Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso
João deitou a cabeça no peito de Jesus. Era a confiança absoluta no Mestre durante a última ceia. Poucas horas depois, o gesto era retribuído e magnificado: Jesus entregou-lhe a guarda da pessoa mais importante. “Filho, eis aí tua mãe”. A cena sob a Cruz mostra algo sublime: a amizade tornara João parte da família.
Amizades surgem entre pessoas que se admiram. A estreita relação entre os filósofos Montaigne e Étienne de la Boétie resulta numa das mais belas frases já escritas sobre este tipo de afeto. Nos seus ensaios, o nobre tenta explicar por que amava La Boétie. Só consegue dizer que a causa central era “porque era ele, porque era eu”. O autor dos Ensaios reconhece que, na especificidade absoluta do outro, está a chave da fusão elevada a que chamamos amizade.
A cabeça pendente de João e a afirmação de Montaigne mostram que a amizade encontra um campo além da razão: algo entre a fraternidade adotada e a entrega ao mistério da afinidade afetiva. Fraternidade adotada porque o amigo torna-se um irmão por desejo recíproco. O mistério da afinidade afetiva porque, diante do amigo, torno-me, de fato, quem sou. Não existe uma racionalidade que abarque isso. A amizade é uma epifania lenta.
Há pedras no caminho. Amigos também possuem egos e as circunstâncias, por vezes, sufocam tudo. Desde que se conheceram na Paris ocupada, Sartre e Camus perceberam uma atração afetiva imediata. Já admiravam a obra um do outro. Dois homens diferentes: Sartre, burguês e bem formado; Camus de família pobre e nascido na Argélia. Também havia o fato de que o parisiense se esforçava muito para agradar às mulheres, mas era feio como uma cólica. Camus era bonito, mas sem a lábia retórica do autor de A Náusea. Havia uma admiração recíproca e uma concorrência entre ambos. Sartre apoiou a URSS mais do que Camus gostaria e as conversas foram ficando ácidas. Numa carta endereçada à revista que Sartre dirigia (Les Temps Modernes), ocorreu o afastamento definitivo. Sartre respondeu no mesmo número com um texto muito duro, duvidando até da capacidade de compreensão filosófica do ex-amigo. A trágica morte de Camus impediu uma reaproximação. Sartre escreveu um lindo obituário. A morte vencera o ego.
Vaidades e disputas afastam amigos. Alguns afirmam que ex-amigos, de fato, nunca foram amigos de verdade.
Ocorrera algo similar no Brasil. Oswald de Andrade jogou sobre Mário de Andrade duas palavras que evisceravam os pontos mais dolorosos do autor de Macunaíma: chamou-o de “boneca de pixe”. Atacando Mário como mulato e homossexual, Oswald causou uma ferida que nunca cicatrizou. Amigos se aproximam do coração e, quando isto resulta em estocada, ela quase sempre é fatal. Amigos baixam a guarda uns para os outros e este setor não defendido, ao ser flechado, magoa como poucas coisas.
Talvez a amizade seja sempre um desafio. Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso. Os amigos nos conhecem e, para eles, as cenografias sociais são inúteis. Sim, nossos amigos nos amam, e nos conhecem, e nunca saberemos se nos amam por nos conhecer ou apesar de nos conhecer. Mas a entrega à amizade intensa é uma entrega a uma jornada de intimidade e apoio.
O olhar do amigo não tem a doçura absoluta do materno e escapa do tom acre e ressentido do inimigo. Assim, longe do mel estrutural e do fel defensivo, é um olhar de sinceridade. Para ter um amigo, preciso de condições específicas. Eu identificaria três fundamentais.
A primeira é a capacidade de se observar e continuar em frente. Uma conversa genuína com um amigo é uma dissecação anatômica da minha alma. Nem todos conseguem isso. Não é fácil atender ao preceito socrático: conhece a ti mesmo. Na minha experiência, conhecer aos outros é infinitamente mais fácil do que conhecer a si. Se os filósofos já garantiram que homens maus não possuem amigos, mas apenas cúmplices, eu acrescentaria que pessoas superficiais possuem apenas colegas e conhecidos, mesmo que os denominem amigos.
A segunda é o tempo. Não se criam amigos de um dia para o outro. Amigos demandam história, repertório de casos, vivências em conjunto. Amigos precisam viajar juntos. Assim, os afetos integram as vidas das respectivas famílias. Amigos acompanham nossos sucessos e fracassos amorosos, choram e riem com nossa biografia. Quem adicionei ontem na minha rede social é um fantasma, um fóton, jamais um amigo. Amigos precisam de cultivo constante. Todo amigo é, dialeticamente, um frágil bonsai e frondoso carvalho.
