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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O galeão apostólico

Logo depois do reencontro dos apóstolos no concílio de Jerusalém, Paulo e Pedro desceram juntos até o porto de Cesareia, para o adeus final, já que cada um seguiria o seu caminho. Superados os ressentimentos pela discussão áspera que haviam tido alguns dias antes, os dois apóstolos falavam agora de suas rotinas de viagens, enquanto aguardavam a hora de embarcar:

- Sabe, Pedro, estou cansado de andar a pé por essas estradas poeirentas e de pegar esses barcos cargueiros caindo aos pedaços...
- Nem me diga, Paulo, eu viajo bem menos que você e já sinto o cansaço.
- Pois é, Pedro, eu estava pensando comigo se a gente devia orar a Deus e fazer uma campanha entre os irmãos para comprar um navio apostólico só para uso dos ungidos...

Pedro fez uma cara de espanto que deixou Paulo constrangido.

- “Veja se você concorda comigo, Pedro” – Paulo continuou -, o campo é enorme, o serviço extenuante, e nós perdemos muito tempo enjoando no mar e comendo poeira pelo deserto.
- Isso lá é verdade, Paulo, mas o que você sugere?
- Tá vendo aquele galeão reluzente entrando no porto? É um modelo novo fabricado pela família Ferrari da Itália.
- Lindo mesmo, e parece bem rápido. Acho que serviria aos nossos propósitos.
- Sem dúvida, Pedro, poderia deixar um apóstolo em cada porto e assim o evangelho se espalharia mais rápido.
- Verdade... mas ainda temos toda a terra para explorar. Bom será o dia em que alguém inventar uma máquina que voa.
- Cá entre nós, Pedro, acho que quando esse dia chegar, esta máquina não será mais necessária, já que todo o trabalho duro – depois do Mestre – quem fez fomos nós e nossos filhos na fé.
- Olha, Paulo, eu não duvido que apareça alguém se dizendo “apóstolo” ou um “pastor” muito especial, achando que tem muito mais trabalho que nós e só uma galé voadora vai resolver seu problema...
- Bem, voltemos ao assunto, e a campanha do galeão?
- Ah, Paulo, acho que Deus não precisa de galeão nem de máquina voadora não... não há maior prazer do que pregar o evangelho e estabelecer a Igreja no mundo, por terra e mar, a pé mesmo...
- É verdade, Pedro... acho que eu tava delirando... não somos mais crianças deslumbradas com galeões e máquinas voadoras, e seja na terra, seja no mar, você consegue caminhar, né...
- Paulo, Paulo, o que importa é que com Cristo, a pé ou no barco, tudo vai muito bem, vai muito bem...

Assim, bem-humorados e dispostos ao trabalho, cada apóstolo seguiu para um destino, tendo no coração apenas um vislumbre do tamanho da obra que estavam ajudando a construir...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A maior riqueza do mundo

