Mostrando postagens com marcador prazer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prazer. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

As redes sociais nos tornam menos humanos

Artigo instigante de Lara Brenner para a Revista Bula:

REDES SOCIAIS: O ESTRANHO UNIVERSO QUE NOS APROXIMA E AFASTA DOS OUTROS E DE NÓS

Por que divido minha intimidade com o resto do mundo a todo instante? Por que não consigo ficar em minha companhia por alguns minutos, sem que qualquer tecnologia se coloque entre mim e mim? Por que vivo a sonhar com a próxima viagem, quando sequer paguei pela anterior? Por que me privo do que gosto de comer e fazer em busca do corpo que alguém um dia definiu como ideal? Ora, a resposta não é óbvia?

Não é isso que todo mundo faz?

Às vezes, é preciso repensar o óbvio para se alcançar a verdade individual. “Óbvio”, essa palavra simples que carrega em si o perigo de afastar o questionamento e a inquietação e que, em sua nudez aparentemente despretensiosa, guarda o risco da dormência e da conformação. Afinal, se é tudo tão óbvio, por que pensar?

Bem, talvez nem todas as respostas sejam assim evidentes.

Quanto mais possibilidades o mundo oferece, mais determinista parece tornar-se o homem, vitimado pela infinidade de caminhos que ele próprio construiu. Esconder-se atrás de expressões da pós-modernidade, como “correria” e “networking”, tem levado a um movimento de incertezas absolutas que faz as ações humanas não saírem da superfície: nunca se viajou tanto, nunca se esteve presente em tantas redes sociais, nunca se compartilhou tanto a vida íntima com os iguais… Em contrapartida, nunca se esteve tão ausente das pessoas ao redor e do instante em que se vive. Em que se vive de verdade, diga-se de passagem, e não virtualmente. “Mundo líquido”, diria Bauman, “nada é feito para durar”.

As relações humanas, cada vez mais abundantes e menos sólidas, caminham em direção ao abismo. Tenho tantos amigos quanto minhas redes sociais apontam, mas sequer me recordo da última vez em que lhes perguntei, olho no olho, algo singelo como: “E a vida? Anda bem?”, para de fato ouvir com interesse sua resposta.

Não há como negar que a casca tem sido o lugar mais frequentado do fruto, num ato solene de esquecimento do básico: o que frutifica as relações são as sementes. É preciso dispor de terra fértil e ir fundo até se conectar a elas.

Rubem Alves certa vez escreveu sobre uma mulher que subitamente ganhou olhos de poeta. Passou a ver as cebolas como rosáceas de uma catedral gótica. De repente, todos os legumes lhe eram presentes aos olhos, tudo causava espanto. “Acho que estou ficando louca”, disse ela ao escritor. Analisando-a atentamente, concluiu ele sobre a saga que sua paciente acabara de vivenciar: “A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer”.

Talvez o mundo líquido esteja roubando-nos os olhos como órgãos de prazer, retirando-os da caixa de brinquedos para conformá-los à de ferramentas. Pelo jeito, tantas fotografias óbvias, vídeos previsíveis, felicidade forçada, corpos biônicos e risadas virtuais estão nos tornando menos gente, menos olhos. Talvez seja hora de começar a repensar o óbvio, como fez a mulher de Rubem Alves com sua cebola magnífica. E aí, somente aí, é provável que se possa começar a enxergar o mundo não mais com olhos falsos de quem vive sem viver, mas com aqueles sensíveis e honestos de um verdadeiro poeta.



sábado, 26 de setembro de 2015

"Mente vazia" na infância ajuda a lidar com frustrações na vida adulta


É o que afirma, entre outras informações igualmente interessantes, matéria publicada no R7:

Pais que mimam filhos estão criando geração de adultos deslocados e incapazes de lidar com frustração

Especialistas mostram como imediatismo dos pais causa graves consequências às crianças

À mesa do restaurante, João faz manha exigindo o celular da mãe para se divertir durante o almoço. Maria se joga no chão da loja de brinquedos porque quer que o pai compre aquela boneca agora. E, sentado no sofá de casa, Pedro se irrita com os pais porque quer uma resposta urgente sobre poder ou não ir à festa dos amigos no sábado à noite. Todos eles, não importa a idade, têm algo em comum: vão se tornar adultos mimados, incapazes de lidar com as frustrações do mundo.