A terceira é o controle do próprio orgulho. A mais espaçosa dama da alma é a vaidade. Quando ela preenche o ambiente, sobram poucos assentos livres. Pessoas vaidosas são frágeis e temem a entrega da amizade. O amor é privilégio de maduros, dizia Carlos Drummond. Talvez a amizade também o seja. Talvez não seja apenas para maduros, mas, com certeza, é um privilégio. Encerro com o conselho sábio dado por um tolo. Polônio prescreve ao filho Laertes (peça Hamlet): “Os amigos que tens por verdadeiros, agarra-os a tu’alma em fios de aço; mas não procures distração ou festa com qualquer camarada sem critério”. O cortesão infeliz sintetiza tudo o que tentei escrever aqui. Já falou com seu amigo hoje? Um bom domingo a todos vocês!
Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:
Cordeiros de Deus
"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.
Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.
A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.
Leia a sábia, divertida e profunda história de Fininho, o coveiro que se formou em Filosofia, segundo a entrevista que ele concedeu a Camila Appel e foi publicada na Folha.
Mais abaixo segue um vídeo que foi realizado pela Istoé em 2013:
Conheça Fininho, o surpreendente coveiro formado em filosofia
Conversei com Fininho, um homem que me tocou com a sua visão de mundo e sua forma de habitar um lugar tão incomum, o cemitério. Um ser invisível para a sociedade, ele passou 20 anos de sua vida fechando caixões, cavando espaços na terra para uma espécie de plantação repugnada, uma matéria orgânica e ao mesmo tempo inorgânica, com vida, mas sem a vida.
Osmair Camargo Cândido ganhou o apelido Fininho por ser esguio. Ele foi faxineiro na Universidade Presbiteriana Mackenzie e sonhava em estudar lá. Conseguiu cursar a graduação de filosofia com acesso a bolsa de estudos. Formou-se filósofo. Entrou para a profissão de coveiro por um concurso do Serviço Funerário do Munícipio de São Paulo. “Sou coveiro por escolha própria”, diz. Hoje, trabalha no Cemitério da Penha.
Gosta de ler teatro. Ao falar sobre a importância do teatro grego por tratar da essência do teatro como catarse, ganhou de presente um livro de peças que eu levava na bolsa. Fininho atentou para o autógrafo na segunda página, e eu dei uma titubeada, mas quando perguntou se eu já tinha lido Antígona, ganhou o livro de vez. “Se a pessoa não compreender o teatro grego, não compreendeu o teatro. Vai passar vergonha numa discussão. Se ele não leu Antígona, não vai entender a catarse, a interpretação que se pode ter da vida sem o uso da razão, apenas com o teatro. Não sou eu que digo isso. Quem falou foi um prussiano. E o nome dele é Nietzsche”, disse.
Ele alimenta uma ambição na vida: publicar um livro que escreveu sobre o dia a dia de um coveiro. E, no fundo, parece torcer para que a publicação dessa entrevista o ajude nesse sentido.
Casado com uma costureira e com filhos (não me contou quantos), diz que a morte nada mais é do que um ponto no tempo e a lembrança da existência do instinto.
O que é a morte para você?
Um ponto no tempo. Qualquer coisa é um ponto no tempo. A morte é a lembrança do instinto. O homem cria a civilização, a sociedade, a amizade, mas existe seu instinto. É por isso que ele quer copular o tempo todo. Para que sua vida continue. A morte não é outra coisa senão um ponto no tempo. Fora isso você vai ficar fantasiando, inventando…
O absurdo é a vida. Quem falou isso foi Albert Camus e eu concordo com ele. Você não sabe como nem por que começou, como nem por que acaba. A vida é o intervalo entre o nascimento e o desaparecimento. Agora a morte cada qual dá o sentido que quiser. Tem gente que diz que é renascer, tem quem diga que é o fim de tudo. Camus tinha essa impressão, do absurdo da vida. Já o conterrâneo dele, Diderot, dizia que era o vazio. Não é interessante?
Você prefere ser chamado de coveiro ou de sepultador?
Ah, sepultador é fantasy. Eu sou coveiro mesmo. Quem faz cova é o quê?
O que diz na sua carteira de trabalho?
Diz que eu sou sepultador. Mas é fantasy.
Você gosta do que faz?
Apaixonado.
O que te cativa na profissão?
Acho que você poderia formular assim: o que há nas outras profissões que não há na minha atividade.
Se você pudesse ser qualquer coisa no mundo, o que seria?
A mesma coisa que sou hoje. Se eu pudesse renascer, eu pediria o favor de ter a mesma vida. É muito bom.
O que não é bom então?
O desconhecimento. O descaminho. Quem pelo dinheiro vive, é por ele mesmo que dedicará sua vida e perderá sua virtude, perderá sua coragem, perderá sua própria vida. Tem gente que vive a vida inteira, perde a juventude, correndo atrás do dinheiro, para quando estiver velho, gastar tudo tentando restabelecer a saúde.
Você acha que seu ofício interferiu na visão que você tem do dinheiro?
Evidente. Evidente que sim. Óbvio.