Em pouco tempo o dia se tornara noite. A chuva forte castigava a cidade, e juntamente com o barulho dos automóveis, abafava os pequenos sons produzidos ali, naquele momento. Havia um bom tempo que aquela cidade não recebia uma chuva tão forte, havia tempo que seus cidadãos não paravam para pensar sobre a força da natureza. Agora, eram obrigados, pois tudo que tinha vida naquela cidade poluída e fria, se escondia. Enquanto isto, a água limpava seus becos imundos, cancelava compromissos, aumentava aflições.
Nestas horas, pequenas coberturas se tornavam pequenos oásis às avessas. Não muito longe, em uma rua pouco movimentada, havia um destes. Ali, se encontrava um mendigo, que por não ter nem como se cobrir, estava encharcado. Estava completamente sozinho no momento, para não falar de sua fome, o que tornava sua situação mais desesperadora. Não é fácil ser mendigo em cidade grande. Principalmente um adulto. As pessoas costumam achar que mendigar é uma opção. Algumas, vendo seu estado lastimável, acreditam que ele antes de tudo é um bêbado. Mesmo que fosse, cinco reais para tomar sua pinga não chega aos cem reais, mínimo que alguns gastariam em uma noitada acompanhada de garrafas de uísque e mulheres. O que nos faz pensar que as pessoas devem acreditar que o mendigo não tem o direito à diversão, ou que mendigos devem prestar contas do dinheiro que recebem como doação, enquanto os próprios cidadãos não prestam contas do que fazem com seu dinheiro para seus patrões, aqueles que pagam seus salários.
Mas o grande problema é que há mesmo mendigos que fazem qualquer coisa com este dinheiro mesmo, até comprar drogas. Há pessoas que se disfarçam de mendigos. Realmente, não é fácil ser mendigo hoje em dia. Antigamente os mendigos eram mais verdadeiramente mendigos. Será que o mundo possui menos mendigos hoje, ou será que descobriram que são mendigos mesmo tendo uma situação melhor? Não se sabe, e isto não importa agora... Aquele mendigo não trabalhava não por preguiça, mas por que é realmente difícil encontrar emprego hoje em dia. Principalmente quando não se tem uma aparência boa, quando não se cheira bem, e quando não se tem nem um lar. Estas coisas custam dinheiro, e ele não tinha isto. Aquele mendigo estava em uma situação não muito boa... Estava encharcado, com frio, com fome, e agora, bastante sozinho. Talvez para fugir um pouco da realidade, ele fechava os olhos, e murmurava algo. Pelo menos ele tinha certa honra, já que alguns buscavam meios mais destrutivos para fugir desta realidade. Mas também é raro que algum mendigo tivesse algum estudo. Ele sabia ler e escrever, sabia falar bem e sabia que alguns meios de fugir desta realidade que parecia mentira não valia a pena.
Naquela hora, passava pela rua um senhor. Estava abrigado por um guarda-chuva, mas não conseguiu continuar por que a chuva tinha ficado mais forte. Resolveu parar na mesma cobertura onde aquele pobre mendigo se abrigara. O homem estava bem vestido, e tinha um ótimo comportamento. Na verdade, aquele homem poderia ser considerado facilmente como um dos maiores filantropos da cidade. Seu amor ao próximo era invejável. Sua cordialidade era insuperável. Seu amor ao próximo era tão grande, que não conseguia ver as pessoas sofrendo à sua volta. Foi por isto que há muitos anos atrás, abandonou suas crenças em um deus. Não conseguia imaginar como qualquer deus poderia deixar pessoas sofrerem. Decidiu que faria tudo o que estivesse à sua disposição para ajudar ao próximo.
E ali estava seu mais novo próximo. Molhado, faminto e com frio. Aquela situação deixou o senhor comovido. Imediatamente retirou seu casaco e o entregou ao mendigo:
- Por favor, meu bom homem, tome isto. Você precisa mais dele do que eu.
- Puxa, muito obrigado.
Enquanto vestia o casaco, meio sem-graça ainda por receber a ajuda daquele homem, chegava outra figura tentando se esconder da chuva. Rapidamente entrou para baixo da cobertura, e ficou em um canto, em silêncio. Parecia estar apressado, pois olhava para o seu relógio, depois olhava para o céu, como se quisesse anular a chuva com uma cara feia. Por fim, o mendigo terminou de vestir o casaco. Logo o senhor puxou assunto:
