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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Apesar das ameaças de ausência, começou o Concílio Pan-Ortodoxo


A matéria é do IHU:

O Concílio ortodoxo “que cambaleia” e os sinais dos tempos


O Santo e Grande Concílio ortodoxo, meio cambaleando, começa hoje [domingo, 19 de junho] na ilha de Creta. (1) E, independentemente do jeito que terminar, já pertence à categoria dos eminentes sinais dos tempos. Visto na perspectiva da fé dos Apóstolos, o cabo de guerra que surgiu “in extremis” no âmbito do encontro de comunhão que estava sendo preparado há décadas pelas Igrejas que compartilham o mesmo tesouro apostólico e sacramental mostra, pelo menos por um momento, o vertiginoso caminho pelo qual procede sempre na história a promessa da salvação cristã, encomendada aos sucessores desses mesmos apóstolos. 

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 19-06-2016. A tradução é de André Langer.


As últimas notícias sobre as decisões e os pronunciamentos dos líderes das Igrejas ortodoxas são muito sugestivas. O Santo e Grande Concílio começa com a presença dos líderes de 10 das 14 Igrejas autocéfalas ortodoxas, sob a presidência do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

Do ponto de vista dos grupos e dos equilíbrios de força, tem um peso relevante a participação da Igreja ortodoxa da Sérvia (que no começo tinha se negado a participar), a qual, em seu último comunicado oficial, se reserva o direito de abandonar o encontro caso este se negar a “considerar todas as questões, problemas e diferenças” expressadas durante as últimas semanas pelos quatro patriarcas ortodoxos (de Antioquia, Bulgária, Geórgia e Rússia) que decidiram não participar.

Com a decisão manifestada na segunda-feira passada, o Patriarcado de Moscou de alguma maneira deixou cair a máscara e mostrou-se com o verdadeiro artífice das iniciativas que, coagulando diversos mal-estares e reservas, apostavam na suspensão ou em dar outra direção, “in extremis”, à máquina conciliar que já estava em andamento.

O Patriarca de Moscou, Kirill, em sua última mensagem oficial dirigiu-se intencionalmente aos “Primados e representantes das Igrejas ortodoxas locais que se reúnem em Creta”, sem utilizar a expressão “Concílio”, para dar a entender que esta reunião era “um encontro que pode servir para a preparação do Santo e Grande Concílio”, negando ao encontro de Creta a categoria de Assembleia Conciliar.

Além disso, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, homem chave na política eclesiástica do aparelho ortodoxo russo, em uma entrevista, fez algumas advertências pessoalmente ao Patriarca Bartolomeu, indicando que o “Primus inter pares” entre os primados ortodoxos “dará prova de prudência” e destacando que “se se convoca o Concílio apesar da ausência de ao menos quatro das Igrejas locais, constituirá uma brutal transgressão do regulamento do próprio Concílio, que estabelece que deve ser convocado pelo patriarca ecumênico com o consenso de todas as Igrejas”.

Enquanto isso, a partir de Kiev, os círculos nacionalistas ucranianos tratam de aproveitar a confusão e o Parlamento pede oficialmente ao Patriarca Bartolomeu para que reconheça a autocefalia da Igreja ortodoxa ucraniana (atualmente sujeita com um estatuto de autocefalia à jurisdição do Patriarcado de Moscou), patrocinando um “Concílio de unificação pan-ucraniana” com o qual possam unir-se “todas as Igrejas ucranianas ortodoxas”.

No entanto, em Creta, a máquina midiática do Concílio, nas mãos de órgãos da imprensa estadunidenses, começa a inundar a rede de comunicados e informes feitos de acordo com padrões já acordados em nível global para encontros e “quermesses” religioso-espirituais para todos os gostos.

Nas últimas notícias, a questão do Concílio ortodoxo e seu semi-naufrágio ou seu desejado “êxito midiático”, seguem sendo apresentados principalmente como uma questão político-eclesiástica. Os comentários e narrações da mídia, com poucas exceções, ressaltam as estratégias, alianças, provas de força, pressões, sintonias mais ou menos claras entre os aparelhos político-clericais.

