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domingo, 8 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 8

                                                                                                                                                                                                                                                                        

O TEMPO E O SÁBADO - PARTE II

E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele tinha descansado de toda a obra que Deus criou, assim o fez.
( Gênesis 2:3)

Em Mateus 12 [sic. Mc 2.27], Cristo diz: “O sábado foi feito por causa do ser humano, não o ser humano por causa do sábado”. Contudo, aqui, Moisés silencia sobre o ser humano e não diz explicitamente que o sábado foi confiado às pessoas. [Limita-se, porém, a] dizer que Deus abençoou o sábado e o santificou para si. Isso, ele não fez com nenhuma outra criatura. Não santificou para si o céu, nem a terra, nem qualquer outra criatura, mas santificou para si o sétimo dia. Isso significa, de modo especial, que devemos entender que o sétimo dia deve ser usado principalmente para o culto a Deus. Pois santo é o que foi dedicado a Deus e separado de todos os usos profanos. Por isso, santificar significa escolher para usos sagrados ou para o culto a Deus. Desse modo, Moisés usa essa expressão mais vezes, também quando fala de vasos sagrados.

Logo, conclui-se dessa passagem: se Adão tivesse permanecido na inocência, ele teria mantido sagrado o sétimo dia, isto é, teria ensinado, neste dia, seus descendentes sobre a vontade de Deus e o culto a ele; teria louvado a Deus, dado graças, sacrificado etc. Nos outros dias, teria cultivado o campo, cuidado dos animais. Aliás, ele também manteve sagrado o sétimo dia, depois da queda, pois nele ensinou seus filhos, conforme atesta o sacrifício oferecido pelos seus filhos, Caim e Abel. Portanto, o sábado foi destinado ao culto a Deus desde o início do mundo.

Caso a natureza tivesse permanecido inocente, ela teria celebrado a glória e os benefícios de Deus. No sábado, os seres humanos teriam conversado [entre si] sobre a inestimável bondade do Criador; teriam sacrificado, orado etc. Pois é isso que significa o verbo “santificar”.

Além disso, inclui-se aqui também [o conceito d]a imortalidade do gênero humano, conforme atesta sabiamente a Carta aos Hebreus [3.18] ao se referir ao descanso de Deus com base no Salmo 95[.11]: “Não entrarão em meu descanso”. Ora, o descanso de Deus é eterno. Adão teria vivido um certo tempo no paraíso conforme a vontade de Deus; depois disso, teria sido arrebatado para aquele descanso divino que Deus não só quis indicar aos seres humanos, mas também entregá-lo a eles por meio da santificação do sábado. Nesse caso, a [própria] vida animal teria sido feliz e santa, espiritual e eterna. Agora, nós, miseráveis, perdemos essa felicidade da vida física por causa do pecado e, enquanto vivemos, estamos em meio à morte. No entanto, como o mandamento do sábado é dado à Igreja, indica-se que também aquela vida espiritual será restituída a nós por meio de Cristo. Assim, os profetas examinaram cuidadosamente aquelas passagens em que Moisés aponta secretamente para a ressurreição da carne e para a vida imortal.

Ademais, mostra-se aqui que o ser humano também foi criado principalmente para o conhecimento de Deus e o culto a ele. Pois o sábado não foi instituído por causa das ovelhas e dos bois, mas devido aos seres humanos, para que eles praticassem o conhecimento de Deus e crescessem nele. Portanto, mesmo que o ser humano tenha perdido o conhecimento de Deus por causa do pecado, Deus quis que o mandamento sobre a santificação do sábado permanecesse; que, no sétimo dia, fosse exercida a Palavra, fossem praticados outros cultos instituídos por ele, para que pensássemos, primeiramente, sobre a nossa condição, ou seja, que esta natureza foi criada principalmente para o conhecimento e a glorificação de Deus.

Além disso, [o sábado foi instituído] para que também retivéssemos o coração certa esperança da vida futura e eterna. Porque todas as coisas que Deus quis que fossem feitas no sábado são sinais claros de uma outra vida depois desta. [Caso contrário,] por que seria necessário que Deus falasse conosco por meio de sua Palavra se não fosse para viver numa vida futura e eterna? Se não se deve esperar uma vida futura, por que não vivemos como pessoas com quem Deus não fala e que não o conhecem? Mas como a majestade divina só fala com o ser humano, e só o ser humano o conhece e o apreende, segue-se, necessariamente, que há uma outra vida depois desta, a qual devemos alcançar mediante a Palavra e o conhecimento de Deus. Pois esta vida temporal e presente é uma vida animal, que todos os animais, que não conhecem a Palavra nem Deus, vivem.

É isso que significa o sábado ou o descanso divino, no qual Deus fala conosco através da sua Palavra e nós, por nossa vez, falamos com ele por meio de invocação e fé. Os animais, como cães, cavalos, ovelhas, bois, certamente também aprendem a ouvir e a entender a voz do ser humano e também são conservados e alimentados por ele. Mas nossa condição é melhor, pois ouvimos a Deus, conhecemos sua vontade e somos chamados para uma certa esperança de imortalidade. Estes são testemunhos claros das promessas sobre a vida eterna que Deus nos revelou por meio da sua Palavra, depois dessas indicações obscuras, como aquela relativa ao descanso de Deus e à santificação do sábado. Mas essas [revelações] sobre o sábado são bastante claras. Imagina se não houvesse [outra] vida depois desta. Não se concluiria que não temos necessidade de Deus nem da sua Palavra? Pois aquilo que necessitamos ou fazemos nesta vida também podemos ter [e fazer] sem a Palavra. Os animais pastam, vivem, se alimentam, embora não tenham a Palavra de Deus nem a ouçam. Por que se necessitaria da Palavra para o alimento e para a bebida, que já foram criados antes?

Portanto, o fato de Deus dar a Palavra, ordenar a que se a pratique, que se santifique o sábado e seu culto, tudo isso demonstra haver [outra] vida depois desta e que o ser humano foi criado não só para a vida corporal, como os outros animais, mas para a vida eterna, assim como Deus, que ordena e institui estas coisas, é eterno.

Mas aqui surge outra pergunta, que já tocamos acima, isto é, sobre a queda de Adão, ou seja: quando ele caiu, no sétimo ou num outro [dia]? Embora não se possa precisa-lo, tenho boas razões para imaginar que ele tenha caído no sétimo dia. Ele foi criado no sexto dia; Eva também foi criada na tarde ou no fim do sexto dia, enquanto Adão dormia. No sétimo dia, que fora santificado pelo Senhor, Deus fala, de manhã, com Adão, instrui-o quanto ao seu culto e proíbe-lhe de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Pois esta é, em si, a função do sétimo dia, pregar e ouvir a Palavra de Deus. Desde então, permaneceu, na Escritura e no costume, a prática de se destinar o tempo da manhã para a oração e os cultos, como diz o Salmo 5[.3]: “De manhã estarei parado diante de ti e verei”.

