dia do remorso, aterrador, incerto
Que em todo o coração crava um punhal agudo.
Mas eu quero assim mesmo, eu quero-vos assim,
Em marcha tropical, à crua e ardente luz
Que vos seja uma febre indômita, sem fim,
Um cautério de fogo a vos queimar o pus
Venéreo da Moral, carbonizando-o até
Para que nunca mais se sinta dele a origem
Nem volte, como sempre, então, a ser o que é,
Deixando-vos no mundo inteiramente virgem;
Eu quero-vos assim, de fachos apagados,
Apagados, ao alto, os joviais flambeaux,
Que os tereis de acender nos campos ignorados
Que de sóis de Vingança a Eternidade arou.

E depois de vagar às sátiras de todos,
Na evidência da luz, numa perpetua aurora;
De caminhar ao sol, por tremedais, por lodos,
No tédio do sarcasmo, o tédio que a devora,
Essa Marcha afinal penetrará aos urros,
Titânica, sinistra e bêbada, irrisória,
Num caos de pontapés, coices, vaias e murros,
Na eterna bacanal ridícula da História.



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