Mostrando postagens com marcador bullying. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bullying. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de novembro de 2016

Obesidade infantil em busca de novos tratamentos

Artigo publicado no HuffPost Brasil:

Diga não às dietas em crianças e 
respeite a fome do seu filho

Sophie Deram

A maioria dos programas de "combate" à obesidade infantil incentivam as crianças a "fechar a boca e malhar", ou seja, é a responsabilidade da criança reduzir o que ela come e aumentar exercício físico com a ajuda dos adultos ao seu redor. Essa abordagem não tem funcionado e existem razões para isso. Tentativas de tratamento com dietas, remédios e cirurgia, não têm dado resultados satisfatórios e têm muitos efeitos secundários. O corpo volta a engordar na maioria das vezes.

A criança é vítima do seu meio ambiente. Vamos falar de prevenção e não "combate".
Por isso em vez de "combate" deveríamos falar de prevenção e ajudar a ampliar o foco não somente na criança. A noção de "combate" pressupõe que a criança obesa de alguma maneira tem uma responsabilidade na situação na qual se encontra. Existe uma estigmatização da criança obesa como sendo preguiçosa e sem nenhuma força de vontade ou disciplina. Isso prejudica muito essas crianças que na realidade estão presas num corpo sem saber o que fazer para mudar a situação. Isso pode até levar essas crianças a sofrer bullying e depressão.

Fechar a boca e malhar não funcionam.
É claro que ser ativo é saudável, mas excesso de atividade física pode prejudicar. Fazer dieta restritiva desregula o cérebro, aumenta o apetite, a obsessão por comer e o comer emocional. O seu cérebro percebendo uma falta de comida reduz o metabolismo e começa a "economizar". Esses efeitos são ainda mais fortes em crianças que estão em desenvolvimento. Em vez de ajudar a criança com restrições, você estressa o cérebro dela, levando à tristeza, depressão ou mesmo comer escondido. O comer escondido não é uma escolha da criança, dá muita vergonha e isso é o começo de uma vida de compulsão e relação equivocada com a comida, algo difícil de reverter.

Hoje sabemos que quase todo transtorno alimentar começa com uma dieta restritiva. Então, basicamente, fazendo dieta a criança entra no caminho de engordar e/ou de desenvolver um transtorno alimentar. Estudos mostram que adolescentes que fazem dietas aumentam em até três vezes o risco de se tornar obesas quando comparados a outros que não fizeram restrições. Até mais preocupante é o fato do que um estudo mostrou que dietas severas (diminuindo calorias ou pulando refeições) aumentam em 18 vezes o risco de desenvolver transtornos alimentares em adolescentes, enquanto dietas restritivas moderadas aumentam o risco em cinco vezes.

A obesidade infantil é evitável.
Apenas alguns casos são geneticamente inevitáveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara sobre isso: a obesidade é evitável, mas é difícil de tratar. Quando estudamos a genética da obesidade vemos que têm mais do que 500 fatores genéticos associados a obesidade. Todos nós temos um pouco de predisposição à obesidade! Quem puxa o gatilho é o seu meio ambiente, estilo de vida, e também o estresse psicológico, remédios, desregulamento de hormônios, falta de sono e muito mais. Não é só comer demais ou ser preguiçoso!

Hoje está cada vez mais claro e comprovado que devemos enfatizar uma abordagem chamada "mindful eating" ou alimentação consciente. É uma forma compassiva e holística para conseguir-se uma alimentação saudável. Ela não somente foca nos alimentos que comemos, mas também como comemos e como nosso corpo se sente. Devemos respeitar a fome e prestar atenção à vontade e saciedade, conexões emocionais com a comida e os relacionamentos envolvidos em comer. Essa alimentação consciente concentra-se em aspectos positivos e não negativos.

Diga não às dietas em crianças
Devemos urgentemente parar de incentivar a fazer dietas, é uma questão de Saúde Pública! Há muitos anos que sou ativista contra dietas restritivas, especialmente em crianças. Fui até a Câmara dos Deputados em outubro de 2013 para participar de um seminário sobre obesidade infantil e falar sobre "O papel da alimentação no combate a obesidade infantil". Me coloquei como defensora da criança que é muito mais vítima do que culpada dessa dificuldade do excesso de peso.

Ainda em 2013 fui convidada a fazer um TEDx sobre o assunto com a palestra "O peso das dietas". Logo me deparei com o fato do que não adianta falar sobre crianças se você não muda as crenças dos pais e educadores. Finalmente, aceitei em 2014 uma proposta para escrever um livro "O peso das dietas" para alertar os adultos e desse jeito conseguir ajudar as crianças.

Uma notícia sensacional do final de agosto de 2016 foi a decisão da Academia Americana de Pediatria (AAP) de lançar novas diretrizes recomendando a prevenção conjunta da obesidade e de transtornos alimentares em adolescentes. Eles estabelecem de maneira clara que a dieta restritiva é um fator de risco tanto para obesidade, quanto para transtornos alimentares. "O foco deve ser num estilo de vida saudável ao invés de peso". SIM!!

Copio aqui uma tradução das principais recomendações da AAP a pediatras, que são principalmente direcionadas aos pais como agentes de mudança. Pais são incentivados a ser modelos saudáveis, que fornecem acesso fácil à alimentos saudáveis, limitam a disponibilidade de bebidas doces (seja com açúcares naturais ou adoçantes artificias) e oferecem refeições "caseiras" para os filhos. Pais devem ativamente desencorajar dietas e respeitar a fome de todos.

As diretrizes para a prevenção da obesidade e transtornos alimentares em adolescentes:

1. Desencorajar dietas, pular refeições ou remédios. Incentivar uma alimentação saudável e atividade física que pode ser mantida no longo prazo. Procurar um estilo de vida e hábitos saudáveis em vez de focar no peso.

2. Promover uma imagem corporal positiva nos adolescentes. Não encorajar insatisfação com o corpo ou usar essa insatisfação como uma razão para fazer dieta. 

3. Procurar ter mais refeições em família.

4. Incentivar as famílias a não falar sobre o peso (weight talk), mas a falar de alimentação saudável e de ser ativo para se manter saudável. Facilitar alimentação saudável e atividade física em casa.

5. Informar-se sobre uma possível história de bullying (weight teasing) e intimidação em adolescentes com sobrepeso e obesidade e abordar a questão em família.

Você é responsável pela rotina e pela qualidade da comida. A criança é dona da sua fome. Não restrinja o seu filho! Respeite a fome do seu filho!

Referência: Golden N, Schneider M, Wood C (2016). Preventing Obesity and Eating Disorders in Adolescents. Pediatrics: publicado online August 22, 2016.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27550979

*****

Esta informação não se destina a tratar, diagnosticar, curar ou prevenir qualquer doença. Todo o material neste artigo é fornecido apenas para fins educacionais. Procure sempre o aconselhamento do seu médico ou outro profissional de saúde qualificado com qualquer dúvida que tenha a respeito de uma condição médica antes de iniciar qualquer dieta, exercício, ou outro programa de saúde.



domingo, 4 de setembro de 2016

Jogador de futebol americano dá atenção a garoto autista e comove as redes sociais


A matéria é da BBC Brasil:

Atleta causa comoção nos EUA ao não deixar menino autista almoçar sozinho

Uma cena comovente envolvendo um menino autista e um jogador de futebol dos Estados Unidos viralizou nas redes sociais.

Travis Rudolph, que joga como recebedor pela equipe da Universidade do Estado da Flórida, estava visitando uma escola na capital do Estado, Tallahassee, quando avistou Bo Paske comendo sozinho no refeitório na última terça-feira.