- E então, está um pouco melhor agora?
- Estou sim, obrigado.
- Olha, tudo o que tenho aqui são 50 reais. Quero que fique com eles. Assim que a chuva passar, você pode comprar alguma coisa para se aquecer, e comer também.
- Puxa, muito obrigado senhor. Nem sei como agradecer. Deus lhe pague.
O senhor hesitou um pouco em continuar. Mas logo continuou:
- Não se preocupe em me agradecer. É o mínimo que eu poderia fazer para ajudar.
- Olha, eu não posso dar nada em troca, mas eu tenho certeza que Deus há de dar muito mais para o senhor.
Ele poderia seguir ignorando o que o mendigo dizia. Ele não era um homem de discutir por pouca coisa. É verdade que já travou muitos debates em sua vida, mas ele não precisava discutir com aquele homem, que ao seu ver, precisava de atenção, não de refutação. Porém, achava importante mencionar seus pontos de vista, para que aquele homem entendesse que há crenças e crenças, e além delas, há a descrença. Um bom cidadão certamente tem consciência da liberdade das pessoas, e queria passar aquilo ao mendigo, como uma lição de vida.
- Bem, meu amigo, eu não acredito em deus. Aceito seus agradecimentos, não precisa se preocupar em retribuir-me.
Aquilo fez com que o mendigo interrompesse os agradecimentos. Passou a segurar o queixo, indicando claramente que estava refletindo no que lhe foi dito. O senhor intimamente tinha ficado feliz, pois obtivera o planejado. O outro homem que estava com eles finalmente olhou para os dois.
- Ah, desculpa, eu não sabia...
- Não tem problema...
O mendigo continuava a pensar sobre o que aconteceu. A curiosidade tomou conta dele, que não resistiu e perguntou:
- Senhor, por que o senhor não acredita em Deus?
- Meu bom homem, você mesmo é um exemplo do motivo pelo qual não acredito em deus. Veja seu estado. O que deus fez por você? Por que ele deixaria que você ficasse neste estado, sem ter o que comer, o que vestir, onde morar... Por que ele permitiu que você vivesse sem sua dignidade como ser humano, já que você é uma criatura dele, e ele deveria te amar? Sabe, eu não podia acreditar que um deus bondoso como pregam por aí, pudesse permitir tamanho sofrimento de pessoas como você. Deixei de acreditar em deus por isto. E agora, sou eu mesmo que tento ajudar as pessoas que encontro nesta situação. Não espero que deuses resolvam isto por mim.
Isto chamou a atenção do outro homem que estava com eles. Logo ele se aproximou, dizendo:
- A paz do Senhor para todos.
Os dois homens olharam para ele.
- Não pude deixar de ouvir a conversa dos dois. Eu sou bispo de uma pequena igreja aqui perto, e estava indo para lá quando fui pego pela chuva. Meu carro acabou parando por causa da água. Fiquei com medo de ficar lá dentro e alguma enchente o levar, por isto vim para cá. Bem, se estão falando de Deus e sobre as enfermidades, gostaria de conversar com vocês também. É um assunto que muito me interessa.
O senhor não estava disposto a discutir naquela hora... Muito menos com bispos de pequenas igrejas. Eles costumam ser inflexíveis, quando não dispostos ao ridículo.
- Não estamos exatamente conversando sobre algo, pelo menos não ainda.
- Bem, mas eu escutei você dizer que Deus não poderia permitir que tais pessoas sofressem, e ainda assim amá-las.
- Sim, foi o que eu disse.
- Bem, acho que a primeira coisa que eu deveria deixar claro é que todos os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não só os seres humanos: seres angelicais também. Foi por isto que alguns anjos deixaram de servir ao Senhor, e passaram a agir contra ele. Estes são os demônios. Infelizmente eles querem nos prejudicar de todas as formas, por isto pessoas como este senhor aqui sofrem. São os encostos, e eles só abandonam a vida de uma pessoa em um ritual de libertação espiritual. Nossa igreja costuma ajudar muitas pessoas como ele, que entram com enfermidades espirituais graves, e saem de lá curadas. Hoje são pessoas muito prósperas, e dão seu testemunho de que Deus está cumprindo suas promessas.