Nos tribunais da rede que infestam a blogosfera católica, as manipulações mais descaradas e interesseiras usam como pretexto os problemas ortodoxos para confeccionar condenações baratas sobre as dinâmicas da sinodalidade eclesial, tão citadas pelo Papa Francisco. Mas estes informes “déjà vu” que elucubram sobre as mutáveis alquimias do poder eclesiástico ou sobre os erros táticos (verdadeiros ou não) dos diferentes aparelhos clericais raramente intuem a raiz profunda das tribulações ortodoxas.

Podem ajudar muito mais as intuições manifestadas por Bartolomeu em uma antiga entrevista de 2004 à revista italiana 30Giorni, na qual o patriarca ecumênico, ao falar sobre o cisma entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, disse que a origem distante dessa divisão está nas “primeiras manifestações do pensamento mundano na Igreja”. Se os ortodoxos sempre reconheceram em tal infiltração a matriz da pulsão “hegemônica” do Papado ocidental, agora parece muito mais claro que tal pulsão não só não foi neutralizada por um ou outro modelo abstrato de eclesiologia “institucional” e pode facilmente servir-se das dinâmicas e dos instrumentos sinodais.

Em relação ao caso das Igrejas ortodoxas, a referência à penetração do pensamento mundano nas dinâmicas eclesiais tem muito pouco a ver com a tradicional e dócil sintonia com os poderes civis nacionais que os polemistas católicos sempre reprovaram na Ortodoxia. Os problemas do Santo e Grande Concílio não dependem de Putin, que paradoxalmente, justamente perseguindo seus interesses, poderia ter sido capaz de favorecer um resultado mais fecundo para o caminho e para a missão apostólica das Igrejas ortodoxas.

Pelo contrário, o que criou muitos obstáculos foi o peso morto do orgulho clerical enquanto tal, a “hybris” que contamina os aparelhos eclesiásticos cada vez que as Igrejas, em qualquer nível, constroem e perseguem um modelo de auto-suficiência e de auto-afirmação no cenário do mundo. Nenhuma das instâncias eclesiais é imune a esta tentação de uma desnaturalização semelhante, como repetiu em várias ocasiões o Papa Francisco ao fazer alusão à gangrena do “mundanismo espiritual”.

Neste momento, devemos admitir que esta atitude ameaça particularmente a Igreja russa. Considerando apenas as últimas duas semanas (e inclusive o que aconteceu antes do início das convulsões sobre o Concílio ortodoxo), o Patriarca Kirill disse que a Igreja russa tem agora, nada mais e nada menos, a tarefa de “mudar a atitude em relação à fé e ao cristianismo em muitos países da Europa e da América”, para voltar a dar uma relevância global ao cristianismo (19 de maio).

O Metropolita Hilarion, por sua vez, apresentou, em 19 de abril passado, a Rússia atual como a única nação de destaque na qual se “expandem a fé e a Igreja”, descrevendo um Ocidente completamente aniquilado pelo ateísmo e o secularismo, com uma inversão total de papéis com relação aos tempos da União Soviética. Em um ataque de triunfalismo identitário, o próprio Hilarion, no final de maio, disse que o Patriarcado de Moscou ocupa “o segundo lugar no mundo” em número de fiéis, atrás apenas da Igreja católica, separando conceitualmente os fiéis russos de todos os outros cristãos ortodoxos.

Apenas aqueles que amam com sincera gratidão a grande aventura cristã que começou com o batismo do Grande Príncipe Vladimir sentem a urgência de informar aos irmãos russos a deriva de retrocesso a que parecem tão expostos neste momento. Mas o escorregão pelo Concílio ortodoxo antes de mesmo de começar deve fazer pensar que não apenas entre os líderes da Ortodoxia russa se rarefez a percepção do tempo escatológico vivido pela Igreja de Cristo.

“Os Primados das Igrejas que colocam em primeiro lugar questões mundanas como o primado de honra”, disse em meio às convulsões pré-conciliares Theodoros II, Patriarca ortodoxo de Alexandria, “deveriam descer de seus tronos suntuosamente decorados e visitar a África, para ver o que quer dizer ser pobres e humildes filhos de Cristo”.