Assim, na manhã do sétimo dia, Adão parece ter ouvido o Senhor que lhe confiou o cuidado da economia e da política, juntamente com a proibição do fruto. Satanás estava impaciente com essa belíssima criação e ordem e invejava tamanha felicidade do ser humano, que na terra e todas as coisas estivessem abundantemente a seu dispor e que, depois de uma vida corporal tão feliz, tivesse a esperança certa da vida eterna, que ele próprio, Satanás, havia perdido. Por isso, talvez por volta do meio-dia, depois da conversa de Deus, ele próprio também conversa com Eva. Assim costuma ser até hoje: onde está a Palavra de Deus, ali também Satanás se empenha em semear a mentira e a heresia, pois lhe dói que nós, por meio da Palavra, como Adão no paraíso, nos tornemos cidadãos dos céus. Por isso, ele seduz Eva para o pecado, e vence. O texto diz claramente que, quando o calor do dia já tinha cessado, o Senhor veio e condenou Adão à morte, juntamente com toda a sua descendência. Eu me convenço facilmente de que tudo isso aconteceu no sábado, no único dia – e este não completo – em que Adão viveu no paraíso e se alegrou com seus frutos.

Foi por essa razão que o ser humano perdeu essa felicidade devido ao pecado. Mas Adão não teria vivido ocioso no paraíso se tivesse permanecido na inocência: no sábado, ele teria instruído seus filhos; com a pregação bíblica, teria honrado a Deus com os merecidos louvores e, com a reflexão sobre as obras de Deus, teria estimulado a si e aos outros para a ação de graças. Nos outros dias, ele teria trabalhado, cultivando o campo ou caçando, mas de uma maneira bem diferente do que acontece hoje. Pois, para nós, o trabalho é um incômodo, mas para Adão teria sido um enorme prazer, mais agradável do que o ócio. Por isso, assim como as outras calamidades desta vida nos lembram do pecado e da ira de Deus, também o trabalho e a dificuldade de obter o sustento nos devem lembrar do pecado e convidar para a penitência.

(LUTERO, Martinho. Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. 1535-1545. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2014, vol. 12, tradução de Geraldo Korndörfer, págs. 115-118)



sábado, 7 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 7


O TEMPO E O SÁBADO - PARTE I

E Deus concluiu no sétimo dia sua obra que fizera e descansou no sétimo dia de toda sua obra que fizera. 
Gênesis 2.2

Aqui surge uma pergunta. Moisés diz que no sétimo dia o Senhor descansou da obra que fizera, isto é, que ele parou de trabalhar no sétimo dia. Cristo, por seu turno, diz em Jo 5[.17]: “Meu pai trabalha até agora, e eu [também] trabalho”. Faz parte dessa passagem o que a Epístola aos Hebreus afirma nos capítulos 3[.18] e 4[.3] sobre o descanso: “Se entrarem”, certamente não na terra da promissão, mas “em meu descanso” etc.

A essa pergunta nós simplesmente respondemos desta maneira: a solução é dada pelo próprio texto, quando diz: “Foram concluídos os céus e a terra”. Pois o sábado ou o descanso do sábado significa que Deus parou por completo, não criando outro céu e outra terra. Isso não significa que Deus deixou de conservar e governar o céu e a terra que ele havia criado.

Portanto, a solução é fácil. Deus descansou do seu trabalho, isto é, estava contente com o céu e a terra criados através da Palavra; não criou novos céus, nem uma nova terra, nem novas estrelas, nem árvores novas. Contudo, Deus continua trabalhando até hoje. Ele, efetivamente, não abandonou a natureza que criou, mas a governa e a conserva mediante a força da sua Palavra. Ele terminou de criar, mas não cessou de governar o que havia criado. Com Adão, teve início o gênero humano; na terra, [iniciou todo o tipo de] animais, por assim dizer; no mar, iniciaram os peixes mas estes não cessaram [de se multiplicar]. Até hoje permanece a Palavra que foi dita sobre o gênero humano:> “Crescei e multiplicai-vos”; também permanece a Palavra: “O mar produza peixes e aves do céu”. Sua Palavra continua onipotente, pois é por seu poder e sua força que [ele] conserva e governa toda a criação.

Moisés estabeleceu, pois, com clareza, que no início estava a Palavra. Como todas as coisas crescem, se multiplicam, são conservadas e governadas da mesma forma como foi desde o início do mundo, segue-se, evidentemente, que a Palavra dura até agora e que ela não morreu. Portanto, o fato de dizer que “Deus descansou da ora” não se refere à evolução das coisas, ao modo como são conservadas e governadas, mas, simplesmente ao início, ou seja, [significa] que Deus cessou de [dar] ordens, como se diz em linguagem comum, e de [criar] novas espécies ou novas criaturas.

Se olhares para a minha pessoa, eu sou algo novo, porque sessenta anos atrás eu nada era. Assim julga o mundo. O julgamento de Deus, no entanto, é outro, porque diante dele eu fui gerado e multiplicado logo no início do mundo, pois a Palavra “E Deus disse: ‘Criemos o ser humano’” também criou a mim. Pois tudo que Deus criar, criou-o no momento em que falou. Nem tudo, porém, ficou visível aos nossos olhos. De forma semelhante como uma flecha ou um projétil, lançados de um canhão (que tem uma velocidade maior) atingem o alvo, por assim dizer, ao mesmo tempo e, no entanto, são lançados com um determinado intervalo, assim Deus percorre o mundo, através de sua Palavra, do início até seu fim. Pois para ele não existe antes e depois, mais rápido e mais lento, mas todas as coisas estão presentes diante dos seus olhos, porque ele está fora das dimensões do tempo.

Quando Moisés diz que o Senhor descansou, ele está se referindo à conjuntura original do mundo. Como não havia pecado, nada de novo foi criado nele. Não existiam cardos, nem espinhos, nem serpentes e nem sapos; caso tenham existido, eles não continham veneno e não tinham a intenção de prejudicar. [Moisés] refere-se, portanto, à criação de um mundo perfeito. No início, o mundo era, pois, puro e inocente, porque o ser humano era puro e inocente. Agora, quando o ser humano mudou devido ao pecado, também o mundo começou a ficar diferente, isto é, à queda do ser humano seguiu-se a corrupção e a maldição da criatura. “Maldita é a terra”, disse Deus a Adão, “por causa de ti; ela te produzirá espinhos e cardos” [Gn 3.17]. E, em vista de [uma pessoa] amaldiçoada, Caim, a terra é maldiçoada, de modo que, mesmo cultivada, ela não produz seus melhores frutos. Depois disso, em razão do pecado do mundo todo, veio o dilúvio, e o gênero humano inteiro é destruído, com exceção de alguns poucos justos, para que se cumprisse a promessa relativa a Cristo. Do mesmo modo como vemos que a terra foi deformada pelo pecado, assim eu também creio que a luz do sol era mais clara e mais bela porque foi criada antes do pecado do ser humano.