- Ah, entendi... E prosperidade é sinônimo de bênçãos?
- Sim, claro. Ou você acha que o sofrimento destas pessoas é obra de Deus? Está claro que quem está agindo neste homem é Satanás.
- Então este homem aqui não é abençoado?
- Provavelmente não. O que não o impede de ser curado.
- Mas por que ele simplesmente não é abençoado? Por que deus tem que limitar estas bênçãos?
- Ora, por que a pessoa tem que querer. Isto é liberdade. E quando ela quiser, estamos de portas abertas. Além disto, se a pessoa é dizimista, ela pode exigir que Deus cumpra suas promessas. Pois quando pagamos o dízimo a Deus, Ele fica na obrigação de cumprir Sua Palavra.
O senhor depois de raciocinar um pouco, respondeu então.
- Acho que estou te entendendo. Basicamente, você está me dizendo que seu deus só age por contrato, é isto? Você vai lá, paga o devido valor, então deus resolve te ajudar...
- Bem, não é exatamente desta forma...
- Ora, foi o que eu entendi. O engraçado disto tudo é que enquanto seu deus é obrigado a fazer o que você quiser, o diabo está livre para agir, atentando todo mundo. Aliás, ele tem muito tempo livre, não é? Ele não tem coisa melhor para fazer do que espumar pela boca, se debater e xingar a mãe do pastor não?
- Puxa, seu entendimento é lamentável. Para sua sorte, você deve ser uma pessoa que confia muito na força de seu trabalho. Por isto pode gozar de uma boa situação, mesmo sem Deus no coração...
A discussão se tornava cada vez mais intensa, enquanto o mendigo só observava. Pensava bastante sobre a situação que estava passando, e depois de algum tempo, começou a sorrir. O sorriso era tão sincero, que sua felicidade se destacou mais que a discussão que estava sendo travada ali. Por isto mesmo, os dois perceberam e por um momento deixaram de discutir. O senhor resolveu perguntar ao mendigo:
- Senhor, o que houve? Por que a alegria?
- Bem, eu estava pensando aqui... Senhor bispo, antes de tudo, gostaria de agradecer o senhor por tentar defender Deus. Talvez Ele nem precise, já que ele é o Todo-poderoso, além de saber até que teríamos esta discussão hoje. Se Ele deixa pessoas pensarem como este senhor aqui, é por que Ele já possui uma resposta na ponta da língua para eles. Ele com certeza é mais sábio que nós dois. E se isto for verdade, então não precisamos nem falar nada. Ele é melhor defensor que qualquer um de nós.
O bispo ficou calado, hesitante. O mendigo continuou...
- Sobre eu ser ou não abençoado, eu podia pensar qualquer coisa disto. Mas nada me tira da cabeça que tudo isto é inveja. Inveja por que nosso Senhor Jesus Cristo não veio ao nosso mundo como um bispo, mas veio como um pobre. Ele nasceu em uma manjedoura, por que não tinha lugar para ele e seus pais na estalagem. E quando foi adulto, era como eu, pois não tinha sequer lugar para reclinar a cabeça. Eu não acho que Nosso Senhor tinha encosto, ou não era abençoado, mesmo por que era Ele quem abençoava as pessoas, Ele quem expulsava demônios. Mas eu entendo, deve incomodar muito isto mesmo. Incomoda o fato que o Filho de Deus escolheu ser igual a mim, não igual às pessoas abençoadas na sua igreja. Talvez por isto eu já ouvi quando mendigava perto de suas igrejas, as mais variadas formas de se esconder a pobreza de Jesus. E pra falar a verdade, eu nunca ouvi falar que algum apóstolo de Cristo tenha morrido rico.
O bispo, ficou sem reação. Já o senhor do lado deles, sorria sarcasticamente... O mendigo, virou-se para este e continuou...
- Senhor, eu tenho que te devolver isto.
Pegou os 50 reais, e os devolveu junto com o casaco. O senhor então se assustou.
- Meu amigo, por que está me devolvendo isto. São para você. Não vai aceitar só por que sou ateu?
- Não, não é isto.
- Então? Por quê não fica com ele?