Você lembra de algum momento que isso te marcou?
Vários… Eu refleti bastante no sepultamento de Plínio de Arruda Sampaio. Eu via nele uma dedicação incomum. Ele tinha posses mas se dedicava de um modo à política que me pareceu muito tocante. Um dia eu o vi na avenida paulista, muito debilitado, já doente, distribuindo santinho do partido dele lá. Eu comentei que ele precisava descansar. Ele respondeu: “um homem deve chegar até a morte cumprindo aquilo que ele pensou, aquilo que o coração ordenou”. Eu fiquei muito emocionado. Aquilo que se acredita tem mais valor do que aquilo que se tem. Porque, na verdade, há a impressão de se ter as coisas. Mas é só uma impressão, porque ninguém tem nada. Não poderá transportar nada porque não se sabe para onde vai. Vamos a lugar nenhum. Viemos do nada, seguimos para lugar nenhum. Seguimos para hipóteses. Uns dizem que vão para o céu, outros para o inferno…
Como as pessoas reagem quando você conta que trabalha como coveiro?
Ah, todo mundo vê o coveiro como um fracassado. Um fracassado social. Porque o sucesso, o sucesso na América do Sul, está no dinheiro. Às vezes eu apelo um pouco né, falo ‘olha, fulano de tal foi coveiro’, como o Rod Steward – que foi coveiro também.
Quem é você?
Eu sou neto de Silvestre Camargo e da dona Albertina Camargo. Filho de Dirce Camargo, irmão do Odair, da Vera e da Iasmin. Esse cara sou eu. Eu sou bisneto de pessoas que foram escravizadas e, portanto, dado ao gosto popular. Gosto e leio toda a obra de Machado de Assis, com toda aquela pompa dele, mas sou dado também à literatura de Lima Barreto.
Sua profissão também faz parte de quem é você?
Sim.
Você gosta de trabalhar dentro de um cemitério?
Claro. Quem tem o privilégio de ouvir tanto passarinho cantando no serviço? A parede me tira a visão do horizonte. Eu não preciso da parede. Tem gente que precisa. Eu não preciso de parede, eu não preciso de gravata, preciso só do mínimo para viver. Porque assim eu não incomodo o outro. Eu não tiro o pão da boca de ninguém. E morro com a minha consciência tranquila, mesmo com a barriga vazia. O cemitério é um lugar dado à calma, à tranquilidade, ao sossego. É um lugar de vida (Fininho arranca uma pitanga da árvore e come).
Você já se emocionou em enterros ou costuma procurar se distanciar?
Ih, já chorei um bocado. Outro dia foi triste. Eu estava fazendo o sepultamento de um militar lá no Araçá (Cemitério do Araçá). Estava aquele clima, todo o comando da Polícia Militar lá. O cara tinha sido morto pelas costas. Estava muito calor e chovendo. Eu estava sentindo um negócio gelado e quente nas minhas costas enquanto eu fazia o sepultamento… achei que era a chuva. Aí eu escuto uma menina falar: moço, fala para meu pai levantar. Aí eu vi que aquilo nas minhas costas era o choro da menina.
Para você trabalhar com cemitério você tem que saber do trato humano, saber se comunicar, ou como não se comunicar, perceber os sinais da pessoa, procurar tratar da melhor maneira possível, senão você pode ser mal interpretado. Para lidar com a morte, você não pode ter mecanicismo, você não pode ser frio, indiferente.
As pessoas normalmente falam com você, ou você passa invisível?
Um coveiro tem que ser quase invisível. Porque a pessoa está em profundo desagrado com o mundo. Mesmo quando você vê aquele tom de resignação, a pessoa também está em profundo desagrado. Qualquer coisa que for feita que não for de seu agrado, pode causar imensa confusão. Tem que se tomar cuidado com qualquer gesto fora do ritual.
Você conta com o dia de amanhã?
Eu não. Hoje para mim está ótimo. Eu posso semear algumas coisas no dia de hoje. Mas pode ser para outra pessoa colher. Eu me alimento com o hoje. E curto o hoje. Se tiver amanhã, agradeço.
Como é esse “curtir o hoje”?
Sabe o que é mais importante na vida? A própria. Lógico que eu não sou nenhum hedonista. Não vou ter aquela vida de mil prazeres. Cada qual que encontre seu melhor jeito de viver. O dinheólotra vive que nem um louco atrás de bolsa de valores, queda do dólar, política e não sei o que… eu não conseguiria viver assim.
Quais dicas você poderia dar para quem quer viver o hoje?
Acorde bem humorado. Humor é fundamental. Aproveite as delícias da vida, aquilo que você acha bom. Faça o que você gosta de fazer. Você tem que estar próximo daquilo que você deseja. Nem precisa ter aquilo que você deseja. Estar próximo é uma situação muito interessante. Você tem a expectativa. Na vida se pode ter expectativas, nunca certezas. Eu não tenho certeza do dia de amanhã, mas eu tenho a expectativa. A manutenção da própria vida… você já viu como é interessante um copo de água?