Rudolph decidiu sentar-se junto com ele. Uma amiga da mãe de Bo, Leah, registrou o momento e ela postou a foto nas redes sociais, onde foi compartilhada milhares de vezes.

"Naquele dia não tive de me preocupar se meu menino estava almoçando sozinho", disse ela.

"Ele (Bo) estava sentado em frente a alguém considerado um herói por muita gente. Muito obrigada, Travis Rudolph, você me deixou extremamente feliz, e nos tornou seus fãs pela vida inteira!", escreveu ela no Facebook.



Leah também se lembrou de seu passado difícil na escola e como ela se preocupa com Bo.

"Algumas vezes, sou grata pelo autismo dele. Isso pode soar como algo terrível de se dizer, mas de certa forma penso, espero eu, que o autismo o protege", afirmou ela.

"Bo não parece perceber quando as pessoas olham fixamente para ele quando ele bate as mãos. Ele não parece perceber quando não é mais convidado para festas de aniversário. E não parece se importar se almoça sozinho".

Segundo Leah, a foto e o depoimento tiveram um "impacto imenso".

O pequeno gesto de gentileza foi noticiado por jornais locais e nacionais dos Estados Unidos. Rudolph, um dos vários jogadores a terem visitado a escola naquele dia, disse que não esperava tamanha reação.

"Tivemos uma ótima conversa. Ele puxou assunto, dizendo que seu nome era Bo, falou o quanto ele gosta do meu time (Florida State)", recordou Rudolph.

"Eu só queria dizer oi a ele, porque o vi comendo sozinho. Tudo correu bem. Ele tinha um belo sorriso em seu rosto. É uma pessoa bem acolhedora. Nem sabia que alguém tiraria uma foto disso", acrescentou. "Fico feliz que isso possa ter ajudado outras pessoas, tornando-as mais conscientes sobre o autismo".

Bo também ficou entusiasmado com a atenção que recebeu. "Tem sido incrível. Todo mundo ficou orgulhoso de mim", disse ele.

Travis Rudolph, o cara!




quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pesquisadora diz que crianças agem mal por "diversão"


Tese defendida por pesquisadora americana parece justificar a doutrina do pecado original, segundo a matéria publicada na Galileu:

Crianças não precisam de um motivo para se comportarem mal

Pesquisadora americana sugere que os pequenos não precisam ser provocados, apenas agem assim por diversão

Isabela Moreira

Crianças podem ser instáveis: fofas e amigáveis em um momento, judiando do irmão caçula no outro. A teoria geral para justificar esse tipo de comportamento é que os pequenos agem assim porque estão frustrados e ainda não desenvolveram o autocontrole.

Mas um estudo realizado por Audun Dahl, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos, possui uma visão diferente sobre o problema. Para a pesquisadora, as crianças não precisam de um motivo específico para agirem como pequenos terroristas.

Audun observou cerca de 25 crianças em três momentos diferentes das vidas delas: quando tinham 14 meses, 19 meses e 2 anos. Em cada uma dessas sessões, a acadêmica passou pelo menos duas horas assistindo a como os participantes se comportavam em casa.

Ela percebeu que, na metade das vezes em que as crianças faziam mal a alguém (a ordem de preferências nesses casos, segundo a pesquisadora, é: pais, irmãos e animais de estimação), foi sem provocação alguma. Uma média de 43% das interações tinham a ver com um elemento que as incomodava, como um irmão mais novo irritante, por exemplo. O resto das ações pareciam ter sido intencionais, porém sem provocação para tal.

A autora do estudo sugere que, se a frustração ou a raiva não explicam comportamentos ruins, essa pode simplesmente ser uma forma de diversão para as crianças. Além disso, Auden afirma que os pequenos costumam melhorar conforme ficam mais velhos: o pico dessa fase é quando eles completam um ano e meio e ela vai diminuindo até desaparecer aos dois anos.

Via Science of Us

*Com supervisão de André Jorge de Oliveira



domingo, 14 de junho de 2015

Depressão pode estar relacionada a bullying na adolescência


Matéria publicada no Brasil Post:

Bullying na adolescência pode estar relacionado à depressão quando adulto

Uma pesquisa publicada nesta semana no The BMJ, um dos mais influentes jornais de medicina do mundo, sugere que bullying na adolescência está fortemente associado com depressão no início da idade adulta. De acordo com o estudo, jovens frequentemente assediados moral e fisicamente têm duas vezes mais chances de ter a doença, em comparação com aqueles que nunca foram intimidados.

A equipe de cientistas, liderada por Lucy Bowes, professora do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, realizou um dos maiores estudos sobre a associação entre intimidação na adolescência e depressão na idade adulta. A pesquisa examinou a relação entre o bullying aos 13 anos e a depressão a partir dos 18.

Os pesquisadores estudaram dados de bullying e depressão em 3 898 participantes do Estudo Longitudinal Avon de Pais e Filhos (ALSPAC), análise de um grupo de nascidos em 1991 e 1992, no ex-condado de Avon, na Inglaterra. Aos 13 anos, os participantes preencheram um questionário de autorrelato sobre bullying e, aos 18, completaram a avaliação que identificou os indivíduos com sintomas da depressão.

Dos 683 adolescentes que, aos 13 anos, relataram bullying frequente mais de uma vez por semana, 14,8% estavam deprimidos aos 18 anos. Já dos 1 446 adolescentes que, na mesma faixa etária, sofreram algum assédio físico ou moral, de uma a três vezes ao longo de seis meses, 7,1% estavam depressivos no início da fase adulta.

No geral, 2 668 participantes compartilharam informações sobre assédio moral e sintomas depressivos, bem como outros fatores que podem ter causado a depressão, tais como problemas mentais e de comportamento, conflitos familiares e eventos traumatizantes.

Além disso, para efeitos de comparação, apenas 5,5% dos adolescentes que não sofreram bullying estavam depressivos aos 18 anos.

O tipo mais comum de assédio moral foi o por xingamentos: 36% dos participantes eram agredidos verbalmente com frequência. Enquanto 23% tinham pertences furtados.

A maioria dos adolescentes nunca contou a um professor - de 41% a 74% dos entrevistados - ou para os pais - de 24% a 51% dos participantes. Mas 75% dos jovens disseram a um adulto ter sofrido bullying físico, como ser atropelado ou agredido.

Em um editorial que acompanhou o estudo, Maria Tofi, professora de psicologia criminal da Universidade de Cambridge, escreve que este artigo tem mensagens claras que devem ser endossadas pelos pais, escolas e profissionais.

Ela também pede maior investigação para estabelecer as relações causais entre assédio moral e depressão e ressalta a importância de intervenções antibullying nas instituições de ensino.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Justiça Restaurativa combate violência nas escolas de SP


A matéria é do Conselho Nacional de Justiça:

Justiça Restaurativa rompe com círculo de violência em escolas de São Paulo


Alunos rebeldes, que jogam bombas no recreio, usam drogas ou cometem violência contra o professor são expulsos da escola. Depois, expulsos novamente de outra instituição, acabam desistindo de estudar. Continuam cometendo delitos até que, por fim, são recolhidos à Fundação Casa. A trajetória é muito conhecida por juízes da Vara da Infância, que sabem que o resgate desses menores para a sociedade vai se tornando cada vez mais difícil. No entanto, a aplicação da Justiça Restaurativa nas escolas do Estado de São Paulo tem rompido esse ciclo de violência e recuperado adolescentes para o convívio social e escolar sem a necessidade de aplicação de medidas de caráter meramente punitivo.