- Olha, senhor... O senhor me deu isto, por que achou que eu estava sofrendo. De fato, justamente quando o senhor chegou, eu perguntava a Deus se merecia tudo aquilo. Se merecia o frio, a fome... Quando eu perguntei ao senhor por quê o senhor não acreditava em Deus, e o senhor respondeu, eu comecei a pensar... Só os mendigos que sofrem? Só eu sou o exemplo de sofrimento? Então percebi que o senhor só poderia dizer que eu estava sofrendo, se acreditasse que o senhor não estava sofrendo. No fim das contas, o senhor me vê da mesma forma que o bispo.
- Mas eu não me considerei melhor que você. Eu ofereci ajuda, por que estou preocupado com você.
- E o bispo disse que a igreja dele está com as portas abertas a todos, oferecendo ajuda que julgam necessária a todos que precisam. Mudou apenas a forma de ajudar e o tipo de ajuda, não é? Agora, é muito fácil um desdenhar do tipo de ajuda que o outro oferece. Se o senhor achasse que a ajuda espiritual do bispo é a melhor ajuda, o senhor poderia ser bispo. Se ele achasse que a ajuda filantrópica fosse a melhor, ele poderia ser ateu.
O homem ficou calado.
- Quando pedi ajuda a Deus, pedi de coração. Talvez agora eu tenha uma resposta... Se me julgam pelos trapos que visto, com justiça me verão como um mendigo. Mas se não podem distinguir meus tesouros, como poderiam me chamar de rei?
Os dois se entreolharam.
- Tesouros?
- Sim, tesouros. A verdade mais sagrada é que ninguém neste mundo ficará eternamente com riquezas estas de metal e papel. Isto já poderia ser usado para provar que estas não são riquezas reais.
- Então, o que é seu tesouro? – Perguntou o bispo.
- Senhores, – disse levantando – muita gente por aí não se contenta apenas com um prato de arroz e feijão. Muita gente fica enjoada de comer a mesma coisa todo dia. Muita gente não consegue comer em determinado nível de restaurante. Muita gente não consegue comer certos tipos de comida. Eu não sou assim, meus amigos. Eu realmente passo fome, mas eu sei apreciar um simples pedaço de pão. Um prato de arroz e feijão nem precisa ter a mistura, para me dar grandes alegrias. Como em qualquer lugar, e aprecio qualquer companhia. Eu sei o valor real da comida.
Deu uma pausa e continuou.
- Da mesma forma, posso dizer com toda a certeza do mundo, que eu tenho maior facilidade em dizer se aqueles que se aproximam de mim são sinceros. Seja para me ajudar, seja para me criticar. Ninguém precisa fingir para mim, pois eu não tenho nada para lhes oferecer. Eles podem ter raiva, podem ter compaixão, eu geralmente posso dizer como eles se sentem. Vocês podem dizer isto? Podem dizer quem são seus verdadeiros amigos? Podem dizer quem é sincero com vocês? Talvez, mas eu tenho mais facilidade que vocês. Por que as pessoas que eu encontro, e que me oferecem comida, são as minhas melhores amigas. Eu tenho toda a certeza que elas se preocupam comigo, que elas só desejam o meu bem. Quando elas conversam comigo, elas conversam com a verdadeira intenção de me ajudar, e não de fingir que são minhas amigas, para depois me prejudicar em algo.
Mais uma pausa.
- Tenho doenças, tenho frio, tenho fome e às vezes me sinto sozinho. Mas de tudo isto consigo entender mais e mais, o valor da vida, da amizade, dos bens, melhor do que quando eu tinha dinheiro. Então, enquanto há ricaços por aí, esbanjando dinheiro para conseguir achar alguma coisa que o entretenha, eu me distraio com as coisas mais simples. Até as coisas mais pequenas são capazes de me dar alegrias. Os meus sonhos são os mais reais, pois geralmente são os mais simples. A minha vida é a mais valiosa, por que só tenho ela. Infelizmente, eu tive que perder tudo para entender isto.
Então, concluindo, disse o mendigo:
- É por isto que sou tão rico. Porque hoje encontrei a mim mesmo. Porque percebi significado nas mínimas coisas. Tudo me alegra, por que fui redimido. Sofremos? Sim, mas as melhores coisas são as que custam mais caro.
Deixou os dois parados na cobertura, enquanto corria pela chuva, de braços abertos, pulando de alegria, como jamais se viu antes. Aquela chuva que era dele também.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Aquela misteriosa alegria...