“Viver não é acumular dias”, como disse Antônio Penteado de Mendonça.
Como você sabe a hora certa de fechar o caixão?
É o timing. Não pode ser zé mané. Eu tenho que fazer com que você acorde para a hora. Você está embebida pela morte. Então eu tenho que dar um toque. Eu pego e seguro a tampa do caixão, sem pressa. Cada um tem uma técnica, a melhor é essa, porque você dá um sinal. Chegar e tampar o caixão é uma grosseria, uma estupidez. Pedir também é desagradável. Agora, quando eu pego a tampa, eu mostro. Quando você sepulta uma pessoa, não é só uma pessoa que você está sepultando. Você vai sepultar um sonho, você vai sepultar o amor, a ilusão, aquele apego. Não é só um corpo. Você tem que se colocar na posição do cara. O processo de morte, na minha profissão, é embrutecedor. A percepção da morte não é para todos.
Quais são as reações mais comuns?
Agressividade, riso, resignação, alguns assobiam. Já levei um soco que me tirou do chão. Era um político. Eu falei: já quase não tenho dente, você vem me tirar os que restam, mas que xarope! A filha me pediu para eu não brigar com seu pai. Fiz o sepultamento todo com gelo na boca. A esposa dele comentou depois que ele tinha bebido.
Você acredita em espíritos?
Nunca dei trela para isso não. Não tenho tempo para isso. Essa é uma falsa questão. Sabe o nome disso? Sofismo. É uma falsa questão. Leia um livro que se chama “De Anima” de Aristóteles, o pai da lógica formal. O primeiro livro que eu me apaixonei foi o do Newton (Isaac Newton), Aristóteles foi o segundo.
As coisas andam, se movem, você concorda comigo que a terra gira? Mas o que quer dizer que a terra gira? Oras, se uma coisa gira, logo tem que ter o primeiro giro, o motor. É aquela pergunta que seu filho vai te fazer: mamãe, por que a terra gira? Se ninguém ta empurrando, por que ela gira? De onde vem as forças? De onde vem a matéria? É daí que vem “De Anima” – a matéria é inanimada. Teve um que morreu pensando nisso, o Einstein. Fez “A Teoria do Tudo” e morreu.
Sobre os espíritos: pensar sobre eles não é uma questão, não é um problema. René Descartes vai falar: penso, logo existo. Agora o outro, um alemão o qual dediquei mais da metade da minha vida, vai falar assim (Fininho refere-se à Immanuel Kant): muito bem, quem é esse eu? Então, ele escreve uma nova metafísica. Ele vai dizer os seguinte: são acidentes. Ele não fala sobre Deus ou sobre a alma, porque de que adiantaria? Ele é racionalista, ele é um iluminista, ele é o pai da razão, um divisor da filosofia na Alemanha.
Então, eu digo que é um sofismo porque falar sobre a existência ou não de espíritos é a criação de um falso problema.
Vamos falar de causalidade. Essa árvore está aí porque um dia tinha uma sementinha aí – você vai buscar a causa da existência da árvore com a razão e por aí vai. Mas se a sua razão buscar as causas, logo você vai chegar numa causa não causal. Logo, a razão não encontra explicação. Aí entra a fantasia. Eu vou deixar isso aí como um postulado. Na visão de Kant, Deus é um postulado – porque a razão não alcança.
Você já pensou no que querem que seja feito com seu corpo quando você morrer?
Eu não. Eu vim de graça, vou embora de graça. Já ouviu aquela música? (cantarola) A bruta flor do querer… Então, é isso. (a música é “Querer” de Caetano Veloso).
Qual é a relação com essa música?
O querer! Mas minha música predileta é uma de Aldir Blanc: caía a tarde feito um viaduto, e um bêbedo trajando luto, me lembrou Carlitos… Ele fez músicas para a Elis Regina.
Você já pensou em compor?
Quê? Com tanto compositor bom por aí eu vou me meter com isso? Vou compor onde tem João Bosco? Não…
Você já fez amizade com alguém que conheceu num velório?
Eu já passei o Natal com uma senhora que vinha no Araçá (cemitério do Araçá, onde trabalhava) para conversar comigo. A família me pediu para levar todos meus netos lá no Natal. Levei. Ela me chamou no hospital para vê-la antes de morrer… Eu gostava muito dela. É importante isso no mundo, encontrar afinidades. (cantarola) É impossível ser feliz sozinho. Não é?
Exatos cem anos atrás, nascia na cidade argelina de Mondovi (hoje Dréan) aquele que seria um dos maiores escritores e filósofos de língua francesa: Albert Camus.