Nas escolas de Teologia é corrente dizer-se: “Discerne os tempos e colocarás em concordância as Escrituras”. Por isso é preciso falar muito diferente do mundo depois da catastrófica corrupção por causa do pecado do que falaríamos sobre o mundo original, puro e íntegro. Consideremos um exemplo que está diante dos olhos: aqueles que viram a terra da promissão em nossos dias dizem que ela em nada se assemelha ao louvor que se encontra nas Sagradas Escrituras. Por isso, depois que o conde Stolberg a tinha explorado com singular diligência, disse que preferia a terra que tinha na Alemanha. Pois, por causa do pecado, da impiedade e da maldade dos seres humanos, a terra se tornou uma salina, como diz o Sl 107[.34], assim como Sodoma era uma espécie de paraíso antes de perecer pelo fogo do céu, Gn 13[.10].

Em geral, a maldição se segue ao pecado, e a maldição [, por seu turno,] muda as coisas, de modo que de ótimas passam a ser ótimas passam a ser péssimas. Por isso, Moisés está falando sobre a perfeição das criaturas, como elas eram antes do pecado. Se o ser humano não tivesse pecado, todos os animais teriam permanecido obedientes até que Deus tivesse transferido o ser humano do paraíso ou da terra; depois do pecado, porém, todas as coisas mudaram para pior.

Desse modo, permanece a solução proposta acima: em seis dias, Deus terminou sua obra, isto é, deixou de criar novas criaturas, e fez tudo o que quis fazer. Ele não disse novamente: “Haja uma nova terra, um novo mar” etc. O benefício do qual fomos alvo pelo fato da virgem Maria ter dado à luz o Filho de Deus deixa claro que o recebemos por causa da desgraça em que caímos pelo pecado. Contudo, antes de realizar essa admirável e poderosa obra, anunciou, através da sua Palavra, que haveria de fazê-la, assim como também assinalou por meio da sua Palavra outros milagres que haveriam de acontecer.

Esta é a primeira questão que diz respeito à afirmação de que Deus concluiu o céu e a terra e, depois, nada fez de novo. Agora, para que também o aprendamos, é preciso explicar o que é o sábado, ou o descanso de Deus; de que modo Deus santificou o sábado, como diz o texto.

(LUTERO, Martinho. Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. 1535-1545. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2014, vol. 12, tradução de Geraldo Korndörfer, págs. 113-115)


(continua...)


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 6


A CRIAÇÃO

O CREDO - SEGUNDA PARTE

O primeiro artigo

Acredito em Deus Pai onipotente, Criador do céu e da Terra



Retrata da forma mais resumida a natureza, a vontade, a atividade e obra de Deus Pai. Como os Dez Mandamentos preceituaram que não se deve ter mais do que um só Deus, pergunta-se então: que espécie de homem é Deus, o que ele faz, como se pode elogiá-lo, ilustrá-lo ou descrevê-lo para que seja conhecido? É isso que este artigo ensina, e o seguinte também. A fé [ou Credo] não passa de uma reposta, de uma confissão dos cristãos diante do primeiro mandamento. Se a gente perguntar a uma criança: - Querido, qual é o deus que você tem? O que você sabe dele? Para assim poder dizer: - Meu deus é este: primeiro, o Pai que criou o céu e a Terra; fora disso, nada é Deus para mim, porque nenhum outro conseguiria criar o céu e a Terra.

Já para os eruditos e os que têm certa instrução pode-se detalhar bastante todos os três artigos, subdividindo-os em tantas partes quantas são as palavras. Mas para os jovens alunos basta apresentar o básico, ou seja, como vimos, que este artigo tem a ver com a criação. Aí devemos nos concentrar nas palavras “Criador do céu e da Terra”. O que significa, ou o que você quer dizer com as palavras “Acredito em Deus Pai onipotente, Criador” et.? Resposta: O que quero dizer e acredito é que sou criatura de Deus, isto é que foi ele quem me deu e continua preservando meu corpo, minha alma e minha vida, membros grandes e pequenos, todos os sentidos, a razão e o entendimento e assim por diante, comida e bebida, roupa, sustento, esposa e filhos, empregados, casa e propriedade etc. Além disso, ele faz com que todas as criaturas tenham utilidade e sirvam para suprir as necessidades da vida: o sol, a lua e as estrelas no céu, o dia e a noite, o ar, o fogo, a água, a terra e tudo o que ela produz com todo o seu potencial, as aves, os peixes, animais, cereais e todos os tipos de plantas; além disso, todos os demais bens materiais e temporais, a gente se dê conta de que ninguém possui nem consegue sustentar por si próprio a vida, nem tudo aquilo que acima foi enumerado e ainda possa ser enumerado, por menos e mais insignificante que seja. Tudo isso está compreendido na palavra “Criador”.

No mais, professamos também que deus Pai não só nos deu tudo o que temos e vemos diante de nós, mas também nos preserva de todo mal e fatalidade, de riscos e acidentes de toda espécie. E tudo isso por puro amor e bondade, sem nenhum mérito nosso, como Pai amável que cuida que não soframos nenhum mal. Outros aspectos nesse sentido estão ligados aos outros dois itens deste artigo, onde se fala do “Pai onipotente”.

A conclusão automática disso é a seguinte: como tudo isso que possuímos, mais aquilo que está nos céus e na Terra, é dado, mantido e preservado diariamente por Deus, certamente temos a obrigação de amá-lo, exaltá-lo e agradecer-lhe o tempo todo; em suma, servir a ele exclusivamente daquela maneira exigida e ordenada por ele nos Dez Mandamentos. Aqui haveria muita coisa a comentar, se quiséssemos entrar em detalhes, sobre como são raras as pessoas que acreditam nesse artigo. Nós passamos por alto, ouvimos e recitamos, mas não enxergamos nem consideramos aquilo que as palavras nos estão dizendo. Se acreditássemos com sinceridade, também agiríamos de acordo, não andaríamos por aí tão orgulhosos, não mostraríamos tanta arrogância, como se recebêssemos de nós mesmos a vida, a riqueza, o poder e a glória, como se as pessoas tivessem que nos temer e servir. É assim que procede o mundo errado e infeliz, soçobrado em sua cegueira, abusando de todas as bênçãos e dádivas de Deus apenas para atender sua arrogância, ganância, deleite e prazer, não dando a mínima para Deus no sentido de lhe agradecer ou de reconhece-lo como Senhor e Criador. Se acreditássemos neste artigo, ficaríamos assustados e humildes! Acontece que pecamos diariamente com os olhos, os ouvidos, as mãos, o corpo e a alma, com dinheiro, bens e tudo o que possuímos, principalmente aquelas pessoas que ainda por cima combatem a palavra de Deus. Mas os cristãos têm a vantagem de reconhecer sua obrigação de servir e obedecer a ele por todas aquelas bênçãos.