A Justiça Restaurativa é um método alternativo de solução de conflito que pode ser utilizado em qualquer etapa do processo criminal, e consiste na adoção de medidas voltadas a solucionar situações de conflito e violência, mediante a aproximação entre vítima, agressor, suas famílias e a sociedade na reparação dos danos causados por um crime ou infração. Dessa forma, a Justiça Restaurativa envolve diferentes pessoas e instituições na resolução de um conflito, que auxiliam na reparação dos danos causados e na recuperação social do agressor, aplicando o conceito de corresponsabilidade social do crime.

A prática da Justiça Restaurativa é incentivada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por meio do Protocolo de Cooperação para a Difusão da Justiça Restaurativa, firmado em agosto de 2014 com a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). A introdução da prática atende à Resolução CNJ n. 125, que estimula a busca por soluções extrajudiciais para os conflitos.

Origem – O Projeto de Justiça Restaurativa em São Paulo começou em 2005, nas quatro varas Especiais da Infância e da Juventude da Capital, responsáveis pelos processos envolvendo menores entre 12 e 18 anos, e que coordena, portanto, a aplicação das medidas socioeducativas. O círculo restaurativo começou a ser aplicado em casos envolvendo crimes de menor potencial ofensivo - como lesão corporal, ameaça, pequenos furtos, dano ao patrimônio -,com o objetivo de que o jovem agressor não somente cumpra a pena, mas entenda os valores que foram corrompidos e possa, por meio de medidas pedagógicas, obter auxílio no contexto em que está inserido – quase sempre, eles são frutos de famílias desestruturadas. “O processo restaurativo não é apenas uma negociação, mas algo mais profundo, que gere uma transformação no infrator”, diz o juiz Egberto de Almeida Penido, titular da 1ª Vara Especial da Infância e da Juventude da Capital e membro da Coordenadoria da Infância e da Juventude.

O núcleo de Justiça Restaurativa foi implantado nas escolas de comunidades carentes como, por exemplo, em Heliópolis, região de grande vulnerabilidade social localizada ao sul do município, e foi estendido para escolas de diversas cidades do interior paulista, como Santos, Tatuí, Tietê – na cidade de São José dos Campos, por exemplo, todas as escolas municipais já têm núcleo de práticas restaurativas. “Percebemos que era preciso fazer com que a prática da Justiça Restaurativa se enraizasse como um projeto político pedagógico, na cultura da escola e dos pais, e não apenas uma ação pontual que resolva determinado conflito”, diz o juiz Egberto.

Bombas – Em um caso recente ocorrido em uma escola pública em Heliópolis, dois jovens explodiram bombas no recreio com a intenção de reivindicar maior diálogo com a diretoria e acabaram machucando outros colegas. O círculo restaurativo foi feito, envolvendo membros do conselho tutelar, judiciário, escola, familiares e outros colegas e, ao invés da expulsão, os alunos foram encaminhados para um treinamento no corpo de bombeiros e se tornaram, por um ano, os “guardiões do recreio”. Depois disso, nunca mais ocorreram casos de violência na escola, que eram bastante corriqueiros. Além disso, os alunos se comprometeram a retomar o jornal da escola, para melhorar a comunicação com a diretoria.

“A Justiça Restaurativa não significa impunidade nem apologia à desresponsabilizacão, mas resolver o conflito a fundo. Os círculos não trabalham com base na punição e no castigo, mas há a responsabilização social do adolescente pelas suas escolhas”, diz o juiz Egberto.

Pólos irradiadores – A metodologia que está sendo utilizada para implementar a Justiça Restaurativa no Estado de São Paulo é denominada “pólos irradiadores”, que significa envolver, na implantação do método, diversas instituições para que não fique setorizado. “Nenhuma instituição sozinha resolve o problema da violência, é preciso entender o contexto em que ela está inserida e os aspectos sociais da produção de violência”, diz Mônica Mumme, consultora da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJSP e responsável pela implementação da metodologia dos Polos Irradiadores em São Paulo. De acordo com ela, a violência é complexa e precisa de uma resposta interinstitucional, envolvendo o conselho tutelar, as escolas, assistentes sociais, profissionais de saúde, dentre outros. “É uma justiça que busca pelo nosso potencial criativo, pela união de todas as instituições para uma proposta de resolução do conflito”, diz Mônica.

Bulliyng – Os círculos restaurativos, que são realizados em três etapas – pré-círculo, círculo e pós-círculo -, também têm sido aplicados com frequência em casos de bulliyng nas escolas. Em uma escola atendida pelo núcleo, um apelido dado a uma menina – “testuda” – fez com que ela tivesse uma reação desastrada e agredisse o seu colega, causando lesões graves. Após o Boletim de Ocorrência, instaurou-se o ciclo restaurativo, envolvendo os jovens, o coordenador pedagógico da escola, representantes do grêmio estudantil, os familiares, o conselho tutelar e o facilitador de Justiça. Após a menina ter tido a oportunidade de explicitar a dor que o apelido lhe causava e dos pedidos qualificados de desculpas, os dois alunos ficaram responsáveis por realizar uma campanha anti-bullying na escola, para prevenir a prática. “Não fosse o círculo restaurativo, a aluna seria expulsa e corria o risco de abandonar os estudos, tornando o resgate cada vez mais difícil”, diz o juiz Egberto.

Luiza de Carvalho
Agência CNJ de Notícias



sábado, 30 de agosto de 2014

Quer combater a violência? Comece por você mesmo!

Excelente artigo publicado no UOL Mulher. Estranhamente, entretanto, não há uma só menção ao papel que a mídia desempenha na educação e na perpetuação dos padrões de violência no Brasil:

Reconhecer a própria agressividade ajuda a conter a disseminação do ódio

Marina Oliveira e Suzel Tunes

O Conselho Nacional do Ministério Público divulgou dados alarmantes, em 2012: homicídios cometidos por impulso ou por motivos fúteis representaram 100% do total de assassinatos com causas identificadas registrados no Acre, entre 2011 e 2012. No mesmo período, em São Paulo e Santa Catarina, esse índice ficou acima de 80%.

Na categoria, entram crimes que começam com uma simples briga, motivada por conflitos entre vizinhos, desavenças, ciúmes e desentendimentos no trânsito. Em 2014, os casos de linchamento por suspeita de crime aconteceram em diferentes estados brasileiros. E, nas redes sociais, as declarações de ódio crescem e se espalham continuamente.

Mas o que leva um povo internacionalmente reconhecido como cordial e pacífico a agir motivado pela raiva? A resposta talvez esteja na própria questão. Afinal, a definição de cordialidade nada mais é do que agir com o coração. E ter as emoções à flor da pele também significa se deixar levar do amor ao ódio, em poucos segundos –basta lembrar dos crimes passionais.

E, ainda que esses dados sejam recentes, a história do país mostra que não fomos sempre um povo 100% pacífico. "O Brasil tenta jogar para debaixo do tapete a sua brutalidade. Mas é importante lembrar da nossa história violenta contra os índios e negros, do tempo do cangaço e das nossas guerras civis, que preferimos chamar de outro nome, como revolta ou insurreição", afirma o doutor em filosofia Gerson Leite de Moraes, professor de Ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas.

Ao ignorar a própria natureza agressiva, mascaramos a contribuição individual para o caos. Quem se vê como alguém pacífico, cercado de pessoas violentas, conclui que o problema está no outro e não em si.

"Incluir-se no mundo é fundamental para criar consciência. O trânsito é, de longe, o palco por onde desfila nossa boçalidade e violência. Mas a culpa é sempre do outro: do caminhão, do ônibus, das motos, dos pedestres, dos ciclistas, dos bêbados. Ninguém diz: o trânsito é ruim porque tem gente como eu circulando nas ruas", afirma o historiador Leandro Karnal, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

Assim, a violência é sempre definida pelo sujeito. Aquele que é agredido vai abrandar a própria reação, não menos violenta, como uma resposta justa de alguém que precisa se defender. É essa a perspectiva dos que argumentam que "bandido bom é bandido morto" e que preferem fazer justiça com as próprias mãos. Os envolvidos em linchamentos, por exemplo.

