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domingo, 18 de outubro de 2015

Coveiro que é filósofo dá lições sobre a vida e a morte


Leia a sábia, divertida e profunda história de Fininho, o coveiro que se formou em Filosofia, segundo a entrevista que ele concedeu a Camila Appel e foi publicada na Folha.

Já falamos dele aqui no blog em agosto de 2012, mas a matéria atual é mais extensa.

Mais abaixo segue um vídeo que foi realizado pela Istoé em 2013:

Conheça Fininho, o surpreendente coveiro formado em filosofia

Conversei com Fininho, um homem que me tocou com a sua visão de mundo e sua forma de habitar um lugar tão incomum, o cemitério. Um ser invisível para a sociedade, ele passou 20 anos de sua vida fechando caixões, cavando espaços na terra para uma espécie de plantação repugnada, uma matéria orgânica e ao mesmo tempo inorgânica, com vida, mas sem a vida.

Osmair Camargo Cândido ganhou o apelido Fininho por ser esguio. Ele foi faxineiro na Universidade Presbiteriana Mackenzie e sonhava em estudar lá. Conseguiu cursar a graduação de filosofia com acesso a bolsa de estudos. Formou-se filósofo. Entrou para a profissão de coveiro por um concurso do Serviço Funerário do Munícipio de São Paulo. “Sou coveiro por escolha própria”, diz. Hoje, trabalha no Cemitério da Penha.

Gosta de ler teatro. Ao falar sobre a importância do teatro grego por tratar da essência do teatro como catarse, ganhou de presente um livro de peças que eu levava na bolsa. Fininho atentou para o autógrafo na segunda página, e eu dei uma titubeada, mas quando perguntou se eu já tinha lido Antígona, ganhou o livro de vez. “Se a pessoa não compreender o teatro grego, não compreendeu o teatro. Vai passar vergonha numa discussão. Se ele não leu Antígona, não vai entender a catarse, a interpretação que se pode ter da vida sem o uso da razão, apenas com o teatro. Não sou eu que digo isso. Quem falou foi um prussiano. E o nome dele é Nietzsche”, disse.

Ele alimenta uma ambição na vida: publicar um livro que escreveu sobre o dia a dia de um coveiro. E, no fundo, parece torcer para que a publicação dessa entrevista o ajude nesse sentido.

Casado com uma costureira e com filhos (não me contou quantos), diz que a morte nada mais é do que um ponto no tempo e a lembrança da existência do instinto.

O que é a morte para você?

Um ponto no tempo. Qualquer coisa é um ponto no tempo. A morte é a lembrança do instinto. O homem cria a civilização, a sociedade, a amizade, mas existe seu instinto. É por isso que ele quer copular o tempo todo. Para que sua vida continue. A morte não é outra coisa senão um ponto no tempo. Fora isso você vai ficar fantasiando, inventando…

O absurdo é a vida. Quem falou isso foi Albert Camus e eu concordo com ele. Você não sabe como nem por que começou, como nem por que acaba. A vida é o intervalo entre o nascimento e o desaparecimento. Agora a morte cada qual dá o sentido que quiser. Tem gente que diz que é renascer, tem quem diga que é o fim de tudo. Camus tinha essa impressão, do absurdo da vida. Já o conterrâneo dele, Diderot, dizia que era o vazio. Não é interessante?

Você prefere ser chamado de coveiro ou de sepultador?

Ah, sepultador é fantasy. Eu sou coveiro mesmo. Quem faz cova é o quê?

O que diz na sua carteira de trabalho?

Diz que eu sou sepultador. Mas é fantasy.

Você gosta do que faz?

Apaixonado.

O que te cativa na profissão?

Acho que você poderia formular assim: o que há nas outras profissões que não há na minha atividade.

Se você pudesse ser qualquer coisa no mundo, o que seria?

A mesma coisa que sou hoje. Se eu pudesse renascer, eu pediria o favor de ter a mesma vida. É muito bom.

O que não é bom então?

O desconhecimento. O descaminho. Quem pelo dinheiro vive, é por ele mesmo que dedicará sua vida e perderá sua virtude, perderá sua coragem, perderá sua própria vida. Tem gente que vive a vida inteira, perde a juventude, correndo atrás do dinheiro, para quando estiver velho, gastar tudo tentando restabelecer a saúde.

Você acha que seu ofício interferiu na visão que você tem do dinheiro?

Evidente. Evidente que sim. Óbvio.

Você lembra de algum momento que isso te marcou?

Vários… Eu refleti bastante no sepultamento de Plínio de Arruda Sampaio. Eu via nele uma dedicação incomum. Ele tinha posses mas se dedicava de um modo à política que me pareceu muito tocante. Um dia eu o vi na avenida paulista, muito debilitado, já doente, distribuindo santinho do partido dele lá. Eu comentei que ele precisava descansar. Ele respondeu: “um homem deve chegar até a morte cumprindo aquilo que ele pensou, aquilo que o coração ordenou”. Eu fiquei muito emocionado. Aquilo que se acredita tem mais valor do que aquilo que se tem. Porque, na verdade, há a impressão de se ter as coisas. Mas é só uma impressão, porque ninguém tem nada. Não poderá transportar nada porque não se sabe para onde vai. Vamos a lugar nenhum. Viemos do nada, seguimos para lugar nenhum. Seguimos para hipóteses. Uns dizem que vão para o céu, outros para o inferno…

Como as pessoas reagem quando você conta que trabalha como coveiro?

Ah, todo mundo vê o coveiro como um fracassado. Um fracassado social. Porque o sucesso, o sucesso na América do Sul, está no dinheiro. Às vezes eu apelo um pouco né, falo ‘olha, fulano de tal foi coveiro’, como o Rod Steward – que foi coveiro também.

Quem é você?

Eu sou neto de Silvestre Camargo e da dona Albertina Camargo. Filho de Dirce Camargo, irmão do Odair, da Vera e da Iasmin. Esse cara sou eu. Eu sou bisneto de pessoas que foram escravizadas e, portanto, dado ao gosto popular. Gosto e leio toda a obra de Machado de Assis, com toda aquela pompa dele, mas sou dado também à literatura de Lima Barreto.

Sua profissão também faz parte de quem é você?

Sim.

Você gosta de trabalhar dentro de um cemitério?

Claro. Quem tem o privilégio de ouvir tanto passarinho cantando no serviço? A parede me tira a visão do horizonte. Eu não preciso da parede. Tem gente que precisa. Eu não preciso de parede, eu não preciso de gravata, preciso só do mínimo para viver. Porque assim eu não incomodo o outro. Eu não tiro o pão da boca de ninguém. E morro com a minha consciência tranquila, mesmo com a barriga vazia. O cemitério é um lugar dado à calma, à tranquilidade, ao sossego. É um lugar de vida (Fininho arranca uma pitanga da árvore e come).