Como já aconteceu em outros momentos da história, o tropeço inicial do encontro conciliar ortodoxo, seu “fracasso” em termos de estratégia humana, vivido à luz da cruz, da descida aos infernos, da Ressurreição e do Pentecostes, poderia sugerir novas vias de fuga para abandonar a soberba clerical e andar mais rapidamente para Cristo.

Como disse Matta el Meskin – o pai da renovação dos monges coptas durante um rico congresso organizado pela comunidade monástica de Bose –, a unidade entre os cristãos, embora pertençam à mesma confissão, nunca nasce como espírito de “coalizão” para sentir-se mais fortes, para unir forças contra inimigos verdadeiros ou imaginários e dar maior relevância e poder à Igreja e aos homens da Igreja. Sempre nasce acompanhada da perda do instinto de conversação e da pretensão de caminhar na história por força própria, como uma realidade autossuficiente.

A unidade em Cristo dos cristãos, escreveu Matta el Meskin, “é um estado de fragilidade divina perante o mundo, seguindo o exemplo de seu Mestre, que renunciou ao seu poder infinito para ser crucificado por qualquer pessoas que ele amava e na maneira como a amava. E todos os problemas que dividem a Igreja – acrescentou Matta – demonstram exatamente que o Senhor não está presente no meio da assembleia. E sua ausência nos obriga a voltar a colocar em questão a finalidade da reunião, o método da busca e as intenções dos membros reunidos [...] O problema da unidade encontra-se clara e decisivamente no problema da presença do Senhor”, porque “só o Senhor ‘pode fazer de dois povos um só, tendo derrubado os muros que os separam (cf. Ef 2, 14)’”.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

20 anos é pouco tempo para a reconciliação na Bósnia


O genocídio de Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina, é um daqueles trágicos episódios da história da humanidade que não podem ser esquecidos para que jamais se repitam.

Entretanto, parece que a memória do massacre ainda está recente demais para que muçulmanos bósnios (as vítimas) e ortodoxos sérvios (os algozes) encontrem uma saída para vencer o ódio.

A matéria foi publicada pela BBC Brasil em 11/07/15:

Premiê sérvio é atacado em cerimônia dos 20 anos do massacre de Srebrenica

O primeiro-ministro da Sérvia, Aleksandar Vucic, foi atacado por uma multidão durante uma cerimônia para marcar o 20º aniversário do genocídio de Srebrenica na Bósnia-Herzegovina.

Garrafas, pedras, sapatos e outros objetos foram atirados contra o premiê, que teve de sair correndo, protegido por seus seguranças, do cemitério na região de Srebrenica - onde 136 vítimas do massacre estão enterradas.

Vucic foi atingido na cabeça por uma pedra e seus óculos foram quebrados, enquanto muitos gritavam ofensas ou palavras como "genocídio", em referência ao massacre.

O ministro do Interior da Sérvia, Nebojsa Stefanovic, descreveu o ataque ao premiê como "escandaloso", dizendo que foi comparável a uma tentativa de assassinato.

Em 1985, durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos foram mortos em Srebrenica pelo exército bósnio da Sérvia, no que é considerado a maior atrocidade já cometida na Europa desde a Segunda Guerra.

Na época, os bósnios muçulmanos buscaram abrigo junto às forças de paz holandesas ligadas à ONU, já que a organização havia declarado Srebrenica uma "área segura" para civis.

No entanto, os civis acabaram sendo mortos por forças sérvias que realizavam uma limpeza étnica na região.

No ano passado, o Tribunal de Haia considerou a Holanda culpada pela morte de mais de 300 homens e meninos muçulmanos bósnios em Srebrenica. No entanto, o Estado holandês foi eximido da culpa pelo destino de outros cerca de 7 mil homens que morreram na região mas que não buscaram abrigo no complexo e, em vez disso, fugiram para a mata nos arredores.

Genocídio

Vucic já havia divulgando um comunicado condenando as mortes e dizendo que o que ocorreu foi um "crime monstruoso". No entanto, ele evitou o termo genocídio.

De volta a Belgrado, capital da Sérvia, Vucic pediu aos sérvios que não odiassem os bósnios muçulmanos e que continuaria a trabalhar pela reconciliação dos dois povos.