Por isso devemos nos exercitar diariamente neste artigo, gravá-lo e lembra-lo em tudo que passamos, em tudo que nos acontece de bom, e quando escapamos de um aperto ou risco. Deus nos proporciona tudo isso para que percebamos seu amor paternal e exuberante para conosco. Isso aquece o coração e desperta a gratidão, fazendo usar todos esses bens para a glória de Deus.

Esse foi, então, um resumo do sentido deste artigo, na medida do necessário para as pessoas simples tomarem conhecimento do que recebemos de Deus e de qual é a nossa obrigação em troca. Trata-se de uma intuição profunda e magnífica, porém um tesouro maior ainda. Damo-nos conta de como o Pai se deu a nós juntamente com todas as criaturas, provendo-nos riquissimamente nesta vida, sem falar de como ele derramou sobre nós bens eternos e indizíveis por meio do seu Filho e do Espírito Santo, como veremos.

(LUTERO, Martinho. Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero / Martinho Lutero. [Tradução de] Walter O. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012, págs. 79-80)



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Teria sido um bispo inglês medieval o primeiro a ensinar o "big bang"?


A matéria é da BBC Brasil:

Como um bispo medieval adiantou a teoria do Big Bang no século 13

O livro bíblico do Gênesis, no capítulo 1, versículo 3, conta: "E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita".

Mas esse foi apenas o começo da criação do universo. Isso, de acordo com a Bíblia, é o que Deus fez depois da luz:

"E disse Deus: Haja luzeiros no firmamento do céu para dividir o dia e a noite, e para sinais e para estações, e para dias e anos;
e sirvam de luminares no firmamento do céu para alumiar a terra. E assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares, o luminar maior para governar o dia e a luz menor para governar a noite; fez também as estrelas.
E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, e para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom."

No século 13, um estudioso inglês da ordem dos franciscanos mergulhou nesse tema.

Robert Grosseteste trabalhou em um dos grandes centros de aprendizagem em Oxford, local que as pessoas já tinham começado a chamar de "faculdade".

Para Grosseteste, tudo tinha a ver com a luz, até o ato divino primordial da própria criação.

Mas como exatamente Deus fez a criação?

A resposta do religioso foi a primeira tentativa de descrever os céus e a Terra usando um conjunto de leis.

Do ponto de vista de Grosseteste, tudo começou com a luz e a matéria explodindo a partir de um centro: uma versão medieval do Big Bang.

Sua história mostrou como a fé em princípios científicos, combinada com a crença em um cosmos ordenado por Deus, resultou em uma ideia surpreendentemente profética. Inicia com luz...

Mas o que é a luz? Essa pergunta nunca foi simples.

Alguns dos primeiros escritores cristãos pensavam que havia dois tipos diferentes de luz.

A lux, como era chamado em latim, era o que Deus usou para fazer o cosmos, uma espécie de força criativa divina, quase uma manifestação do próprio Deus.

A outro era lúmen, luz comum que emana de corpos celestes e nos permite ver as coisas.

Essa visão fica evidente para qualquer pessoa que tenha estado em uma catedral gótica inundada pela luz que entra através dos vitrais das janelas.

Sacerdotes e teólogos pensavam que, ao contemplar a bela lúmen da igreja, os fiéis seriam atraídos pela lux bendita de Deus.

Religião e ciência

Embora hoje pareça haver um conflito entre ciência e religião, durante grande parte da história a religião foi uma grande motivação para a busca de conhecimento no mundo.

Nas escolas das catedrais dos séculos 11 e 12 - predecessoras das universidades - alguns estudiosos pensavam que era seu dever aprender mais sobre o universo que, para eles, havia sido criado por Deus.

Eles não consultavam apenas a Bíblia: liam os escritos dos antigos gregos como Platão, Aristóteles e Hipócrates, que tinham sido preservados em traduções feitas por escritores islâmicos.

O aprendizado sobre o mundo natural floresceu na era das grandes catedrais góticas, e muitos historiadores falam de um primeiro Renascimento no século 12.

A mais bela das entidades

No início do século 13, ele era um professor proeminente, erudito e, como todos os pesquisadores em Oxford, cristão devoto. Em 1235, tornou-se bispo de Lincoln, na Inglaterra.

Para ele, a luz era uma das mais maravilhosas criações de Deus.

"A luz física é a melhor, a mais deleitável, a mais bela de todas as entidades que existem. A luz é o que constitui a perfeição e a beleza de todas as formas físicas", escreveu.

Mas Grosseteste não se conformava com apenas apreciar a luz que entrava pelas grandes janelas da catedral gótica de Lincoln. Ele começou a estudá-la como um cientista. Analisou, por exemplo, a passagem da luz através de um copo de água.

Ele percebeu que lentes poderiam ampliar objetos, e quando alguém lê o que o bispo escreveu sobre o assunto, começa a se perguntar por que demorou mais de 300 anos para que telescópios e microscópios fossem inventados.

"Esta parte da ótica, quando bem compreendida, mostra-nos como podemos fazer as coisas que estão a uma distância muito grande parecerem como se estivessem muito próximas, e as coisas grandes que estão perto parecerem muito pequenas, e como podemos fazer as pequenas coisas que estão distantes parecerem de qualquer tamanho que queremos, de modo que poderia ser possível ler as letras mais pequenas a distâncias incríveis ou contar a areia ou sementes ou qualquer tipo de objetos minúsculos", escreveu Grosseteste.

Além disso, ele notou que a luz muda de trajetória ao passar do ar para a água, um efeito chamado de refração.

Como outros antes dele, Grosseteste viu que a luz poderia dividir-se em um espectro colorido como um arco-íris, e escreveu um tratado sobre o fenômeno, no qual chegou perto de explicar sua origem: pensou que as nuvens agiam como uma lente gigante que refratava a luz e a enchia de cor.

"De luce"

Em 1225, Grosseteste reuniu o que havia concluído sobre a luz em um livro chamado "De Luce" (Sobre a Luz).

Era uma mistura de teologia, ciência, metafísica e especulação cósmica.

Mas tratava, em particular, da questão de como Deus fez todo o cosmos usando a luz.

Em vez de tratar a criação como uma espécie de ato mágico, Grosseteste começou a transformá-la em um processo natural, algo que hoje chamaríamos de "estudo científico".

Como muitos de seus contemporâneos, ele acreditava que Deus trabalhava com princípios simples, baseados em regras que a humanidade poderia compreender pela lógica, geometria e matemática.