Você já se emocionou em enterros ou costuma procurar se distanciar?

Ih, já chorei um bocado. Outro dia foi triste. Eu estava fazendo o sepultamento de um militar lá no Araçá (Cemitério do Araçá). Estava aquele clima, todo o comando da Polícia Militar lá. O cara tinha sido morto pelas costas. Estava muito calor e chovendo. Eu estava sentindo um negócio gelado e quente nas minhas costas enquanto eu fazia o sepultamento… achei que era a chuva. Aí eu escuto uma menina falar: moço, fala para meu pai levantar. Aí eu vi que aquilo nas minhas costas era o choro da menina.

Para você trabalhar com cemitério você tem que saber do trato humano, saber se comunicar, ou como não se comunicar, perceber os sinais da pessoa, procurar tratar da melhor maneira possível, senão você pode ser mal interpretado. Para lidar com a morte, você não pode ter mecanicismo, você não pode ser frio, indiferente.

As pessoas normalmente falam com você, ou você passa invisível?

Um coveiro tem que ser quase invisível. Porque a pessoa está em profundo desagrado com o mundo. Mesmo quando você vê aquele tom de resignação, a pessoa também está em profundo desagrado. Qualquer coisa que for feita que não for de seu agrado, pode causar imensa confusão. Tem que se tomar cuidado com qualquer gesto fora do ritual.

Você conta com o dia de amanhã?

Eu não. Hoje para mim está ótimo. Eu posso semear algumas coisas no dia de hoje. Mas pode ser para outra pessoa colher. Eu me alimento com o hoje. E curto o hoje. Se tiver amanhã, agradeço.

Como é esse “curtir o hoje”?

Sabe o que é mais importante na vida? A própria. Lógico que eu não sou nenhum hedonista. Não vou ter aquela vida de mil prazeres. Cada qual que encontre seu melhor jeito de viver. O dinheólotra vive que nem um louco atrás de bolsa de valores, queda do dólar, política e não sei o que… eu não conseguiria viver assim.

Quais dicas você poderia dar para quem quer viver o hoje?

Acorde bem humorado. Humor é fundamental. Aproveite as delícias da vida, aquilo que você acha bom. Faça o que você gosta de fazer. Você tem que estar próximo daquilo que você deseja. Nem precisa ter aquilo que você deseja. Estar próximo é uma situação muito interessante. Você tem a expectativa. Na vida se pode ter expectativas, nunca certezas. Eu não tenho certeza do dia de amanhã, mas eu tenho a expectativa. A manutenção da própria vida… você já viu como é interessante um copo de água?

“Viver não é acumular dias”, como disse Antônio Penteado de Mendonça.

Como você sabe a hora certa de fechar o caixão?

É o timing. Não pode ser zé mané. Eu tenho que fazer com que você acorde para a hora. Você está embebida pela morte. Então eu tenho que dar um toque. Eu pego e seguro a tampa do caixão, sem pressa. Cada um tem uma técnica, a melhor é essa, porque você dá um sinal. Chegar e tampar o caixão é uma grosseria, uma estupidez. Pedir também é desagradável. Agora, quando eu pego a tampa, eu mostro. Quando você sepulta uma pessoa, não é só uma pessoa que você está sepultando. Você vai sepultar um sonho, você vai sepultar o amor, a ilusão, aquele apego. Não é só um corpo. Você tem que se colocar na posição do cara. O processo de morte, na minha profissão, é embrutecedor. A percepção da morte não é para todos.

Quais são as reações mais comuns?

Agressividade, riso, resignação, alguns assobiam. Já levei um soco que me tirou do chão. Era um político. Eu falei: já quase não tenho dente, você vem me tirar os que restam, mas que xarope! A filha me pediu para eu não brigar com seu pai. Fiz o sepultamento todo com gelo na boca. A esposa dele comentou depois que ele tinha bebido.

Você acredita em espíritos?

Nunca dei trela para isso não. Não tenho tempo para isso. Essa é uma falsa questão. Sabe o nome disso? Sofismo. É uma falsa questão. Leia um livro que se chama “De Anima” de Aristóteles, o pai da lógica formal. O primeiro livro que eu me apaixonei foi o do Newton (Isaac Newton), Aristóteles foi o segundo.

As coisas andam, se movem, você concorda comigo que a terra gira? Mas o que quer dizer que a terra gira? Oras, se uma coisa gira, logo tem que ter o primeiro giro, o motor. É aquela pergunta que seu filho vai te fazer: mamãe, por que a terra gira? Se ninguém ta empurrando, por que ela gira? De onde vem as forças? De onde vem a matéria? É daí que vem “De Anima” – a matéria é inanimada. Teve um que morreu pensando nisso, o Einstein. Fez “A Teoria do Tudo” e morreu.

Sobre os espíritos: pensar sobre eles não é uma questão, não é um problema. René Descartes vai falar: penso, logo existo. Agora o outro, um alemão o qual dediquei mais da metade da minha vida, vai falar assim (Fininho refere-se à Immanuel Kant): muito bem, quem é esse eu? Então, ele escreve uma nova metafísica. Ele vai dizer os seguinte: são acidentes. Ele não fala sobre Deus ou sobre a alma, porque de que adiantaria? Ele é racionalista, ele é um iluminista, ele é o pai da razão, um divisor da filosofia na Alemanha.

Então, eu digo que é um sofismo porque falar sobre a existência ou não de espíritos é a criação de um falso problema.

Vamos falar de causalidade. Essa árvore está aí porque um dia tinha uma sementinha aí – você vai buscar a causa da existência da árvore com a razão e por aí vai. Mas se a sua razão buscar as causas, logo você vai chegar numa causa não causal. Logo, a razão não encontra explicação. Aí entra a fantasia. Eu vou deixar isso aí como um postulado. Na visão de Kant, Deus é um postulado – porque a razão não alcança.

Você já pensou no que querem que seja feito com seu corpo quando você morrer?

Eu não. Eu vim de graça, vou embora de graça. Já ouviu aquela música? (cantarola) A bruta flor do querer… Então, é isso. (a música é “Querer” de Caetano Veloso).

Qual é a relação com essa música?

O querer! Mas minha música predileta é uma de Aldir Blanc: caía a tarde feito um viaduto, e um bêbedo trajando luto, me lembrou Carlitos… Ele fez músicas para a Elis Regina.

Você já pensou em compor?

Quê? Com tanto compositor bom por aí eu vou me meter com isso? Vou compor onde tem João Bosco? Não…

Você já fez amizade com alguém que conheceu num velório?