Debaixo do sol escaldante, procurava algo que não sabemos...

- Onde está? - repetia mentalmente para si.
- Onde caiu?

Não tinha idéia de onde poderia ter caido tal preciosidade. Estivera procurando toda vida por aquilo. E agora que tinha a chance de encontrar, não estava conseguindo... Porém, seus companheiros já haviam encontrado... E já estavam desfrutando de seu achado... Contentes, rindo uns com os outros... Se pudessem, cantariam tão bem como o melhor coral dos melhores anjos. E não é por falta de tentar. Aliás, eles sempre tentaram fazer não só isto, mas muitas outras coisas...

E aquela alegria toda contribuía ainda mais para que ele não encontrasse o que procurava... Ele tinha que fazer alguma coisa... Por que só ele não o encontrava? O que há de errado com ele? Por quê?

A exclusão é dolorida, a solidão é uma tortura. Ele não queria ficar daquele jeito sempre... Ele tinha que encontrá-las. Deveria haver alguma forma... Se aqueles ali ao seu lado encontraram, por que ele não encontraria? Eles não eram diferentes dele. Talvez até fizesse de conta que tivesse encontrado, para se aproximar e descobrir como fizeram. Isto também o ajudaria a se concentrar mais em sua busca.

Então, com toda humildade do mundo, se aproximou daquela algazarra. Não se mostrou soberbo, não estava tentando ser melhor que ninguém. Foi educado, cordial, atencioso. E os que já riam, riram dele. Tentou rir juntamente com eles, como se aquilo tudo fosse uma brincadeira costumeira entre os ali presentes. Não conseguiu. Sua situação estava deveras séria, para que despertasse em si uma vontade, principalmente a vontade de rir. E aqueles ali perceberam que sua risada era falsa. Era uma risada sem vontade, forçada, aparente. Viram o riso, não viram a humildade. Não viram a educação, a cordialidade, a atenção. Viram sua imagem mas não o viram. E assim, riram. Então, mergulhado em mais profunda tristeza, começou a se afastar. Antes porém, direcionou sua atenção para o achado daqueles que estavam ali... Mas achou algo estranho...

- Mas, estavam felizes com isto? O que significa isto tudo?

Em sua mente, um turbilhão de idéias aflorou. Já tinha visto aquilo que eles tinham em mãos... Mas jamais pensaria que era aquilo que ele deveria procurar, pois aquilo sim lhe daria a alegria esperada. Uma alegria que ri não das imagens, mas uma alegria que convida todos a rirem unidos, sem tom de críticas.

E se aquilo não existir? Se aquilo for uma ilusão? Já bem sei que muitos dos que acharam aquilo, o deixaram de lado, se cansaram de rir um da cara do outro, e resolveram abandoná-lo. Pois eu achava um absurdo que fosse possível abandoná-lo, dado tamanha alegria que proporciona àqueles que o detém. Agora vendo o que acharam, fico na dúvida se tal coisa realmente existe.
E caminhou lentamente para um canto, onde pudesse efetivar sua solidão. Sentou-se ao chegar ali, e não muito depois, um pássaro azul, de beleza inigualável, sentou-se em uma árvore próxima. Não muito depois, iniciou um canto que ele jamais ouvira. Um canto tão belo, que tinha a impressão que aquele momento seria único. Um canto mais belo que aqueles ouvia tentarem. Isto o fez mergulhar novamente em seus pensamentos.

- É verdade que não se joga pérolas aos porcos. Por isto não as encontrei com eles. Antes, a lavagem que detinham é para eles suas pérolas. E quem que jogaria esta lavagem, senão o criador de porcos? Ele não está interessado na alegria deles, está interessado em sua própria alegria. E sua própria alegria custará a vida destes porcos que há pouco riram de mim. Tenho pena deles. Acharam que poderiam ver intenções ocultas, por que me viram sorrir falsamente. Mas eles não descobriram por que agi assim. E não vão descobrir nunca por que o seu criador age assim. Antes, estão satisfeitos com sua lavagem, que fez suas cabeças. Então, que continuem com sua alegria verdadeiramente falsa. Continuem com seus rituais, seus julgamentos, suas leis, suas vestimentas, suas condutas, seus instrumentos musicais, sua pompa, sua castidade e com toda sua exegese para defendê-los. Continue com sua lavagem.

E latindo agora de forma alegre, concluiu:

- Eu não voltarei a meu próprio vômito, não eu. Não vou mais deixar que a lama atrapalhe meu olfato. Nunca mais.

E partiu em sua busca, sabendo que certamente encontraria aquelas pérolas já há muito tempo prometidas. Mas o sorriso em sua face já denunciava que de alguma forma misteriosa, ele já havia encontrado...

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