"Todas as causas de efeitos naturais devem ser expressadas por meio de linhas, ângulos e figuras, porque caso contrário seria impossível ter conhecimento da razão destes efeitos", escreveu.

E como o universo era governado pela matemática, era também ordenado e racional - e seria possível deduzir suas regras.

Na verdade, a descrição de Grosseteste da criação divina é tão precisa, que pode ser expressada em um modelo matemático, algo que historiadores e cientistas da Universidade de Durham, no Reino Unido, fizeram com a ajuda de um computador.

A máquina do mundo

Para Grosseteste e seus contemporâneos, o universo consistia na Terra, que ficaria no centro, e todos os corpos celestiais - o Sol, a Lua, os sete planetas conhecidos e as estrelas que giravam ao seu redor em círculos perfeitos.

Mas, para ele, tudo começou com uma espécie de Big Bang, no qual uma explosão de luz - do tipo lux - fez com que uma densa esfera da matéria se expandisse, tornando-se cada vez mais leve e diluída.

"Essa expansão dispersaria a matéria 'dentro de uma esfera do tamanho da máquina do mundo', que é como ele chama o cosmos", diz Tom McLeish, um dos físicos da Universidade de Durham que traduziu a teoria cosmológica de Grosseteste para um modelo matemático.

"Mas logo encontra um problema: (a matéria) não pode se expandir infinitamente, porque nessa época o universo era enorme, mas finito. Como pará-lo? Com uma brilhante ideia científica. Pensando como um físico, recorre a algo simples para explicar não apenas como (o universo) deixa de expandir, mas como as esferas são formadas."

Uma luz brilhante na escuridão

"Se você não pode alcançar o vazio, porque a natureza tem aversão a ele", reflete Grosseteste, "deve haver uma densidade mínima, e quando chega-se a ela, a (matéria) tem que cristalizar".

Seguindo essa linha de raciocínio, isso ocorreria em primeiro lugar na parte mais distante: o firmamento. Esse se cristaliza primeiro e se aperfeiçoa, adquirindo luz - lúmen-, que também empurra a massa, neste caso, para dentro, e, portanto, são criadas as esferas nas quais residem os planetas, o Sol, a Lua e a Terra.

"Outro pensamento moderno que ele teve foi que, quando olhamos para o céu, o universo que vemos de alguma forma contém os rastros ou eco dos processos que o formaram", disse McLeish.

"Isso é precisamente o que os cosmólogos pensam hoje em dia. Lembre-se da busca por microondas no eco do Big Bang", acrescentou com entusiasmo.

"A única parte obscura da Idade das Trevas (entre a queda de Roma e o Renascimento) é a nossa ignorância sobre essa época. Grosseteste é um pensador impressionante", disse McLeish.

"A história que me contaram quando era jovem era que antes de 1600 não havia mais do que misticismo, teologia e dogmatismo. E de repente apareceram Galileu, Kepler, uau! Tudo é luz e iluminação, e voltamos a andar com a ciência ", diz o físico.

"Mas a verdade é que a ciência não funciona assim. Todos nós damos pequenos passos e, como disse Isaac Newton, todos nós subimos nos ombros de gigantes. E Grosseteste é um daqueles gigantes em cujos ombros subiram os primeiros cientistas modernos."



terça-feira, 16 de maio de 2017

Universidade Presbiteriana Mackenzie abre centro criacionista


A informação é da revista Exame da Abril:

Mackenzie abre núcleo de estudos que contesta teoria da evolução

O Núcleo Discovery-Mackenzie tem como objetivo promover os estudos de fé, ciência e sociedade

Marina Demartini

São Paulo – A Universidade Presbiteriana Mackenzie abriu um novo espaço para que professores e alunos discutam a origem da vida e questionem uma das principais teorias da biologia: o evolucionismo. O chamado Núcleo Discovery-Mackenzie é uma parceria entre a instituição brasileira e o Discovery Institute, um instituto americano que promove o estudo da Teoria do Design Inteligente (TDI).

Para os estudiosos do TDI, certas características do universo e dos seres vivos são tão complexas que só podem ser explicadas por uma causa inteligente. Assim, células e moléculas precisaram passar pela intervenção de algum tipo de inteligência para existir “e não por um processo não direcionado, como a seleção natural”, como aponta o site oficial do Discovery Institute.

A seleção natural é um dos mecanismos básicos da teoria da evolução proposta por Charles Darwin em seu livro A Origem das Espécies, de 1859. Segundo ela, indivíduos melhores adaptados à determinada condição ecológica têm mais chance de sobreviver e deixar descendentes.

Até hoje, a teoria da evolução é uma das mais aceitas entre os membros da comunidade científica para explicar a origem da vida e a evolução humana. Além disso, ela é amplamente ensinada em escolas de diversas partes do mundo.

O Discovery Institute, aliás, já tentou colocar o TDI dentro da grade de escolas públicas dos EUA. Um dos casos mais conhecidos é o de Kitzmiller contra o Distrito Escolar da área de Dover, na Pensilvânia, em 2005. Na época, o distrito mudou seu currículo de ensino da matéria de biologia para exigir que o TDI fosse apresentado como alternativa ao evolucionismo.

Onze pais de alunos da região processaram o distrito sob a alegação de que o design inteligente não passava de um tipo de criacionismo (crença religiosa de que os seres vivos foram criados por um ser superior).

O juiz John E. Jones III chegou ao veredito de que o ensino do design inteligente viola a Cláusula de Estabelecimento da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Segundo ele, o TDI não é ciência e “não pode desacoplar-se do seu criacionista, portanto religioso, antecedente”.

O teólogo e pastor presbiteriano Davi Charles Gomes, chanceler da universidade, ressalta em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o Núcleo Discovery-Mackenzie não é um espaço de TDI, mas de estudos de fé, ciência e sociedade. “Nossa instituição é confessional, o que significa que ela tem uma visão segundo a qual o mundo tem um significado transcendente. E não existe ciência que, no fundo, não reflita também sobre coisas transcendentes.”

Quem faz afirmação parecida é Marcos Eberlin, presidente executivo da Sociedade Brasileira do Design Inteligente e futuro coordenador do núcleo da Mackenzie. “Tem gente que acha que o design vem dos ETs, outros falam de um Grande Arquiteto do Universo, como os maçons, ou um espírito evoluído, como os espíritas”, disse em entrevista à Folha.