Eu já passei o Natal com uma senhora que vinha no Araçá (cemitério do Araçá, onde trabalhava) para conversar comigo. A família me pediu para levar todos meus netos lá no Natal. Levei. Ela me chamou no hospital para vê-la antes de morrer… Eu gostava muito dela. É importante isso no mundo, encontrar afinidades. (cantarola) É impossível ser feliz sozinho. Não é?








sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hitler e a espiritualidade contemporânea

Hitler comanda ataque nazista em caricatura soviética de 1942

Artigo de Mateus Prates Mori, a quem agradecemos por ter gentilmente autorizado sua reprodução aqui:

ESPIRITUALIDADE CONTEMPORÂNEA:
O que Hitler tem a ver com isso?

Muitos hoje baseiam qualquer tipo de espiritualidade com algo absorvido ou criado por eles mesmos. Como diz o ditado, no Mundo há tantas pessoas como religiões. Mas, o que Hitler tem a ver com tudo isso?

A grosso modo, pode-se dizer que hoje a religião imperante é uma espécie de Unismo. Como explica o Dr. Peter Jones, no Unismo acredita-se que se há um deus, ele está em todas as coisas e é todas as coisas. Em uma analogia, deus seria o conjunto dos números reais, ou seja, todos os números. Nesse bem bolado, você necessita ter olhos para ver o todo. Você faz parte do Cosmos sendo uma parte muito importante do Universo. Você deve exercitar olhar para dentro de si e achar o seu deus interior. Não é um exercício fácil e você pode e deve fazer o uso de várias técnicas, como meditação transcendental, questionamento da moralidade vigente, esvaziamento e libertação da mente em direção a um estado de harmonia com o universo, algo semelhante a um Nirvana. Seja como for, o que se deve buscar é toda a capacidade dentro de si para ser feliz e ser uma pessoa realizada, amando a si mesmo primeiro, para enfim entrar em harmonia consigo e com o universo. Só assim você entenderá o seu papel. Somente dessa forma você pode oferecer ao próximo o seu melhor. Você deve ser satisfeito sozinho e buscar a completude sem haver a necessidade de encontrar a felicidade em alguém. Você pode ser tudo o que você desejar, sendo capaz de realizar seus sonhos sempre tendo em mente que isso faz parte de um plano geral.

Tudo isso é muito bonito, muito belo e com certeza fala ao coração da humanidade. Não acredito que haja um ser humano que em sua essência natural deseja ser um fracassado. Esse discurso se assemelha bastante com a filosofia de Nietzsche destacando que "A sociedade nunca considerou a virtude outra coisa senão um meio para a força, o poder e a ordem". Em 'A vontade de poder', Nietzsche profetizou a vinda de uma raça de dominadores, "uma espécie humana particularmente forte, altamente dotada de inteligência e vontade". Quase todo tipo de ideologia mama, de alguma forma, nesse fundamento. A teologia da prosperidade que cresce no meio evangélico não é diferente. Afinal, se o Todo-Poderoso o salvou, Ele o salvou para ser um vencedor. Você é um campeão de Deus e como tal deve determinar a sua vitória sobre todas as coisas, pois se Ele prometeu nos dar todas as coisas, assim Ele fará.

De modo muito interessante esse tipo de pensamento rondava a mente de Adolf Hitler. Ouve-se, por vezes, que Hitler era cristão católico. Não era, sabemos, mas não também era abertamente anticristão. Sempre usou a Igreja como massa de manobra para impor sua ideologia e quando necessário distorcia as Escrituras. O Führer apoiou a ala da Igreja denominada de Cristãos Alemães que criaram o 'Cristianismo Positivo'. Uma similaridade que se nota com a espiritualidade atual e a doutrina propagada pelos Cristãos Alemães era o DESPREZO AO ENSINO DO PECADO E DA GRAÇA. O próprio Hitler considerava a pregação cristã de "mansidão" inútil à ideologia nacional-socialista da época, dizendo: "Temos a desgraça de que a nossa religião não nos convém.

Por que não temos a religião dos japoneses, cuja aspiração máxima é o sacrifício pela pátria? Para nós a religião maometana teria sido melhor que o cristianismo, uma religião frouxa e paciente". Em seu livro 'A cruz distorcida: o movimento cristão alemão do Terceiro Reich', a historiadora Doris Bergen escreveu que "os Cristãos Alemães pregavam um cristianismo como o polo oposto do judaísmo, Jesus como líder antissemita, e a cruz como símbolo de guerra contra os judeus". O Evangelho da cruz de Cristo era aquém e negativo demais para recuperar o orgulho e a força do povo alemão após a humilhação no Tratado de Versalhes. Admitir a derrota não é uma opção.

Se você leu até aqui, espero que você possa trazer à memória o que traz esperança. Sim, Jesus Cristo venceu todas as coisas e nos deu a salvação eterna oferecendo-se a si mesmo, de uma vez por todas, como sacrifício vicário (substitutivo) pelos nossos pecados (Hb 7.27). Porém, Cristo jamais pregou e viveu como se dele emanasse poder autogerado. Todo poder por ele exercido emanava do Pai das Luzes (Tg 1.17) e vinha como resultado da perfeita submissão do Filho ao Pai (Mt 11.27; Jo 8.28; Jo 12.49). O Evangelho de Jesus veio revelar que o homem é pecador e que não há esperança de salvação para ninguém abaixo dos céus senão por uma ação ativa de amor do Pai revelando esse favor imerecido por intermédio de Jesus (Mt 19.16-26). O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16). Mas apesar de sermos filhos de Deus, nós não somos deuses. "A igreja possui um único altar, o altar do Todo-Poderoso [...] perante o qual toda criatura deve se ajoelhar. Aquele que procura coisa diferente disso deve se afastar; não pode se juntar à casa de Deus [...]. A igreja possui um único púlpito, e, do púlpito, a fé em Deus (que está em Cristo Jesus) será pregada, e nenhuma outra fé, e nenhuma outra vontade que não a vontade de Deus, por mais bem-intencionada. [...] não podemos simplesmente não estar atento com o fato de que a causa de Deus nem sempre é o sucesso; nós realmente podemos ser 'malsucedidos': e, ainda assim, estar no caminho certo" (Dietrich Bonhoeffer).

Na verdadeira espiritualidade, para Deus sucesso é:

  • Humildade para o reconhecimento de sua natureza pecaminosa.
  • Arrependimento do que te leva a se distanciar de Deus (inclusive, eventualmente fazer tudo "certinho" e não dar glória a Deus pelo privilégio de ser participante de Sua Obra)
  • Submissão à vontade de Deus (que é naturalmente contrária a sua, o que inclui negar-se a si mesmo).
  • Fidelidade à promessa da Palavra de Deus de que Ele irá cumprir a transformação que começou em cada um dos crentes até o dia que encontraremos com o nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo diante dos fracassos e derrotas que tivermos aqui nesse mundo.