"Se nós trabalhássemos com uma ética mais geral, entenderíamos que, se é errado matar alguém, isso vale para o bandido e para o Estado. Sob essa perspectiva, o homicídio na rua é tão ilegal quanto dentro da prisão", diz o historiador.

O valor atribuído à força

Pesa também o fato de que o ódio, no Brasil, é visto como uma característica que confere força e capacidade de ação, um ensinamento passado de geração em geração. Na nossa cultura, alguém que se revolta é frequentemente julgado como uma pessoa de atitude, diferente daqueles que agem com tolerância e que se abrem para o diálogo. Esses últimos podem até ser vistos como fracos, apesar de colocarem a razão acima da emoção.

Para o historiador Leandro Karnal, o peso histórico da escravidão colocou o chicote como um argumento estrutural na consciência coletiva. "O que torna a violência sedutora é que ela funciona, enquanto a razão só tem êxito se os dois lados estiverem jogando de acordo com as mesmas regras", explica o especialista.

O descontentamento com o poder público, da mesma forma, aguça nas pessoas um ímpeto egoísta, uma tentativa de diminuir ou extinguir as violências que elas próprias poderão vir a sofrer futuramente. Aqueles que defendem a pena de morte, o porte de armas e a diminuição da maioridade penal, geralmente, compartilham esse sentimento.

"Onde não existe política e Estado, existe o despotismo e o egoísmo", explica a filósofa Adriana Mattar Maamari, professora da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos). "Nesse cenário, infelizmente, eclodem os piores movimentos, os mais insensatos e hostis aos próprios seres humanos, que opõem uns contra os outros. É a natureza humana tentando sobreviver em meio a tantas adversidades", diz.

Violência gera violência

Outro ponto de atenção é que quanto menos se coíbe a violência, mais ela cresce. Por isso, responder a um ato de agressividade sem hostilidade talvez seja o maior dos desafios contemporâneos. "Fica mais fácil fazer isso se compreendermos que somos falhos e capazes de praticar maldades, tanto quanto qualquer outra pessoa. O outro agiu mal, mas você também poderia ter agido. Todos nós somos sublimes e infames", afirma o filósofo Jorge Claudio Ribeiro, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Nos pequenos atos, a cultura da violência se perpetua. "O discurso agressivo e o bullying, por exemplo, desencadeiam violências maiores, assim como os comentários raivosos nas redes sociais", declara o professor de ética Gerson Leite de Moraes.

E como conter o próprio ódio em uma sociedade violenta, em que cada um reproduz o que aprendeu, ao longo dos anos? Para os especialistas, a educação ainda é a melhor saída. Tanto a adquirida nas escolas quanto a ensinada pelos pais, a aprendida em livros, debates e outras manifestações culturais.

"Na base da nossa violência está uma cegueira em relação ao outro. Por isso, defendo uma educação que dissemine a tolerância e indique que é bom que sejamos diferentes, do ponto de vista estético, sexual, social ou étnico. É preciso ensinar a solidariedade com o outro", diz Karnal.



domingo, 30 de março de 2014

Ai, que vida boa!


Síndrome de Apert é uma doença genética que gera deformidades no crânio da criança, e carrega um estigma estético e social difícil de suportar. Entretanto, Gregorio Duvivier conta o que aprendeu com seu irmão de 33 anos de idade, portador da síndrome, em emocionante coluna publicada na Folha de S. Paulo de 17/03/14:

Meu irmão

Meu irmão faz aniversário no dia 19 — depois de amanhã, se você estiver lendo essa coluna no dia em que ela saiu. Cinco anos mais velho que eu, João faz 33 anos. Mas parece que sempre teve 33 anos, desde que nasceu.

Quando era pequeno, João gostava de brincar de trânsito. A brincadeira consistia em colocar os carrinhos enfileirados e fazer bibi e fonfon por horas e horas. Num dia muito animado, eventualmente, ele aparecia com uma ambulância — ió-ió-ió. Depois que ela passava, os carros retomavam suas posições e tudo voltava ao normal. Bibi. Fonfon.

Na ansiedade característica de uma criança de três anos, eu vinha com o carro a mil por hora, tentava uma ultrapassagem perigosa que gerasse uma batida cinematográfica e — Plouft! Cataplouft! E o João, com a calma de sempre, dizia: não agita. E voltava ao trânsito seu de cada dia. Feliz da vida.

João tem uma síndrome raríssima, cujo nome eu aprendi pequenininho, pra explicar pros meus amigos: ele tem síndrome de Apert. A síndrome é barra pesada e gera uma série de complicações que eu não vou enumerar aqui. Basta dizer que volta e meia outras crianças apontavam para ele e diziam coisas terríveis.

Uma vez, numa lanchonete, crianças endiabradas ficaram dando voltas em torno dele e gritando — Monstro! Monstro! Minha mãe pediu pra elas pararem. Nada. Sem saber o que fazer, derramou um copo cheio de Coca-Cola na cabeça delas. Elas saíram correndo. João teve uma crise de riso.

Depois, toda vez que uma criança ameaçava praticar um bullying com o João, minha Coca-Cola... E o João morria de rir.

João, hoje, é uma pessoa feliz. Até hoje adora um trânsito. Passa o dia no ônibus, pra lá e pra cá, muitas vezes sem destino — o destino é a viagem. Conhece todos os trajetos e todos os motoristas. E os motoristas adoram ele, que adora conversar muito mais que o indispensável. E adora a vida.

Uma vez, depois de uma cirurgia cranio-facial em que poderia ter morrido, João tomou um banho, se sentou na cama do hospital e disse para a minha avó: ai, que vida boa.

Viva o João. E viva a minha mãe, que além de jogar Coca-Cola nos problemas da vida, está contando a história do João num livro, que vai sair pela Companhia das Letras.

Hoje, quando o carro — e a vida— não andam e dá vontade de quebrar tudo com um taco de beisebol, lembro do João, no chão de casa: "não agita". O mundo, paradinho, tem a maior graça. Ai, que vida boa.



domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ciberbullying pode ser fatal


Em meio ao marasmo, partidarização e superficialidade que tomam conta da imprensa brasileira, ainda há gente que leva o jornalismo a sério, como na excelente matéria abaixo, publicada n'A Pública:

COMO UM SONHO RUIM

Por Andrea Dip e Giulia Afiune

Adolescentes falam do suicídio das meninas que tiveram imagens íntimas expostas na internet e revelam como é amadurecer em um mundo em que o virtual é real


Fotos estampam sorrisos, olhares e caretas. Meninas posam para o próprio celular usando maquiagem, unhas feitas, roupas de festa ou mesmo o uniforme da escola – sozinhas ou acompanhadas dos amigos. Tudo é publicado nos perfis de redes sociais para ser “curtido” – a forma mais rápida e fugaz de aprovação online. Cada “like” em um “selfie” (autorretratos feitos com o celular), gato, comida ou sapato novo é esperado com ansiedade principalmente por crianças e adolescentes que passam cada vez mais tempo postando e checando a própria popularidade nas redes sociais. Uma pesquisa à qual a Pública teve acesso na íntegra em primeira mão, realizada pela ONG Safernet em parceria com a operadora de telecomunicações GVT – que entrevistou quase 3 mil jovens brasileiros de 9 a 23 anos – revela que 62% deles está online todos os dias e 80% tem as redes sociais como seu principal objetivo de navegação. Como acontece no mundo todo, o que prevalece é a autoimagem – não é à toa que “selfie” foi escolhida como a palavra do ano de 2013 do idioma inglês pelo dicionário Oxford. De 2012 para 2013, seu uso aumentou 17.000% e a hashtag #selfie acompanha mais de 58 milhões de fotos na rede social Instagram.