Já Maria Cátira Bortolini, geneticista da UFRGS, disse ao jornal que a teoria descarta evidências, fatos e provas científicas. “O que importa é a narrativa, construída de forma que se coadune com a ideologia ou a crença do sujeito.”



sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sobre besouros rola-bosta e gente feita de pó (das estrelas)


Interessante artigo do NYT traduzido e publicado na Folha de S. Paulo, com surpreendente destaque para o escaravelho rola-bosta (leia e entenderá):

Maioria dos átomos que compõem os humanos foi produzida em estrelas

DENNIS OVERBYE
DO "NEW YORK TIMES"

Em 1929, o astrônomo Harlow Shapley, da Universidade Harvard, afirmou: "Nós, seres orgânicos que nos descrevemos como humanos, somos feitos da mesma matéria que as estrelas". Foi uma observação surpreendente, considerando que, na época, ninguém nem sequer sabia o que fazia as estrelas brilharem.

Trinta anos ainda se passariam até Geoffrey e Margaret Burbidge, William Fowler e Fred Hoyle, em artigo que se tornaria clássico, demonstrarem que os átomos que nos compõem não apenas são os mesmos que os das estrelas: a maioria deles foi, na verdade, produzida em estrelas. Começando pelos primordiais hidrogênio e hélio, elementos mais densos como ferro, oxigênio, carbono e nitrogênio foram gerados numa série de reações termonucleares e então espalhados pelo espaço quando essas estrelas morreram e explodiram como supernovas, num frenesi termonuclear final.

Notícias divulgadas recentemente me lembraram disso. Uma delas envolvia escaravelhos, que, aparentemente, orientam-se pela luz da Via Láctea.

A outra foi o anúncio de que astrônomos identificaram a origem da existência do ouro no Universo em um cataclismo conhecido como explosão de raios gama.

Edo Berger, do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, no Massachusetts, disse que a explosão pode ter criado uma quantidade de ouro equivalente à massa de 20 Luas da Terra.

As próprias estrelas de nêutrons são frutos de cataclismos: explosões de supernovas que podem espremer o espaço para fora de átomos e comprimir uma massa maior que o Sol numa bola de 32 quilômetros de diâmetro.

Berger sugeriu que, de fato, é possível que todo o ouro do universo tenha sido produzido por colisões entre estrelas de nêutrons. Isso nos traz de volta ao escaravelho, o humilde rola-bosta.

Esses seres, que vivem das fezes de animais maiores, têm um problema. A partir do momento em que um escaravelho encontrou esterco e rolou um pouco para formar uma bola, ele precisa tirar a bola do local, rolando-a em linha reta para longe da pilha de esterco, senão outros escaravelhos virão roubá-la.

Como os besouros fazem isso, mesmo em noites sem luar, têm sido um mistério.

Em janeiro, uma equipe de pesquisadores suecos e sul-africanos revelou que os escaravelhos coprófagos africanos podem usar a Via Láctea para se orientar.

Os pesquisadores descobriram que, quando eram colocados pequenos "chapéus" nos escaravelhos, impedindo-os de enxergar o céu, ou quando nuvens ocultavam as estrelas, os escaravelhos andavam a esmo.

Mas eles não se desviam do caminho em noites estreladas.

Seria difícil imaginar uma conexão entre o microscópico e o macroscópico e entre o espaço interno e o sideral mais bela que essa ou que tão bem induz um sentimento de humildade.

Os antigos egípcios consideravam os escaravelhos sagrados por sua capacidade de gerar vida a partir de dejetos.

O escaravelho era símbolo da renovação eterna e da vida que nasce da morte.

Os egípcios usavam representações de escaravelhos como amuletos.

Em um dos símbolos máximos de reciclagem, alguns desses amuletos eram feitos de ouro.



domingo, 29 de abril de 2012

Pesquisa da USP diz que estudantes brasileiros conciliam fé e Darwin

Pesquisa conduzida por professor da Faculdade de Educação da USP, publicada hoje no Estadão, revela resultados interessantes e - pelo menos para alguns - surpreendentes sobre o que pensam os jovens estudantes das escolas brasileiras:

Jovens brasileiros conciliam bem ciência e religião

Pesquisa revela que a maioria dos estudantes do ensino médio não vê a fé como barreira à aceitação da teoria evolutiva de Darwin

HERTON ESCOBAR

A maioria dos jovens brasileiros vive em paz com suas crenças religiosas e a ciência da teoria evolutiva. Tem fé em Deus e, ao mesmo tempo, concorda com as premissas estabelecidas por Charles Darwin mais de 150 anos atrás, de que todas as espécies da Terra - incluindo o homem - evoluíram de um ancestral comum por meio da seleção natural. É o que sugere uma pesquisa realizada com mais de 2,3 mil alunos do ensino médio no País, coordenada pelo professor Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

A conclusão flui de um questionário sobre religião e ciência respondido por estudantes de escolas públicas e privadas de todas as regiões do País, com média de 15 anos de idade. A base de dados e a metodologia usadas na pesquisa foram as mesmas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), segundo Bizzo, para garantir que os resultados fossem estatisticamente representativos da população estudantil brasileira. "É o primeiro dado com representatividade nacional sobre esse assunto para esta faixa etária", diz o educador, que apresentou os dados pela primeira vez neste mês, em uma conferência na Itália.

"Ainda vamos fracionar e analisar mais profundamente as estatísticas, mas já dá para perceber que os alunos religiosos brasileiros são bem menos fundamentalistas do que se esperava", avalia Bizzo, que também é formado em Biologia e tem livros e trabalhos publicados sobre a história da teoria evolutiva. "É surpreendente. Algo que sugere que no futuro teremos uma população com uma interpretação mais elástica das doutrinas religiosas e mais sensível à ciência."

Aos 15 anos, diz Bizzo, os jovens estão passando por uma fase de definição moral, em que consolidam suas opiniões sobre temas fundamentais relacionados à ética e à moralidade. "É um período crucial. Dificilmente os conceitos de certo e errado mudam depois disso."

O questionário apresentava aos alunos 23 perguntas ou afirmações com as quais eles podiam concordar ou discordar em diferentes níveis. Mais de 70% disseram que se consideram pessoas religiosas e acreditam nas doutrinas de sua religião (52% católicos e 29% evangélicos, principalmente, além de 7,5% sem religião). Ao mesmo tempo, mais de 70% disseram que a religião não os impede de aceitar a evolução biológica; e 58%, que sua fé não contradiz as teorias científicas atuais. Cerca de 64% concordaram que "as espécies atuais de animais e plantas se originaram de outras espécies do passado".

Só quando a evolução se aplica ao homem e à origem da vida, as respostas ficam divididas. Há um empate técnico, em 43%, entre aqueles que concordam e discordam que a vida surgiu naturalmente na Terra por meio de "reações químicas que transformaram compostos inorgânicos em orgânicos". E também entre os que concordam (44%) e discordam (45%) que "o ser humano se originou da mesma forma como as demais espécies biológicas".