Disse Jesus: "Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo" (Jo 16.33).

"Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Rm 8.36 e 37).



sábado, 12 de abril de 2014

Bíblia: a nossa estrada comum


Artigo publicado no IHU:

Bíblia e literatura: o Nazareno beat. 
Artigo de Gianfranco Ravasi


Apesar de toda rejeição ou desmemoriamento, a Bíblia é – nas palavras do título do célebre ensaio de Northrop Frye – "o grande código" da nossa cultura; o Evangelho é a fonte da nossa civilização, como asseverava Kant; e o cristianismo, a "língua materna" da Europa, para usar uma definição bem conhecida de Goethe. 


A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 30-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto. 

Eis o texto.


Nietzsche estava convencido de que Jesus tinha morrido jovem demais: "De fato, ele mesmo teria renegado a própria doutrina se tivesse chegado à minha idade" (em Assim falou Zaratustra). O autor do Anticristo, então, estava persuadido de que o apóstolo Paulo era um deletério "desangelista", isto é, anunciador de uma "má nova", ao contrário dos evangelistas, e propunha no Ecce Homo a substituição de Dionísio no lugar de Cristo sobre os altares da civilização ocidental, elevando assim Atenas e Roma à ribalta, e afundando Jerusalém nos abismos, ao contrário do que sonhava João no Apocalipse. No entanto, o mesmo filósofo foi forçado a reconhecer em Aurora que, para nós, ocidentais, entre a experiência da leitura dos Salmos e a de Píndaro ou de Petrarca, há a mesma diferença existente entre a pátria e a terra estrangeira.

Não há dúvida: apesar de toda rejeição ou desmemoriamento, a Bíblia é – nas palavras do título do célebre ensaio de Northrop Frye – "o grande código" da nossa cultura; o Evangelho é a fonte da nossa civilização, como asseverava Kant; e o cristianismo, a "língua materna" da Europa, para usar uma definição bem conhecida de Goethe.

Eis, então, há muito tempo, a multiplicação de textos que aprofundam a chamada Wirkungsgeschichte, ou seja, a "história dos efeitos" que as Sagradas Escrituras e, mais em geral, o patrimônio cultural cristão induziram no nosso pensar, dizer e agir. O último livro que prossegue – obviamente, por sondagens e por símbolos – nessa busca vê como autora uma teóloga que também é filóloga clássica e anglicista, a alemã Karin Schöpflin, professora em Göttingen.

As suas páginas se entrelaçam ao longo da trama diacrônica da Bíblia, partindo, portanto, do incipit genesíaco, avançando de etapa em etapa através dos livros históricos, sapienciais e proféticos do Antigo Testamento, para chegar aos Evangelhos, à Igreja das origens dominada pela figura de Paulo e à tela grande final pintada pelo Apocalipse joanino.

Em cada uma dessas etapas, a autora demarca o seu discurso sobre dois registros: um é puramente exegético ("biblicamente"), o outro, ao invés, é dedicado à exemplificação da recepção literária das narrativas, dos personagens, dos símbolos, dos temas bíblicos ("literariamente"). Tem-se, assim, a intersecção de dois textos que, por si sós, também poderiam ser usados autonomamente, a fim de obter, no fim, uma introdução à Bíblia, de um lado, e uma vasta antologia literária, de outro.

A multidão de autores envolvidos – respondem ao apelo todos os maiores, de Alighieri a Tolstoi, apenas para evocar os extremos alfabéticos mais significativos – revela uma surpreendente sintonia com as Sagradas Escrituras, às vezes de formas inesperadas, outras vezes de modo provocativo. Assim, por exemplo, pode surpreender que – diante da infindável tradição literária que se agarrou àquela obra-prima que é o livro de Jó, até empurrá-lo ao longo de territórios estranho (pensemos em Resposta a Jó, de Jung) – Schöpflin tenha escolhido, além do drama Jedermann (Cada um) de von Hofmannsthal, a última novela do Decamerão, a de Gualtieri, Marquês de Saluzzo, e da pobre Griselda.

No interminável "paratexto" que flui a partir do "texto" evangélico e do seu protagonista, Jesus Cristo, emerge uma trilogia que vê dois sujeitos imponentes como o Messias, de Klopstock, e a Ressurreição, de Tolstoi, mas surpreendentemente também a "fábula de inverno" Deutschland, de Heine, com um Cristo "fracassado", mas transformador do mundo.

E, se quisermos voltar ao Bere'shit, o "No princípio" do Gênesis, eis que vêm ao nosso encontro necessariamente o Paraíso Perdido, de Milton, mas também o insuspeito Frankenstein, de Shelley (aquele horror, de fato, é sutilmente teológico, por ser prometeico e, portanto, obra de uma decriação antidivina), o menos conhecido Gellert, um poeta do século XVIII, e o "metafísico" do século XVII Marvell com o seu The Garden, centrado na desconcertante interpretação do paraíso como solidão absoluta, rompida pela presença do outro (Eva), verdadeiro pecado original.

Detemo-nos, sem continuar em uma leitura de extraordinária atração e de muitas iridescências. Fazemo-lo para abrir espaço não para uma resenha, mas apenas para uma sinalização de outro livro ainda mais fascinante que engloba, mas também transborda, o gênero agora proposto. Antonio Spadaro é o jesuíta nascido em 1966 que se tornou conhecido em todo o mundo pela entrevista com o Papa Francisco que publicada na Civiltà Cattolica, por ele dirigida.

Na verdade, ele é também um finíssimo intérprete da cultura norte-americana contemporânea e manifesta isso agora descrevendo a sua paisagem literária, porque se trata de uma verdadeira paisagem existencial e espiritual que se cruza com a histórico-geográfica. Esse afresco da América na sua pele e nas suas veias (como diz o título) se transforma em uma cavalgada ao longo de milhares de páginas poéticas e narrativas que são evocadas por Spadaro com a agudeza das suas análises, mas também com a entrada direta das vozes dos protagonistas através do encaixe das citações.

Vai-se do profeta e pioneiro Whitman e da inesquecível Dickinson, da "comédia humana" da antologia de Lee Masters ou ainda do "anel metafísico do mundo selvagem" de London, até a "inteligência lírica" de Ferlinghetti, à "épica das coisas e das imagens" e às suas epifanias de um Williams ou de Bishop. Mas se vai além, até personagens que sempre emocionam como Carver, Sylvia Plath, a O'Connor de Wise Blood e aquele "estranho solitário louco místico católico", como Kerouac se autodefine.

