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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Traficante se converte e denuncia grupo que planejava matar promotor em SP


Curioso é que deram à operação o nome de "Judas Iscariotes"...

De qualquer maneira, isso sim é um claríssimo sinal de arrependimento (Lucas 3:8). Quisera outras pessoas que "viram evangélicos" tivessem o mesmo comportamento...

A informação foi publicada no Estadão de 23/09/17:

Operação prende 25 de organização que ameaçava matar promotor em Rosana

De acordo com a investigação, o grupo é suspeito de planejar a morte do promotor público Renato Queiroz de Lima, que atua no município.

José Maria Tomazela

SOROCABA - Uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual (MPE), na manhã deste sábado (23), prendeu 25 integrantes de uma organização de traficantes de drogas que atuava em Rosana, no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do Estado de São Paulo. De acordo com a investigação, o grupo é suspeito de planejar a morte do promotor público Renato Queiroz de Lima, que atua no município. Foram cumpridos também 30 mandados de busca. A Polícia Civil ainda apura a ligação dos suspeitos com outras organizações criminosas.

De acordo com o delegado Ramon Euclides Guarnieri Pedrão, as investigações foram iniciadas a partir de denúncias anônimas e ganharam corpo depois que um dos envolvidos se tornou evangélico e decidiu “entregar” o grupo – a operação foi batizada de “Judas Iscariotes”, numa referência ao traidor de Jesus Cristo. “Observamos que pequenos grupos de traficantes formavam uma rede em que os líderes se comunicavam e faziam referência a uma liderança maior. Eles se ajudavam e trocavam informações”, disse. A cidade fica na divisa com o Mato Grosso do Sul e está na rota dos carregamentos de drogas procedentes do Paraguai.

O plano de atentar contra a vida do promotor foi revelado por uma testemunha que prestou depoimento sob sigilo. “Foi uma menção clara de dar um tiro no promotor de Justiça que atua no enfrentamento do tráfico de drogas no município. Com as prisões, vamos prosseguir as investigações, em parceria com o Ministério Público”, disse. A Polícia Militar e a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) colaboraram com a operação, com cães farejadores para a busca de drogas. A PM participou com um helicóptero.

Com os suspeitos, foram apreendidos entorpecentes, celulares e rádios comunicadores. Conforme o delegado, os grupos trabalhavam com pequenas quantidades de drogas, uma espécie de varejo do crime. A investigação vai prosseguir para identificar o esquema de fornecimento da droga. Os detidos tiveram as prisões temporárias decretadas pela Justiça por 30 dias. Todos foram levados para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Caiuá, na mesma região.



quinta-feira, 21 de julho de 2016

Jogador Cicinho diz que encontrou Jesus "depois de 14 caipirinhas e 18 cervejas"


A entrevista foi dada ao programa "Bola da Vez" da ESPN Brasil (vídeo mais abaixo), e a matéria foi reproduzida no portal português O Jogo, que inverteu o número de caipirinhas e long necks:

"Vi Jesus Cristo depois de beber 18 caipirinhas e 14 cervejas"

Uma viagem ao inferno do lateral brasileiro que na Europa chegou a representar Real Madrid e Roma

Cicinho foi entrevistado pela estação de televisão ESPN Brasil e acabou a revelar os graves problemas que teve com o álcool. Nesta entrevista o atual jogador do Sivaspor, da Turquia, explica que o alcoolismo foi o refúgio que encontrou quando tudo o resto lhe corria mal. "Quanto pior as coisas estavam, mais bebia. Não era capaz de beber um copo ou dois, tinha de beber até cair".

Na parte da entrevista que a ESPN já revelou, o futebolista brasileiro, de 36 anos, conta um episódio em particular. "Vi Jesus Cristo depois de beber 18 caipirinhas e 14 cervejas".




segunda-feira, 11 de julho de 2016

A mulher do caseiro da mesquita de SP é evangélica


A matéria foi publicada no Estadão:

O caseiro da mesquita: uma história de tolerância religiosa

Nascido em Alagoas, filho de mãe católica e casado com uma evangélica, ele se converteu ao Islã e foi à cidade de Meca

GILBERTO ALMENDOLA

“Lá vem o homem-bomba”. Não é difícil que Cícero Soares da Cruz, 68 anos, ouça esse tipo de comentário quando vai estacionar o carro da mesquita em algum ponto da cidade. Normalmente, ele finge que não ouve e segue em paz com as obrigações do seu ofício e religião.

Há 17 anos, Cícero trabalha como caseiro da Mesquita Brasil, a maior da América Latina, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo. Como tal, transformou-se no faz-tudo do lugar. Ele é o responsável pelas compras do mês, por pequenos consertos elétricos, pela equalização do som durante as cerimônias religiosas e por resolver todo e qualquer imprevisto ao longo do dia. Desde 2008, Cícero converteu-se ao islamismo e, no ano passado, realizou o sonho de fazer a peregrinação à cidade de Meca, na Arábia Saudita – dando, assim, as sete voltas ao redor da Grande Mesquita.

Mas antes de Cícero cumprir sua obrigação como muçulmano, vamos encontrá-lo ainda criança, na pequena cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas. O pai era um homem da roça, trabalhador braçal, sem tempo para “gastar” com religião. A mãe também era da lida, feirante, mas temente a Deus e Católica. Foi da mãe que Cícero herdou sua primeira religião.

Na adolescência, Cícero foi achando que Palmeira dos Índios ia ficando cada vez mais árida. O irmão mais velho já estava em São Paulo e havia passado da hora de tomar o mesmo ônibus em direção ao futuro. Ao desembarcar na velha rodoviária, no final dos anos 60, tomou um susto com o tamanho da cidade – mas também sentiu o prazer de estar solto no mundo.

Cícero foi morar com o irmão que já estava estabelecido por aqui. Por influência dele, começou a trabalhar como metalúrgico e frequentar a Igreja Presbiteriana. Foi do irmão que herdou, portanto, sua segunda religião.

Para conseguir uma melhor condição de sobrevivência em São Paulo, matriculou-se em um curso supletivo (na época, sabia apenas escrever o próprio nome). Nas aulas, aprendendo o básico do português, conheceu Filomena, a Filó – que também fazia o mesmo curso supletivo. Os dois se apaixonaram e não esperaram tempo demais para juntarem os trapos. Como casal, frequentaram a Congregação Cristã do Brasil e abriram uma pequena loja de roupas.

Quando tudo parecia bem encaminhado na vida de Cícero e Filó, a loja de roupas foi invadida e todas as peças foram levadas. O prejuízo foi enorme. Todas as economias do casal estavam naquele comércio. Cícero sentiu o baque de morar em uma cidade grande e insegura: estava quebrado.

A luz veio de um irmão de fé da Filó, um frequentador da Congregação Cristã. “Parece que na mesquita estão contratando, estão precisando de cozinheira”, disse o colega. Mesmo sem saber direito o que era uma mesquita, o que era um muçulmano ou o Islã, Filó foi ver se ali havia uma oportunidade. Cozinheira talentosa, não demorou para conquistar a vaga na cozinha da mesquita. A vida financeira do casal estava salva.

Enquanto a mulher trabalhava como cozinheira, Cícero defendia um troco como manobrista no centro. Mas um dia Filó chegou em casa dizendo que tinha uma vaga no trabalho dela, uma vaga de caseiro, uma vaga boa porque além do salário ainda trazia a possibilidade de o casal morar no próprio trabalho. Ou seja, na mesquita.

Cícero foi conversar, não sabia nada do islamismo, teve receio de não se acostumar. Afinal, ainda era evangélico. “Mas minha mulher também era e estava muito feliz no trabalho. Então, tentei a sorte e me apresentei para o trabalho.”