A culpa do destino dos três, João, Maria e Pedro, é do imediatismo que rege as relações atualmente. Temos, como pais, dito muitos “sim” para os filhos, quando, na verdade, o ideal seria dizer mais “não sei” ou “vou pensar”. Como explica a psicóloga e educadora Rosely Sayão, essa atitude traz como maior prejuízo uma alienação em relação à realidade.

— O adulto que tem o imediatismo cultivado, ao invés de controlado, tem dificuldade de compreender e se inserir no mundo.

Pressionados a responder às demandas dos filhos imediatamente, os pais acabam soltando respostas impensadas, e a consequência, na visão da coach de vida e carreira Ana Raia, é a criação de jovens pouco preparados para lidar com a vida.

Segundo ela, os pais, atualmente, não aguentam não ser imediatistas. Se no passado eles se permitiam deixar os filhos insatisfeitos por mais tempo, hoje atitudes como essa se transformaram em um dos maiores desafios na educação das crianças e jovens.

Ana acredita que a tecnologia colabore para o imediatismo a partir do momento em que, ao toque de um dedo na tela do celular, a resposta para qualquer pergunta ou busca de informação podem ser obtidas em pouquíssimos segundos.

— Não conseguimos sustentar uma dúvida por muito tempo, um incômodo. Não sabemos lidar com um mal-estar neste mundo onde a felicidade é imperativa.

E a dúvida, explica Rosely Sayão, é preciosa, assim como a espera e o pensamento, porque eles ajudam a criança a crescer e a amadurecer. Crianças que não têm momentos de “mente vazia”, por exemplo, poderão sofrer graves consequências na vida adulta.

Alguém que está sempre entretido terá para sempre a necessidade de entretenimento constante, alerta o médico Daniel Becker, criador do projeto Pediatria Integral. Segundo ele, para ser criativo, o cérebro humano precisa da criatividade.

— São necessários momentos em que ele está engajado com algo externo, e também momentos em que está ocioso, em estado de contemplação. Quando uma criança tem seu tempo completamente tomado com atividades como escola, inglês, natação, Facebook, Instagram, WhatsApp, ela fica incapacitada de ter importantes processos interiores.

Becker acrescenta que crianças que não interagem com seus pares ou com os adultos, porque passam o dia com eletrônicos na mão, terão menos inteligência emocional, menos empatia e menos capacidade de se comunicar com os outros quando crescerem.

Se este já não fosse um bom argumento, ainda haveria a opinião de outros especialistas, que enxergam o hábito dos pais de entregar celulares e tablets às crianças como algo benéfico apenas para os adultos.

Na opinião de Rosely Sayão, oferecer um eletrônico em momentos em que se espera que os filhos se socializem com a família e amigos não é um carinho, mas, sim, um comodismo.

— O celular e o tablet nestas situações têm a função do “cala a boca”, nada além disso.

Mas, então, o que fazer quando a conversa no restaurante está boa, mas os pequenos não param de dar chilique e pedir para ir embora? O pediatra Daniel Becker dá uma boa dica.

— As pessoas se esquecem que as crianças sabem conversar e que podem fazer pequenos contratos. Mesmo as menorzinhas têm essa capacidade de compreensão. Basta dizer ao filho que, nos momentos em que estiverem conversando em família, ele não terá o tablet, mas que, quando a mamãe e o papai estiverem falando só com seus amigos, ele poderá pegar o tablet emprestado por 15 minutos. Assim, se alcança um equilíbrio.

Soluções como esta são recursos para que os pais lidem não só com o imediatismo das crianças, como também o deles próprios, que pode, mesmo que de maneira não intencional, servir como exemplo negativo aos filhos, que acabam copiando as atitudes da família.