É justamente o retrato desse ícone da beat generation que nos surpreende pela sua insone espiritualidade, confiada a cartas, orações, poesias, invocações dirigidas a Deus, a Jesus, até mesmo a São Paulo: "Deus, devo ver o teu rosto esta manhã, o Teu Rosto através dos vidros empoeirados da janela, entre o vapor e o furor; devo ouvir a tua voz acima do clamor da metrópole...".

E, assim, Na estrada se torna uma peregrinação, e beat é a primeira "batida" evangélica de bem-aventurança: "Uma tarde, eu fui para a igreja da minha infância em Lowell, Massachusetts, e, de repente, com lágrimas nos olhos, quando ouvi o sagrado silêncio da igreja, tive a visão do que eu realmente quis dizer com a palavra Beat, a visão que a palavra Beat significava bem-aventurado...".



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Deus está nos detalhes


Interessante artigo de Rodrigo Petronio(*), sobre "a enormidade espiritual da pequenez", publicado no Valor Econômico de 19/07/13:

Deus não é grande

Em uma das minhas caminhadas cotidianas, fui surpreendido por uma pergunta um tanto estranha. Para não dizer mórbida. Supondo que Deus exista, qual seria o tamanho de Deus? Não é uma "boutade". Esse problema, se podemos chamá-lo assim, perturbou as mentes e os corações de centenas de teólogos, filósofos e cientistas ao longo dos últimos três mil anos. E tudo isso por causa da complexa relação existente entre grandeza e pequenez. É difícil não olharmos ao redor sem realçar a presença marcante dessas dimensões.

Adorno percebeu que até mesmo os valores precisam ser enxutos para ter eficácia. Por isso a sua "minima moralia". Como diria o filósofo e matemático Whitehead, pensamos em ideias gerais, mas vivemos o detalhe. O infinitamente grande tende a obscurecer a imaginação. Torna nossas faculdades cada vez mais genéricas. Dissipa-nos. Pensar nos bilhões e bilhões de constelações do Universo é um exercício de variáveis. Sonhar com o cosmo contido no grão de areia e com a flor silvestre abrangendo a amplidão celeste é obra de um poeta excepcional, como William Blake.

Talvez esse seja o motivo de Leibniz, uma das mentes mais brilhantes do século XVIII, ter se lançado com tanta ênfase à pesquisa do cálculo infinitesimal. Talvez por isso Pascal, no século XVII, após dissolver a natureza no abismo de espaços infinitos, tenha chegado à conclusão de que somos tudo perante o nada e nada perante o infinito. O homem não passaria de um caniço pensante. O infinitamente grande nos distancia da experiência mais primária. Obseda um contato afetivo. Torna-se uma conjectura. Liga-se à visão e à audição, os sentidos mais abstratos e espirituais, segundo Santo Agostinho. O infinitamente pequeno parece estabelecer uma estranha e invisível cumplicidade com o tato.

Seria o reino dos céus dos pequeninos? Há um mistério no ínfimo. De tal ordem que nos sugere realidades espirituais inenarráveis. São conhecidas as imagens de Cristo ao tratar de seu reino como um grão de mostarda. E a equívoca alegoria do camelo e do buraco da agulha. As enormes e policrômicas mandalas budistas, feitas com grãos de areia, destinam-se a ser dispersas pelo vento, tão logo estejam prontas. É constante na tradição taoísta comparar o ser humano a uma folha, um grão, um fruto, um inseto, uma semente ou mesmo a um verme. Os jainistas, uma antiga vertente do hinduísmo, têm o costume de andar com uma varinha amarrada na cintura, varrendo o chão à sua frente. Fazem-no para evitar pisarem em uma formiga ou um grilo, que, como tudo, contêm a centelha de Brahma.

Em uma parábola bíblica, Jesus chega a uma casa. Enquanto Maria se prostra de joelhos e o enaltece como o Salvador, Marta corre para apanhar água em uma bacia e tratar seus pés feridos. Na sua magistral interpretação, o místico Meister Eckhart nos diz que a atitude de Marta é muito mais sublime do que a de Maria. Pois amar a humanidade ferida de um Deus feito homem é muito mais espiritual do que adorar a divindade de um homem que se proclama Deus.

Para Eckhart, o pequeno gesto humano sobrepuja em virtude o grande gesto de adoração de Jesus como Deus, porque envolve mais desprendimento. Amar o desprendimento como essência da experiência espiritual fez de Eckhart um dos maiores místicos da humanidade. Por essas e outras interpretações, condenado pelo Santo Ofício, Eckhart desaparecera misteriosamente na floresta às margens do Reno. Talvez tenha se dissipado. Evanescido na luz. Talvez tenha retornado às trevas luminosas da deidade. Quem sabe fora sorvido por Deus em um botão de rosa ou nas ínfimas partículas da seiva vegetal.

A enormidade espiritual da pequenez ainda vai mais longe. Os egípcios inseriam escaravelhos-coração, amuletos de ametista em forma de escaravelho, dentro do peito das múmias. Concebiam esse pequeno animal como um guia dos Campos de Juncos, no mundo do além. Ele também o é para a tradição alquímica chinesa. Para os cabalistas, todo o Universo está contido na primeira letra do alfabeto hebraico. Não por acaso, a cabala é a fonte direta do magistral conto de Borges, "O Aleph", no qual o orbe pode ser visto, com todos os seus seres e atributos, em três dimensões, em todos os seus aspectos e em todas as suas perspectivas, em um minúsculo ponto no porão da casa de Beatriz Viterbo, na rua Garay, em Buenos Aires.

O padre Antonio Vieira, imperador da língua portuguesa, segundo Fernando Pessoa, dedicou um de seus mais engenhosos sermões a tratar do círculo do ventre de Maria. Seu fascínio era supor como a esfera de um ventre do tamanho de um punho pôde circunscrever Deus. Para explicá-lo, usa sem sucesso algumas das mais agudas metáforas da oratória e todos os recursos da filosofia escolástica. O mesmo ocorre com as imagens hiperbólicas do cardeal Nicolau de Cusa, no século XV, ao descrever Deus como infinitamente grande e infinitamente pequeno, por coincidência dos opostos.

Essa ênfase no enigma oculto do mínimo está presente até em uma das frases mais convencionais da história das ideias: Deus está no detalhe. Atribuída a autores tão díspares quando Platão, Vitruvio, Paul Valéry e Mies van der Rohe ou relegada a um divino anonimato, a frase designa a força da minoridade na dimensão intelectual humana. O impacto que o minúsculo exerce sobre nossos afetos.

Por outro lado, a pequenez pode ser uma ambígua forma de baixeza. O antropólogo alemão Hans-Jünger Greschat relata seu desconcerto ao chegar à Índia e ver ascetas se banhando em um esgoto com fezes. A biógrafa Karen Armstrong nos lembra que Buda, antes de chegar à via do caminho do meio, teria vivido durante anos com os "biddhus", ascetas radicais da floresta, alimentando-se dos próprios excrementos e atingido níveis infra-humanos de automortificação. Se tudo tem Brahma, desde as realidades celestes macrocósmicas até os seres mais vis, nada pode ser desprezado.