No começo, além das funções corriqueiras de caseiro, Cícero começou a prestar atenção nas cerimônias, nas palavras do sheik e nas festas de encerramento do Ramadan. “Me senti tocado por Alá. Me senti pertencendo àqueles rituais e entendendo o que aquilo queria dizer”, conta.

Em 20z08, começou a jejuar durante o período do Ramadan. “Os frequentadores da mesquita admiraram minha atitude, me apoiaram. Como eu não estava acostumado, tinha muita fraqueza durante o dia, mas Alá me tocou, me manteve firme.” Filó acompanhou o jejum do marido de perto, tentando demovê-lo da ideia no início, mas depois respeitando a opção dele. “Filó continua evangélica. Não tem problema nenhum nisso. Somos a prova de que não existe isso de conflitos entre religiões na nossa vida”, fala Cícero. Depois do jejum, o próximo passo era realizar aquilo que todo muçulmano precisa fazer pelo menos uma vez na vida: ir a Meca.

Puro sonho, Cícero que nunca havia embarcado em um avião, que nunca havia saído do País e que era um recém-convertido, não tinha nenhuma perspectiva de fazer a peregrinação. Mas...

A direção da mesquita reconheceu em seu caseiro a vontade e a dedicação de vivenciar o islamismo, reconheceu que ali estava um homem realmente tocado pela palavra de Alá. Em 2015, Cícero ganhou uma passagem para a Arábia Saudita e, com um grupo de muçulmanos, foi para Meca. “Me disseram que o único risco do avião era a decolagem e o pouso”.

As elevadas temperaturas da Arábia Saudita fizeram com que Cícero tivesse febre nos primeiros dias. Apesar da provação, ele seguiu em peregrinação. Naquele ano, a aglomeração (3 milhões de muçulmanos) terminou em confusão e mais de 700 pessoas morreram pisoteadas. Em São Paulo, Filó acompanhou tudo pela televisão e chegou a pensar no pior. “Eu não estava próximo de onde aconteceu a tragédia. Minha peregrinação foi dura, mas realizada em paz”, comenta Cícero.

Assim, quando ouve alguém chamá-lo de homem-bomba, Cícero lamenta a ignorância e a intolerância. “Se alguém faz alguma coisa errada, se alguém mata ou se explode, não está fazendo isso em nome de Alá ou do Islã. Nossa religião não tem nada a ver com essas atrocidades”, fala. Ao ouvir esse tipo de acusação sem sentido, Cícero finge que não entendeu e segue seu caminho em paz.



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os brasileiros que se convertem ao Islã


Excelente matéria publicada na BBC Brasil:

Quem são os brasileiros que se convertem ao islã?

Camilla Costa

Na última sexta-feira, a paulistana Jamile Carneiro, de 28 anos, decidiu ir pela primeira vez à mesquita do Pari, motivada pela curiosidade sobre o islamismo. "Meu namorado é de Bangladesh e é muçulmano. Ele nunca falou nada sobre a religião, dizia que eu não ia entender. Mas eu falei que eu viria aqui pra entender", disse à BBC Brasil.

Durante a pregação, uma mulher a repreendeu duas vezes. Uma delas, porque ela deveria vestir uma saia por cima de suas calças jeans. Outra, porque a garota se aproximou do parapeito que separava o piso inferior da mesquita – destinado aos homens – do mezanino, onde ficam as mulheres. "Ela me disse que eu não podia olhar para os homens, mas eu só queria ver como é a oração. Não gostei muito. A primeira impressão não foi boa", afirmou, envergonhada.

Em seguida, no entanto, uma senhora de origem libanesa aproximou-se da novata, tranquilizou-a e a conduziu pelo ritual da oração. "A mulher que falou com você é uma brasileira convertida. Os brasileiros são muito fervorosos", disse.

Segundo o sheik Rodrigo Rodrigues, que conduz as orações na mesquita no centro da capital paulista, as conversões de brasileiros ao islamismo têm se tornado mais frequentes. "Acho que todo sábado duas ou três pessoas se convertem aqui. Nós não registramos, porque acreditamos que a conversão é pessoal e espontânea", disse à BBC Brasil.

O Censo 2010 do IBGE fala em cerca de 30 mil praticantes da religião no país, mas a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras) estima que o número tenha saltado de 600 mil em 2010 para entre 800 mil e 1,2 milhão de fiéis em 2015.

A maior parte dos brasileiros, segundo Rodrigues, busca informações a partir de relatos da imprensa sobre conflitos envolvendo países de maioria muçulmana. "Elas querem saber o que é o islã, quem era Bin Laden, o que é Charlie Hebdo (revista francesa que, em janeiro, teve vários funcionários assassinados em ataque extremista). E quando leem algo sobre o islamismo e escutam os muçulmanos, pensam 'pô, não é nada disso que eu imaginava. E acabam se convertendo'", afirma.

Com a chegada de mais imigrantes de origem muçulmana ao país nos últimos anos, vindos de países como Síria, Líbano, Nigéria e Gana, romances com estrangeiros também atraem brasileiras curiosas, como Jamile, aos centros islâmicos.

Na mesma sexta-feira, a mineira Sonia Aparecida de Oliveira, de 54 anos, também acompanhava a oração pela primeira vez, no dia se seu casamento com o sírio Jassi Mohammad, que chegou no país há três meses. "Nós nos conhecemos pela internet há cinco anos e começamos a namorar. Recentemente, por causa da guerra, ele decidiu vir para o Brasil. Só acreditei quando ele me mostrou a passagem e o passaporte", disse à BBC Brasil.

Apesar de "ter perdido um pouco a fé" por causa do trauma vivido em seu país, segundo Sonia, Jamil quis um casamento religioso – muçulmanos podem casar-se com mulheres que não pertencem à religião. A cerimônia é simples e curta. Sonia diz que não pretende se converter, mas é só elogios à fé do marido. "Eles são tão humanos, né. Tivemos um tratamento maravilhoso aqui, eu não esperava."

Download do Alcorão

Há cerca de três anos, o estudante de ciências contábeis Antonio Ali, de 29 anos, chegou à religião pela internet, tentando entender o conflito entre Israel e Palestina. "Comecei a pesquisar os problemas políticos daquela região e, como também estava estudando inglês, comecei a conversar com pessoas de lá, do Golfo, do Marrocos, do Paquistão, da Argélia", disse à BBC Brasil.

"Eles eram o contrário daquilo que eu esperava. Eu achava que seriam extremistas e radicais, mas eram pessoas extremamente simpáticas e muito educadas. E o que todas elas tinham em comum era a religião, mesmo sendo de regiões muito diferentes. Elas tinham a preocupação de fazer algo correto."

"Comecei a pesquisar, entrar em sites, fiz o download do Alcorão. Foi assim que eu me converti, há um ano e meio."

Foi também pelo computador que ele descobriu a comunidade islâmica em São Paulo – a maior do país. "Eu não tinha ideia como era o islã no Brasil. Mas nós, muçulmanos, temos obrigações, como fazer a oração de sexta-feira na mesquita. Aí procurei na internet e encontrei a mesquita do Brás. Depois fui conhecendo outras."

Em sua busca por informação, Ali também diz ter tido contato com discursos extremistas, como o do grupo autodenominado "Estado Islâmico", online. "Vemos porque eles colocam lá pra todo mundo ver, né."

"Não posso falar por todos (os muçulmanos), mas a maioria que eu conheço não aprova os atos deles porque eles são radicais e não seguem o Alcorão. Não tenho como aprovar um grupo que está distorcendo aquilo que foi ensinado. Existem coisas que eles fazem que seguem o Alcorão? Existem. Mas eles só seguem o que é interessante para eles."