Hoje, para celebrarmos o seu centenário, reproduzimos abaixo o artigo da revista Planeta que conta um interessante aspecto religioso da passagem de Albert Camus pelo Brasil
A PEDRA QUE CRESCE na Festa do Bom Jesus, em Iguape
João Correia Filho
No fim da década de 1940, o escritor Albert Camus (Prêmio Nobel de Literatura) visitou o Brasil e incluiu no roteiro a Festa do Bom Jesus, em Iguape, no litoral paulista. No conto "A Pedra que Cresce", publicado em 1957, Camus narra a festa e as manifestações religiosas presenciadas em sua visita. Quase 50 anos depois, nosso repórter vai a Iguape para registrar o que se mantém da fé que encantou o autor franco-argelino e ainda atrai milhares de fiéis de todo o Brasil.
Ao acordar pela manhã, d´Arrast espanta-se ao observar os detalhes do local onde está hospedado: um hospital com duas fileiras de camas, paredes recentemente caiadas de marrom e branco, com crostas amarelas até o teto. Presente no conto "A Pedra que Cresce", do escritor franco-argelino Albert Camus, a descrição é também uma das referências autobiográficas da visita que o autor de clássicos, como A Peste e O Estrangeiro, fez ao Brasil, em 1949. No caso desse conto, refere-se particularmente aos três dias em que esteve na pequena cidade de Iguape, litoral sul de São Paulo, onde presenciou a tradicional Festa do Bom Jesus, realizada todos os anos de 28 de julho a 6 de agosto.
Conta-se que a peregrinação começou quando dois índios encontraram uma imagem do Senhor Bom Jesus numa praia próxima a Iguape, e que, ao tentar carregá-la, perceberam que o objeto ficava mais leve na direção de Iguape, e mais pesado na direção oposta. Acabou sendo levada para lá, e exposta na Igreja de Nossa Senhora das Neves, a padroeira da vila. Hoje, a imagem encontra-se na nova matriz, a Basílica do Senhor Bom Jesus, inaugurada em 1856.
Uma das mais antigas povoações do Vale do Ribeira, fundada em 1538, Iguape foi o cenário da viagem de d´Arrast, um engenheiro francês contratado para construir uma represa no local, e que chega justamente nos dias da festa. Já Camus chegou na cidade na madrugada do dia 5 de agosto, debaixo de chuva, acompanhado do escritor Oswald de Andrade, seu filho Rudá de Andrade, Paul Silvestre, adido cultural francês, e um motorista, cujo nome não é citado, mas que recebeu (de Camus) o apelido de Augusto Comte. Em vez de ir para um hotel ou para a casa de alguma autoridade local, o escritor foi estranhamente hospedado no Hospital Feliz Lembrança, nos arredores do povoado.
Bastou que eu chegasse a Iguape para perceber o provável motivo do fato inusitado: a grandiosidade da festa faz lotar todos os hotéis, pousadas e casas da cidade. Já era assim na década de 40. Hoje em dia, a população passa de seus 50 mil habitantes para a casa dos 200 mil, o que me obrigou a ficar hospedado a 20 quilômetros do centro, sendo que a duas semanas da festa não havia nenhum quarto ou cama vaga em toda a região.
No caso de Camus, uma das hipóteses é de que a viagem fora marcada em cima da hora, por sugestão de Oswald. De qualquer forma, sua passagem pela cidade ficou registrada no livro de visitas do hospital, dia 7 de agosto de 1949, ocasião em que deixou uma mensagem escrita em francês: "Ao Hospital Feliz Lembrança que traz tão bem o seu nome, com a homenagem calorosa a este Brasil que aboliu a pena de morte e a esta Iguape onde a gente compreende esse gesto."
A tradução, logo abaixo na página, foi feita por Oswald de Andrade e reflete as preocupações do escritor na época da visita. Atualmente, o hospital está abandonado, em ruínas, e as páginas amareladas de seu livro de visitas representam a memória de um tempo que uniu os dois escritores.
A fé que cresce
Nos arredores da cidade, a cena que presencio é a mesma que impressionou o escritor: centenas de fiéis em fila, diante de uma pequena gruta, tentando conseguir lascas de uma pedra que teria poderes curativos, milagrosos. Além de curar doenças, teria a fantástica propriedade de continuar crescendo de acordo com a fé de quem as leva. Não é à toa que, de tantos fatos e cenas marcantes na viagem do escritor, essa tenha sido uma das que mais ganhou destaque em sua obra, dando nome ao conto publicado no livro O Exílio e o Reino, em 1957, mesmo ano em que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.
O ritual descrito na literatura de Camus nasceu com a própria Festa do Bom Jesus, e teria surgido porque os homens que encontraram a imagem do santo pararam para lavála numa fonte próxima a Iguape. Surgiu então a história de que a pedra sobre a qual a imagem foi lavada passou a crescer ininterruptamente.