Em um contexto cristão do século XIII, a beguina Angela de Foligno, talvez radicalizando a parábola bíblica de Marta e Maria, assina surpreendentes descrições de seu tratamento dos leprosos. Após lavar os pés dos doentes, bebia a água viscosa. E confessa ao leitor: aquela era sua hóstia. Aquela era a sua comunhão.

Mas nem tudo é grandeza no mundo da pequenez. Por isso, Voltaire confessava-se estupefato ao imaginar como as mentes religiosas conseguiam ver Deus em um repolho. No começo da década de 1990, os "brights", mais conhecidos como novos ateus, lançaram uma cruzada antirreligiosa protagonizada pelo biólogo Richard Dawkins, pelo filósofo Daniel Dennett e pelo brilhante polemista britânico Christopher Hitchens, entre outros pensadores.

A despeito das generalizações de toda polêmica, uma das propostas de Dawkins é a de uma espiritualidade laica. Para ele, a observação racional do espetáculo do universo e da evolução é de per se uma epifania. Para além do ateísmo virulento que o notabilizou, Dawkins na verdade propõe uma religião minimalista. A simples consciência cotidiana de nossa ancestralidade animal e da maravilhosa formação do cosmos é, em si mesma, uma atitude espiritual.

Mas é Hitchens quem chega, em um de seus livros, a uma fórmula insuperável: Deus não é grande. A lucidez de Hitchens é cortante. A fé, em seu impulso enaltecedor, não apenas amesquinha Deus. Também nos impede de ver Deus nas menores partículas de nossa vida. Mesmo os teólogos não podem negar que há muita razão nesses argumentos. Afinal, nada menos divino do que reduzir Deus a uma mera questão de abrangência. Nada mais frívolo do que quantificar o infinito de sua misericórdia. Nada mais humilhante para Deus do que depender de nós para dimensionar sua grandeza.

Em um pequeno nódulo de lama chamado Terra, perdido em meio a bilhões de galáxias, em uma fração desprezível de tempo, uma criatura igualmente desprezível, chamada ser humano, cria algo chamado conhecimento. Esse foi o momento mais arrogante da história do universo. Essa exuberante intuição de Nietzsche sobre a origem do conhecimento como um delírio de grandeza guarda mais sabedoria do que toda a grandiosa história da filosofia.

Apenas os ressentidos se vingam da indiferença do universo criando para si o álibi da grandeza. Apenas os medíocres se deslumbram com a grandeza. Os grandes são grandes justamente por nunca perder de vista a própria insignificância. Um dos escritores máximos do século XX, Elias Canetti confessou-se farto de cavalgar o cavalo da presunção. E arrematou: "Nem sequer cheguei a me tornar um ser humano".

Em "O Sacrifício", filme-testamento de Tarkovsky, retemos o seguinte ensinamento: se repetirmos um pequeno gesto, todos os dias, como em um ritual, algo no mundo vai mudar. A repetição infinita de pequenos gestos não gera um acúmulo de gestos. Gera um milagre. Para a gestação desse milagre, é preciso que enfim despertemos para a presença desse ínfimo Deus que mal se distingue de nossa condição mortal.

Talvez resida nessa pequenez humana, demasiado humana, indefinidamente repetida, o futuro misterioso e promissor da espécie. Quando abandonarmos de vez as ilusões vazias das ideologias, das religiões e das utopias, quem sabe consigamos enfim enxergar os pés feridos daquele que bate à nossa porta.

(*)Rodrigo Petronio é escritor, professor da Faap e da Casa do Saber. Autor dos livros "Venho de um País Selvagem" (Topbooks, 2009), "Pedra de Luz" (A Girafa, 2005), entre outros. Organizou os três volumes das "Obras Completas" do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva (Editora É, 2010)



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 5

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 4

O capítulo 5 de Eclesiastes marca uma inflexão no discurso do Pregador, no sentido de que é o primeiro capítulo onde Deus tem, digamos, um papel preponderante na sua exposição. 

Até então, a tônica estava na rotina da vida e nos fluxos e refluxos - inúteis e intermináveis - da vaidade humana. 

Como eu havia comentado antes, no capítulo 2, o Pregador apresentou – brevemente - 3 pilares onde apoiava o seu discurso: a sabedoria, a eternidade e a providência divina, o que lhe dava ainda alguma instabilidade na articulação das suas idéias; mas, para obter maior sustentação, no capítulo 5 ele introduz o quarto pilar: o temor de Deus

Logo no primeiro versículo (que nas versões católicas corresponde ao v. 17, o último do cap. 4), a Casa de Deus surge como que do "nada" no seu discurso, como se tudo o que houvesse escrito até então fosse vã (vaidosa) filosofia. 

Uma paráfrase possível de "Guarda o teu pé quando entres na Casa de Deus" talvez fosse: "toma consciência da importância deste passo, quando começas a falar das coisas de Deus".

Dentro do contexto de Eclesiastes, "pé" (רגל - regel ) aí pode ser entendido também como "passo", ou seja, por "chão", que pode tanto significar uma caminhada "debaixo do sol" como o Pregador vinha propondo, como uma tomada de consciência da existência "pé no chão", realista, concreta, de cada um de nós, que, num certo marco da caminhada, não encontra mais respostas às suas perguntas nem alívio para o seu cansaço e enfado. 

Há momentos, portanto, em que somente o imanente (o "ser", o "estar", o "ter") não basta, não nos satisfaz, e por isso precisamos do (e buscamos o) transcendente (o "deve ser", o "pode ser", o "deverá ser"), e esta busca - para o Pregador - somente se aperfeiçoa na Casa de Deus, diante do Todo-Poderoso. 

Neste encontro com o Eterno, inevitável para todo ser humano, para aceitá-lo ou rejeitá-lo, para honrá-lo ou desprezá-lo, para o seu bem ou seu mal, todo cuidado é pouco. 

Não podemos oferecer "sacrifício de tolos", na expressão do v. 1, sacrifícios esses "que fazem mal". 

O silêncio, a prudência, o compromisso e a reverência são qualidades indispensáveis para aproximar-se de Deus em contemplação (v. 2), como o salmista já dizia: "Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!" (Salmo 19:14). 

A tradução da Bíblia do Peregrino para o v. 2 (que nas versões católicas corresponde ao v. 1) é muito interessante: "Quando apresentares um assunto a Deus, que teus lábios não se precipitem, nem o pensamento te arraste". 

Quantas vezes os crentes têm essa experiência, de que nos apresentamos diante de Deus em oração e pensamentos errantes nos arrastam para longe de Sua presença. 