Vucic é um ex-nacionalista racial sérvio que entre 1998 e 2000 foi ministro da Informação no governo de Solobodan Milosevic. Agora, ele é um político pró-Ocidente que busca integrar a Sérvia à União Europeia.

Clinton

O ex-presidente americano Bill Clinton, que está em Srebrenica, descreveu a presença de Vucic como um passo em direção à reconciliação.

Ele também se desculpou por ter demorado tanto para colocar um fim à guerra.

Segundo Guy Delauney, correspondente da BBC em Srebrenica, o ataque ao premiê ilustra bem o quanto é difícil a reconciliação na Bósnia e em toda a região.

"Dezenas de milhares de pessoas vieram aqui para homenagear as vítimas de Srebrenica e mostrar solidariedade a essa cidade. Eles ouviram líderes internacionais falarem das cenas de horror que ocorreram aqui e de como isso não deveria se repetir", disse Delauney.

"Mas muitos dos que estavam ali se revoltam com o fato de a Sérvia nunca usar o termo genocídio para Srebrenica. E, como já era esperado, Vucic foi hostilizado pela multidão. O imã que estava no local lembrou a todos que o momento era de se fazer orações. Mas o ódio aqui ainda permanece."

8372 sepulturas de vítimas inocentes ainda clamam por justiça em Srebrenica




sábado, 7 de fevereiro de 2015

Djokovic, o tenista holístico

holistic life

OK, nós confessamos: amamos tênis! E temos a suprema felicidade de pertencer a uma geração que pôde ver em ação - entre outros - tenistas como Bjorn Borg, John McEnroe, Jimmy Connors, Pete Sampras, Ivan Lendl, Andre Agassi, Guga Kuerten e os três gênios da atualidade, Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic.

É sobre este último a matéria publicada no Brasil Post:

Como uma 'abordagem holística da vida' transformou Novak Djokovic em campeão


Paul Vale

O campeonato de Wimbledon de 2013 foi memorável (pelo menos para os britânicos) pela quebra de um dos recordes mais notáveis do tênis - o final de uma longa espera por um campeão britânico masculino no All England Club, espera que durava desde a década de 1930.

No entanto, nas semanas antes da final, quando Andy Murray acabou sendo coroado como vencedor, a notícia que circulava era que Novak Djokovic, o atual jogador número 1 e oponente de Murray naquela final, havia visitado um templo budista em Londres para fazer sessões de meditação.

As sessões não se tratavam de um exercício religioso para o sérvio (que é membro devoto da tradicional Igreja Ortodoxa de seu país), mas faziam parte do que ele descreve como a 'abordagem holística' que ele aplica não só à vida mas ao tênis também - que inclui a prática da meditação, juntamente com o ioga, hábitos alimentares específicos, um padrão regrado de sono e, é claro, treinamento intensivo do tênis.

Nos últimos anos, Djokovic tornou-se não só um dos maiores jogadores a empunhar uma raquete, mas tornou-se também um tipo de ícone de como a consciência e bem-estar estão sendo incorporadas aos mais altos níveis de competição esportiva -- uma abordagem que permitiu ao vencedor de quatro títulos ser o favorito para a conquista de uma quinta vitória no Australian Open ainda esse mês.

Se o jovem de 27 anos nascido em Belgrado alcançou o ápice do esporte através de um estilo de vida equilibrado, o seu início no jogo foi graças a uma única pessoa, Jelena Gencic, o técnico que com toda sua experiência nutriu o talento do jovem sérvio no balneário das montanhas de Kopaonik. Djokovic explica a influência de Gencic como sendo - "uma das figuras mais importantes na minha vida" - em um dos três filmes preparados para Jacob's Creek antes do torneio em Melbourne.

Mas Gencic foi mais do que apenas um técnico, ele "cuidava de cada aspecto" da "vida profissional e privada" da futura estrela do tênis, um papel que segundo Djokovic relatou ao HuffPostUK, incluía as notas que ele tirava na escola, o tipo de música que ele ouvia até o quanto ele dormia -- uma preparação para a atitude abrangente que hoje ele adota como mantra.