"Quando se tem fé, alcança-se a graça e a pedra cresce quando colocada na água, pode ser até na de um aquário", diz Mario Schimidt, que participa da festa há mais de 30 anos. "Sempre levo um pedaço da pedra. Foi ela que fez um primo meu, que estava paralisado por uma doença, conseguir andar", completa.
O resultado dessa fé é que, hoje, no lugar da pedra onde foi lavada a imagem há um grande buraco, coberto por uma cúpula arredondada, que obriga as pessoas a descerem por uma escada para pegar as pedras.
Para facilitar a vida dos visitantes, rapazes fazem o serviço pesado e descem com marretas para retirar as pedras, oferecidas aos fiéis a troco de uma "ajuda". "Não vendemos as pedras, só pedimos uma recompensa pelo trabalho duro", afirma Josenilson Dias, 28 anos. Ele já faz isso há três anos e sempre tira "uma graninha" com os seus companheiros, que se revezam na atividade.
Em seu quinto ano consecutivo de "trabalho", Rodrigo Penha da Silva, 31 anos, natural de Iguape, conta que, depois de uma semana de festa, chega a tirar cerca de R$ 500. "Muitos dão R$ 1, R$ 2 e até R$ 3 por um bom pedaço da pedra milagrosa. É fácil juntar R$ 20, R$ 30 em poucas horas. Às vezes, em minutos", explica ele, como se estivesse relatando um verdadeiro milagre.
A procissão
Outro ponto importante de "A Pedra que Cresce" está nas descrições que Camus faz da procissão, ponto alto da festa, quando a imagem do Bom Jesus sai pelas ruas da cidade, "cajado na mão, a cabeça coberta de espinhos, sangrando e cambaleando por cima da multidão", como ele mesmo descreve. O cortejo começa e termina na Basílica do Bom Jesus, na praça central, num trajeto de pouco mais de um quilômetro, no qual uma incrível multidão segue rezando, pagando promessas ou simplesmente agradecendo em silêncio.
É realmente uma imagem impressionante, que também impressiona o engenheiro d´Arrast. Envolvido no clima da cidade, ele acompanha um dos penitentes, conhecido no texto como "cozinheiro", que carrega um bloco de 50 quilos na cabeça como forma de agradecimento por ter sobrevivido a um naufrágio. A relação entre os dois é um dos pontos altos da narrativa.
Além da procissão e da gruta, a festa também gira em torno de centenas de barracas onde se vende de tudo: cachorro quente, artesanato, utensílios domésticos e o que mais possa interessar aos milhares de pessoas que chegam de várias partes do País. Durante os dias da festa, vivem em acampamentos de lona, casas improvisadas nos carros, nos caminhões e nos barrancos.
As ruas e calçadas ficam todas totalmente lotadas de gente dormindo, comendo, acampando... Alguns se destacam da multidão com seus cavalos. Galopam centenas de quilômetros para agradecer ao Bom Jesus de Iguape, e participar de uma missa rezada justamente em homenagem a eles, com direito a um desfile pelas ruas da cidade. Deixam no ar um cheiro de estrume que incomoda alguns e remete outros a um passado remoto, quando os cavalos eram o único meio de transporte existente.
Depois da procissão, quando o Bom Jesus volta para a Basílica, é que as ruas da cidade começam a esvaziar, os romeiros começam a desmontar as suas coisas e se preparar para o retorno. Pouco a pouco, Iguape vai recuperando a sua calma costumeira, de pequenina cidade litorânea, com o coreto na praça, o rio silencioso, as pessoas tranqüilas, sem dar indícios da força misteriosa que possui, e que tanto encantou o escritor franco-argelino Albert Camus.
A América de CAMUS
A passagem de Albert Camus a Iguape foi parte de uma grande viagem que fez pela América do Sul entre os dias 30 de junho e 31 de agosto de 1949. Além de visitar o Brasil, onde esteve em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Fortaleza (Ceará), realizou conferências em Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile) e Montevidéu (Uruguai).
Sua passagem por esses países está registrada no livro Diário de Viagem, que reúne as impressões do autor. A viagem ocorreu num momento em que Camus sofria com uma tuberculose mal curada e parecia estar em depressão, o que é bastante nítido no tom de seus textos literários e nas suas anotações de campo.
Filho de emigrantes franceses, nasceu na Argélia em 1913, onde passou a sua infância e grande parte da juventude. Além de A Peste, O Estrangeiro e O Exílio e o Reino, tem entre suas principais obras O Homem Revoltado e O Mito de Sísifo. Albert Camus faleceu em 1960, na França, vítima de um acidente de automóvel.
Serviço
A Festa do Bom Jesus de Iguape acontece todos os anos de 28 de julho a 6 de agosto. Partindo de São Paulo são 175 quilômetros, seguindo pela Rodovia Régis Bittencourt (BR 116) e depois pela Rodovia Prefeito Casimiro Teixeira (SP 222) até Iguape.