Deus requer de nós inteireza de coração, e, como o salmista diz, "sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (Salmo 51:17). 

Assim, o Pregador chama de tolo todo aquele que faz um voto e não o cumpre, melhor é não fazê-lo do que desagradar a Deus (vv. 4-6). Infelizmente, este versículo é abusado e deturpado de todas as maneiras pelos tais "pregadores" da "teologia da prosperidade".

Enquanto esses "pastores da prosperidade" se preocupam com as riquezas, o Pregador vai no caminho contrário e retorna ao tema da opressão dos pobres (no extenso e profundo v. 8 - como já havia se referido no início do capítulo 4). 

Fala do roubo e da cadeia de corrupção que dominam este mundo em lugar do direito e da justiça. 


É interessante que o Pregador faça esta distinção entre Direito e Justiça, algo que até hoje não é muito claro para quem vive nas sociedades modernas, e - pasme! - nem para quem estuda a Filosofia do Direito. 

Primeiramente, Justiça é um valor filosófico inalcançável pela sabedoria humana. Todos os grandes filósofos, desde Aristóteles, trataram de investigar e elaborar uma fórmula final e definitiva do que - para eles - significa a verdadeira Justiça, e, embora as suas muitas contribuições, até hoje este conceito permanece impenetrável. 

Nietzche, por exemplo, entendia que o ideal de Justiça tem seu fundamento na inveja humana (como o Pregador já inferira em 4:4). 

Assim, ninguém valoriza a Justiça por mera contemplação de qualidades sublimes do ser humano, mas porque não quer que ao outro seja permitido o que a ele é proibido. 

Logo, se o outro comete um crime, por exemplo, ele o denuncia porque tem inveja de que o outro possa fazer impunemente o que a ele é ilícito. 

Enfim, cada um de nós tem um ideal de Justiça, coletivo ou individual, e nem sempre ele é protegido pelo Direito, ou seja, pela Lei e pela sua aplicação pelos juízes, esta última muitas vezes casuística. 

Mesmo a Lei nem sempre é considerada justa por todos, mas por uma maioria democraticamente qualificada, como no caso das restrições do aborto ou do consumo de drogas tidas como "leves", por exemplo. 

O Pregador já percebia essa distinção tipicamente humana, mas também divina, vez que a Lei mosaica, ainda que expressasse o Direito divinamente revelado ao povo judeu, não podia conter, na sua finitude terrena, todo o esplendor eterno e infinito da Justiça de Deus.

Ainda neste compasso, Salomão, o rei, diz algo que nos soa tão contemporâneo que poderia ser usado pelo MST atualmente: "o proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo" (v. 9). 

Aparentemente, é um versículo deslocado do contexto do v. 8, mas o Pregador associa o fim da opressão ao proveito da terra por todos, e não por casualidade, a posse e o usufruto da terra sempre esteve ligada às questões de direito e justiça. 

Rousseau já dizia que "o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil"[1]

Roland Barthes[2] entende que a Retórica surgiu em função da reivindicação de terras entre os gregos do século V a.C., quando, depois da derrubada dos dois tiranos invasores sicilianos, Géron e Hiéron, os exilados voltaram e havia uma confusão de terras depois dos muitos confiscos. 

As questões possessórias terminaram sendo decididas em grandes assembleias públicas (a ekklesia  Εκκλησία), em que era preciso ser eloquente para convencer os jurados da justiça do seu quinhão de terras. 

Um dos mais renomados filósofos do Direito no Brasil, Tércio Sampaio Ferraz Junior, lembra que “a palavra diké, que nomeava a deusa grega da Justiça, derivava de um vocábulo significando limites às terras de um homem. Daí uma outra conotação da expressão, ligada ao próprio, à propriedade, ao que é de cada um[3]

Diké (Δίκη) era representada pela estátua de uma mulher segurando a balança na mão esquerda e a espada na direita, mas com os olhos abertos. 

A colocação da venda nos seus olhos vem com a absorção da mitologia grega pelos romanos, que criam a deusa Iustitia, que até hoje vemos em fóruns e escritórios de advocacia. 

É interessante observar, portanto, que já havia, digamos, uma "proto-formulação ocidental" de Justiça em Eclesiastes, seja o seu autor Salomão ou um judeu do século VI a. C.. 

Alguém poderia objetar que as culturas se influenciaram mutuamente, mas não houve tempo nem condições para tanto, já que a menor datação possível para Eclesiastes é anterior à consolidação da cultura grega (tal como nos foi transmitida), que se dá a partir do século V a. C. 

De qualquer forma, se nota um ideal de direito e de justiça muito semelhante em vários povos antigos, e que permanece até hoje.

Não por acaso, o Pregador encerra o capítulo 5 falando do amor ao dinheiro, "a raiz de todos os males" na visão de Paulo (1 Timóteo 6:10). 

Afinal, a propriedade de terras era o sinal mais visível das posses de alguém. Enquanto o trabalhador pobre dorme um sono tranqüilo, o rico se preocupa com a sua fartura (v. 12), transformando as riquezas no seu próprio dano (v. 13), e, se morre, o rico as deixará de herança para quem nunca trabalhou para merecê-las (v. 14). 

Assim, o Pregador retoma um tema com o qual já finalizara o capítulo 2. Afinal, por que trabalhar tanto, se nus saímos do ventre da mãe e nus voltaremos ao ventre da terra, e não poderemos levar nada conosco (v. 15)? 

Trabalhamos para o vento, então... (v. 16). Passamos por muitas dificuldades e muitos aborrecimentos para ajuntar dinheiro (v. 17), mas verdadeiramente "boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu" (v. 18). 

"A vida é curta, aproveite-a!", grita o Pregador, e as coisas que batalhamos para conseguir ajuntar, na verdade, são dons de Deus (v. 19), e é Ele, e somente Ele que nos enche o coração de alegria (v. 20).


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[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem da Desigualdade. Rio de Janeiro: Athena Editora. Trad. de Maria Lacerda de Moura, s/d, p. 124
[2] BARTHES, Roland. A Aventura Semiológica. São Paulo : Martins Fontes, 2001, trad. port. de Mario Laranjeira, p. 9
[3] FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao Estudo Do Direito. Técnica, Decisão, Dominação. São Paulo: Atlas. 2003. 4ª ed., p. 52



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 6



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 4

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 3

O capítulo 4 de Eclesiastes começa com um libelo contra a injustiça e toda forma de opressão, e com uma conclusão pessimista bem ao estilo do Pregador, que considera mais feliz quem já morreu (v. 2) e ainda mais feliz ainda quem ainda não nasceu, e portanto não viu o que se faz "debaixo do sol" (v. 3). 