A rotina online de duas garotas que estamparam páginas de portais, jornais e revistas no último mês não era diferente. Giana Fabi, de Veranópolis, interior do Rio Grande do Sul, e Julia Rebeca, de Parnaíba, litoral do Piauí, viviam a maior parte do tempo conectadas. Separadas por mais de 3,8 mil quilômetros, as meninas de 16 e 17 anos, respectivamente, acompanhavam ansiosamente a reação online às autoimagens cuidadosamente construídas que postavam.

“Ela era linda, as fotos dela então…”, é a primeira coisa que lembra Gabriela Souza, amiga próxima de Giana, sobre as muitas curtidas nas fotos do perfil da gaúcha no Facebook. Gabriela, que preferiu dar a entrevista através do bate-papo da rede, lembra que a amiga vivia arrumada, se achava bonita mas se preocupava com o peso, como a maioria das garotas de sua idade. Willian Silvestro, de 17 anos, namorado de Giana na época, também comenta sua beleza: “Ela tinha olhos azuis e gostava de realçar com lápis preto. Era vaidosa e amava maquiagem”. Os dois estavam juntos havia um mês e todas as noites se falavam por cerca de duas horas pelo Skype.

Já Julia Rebeca, diz o primo Daniel Aranha, gostava de pintar as unhas com cores diferentes e mostrá-las nas redes sociais. “Todo dia era uma nova. Tinha fotos no Facebook em que ela mostrava a unha pintadinha, desenhada, decorada que ela mesma fazia”. Além das fotos, Giana e Julia escreviam sobre o dia a dia na escola ou na academia e postavam músicas e fotos das cantoras preferidas – Miley Cyrus para Julia e Avril Lavigne para Giana. A piauiense fazia curso técnico de enfermagem e pensava em seguir carreira na área da saúde. Já a gaúcha estava no colegial, mas sonhava em deixar a pequena Veranópolis, de apenas 22,8 mil habitantes, para fazer faculdade em Bento Gonçalves ou Caxias do Sul – cidades médias da região.

A descrição das meninas por amigos e familiares combinam com as fotos: alegres, extrovertidas, falantes, “adolescentes normais”. Mas em novembro deste ano, uma foto em que Giana mostrava os seios e um vídeo em que Julia aparecia fazendo sexo com um rapaz e uma garota foram divulgados através do aplicativo Whatsapp – usado em celulares – e se espalharam pelas rede com a velocidade dos escândalos virtuais. Julia se suicidou no dia 10 de novembro e, quatro dias depois, no dia 14, foi a vez de Giana tirar a própria vida, poucas horas depois de saber que a foto havia sido compartilhada. As duas deixaram mensagens de adeus nas redes sociais e se enforcaram.


ADEUS PELO TWITTER

“Quem divulgou a foto foi um colega da escola que queria ficar com ela, só que ela não queria ficar com ele”, diz o irmão de Giana, Jonas Fabi, de 29 anos. Ele supõe que o garoto tenha espalhado a foto por vingança. “Eu não tenho certeza, mas ouvi comentários de que possa ter sido um jogo na internet. Tu tá online no Skype com várias pessoas e quem perde tem que mostrar uma parte do corpo. Aí ela perdeu, mostrou e na hora deram um printscreen. Ele guardou essa foto como uma carta na manga para chantagear: ela começou a namorar outro, ele foi lá e fez isso”.

Giana ficou sabendo do que estava acontecendo nas redes por volta do meio dia de 14 de novembro, quando sua prima ligou e avisou, depois de receber a foto em seu celular pelo WhatsApp. “Quando eu soube da foto que estava rolando, liguei pra ver como ela estava. Ela pareceu surpresa, espantada. Dói dizer isso mas acho que ela não sabia de nada antes” lamenta Charline Fabi. “Por volta de uma hora da tarde, começamos a conversar por aqui [Facebook]. Ela dizia que iria fazer uma besteira porque não queria causar vergonha para a família. Eu não acreditava porque ela nunca havia mencionado nada desse tipo. Só mandava ela parar de falar aquilo, que as pessoas iriam esquecer. Mas aí, ela despediu-se de mim dizendo: ‘Eu te amo, obrigada por tudo amor. Adeus”.

Charline lembra que continuou a ligar para a prima e, como ela não atendia, ligou para os pais que entraram em contato com os pais de Giana. Jonas, que morava na casa ao lado, pulou o muro e entrou na residência. Lá encontrou o corpo da irmã, que tinha se enforcado com um cordão de seda. “Na hora a adrenalina me segurou de pé. Quando souberam, o pai desabou, a mãe teve que ir para o hospital, em choque. Depois, quando caiu a ficha pra mim, eu também não aguentei”, lembra, emocionado, falando baixo pelo telefone.

Às 12h56, Giana postou uma mensagem de despedida no Twitter: “Hoje de tarde eu dou um jeito nisso. Não vou ser mais estorvo para ninguém”. Jonas atribui a atitude da irmã ao medo da reação da família. “Ela disse pra prima que não queria que a família sentisse vergonha e sofresse por um erro dela. A nossa família é bem conhecida, e a cidade é pequena, meio bocuda, bastante gente inventa coisas. Às vezes você faz uma coisinha e acabam aumentando. De repente isso até influenciou, pelo fato das pessoas todas se conhecerem, daí acaba espalhando rápido.”


“OUTRAS PESSOAS PODEM ENTENDER QUE FORAM VÍTIMAS E NÃO CULPADAS”

Daniel Aranha, primo da piauiense Julia Rebeca diz que ela também não falou com a família sobre o vídeo. Ele informou que não pode dar detalhes, porque o caso ainda está sendo investigado. O que se sabe é que o corpo de Julia foi encontrado pela família na noite do domingo, dia 10 de novembro, quando voltaram da igreja evangélica que frequentam. Antes de se enforcar com o fio da chapinha, ela também tinha se despedido pelo Twitter, com três posts. “É daqui a pouco que tudo acaba”, “Eu te amo, desculpa eu n [não] ser a filha perfeita, mas eu tentei. Desculpa desculpa eu te amo muito…” e “E tô com medo mas acho que é tchau pra sempre”. Seis horas depois, Daniel deu a notícia pelo microblog. “Aqui é o primo dela, infelizmente perdemos a Julia Rebeca… Família desolada, por favor não postem besteiras… Momento difícil”.

Os dois casos estão sendo investigados por delegacias de polícia locais. O rapaz que divulgou o vídeo de Giana já foi identificado mas Jonas e a família esperam o resultado da investigação para decidir se vão processá-lo. Já no Piauí, mesmo sem saber quem compartilhou o vídeo, Daniel diz que a família espera que a justiça seja feita. “Queremos saber quem fez esse ato irresponsável e queremos punição. Se for um maior de idade, espero que seja punido nas medidas cabíveis, se for menor, não tem punição maior que sua própria consciência. Para ambos, espero que tenham se arrependido e o meu perdão eles têm.”

Depois dos episódios, as mesmas redes sociais estão sendo usadas para homenagear as garotas. Jonas mudou sua foto do perfil para a imagem da irmã, bonita, com um sorriso no rosto. Willian, namorado da gaúcha, também mantém uma foto abraçado com Giana em seu perfil. Daniel alimenta a página “Julia Rebeca – Saudades Eternas” com fotos, comentários, passagens bíblicas e com as músicas preferidas da prima. “É uma forma das pessoas verem nosso amor, e de todos aqueles que a amam deixarem suas lembranças e mensagens. Outras pessoas que passaram por isso podem entender que foram vítimas e não culpadas por fazer algo na sua intimidade”, explica.