Sensibilidade. Os pesquisadores chamam atenção para o fato de que nenhuma das respostas que seriam consideradas fundamentalistas, do ponto de vista religioso, ultrapassam a casa dos 29%, porcentagem de entrevistados que se declararam evangélicos (denominação em que a rejeição à teoria evolutiva costuma ser mais forte). Apenas em dois casos elas ultrapassam 20%: entre os alunos que "discordam totalmente" que o ser humano se originou da mesma forma que as outras espécies (24%) e que os primeiros seres humanos viveram no ambiente africano (26%).

"A porcentagem dos que rejeitam completamente a origem biológica do homem é menor que a de evangélicos da amostra, o que é uma surpresa, já que os evangélicos no Brasil costumam ser os mais fundamentalistas na interpretação do relato bíblico", avalia Bizzo. "A teoria evolutiva é talvez a coisa mais difícil de ser aceita do ponto de vista moral pelos religiosos. Mesmo assim, os dados mostram que a juventude brasileira é sensível aos produtos da ciência."

Divulgada em 1859, com a publicação de A Origem das Espécies, a teoria evolutiva de Charles Darwin propõe que todos os seres vivos têm uma ancestralidade comum, e que as espécies evoluem e se diversificam por meio de processos de seleção natural puramente biológicos, sem a necessidade de intervenção divina ou de forças sobrenaturais - um conceito amplamente confirmado pela ciência desde então.

Apesar de ser frequentemente (e erroneamente) resumida como "a lei do mais forte", a teoria evolutiva é muito mais complexa que isso. A Origem das Espécies tinha 500 páginas, e Darwin ainda considerava isso muito pouco para explicá-la. Desde então, com o surgimento da genética e o desenvolvimento de várias outras linhas de pesquisa evolutiva, a complexidade da teoria só aumentou, dificultando ainda mais sua compreensão - e, possivelmente, sua aceitação - pelo público leigo.

"O problema é que a maioria dos estudantes - ainda mais com 15 anos - não tem muita clareza sobre o que está envolvido na teoria darwiniana. Com isso há o potencial de surgirem respostas contraditórias", avalia o físico e teólogo Eduardo Cruz, professor do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "Isso não tem a ver com a qualidade da pesquisa, mas com a pouca compreensão de temas tanto científicos quanto teológicos. Além do que, quando se trata de perguntas que envolvem a intimidade das pessoas, as respostas nem sempre são confiáveis. É como perguntar a rapazes de 15 anos se ainda são virgens."

Aceitação. Uma pesquisa nacional realizada pelo Datafolha em 2010, com 4.158 pessoas acima de 16 anos, indicou que 59% dos brasileiros acreditam que o homem é fruto de um processo evolutivo que levou milhões de anos, porém guiado por uma divindade inteligente. Só 8% acreditam que o homem evoluiu sem interferência divina. Os dados também mostram que a aceitação da teoria evolutiva cresce de acordo com a renda e a escolaridade das pessoas - o que pode ou não estar relacionado a uma melhor compreensão da teoria.

"Há uma discussão se a aceitação depende do entendimento, e uma análise mais precisa será realizada, mas uma análise superficial dos dados não encontrou essa correlação", afirma Bizzo sobre sua pesquisa, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Faculdade de Educação da USP. "Há indícios de que a compreensão básica seja acessível a todos e que a decisão de concordar que a espécie humana surgiu como todas as demais não depende de estudos aprofundados na escola."

Para a filósofa e educadora Roseli Fischmann, os resultados da pesquisa são "compatíveis com a capacidade dos jovens de viver o mundo de descoberta da ciência sem abalar sua fé".

"A fé, se bem sustentada, não é ameaçada pelo conhecimento científico", diz Roseli, coordenadora da Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista e professora da USP. "Sozinhas, nem a ciência nem a religião garantem que o ser humano seja bom e que o bem comum seja alcançado. É preciso a presença da ética, do respeito a todo ser humano, da consciência da responsabilidade individual na construção do bem comum."



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pessoas gostam de ser enganadas



Entrevista com o militante ateu Michael Shermer publicada na revista Época desta semana. Tirando a tradicional arrogância ateísta que se acha o único povo inteligente do mundo, mas ao mesmo tempo reconhece o instinto religioso presente no ser humano enquanto faz de tudo para negá-lo (como se fosse possível), há a tradicional constatação do óbvio: as pessoas gostam de ser enganadas, e isto vale pra todo mundo, inclusive pessoas que se dizem cristãs e ateias. Faltou ele dizer como seria o mundo se todas as pessoas e civilizações, desde os primórdios da Terra, fossem ateias. Confira:

Michael Shermer: "As pessoas gostam de ser enganadas"

O psicólogo e escritor americano diz que é mais fácil acreditar em esquisitices – como mediunidade, horóscopo e discos voadores – que pensar e questionar

A diferença entre um mágico e um médium é que o mágico confessa fazer truques, enquanto o paranormal afirma ter poderes que o habilitam a ler pensamentos, prever o futuro ou falar com os mortos. “Basta ao médium dizer que tem poderes para as pessoas crerem. Faz parte da natureza humana”, afirma o psicólogo e escritor americano Michael Shermer, de 57 anos, diretor da Sociedade Cética e da revista Skeptic.“Não evoluímos para duvidar ou ter visão crítica. Isso exige educação e reflexão. Crer é mais fácil.” Nesta entrevista, ele fala sobre os temas de seu livro Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas (JSN, 384 páginas, R$ 65, publicado agora no Brasil), e ataca a farsa por trás da crença em discos voadores, bruxas, quiromancia e mediunidade.

ÉPOCA – Por que as pessoas acreditam em esquisitices?

Michael Shermer – A razão básica está em nosso cérebro, programado pela evolução para enxergar o mundo e procurar razões sobrenaturais para explicar eventos da natureza.

ÉPOCA – Dê um exemplo, por favor.

Shermer – Nas sociedades tribais, o pajé até hoje é aquele que detém os conhecimentos que podem salvar os membros da tribo em momentos decisivos. São os pajés que sabem quais são as plantas e raízes com poderes curativos. São eles que decretam que tal região virou tabu, tornando-a um local proibido e dando chance à fauna para se recompor. Anos depois, num momento de escassez, é o pajé quem tem o poder para liberar a volta dos caçadores ao local, salvando a tribo da fome. Esse tipo de poder sempre foi exclusivo dos magos, dos pajés e dos sacerdotes. Logo, acreditar em seus emissários significava a própria salvação. Quando o pajé dizia que enxergava o futuro, que os membros da tribo deveriam caçar ou buscar água em tal região, e que a salvação de todos estaria em fazer o que ele dizia, tudo não passava de uma profecia autorrealizável. Só isso.

ÉPOCA – Há os que afirmam ver coisas sobrenaturais e outros que dizem ouvir o canto dos anjos ou o lamento dos mortos.