Antes dos campeonatos, Djokovic usa técnicas de respiração para ajudá-lo a "alinhar os pensamentos" e "manter a compostura" - ato que ele considera parte essencial na preparação de qualquer atleta para uma competição. Isso é necessário especialmente no tênis, ele argumenta, já que o jogador precisa enfrentar sozinho "as pressões e expectativas".

Famoso por rebater com firmeza independente do nível de pressão (um aspecto psicológico do jogo enfrentado pela maioria dos jogadores profissionais), Djokovic utiliza a respiração para "atingir o nível máximo de auto-controle", apesar de admitir que essa é apenas "uma das peças do quebra-cabeça".

"Seu estilo de vida, seu treino, a forma em que você encara a vida... tudo isso é muito importante", ele diz.

A nutrição é outro aspecto que tem um papel importante na formação de um campeão.

Djokovic é famoso por adotar uma alimentação sem glúten, por ter sido diagnosticado com intolerância ao trigo em 2009. Essa revelação transformou um jogador que mostrava potencial, porém com tendência a problemas respiratórios e cansaço, em um campeão do Grand Slam.

Em seu livro de 2013, "Sirva Para Vencer", Djokovic relatou com detalhes como ele se sentia antes do diagnóstico da intolerância: "Cada vez que eu dava um grande passo em direção ao meu sonho, sentia como se houvesse uma corda amarrada em meu tórax que me puxava para trás. Fisicamente, eu não conseguia competir. Mentalmente, também não sentia que pertencia na mesma quadra que os melhores do jogo".

O diagnóstico o levou a mudar totalmente a sua alimentação, resultando em sete títulos individuais do Grand Slam e mais do que 129 semanas na primeira posição do ranking mundial da ATP. Hoje Djokovic segue uma dieta rígida de alimentos orgânicos; ele mesmo tenta preparar muitas de suas próprias refeições.

O jogador também o sono bastante regrado, tentando sempre dormir "de 8 a 10 horas por noite para recuperar e revitalizar o corpo, especialmente em época de competição".

"É difícil dar uma fórmula geral para o sucesso", ele diz, "mas eu acredito que um estilo de vida holístico, equilibrado é a melhor abordagem que se pode ter [no esporte]. Por outro lado, também é o mais complexo e requer muito tempo para entender quem você é, qual o seu caráter e os aspectos do seu caráter que precisam ser fortalecidos".

Ele conclui dizendo: "Isso é importante não só para ser o melhor atleta possível, mas também a melhor pessoa possível".

Nos vídeos 'Made By Films' de Jacob's Creek, Djokovic revela histórias inéditas sobre a sua vida, celebrando as pessoas, lugares e paixões que fizeram dele o campeão de tênis que é hoje.



sábado, 28 de junho de 2014

100 anos do assassinato que deu causa à Primeira Guerra Mundial

"Aff.. vem aí um péssimo século"

No dia 28 de junho de 1914, por volta das 10:45 h da manhã de Sarajevo, hoje capital da Bósnia-Herzegovina e naquela época capital da província de mesmo nome que fazia parte do Império Austro-Húngaro, eram assassinados o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa Sofia.

Foi o estopim da Primeira Guerra Mundial, conflito que nunca pode deixar de ser analisado em conjunto com a Segunda Guerra que lhe seguiu, eventos que marcaram profundamente o século XX e transformaram para sempre o mundo em que vivemos.

O arquiduque Francisco Ferdinando era herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, este próprio uma ficção geopolítica criada em 1867 que, mediante a união das coroas de Áustria e Hungria, reunia uma série de países e nacionalidades na imensa colcha de retalhos pátrios que caracterizava a Europa do século XIX.

Para que o leitor tenha uma ideia da diversidade territorial e cultural do Império Austro-Húngaro, basta lembrar que ele compreendia regiões que hoje estão espalhadas (parcial ou totalmente) em 13 países: Áustria, Hungria, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Itália, Romênia, Polônia e Ucrânia.

Quem acompanha os atuais incidentes entre as nacionalidades ucraniana e russa na região fronteiriça entre os dois países consegue imaginar o quanto era complicado manter todos esses povos vivendo debaixo do mesmo teto no início do século XX.

Francisco Ferdinando não nasceu para ser imperador, pois era sobrinho do soberano Francisco José I e o terceiro na linha sucessória. Ocorre que o príncipe-herdeiro, seu primo Rodolfo, se suicidou em 1889, e - após a renúncia ao direito de sucessão por seu pai - Ferdinando passou a ser o pretendente ao trono.