Artigo sobre a despedida da megastar Oprah Winfrey da televisão aberta norteamericana, publicado no Estadão do último domingo, 29/05/11:
UMA FILÓSOFA EXISTENCIAL
Por meio de seu desenfreado otimismo, Oprah Winfrey construiu um império nos conduzindo a uma purgação diária do cinismo
Shayne Lee
Com a carreira da famosa apresentadora de talk shows Oprah Winfrey se encerrando, temos que celebrar sua influência sem precedentes como mitigadora dos males humanos, visionária, empreendedora e filantropa. Mas gostaríamos de conceder a ela mais uma distinção: Oprah, a existencialista.
Existencialista? Ahn?
Para muitos, o termo existencialista tem uma mistura arrepiante das divagações de Friedrich Nietzche sobre a morte de Deus, a hermenêutica de Martin Heidegger, as incoerências de Albert Camus e a insistência de Jean-Paul Sartre de que a existência precede a essência. Ufa!
Muito bem. Oprah não é uma existencialista no sentido clássico da palavra. E claro, ela se distancia de Nietzche, Heidegger, Camus e Sartre em numerosos aspectos, impossível de fazer uma lista. Oprah, no entanto, tem muita coisa em comum com eles, por exemplo, uma longa carreira perscrutando o mais fundo e o mais escuro da alma humana.
Enquanto muitos apresentadores de talk shows lutam em buscas de índices de audiência com temas tentadores como “Your Road to a Better Sex” ou “How to Accessorize for a Night Out on the Town”, Oprah construiu um império nos conduzindo à purgação diária do cinismo por meio de seu desenfreado otimismo.
Seus convidados famosos, seu clube do livro, seu quadro de relacionamentos e os inúmeros temas especiais nos ajudaram a descobrir nossa ilimitada capacidade de crescer e mudar.
A amplitude do talento pessoal de Oprah e o escopo do seu alcance intelectual nos convocam a trazer à tona a metáfora profundamente arraigada espreitando na superfície do nosso ser mais íntimo. Ela nos ajuda a conquistar uma visão mais clara de nosso propósito e potencial.
Oprah nos ensina que o projeto humano, nossa jornada através do amor e medo, pode sempre ser corrigido, elevado, iluminado. Ela expõe com radiação florescente nossa fragilidade. Mas sempre retorna ao fato de que, não importa quão baixo desçamos ou de quanto nos desfaçamos, se abrirmos a mente para a descoberta, a recuperação e a regeneração estão sempre ao nosso alcance.
Em resumo, o que Oprah tem em comum com os grandes existencialistas é uma busca indômita para responder a duas questões fundamentais: Quem somos? O que podemos nos tornar? E ela nos mostrou mais possibilidades de respostas eficazes e otimistas para essas perguntas do que nossos heróis existenciais tradicionais.
Depois de duas décadas na busca diária de respostas para essas duas perguntas essenciais, talvez Oprah ganhe a coroa de A Maior Existencialista.
(tradução de Terezinha Martino)
SHAYNE LEE, PHD em sociologia, é autor de Erotic Revolutionaries (Rowman & Littlefield). Escreveu este artigo para The Christian Science Monitor
No dia em que faz 50 anos que Albert Camus morreu, nada melhor que lembrar aquele que muitos consideram a sua obra-prima, "O Estrangeiro". É uma leitura paradoxal. De um lado, o texto flui rápido e facilmente, mas a intensidade de emoções diante da apatia de Mersault, o personagem principal, vai crescendo a cada página. O livro começa com a notícia da mãe de Mersault, e já dá a pista de como ele tem dificuldades em lidar com as emoções: "Mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo…". De cara, o leitor fica curioso pela aparente indiferença do filho, que vai se confirmar durante o restante da obra, não só em relação à mãe, mas às pessoas de sua relação e à humanidade como um todo. A história se passa na Argélia, e numa visita à praia, no meio de uma confusão banal, Mersault mata um árabe não exatamente por necessidade ou prazer, mas por total indiferença à vida do outro. Ao longo de um processo rápido, suas emoções (ou a falta delas) são reveladas em público, e o grande argumento que o leva a ser condenado à morte é - pasmem! - o fato de não ter chorado no funeral da mãe. O leitor mais exigente que nos perdoe, mas aqui cabe uma pequena fuga do assunto para comentar algo que - aparentemente - não tem nada a ver com o tema proposto. Curiosamente, embora não pareça em nada ter sido inspirado em Camus, quem acompanhou a série de TV "Seinfeld" sabe que, no episódio final, os personagens são julgados e condenados pelo seu total desprezo pela humanidade. Há, de fato, um certo humor involuntário no drama existencialista escrito por Camus, uma falta de sentido na vida de alguém que passa por ela como um devaneio tétrico provocado por uma insolação na praia. Ao ler o livro, nos surpreendemos e, por assim dizer, nos assustamos por perceber que o tédio e a angústia da vida de Mersault não estão sujeitos à nossa análise corriqueira do que seja efetivamente uma vida feliz. No final, aquele que eu considero o melhor momento do livro: o diálogo de Mersault com o capelão antes da sua execução, que é um daqueles momentos em que a sinceridade de Mersault embrulha o estômago do leitor pela virulência e (paradoxal) lucidez de suas palavras, o seu desprezo à humanidade e também à religião. Também por isso, não é uma leitura fácil nem recomendada para quem vê a religião apenas como uma muleta para suas necessidades imediatas. Entretanto, não deixa de ser uma excelente maneira de conhecer melhor o que passa na cabeça de muita gente que rejeita Deus pela hipocrisia de muitos religiosos. Ler "O Estrangeiro" é fundamental para pelo menos começar a entender Camus e a nossa miserável humanidade.