COMO UM SONHO RUIM

O caso das adolescentes e outros envolvendo mulheres que também tiveram sua intimidade divulgada na rede ganharam grande repercussão em todas as mídias e trouxeram à tona o conceito do “pornô de revanche” – tradução do inglês “revenge porn” – para se referir à prática, cada vez mais comum, de divulgar fotos e vídeos íntimos sem o consentimento da outra pessoa, geralmente por parte de um homem para se vingar após um rompimento ou traição. Um machismo que não se restringe àquele que posta a imagem: afinal, por que um vídeo de sexo ou mesmo uma cena de nudez parcial destrói a vida de meninas e mulheres e não dos homens, que não raro aparecem nas imagens?

“Esse tipo de ameaça, ligada à moral sexual e à ideia de que as meninas são mais expostas a uma avaliação sexual, sempre existiu”, como lembra a socióloga Heloísa Buarque de Almeida. “O que acontece agora é que como uma grande parte da sociabilidade é feita de forma virtual, o nível de exposição é muito maior e isso amplia a sensação de humilhação. Tem algo inovador na ferramenta mas também tem algo que é mais do mesmo” define a socióloga.

Se culpar a ferramenta não é a melhor resposta, há algo definitivamente novo na relação entre intimidade e redes sociais que impacta os adolescentes de uma forma que a sociedade começa a descobrir. Além da decepção com a perversidade de quem violou sua intimidade, a superexposição e o ciberbullying têm um peso muito maior para aqueles que estão em processo de construção da personalidade e de amadurecimento da visão de mundo. A vida online se aproxima – e para eles mal se diferencia – da offline, segundo os especialistas entrevistados pela Pública.

Também ouvimos as “fontes primárias” – os adolescentes – em quatro rodas de conversas com meninos e meninas de 15 a 18 anos, de escolas públicas e particulares de três bairros de São Paulo: Vila Madalena, Jardins e Heliópolis. O resultado desses papos, em muitos momentos surpreendente, você pode ler em formato de HQ clicando nas imagens ao longo da matéria, onde os diálogos foram reproduzidos. A frase de uma adolescente, sobre como se sentiria ao ter sua intimidade compartilhada, resume o sentimento que dali emerge: “Deve ser como naqueles sonhos em que você aparece nua de repente na frente da escola inteira. Só que na vida real e para o mundo inteiro”.


MAIS FREQUENTE DO QUE PARECE

Nessas conversas, muitos disseram já ter trocado fotos íntimas com amigos, “ficantes” e namorados, todos já haviam recebido conteúdo sexting e conheciam ao menos um caso de alguém em seu ciclo de amizades que teve a intimidade divulgada. A já referida pesquisa realizada pela Safernet com crianças e jovens de 9 a 23 anos confirma essa tendência: as fotos aparecem como o elemento mais compartilhado na rede por 60% dos entrevistados (veja um box com mais números e dados exclusivos no fim da matéria). Do total, 20% admitiram já ter recebido conteúdos de sexting e 6% já ter enviado fotos de si mesmos – em 2009, apenas 12% relataram ter recebido conteúdo desse tipo segundo a pesquisa. O estudo mostra também que os que postam para difamar o fazem de forma recorrente: dos que compartilharam fotos ou vídeos eróticos de alguém contra sua vontade, 63% já o fizeram cinco vezes ou mais.

Para a psicóloga Juliana Cunha, que coordena o Helpline, canal de atendimento direto a crianças e adolescentes da Safernet que funciona via chat e e-mail, pais e professores têm que enfrentar o fato de que o sexting faz parte da nova cultura adolescente, por mais chocante que isso possa parecer. “Nós adultos não temos um olhar tão próximo dessa geração que cresce imersa nesse ambiente de interação online. A gente percebe no sexting dois pontos de vista muito antagônicos: o do adulto, que vê geralmente como uma superexposição e como uma erotização precoce, e dos adolescentes, que vêm a troca como código de interação entre eles”.

Juliana conta que é comum, ao começar uma amizade ou paquera online, os adolescentes ligarem a webcam para se conhecer, mas a troca de conteúdo erótico costuma acontecer apenas quando eles se sentem confiantes e íntimos. “Para eles, aquilo é parte das experiências sexuais e de intimidade. E não há dialogo entre as gerações. Cada uma está falando uma língua” diz. A comparação que ela usa para abordar o assunto com pais e professores é de que funciona mais o menos como os jogos sexuais das gerações passadas – a diferença é que se antes aquilo ficava guardado na memória, hoje pode se espalhar e se perpetuar ao cair na rede.

“Os adolescentes sofrem muito quando isso se dissemina, eles ficam marcados, falados, pagam um preço muito alto. As meninas que têm a intimidade exposta são apedrejadas, xingadas, muitas têm que mudar de cidade, deixar a escola. A gente acha que pode desconectar e está tudo bem mas não é assim. E o apoio da familia é determinante sobre como esse adolescente vai superar. Eles relatam muito medo de serem julgados e punidos pelos pais. A escola também precisa intervir e abrir espaços de diálogo porque geralmente ficam espantadas e perdidas. Escutar sem julgar pode ajudar muito”.

No último ano, apenas nos Estados Unidos, 9 adolescentes cometeram suicídio supostamente por terem sofrido ciberbullying em uma rede social chamada Ask.Fm em que alguém faz uma pergunta de forma anônima e o outro tem que responder, como o jogo da verdade das gerações passadas. Apesar de não ser muito conhecida pelos adultos, o Ask.Fm é a terceira rede social mais utilizada pelos adolescentes no Brasil, atrás apenas do Facebook e do Instagram, segundo Manu Barem, editora do Youpix – site que discute a cultura da internet e como os jovens se relacionam com ela.

Manu conta que já sofreu o drama do ciberbullying na pele: “Ele acaba mesmo com a saúde mental das pessoas. Eu já sofri através do Twitter e, mesmo tendo 28 anos, aquilo me desestabilizou profundamente. Imagina na vida de um adolescente que ainda não saiu de casa e não tem as preocupações e raízes de uma vida independente. Coisas assim têm outra proporção. Fora que é dificil hoje falar em uma separação entre identidade online e offline. Isso não existe mais”, diz.

O doutor em ciências sociais e autor do livro “Comunicação e Identidade: quem você pensa que é?” Luis Mauro Sá Martino (veja entrevista completa com ele aqui), concorda com Manu. Para ele, “não faz mais sentido a oposição entre ‘mundo digital’ e ‘mundo real’, apenas entre mundo digital e mundo concreto, físico”. E explica: “O que a gente chama de realidade é um monte de significados que a gente dá para as coisas. No mundo digital, virtual, eu também estou dando significado para as coisas, só que tem o nome de avatar, foto, perfil, link. Nós estamos dentro da realidade humana, essa realidade se manifesta de muitas formas e uma delas é o ciberespaço. Ele só é diferente do espaço físico por uma questão de tecnologia”, diz Sá Martino.

Juliana acrescenta que o mecanismo de relação nas redes sociais é mesmo pautado pela reputação: “Existe uma competição curiosa, em busca dessa audiência, quem tem mais views, as interações online têm essa lógica. Aí você gerencia o tempo todo isso, a percepção que os outros têm de você. E se você percebe que esse ‘eu’ do adolescente está tão capturado pela reputação online, quando isso de alguma forma se abala, vale a pena viver?”