Casou-se em 1900 com a condessa Sofia Chotek que, por não pertencer a nenhuma casa real europeia, fez com que o casamento fosse considerado morganático, ou seja, ela jamais poderia ser chamada de imperatriz nem seus filhos poderiam herdar o trono, pesada obrigação que o amargurado imperador Francisco José impôs à união.


Sofia e Francisco Ferdinando: um final infeliz

Além disso, Sofia não podia se sentar ao lado do arquiduque em cerimônias oficiais, mas podia acompanhá-lo caso Francisco Ferdinando estivesse fazendo uma visita militar, o que era o caso daquele dia 28 de junho de 1914.

Sarajevo estava em polvorosa naqueles dias devido às intrigas entre os austro-húngaros e o Reino da Sérvia, que queria ver independentes os países eslavos do Império, tanto a Bósnia como a Croácia, com os quais formaria depois a união que ficou conhecida como Iugoslávia, Estado pan-eslavo que só seria desmembrado - também com muito derramamento de sangue inocente - nos anos 1990.

O Império Alemão, comandado pelo kaiser Guilherme II e aliado da Áustria-Hungria, acompanhava de perto o desenrolar daquele perigoso jogo geopolítico, interessado que estava em estender sua influência por toda a Europa.

Parece que Francisco Ferdinando não percebeu a gravidade do momento ou não deu atenção aos fantasmas que assombravam a Europa do início do século XX.

Com a intenção de mostrar seu poderio militar e também agradar sua esposa, exibindo-a ao público numa situação em que isso não era proibido, Francisco Ferdinando resolveu se aventurar em Sarajevo num carro aberto, crendo - talvez - que ninguém ousaria levantar a mão contra o herdeiro do trono.

Ali os esperava a resistência sérvia, organização que se opunha à aproximação de seu país com o Império Austro-Húngaro, e era organizada em várias facções terroristas, sendo uma delas a Mão Negra, da qual um jovem chamado Gavrilo Princip era membro.

A Mão Negra havia preparado um atentado contra Francisco Ferdinando naquele dia. Vários terroristas estavam dispersos na multidão, prontos para matar o arquiduque.

Um deles conseguiu lançar uma granada que explodiu a poucos metros do carro aberto em que ele e Sofia estavam, ferindo cerca de 20 pessoas.

Visivelmente contrariado, Francisco Ferdinando ainda foi até a sede da Prefeitura, onde lideranças cristãs, muçulmanas e judias de Sarajevo o esperavam.

O arquiduque cancelou parte da agenda que deveria cumprir naquele dia para visitar os feridos no hospital local. Antes de chegar lá, entretanto, seu motorista se perdeu na cidade convulsionada, entrou na rua errada e o carro terminou indo na direção de Gavrilo Princip, que, ao ver o herdeiro do trono e sua esposa, não titubeou e atirou neles com a pistola Browning calibre 7,65 x 17 mm que portava.

Baleados, ambos não resistiram aos ferimentos e morreram poucos minutos depois.  O segundo atentado no mesmo dia foi fatal.


O assassino Gavrilo Princip é preso pouco depois de atirar no casal imperial.

Essa misteriosa força chamada "acaso" fizera o arquiduque ir parar no exato lugar onde, "por acaso", havia alguém pronto para matá-lo.

Terminava ali uma história de amor que havia vencido a proibição imperial, juntamente com o próprio Império que não resistiria ao final da guerra, 4 anos depois.

Obviamente, não foi o duplo assassinato a grande causa do início da guerra, mas abriu a torneira para que jorrassem os interesses imperialistas dos países europeus.

O Império Austro-Húngaro, insuflado pelo kaiser Guilherme II, propositalmente exigiu reparações e condições que a Sérvia, apoiada pelo tzar Nicolau II, além de França e Grã-Bretanha, jamais poderia aceitar, e o conflito começou 30 dias depois dos atentados de Sarajevo.