Artigo de Moacyr Scliar na Folha de S. Paulo de hoje:
Após 50 anos, obra de Albert Camus permanece atual
Profundidade do pensamento e domínio da forma literária marcam produção do argelino, Nobel de literatura em 1957
MOACYR SCLIAR COLUNISTA DA FOLHA
Este 4 de janeiro assinala os 50 anos da morte de um dos escritores e intelectuais mais influentes do século 20: Albert Camus. Nascido em 1913 em Mondovi, Argélia, Camus era filho de um francês morto na Primeira Guerra e de uma descendente de espanhóis. Era, portanto, um "pied noir", "pé-negro", termo que designa a população de origem francesa que vivia na Argélia.
Sua infância, em Argel, foi pobre: trabalhou com o tio, tanoeiro, e a muito custo estudou. Cursou filosofia e doutorou-se com uma tese sobre Santo Agostinho. Poderia ter seguido a carreira docente, mas a tuberculose da qual sofria (como muitos artistas e intelectuais à época) agravou-se, impedindo-o de trabalhar na área.
Em 1939, mudou-se para a França e, em 1940, aderiu ao movimento da resistência contra a ocupação nazista. Ainda em 1940, fundou, com outros, a revista "Combat", da qual foi redator-chefe de 1944 a 1946. Simultaneamente, dava início à uma carreira literária que lhe valeria o Nobel de literatura em 1957. Na Argélia, publicara "O Avesso e o Direito" e "Bodas em Tipasa". Seguiram-se "O Estrangeiro", "A Peste", "O Mito de Sísifo" e "O Homem Revoltado". Também escreveu para o teatro "Calígula", "Os justos" e "O Estado de Sítio".
Mãos sujas
Em 1942, conheceu Jean-Paul Sartre, de quem foi amigo por dez anos e com quem manteve uma das polêmicas mais famosas do pensamento contemporâneo, vinculada às grandes transformações ocorridas após a Segunda Guerra.
Com a vitória da União Soviética no fronte oriental, o comunismo stalinista expandiu-se, tomando o poder em vários países. Porém, a entusiástica adesão de muitos intelectuais à Revolução Russa, de 1917, agora dava lugar à decepção, quando não à franca revolta, como mostram os depoimentos de Arthur Koestler, Ignazio Silone, Richard Wright, Louis Fischer e Stephen Spender em "O Deus que Falhou" (1949).
Koestler, autor de "O Zero e o Infinito", romance anti-stalinista, influenciou muito Camus. Sartre, mais velho que Camus e visto como o expoente maior do existencialismo, só se aproxima da política em 1941, mas, então, sua postura é bem mais rígida. Ele de certa forma justifica os excessos do stalinismo e do regime maoista sob o argumento de que política exige "mãos sujas" ( "Les Mains Sales", título da peça teatral claramente autobiográfica descrevendo os conflitos de um jovem intelectual burguês).
Antes sujar as mãos, diz o filósofo, do que ficar em cima do muro, uma questão, como vemos, muito atual. Ao mesmo tempo, Sartre manifestava-se contra o domínio francês na Argélia que havia desencadeado uma luta de libertação. Camus era a favor da independência, mas contra o terrorismo usado pela guerrilha. A polêmica entre os dois é descrita em "Camus e Sartre - O Fim de uma Amizade", de Ronald Aronson, publicado no Brasil pela Nova Fronteira (2007).
Jogo de futebol
Àquela altura, a reputação de Camus já estava consolidada e ele viajava pelo mundo inteiro. Veio ao Brasil, em 1949, e pediu para assistir a uma partida de futebol e deu conferências em várias cidades, apesar de sentir-se doente -pode ter havido uma reexacerbação da tuberculose.
Manoel Bandeira, que esteve com ele e também era tuberculoso, conta que falaram sobre a doença e outros temas com simplicidade: "Não havia nenhum vestígio dessa personagem odiosa que é a celebridade itinerante. Não parecia um homem de letras. Era um homem da rua, um simples homem".
A autenticidade, associada à profundidade do pensamento e ao domínio da forma literária, torna a obra de Albert Camus, morto em 1960 em um acidente de carro, sempre atual.