SUICÍDIO POR CIBERBULLYING?

A perseguição social – que sempre se manifestou contra a sexualidade das mulheres – se mostra especialmente aguda, porém, no espaço virtual em que nada se apaga, nada se estanca e nada se restringe. O bullying, comportamento comum na adolescência, pode desestruturar completamente a vítima, como mostram os posts dramáticos das adolescentes brasileiras que se mataram.

Para o psiquiatra e autor do livro “O Suicídio e sua Prevenção”, José Manoel Bertolote, não se pode determinar, porém, o bullying como causa única de um suicídio. Ele explica que 85% dos adolescentes que tiram a própria vida têm um transtorno psiquiátrico na ocasião, o que é chamado de fator predisponente. “Quando a ele se junta um fator precipitante, pode se desencadear o processo suicida”. Aí entraria o fator ciberbullying. “[O psicólogo Bruno] Bettelhein postulou [no livro A Psicanálise dos Contos de Fada] que uma das funções das fábulas e contos de fada era preparar as crianças para a vida adulta através de símbolos. A era eletrônica mudou a forma como as crianças veem o mundo: dos videogames, às redes sociais e aos reality shows vivem num mundo paralelo, ao mesmo tempo voyeurs e exibicionistas, num tempo ilusório, num espaço distorcido e numa realidade artificial”, diz.

O psiquiatra também não descarta a possibilidade de que, no caso das meninas brasileiras, um suicídio tenha influenciado o outro: “Não é impossível. É bem conhecido o ‘efeito Werther’, de imitação de comportamentos suicidas. Em geral, há um determinado pool de pessoas com alto rico de suicídio (pela existência de fatores predisponentes) e, para elas, a informação sobre um caso de suicídio (ou tentativa) pode ser o fator precipitante que faz transbordar o copo d’água. Não é por nada que a OMS recomenda o comportamento adequado da mídia como um das formas eficazes de prevenção dos comportamentos suicidas”.

Em uma palestra sobre o tema, o pós-doutor pela Universidade de Londres e doutor em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Neury Botega, também explicou que muitos fatores se combinam no suicídio. “Nunca é apenas um motivo. Há causas genéticas e biológicas, o grau de impulsividade e agressividade, abusos físicos ou sexuais, disponibilidade de meios letais, entre outros. Há pesquisas que demonstram que até o perfeccionismo está associado ao suicídio, especialmente de adolescentes”, disse.

Recentemente, a equipe do Facebook, se dizendo preocupada com mensagens suicidas postadas na rede, lançou uma ferramenta que identifica conteúdos suspeitos, manda um e-mail e oferece um link para uma conversa privada com um especialista. A ferramenta está disponível apenas para os Estados Unidos e Canadá mas deve ser liberada para outros países em breve.

BOTÃO PROZAC DE CURTIR

“Eu já vi uma menina que tava, tipo, feliz numa balada e quando viu uma postagem de um carinha no Facebook ficou brava, triste, surtou, mudou o humor dela completamente. Assim como quando o menino que eu gosto curte a minha foto me dá uma alegria tão grande que eu tenho vontade de abraçar a minha família! Isso não é normal né? Ficar tão feliz com uma coisa assim”, disse Maria, de 16 anos, durante uma das rodas de conversa. Todos eles, meninos e meninas admitiram se importar exageradamente com curtidas que ganham em fotos, vídeos e músicas que postam nas redes sociais. Para alguns, o “like” mais importante vem de alguém especial; para outros, o número é o que realmente conta – e aí adicionam todos que pedem para se tornar amigos, sem saber quem são. Muitos também disseram se comunicar com o/a namorado/a apenas por mensagens de texto e não sentir falta da conversa por telefone, por exemplo. A interação online parece ser, na maioria das vezes, suficiente para eles.

O que não significa que realmente seja, como destaca o psicólogo e pesquisador Vitor Muramatsu, autor do trabalho “Influência da comunicação digital nos vínculos humanos” que você pode baixar na íntegra aqui. “Eles [os adolescentes] passam por diversos processos psicológicos como encontrar uma identidade, formar uma personalidade, questionar o que aprenderam em casa e na escola. E os laços que antes eram formados com a convivência real e uma série de trocas ricas que só a interação física permite em silêncios, tons de voz, cheiro e toque foram substituídos por interações online. Ter vários amigos no Facebook não é como conviver fisicamente com alguns poucos e bons amigos. A pergunta é: como essas crianças e adolescentes vão se formar nesse novo contexto? Não vai ser melhor ou pior mas a gente tem que parar para pensar e estudar as consequências disso” acredita o psicólogo.

Para ele, há também um desencontro entre o desejo de alguém que posta uma foto, por exemplo, e a recepção que ela terá pelos amigos virtuais. “Eu coloco uma foto minha de criança e espero que os meus 550 amigos curtam porque quero que eles vejam o quanto eu era lindo e amado pelos meus pais naquela época. Ou mando uma foto nua para um garoto mas ele é adolescente, não quer saber de mim ou queria mas mudou de ideia, nem ele sabe o que quer. A relação que você tem com a foto é muito carregada de sentimentos e isso se perde totalmente quando alguém olha rapidamente na sua timeline ou recebe por WhatsApp. Existe uma perda entre meu desejo e a consecução do desejo. Aparentemente bastam algumas curtidas mas nunca é o suficiente. Todas as tecnologias prometem satisfação imediata, um botão ‘Prozac’ de curtir, mas isso é um engodo”.

Muramatsu vai além na reflexão. Para ele, cada vez mais as redes sociais estão se tornando grandes sites de compras. “O sistema pode ser utilizado para encontros efetivos, mas o mercado faz com que a sua atenção se volte para o consumo de produtos e não para a efetivação da sua subjetividade. A Mariana, que posta que está solteira, vê a foto de um cara bonito e logo abaixo um anúncio de escova progressiva. Ela pensa que precisa ficar bonita para arrumar um namorado bonito assim, clica no link e compra a escova progressiva. No site, ela vê uma outra propaganda de um casal feliz em Campos do Jordão no qual a moça é retocada no photoshop para ter um corpo perfeito. Para ficar assim, ela compra a promoção de lipocavitação. E o mais terrível é que você substitui o relacionar-se com pessoas por relacionar-se com pessoas como produtos, porque o cara vai realmente sair com a moça que tem a escova progressiva”. E conclui: “A lógica de mercado desconhece a diversidade humana. É preciso que se discuta, é preciso de estudo, tolerância, estrutura. Não estamos falando apenas sobre a menina que se suicidou. Vivemos um contexto gigante de economia de mercado em que as pessoas também são produtos e que um dos efeitos colaterais é esse: quebrar onde é mais frágil. A impressão é de que é tudo melhor, vamos nos relacionar mais, ser mais felizes, estar mais perto. Mas não é isso que acontece. Acho que a gente está no ápice das tecnologias do desencontro humano. E tem gente morrendo por causa disso”.






Pesquisa da Safernet brasil mostra que sexting é prática comum entre adolescentes


A Pública recebeu, em primeira mão, a pesquisa da ONG Safernet sobre como os jovens brasileiros usam a internet. Além disso, tivemos acesso exclusivo aos dados do Helpline Br, serviço de orientação online para crianças e adolescentes que estejam vivenciando situação de risco na Internet. (www.canaldeajuda.org.br).

Dos 2834 jovens entre 9 e 23 anos que participaram da pesquisa, 62% afirmam que usam a internet todos os dias. O número cresce para 86% entre os jovens de 16 a 23 anos. As redes sociais são a atividade preferida por 80% dos participantes, seguida por ouvir músicas e assistir filmes (57%) e jogar jogos (55%). Celulares e tablets ocupam o segundo lugar na lista dos dispositivos mais utilizados para o acesso, com 38%, atrás apenas dos computadores no quarto, usados por 47%.