Para o pediatra presidente do Congresso Brasileiro de Urgências e Emergências Pediátricas, Hany Simon, a ansiedade e a angústia na adolescência e na vida adulta podem ser resultados do imediatismo paterno presenciado na infância. E, como reforça Rosely Sayão, viver de maneira urgente só traz impactos emocionais negativos nas crianças.

— Somos imediatistas desde que nascemos. Choramos para manifestar desconforto, somos atendidos e temos nossas necessidades básicas saciadas. Com isso, vem também uma sensação de prazer, que vamos desejar para sempre. No entanto, precisamos entender que não é o princípio do prazer que vai reger a nossa vida, e, sim, o princípio da realidade. O papel dos pais é, aos poucos, mostrar aos filhos a realidade do mundo.



domingo, 5 de janeiro de 2014

Prazer com desgraça alheia pode não ser tão ruim

Que tal fazer uma viagem profunda aos inescrutáveis labirintos da alma humana lendo o artigo abaixo, publicado no UOL Bem-Estar?

Sentir prazer com o constrangimento alheio não é tão ruim, diz psicólogo

Christie Aschwanden 
The New York Times

A espetacular decadência do atleta mais bem pago do mundo teve início quando ele bateu um Cadillac utilitário em um hidrante e uma árvore. Os relatos iniciais do acidente de Tiger Woods, ocorrido em 2009, davam conta de que sua esposa tinha quebrado a janela do veículo com um taco de golfe para tirá-lo lá de dentro, mas quando se espalhou a notícia de que o casal tinha tido brigas motivadas por alegações de infidelidade de Woods, a janela quebrada se tornou uma metáfora do desmoronamento da sua reputação.

À medida que o escândalo foi se desenrolando, a celebridade esportiva que tinha construído um império baseado na sua imagem de homem de família íntegro foi se revelando um viciado em sexo extraconjugal, autor de mensagens de mau gosto para amantes e acompanhantes pagas. Quase de um dia para o outro, Woods passou a ser ridicularizado, inclusive com um site e uma conta no Twitter cujo único propósito era de publicar piadas sobre ele.

O prazer perverso sobre o rumo desses acontecimentos é designado por uma palavra alemã tão perfeita para ele que passamos a adotá-la em inglês. "Schadenfreude", ou "alegria perante o prejuízo", é o prazer derivado do infortúnio de outrem, e Richard H. Smith, professor de psicologia da Universidade de Kentucky, dedicou a carreira a estudá-la, pesquisando ainda outras emoções ligadas ao convívio social, tendo inclusive publicado uma antologia sobre a inveja, parente próximo do "schadenfreude".

Função adaptativa

Por mais perverso que esse sentimento possa parecer, ele tem uma função adaptativa, argumenta Smith neste agradável livro. Trata-se de uma emoção que decorre de comparações sociais que nos permitem avaliar os nossos talentos e perceber qual a nossa posição na ordem social. O desejo de fazer essas comparações parece ser um padrão recorrente - estudos mostram que até macacos e cães se comparam com os seus pares.

O "schadenfreude" nos dá uma ideia do que os psicólogos Roy F. Baumeister e Brad J. Bushman têm chamado de "o conflito mais básico da psique humana" – o atrito entre os nossos impulsos egoístas e o autocontrole. "Somos todos selvagens por dentro", escreveu Cheryl Strayed em sua coluna Dear Sugar no site The Rumpus. "Todos nós queremos ser o escolhido, o amado e o estimado."

Porém, a vida nem sempre é assim, e quando nos deparamos com alguém mais escolhido, amado ou estimado do que somos, o nosso instinto natural é querer colocá-lo no nosso nível. Se esse desejo imoral é por acaso atendido, o sentimento de "schadenfreude" se manifesta. Clive James capturou o espírito desse sentimento em um poema que tira seu título de sua primeira linha: "O livro do meu inimigo foi descartado / E eu estou satisfeito".