Vinham pela frente 4 anos de terror, com milhões de mortos, inclusive entre os reis. Francisco José morreu em 1916 e Nicolau II foi assassinado pelos bolcheviques em 1918, depois de ter sido deposto pela Revolução Russa de 1917. Guilherme II também perderia a coroa no fim da guerra. 

Na verdade, a Primeira Guerra Mundial foi o prelúdio da Segunda, e o mundo nunca mais foi o mesmo a partir de então.

E até hoje sofremos, de certa maneira, as consequências do assassinato cometido exatos 100 anos atrás.

Os fantasmas do passado continuam voando por aqui, agora em escala global. Para espantá-los, é fundamental relembrar o passado para nunca mais repeti-lo.

O arquiduque e sua esposa em foto tirada 5 minutos antes do atentado que os matou


A mesma foto, colorizada por computador

A BBC Brasil preparou uma simulação muito interessante, de como teria sido uma cobertura nos padrões atuais, minuto a minuto, dos acontecimentos daquele fatídico dia 28 de junho de 1914. Para visualizá-lo, clique aqui.



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Novak Djokovic, o anjo ortodoxo

Que Novak Djokovic, o tenista sérvio que é atualmente o número 1 do ranking da ATP, é uma "figuraça", isto ninguém pode negar. 

A simpatia e o carisma que ele mostra nas quadras e na vida são fartamente conhecidos por todos que acompanham o tênis. 

Agora, ele tem um outro lado que pouca gente conhece, que é a sua devoção à religião cristã ortodoxa, como se pode perceber do vídeo abaixo, em que ele agradece à torcida greco-cipriota de seu adversário Marcos Baghdatis (da porção grega do Chipre), dizendo que nunca tinha acontecido aquilo com ele, ou seja, a torcida do adversário festejando-o, o que ele atribui ao fato de todos serem "irmãos ortodoxos". 

O Estadão de ontem trouxe uma matéria bastante interessante sobre este lado religioso de Novak Djokovic, que pode ser lida na íntegra no site do Estadão, mas também abaixo está o trecho que dá destaque ao fato de Djokovic ter uma forte relação com a igreja ortodoxa sérvia:








Aos 24 anos, completados em maio, como Novak administra a pressão de estar na cúpula do tênis mundial? "A fama não o intimida. É um verdadeiro showman que cresce diante das massas", diz Nenad Zimonjic, tenista de 35 anos, número 3 no ranking de duplas, que jogou algumas partidas com Djokovic. Mas Novak é também um cristão devoto, que leva sempre na carteira uma imagem do arcanjo São Gabriel, patrono de sua família, e uma pulseira com o nome de dez santos para os quais reza antes de cada partida. Em Kosovo, suposta pátria sagrada dos sérvios, o tenista contribuiu com dezenas de milhares de euros para a causa servo-ortodoxa, com ajudas ao mosteiro de Gracanica ou às igrejas de Hilander e dos Santos Arcanjos em Pizren. Um gesto pelo qual a Igreja Ortodoxa Sérvia o recompensou outorgando-lhe sua maior honraria, a Ordem de São Sava.

Nole vive em Monte Carlo, longe do fisco sérvio, como tantos atletas de elite. Mas essa distância não mudou seu coração. Seu pai, Srdjan, um ex-jogador de futebol e ex-esquiador, é de Zvecan, uma pequena cidade no norte de Kosovo, e criou seu filho no amor da Sérvia. Novak não o decepcionou. Depois que o governo em Pristina proclamou a independência em fevereiro de 2008, Novak visitou a região e reafirmou sobre o terreno que Kosovo é parte da Sérvia. Isso lhe valeu uma ameaça de morte de extremistas kosovares albaneses que lhe obriga a se movimentar com uma escolta policial cada vez que ele chega a seu país. Uma amarga experiência que o levou a evitar declarações políticas. Agora, ele se expressa com a raquete. Cada vitória na pista é um tributo à Sérvia.

"É verdade. Novak é um anjo para 99% dos sérvios, um verdadeiro um ícone, alguém que lhes dá alegria", diz Nebojsa Mandrapa, jornalista esportiva de Belgrado. "Neste país, empresários falam sobre Djokovic em seus almoços, vendedores discutem seu revés no mercado e crianças o imitam na escola. Esta é Novaklandia, e nós amamos isso."



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