'Aqui é o meu lugar'

A família da paulistana Carla Taky Eldim, de 38 anos, teve uma reação "péssima" ao ser informada sobre a vontade dela de se converter ao islã, 15 anos atrás.

"Meus pais e meus irmãos são muito católicos, não acreditavam que o islã era uma religião. Quando eles souberam que o islã prega que Jesus era um profeta, e não o filho de Deus, piorou a situação", disse à BBC Brasil.

Carla converteu-se meses antes de se casar com o sheik egípcio Khaled Taky Eldim, radicado no Brasil."Eu trabalhava em uma clínica dentária, ele foi fazer o tratamento e me conheceu. Em uma semana ele me mandou flores, na outra semana ele me pediu em casamento. Eu não aceitei, fiquei relutante. Mas ele me chamou a atenção pela educação e pela tranquilidade."

Três meses – e mais dois pedidos de casamento – depois, eles venceram a resistência da família. "Nesse tempo ele foi me apresentando o islã, me deu livros, me passou o endereço de uma mesquita. Fui lá, gostei muito do que eu ouvi. Pensei: 'aqui é o meu lugar'", relembra.

Assim como Jamile Carneiro, orientada por uma senhora muçulmana na mesquita do Pari, Carla Eldim diz que uma mulher mais velha que conheceu em sua primeira visita foi essencial no seu processo de conversão. "Ela me apresentou a mesquita de uma maneira tão maravilhosa. Me chamou para rezar, me ensinou a fazer a ablução (ritual de purificação antes das orações). Eu não esqueço disso até hoje."

Uma semana após dizer que sua primeira impressão da religião "não foi boa" por ter sido repreendida, Jamile diz que pretende voltar a acompanhar as orações, desta vez com o namorado bengali.

"Dia 23 vai ter uma festa na mesquita e, se a gente não for trabalhar, vamos juntos. Ele falou para eu não ir de calça e não usar roupa muito moderna. Usar roupas mais simples, sem muitos detalhes."

"Percebi que eles falam muito sobre o que acontece no mundo lá fora, a perseguição aos muçulmanos. Nas igrejas católicas fala-se muito de salvação da alma e essas coisas, mas eles não usam essas palavras. Eu achei diferente. Mas quero voltar, saber mais sobre a cultura deles e sobre o Alcorão", afirma.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Quando o filho de um oficial nazista se converte ao judaísmo


No próximo domingo se comemora o Dia dos Pais no Brasil, e a história contada abaixo - lamentavelmente - não é festiva, pois fala da relação conturbada entre pai e filho, marcada pelas trevas do nazismo e do holocausto.

Entretanto, vale a pena ler o artigo até o final, quando Bernd Wollschlaeger fala sobre as sombras da história projetadas na morte. Um relato pesado, pungente, humano, demasiadamente humano...

A matéria - brilhante - foi publicada na Folha de S. Paulo:

Filho de oficial nazista rompe com família e se converte ao judaísmo

DEPOIMENTO A
LEDA BALBINO

O médico Bernd Wollschlaeger, 57, rompeu com a família após descobrir o papel que seu pai Arthur Wollschlaeger, um comandante de tanque condecorado pelo ditador nazista Adolf Hitler, teve na Segunda Guerra (1939-1945).

Após converter-se ao judaísmo, Wollschlaeger mudou-se em 1987 para Israel, onde adquiriu a cidadania israelense e serviu por dois anos no Exército como oficial médico. Um dos protagonistas do documentário "Fantasmas do Terceiro Reich", da brasileira Claudia Sobral, Wollschlaeger vive desde 1991 na Flórida, nos EUA.

Nasci em 1958 em Bamberg, no sul da Alemanha, onde aprendi muito cedo a importância da história por estar cercado por ela. Perguntava aos meus pais sobre seu passado, sobre meus avós, mas só se limitavam a dizer que houve uma guerra.

Mas gradualmente comecei a colher duas versões diferentes. Da minha mãe, uma tcheca de etnia alemã, ouvia sobre o horror de ter sido desalojada de casa, de ter perdido tudo que lhe era caro.

Do meu pai, ouvi as histórias de glória. Comandante de tanque, ele participou dos ataques à Polônia em 1939, à França em 1940 e à União Soviética em 1941.

Um dia me mostrou a condecoração que recebeu de Hitler: a Cruz de Ferro. Assim, quando tinha 6, 7, 8 anos, meu pai era um herói de guerra e eu devia ter orgulho dele.

As dúvidas surgiram entre meus 8 e 9 anos, porque havia algo curioso na nossa residência em Bamberg.

Vivíamos de aluguel no primeiro andar de uma construção antiga. A proprietária, uma condessa com quem minha mãe me proibia de falar, morava no andar de cima.

Na parede ao lado da escada que levava ao seu apartamento, ficava o retrato de um militar também usando o quepe, a Cruz de Ferro. Meu pai referia-se a ele como "o traidor", e eu não entendia por que alguém que parecia com ele poderia ser ruim.

Até que descobri que o retratado era Claus von Stauffenberg, o coronel alemão que liderou a tentativa de assassinato contra Hitler em 20 de julho de 1944.

E foi com sua viúva, Nina Stauffenberg, que aprendi mais tarde que houve uma Alemanha de ditadura e que houve pessoas que lutaram contra o sistema.

Quando tinha 14 anos, nos ensinaram na escola que a Olimpíada de Munique, em 1972, demonstraria ao mundo uma nova Alemanha, e não a de 1936, quando Hitler usou os Jogos como propaganda nazista.

Meus pais convidaram amigos para assistir à abertura. E, quando a equipe que trazia a estrela de davi na bandeira entrou no estádio, toda o clima mudou. Meus pais pararam de falar, como se tivesse aparecido um fantasma.

Dez dias depois, essa equipe foi feita refém por terroristas palestinos. E então o curso da minha vida mudou no dia seguinte ao fracasso do resgate, quando li nos jornais a manchete "Judeus mortos novamente na Alemanha".

Na escola, tiveram de nos explicar sobre Auschwitz, a solução final, a morte de judeus como política de Estado.

Apesar de meu pai ser um cara muito durão, com quem era difícil falar por controlar a situação, confrontei-o: "Pai, o que sabe sobre o Holocausto?" Ele respondeu que isso era uma mentira, que tudo era propaganda comunista.

No curso de vários anos, o abordei para tentar extrair a verdade. E, aos poucos, me disse. Aos poucos, ela apareceu.

Em janeiro deste ano, um especialista militar me entregou uma mala do mecânico do tanque de meu pai. Ela estava cheia de rolos rasgados da Torá.

Os parentes dele relataram que, na invasão da Polônia e da Rússia, os membros do regimento do meu pai destruíram vilas judaicas, mataram todos e saquearam. E usaram os rolos da Torá para envolver os motores dos veículos e evitar que perdessem calor no inverno. Então, meu pai não apenas soube do Holocausto: ele participou dele.

Quando eu tinha 17, 18 anos, ele defendeu o Holocausto dizendo: "Foi necessário, porque alguém tinha de se livrar da sujeira".

Durante todo esse processo, quanto menos meu pai estava interessado em falar sobre o assunto, mas me interessei em aprender sobre o judaísmo. E, quanto mais me aproximei dessa família de escolha, mais me distanciei da minha de origem.

MUDANÇA ESPIRITUAL

Entre os 19 até os 26, 27 anos, passei por uma mudança espiritual. Converti-me e me tornei judeu ainda na Alemanha, e isso foi um total rompimento com minha família. Tive de partir e imigrei para Israel em 1987.