Quando a inveja invoca dor, o "schadenfreude" fornece um antídoto poderoso. O sucesso de Woods no campo de golfe e a sua vida aparentemente perfeita - sua linda esposa e família, sua reputação ilibada – "representavam um contraste agudo para a maioria das pessoas, mesmo que elas não estivessem interessadas em golfe", escreve Smith. Embora algumas pessoas tivessem sido certamente inspiradas por ele, talvez um número maior ainda delas se sentisse diminuído. A sua decadência o trouxe para mais perto do nível dessas pessoas, e, assim, permitiu que aqueles que o invejavam se sentissem melhor consigo mesmos.

Reality shows

O filósofo do século 17 Thomas Hobbes afirmou que o humor muitas vezes vem de uma súbita sensação de superioridade, e Smith escreve que a nossa cultura se desenvolve com base em comparações feitas a partir de uma posição de superioridade que proporcionam essa "glória repentina".

"Será que assistimos aos reality shows em busca de conhecimentos preciosos sobre a condição humana?", pergunta ele. "Por favor. Nós assistimos a esse tipo em programa em busca daquelas cenas constrangedoras que nos fazem sentir um pouquinho melhores quanto às nossas próprias vidinhas anônimas."

Uma sensibilidade semelhante alimenta as revistas de fofoca. Em uma análise que investigou durante dez semanas as publicações da The National Enquirer, Smith e Katie Boucher, psicóloga da Universidade de Indiana, descobriram que quanto mais alto for o status de uma celebridade, maior a probabilidade de encontrar um artigo sobre ela focado em infortúnios.

Sentimos ainda mais prazer quando o "schadenfreude" parece merecido, como acontece quando o status mais elevado de alguém abala a nossa autoimagem. Uma pesquisa feita por Benoît Monin, um psicólogo social de Stanford, mostra que a mera presença de um vegetariano pode fazer os onívoros se sentirem moralmente inferiores, já que eles preveem que serão julgados.

"Os vegetarianos não precisam dizer uma palavra; o mero fato de existirem, do ponto de vista de um comedor de carne, causa uma irritação moral", escreve Smith. Descobrir que a pessoa de comportamento supostamente superior está sendo hipócrita alivia essa irritação, de modo que pegar um vegetariano devorando um pedaço de carne faz com que os amantes de bife sintam uma explosão de "schadenfreude": "Nós não somos tão inferiores quanto fomos levados a acreditar; agora podemos assumir a posição contrastante de superioridade moral".

Segundo as suas definições tradicionais, o "schadenfreude" é uma emoção passiva sentida pelos espectadores que não desempenham funções nos infortúnios experimentados pela pessoa que têm como alvo, mas Smith argumenta que essa demarcação é "estreita demais", alegando que embora a ação "complique a situação", ela não elimina o "schadenfreude".

No entanto, ampliar o sentido do termo de modo a incluir a vingança e outras ações tira a especificidade da característica de satisfação da palavra. É a falta de participação por parte das testemunhas que adiciona um sentido de deleite ao "schadenfreude" e torna o seu reconhecimento permissível – a pessoa que você tinha secretamente como alvo se deu mal, e você não teve nada a ver com isso.

Embora este livro seja destinado para leitores leigos, a escrita às vezes parece acadêmica, e o autor se mostra muito propenso a fazer resumos, oferecendo citações sucessivas de outros estudiosos, quando seria melhor uma síntese mais forte ao leitor. E, embora seja provavelmente verdade que as comparações sociais subjacentes ao "schadenfreude" ajudaram a alimentar o antissemitismo na Alemanha nazista, um capítulo sobre o papel do "schadenfreude" no Holocausto se apresenta como uma tentativa de dar ao assunto uma gravidade desnecessária.

Apesar de suas falhas, vale a pena ler este livro curto para conhecer os seus insights sobre o lado sombrio da natureza humana e as ilustrações maravilhosas que aparecem periodicamente no texto. Feitos pela filha do autor, Rosanna Smith, esses desenhos – uma tartaruga erguendo o braço para expressar vitória, a formiga e o gafanhoto de Esopo dividindo uma refeição – dão a mesma sensação de prazer suscitada pelas ilustrações que apimentam as páginas da revista The New Yorker.