Estes versículos devem ser lidos ainda na esteira do término do capítulo 3, em que, nos últimos versículos, o Pregador dá a "receita" da vida feliz, que é "alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa" (3:22). 

Por isso, o Pregador volta a falar do trabalho no v. 4, e diz que todo o progresso e todas as obras das mãos do homem e de sua inteligência provêm de um sentimento básico humano, que é a inveja

Esta é uma maneira bem simples de revelar algo que hoje, quase 3.000 anos depois do Pregador ter escrito Eclesiastes, é um dado comprovado pela História recente, ou seja, a competição entre pessoas, povos e nações é a força motriz do progresso e desenvolvimento econômico.

Esse fenômeno já foi devidamente observado, por exemplo, desde "A Riqueza das Nações", de Adam Smith (1776), até "A Vantagem Competitiva das Nações", de Michael Porter (1989), que são duas obras referenciais nessa questão. 

Além disso, mais estritamente no campo da filosofia, o Pregador já percebia, mais de 25 séculos antes de Nietzche, o poder da inveja nas relações humanas, algo que o filósofo austríaco somente escreveria em 1887, na sua "Genealogia da Moral". 

De fato, Nietzche e Salomão têm uma visão profundamente existencialista do mundo e a grande diferença entre ambos é que o primeiro tem limites muito bem estabelecidos, o aqui e agora, enquanto o último sempre recorre à transcendência e mantém a eternidade em perspectiva (e um Controle Maior além do nosso vão "comando das circunstâncias").

Por isso Salomão insiste tanto em dizer que "também isto é vaidade e correr atrás do vento". 

Nos versículos seguintes (5 e 6), ele contrasta dois ditados da "sabedoria" popular do seu tempo, que estão melhor traduzidos na versão da Bíblia do Peregrino:

5 É que "o néscio cruza os braços e vai-se consumindo".
6 Sim; mas "é melhor um punhado com tranqüilidade, do que dois com esforço".

Assim, até hoje temos a visão de que é tolo, preguiçoso, vagabundo, quem não trabalha duro e prefere cruzar os braços, daí o provérbio antigo dizer que ele não consome o que produz, mas se consome a si mesmo ("come a própria carne" na Almeida Revista e Atualizada). 

Obviamente, o Pregador não está falando de canibalismo, como as outras versões portuguesas podem dar a entender ao leitor mais afoito, mas Salomão está justamente contrastando com o ditado seguinte (do v. 6), em que reforça o valor da tranquilidade, do trabalho sem esforço exagerado (e inútil), algo que também recentemente vem sendo redescoberto pelos filósofos, como Domenico de Masi e seu "Ócio Criativo". 

Dentro desse espírito, o Pregador critica o homem solitário, sem família, que, no entanto, não pára de trabalhar, mesmo não tendo a quem deixar o fruto do seu suor (v. 8). 

Ele não gosta da solidão na vida e no trabalho, pois diz que "melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho" (v. 9). 

Obviamente, nem sempre é possível que dois empregados tenham um melhor salário do que quando somente um é contratado, mas o que o Pregador valoriza não é a recompensa material pelo trabalho, mas o fato de ter alguém com quem compartilhar, não só o trabalho em si, mas também o seu fruto. 

Se alguém cair e estiver só, não haverá quem o levante (v. 10), e se estiverem trabalhando ao relento, como era comum na Palestina daquela época, onde as atividades pastoris predominavam, não poderiam dormir lado a lado na noite fria do deserto (v. 11), aproveitando o calor dos seus corpos. 

Da mesma maneira, se fossem dois, eles podiam se defender melhor dos inimigos, fossem eles outros homens ou animais. Toda essa analogia, é claro, aponta para o valor da família no contexto agropastoril daquela época e daquele lugar.

Aqui o Pregador faz uma comparação com o "cordão de três dobras" (v. 12), e muitos estudiosos enxergam nessa metáfora uma referência não só ao fato de que, quando há dois unidos em Espírito, ali está um terceiro, Deus, como também um símbolo da Trindade, lembrando também que Jesus disse que "onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mateus 18:20).

O capítulo 4 finaliza com uma espécie de autocrítica do Pregador, provavelmente já idoso, mas que se compara a um "rei velho e insensato que já não se deixa admoestar", dizendo que um "jovem pobre e sábio... que saia do cárcere para reinar ou nasça pobre no reino" é melhor do que ele (vv. 13-14). 

Mesmo que todo o povo siga o jovem que ficará no lugar do rei, ele também envelheceria e o ciclo se repetiria na mesma monotonia do começo do livro (1:4-11). 

É interessante observar que, após a morte de Salomão, o seu reino seria dividido em Sul (Judá), governado por seu filho Roboão; e Norte (Israel), governado por Jeroboão (1ª Reis 11 e 12), e a gota d'água que faltava para esse divisão foi exatamente o fato de Roboão, herdeiro por direito ao trono de todo Israel, ter-se recusado a seguir o conselho dos anciãos, preferindo ouvir os seus amigos de infância. 

O próprio Salomão, digamos, envelhecera mal, impondo muitos tributos e obrigações a todo o povo, e já não se deixava admoestar, mas o mesmo fez seu filho, Roboão, levando o reino que seu pai construíra à divisão irreversível, e as 10 tribos que formaram o reino do Norte posteriormente foram apagadas do mapa e da bênção de Deus.

A tradição rabínica tem uma interpretação, relatada por John Gill, que me parece pertinente para este contraste entre o rei ancião e o jovem pobre e sábio:


Os judeus, na sua Midrash, Jarchi e outros, interpretam isto, alegoricamente, como a imaginação do bem e do mal nos homens, o princípio da graça, e a corrupção da natureza; um é o novo homem, o outro é o velho homem; o novo homem é melhor que o velho Adão: o Targum aplica isto a Abraão e Ninrode; aquele é o jovem pobre e sábio, que temeu a Deus, e o adorou desde cedo; o último é o rei velho e tolo, que era um idólatra, e se recusava a ser advertido por sua idolatria.


Daí, penso eu, podemos fazer uma analogia com os ensinos de Paulo sobre a nova criatura (2 Coríntios 5:17, Gálatas 6:15) e o homem velho (Romanos 6:6, Efésios 4:22, Colossenses 3:9), o que remete também à pergunta de Nicodemos a Jesus: "Como pode um homem nascer, sendo velho?" (João 3:4). 

Este, digamos, despojamento da velha criatura, e sua substituição pelo novo homem, envolve o risco, também, de chegarmos a um ponto em que pensamos que já sabemos tudo, que não precisamos mais ser ensinados nem admoestados. 

Talvez por isso mesmo, na carta à igreja de Éfeso, Jesus lhes tenha dito que haviam deixado o primeiro amor (Apocalipse 2:1-7).




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