Deixei minha nacionalidade alemã para trás, me tornei israelense, deixei minha fé cristã para me tornar judeu, servi no Exército israelense. Me desconectei totalmente do meu antigo eu para manter a sanidade.

Minha jornada foi resolver meu próprio conflito, me reconciliar comigo mesmo, entender como posso ser alemão, ser filho de um pai que fez isso? E como ser eu mesmo, normal? Foi uma redenção pessoal.

Comecei essa jornada me sentindo culpado. No fim, me tornei um judeu por convicção. Não posso limpar o passado de meu pai ou desfazer o que aconteceu. Hoje não me sinto mais culpado, mas sinto que, como filho dele, sou responsável. Que tenho de carregar essa vergonha. Mas na minha vida fiz e faço tudo o que posso para contribuir para essa redenção.

Meu pai nunca foi capaz de sentir remorso. Antes de morrer, incluiu no seu último testamento que eu nunca deveria visitar sua sepultura, não deveria comparecer a seu funeral, me deserdou.

Obviamente, não fui ao seu enterro. Estava em Israel quando morreu. Mas visitei seu túmulo 20 anos depois, com meu filho.

A parte irônica é que o túmulo conjunto dos meus pais fica exatamente do lado do muro que separa o cemitério cristão, de Bamberg, do cemitério judaico. Quando você olha a partir do túmulo dos meus pais em direção a esse muro, vê do outro lado as lápides judaicas.

Olhando para aquilo, disse ao meu filho: "Essa é lição que posso te ensinar: a história sempre projetará sua sombra, mesmo na morte. Por isso é melhor lidar com ela estando vivo, saindo da sombra e aprendendo suas lições".

Meu pai nunca fez isso. Literalmente, ele repousa sob a sombra da história por toda a eternidade.



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Islamismo no Brasil: uma fé crescente

Matéria publicada no IHU:

A fé que se move. Adesão de fiéis brasileiros ao islamismo é crescente

Fayad e Beatriz são muito semelhantes a outros jovens brasileiros urbanos. Ele é mineiro e trabalha com marketing. Ela se formou em arquitetura nos Estados Unidos e nasceu em Brasília. Encontraram-se em São Paulo, e depois do casamento foram morar em Santa Cecília, um bairro tradicional do centro. Como qualquer casal, eles vão ao supermercado, pagam suas contas, visitam a família. Às vezes, pegam a estrada e seguem para a praia. Adquiriram um hábito tipicamente paulistano, como também são seus times - ele é corintiano, ela torce para o São Paulo.

A reportagem é de João Luiz Rosa, publicada pelo jornal Valor, 06-02-2015.

Frequentemente, porém, eles são confundidos com estrangeiros e, em algumas situações, provocam perplexidade nas outras pessoas. Há pouco tempo, um feirante levou um susto ao descobrir que Beatriz falava português, depois de tentar se comunicar com ela por gestos. Em um shopping, Fayad se viu cercado por seguranças, indecisos sobre como reagir ao que ele estava fazendo. O que eles têm de diferente? São muçulmanos. No episódio da feira, ela usava o hijab, como é conhecido o lenço adotado pelas mulheres para cobrir a cabeça. Ele repetia uma das cinco orações que todo muçulmano deve fazer diariamente, inclinado para a cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita.

Episódios como esses não são incomuns para os adeptos do Islã no Brasil, onde os preceitos da religião são pouco conhecidos. No país, não se sabe sequer o tamanho exato desse rebanho. Os números são díspares. Segundo dados do IBGE, baseados no censo de 2010, existem 35.167 muçulmanos no país. As organizações islâmicas, no entanto, calculam um número muito maior, entre 800 mil e 1,2 milhão de pessoas.

Independentemente do critério adotado, o islamismo cresce no Brasil. E rapidamente. De acordo com o IBGE, a comunidade muçulmana aumentou 29,1% entre 2000, quando 27.239 pessoas se declaravam seguidoras da religião, e 2010. No mesmo período, a população em geral aumentou 12,3%.

Na Mesquita Brasil, a mais antiga da América Latina, esse movimento é patente. Às sextas-feiras - considerado o dia das orações, algo como o domingo cristão ou o sábado judaico - 600 pessoas cumprem os ritos semanalmente. Idealizado pelo arquiteto Paulo Camasmie, o mesmo da Catedral Ortodoxa de São Paulo, o edifício no bairro do Cambuci começou a ser construído na década de 20. O minarete branco pode ser visto de longe. Dentro, sob arcos e abóbadas adornados de arabescos dourados, os fiéis ficam em pé, ajoelham-se, inclinam-se com a cabeça à frente do corpo. O tapete indica a direção de Meca, a mesma posição do altar. Entre os homens, que são maioria, há muitos jovens, alguns adolescentes, poucas crianças. Quase todos usam roupas comuns - jeans e camisa ou camiseta. Alguns trazem na cabeça o taqyah, um boné que lembra o quipá dos judeus. Mas aqui e ali se veem homens com roupas étnicas, principalmente negros africanos. As mulheres entram por outra porta e sentam-se atrás. Todas usam o hijab e saias longas.

Existem 17 mesquitas na região metropolitana de São Paulo. Só a Mesquita Brasil tem recebido, em média, de três a cinco convertidos por semana. Já foram 20 neste ano. "São brasileiros e não vêm de famílias árabes", diz o xeque Abdelhamid Metwally, principal autoridade religiosa da Mesquita Brasil. De voz forte, o religioso egípcio impressiona ao entrar na mesquita, trajando um chapéu alto e longa túnica negra, arrematada por um colarinho branco. "É só uma roupa para que saibam quem é o xeque", brinca. "O importante é a parte interna ser melhor que a externa".

Os muçulmanos preferem falar em "reversão", em vez de "conversão". É um traço distintivo do islamismo. A palavra Islã traz a ideia de que a submissão a Deus é a verdadeira fonte de paz. Segundo esse conceito, todas as pessoas nascem sob o Islã, ou seja, são muçulmanas. A partir da puberdade, deixam esse estado e tornam-se pecadoras. A transição ocorre entre 9 e 15 anos e é marcada pela primeira ejaculação para os meninos ou a primeira menstruação para as meninas. A partir daí, elas devem usar o véu. Depois disso, quem segue os preceitos do islamismo volta à situação original de paz. É por isso que "reverte", em vez de se converter, explica o libanês Feres Fares, intérprete na Mesquita Brasil, onde traduz para o português as prédicas feitas em árabe.

O recente ataque ao jornal francês "Charlie Hebdo" não teve repercussões profundas na maneira como a comunidade islâmica é tratada no Brasil, avaliam porta-vozes da religião. A posição praticamente unânime é que o país é um exemplo de convivência pacífica. A pichação do muro da Mesquita Brasil com a frase "Je suis Charlie" foi apagada logo no dia seguinte e considerada um episódio isolado. Há poucos relatos de reações mais agressivas no país, como o de uma garota muçulmana que teria sido alvo de uma pedrada na rua.

Apesar disso, os líderes da religião não escondem sua preocupação com a repercussão negativa que os assassinatos em Paris acarretam para a religião, inclusive no Brasil. "O islamismo tem 1,8 bilhão de adeptos no mundo e ações como essa são praticadas por uma minoria. Não podemos reduzir o Islã a uma quantidade marginal de muçulmanos. Essa é uma falácia", diz o professor Ali Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil. Com sede em São Paulo, a organização congrega 45 das 98 entidades islâmicas do país.

Os líderes muçulmanos condenam com veemência a ação em Paris, mas criticam a republicação das charges pelo "Charlie Hebdo". "O governo francês deveria estabelecer uma legislação que coibisse ofensas a ícones religiosos capazes de gerar violência", afirma Zoghbi. "O laicismo deveria preservar o direito de uma minoria de não ser ofendida."

O episódio do "Charlie Hebdo" reacendeu a discussão sobre um suposto choque de civilizações, que colocaria as sociedades ocidentais e o Islã em trincheiras opostas. A tese mistura religião e etnia em um pacote xenofóbico, para dificultar a entrada ou permanência de imigrantes pobres em países da Europa, e vem ganhado força entre grupos ideológicos de ultradireita. Mesmo entre o público em geral, porém, a imagem do Islã tem sido seriamente prejudicada por sucessivas ações de radicais religiosos ou governos de países de maioria muçulmana.

Para o espectador médio, pouco atento a nuances ideológicas, a imagem chocante do piloto jordaniano Muath al-Kasaesbeh, queimado vivo pelo Estado Islâmico, estabelece uma conexão instantânea entre a crueldade e a religião dos algozes, mesmo que a vítima, neste caso, tenha sido outro muçulmano. O vídeo, divulgado dias atrás na internet, causou comoção global. Também não ajudam notícias recentes como a pena recebida pelo blogueiro saudita Raif Badawi. Acusado de criticar clérigos da Arábia Saudita e insultar o Islã, ele foi condenado a uma multa, dez anos de prisão e mil chibatadas. A segunda sessão - estão previstas 20, ao todo - foi adiada porque as feridas da primeira ainda não haviam sido curadas. Organizações de direitos humanos de várias partes protestam contra a pena.

No centro desse debate está a sharia, o conjunto de fundamentos e normas que constituiriam o sistema jurídico fundado nos preceitos do Islã. "Em vários países islâmicos, o Estado pretende ou inspirar-se no Islã para criar suas normas jurídicas ou considerar que o seu direito é a própria sharia", diz Salem H. Nasser, professor de direito da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. "Disso resulta que países diferentes dão interpretações diferentes para o que deveria ser o conteúdo da sharia e de sua adaptação ao mundo atual."

Um desafio central, afirma Nasser, será encontrar uma resposta à necessidade de reinterpretar as fontes originais para obter regras mais apropriadas aos tempos atuais. "Em parte, esse é o problema em relação a punições como o açoitamento ou o apedrejamento", diz o professor, especialista em direito islâmico.

Por enquanto, boa parte da ação das organizações orientadas a divulgar o Islã no Brasil tem sido voltada a explicar conceitos básicos, na tentativa de desvincular o islamismo de uma imagem de intolerância ou beligerância em relação a outras religiões. Em parte, a ideia é explorar pontos comuns com outras correntes monoteístas. Por exemplo, a fé em Jesus, professada pelos muçulmanos, mas sob uma concepção muito diferente do cristianismo. Para o Islã, Jesus faz parte de uma longa sucessão de profetas enviados por Deus, como Noé e Abraão, mas não compartilha da natureza divina, como acreditam majoritariamente os cristãos.

A ideia da Trindade, central para o cristianismo, é estranha ao Islã. A crença islâmica é que Jesus não chegou a ser pregado na cruz. Antes de ser preso, teve seu rosto trocado pelo do traidor Judas Iscariotes, que foi crucificado em seu lugar. Depois disso, subiu ao céu. Seu retorno é esperado para antes do fim do mundo. Jesus voltaria com 33 anos, para morrer com 60 a 70 anos de idade.

Os meios de comunicação de massa, muito usados por católicos e evangélicos, ainda estão distantes da esfera islâmica no país, mais isso pode estar prestes a mudar. Na Mesquita Brasil, como ocorre em outras comunidades, está em andamento um projeto piloto para ampliar a difusão da fé islâmica, com a criação de unidades capazes de promover cursos, providenciar livros e oferecer espaço para orações. "Temos planos de criar revistas, TV etc., mas tudo a seu tempo", diz Nasser Fares, presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana, que administra a Mesquita Brasil. A mesquita é sustentada por doações da comunidade. Os muçulmanos são estimulados a contribuir com o zakat, o equivalente a 2,5% dos rendimentos líquidos, que são destinados a ajudar os necessitados.

É difícil antever qual será o impacto de iniciativas desse tipo na atração de brasileiros. Estudos acadêmicos mostram que a reversão é maior entre 20 e 40 anos de idade, com uma concentração nas faixas etárias mais novas. A pergunta é: por que uma religião identificada pela maioria como uma fé de códigos rígidos - apesar de a posição dos adeptos ser diferente - estaria atraindo pessoas recém-saídas da adolescência?

O fenômeno requer um estudo mais aprofundado, diz a antropóloga Lídice Meyer Pinto Ribeiro, e se estenderia a outras religiões, caso dos hare krishnas, que também experimentam um interesse renovado, apesar de se pautarem por códigos conservadores, como o celibato até o casamento. "Uma hipótese é que os jovens estejam vivendo uma crise de valores éticos e, por isso, passaram a buscar nessas religiões padrões que, para eles, as gerações anteriores falharam em transmitir", afirma a professora de ciências da religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Outro fator intrigante é que as mulheres seriam maioria entre os revertidos, em contraste com outra percepção muito difundida - e da qual os muçulmanos também discordam - de que o sexo feminino é relegado pelo Islã a uma posição secundária em relação aos homens. Uma das teorias é que as brasileiras estariam encontrando nas mesquitas um espaço para conhecer potenciais maridos, mas em seus estudos, até agora, a professora Lídice diz não ter identificado fundamentos fortes que justificassem essa ideia.

Os brasileiros não são os únicos a fortalecer as fileiras da fé islâmica no país. O Brasil também tem recebido uma grande quantidade de pessoas que já professavam a religião em seus países de origem, mas tiveram de fugir por causa de conflitos. Um levantamento publicado em novembro pela Agência das Nações Unidas para Refugiados mostra que 1.524 refugiados sírios chegaram ao país de janeiro de 2010 a outubro de 2014, tornando-se o maior grupo a buscar asilo político aqui. Intitulada "Novo Perfil do Refúgio no Brasil", a pesquisa revela que o fluxo de sírios, que começou em 2012 com 37 reconhecimentos oficiais, multiplicou-se por sete no ano seguinte, para 284 casos, e somou 1.183 pedidos aceitos até outubro do ano passado.

As mesquitas e organizações islâmicas têm se organizado para receber os refugiados e providenciar alimentos, roupas e moradia, além de preparar cursos de português e tentar encontrar empregos. O sentimento geral da comunidade, no entanto, é de insatisfação com as autoridades. "O governo brasileiro deveria dar o visto, mas também proporcionar condições para que essas pessoas venham morar no país, e isso não só para os sírios", diz Nasser, da Sociedade Beneficente Muçulmana. Uma saída seria estabelecer convênios com as organizações religiosas, para ajudá-las a estabelecer a infraestrutura necessária. "Mas não temos um canal de comunicação com o governo [para fazer isso]. Não sabemos a quem procurar", afirma Nasser.

Embora pareça um fenômeno recente, o Islã chegou ao Brasil há muito tempo, com escravos africanos trazidos do Sudão central, região que atualmente corresponde ao norte da Nigéria. Adeptos do Islã, esses negros sabiam ler e escrever em árabe e, por isso, foram usados em atividades de controle das fazendas, conta a professora Lídice, do Mackenzie. Eram os malês, uma forma pejorativa que vem do iorubá e significa "renegado, que adotou o islamismo". Eles eram chamados assim por escravos adeptos das religiões animistas. Instruídos, não tardou para que os malês se tornassem líderes de rebeliões. O ápice foi a Revolta dos Malês, que pretendia estabelecer um califado muçulmano na Bahia. A reação portuguesa, no entanto, pôs fim à revolta. Parte dos líderes foi mandada de volta à África. Os demais se espalharam por diversos Estados. Começava aí um dos mais interessantes e pouco conhecidos capítulos do sincretismo religioso no Brasil.

Como os portugueses eram fortemente identificados com o catolicismo, muitos malês e seus descendentes buscaram outras religiões como parte do esforço de resistência à dominação. No Rio, uma parcela deles converteu-se ao protestantismo, ingressando em denominações históricas que se instalavam no país, como a Igreja Presbiteriana. Outra parte identificou-se com as religiões africanas, com influência posterior sobre o candomblé. Nesse processo, as pequenas bolsas que os escravos costumavam trazer ao pescoço com trechos do Alcorão - uma forma de guardar o livro sagrado - ganhou um caráter muito diferente nas religiões afro: o de amuleto de proteção, a mandinga.

Outros dois ciclos se sucederam. Um deles foi o das primeiras imigrações de muçulmanos, a partir da década de 10 do século passado, como sírios, turcos etc. O movimento estabeleceu essas comunidades no país e permitiu ações como a construção das primeiras mesquitas. O ciclo seguinte, a partir dos anos 80, foi o da reversão. É dessa fase, que prossegue até hoje, que depende qual será a face que o Islã assumirá no Brasil nas próximas décadas.

De um lado, parece haver uma adaptação da religião à sociedade brasileira. Existem muçulmanos em todas as classes sociais e regiões geográficas. No Sul, foi criada um grande comunidade, principalmente em torno de Foz do Iguaçu. Mas há indicações de que o crescimento pode vir principalmente de regiões periféricas dos grandes centros, como bairros afastados de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, ou em Francisco Morato, um município da Grande São Paulo. Nesses locais, grupos de jovens, fãs de hip hop, tem se juntado ao islamismo.

A tecnologia tem um papel importante nesse processo, mas funciona de maneira dúbia. Por um lado, é consenso entre as lideranças muçulmanas que a internet ajuda a matar a curiosidade em torno da religião e pode servir de entrada para uma experiência mais profunda. De outro, estudiosos observam que muitos jovens, hoje, se informam quase exclusivamente pelas redes sociais, nas quais opinião e informação se confundem, o que pode provocar ainda mais confusão e preconceito.

Para os revertidos, as maiores dificuldades são a aceitação da família e dos amigos, e encontrar as condições necessárias para cumprir ordenamentos não compartilhados pela maioria dos brasileiros.

Fayad e Beatriz não tiveram muitos problemas com suas famílias. Beatriz reverteu há 12 anos, quando morava nos Estados Unidos, depois de passar a conviver com um grupo muçulmano que frequentava a mesma universidade. Ela comunicou a decisão à família por carta. Recebeu aprovação. Posteriormente, houve questionamentos quando ela passou a usar o hijab, mas nada comprometedor. Fayad - que nasceu Edmar - também obteve uma reação tranquila, apesar da curiosidade da mãe, católica fervorosa.

Substituir o nome original por outro, árabe, não é obrigatório. Depende de cada um. Fayad prefere o novo nome, que significa "aquele que comunica". Nos empregos pelos quais passou desde a reversão, há cinco anos, ele sempre conversou com os superiores para explicar que precisava de cinco minutos, duas vezes por dia, para fazer as orações, cujos horários coincidiam com o expediente. O pedido nunca foi recusado. Os aplicativos ajudam a fazer tudo corretamente. Alguns programas avisam o horário das orações, que variam de acordo com a lua (no calendário muçulmano, estamos em 1436); outros mostram a direção de Meca.

Alimentar-se segundo a religião exige um certo esforço. Muçulmanos não podem comer carne de porco ou tomar bebidas alcoólicas. Isso é fácil de evitar. Mas as regras também incluem procedimentos na hora de matar o gado, para evitar que o animal sinta dor, e proíbe alimentos cujo processo de elaboração use o álcool, excetuando casos em que não sobrem resquícios no produto final. É o chamado alimento halal, semelhante ao kosher para os judeus. O Brasil é um grande exportador de carne halal, mas, com a demanda internacional, não sobra muito para o consumo interno. Para não incorrer em erros, na hora de comprar carne o casal observa o SIF - um código de identificação exibido na embalagem - para saber se a peça vem de um abatedouro halal. Ou, então, procuram um açougue especializado. Os preços variam, mas, dependendo do corte, uma peça halal pode custar até o dobro de uma similar comum.

As contas do casal também merecem atenção especial. Pelas regras do Islã, é proibido cobrar ou receber juros. Isso é um pecado grave. Os sistemas bancários de países majoritariamente muçulmanos estão adaptados ao preceito, mas em outros locais é preciso dar um jeito. A orientação é usar juro para pagar juro. Por exemplo, reservar os juros obtidos com os rendimentos de uma conta poupança para pagar os juros cobrados pela conta do condomínio eventualmente atrasada.

Na praia, os homens só devem mostrar as pernas até os joelhos e não podem expor a parte superior do corpo. O máximo permitido é uma camiseta regata. Para as mulheres, a recomendação é usar um traje com calça e blusa. O lenço ou véu, alvo de tantas discussões, não incomoda Beatriz. A indumentária ajuda a atrair a atenção nas ações de que o casal participa uma vez por mês em lugares movimentados de São Paulo, batizada de Street Dawah. É montada uma tenda, sob a qual eles tiram dúvidas das pessoas que passam pelas ruas.

Recentemente, na rua 25 de Março, um centro de comércio da cidade, um homem chamou Beatriz de "a mulher do Bin Laden". Fayad interferiu rapidamente e a situação foi contornada sem desdobramentos. Mas isso é uma exceção, eles dizem. Em geral, as pessoas são respeitosas, a despeito da curiosidade despertada, o que torna o véu uma espécie de confissão de fé. "[Com o lenço] as pessoas olham e me identificam. E isso eu quero para mim", afirma Beatriz.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A incrível história do rapaz gay ex-muçulmano, hoje cristão, que mudou seu nome para João Calvino


John Calvin, atual nome do rapaz da foto acima, tem origem palestina, nascido numa família muçulmana de sobrenome Bilal e ligada ao Hamas. 

Homossexual desde que se entende por gente (segundo ele diz), se converteu ao cristianismo em 2010, o que lhe causou ser ameaçado de morte pelo pai e expulso de casa.

Hoje John Calvin busca refúgio no Canadá, que lhe foi negado (por enquanto).

Essa incrível história de vida é real e foi publicada na Folha de S. Paulo de 07/01/2015:

Minha História: gay e cristão, jovem foge de família ligada ao Hamas

DEPOIMENTO A
DIOGO BERCITO
EM ROMA

RESUMO
John Calvin, 24, nasceu na cidade palestina de Nablus em uma família de líderes do Hamas. Gay e cristão convertido, enfrentou desde jovem a autoridade de seus pais. Em 2010, fugiu para o Canadá, onde adotou o nome do teólogo cristão João Calvino. Hoje, ele luta para não ser deportado –o que, segundo ele, significaria a sua morte.

Venho de uma família influente em Nablus (Cisjordânia). Meu avô, Said Bilal, foi um dos fundadores da Irmandade Muçulmana na Palestina e na Jordânia. Cresci chamando Abd al-Fattah Dukhan, um dos fundadores do Hamas, de "avô".

Todos os meus tios são parte da liderança do Hamas. Dois deles estão na prisão, sentenciados a mais de uma vida detidos. Meu pai não esteve tão envolvido quanto eles no terrorismo.

Crescer foi horrível. Minha família sempre tinha alguém na cadeia, fazendo coisas ruins. Não temos uma refeição de família com todos em liberdade desde 1992. Soldados entravam e saíam o tempo todo das nossas casas.

Havia uma vantagem, que era ser tratado de maneira especial devido ao sobrenome do meu avô. Sou o primogênito da família, e havia grandes expectativas sobre mim.

Estudei doutrina islâmica e acumulei bastante conhecimento sobre o Alcorão, o livro sagrado do islã. Mas, aos 14 anos, desenvolvi meu próprio sentido de lógica, e as coisas pareciam contraditórias. Questionei minha família e, aos 16, parei de ser muçulmano. Vivia num limbo.

Foi uma grande decepção para a minha família. Briguei com o meu pai por isso, em 2006, e fugi para Israel, onde ele não poderia me encontrar.

Eu não tinha permissão para cruzar a fronteira. Fiquei uma semana em Tel Aviv, nas ruas, até me pegarem.

Como já tinham me detido três vezes, me mantiveram por alguns meses, mesmo sendo menor de idade.

Fiquei alguns meses detido em uma prisão especial. Havia um outro jovem de Nablus, e ele me estuprou.

AJUDA


A coisa que me surpreendeu foi como fui tratado pelos funcionários israelenses após ser estuprado. Parecia que todo mundo se dedicava a me ajudar. Contrataram um psiquiatra, pago pelo contribuinte israelense. Eles mostraram compaixão.

"Judeus dedicam a vida toda a destruir muçulmanos", me ensinaram. Eu vi que isso não era verdade.

Em Nablus, ninguém me ajudava. Eu não tinha amigos. Os funcionários do serviço social de Israel me ligavam discretamente.

Tentaram falar com minha mãe sobre o estupro, mas ela não quis ouvi-los. Preferiu fingir que não sabia falar inglês com eles.

Me converti ao cristianismo em 2010. Eu já não me considerava muçulmano desde os 16 anos. Li a Bíblia e fez mais sentido do que tudo o que eu tinha conhecido durante toda a minha vida.

Minha mãe me ouviu ao telefone pedindo a um padre para ser batizado. Meu pai brigou comigo. Foi a primeira vez em que ele tentou me matar. Ele tentou me esfaquear. Fugi e passei um tempo na igreja.

Fui detido por apostasia [quando alguém renuncia a uma religião] –em Nablus, eles chamaram isso de "perturbar a ordem", em termos oficiais.

Quando fui solto, minha mãe me disse que meu pai planejava me matar. Ela pediu para eu sair do país. Tive duas horas para fugir.

Graças a Deus, não tive problemas na fronteira, apesar de meu nome estar numa lista de pessoas procuradas. Havia um erro de digitação no passaporte.

REFÚGIO


Era 2010. Fui à Jordânia e, depois, recebi uma bolsa de estudos no Canadá. Pedi asilo, mas o governo canadense diz que não posso entrar com o pedido, porque fui membro de uma organização terrorista [o Hamas].

Eu disse, por outro lado, que meu envolvimento com a minha família não pode ser considerado como participar de um grupo terrorista.

Agora no Ano-Novo, me avisaram que tenho até 30 dias para pedir a revisão dessa decisão.

Um amigo começou uma petição on-line e uma arrecadação de fundos para pagar os custos legais e advogado. Não quero ir para outro lugar. O Canadá é o meu lar.

Ser deportado não é uma opção. Isso não pode acontecer. Mas estou otimista. O melhor cenário é conseguir um segundo julgamento. Voltar a Nablus significaria a morte, para mim, por apostasia e porque eu sou gay.

Eu sempre soube que era homossexual, mas não aceitava. Tinha necessidades e interações sexuais, por volta dos 15 anos, mas não tinha namorados. Só comecei a aceitar em 2012, no Canadá.

Não é possível ser gay em Nablus. Isso não é nem discutido. Só usamos essa palavra em xingamentos.

Quando contei à minha mãe, por telefone, ela me disse: "Eu não esperava que você pudesse me dar um desgosto pior do que ter se convertido. Há alguma coisa de ruim que você não é?"



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Yusuf Islam (ex-Cat Stevens) volta ao Brasil

Com shows agendados para São Paulo (no Citibank Hall amanhã e depois) e Rio de Janeiro (quarta-feira, 20/11), Yusuf Islam está de volta ao Brasil.

Talvez você não o conheça por seu nome muçulmano, mas por aquele com que ficou conhecido nas décadas de 1960 e 1970: Cat Stevens.

A mudança de nome se deu em razão de sua conversão ao islamismo, conforme já tivemos oportunidade de contar aqui - em janeiro de 2012 - no artigo "De Cat Stevens a Yusuf Islam", onde demos também algumas amostras de sua genialidade musical (vá lá, vale a pena ler e rever).

O então cantor Cat Stevens morou no Rio de Janeiro por três meses em 1975, e na entrevista abaixo, concedida ao Estadão e publicada ontem, 14/11/13, ele fala da importância que a experiência carioca, cercada de tantos Josés ("Yusuf" é uma das transliterações árabes para o nome), teve na sua busca espiritual.

Confira:

Yusuf Islam, que já foi Cat Stevens, estreia no País após meio século de carreira

Artista conta que escolheu nome islâmico no Rio e denuncia controle na internet

Jotabê Medeiros

Desde ontem em São Paulo, o cantor e compositor britânico Yusuf Islam, de 65 anos, é um cavalheiro da música internacional que ajudou a moldar o universo da música folk nos anos 1960 e1970 – além de imprimir uma consciência ética ao gênero (o que o emparelhou com os grandes de seu tempo, como Bob Dylan, James Taylor, Joni Mitchell, Donovan e Joan Baez).

Só que, na época áurea, o nome que Islam usava era outro: Cat Stevens. Ele o mudou em 1978, após converter-se ao islamismo. Pela primeira vez no Brasil para tocar, ele falou ao Estado ontem, por telefone, de seu quarto no Hotel Fasano. Ele se apresenta no Credicard Hall (agora Citibank Hall), nestes sábado e domingo; e no Rio (Citibank Hall), na quarta, dia 20.

Islam falou do tempo em que viveu no Rio, em 1973, quase incógnito; de sua infância no West End londrino; da relação “hipócrita” que os governos das superpotências têm com a internet; e ainda deu detalhes do novo disco que acaba de gravar em Los Angeles, e que deve lançar no inverno do Hemisfério Norte.

O novíssimo disco de inéditas de Islam terá a participação do guitarrista Richard “Ritchie” Thompson, outro famoso músico britânico convertido ao islamismo nos anos 1970. Thompson vive em Los Angeles, local onde tornou famoso o duo Richard & Linda Thompson.

O cantor Yusuf Islam nasceu em Londres em 21 de julho de 1948, filho de pais imigrantes gregos e cipriotas, e foi batizado Steven Demetre Georgiu. Adotou o nome artístico de Cat Stevens em 1965, mas acabou por trocá-lo por Yusuf Islam em 4 de julho de 1978. “É interessante notar como, de acordo com o calendário lunar islâmico, eu nasci durante os dias da Lua cheia no 14º dia do ramadã, 1367”, anotou o músico certa vez.

Ele não usa mais o turbante e as roupas islâmicas. Parou porque chegou à conclusão que “toda forma de vestimenta cultural é parte da beleza do poder criativo que Deus dá aos seres humanos para se exercitarem”. Sua opção religiosa o colocou em controvérsias e problemas. Em 2004, Islam tinha embarcado em Londres no voo 919 da United Airlines com destino a Washington. Viajava com a filha e iria para Nashville quando o avião teve sua rota desviada e ele foi preso e deportado com base em argumentos de segurança nacional. Ficou indignado, mas hoje prefere não falar mais disso.

Os hits do ex-Cat Stevens, como Father and Son, Wild World, Morning has Broken, Two Fine People e Moonshadow, embalaram gerações. Ele também foi ao cinema e fez de seus temas recordações eternas quando, em 1971, fez as belíssimas músicas (e as interpretou) da trilha sonora do filme Ensina-me a Viver (Harold and Maude), de Hal Ashby.

Cuidadoso com as palavras, mas bastante bem-humorado, Yusuf Islam revelou que está para lançar um livro infantil, comentou sobre as comparações com Dylan no início de carreira e falou sobre todos os temas mais espinhosos - pediu apenas para que não fosse inquirido sobre a arbitrariedade de que foi vítima nos EUA em 2004: acha o episódio superado.

Soube que o sr. estava em Los Angeles gravando um disco novo, é verdade?

Sim, eu estava experimentando um pouquinho. O disco está atrasado porque, nos últimos dois anos, trabalhei no meu musical, Moonshadow. Agora já tenho algumas canções novas, que estou burilando. É um disco mais bluesy, numa direção mais blues. Planejo lançar no inverno de 2014. Não sei ainda o título, usualmente ele sai de uma canção que eu escolho. Tenho alguns convidados, mas basicamente são os músicos com quem trabalho e há um amigo meu, um guitarrista de folk e blues, Richard Thompson, que integrou o Fairport Convention.

Vi o sr. em uma entrevista para a TV contando como viveu no Rio de Janeiro nos anos 1970 e como foi na cidade que o sr. se aproximou da espiritualidade. Em geral, o Rio tem a imagem de ser o oposto da espiritualidade.

(Risos) É verdade, o Rio tem a fama de ser um lugar para o palco, para a exibição. Mas eu era um estranho na cidade, o que me permitia maior liberdade, e era espiritualmente desconectado com qualquer coisa, descompromissado, o que facilitou para minha busca. Vivia num flat muito próximo do Corcovado, o que também era uma visão. Eu tinha ganhado o Alcorão e estava lendo no Rio, e aquilo me afetou profundamente. Talvez pelo fato de estar com tanta disponibilidade espiritual. Foi o que aconteceu. E também era muito comum o nome José no Rio, e aquele era o capítulo do Alcorão que mais tinha me afetado. Então, quando eu me tornei muçulmano, escolhi o nome José, ou Yusuf.

Eu tinha ouvido que foi um quase afogamento em Malibu que o fez se tornar muçulmano.

Aquilo aconteceu antes do Rio. Muitos acontecimentos colaboraram para que eu mudasse meu condicionamento anterior. Uma vez, eu estava em Los Angeles e fui nadar e estava me afogando. Não conseguia voltar, estava morrendo. Eu chamei pelo Poder Superior. "Por favor, salve-me!". E fui salvo. Logo após, ganhei um Alcorão de meu irmão. Ele era uma espécie de turista espiritual, como eu. Vim para o Brasil. E você já tem o resto da história.

Sua famosa canção, 'Father & Son', foi originalmente escrita a respeito da Revolução Russa. Muitos observadores acham que vivemos um novo período de revoluções, com todas as manifestações pelo mundo, o movimento Occupy, as rebeliões em Paris. O sr. acha que vivemos um novo momento revolucionário?

Quando começou a Primavera Árabe, em 2011, eu fiquei muito tocado, foi de uma inspiração muito grande para mim. Foi por causa desses movimentos que eu compus a canção My People. Naquela letra, eu digo tudo que penso sobre isso tudo. É uma música dedicada a todos esses movimentos. Father & Son é baseada na revolução russa. A diferença para hoje é que, naquela época, era tudo mais claro, mais preto no branco, uma oposição entre o pensamento capitalista e o pensamento comunista. Hoje, há um grande borrão entre a realidade e a realidade virtual. É uma infeliz situação na qual as pessoas pensam que a mudança virá pela via virtual. Eu acredito que a mudança só virá quando as pessoas mudarem a si mesmas. Não acho que você pode mudar o mundo apenas pela via social. Nós somos parte espírito, e eles não podem controlar esse aspecto da existência. Algo no espírito humano se perdeu. Ou mudamos ou não haverá solução real. Pelo simples fato de que há uma grande injustiça se espalhando. Falam em uma grande liberdade pela internet, mas a internet vem sendo usada para controlar as pessoas. É tão hipócrita: falam na liberdade na internet como se fosse um bem santificado, sagrado, mas ao mesmo tempo oprimem quem os critica e dizem: "Cale a boca, porque senão vamos colocar você na cadeia!".

Quando o sr. se tornou muçulmano, disse que era para ter uma vida longe da corrupção, da competição e da dor. O sr. acha que tem tido sucesso nesses objetivos?

Não. Não vejo ninguém tão bem-sucedido no mundo ao ponto da perfeição. Acho que a perfeição pertence unicamente a Deus. Mas eu acredito que tentar, em vez de não tentar, é um ato de anticorrupção. Você tem de continuar toda manhã, é uma batalha que tem de ser travada continuamente. E isso é competição, você não pode parar de competir consigo mesmo. E às vezes você falha, não se pode ganhar sempre. Há uma história sobre quando o Profeta teve um cavalo que costumava ganhar sempre as corridas. Quando finalmente perdeu, ele se perguntou: "Por quê?". E concluiu que havia chegado a hora de o cavalo perder, e que não havia nada errado naquilo. É parte da existência humana. Temos de continuar tentando.

Com o musical Moonshadow, o sr. se arriscou em outra direção artística. Que tipo de modelos teve nessa nova aventura?

Sabe, eu nasci no West End, em Londres. Cinema, teatro, vida noturna: tudo acontecia ali. As pessoas vinham de toda parte do mundo para vivenciar aquelas atrações. Eu vivi ali e sempre fui confrontado com todos os ângulos da música, do cinema, dos musicais, do teatro, do entretenimento. Uma das minhas primeiras ambições, para ser honesto, não era ser um cantor pop, mas um compositor de musicais. Acho que West Side Story foi o mais influente. Quando comecei a compor, minhas canções eram pequenas histórias que se conectavam pela música. Era meu estilo de compositor. E então aconteceu que eu comecei a gravar e a construir uma carreira. Há alguns anos, alguém comentou, e acho que foi Chris Blackwell, da Island Records, que minhas canções tinham uma unidade, que eram histórias sobre minha jornada. E aquilo acabou se tornando Moonshadow. Claro, há outras histórias, outras referências que complementam minha utopia, como Sidarta e Paulo Coelho.

Quando o sr. surgiu, foi comparado a Bob Dylan. Vocês dois continuam excursionando e fazendo discos. Que tipo de conexão acha que tinha com Dylan?

Acho que foi uma inspiração forte. Uma vez eu quis votar em Dylan para presidente, por causa da perfeição absoluta de seus sonhos de esperança. E muitas vezes vimos Dylan afundado naquele tipo de expectativa. Essa é a diferença: eu tentei fazer apenas o que eu podia fazer, tentei apenas viver.

O sr. voltou a Los Angeles para gravar um disco. É uma cidade de importância simbólica para o sr., afinal quase morreu lá.

A coisa mais importante sobre Los Angeles é deixá-la. Sair de Los Angeles (risos). Continuo saindo de lá a maior parte da minha vida. Tive uma visão: eu estava vivendo em Los Angeles no exato instante em que um terremoto acontecia lá (risos). É uma vida virtual. Já São Paulo me lembrou um pouco Nova York nos anos 1960.



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