Smith conclui que "o 'schadenfreude' não precisa ser demonizado". É melhor aproveitar a oportunidade que ele oferece de saciar nossos lados sombrios do que negar a sua existência. Enquanto permanecer passivo, o "schadenfreude" pode melhorar a nossa autoestima e nos lembrar de que até mesmo as pessoas mais invejáveis são falíveis – assim como nós.

Sobre o livro:

'The Joy of Pain: Schadenfreude and the Dark Side of Human Nature'
("A alegria diante da dor: o Schadenfreude e o lado sombrio da natureza humana", em tradução livre)
Por Richard H. Smith
256 páginas. Oxford University Press. U$ 24,95

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Prazer e religião em Nelson Rodrigues

Hoje, 23 de agosto de 2012, se vivo fosse, o escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, comemoraria 100 anos de idade.

Criou frases imortais como "o dinheiro compra até amor verdadeiro", "se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém",  "toda unanimidade é burra", "só o inimigo não trai nunca" e "Deus está nas coincidências".


Por mais "óbvio ululante" (outra criação dele) que seja dizer isso, o grande observador do cotidiano brasileiro do século XX continua atual e polêmico como sempre foi.

Muitos eventos celebram o seu centenário, e recomendamos a leitura do ótimo artigo "O anjo pornográfico: religião e prazer em Nelson Rodrigues", de Élton de Oliveira Nunes, publicado na revista (metodista) Caminhando, que pode ser lido na íntegra em .pdf clicando aqui.

Abaixo, um pequeno excerto do artigo em questão:




Mas, que vida é essa que leva para a morte? E por que mortes violentas e, em um sentido, punitivas e autopunitivas? Podemos buscar uma resposta no drama cristão de sentido e negação. Mais precisamente na fórmula cristã do sofrimento para a redenção: desejo, pecado, punição (Cf. uma leitura pietista de Tg 1.13-15). Sábato (1992/p. 30) vê claramente isso quando comenta:
A falta de auto-estima não transparece apenas nos atos extremos do suicídio. A cada momento, uma personagem necessita de punição.
A nós, torna-se claro aqui que Nelson revive em suas tramas o calvário do ser humano no drama da vida cristã. Ao desejar, comete o ser humano pecado. Ao pecar, vem a punição. Mas, em Nelson, a punição é também uma forma de redenção. Ao ser punido, de alguma forma, o ser se redime. Mas esta redenção não termina, pois novo ciclo de desejo irrompe e o drama recomeça. Por isso, novamente a peça se reinicia com outros nomes e situações, mas sempre o mesmo drama. Falando sobre isso, Francisco Carneiro da Cunha (2000/p. 15), citando Nelson Rodrigues, diz:
A ficção para ser purificadora tem de ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. E no teatro que é mais plástico, direto e de um impacto tão mais puro esse fenômeno de transparência torna-se mais válido. Para salvar a platéia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros e insanos, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros íntimos dos quais eventualmente nos libertamos para em seguida recriá-los em cena novamente.
O drama de Nelson é o drama cristão. Nelson busca a redenção, pois vida é desejo (sexual) e desejo é intolerável na sociedade (expressa na família cristã-burguesa). O outro é objeto sempre proibido. Sábato (1992/p. 67) comenta: Tendo recebido a formação cristã de classe média urbana brasileira, o dramaturgo preservou até o fim a crença na divindade e em preceitos morais básicos. A dificuldade de observar esses preceitos aguça a loucura. Na terra o homem vive o desregramento de uma unidade perdida, inconsolável órfão de Deus. Há um deblaterar insano em terreno hostil. Resta o sentimento permanente de logro. A vida prega uma peça em todo mundo.



quinta-feira, 10 de maio de 2012

As origens do prazer

Tomando como ponto de partida a surpresa (e o desgosto) que o líder nazista Hermann Göhring teve ao saber que o quadro de Vermeer que havia comprado achando que era verdadeiro se tratava de uma ótima falsificação, o psicólogo canadense Paul Bloom tenta encontrar as origens do prazer e suas múltiplas implicações, numa ótima exposição feita por ele na Conferência TED de 2011:





LinkWithin

Related Posts with Thumbnails