Shermer – Somos animais sociais, e o cérebro foi programado para reconhecer rostos e fisionomias. Por isso, temos a tendência de enxergar faces escondidas no desenho das nuvens, nas manchas de um sudário ou nas rochas da superfície de Marte. Pela mesma razão, basta olhar as nuvens para reconhecer nelas as formas de diversos animais. Essa também é uma herança evolutiva, já que por milênios reconhecer a existência de um animal escondido na paisagem poderia significar a diferença entre a vida e a morte. Qualquer pessoa também pode dizer que fala com os mortos. Não tem nada de mais. Difícil é conseguir fazer os mortos responderem. Todas as alegações como essas que foram investigadas a sério acabaram revelando a existência de microfones escondidos na mobília, nas paredes ou no forro. Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa, e o mais provável é que todas não passem de pura farsa.

ÉPOCA – Por que as mulheres parecem acreditar mais em esquisitices que os homens?

Shermer – Não é verdade. Homens e mulheres, indistintamente, têm a mesma tendência para acreditar nessas coisas. O que muda é o tipo de esquisitice. Mulheres acreditam mais em mediunidade, espiritismo, cartomantes, bruxaria, amuletos, terapias alternativas, curandeiros e simpatias. Os homens preferem acreditar em paranormalidade, pseudociência, criacionismo e objetos voadores não identificados.

ÉPOCA – Por que as pessoas diferenciam um mágico profissional que faz truques de um médium que diz ser paranormal?

Shermer – É porque o mágico confessa que faz um truque, mas não revela seu segredo. Isso tem razões históricas. A magia é tão antiga quanto as artes adivinhatórias. Há vários séculos, no tempo da Inquisição, os mágicos que ganhavam a vida seguindo as feiras regionais na Europa medieval foram sensatos em confessar que não eram bruxos. Eles confessaram que faziam truques para não acabar na fogueira. Sua confissão retirou dos mágicos profissionais a aura sobrenatural, a qual, embora tentem até hoje, nunca conseguiram resgatar.

ÉPOCA – E as cartomantes e os adivinhos?

Shermer – A maioria acabou na fogueira. As cartomantes e os adivinhos, os médiuns atuais, foram perseguidos porque alegavam deter poderes sobrenaturais. Eles afirmavam que conseguiam prever o futuro e influenciar o destino das pessoas. Ora, esses eram atributos exclusivos da Igreja Católica. Os mesmos inquisidores que se mostraram brandos com os mágicos não pouparam de sua ira persecutória cartomantes e adivinhos, todos eles rotulados de bruxos seguidores da magia negra. Os médiuns e charlatões da atualidade não correm esse risco. Por isso podem afirmar sem medo que têm visões, que falam com os mortos, enxergam o passado, o presente e o futuro. Ou alegar que leem a sorte e influenciam o destino de uma pessoa olhando as cartas do tarô, as linhas da palma da mão, o alinhamento dos planetas de um mapa astral, os reflexos de uma bola de cristal ou a borra de uma xícara de café.

ÉPOCA – Por que as pessoas insistem em acreditar que essas alegações são verdadeiras?

Shermer – Porque os médiuns afirmam que são verdadeiras. Basta aos médiuns, curandeiros e pais de santo dizer que têm visões e preveem o futuro para que as pessoas acreditem. Faz parte da natureza humana. Não evoluímos para duvidar ou questionar. Desenvolver um senso crítico e uma visão própria de mundo exige educação, reflexão e tempo. Crer é muito mais fácil. As pessoas preferem ser enganadas.

ÉPOCA – Quem pede remuneração para fornecer um bem ou serviço que não existe pode ser processado. Por que isso não se aplica ao “trabalho profissional” de cartomantes e médiuns?

Shermer – Porque adivinhos e paranormais se protegem atrás dos direitos universais da liberdade de opinião, de expressão, de reunião e de religião. É muito difícil ou quase impossível provar que um sujeito não escuta vozes interiores ou fala com os anjos se ele assim o afirma. Os religiosos e os crentes das religiões ditas oficiais poderiam ser investigados e processados exatamente pelas mesmas alegações, pois suas religiões aceitam doações em dinheiro como as cartomantes. Seus membros também alegam ter um canal direto de comunicação com o sobrenatural, assim como as cartomantes.

ÉPOCA – Por que gente inteligente crê em esquisitices?

Shermer – Foi para dar título ao livro que escolhi chamar o conjunto de crendices e enganações reivindicadas por médiuns e paranormais de “coisas estranhas”. Palavras mais corretas seriam farsa ou enganação. São atos na maioria das vezes criados para iludir e enganar. Em certas circunstâncias, podem ser classificados como delírios, quando seus devotos acreditam que viveram ou vivem uma experiência extraordinária, inexplicável, extrassensorial. Ainda assim, há explicação para tudo. Quem tem uma boa formação cultural e crê nessas fantasias o faz em duas possibilidades. Ou se trata de um indivíduo conivente com a farsa ou é alguém que sofreu de um surto psicótico, é esquizofrênico e, portanto, doente, ou teve uma alucinação. O estado alterado de consciência pode ser fruto da ingestão de alucinógenos como a ayahuasca, o mescal ou o LSD. Episódios psicóticos também podem ser causados pela privação de sono e pelo cansaço extremo. Para tudo há uma explicação. Se ela convence o crente, o doente ou o usuário, é outra questão.

ÉPOCA – O que acha da religiosidade e do sincretismo humanos?

Shermer – Sou ateu e sou otimista. Até a Idade Média, éramos uma espécie controlada pela fé e dominada por suas crendices e seus medos. Hoje, dezenas de milhões de pessoas nos países ricos se declaram ateias. A religiosidade, pelo menos na Europa e nos Estados Unidos, recua ano a ano.

ÉPOCA – Não é assim no Brasil nem nos países em desenvolvimento.

Shermer – À medida que o padrão de vida subir, a elevação da escolaridade e da educação científica reduzirá o porcentual de religiosos na população. É um caminho sem volta. Basta os governos investirem em educação de qualidade.

ÉPOCA – Um argumento dos religiosos para desqualificar os ateus é que eles escolheram não crer num deus e que essa é sua crença.

Shermer – Se os religiosos querem acreditar num deus bondoso, num paraíso com 100 mil virgens ou seja lá o que for, não dou a mínima. Os religiosos não me interessam. O que me interessa são as centenas de milhões de pessoas que não seguem religião nenhuma e nunca vão à igreja.

ÉPOCA – Quer dizer que, para o senhor, a religião é inofensiva?

Shermer – O problema começa quando seus seguidores usam a religião para lançar aviões contra arranha-céus, jogar bombas em clínicas de aborto (nos Estados Unidos), mutilar mulheres, restringir os direitos individuais e alterar a legislação para proibir o ensino da evolução. Eles querem obrigar as crianças a aprender o criacionismo, uma doutrina religiosa travestida de verdade científica.



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