“Se eu tô o tempo todo conectado, significa que eu tenho que interagir, correr e responder as informações que eu recebo o tempo todo”, explica Luís Mauro Sá Martino, doutor em Ciências Sociais e autor do livro “Comunicação e Identidade: Quem você pensa que é?”. “Isso faz com que a gente mude a nossa relação com o tempo e com as outras pessoas. Eu tenho um número maior de conexões, mas isso não significa que eu tenho mais amizades, porque afeto demanda tempo.”

39% dos participantes considera que seu comportamento não muda nas redes, mas 23% acreditam ficar mais confiantes e descontraídos e 22% mais cuidadosos quando estão online. Dos jovens entre 16 e 23 anos, 17% acreditam que podem dizer coisas online que não diriam offline, 15% dizem ser mais descontraídos, 9% mais confiantes e 12% conversam com mais pessoas na internet do que fora.

O Sexting – compartilhamento de fotos, vídeos ou textos com teor sensual e erótico é comum entre eles. 20% afirmam que já receberam esse tipo de conteúdo. Dentre estes, 42% receberam 5 ou mais vezes. Apenas 6% assume que já compartilhou este tipo de foto de si, dentre os quais 63% o fizeram 5 ou mais vezes. Este fenômeno é mais comum entre meninos e se torna mais frequente com a idade. 32% dos jovens entre 16 e 23 anos já receberam esse tipo de conteúdo relativo a amigos e/ou colegas. 8% confirma que já enviou, o que aumenta para 13% a partir dos 18 anos.

Entre janeiro de 2012 e novembro de 2013, 7,7% dos pedidos feitos ao Helpline Br eram relativos a Sexting. Ou seja, foram 135 pedidos de ajuda em cerca de dois anos. Este é o quarto na lista dos assuntos mais citados nos atendimentos – atrás de Ciberbullying (20,9%), solicitação de materiais/palestra (10,9%) e problemas com dados pessoais (9,8%).

“Conforme a Internet passa a ocupar cada vez mais tempo e importância na vida dos adolescentes e jovens brasileiros, o namoro e as relações mais íntimas tendem a ocorrer também nos ambientes digitais, assim como ocorria com os bilhetes, cartas, telefonemas”, detalha o relatório da pesquisa. “Uma grande diferença a ser considerada atualmente é a amplitude do público potencial nos ambientes digitais e a replicabilidade das informações que rapidamente podem ser usadas sem o consentimento dos “proprietários”.

Quando jovens entre 16 e 23 anos se sentem em perigo ou são agredidos na Internet, 49% bloqueia o contato e denuncia e 9% tenta descobrir quem é o responsável e tirar satisfações. A exemplo de Giana e Julia, que não contaram para a família sobre a sua exposição na rede, apenas 12% pedem ajuda para os pais e 4% para irmãos e amigos. 8% desligam o computador e tentam esquecer.




Leis e projetos de leis

A divulgação de fotos, vídeos e outros materiais com teor sexual sem o consentimento do dono pode ser interpretada como crime de acordo com diversas leis.

O ato pode ser interpretado como difamação (imputar fato ofensivo à reputação) ou injúria (ofender a dignidade ou decoro), considerados crime de acordo com os artigos 139 e 140 do Código Penal. Além disso, o artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente prevê pena de 3 a 6 anos de reclusão e multa para quem publicar materiais que contenham cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente. Já a Lei 12.737, em vigor desde abril, criminaliza a invasão de dispositivo informático alheio para obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização do titular. Quem tiver essa conduta pode pagar multa e ser preso por três meses a um ano. A lei foi apelidada de “Carolina Dieckmann” após a atriz ter seu computador hackeado e suas fotos íntimas divulgadas.

No entanto, os recentes casos trouxeram à tona propostas para uma legislação mais específica e penas mais rígidas. Ao todo, cinco projetos tramitam em conjunto na Câmara dos Deputados. O deputado federal Romário (PSB/RJ) apresentou, em outubro de 2013, o projeto de lei nº PL 6630/2013, que acrescenta um artigo ao Código Penal, criminalizando a divulgação de fotos, imagens, sons e vídeos com cena de nudez ou ato sexual sem autorização da vítima. Nesse caso, a pena seria a detenção de um a três anos e multa. Ela pode aumentar em um terço se o crime for cometido com fim de vingança ou humilhação ou praticado por alguém que manteve relacionamento amoroso com a vítima. Também tramitam os projetos de lei nº 6713/2013, de autoria da deputada Eliene Lima (PSD/MT), e o projeto de lei nº 6831/2013, do deputado Sendes Júnior (PP/GO). Ambos dispõem sobre o crime de vingança através da exposição da intimidade física ou sexual.

Em maio desse ano, o deputado João Arruda (PMDB/PR) propôs alterações à Lei Maria da Penha para determinar que a divulgação de imagens, montagens, vídeos e dados por meio da Internet ou outro meio, sem consentimento, também seja considerada uma violência contra a mulher. Trata-se do projeto de lei nº 5555/2013, conhecido como “Lei Maria da Penha Virtual”. O projeto nº 5822/2013 da deputada Rosane Ferreira (PV/PR) prevê a punição “da violação da intimidade da mulher na internet no rol das formas de violência doméstica e familiar”. Atualmente, a Lei Maria da Penha (11.340/2006) estipula uma pena de três meses a três anos de detenção no caso de lesão corporal leve contra a mulher no âmbito doméstico.

Já o projeto de lei do Marco Civil da Internet (PL 2126/11), que em 2009 começou a ser construído por um processo colaborativo entre sociedade civil e poder legislativo, traz uma série de regulamentações sobre a utilização da rede no país. Recentemente, o relator Alessandro Molon (PT-RJ) incluiu no texto um artigo que responsabiliza provedores de aplicações de internet, como UOL e Facebook, se a empresa for notificada e não tirar do ar “imagens, vídeos ou outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado sem autorização de seus participantes.”

No entanto, organizações que fazem parte do movimento Marco Civil Já questionam a mudança. “Da forma como está escrito, qualquer pessoa que se sentir ofendida com determinada nudez de caráter privado, divulgada com a anuência de quem está na imagem, pode solicitar a retirada do conteúdo a qualquer momento. Até uma empresa que teve um protesto de nudismo em sua porta poderia alegar participação na imagem. É preciso encontrar uma redação que restrinja a possibilidade de notificação apenas à pessoa retratada no conteúdo”, considera Deborah Moreira, da Ciranda, citando a carta do Marco Civil Já enviada ao relator contestando o artigo. “O termos “outros materiais” é complicado também pois dá margem a censura de caricaturas, textos eróticos e coisas do tipo. Da forma como está fere a liberdade de expressão.”

Deborah argumenta que o Marco Civil é uma carta de princípios que garante direitos, estabelece deveres e prevê o papel do Estado em relação ao desenvolvimento da internet. Assim, não seria o espaço apropriado para pautar restrições ao uso da internet. “Já existem leis que criminalizam essas como a Lei Carolina Dieckmann e o próprio Código Penal.”

De acordo com o texto, quem sofrer a violação dos direitos à preservação da intimidade, vida privada, honra e imagem deve receber indenização por danos materiais ou morais. O projeto deve ser votado na Câmara dos Deputados, em fevereiro de 2014, em regime de urgência.




Para ver os quadrinhos, clique aqui.

Colaboraram: Bruno Fonseca e Jéssica Mota
HQ: Alexandre De Maio
Infográficos: Safernet Brasil



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails